ARTIGO

Qualidade do leite bovino produzido no Brasil – parâmetros físico-químicos e microbiológicos: uma revisão integrativa

Quality of bovine milk produced in Brazil – physical-chemical and microbiological parameters: an integrative review

Thaís Müller
Universidade do Vale do Taquari, Brasil
Claudete Rempel *
Universidade do Vale do Taquari, Brasil

Qualidade do leite bovino produzido no Brasil – parâmetros físico-químicos e microbiológicos: uma revisão integrativa

Vigilância Sanitária em Debate, vol. 9, núm. 3, pp. 122-129, 2021

INCQS-FIOCRUZ

Recepção: 04 Agosto 2020

Aprovação: 01 Fevereiro 2021

RESUMO

Introdução: O leite é um alimento rico e essencial à saúde humana. A qualidade do leite produzido pode ser influenciada por diversos fatores.

Objetivo: Realizar uma revisão integrativa de artigos científicos disponíveis no portal de periódicos da Capes, que tiveram como foco realizar um diagnóstico da qualidade do leite por meio de análises de parâmetros físico-químicos e/ou microbiológicos.

Método: O descritor utilizado na pesquisa foi “qualidade do leite” e, para excluir da busca todos os estudos que não se referiam a leite bovino, digitou-se “NOT” “humano, materno, bubalino, cabra, caprino, ovino”. Foram selecionados ainda os seguintes mecanismos de busca: “últimos dez anos”, “artigos” e “qualquer idioma”, gerando um total de 5.084 artigos. Desse montante, foram selecionados 15 artigos publicados no período de 2012 a 2020.

Resultados: A análise dos artigos permitiu inferir que os aspectos físico-químicos não demonstraram alterações significativas na maior parte das amostras analisadas, porém 93% dos artigos demostraram alterações microbiológicas no leite e tendo, por isso, diminuição de sua qualidade.

Conclusões: Mostra-se a necessidade de adoção de boas práticas agropecuárias e de fabricação, além de formas eficazes de armazenamento do leite coletado para garantir a sua qualidade, não comprometendo a saúde do consumidor e o retorno financeiro do produtor.

Palavras chave: Leite+ Métodos de Análises+ Qualidade dos Alimentos+ Bovinos+ Microbiologia de Alimentos.

ABSTRACT

Introduction: Milk is a rich and essential food to human health. The quality of milk can be influenced by several factors.

Objective: To conduct an integrative review of scientific articles available on the Capes portal of journals, focused on making a diagnosis of milk quality through analysis of physical-chemical and/or microbiological parameters.

Method: The descriptor used in the research was “milk quality” and to exclude from the search all studies that did not refer to bovine milk, “NOT” “human, maternal, buffalo, goat, goat, sheep” was typed. The following search mechanisms were also selected: “last ten years”, “articles” and “any language”, generating a total of 5,084 articles. Of this amount, 15 articles published in the period from 2012 to 2020 were selected.

Results: The analysis of the articles allowed to infer that the physical- chemical aspects did not show significant changes in most of the analyzed samples; however, 93% of the articles showed microbiological changes in the milk and, therefore, decreasing of its quality.

Conclusions: There is a need for the adoption of good farming and manufacturing practices, besides effective ways of storing collected milk to guarantee its quality, without compromising the health of the consumer and the financial return of the producer.

Keywords: Milk, Analysis Methods, Food Quality, Cattle, Food Microbiology.

INTRODUÇÃO

O Brasil possui como uma de suas principais atividades econômicas, a agropecuária leiteira e, segundo a Food and Agriculture Organization of the United Nations1 , é o quarto produtor mundial de leite, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, da Índia e da China. A pecuária leiteira é praticada em todo território brasileiro, porém há produtores de diversos níveis tecnológicos e organizacionais, sendo uns de agricultura familiar ou pequena cooperativa e outros com propriedades de elevado nível tecnológico. Essa atividade é importante para o país, tanto no contexto social quanto no econômico2 . A cadeia produtiva do leite é geradora de renda e tributos, sendo a bovinocultura leiteira um elo para o desenvolvimento do setor primário, tendo ainda importante função socioeconômica3 .

