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	<front>
		<journal-meta>
			<journal-id journal-id-type="nlm-ta">Calidoscópio</journal-id>
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				<journal-title>Calidoscópio</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Universidade do Vale do Rio dos
					Sinos</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="epub">2177-6202</issn>
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				<publisher-name>Universidade do Vale do Rio dos Sinos</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.4013/cld.2019.171.03</article-id>
			<article-id pub-id-type="publisher-id">00003</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Artigos</subject>
				</subj-group>
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			<title-group>
				<article-title>Práticas de leitura na engenharia: discussão de contextos
					curriculares e metodológicos de formação no Brasil e em Portugal</article-title>
				<trans-title-group xml:lang="en">
					<trans-title>Reading practices in engineering: discussion of curricular and
						methodological contexts of formation in Brazil and Portugal</trans-title>
				</trans-title-group>
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				<contrib contrib-type="author">
					<name>
						<surname>Heinig</surname>
						<given-names>Otilia Lizete de Oliveira Martins</given-names>
					</name>
					<xref ref-type="aff" rid="aff1"><sup>1</sup></xref>
					<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>*</sup></xref>
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				<contrib contrib-type="author">
					<name>
						<surname>Schlichting</surname>
						<given-names>Thais de Souza</given-names>
					</name>
					<xref ref-type="aff" rid="aff2"><sup>2</sup></xref>
					<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>**</sup></xref>
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			</contrib-group>
			<aff id="aff1">
				<label>1</label>
				<institution content-type="normalized">Universidade Regional de Blumenau</institution>
				<email>otilia.heinig@gmail.com</email>
				<institution content-type="original">Universidade Regional de Blumenau
					otilia.heinig@gmail.com</institution>
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			<aff id="aff2">
				<label>2</label>
				<institution content-type="normalized">Universidade Federal de Santa
					Catarina</institution>
				<email>thais_schlichting@hotmail.com</email>
				<institution content-type="original">Universidade Federal de Santa Catarina
					thais_schlichting@hotmail.com</institution>
			</aff>
			<author-notes>
				<fn fn-type="current-aff" id="fn1">
					<label>*</label>
					<p>Doutora em Linguística; Professora Visitante da Universidade Regional de
						Blumenau no Mestrado em Educação até 2018.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="current-aff" id="fn2">
					<label>**</label>
					<p>Mestre em Educação; Doutoranda em Linguística pela Universidade Federal de
						Santa Catarina; Professora do Instituto Federal Catarinense -
							<italic>campus</italic> de Ibirama.</p>
				</fn>
			</author-notes>
			<!--<pub-date publication-format="electronic" date-type="pub">
				<day>25</day>
				<month>10</month>
				<year>2019</year>
			</pub-date>
			<pub-date publication-format="electronic" date-type="collection">-->
				<pub-date pub-type="epub-ppub">
				<season>Jan-Apr</season>
				<year>2019</year>
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			<volume>17</volume>
			<issue>1</issue>
			<fpage>37</fpage>
			<lpage>55</lpage>
			<history>
				<date date-type="received">
					<day>03</day>
					<month>05</month>
					<year>2018</year>
				</date>
				<date date-type="accepted">
					<day>05</day>
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					<year>2018</year>
				</date>
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				<license license-type="open-access"
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>Resumo:</title>
				<p>As práticas de leitura têm sido modificadas em decorrência dos processos de
					informatização e globalização, passando a demandar que a ação profissional em
					diferentes áreas do saber tenha, também, se modificado. Assim, os profissionais
					engajados no mundo do trabalho, para além de conhecimentos técnicos de sua área,
					defrontam-se com a necessidade de atuar em práticas de letramento que
					caracterizam sua esfera de atuação. As engenharias não fogem a essa
					transformação e, então, discute-se sobre como práticas de leitura são abordadas
					na graduação em engenharia. Este trabalho tem o objetivo de discutir como se
					efetivam práticas de leitura em dois contextos curriculares distintos de
					formação em engenharia: um baseado em projetos e outro, organizado por
					disciplinas individualizadas. Para tanto, são realizadas análises qualitativas,
					sob cunho interpretativo, de enunciados produzidos em entrevistas
					semiestruturadas empreendidas com dois grupos de sujeitos: a) egressos de cursos
					de engenharia com currículos organizados por disciplinas individualizadas, no
					Brasil; b) estudantes do 7.º semestre do Mestrado Integrado em Engenharia de uma
					Universidade, em Portugal participantes de projetos articuladores entre as
					unidades curriculares. As análises são pautadas nas proposições do Círculo de
					Bakhtin, nos Estudos do Letramento e nas Teorias da Aprendizagem Ativa. Os dados
					sinalizam que o trabalho com práticas de leitura de forma articulada entre as
					disciplinas se mostra mais significativo aos acadêmicos, pois, ao estarem
					inseridos em projetos, eles experienciam sua atuação profissional ainda durante
					a formação inicial e compreendem, assim, as funções e os funcionamentos das
					demandas de leitura no mundo do trabalho.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract:</title>
				<p>The reading practices have been modified as a result of the processes of
					computerization and globalization, which has modified the demands in the
					professional action in different areas of knowledge. Thus, professionals engaged
					in the world of work, in addition to technical knowledge of their area, are
					faced with the need to act on literacy practices that characterize their sphere
					of action. Engineering does not escape from this transformation, and then it is
					discussed how reading practices are approached in undergraduate engineering.