Além da questão econômica, por meio da geração de emprego e renda para a população, o leite é ainda essencial no suprimento de alimentos4 e pode ser considerado um dos alimentos mais completos5 , destacando-se por ser alimento de alto valor nutritivo e ser fonte de proteínas, lipídeos, açúcares, sais minerais e vitaminas. Além disso, é necessário em todas as fases do desenvolvimento humano, desde o nascimento até a velhice6 .

Segundo Martins et al.7 , a qualidade do leite produzido pode ser influenciada por diversos fatores, dentre os quais os associados ao manejo, à alimentação e ao potencial genético dos rebanhos ou ainda aqueles relacionados à coleta e ao armazenamento do leite, sendo que a refrigeração reduz drasticamente a multiplicação de microrganismos no leite.

A sanidade das glândulas mamárias é outro fator decisivo na qualidade do leite. Durante o processo de ordenha, por exemplo, a contaminação bacteriana pode ocorrer pelo úbere, pelas mãos do ordenhador, pelos equipamentos de ordenha ou ainda pelos tambores e baldes mal higienizados. Nesses casos a contaminação maior é por microrganismos ambientais como coliformes, particularmente Escherichia coli . Essa contaminação pode ocorrer ainda por causa de mastite, que é uma enfermidade causada tanto por patógenos contagiosos como microrganismos do ambiente6 . O leite para ser considerado de boa qualidade deve apresentar composição química, microbiológica (contagem bacteriana total – CBT), organoléptica e contagem de células somáticas (CCS) que atendam aos parâmetros exigidos por lei8 .

Para que a contaminação do leite não ocorra, cuidados como a higiene do ordenhador, tratamento das vacas doentes, limpeza e desinfecção diária de todos os equipamentos utilizados na ordenha são imprescindíveis. Além disso, o resfriamento do leite logo após essa ordenha e a coleta granelizada são outras medidas importantes para garantir a qualidade microbiológica do leite, ou seja, a implementação de boas práticas nas etapas de produção e obtenção do leite, chamada de boas práticas agropecuárias (BPA), é fundamental9 .

As BPA são constituídas de produção, processamento, armazenamento, transporte e distribuição de matérias-primas, insumos e produtos agroalimentares, mantendo todos os elos de produção até chegar aos consumidores. Isso fornece uma garantia de qualidade e segurança da qualidade do leite, bem como a agregação de valor ao sistema de produção de alimentos e evita possíveis contaminações durante o processo de obtenção do produto9 . Além disso, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) possui programas de monitoramento da qualidade do leite, como o Programa Mais Leite Saudável (PMLS), que desenvolve estratégias para monitorar a qualidade do leite produzido no Brasil utilizando ferramentas como o Sistema de Monitoramento e da Qualidade do Leite Brasileiro (SIMQL)10 .

Esse artigo teve como objetivo realizar uma revisão integrativa de estudos sobre a qualidade do leite bovino, in natura ou processado, na qual tenham sido realizadas análises de parâmetros físico-químicos como: acidez; densidade; percentual de gordura, lactose, proteínas, nitrogênio ureico; índice crioscópico; extrato seco desengordurado (ESD) e extrato seco total (EST); e/ou parâmetros microbiológicos como: CBT, CCS, coliformes totais e termotolerantes, Salmonella spp., microorganismos mesófilos, psicrotróficos e mastitogênicos como Staphylococcus spp. As Instruções Normativas (IN) n° 76, de 26 de novembro de 201811 , e n° 77, de 26 de novembro de 201812 , do MAPA, regulamentam, respectivamente, a identidade e as características de qualidade que devem apresentar o leite cru refrigerado, o leite pasteurizado e o leite pasteurizado tipo A e os critérios e procedimentos para a produção, acondicionamento, conservação, transporte, seleção e recepção do leite.

MÉTODO

Foi utilizada a plataforma de periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Na opção “busca avançada”, digitou-se o descritor “qualidade do leite” para a pesquisa e como critério de exclusão digitou-se “NOT” “humano, materno, bubalino, cabra, caprino, ovino”, com o objetivo de excluir os tipos de leite que não eram bovinos. No campo “data da publicação” selecionou-se “últimos 10 anos”, no campo “tipo de material”, selecionou-se “artigos” e no campo “idioma” selecionou-se “qualquer idioma”. Foi obtido um total de 5.084 artigos. Após leitura dos títulos, foram selecionados 160 artigos científicos que mencionavam qualidade do leite bovino, que tiveram seus resumos lidos. A partir dessa leitura, foram selecionados 40 artigos para a leitura na íntegra. Esses artigos contemplavam análises da qualidade do leite bovino em diferentes regiões do Brasil. Destes, foram selecionados 15 artigos dos últimos oito anos (2012 a 2020). Esses artigos apresentavam análises de parâmetros físico-químicos e/ou microbiológicos do leite e um deles (Ribeiro Neto et al.13 ) apresentou ainda um comparativo da influência dos períodos do ano. A Figura mostra os passos utilizados para a escolha dos artigos.

Passos utilizados para a escolha dos artigos selecionados nessa revisão integrativa.
Figura
Passos utilizados para a escolha dos artigos selecionados nessa revisão integrativa.
Fonte: Elaborada pelas autoras, 2020.

Para análise dos artigos selecionados, utilizou-se a técnica proposta por Bardin14 denominada análise de conteúdo. A partir da leitura dos artigos selecionados foram definidas três categorias para apresentação dos resultados e discussão: coleta e armazenamento do leite, qualidade físico-química do leite e qualidade microbiológica do leite.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os 15 artigos selecionados apresentaram resultados de análises físico-químicas e/ou microbiológicas de leite bovino, conforme os critérios de inclusão. O Quadro apresenta os artigos selecionados, seus objetivos e os principais resultados obtidos. Foram elencados os parâmetros físico-químicos e microbiológicos que estavam em desacordo com a legislação11 em mais de 50% das amostras analisadas, além dos microrganismos encontrados.

Quadro
Objetivos dos artigos selecionados, principais resultados e parâmetros em desacordo com a legislação11.
Objetivos dos artigos selecionados, principais resultados e parâmetros em desacordo com a legislação11.
CCS: Contagem de células somáticas; CBT: Contagem bacteriana total; ESD: Extrato seco desengordurado; IN: Instrução normativa; UHT: Ultra High Temperature .

Coleta e armazenamento do leite

O procedimento de coleta do leite e o seu transporte necessitam seguir normas internacionais para que seja possível a comparação de análises de diferentes laboratórios. Isso promove o diagnóstico da qualidade do leite nas propriedades e na indústria, chegando até os consumidores28 .

As coletas das amostras foram realizadas em frascos esterilizados e mantidas em caixas isotérmicas em 40% dos artigos analisados, ou seja, seis estudos15 , 17 , 19 , 20 , 24 , 26 . De acordo com Leira et al.29 , as temperaturas baixas impedem ou reduzem a multiplicação da maioria das bactérias e diminuem a atividade de algumas enzimas degradativas.

Quatro estudos13 , 16 , 22 , 23 utilizaram frascos esterilizados que continham conservante do tipo bronopol e azidiol. Os conservantes são utilizados para preservar as propriedades das amostras até a chegada ao laboratório para a realização das análises, sendo que os frascos devem ser abertos apenas no momento da coleta, sendo imediatamente fechados posteriormente30 . Cinco estudos7 , 18 , 21 , 25 , 27 , o que correspondeu a 33% dos artigos analisados, não especificaram a forma de coleta e armazenamento das amostras do leite.