					This work aims to discuss how the reading practices are addressed in two
					different curricular contexts of engineering graduation: one based on projects
					and another, organized by individualized disciplines. For this purpose,
					qualitative analyzes are carried out, under an interpretive character, of
					statements produced in semi-structured interviews undertaken with two groups of
					subjects: a) graduates of engineering courses with curricula organized by
					individualized disciplines in Brazil; b) students of the 7th semester of the
					Integrated Masters in Engineering of one University in Portugal, participants in
					articulating projects between the curricular units. The analyses are based on
					the propositions of the Circle of Bakhtin, the Studies of Literacy and the
					Theories of Active Learning. The data indicate that work with reading practices
					in an articulated way among the disciplines is more meaningful for academics
					because, when they are inserted in projects, they experience their professional
					performance even during the initial graduation and thus understand the functions
					and the demands of reading in the world of work.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Letramentos</kwd>
				<kwd>Leitura</kwd>
				<kwd>Engenharias</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Literacy</kwd>
				<kwd>Reading</kwd>
				<kwd>Engineering</kwd>
			</kwd-group>
			<counts>
				<fig-count count="0"/>
				<table-count count="2"/>
				<equation-count count="0"/>
				<ref-count count="23"/>
				<page-count count="19"/>
			</counts>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução</title>
			<p>Para nos inserirmos efetivamente em uma determinada esfera da atividade humana,
				precisamos estar ligados aos usos das linguagens que circulam nesse meio, pois esses
				usos são multiformes e variam conforme as atividades dessa esfera, o que demanda um
				papel ativo por parte do sujeito para a compreensão e produção de enunciados. Na
				engenharia não é diferente e, com os avanços da tecnologia, a representação social
				do engenheiro se ampliou, isto é, para além dos conhecimentos das áreas exatas,
				passou a abarcar também conhecimentos relacionados a práticas de linguagem que
				caracterizam e constituem a área.</p>
			<p>Historicamente, as engenharias sempre foram reconhecidas como meios de conhecimentos
				relacionados ao raciocínio lógico e exato e, portanto, seus currículos foram
				desenhados a fim de abarcar essas demandas. Com as transformações sociais geradas
				pela globalização e informatização, porém, as exigências apresentadas aos
				profissionais engenheiros mudaram. Nesse sentido, vale refletir sobre como essas
				novas demandas repercutiram (ou não) no que diz respeito à abordagem da linguagem
				verbal na formação em engenharia, no caso deste trabalho, mais especificamente a
				abordagem da leitura nas áreas da engenharia. Assim, o presente artigo tem como
				objetivo discutir como se efetivam práticas de leitura em dois contextos
				curriculares distintos de formação em engenharia: um baseado em projetos e outro,
				organizado por disciplinas individualizadas.</p>
			<p>O presente artigo é parte de um projeto maior e se sustenta sob a proposta de um
				confronto entre os dados obtidos ao longo dos anos de pesquisa (o projeto vem sendo
				desenvolvido desde 2010). Os dados, assim, são revisitados e rediscutidos a fim de
				que uma síntese das análises possa ser elaborada .</p>
			<p>Para alcançar o objetivo proposto neste artigo, são realizadas análises qualitativas
					(<xref ref-type="bibr" rid="B4">Bogdan e Biklen, 1994</xref>) de enunciados
				produzidos em entrevistas semiestruturadas, realizadas com dois grupos distintos de
				participantes, a saber: a) engenheiros egressos de cursos brasileiros de uma
				Instituição de Ensino Superior (IES) do Brasil, cujos currículos são organizados em
				disciplinas individualizadas; b) estudantes do 7.º semestre do Mestrado Integrado em
				Engenharia (doravante MIE) de uma universidade de Portugal, cujo currículo está
				pautado em projetos que inserem os acadêmicos em empresas durante sua formação
				acadêmica. Os sujeitos do primeiro grupo foram selecionados a partir de informações
				acerca de egressos da própria universidade, posteriormente, foram contactados
				individualmente e, no caso de aceite, foi agendada a entrevista na qual expressaram
				seu consentimento para o uso dos dados produzidos. Aos sujeitos do segundo grupo,
				foi enviado um convite para a formação de dois grupos de acadêmicos os quais
				aceitaram participar da entrevista com as pesquisadoras na própria universidade,
				autorizando também o uso dos dados.</p>
			<p>Neste trabalho, os participantes da pesquisa são apresentados sob pseudônimos e são
				caracterizados no <xref ref-type="table" rid="t1">Quadro 01</xref> a seguir:</p>
			<p>
			<table-wrap id="t1">
				<label>Quadro 01</label>
				<caption>
					<title>Pseudônimos dos participantes da pesquisa.</title>
				</caption>
				<alternatives>
							<graphic xlink:href="t1.jpg"/>
				<table frame="box" rules="all">
					<colgroup>
						<col width="25%"/>
						<col width="25%"/>
						<col width="25%"/>
						<col width="25%"/>
					</colgroup>
					<thead>
						<tr>
							<th align="center" colspan="2">Contexto brasileiro</th>
							<th align="center" colspan="2">Contexto português</th>
						</tr>
						<tr>
							<th align="center" valign="top">Pseudônimo</th>
							<th align="center" valign="top">Formação acadêmica</th>
							<th align="center" valign="top">Pseudônimo</th>
							<th align="center" valign="top">Formação acadêmica</th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="center" valign="top">Carlos</td>
							<td align="center" valign="top">Formado em Engenharia Civil, desde
								2011</td>
							<td align="center" valign="top">Vânia</td>