Qualidade físico-química do leite

A qualidade do leite é avaliada por parâmetros físico-químicos e microbiológicos. Dentre os parâmetros físico-químicos podemos citar análises como: estabilidade ao alizarol, acidez titulável, densidade relativa e índice crioscópico. A composição do leite também é um indicativo importante para a sua qualidade e, devido a isso, são realizadas análises do percentual de gordura, de proteína e de lactose, além de EST e ESD. Esses parâmetros refletem a saúde dos animais, a ausência de resíduos químicos e as condições de obtenção e armazenamento do leite31 .

Dos 15 artigos selecionados, dez (67%) apresentaram dados de análises físico-químicas do leite. Bastos et al.17 , Molina et al.18 , Ribeiro Júnior et al.21 e Silva et al.25 fizeram teste de acidez, sendo que Bastos et al.17 e Silva et al.25 encontraram valores conforme o estabelecido na legislação, de 0,14 g a 0,18 g de ácido lático/100 mL11 . Molina et al.18 e Ribeiro Junior et al.21 encontraram valores de acidez abaixo do permitido em 61% e 54% das amostras, respectivamente, caracterizando acidificação do leite. A acidez do leite é provocada pelo metabolismo de microrganismos que provocam a degradação da lactose, promovendo assim o aumento do teor de ácido lático. Já a alcalinidade pode ser atribuída à mastite ou à adição de neutralizantes13 . O leite de boa qualidade deve possuir um pH entre 6,6 e 6,8, portanto, levemente ácido31 .

Bastos et al.17 , Molina et al.18 e Ribeiro Júnior et al.21 realizaram testes de densidade relativa. A porcentagem de amostras em desacordo para esse parâmetro foi, respectivamente, 10,3%, 10,0% e 5,4%, dessa forma, os três estudos descreveram valores dentro da normalidade para a maior parte das amostras. O leite fresco e de qualidade deve apresentar densidade relativa entre 1,028 g/mL e 1,034 g/mL, na temperatura de 15°C11 . A adição de água, em casos de fraude, diminui a densidade do leite e o teor de proteínas, lactose e sais minerais provocam o seu aumento32 .

Dentre as análises, ainda foram realizadas as de sólidos totais ou EST por Bastos et al.17 , Martins et al.7 , Motta et al.19 e Ribeiro Neto et al.13 e sendo que nenhum dos estudos encontrou valores abaixo do teor mínimo de referência que está estabelecido pela legislação vigente de 11,4 g/100 g11 . O EST ou sólidos totais pode ser entendido como o somatório da concentração de todos os componentes do leite, com exceção da água. Já os sólidos não gordurosos (SNG) ou ESD compreendem todos os elementos do leite, menos água e gordura, consistindo na diferença entre o EST e o teor de gordura31 .

Seis artigos7 , 13 , 17 , 18 , 19 , 21 realizaram análises de ESD ou sólidos não gordurosos. Bastos et al.17 , Molina et al.18 e Motta et al.19 encontraram níveis abaixo do valor de referência que está estabelecido pela legislação vigente, que é de no mínimo 8,4 g/100 g11, para 85,0%, 61,9% e 43,0% das amostras, respectivamente.

A alimentação dos bovinos é um dos principais elementos que influenciam a qualidade do leite, necessitando de dietas com valores nutricionais balanceados29 . Dos artigos analisados, 53%, ou seja, oito artigos7 , 13 , 17 , 18 , 19 , 21 , 23 , 27 descreveram resultados de análises do percentual de gordura. Em todos os estudos esse parâmetro esteve dentro do estabelecido, que é de no mínimo 3,0 g/100,0 g11, para a maior parte das amostras. Quatro destes estudos7 , 13 , 17 , 23 tiveram todas as amostras dentro da regularidade e Molina et al.18 , Motta et al.19 , Reis et al.27 e Ribeiro Junior et al.21 relataram 67,00%, 62,00%, 83,83% e 75,00% das amostras em acordo com a legislação, respectivamente. Ribeiro Neto et al.13 observaram grande variação desse parâmetro em seu estudo, porém essa variação manteve índices acima do limite mínimo definido pela legislação, com uma média de 3,7 g/100 g. O percentual de gordura no leite é influenciado positivamente pela quantidade de fibra em sua dieta, ou seja, quando há maior teor de gordura significa que há maior disponibilidade de fibra de qualidade na alimentação do rebanho33 . O leite possui uma concentração média de gordura de 3,6%, porém, em casos em que a concentração é menor que 2,0%, deve-se considerar a adulteração desse leite. A gordura é um dos componentes que mais sofre adulterações, podendo ocorrer por adição de água e/ou por desnate do leite18 .

Sete estudos7 , 13 , 18 , 19 , 21 , 23 , 27 descreveram resultados de percentual de proteína do leite. De acordo com a legislação, esses níveis devem ser de no mínimo 2,9 g/100 g11 . Cinco estudos7 , 13 , 18 , 23 , 27 relataram ter todas as amostras dentro do estabelecido e Motta et al.19 e Ribeiro Junior et al.21 relataram 77,00% e 86,86% das amostras em acordo a legislação, respectivamente. Para Leira et al.29 , a porcentagem de proteína varia conforme a raça e é proporcional à quantidade de gordura presente no leite, ou seja, quanto maior a percentagem de gordura no leite, maior será a de proteína. Para Ribeiro Neto et al.13 , os teores de gordura e proteína, e ESD sofreram influência nos períodos do ano analisados, sendo que teores de gordura e proteína foram menores nos meses mais secos do ano e ESD nos períodos mais chuvosos.

Porém quando avaliados os níveis de nitrogênio ureico, Motta et al.19 encontraram níveis abaixo de 10 mg/dL em 73,00% das amostras. O nitrogênio ureico não possui níveis estabelecidos pela legislação vigente. Conforme Leão et al.34 , o nitrogênio ureico possui valores ideais entre 10 a 14 mg/dL, sendo esses valores um consenso entre diversos estudos que procuraram quantificar uma faixa em que esse parâmetro não possuiria efeito negativo nos animais. Há diversos fatores que alteram a concentração de nitrogênio ureico no leite. Dentre eles pode-se citar a alimentação, o sistema de produção, a estação do ano e o método de análise, sendo que uma dieta pobre em proteínas pode diminuir a concentração de nitrogênio ureico no leite.

Quatro estudos7 , 13 , 21 , 23 realizaram ainda análises de percentual de lactose e índice crioscópico, encontrando níveis aceitáveis para esses parâmetros. Conforme a IN n° 76/201811 , o nível mínimo de lactose no leite deve ser de 4,3 g/100 g e o índice crioscópico precisa estar entre -0,512°C e -0,536°C. A lactose é o açúcar do leite e compreende boa parte dos sólidos totais, já o índice crioscópico, serve para identificar as fraudes no leite. A temperatura de congelamento do leite é mais baixa do que a da água devido às substâncias dissolvidas, principalmente lactose e sais minerais31 . Silva et al.25 e Molina et al.18 realizaram ainda outras análises para verificação de fraudes no leite, como presença do peróxido de hidrogênio e cloretos, tendo os resultados negativos.

Qualidade microbiológica do leite

Para que se possa ter um parâmetro sobre a qualidade do leite produzido nas propriedades rurais ou processado pela indústria são necessárias análises microbiológicas. Conforme a IN nº 76/2018 do MAPA11 , as análises necessárias são CBT e CCS. Os artigos selecionados apresentaram ainda resultados de análises para a pesquisa de microrganismos mesófilos e psicrotróficos, coliformes totais, termotolerantes e E. coli, Salmonella spp. , Staphylococcus spp., Streptococus spp. e fungos7 , 13 , 16 , 18 , 19 , 22 , 23 , 27 .