							<td align="center" valign="top">Acadêmica do 7.º semestre do MIE</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="center" valign="top">Mikael</td>
							<td align="center" valign="top">Formado em engenharia de
								telecomunicações, desde 2005</td>
							<td align="center" valign="top">Jean</td>
							<td align="center" valign="top">Acadêmico do 7.º semestre do MIE</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="center" valign="top">Willian</td>
							<td align="center" valign="top">Formado em Engenharia de
								Telecomunicações, desde 2008</td>
							<td align="center" valign="top">Guilherme</td>
							<td align="center" valign="top">Acadêmico do 7.º semestre do MIE</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
			</alternatives>
					<attrib>Fonte: dados das autoras.</attrib>
			</table-wrap>
		</p>
			<p>Após esta breve introdução e acordos metodológicos gerais, são apresentados os
				contextos curriculares estudados neste artigo. Em seguida, designamos os acordos
				teóricos que guiam as discussões ora propostas e, então, são realizadas as análises
				dos dados, retomando e aprofundando as teorias mobilizadas. Por fim, expomos as
				considerações acerca das práticas de leitura, as formas como são trabalhadas durante
				a graduação nas engenharias e como essa formação se reflete no mundo profissional
				nos contextos estudados.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Contextos curriculares estudados</title>
			<p>A fim de propor discussões sobre como são abordadas as práticas de leitura na
				formação nas engenharias, construímos uma análise de dois contextos curriculares
				distintos de graduações na área. A análise comparativa vai ser estruturada de forma
				a apresentar e discutir como as práticas de leitura ganham espaço na formação do
				engenheiro e como essa formação pode ter reflexos na atuação profissional dos
				sujeitos participantes da pesquisa. Vale salientar que não são construídos juízos de
				valor em relação aos currículos, mas discussões que sinalizam uma forma de trabalho
				com as linguagens congruente com as demandas apresentadas aos profissionais das
				engenharias no atual cenário mundial.</p>
			<p>O primeiro contexto curricular estudado abrange cursos de formação acadêmica em
				Engenharia em uma Universidade do Brasil. Nesse meio curricular, os cursos são
				organizados por meio de disciplinas individualizadas, que abrangem separadamente os
				conhecimentos específicos das áreas da engenharia e saberes relativos à linguagem
				verbal, como leitura e escrita de gêneros discursivos (<xref ref-type="bibr"
					rid="B2">Bakhtin, 2012</xref>) como resumos, resenhas e relatórios. As
				disciplinas que focam a leitura e escrita são ofertadas presencialmente, como
				obrigatórias ou optativas, dependendo do semestre e curso de engenharia nos quais o
				acadêmico está matriculado.</p>
			<p>Segundo dados de pesquisas (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Franzen <italic>et
						al.</italic>, 2011</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B19">Schlichting e
					Heinig, 2014</xref>), é recorrente que, no contexto estudado, professores de
				disciplinas específicas da engenharia solicitem a produção de textos orais e
				escritos, além da leitura de materiais disponibilizados durante as aulas ou
				materiais complementares. Existe, porém, uma carência na sistematização da
				construção desses conhecimentos; embora haja a demanda pela linguagem verbal como
				parte da disciplina (para além da já esperada interação verbal), não existe uma
				instrução didática que dê base aos acadêmicos para atuar nessas práticas de
				linguagem. Nesse sentido, o currículo contempla a linguagem verbal, especialmente a
				leitura, de forma difusa ao longo do curso, pois essas práticas são desenvolvidas
				como “ferramentas pedagógicas” (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Fischer e Dionísio,
					2011</xref>), isto é, são exclusivamente mediadoras do processo de ensino e
				aprendizagem.</p>
			<p>O segundo contexto estudado é o MIE, na universidade portuguesa. Durante os cinco
				anos de curso, são empreendidos três projetos que articulam as unidades curriculares
				de cada semestre entre si que, de forma colaborativa, trabalham com questões
				relacionadas à leitura (e escrita) por meio da construção de fundamentação teórica e
				análise de dados em documentos como relatórios e artigos científicos. Esses projetos
				são desenvolvidos no primeiro e no quarto ano do curso. Cada projeto tem um objetivo
				e é articulado de uma maneira específica para aproximar as formações acadêmica e
				profissional:</p>
			<p>
				<list list-type="alpha-lower">
					<list-item>
						<p>O projeto do 1.º semestre intenta que os estudantes, divididos em
							equipes, realizem a construção de um protótipo de algum produto para a
							solução de um problema demandado à área de engenharia;</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>o segundo projeto (no 7.º semestre) é empreendido de forma que os
							acadêmicos, em equipes, sejam inseridos em empresas para atuarem durante
							um período de estágio, no qual propõem melhorias a problemas encontrados
							na empresa;</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>já o terceiro projeto, no 8.° semestre, retoma a construção de
							protótipos, mas de uma forma mais aprofundada, levando em consideração
							soluções e materiais disponíveis no mercado (<xref ref-type="bibr"
								rid="B12">Lima <italic>et al.</italic>, 2011</xref>).</p>
					</list-item>
				</list>
			</p>
			<p>Os projetos empreendidos no MIE são orientados sob a ótica do PBL (Project Based
				Learning) que, segundo <xref ref-type="bibr" rid="B15">Morais (2009, p. 04)</xref>,
				consiste</p>
			<p>
				<disp-quote>
					<p>no enfrentamento por parte do aluno de uma situação nova, que exige reflexão,
						crítica e criatividade a partir da observação e estudo do problema
						apresentado. Com a utilização deste método o estudante desenvolve atividades
						como obtenção e organização de dados, o planejamento, a imaginação e a
						elaboração de hipótese, além da interpretação e tomadas de decisão.</p>
				</disp-quote>
			</p>
			<p>Os estudantes se deparam, portanto, com situações nas quais precisam assumir um papel
				ativo no desenvolvimento das atividades do projeto e propor soluções a problemas
				encontrados, participar de atividades características dessa metodologia e, nesse
				sentido, de práticas de leitura (e escrita) que integram o projeto tanto na academia
				quanto na esfera profissional.</p>
			<p>Apresentados os contextos curriculares ora discutidos, passamos aos acordos teóricos
				que sustentam as análises neste trabalho. Vale, nesse sentido, ponderar sobre como
				as demandas sociais repercutem na construção de currículos acadêmicos.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Acordos teóricos</title>
			<p>Conforme sinalizado, o foco deste artigo está nas práticas de leitura nos âmbitos de
				formação acadêmica em engenharia. Refletimos, nesse sentido, sobre as construções
				curriculares e como são abordadas essas práticas durante a graduação e sobre que
				possíveis reflexos essa abordagem pode ter na atuação profissional do
				engenheiro.</p>
			<p>A perspectiva adotada, neste artigo, está pautada em três principais construtos
				teóricos: as concepções do Círculo de Bakhtin, acerca do dialogismo da linguagem e
				dos gêneros do discurso (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Bakhtin, 2003</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B2">Bakhtin, 2012</xref>); as teorias dos Novos Estudos do
				Letramento, que apresentam a linguagem enquanto constituinte de interação social
					(<xref ref-type="bibr" rid="B22">Street, 2003</xref>; <xref ref-type="bibr"
					rid="B3">Barton e Lee, 2015</xref>) e as Teorias da Aprendizagem Ativa (<xref
					ref-type="bibr" rid="B15">Morais, 2009</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B13"
					>Masetto, 2012</xref>) que dão base a metodologias de ensino e aprendizagem que
				consideram o estudante em formação o centro do processo.</p>
			<p>Antes de apresentarmos a concepção teórica propriamente dita, é necessário
				refletirmos sobre as formas como as demandas sociais repercutem (ou não) em mudanças
				nos currículos de formação acadêmica para, então, compreender os processos de
				inserção em práticas de leitura e como essas práticas modificam a ação profissional
				do engenheiro.</p>
			<p>As mudanças que ocorrem no âmbito da educação não são neutras, “pelo contrário,
				sempre surgem como resultado de um contexto social, de determinada concepção de
				educação e como respostas a necessidades emergentes para as quais os paradigmas
				atuais já não oferecem encaminhamentos aceitáveis” (<xref ref-type="bibr" rid="B13"
					>Masetto, 2012</xref>, p. 16). Movimentos de inovação no mundo da educação estão
				sempre ligados, portanto, a demandas encontradas na sociedade (local e global). A
				partir de reflexões teóricas e ideológicas, são apresentadas inovações nos processos
				educacionais a fim de responder a questões sociais.</p>
			<p>Ao focalizarmos a educação superior, em especial, depreendemos que as inovações são
				respostas às demandas sociais e profissionais encontradas. O perfil do acadêmico que
				se almeja formar não está descolado das demandas que surgem com as inovações e
				transformações ocorridas na sociedade. Inovação na educação superior, sob essa
				ótica, deve ser entendida “como o conjunto de alterações que afetam pontos-chave e
				eixos constitutivos da organização do ensino universitário provocadas por mudanças
				na sociedade ou por reflexões sobre concepções intrínsecas à missão da educação
				superior” (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Masetto, 2004</xref>, p. 197).
				Compreendemos, assim, a relação entre as mudanças que ocorrem na sociedade e as
				inovações empreendidas no âmbito da educação superior, pois, quando o mundo
				profissional apresenta novas solicitações, é nos centros de formação desses
				profissionais que vão ecoar essas demandas.</p>
			<p>Em decorrência das inovações tecnológicas, das mudanças econômicas e da globalização,
				as sociedades têm se transformado cada vez mais no que diz respeito à forma como os
				sujeitos interagem, comunicam-se e atribuem sentido às práticas das quais participam
					(<xref ref-type="bibr" rid="B3">Barton e Lee, 2015</xref>). Nesse sentido, a
				leitura (e a escrita) ganham espaço de destaque no cotidiano contemporâneo, pois,
				com os avanços da tecnologia, tem-se tornado mais usual interagir com distintos
				interlocutores e linguagens. Assim, muitas das interações sociais que são
				valorizadas em nossa cultura se dão pela escrita e, consequentemente, pela leitura,
				pois, conforme ressalta <xref ref-type="bibr" rid="B2">Bakhtin (2012)</xref>, o ato
				de fala impresso é sempre orientado em função dos enunciados anteriores em uma mesma
				esfera e “é de certa maneira parte integrante de uma discussão ideológica em grande
				escala: ele responde a algumas coisas, refuta, confirma, antecipa as respostas e
				objeções potenciais, procura apoio etc.” (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Bakhtin,
					2012</xref>, p. 128). A interação por meio da escrita é valorizada em
				decorrência do seu caráter ideológico. Saber atuar nessas práticas de leitura e
				escrita é, então, uma demanda social com a qual o sujeito se depara. Em conformidade
				com as palavras de <xref ref-type="bibr" rid="B14">Masetto (2004)</xref>,
				compreendemos que a demanda das linguagens, no âmbito social, também tem reflexos na
				organização das atividades da educação superior.</p>
			<p>Apresentados os acordos teóricos iniciais, passemos, então, à discussão das questões
				acerca dos usos da leitura e da escrita nas engenharias. Compreendemos as atividades