As células somáticas estão presentes no leite e são constituídas pelas células de descamação do epitélio secretor e pelos leucócitos do organismo, oriundos da corrente sanguínea, sendo incluídos monócitos, linfócitos, neutrófilos e macrófagos. A elevação nesse número pode ser um indicador de mastite subclínica6 . Essa análise é utilizada como critério de diagnóstico indireto de mastite subclínica, sendo que existem diversos fatores que influenciam a CCS no leite, porém a infecção da glândula mamária é a causa de maior interferência. A mastite provoca o aumento nesse número, devido às células de defesa migrarem do sangue para o local de infecção, com o objetivo de combater o agente causador35 .

Dez artigos7 , 13 , 16 , 17 , 18 , 19 , 21 , 22 , 23 , 27 , 67% dos avaliados nessa revisão, apresentaram dados de CCS. Os resultados mostraram que em oito7 , 13 , 16 , 18 , 19 , 22 , 23 , 27 , ou seja, 80% desses estudos, os valores estavam acima do limite estabelecido pela legislação11 , que é de no máximo 500.000 CS/mL, em mais de 50% das amostras analisadas.

Oito estudos13 , 16 , 17 , 18 , 19 , 21 , 22 , 27 apresentaram os resultados para CBT e todos relataram valores acima dos limites estabelecidos pela legislação, que é de no máximo 300.000 unidades formadoras de colônias (UFC)/mL11, para a maioria das amostras (mais de 50%). A CBT refere-se ao número total de microrganismos aeróbios, permitindo avaliar a qualidade do leite desde o momento de ordenha até sua estocagem6 .

Segundo Martins et al.7 , a análise mais utilizada para monitorar a qualidade microbiológica do leite cru é a contagem padrão em placas de microrganismos mesófilos aeróbios, que quantifica o número de células viáveis de microrganismos presentes no leite cru. Para Santos et al.36 , os mesófilos são microrganismos que se multiplicam rapidamente quando o leite não é armazenado sob refrigeração e os psicrotróficos são microrganismos que se multiplicam em temperaturas mais baixas, de 0°C e 7°C.

Dos artigos selecionados, 35%, ou seja, cinco7 , 15 , 17 , 20 , 24 , apresentaram resultados para a contagem de organismos mesófilos e psicrotróficos e relataram níveis de psicrotróficos acima de 104UFC/mL para respectivamente 90%, 30%, 16%, 10% e 10% das amostras analisadas. Os organismos mesófilos e psicrotróficos não possuem níveis especificados na legislação vigente, mas níveis a partir de 105 UFC/mL já são suficientes para provocar perdas na composição do leite. O processo de refrigeração do leite cru coletado torna propícia a proliferação de microrganismos do grupo dos psicrotróficos, capaz de se desenvolver em temperaturas abaixo de 7°C7. Os psicrotróficos encontrados no leite são de origem ambiental e podem ser provenientes do solo, água, vegetação, ou ainda do teto/úbere e de equipamentos de ordenha higienizados inadequadamente. Esses microrganismos são destruídos pelo tratamento térmico, porém suas enzimas são resistentes37 .

Outros grupos de organismos mesófilos importantes na análise do leite são os coliformes totais e termotolerantes29 . Entre os artigos analisados nessa revisão integrativa, cinco deles15 , 20 , 22 , 24 , 25 apresentaram dados de análises de microrganismos do grupo dos coliformes (totais e/ou termotolerantes) e E. coli. Os resultados mostraram alta contaminação por esse grupo de microrganismos em quatro dos estudos realizados15 , 20 , 22 , 24 , sendo que somente para Silva et al.25 os resultados foram negativos.

A presença de coliformes termotolerantes e E. coli está associada a materiais de origem fecal e é indicadora de condições insatisfatórias de higiene. Esses microrganismos em números elevados indicam falta de higiene na ordenha, limpeza inadequada de equipamentos e utensílios que entram em contato com o leite e água contaminada9 . Na etiologia das mastites há os microrganismos contagiosos e os ambientais. Os principais agentes contagiosos são S. aureus e S. agalactie e entre os ambientais, E. coli, Klebsiella pneumoniae entre outros38 . Cabe ressaltar que Silva et al.25 realizaram análises em leite Ultra High Temperature (UHT). A esterilização, pelo processo UHT, dá origem ao leite chamado longa vida e tem como objetivo a obtenção de um produto bacteriologicamente estéril39 , o que explica o resultado negativo nas análises.