				que envolvem a leitura e a escrita sob a ótica do letramento, o qual, segundo <xref
					ref-type="bibr" rid="B22">Street (2003, p. 77-79)</xref>, consiste em</p>
			<p>
				<disp-quote>
					<p>uma prática de cunho social, e não simplesmente uma habilidade técnica e
						neutra; que está sempre incorporada a princípios epistemológicos socialmente
						construídos [...] Práticas de letramento, então, referem-se a mais ampla
						concepção cultural de determinadas formas de pensar e fazer a leitura e a
						escrita em contextos culturais.</p>
				</disp-quote>
			</p>
			<p>Pinçamos das palavras do autor que as práticas de letramento são efetivadas a partir
				de variadas formas de o sujeito atuar com a leitura e a escrita nas múltiplas
				esferas sociais e contextos culturais. Compreendemos, também, o caráter social dos
				letramentos, que dizem respeito às práticas sociais de uso da leitura e da escrita,
				às situações de uso social das linguagens. Essas práticas estão ligadas às demandas
				cotidianas das atuações sociais, ou seja, a interação em diferentes práticas de
				linguagem tem sempre uma finalidade, é incitada por uma necessidade. As práticas de
				letramento estão atreladas essencialmente aos meios nos quais são desempenhadas,
				isto é, cada esfera de atuação social conta com práticas de linguagem específicas e
				gêneros discursivos (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Bakhtin, 2003</xref>)
				característicos, são demandas de linguagem específicas de cada área, conforme já
				sinalizado.</p>
			<p>No rol dos letramentos, focalizamos, neste artigo, a inter-relação entre dois
				conjuntos sociais de uso da leitura e da escrita: os letramentos acadêmico e
				profissional. O acadêmico diz respeito às práticas de leitura no âmbito da academia,
				isto é, são letramentos que se desenvolvem a partir dos múltiplos textos da esfera
				acadêmica. Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B18">Russel (2009, p. 242)</xref>, na
				universidade, “os alunos devem aprender a usar vocabulários especializados [...]. No
				entanto, eles também precisam aprender novos gêneros ou formas, aqueles que sejam
				apropriados à pesquisa em determinado campo, pelo menos em níveis mais avançados da
				educação superior”. Cabe à universidade, então, não apenas aprimorar práticas de
				linguagem dos estudantes, mas também os inserir em novas situações nas quais a
				linguagem desempenhe um papel central. Compreendemos a universidade, assim, como uma
				“agência de letramento” (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Silva e Araújo,
				2010</xref>) que introduz os acadêmicos em diferentes práticas de linguagem a partir
				da interação e apropriação de diferentes gêneros discursivos.</p>
			<p>Em diálogo com os letramentos acadêmicos, estão os do mundo do trabalho. Como já
				mencionado, as esferas acadêmica e profissional têm uma superfície de contato
				bastante significativa e as práticas realizadas nesses dois âmbitos vão se
				complementar em alguns aspectos, ainda que divirjam em outros. O letramento
				profissional diz respeito às práticas de linguagem características da esfera do
				trabalho, cabendo ressaltar que cada área do conhecimento tem suas próprias práticas
				de linguagem. Os letramentos do mundo do trabalho são, assim, as “mais
				diversificadas práticas de escrita que se desenvolvem e circulam em situações
				cotidianas inerentes à atividade profissional” (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Paz,
					2010</xref>, p. 45).</p>
			<p>Quando se insere em diferentes esferas, portanto, o sujeito passa a atuar em variadas
				práticas de letramento, com distintas comunidades discursivas (<xref ref-type="bibr"
					rid="B2">Bakhtin, 2012</xref>). Tanto na academia quanto na esfera do trabalho,
				os eventos enunciativos são bastante característicos e construídos com diferentes
				finalidades. A leitura, sob esse aspecto, tem um papel central na construção de
				conhecimento e interação entre o acadêmico/profissional e seus interlocutores. Na
				próxima seção, focalizamos as práticas de leitura das quais participaram os sujeitos
				da pesquisa durante a graduação e os reflexos que essa formação teve em sua atuação
				profissional.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="methods">
			<title>Leitura em dois contextos curriculares e metodológicos na Engenharia</title>
			<p>Conforme já sinalizado, este artigo debate o lugar das práticas de leitura na
				formação acadêmica nas engenharias em dois contextos, que apresentam desenhos
				curriculares distintos. O currículo, segundo <xref ref-type="bibr" rid="B21">Silva
					(1999)</xref> em sua obra clássica, é sempre o resultado de uma seleção. Seleção
				de conteúdos, metodologias e concepções. Dessa forma, discutimos questões
				relacionadas a concepções sociais e perfis profissionais que se desejam formar em
				cursos de engenharia no que diz respeito às práticas de leitura. Para melhor
				organizar as análises e o contraponto desejado, dividimos as discussões em dois
				momentos: inicialmente, são debatidos os dados do contexto brasileiro para, em
				seguida, discutir o contexto português.</p>
			<p>A leitura ganha espaço especial em distintas esferas sociais, por se tratar de um
				importante meio de construção de informações e interação. Nos meios acadêmico e
				profissional, a leitura - e a compreensão do que é lido - são fundamentais para que
				possam ser realizadas atividades cotidianas. Dessa forma, para se inserir
				efetivamente e de forma ativa nessas esferas, é necessário dominar e responder às
				“demandas de letramento” (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Zavala, 2010</xref>)
				apresentadas nesses meios. Ao longo do fazer profissional na engenharia, a leitura
				ganha distintos usos e funções, conforme explica o engenheiro Carlos :</p>
			<p>
				<disp-quote>
					<p><bold>Excerto 01:</bold> A maioria dos textos que eu leio no meu trabalho...
						é a leitura de projetos que no caso não é BEM uma leitura de textos que é
						mais uma interpretação e a parte de texto mais... é a parte de catálogo
						técnico e mais a parte burocrática do processo inteiro.</p>
				</disp-quote>
			</p>
			<p>Quando explica as práticas de leitura realizadas em seu âmbito profissional, o
				engenheiro sinaliza que, para além da leitura de textos em sua forma mais canônica,
				há a necessidade de interação com hipertextos, textos multimodais, isto é, aqueles
				que permitem a criação e leitura de diferentes modalidades, como imagens e gráficos
				aliados ao texto escrito. A concepção de leitura do engenheiro engloba, portanto,
				além da decodificação, também a interpretação desses números e dados dispostos em
				projetos e catálogos técnicos, gêneros discursivos que caracterizam a atuação na
				área da engenharia. Sua atuação profissional requer que ele interaja e se aproprie
				das informações expressas nos documentos, de forma a agir sobre e com o material
				escrito. É a partir da relação do profissional com os gêneros em questão e sua
				tomada de decisão sobre esse material que vai se delinear e construir sua atuação no
				trabalho, ou seja, o cotidiano profissional está ligado à leitura e compreensão do
				documento escrito.</p>
			<p>A concepção de leitura do sujeito, então, focaliza aspectos de uma leitura mais
				técnica, que diz respeito às características da leitura em sua área de formação. Há
				de se discutir, assim, a posição social da qual o engenheiro constrói sua visão
				acerca da leitura e relacionar esse lugar social com as atividades e objetivos que
				organizam o trabalho com a leitura durante a graduação em Engenharia: é possível
				que, justamente por não ser o foco de formação do engenheiro, a leitura seja
				trabalhada como meio para atingir um fim, e não como uma prática social do
				profissional em formação. Se a leitura for restrita à dimensão técnica, pode
				acontecer que se perca a possibilidade de interação do sujeito leitor engenheiro com
				o texto ou, ainda, da leitura com o mundo. Dessa forma, é importante que as práticas
				de leitura sejam abordadas mediante contextualização e por meio da apresentação de
				objetivos, para que se constituam como meios de construção de sentido e de
				repertório de conhecimento do sujeito.</p>
			<p>Ainda no que diz respeito à leitura, para além do texto escrito, no âmbito acadêmico
				da engenharia, a leitura e interpretação de problemas numéricos também se mostram
				importantes, parte da formação inicial do engenheiro, como salienta Carlos:</p>
			<p>
				<disp-quote>
					<p><bold>Excerto 02:</bold> [a leitura] é importante porque até mesmo durante o
						curso tem, por exemplo, provas que não têm nenhum número, mas que são
						questões puramente matemáticas, questões de cálculo, mas que se você não
						souber interpretar o que está escrito, você erra a prova toda.</p>
				</disp-quote>
			</p>
			<p>A partir do que explica Carlos, compreendemos que a leitura e a interpretação, na
				área da engenharia, estão ligadas também às capacidades matemáticas. Como afirma
					<xref ref-type="bibr" rid="B5">D’Ambrosio (2009)</xref>, “no âmbito da educação
				matemática, há a indispensabilidade da leitura e da escrita quer como forma de
				organizar as ideias quer para a apropriação dos modos de comunicar o pensamento
				matemático utilizado nas resoluções de problemas ou tarefas matemáticas”. Nesse
				ponto, encontramos mais uma conexão entre a formação das áreas exatas e as práticas
				de leitura: os conhecimentos se articulam de forma complexa para compor a formação
				acadêmica, uma ação não está desligada da outra. O trabalho com a leitura, então,
				precisa de uma sistematização para que seja mais bem compreendido e efetivado pelos
				acadêmicos, a fim de que possam ter um bom desempenho nas práticas sociais nas quais
				se inserem, tanto na esfera acadêmica quanto na profissional dentro das
				engenharias.</p>
			<p>Além da leitura para si, os engenheiros também desempenham o papel da leitura para o
				outro, a interpretação e explicação de textos e materiais técnicos para seus
				interlocutores no mundo do trabalho, conforme explica Mikael:</p>
			<p>
				<disp-quote>
					<p><bold>Excerto 03:</bold> na verdade, eu explico o que o projeto está pedindo,
						eu leio o projeto e passo pra eles [mestres de obra e pedreiros], o que eles
						não entenderam do projeto eu explico pra eles, já tiro as dúvidas.</p>
				</disp-quote>
			</p>
			<p>Emerge, das palavras do engenheiro, a sua compreensão da interação com distintos
				sujeitos sociais, que têm, cada um, seu repertório social. Essa apropriação e
				interação sinaliza que Mikael se constituiu insider (<xref ref-type="bibr" rid="B9"
					>Gee, 2005</xref>), isto é, um membro efetivo nos Discursos da sua área
				profissional. Os Discursos com D maiúsculo são</p>
			<p>
				<disp-quote>
					<p>maneiras de ser no mundo, ou formas de vida que integram palavras, atos,
						valores, crenças, atitudes e identidades sociais [...]. Um Discurso é um
						tipo de kit de identidade que vem completo com [...] instruções de como
						agir, falar e também escrever, a fim de aceitar um papel social particular
						que outros reconhecerão (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Gee, 2005</xref>, p.
						140).</p>
				</disp-quote>
			</p>
			<p>Participar de diferentes Discursos implica, então, fazer parte de distintas práticas
				de letramento e interagir com diversos interlocutores e em múltiplas práticas de
				linguagem. Assim, ao apresentar sua atuação dentro da equipe de trabalho, Mikael
				projeta uma das suas funções que constitui sua identidade dentro do mundo
				profissional, a leitura e interpretação do projeto são partes do seu fazer
				profissional, de sua identidade enquanto engenheiro. Dessa forma, a leitura ganha um
				papel fundamental: a interpretação do que foi lido passa a ser reconstruída por meio
				de um discurso dirigido a outro sujeito social para que as atividades possam ser
				corretamente empreendidas e executadas.</p>
			<p>A leitura, como debatemos até aqui, apresenta-se como parte fundamental e até de
				certa centralidade nos afazeres, tanto acadêmicos quanto profissionais, do
				engenheiro. Nesse sentido, é válido discutir os processos de formação acadêmica
				pelos quais passaram os participantes da pesquisa, no contexto curricular
				brasileiro.</p>
			<p>Conforme discutido anteriormente neste artigo, o currículo resulta sempre de uma
				seleção de conteúdos, a partir das demandas apresentadas pela sociedade na qual está
				inserido o curso superior. Dessa forma, os desenhos curriculares precisam eleger e
				distribuir as disciplinas que serão ofertadas ao longo dos cursos. Historicamente,
				os currículos estruturados por meio de disciplinas isoladas na engenharia acabam por
				deixar o estudo da linguagem verbal à margem do processo (<xref ref-type="bibr"
					rid="B11">Heinig e Santos, 2011</xref>), mesmo porque essas unidades
				curriculares não são o foco da formação do engenheiro, conforme explica Willian:</p>
			<p>
				<disp-quote>
					<p><bold>Excerto 04:</bold> É, na faculdade a gente teve só, no início da
						faculdade a gente teve cadeiras de produção de textos, ainda o professor da
						época falou que era importante a gente fazer essas cadeiras, porque na época
						muitas pessoas não viam essa importância... Eu gosto muito de ler, também.