Dentre os artigos analisados nessa revisão, três mostraram ainda dados de análises de microrganismos mastitogênicos como Staphylococcus sp15 , 19 , 20 , sendo que Motta et al.19 realizaram também a análise de enterobactérias, estreptococos e fungos. Os resultados mostraram alta contaminação no estudo de Nascimento Neta et al.20 , e o estudo de Almeida et al.15 relatou isolamento de Staphylococcus spp. em 9,05% (36) do total de amostras analisadas, sendo as espécies identificadas: S. aureus (52,80%), S. intermedius (5,60%) , S. haemolyticus (19,40%) e S. saprophyticus (22,20%). Martins et al.7 , Bastos et al.17 e Molina et al.18 descreveram a presença de substâncias antimicrobianas no leite analisado.

Os microrganismos encontrados no leite, além de provocarem alterações como a degradação da gordura, proteínas e carboidratos, o que torna o produto inaceitável para consumo, podem causar infecções alimentares. Um dos exemplos mais comuns de agentes causadores dessas infecções são os microrganismos mesófilos do gênero Salmonella , que provocam desordens intestinais, além de vômitos e mal-estar40 . O estudo de Sola et al.26 apresentou resultados de análise de Salmonella spp. encontrando seis isolados em 226 amostras de leite da raça Curraleiro Pé-Duro. Os microrganismos do grupo dos coliformes, Salmonella spp., bem como mastitogênicos como Staphylococcus spp., não apresentam níveis especificados na legislação vigente, IN n° 76/201811 . Os artigos analisados nessa revisão utilizaram-se das IN n° 62, de 29 de dezembro de 201141 , e da IN n° 51, de 18 de setembro de 200242 , que tinham por objetivo regulamentar a produção, identidade e qualidade do leite A, B, C, cru refrigerado e pasteurizado, além da coleta e do transporte. Essas legislações foram revogadas pela atual legislação: a IN n° 76/201811 e a IN n° 77/201812 .

CONCLUSÕES

A análise dos artigos desta revisão integrativa demonstrou que os parâmetros físico-químicos não apresentaram alterações significativas na maior parte das amostras analisadas nos estudos em questão. Já em relação aos parâmetros microbiológicos, 93% dos estudos aqui analisados demostraram alterações microbiológicas no leite, diminuindo, assim, a sua qualidade. A exceção ocorre em um único estudo que analisou leite esterilizado pelo processo UHT. Foram verificadas CBT, CCS e contagem de mesófilos e psicrotróficos fora dos padrões estabelecidos, contaminação por microrganismos do grupo dos coliformes, Salmonella spp., Staphylococcus spp., fungos e presença de antimicrobianos nas amostras analisadas.

A adoção de BPA e de fabricação é importante para sanar essa contaminação, bem como a instrução dos produtores quanto às questões higiênico-sanitárias envolvidas no processo de ordenha. A forma de armazenamento do leite também é essencial para garantir a sua qualidade, evitando assim perdas na qualidade do leite, que acarretam também perdas econômicas ao produtor, além de risco à saúde da população consumidora.

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Autor notes

Contribuição dos Autores

Müller TM – Concepção, planejamento (desenho do estudo), aquisição, análise, interpretação dos dados e redação do trabalho. Rempel CR – Concepção, planejamento (desenho do estudo), interpretação dos dados e redação do trabalho. Todos os autores aprovaram a versão final do trabalho.

* E-mail: crempel@univates.br

Declaração de interesses

Conflito de Interesse

Os autores informam não haver qualquer potencial conflito de interesse com pares e instituições, políticos ou financeiros deste estudo.

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