						Não muitos livros, mas eu leio bastante coisa da Internet e leio jornais,
						mas livro ultimamente não, eu gosto, mas ultimamente não tenho tido muito
						tempo...</p>
				</disp-quote>
			</p>
			<p>Conforme explica o engenheiro, durante a graduação, ele não teve muitas disciplinas
				que sistematizassem o trabalho com a linguagem verbal, embora ela estivesse presente
				em todo o processo. Chama a atenção, porém, o fato de que o participante afirma que
				na época muitas pessoas não viam essa importância, ao utilizar a expressão na época,
				o profissional sinaliza que, em momento posterior, a importância das linguagens foi
				percebida. Como o engenheiro está em um momento histórico posterior à graduação, já
				no mundo do trabalho, ele consegue lançar um “olhar exotópico” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B1">Bakhtin, 2003</xref>), isto é, um olhar de fora para
				sua formação e reconstruir uma percepção com base em sua experiência
				profissional.</p>
			<p>A relação entre as atividades de leitura (e escrita) do mundo do trabalho com as da
				esfera acadêmica na formação dos engenheiros é bastante tênue. A concepção de
				leitura construída pelos engenheiros, ao longo do seu processo formativo na
				graduação, se dá, em geral, na parte inicial do curso, nos primeiros semestres no
				caso da IES pesquisada, quando o acadêmico não articula o saber disciplinar com o
				mundo do trabalho. Esse hiato, que se dá nas matrizes curriculares, leva o acadêmico
				a compreender que a leitura (e a escrita) faz parte de uma disciplina como assinala
				o sujeito: a gente teve cadeiras de produção de textos. Esta falta de diálogo entre
				as diferentes esferas tem como atitude responsiva ativa do sujeito a inserção em
				práticas de leitura em seu cotidiano.</p>
			<p>Como discutido no excerto 04, são poucas as disciplinas de abordam as práticas de
				linguagem verbal de forma sistemática no desenho curricular ora debatido. Muitas
				vezes, essas disciplinas não são bem aproveitadas pelos acadêmicos, como apresenta
				Carlos:</p>
			<p>
				<disp-quote>
					<p><bold>Excerto 05:</bold> Foram poucas, pouco utilizadas até, porque o pessoal
						da engenharia não gosta da parte de escrita, prefere mais a parte de número
						e de cálculo e coisas assim e... no caso... hoje eu indicaria pra ter um
						número maior de cadeiras pelo fato de, como a nossa abordagem é muito
						superficial, não dá tempo de aprofundar.</p>
				</disp-quote>
			</p>
			<p>Em sua fala, o engenheiro justifica a falta de dedicação dos acadêmicos às
				disciplinas que abordam a linguagem verbal na engenharia, pois os estudantes dessa
				área não gostam de ler e escrever. Nos cursos das áreas da engenharia, não é raro
				que os acadêmicos tenham escolhido essa formação justamente por terem mais
				facilidade no trabalho com os números e menos afinidade com as práticas de leitura e
				escrita. Por, muitas vezes, as disciplinas que abordam a linguagem verbal serem
				oferecidas no início do curso, quando os acadêmicos ainda não são atuantes na área,
				e isso faz com que eles não consigam perceber a aplicação prática desses
				conhecimentos em sua formação para o mundo do trabalho. Faltam, nesse sentido, uma
				instrução formal e uma aproximação com a ação profissional propriamente dita na área
				que possibilitem aos estudantes uma projeção mais prática de sua identidade no mundo
				profissional.</p>
			<p>Neste ponto, é válido frisar que esse engenheiro foi formado por meio de um currículo
				organizado por disciplinas, o que pode resultar em uma distância maior entre teoria
				e prática. Dessa forma, por conta da dissociação que parece existir entre a
				linguagem verbal e a prática profissional do engenheiro (enfoque no caráter técnico
				da linguagem, conforme já discutido neste trabalho), o sujeito não consegue
				apresentar uma compreensão de que as práticas sociais (nesse caso, as práticas que
				caracterizam o fazer do engenheiro) são mediadas pela linguagem.</p>
			<p>Como Carlos também já é um engenheiro atuante no mundo do trabalho, ele lança um
				olhar exotópico sobre sua formação acadêmica de forma que defende que hoje eu
				indicaria pra ter um número maior de cadeiras pelo fato de, como a nossa abordagem é
				muito superficial, não dá tempo de aprofundar. Ao utilizar o advérbio de tempo
					(<xref ref-type="bibr" rid="B16">Neves, 2000</xref>) hoje, o engenheiro localiza
				sua fala em um tempo histórico específico, faz um contraponto temporal: um momento
				no qual já atua no mundo profissional e, portanto, compreende melhor suas funções
				cotidianas de forma a lançar um olhar crítico para sua formação inicial, salientando
				a necessidade de um trabalho sistemático com as práticas de leitura e escrita, ainda
				que em disciplinas individualizadas.</p>
			<p>Mesmo não sendo o foco dos cursos de formação em engenharia, a leitura é uma demanda
				fundamental para sua atuação no mundo do trabalho. Se compreendermos o curso
				superior como a base fundamental para a formação de um profissional, como essa
				prática de leitura pode, então, ser abordada de forma sistematizada e clara para que
				se construam conhecimentos aplicáveis de forma prática por parte dos acadêmicos?
				Depreendemos que a relação com os gêneros e práticas recorrentes na atuação do
				engenheiro precisam encontrar bases durante a graduação, para que, ao ultrapassar a
				linha inicial do mundo profissional, ele já tenha uma bagagem que poderá ser
				aproveitada.</p>
			<p>Passamos, então, às discussões do contexto curricular português. O MIE reformulou seu
				currículo a partir das orientações do Tratado de Bolonha (atualmente conhecido como
				Espaço Europeu de Ensino Superior - EEES) e, assim, incluiu projetos curriculares
				que servem como uma maior aproximação entre as disciplinas do currículo. O trabalho
				com a leitura e a escrita na formação em engenharia, então, não ocorre apenas por
				meio de disciplinas, mas por um trabalho coletivo entre as unidades curriculares que
				participam dos projetos desenvolvidos no curso. Dessa forma, a leitura e produção de
				textos faz parte das atividades empreendidas pelos acadêmicos ao longo de sua
				formação inicial e conta com feedbacks de todos os professores envolvidos.</p>
			<p>Durante as atividades do MIE, os estudantes precisam produzir diferentes gêneros
				discursivos, conforme o <xref ref-type="table" rid="t2">Quadro 02</xref>
				apresenta:</p>
			<p>
			<table-wrap id="t2">
				<label>Quadro 02</label>
				<caption>
					<title>Relação entre os semestres de projeto e os gêneros produzidos pelos
						acadêmicos do MIE à época da geração de dados.</title>
				</caption>
				<alternatives>
							<graphic xlink:href="t2.jpg"/>
				<table frame="box" rules="all">
					<colgroup>
						<col width="50%"/>
						<col width="50%"/>
					</colgroup>
					<thead>
						<tr>
							<th align="center">Semestre do projeto:</th>
							<th align="center">Gêneros produzidos:</th>
						</tr>
					</thead>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="center">1.º semestre</td>
							<td align="center">Relatório<break/>Apresentações orais</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="center">7.º semestre</td>
							<td align="center">Blog<break/>Artigo científico<break/>Apresentações
								orais</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="center">8.º semestre</td>
							<td align="center">Dissertação<break/>Apresentações orais</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
			</alternatives>
					<attrib>Fonte: dados das autoras.</attrib>
			</table-wrap>
		</p>
			<p>Para a produção desses gêneros, é necessário que os estudantes mobilizem os
				conhecimentos construídos nas unidades curriculares que participam dos projetos e
				analisem escolhas e dados das atividades práticas do projeto. Emerge, aí, a
				necessidade de construção de conhecimentos teóricos para que as análises sejam
				aprofundadas e coerentes. No 7.º semestre, no qual estão inseridos os participantes
				desta pesquisa, os dados são coletados nas empresas nas quais os estudantes estão
				atuando e analisados com base nos conhecimentos construídos na academia. O acadêmico
				Guilherme explica algumas de suas práticas de leitura e escrita no âmbito do
				projeto:</p>
			<p>
				<disp-quote>
					<p><bold>Excerto 06:</bold> Leitura e escrita é ((risos)) o que nós temos feito
						é recolher dados, até, até o momento e depois começarmos a uma parte do
						engenheiro, não tem, não começamos a escrever. Agora, há uma, há um
						documento escrito com o processo, mas a nós vermos o mesmo processo em
						diagramas e onde temos os dados é numa tabela anexa com vários, vários
						fatores, então é a parte do engenheiro esta.</p>
				</disp-quote>
			</p>
			<p>Das palavras de Guilherme, emerge a interação do engenheiro com o gênero diagrama, um
				documento no qual estão dispostas diferentes informações a serem interpretadas para
				que o fluxo de trabalho na empresa possa ser registrado e compreendido. Quando
				explica a constituição desses diagramas, Guilherme se refere a uma tabela, emergem
				as múltiplas linguagens com as quais o engenheiro atua em seu meio profissional,
				valendo-se da leitura e da interpretação. Nesse sentido, a leitura caracteriza a
				função do engenheiro, destaca a atuação desse profissional na esfera na qual está
				inserido, mais do que um meio de informação, a leitura constitui o fazer
				profissional do engenheiro, faz parte do seu cotidiano.</p>
			<p>Outra questão que surge dos dizeres de Guilherme é a posição que ele assume dentro da
				dinâmica da empresa, a forma como ele projeta a identidade de engenheiro quando
				sinaliza que as atividades que desempenha são a parte do engenheiro, sua atribuição.
				A partir da atuação nos projetos, a interação com os gêneros e as funções sociais de
				cada gênero em circulação no seu contexto de trabalho, Guilherme constitui sua
				identidade profissional e se apresenta como membro efetivo das práticas da esfera
				profissional. A atuação no Discurso profissional, em engenharia, reflete na forma
				como o acadêmico compreende a si próprio e o cenário no qual está inserido, pois
				como defende <xref ref-type="bibr" rid="B8">Gee (1999, p. 38, tradução
				nossa)</xref>, os Discursos envolvem “identidades situadas e formas de realizar e
				reconhecer identidades e atividades características” de uma esfera e uma atuação
				social. Vale salientar que Guilherme ainda está em formação, porém já consegue
				projetar sua identidade profissional, justamente por ser um insider das práticas
				profissionais da sua área, por meio dos projetos dos quais participou.</p>
			<p>Nesse sentido, um aspecto a se considerar acerca das práticas de leitura (e também de
				escrita) em uso na esfera profissional em engenharia é a forma como os estudantes
				compreendem os reflexos dos projetos na constituição da sua identidade profissional.
				Como esses sujeitos em formação avaliam o processo pelo qual estão sendo formados.
				Segundo o acadêmico Jean:</p>
			<p>
				<disp-quote>
					<p><bold>Excerto 07:</bold> Eu acho que [o projeto] é o que nos aproxima mais do
						trabalho que vamos desenvolver no futuro, e isso acho que é... é muito
						positivo para a nossa preparação porque não é com... as aulas são muito
						acentuadas, mas não é trabalho de campo e os projetos permitem-nos entrar
						numa realidade e criar hábitos de trabalho e temos o todo que nos aproxima
						muito mais...</p>
				</disp-quote>
			</p>
			<p>Ao assumir a identidade acadêmica, Jean lança um olhar sobre a sua formação
				interligada entre as esferas acadêmica e profissional. Quando assume o projeto como
				o que nos aproxima mais do trabalho que vamos desenvolver no futuro, o acadêmico se
				coloca no papel social de estudante que está passando por um processo de formação
				para atuar no futuro na esfera profissional. Nesse sentido, ele atribui um “acento
				apreciativo” (<xref ref-type="bibr" rid="B2">Bakhtin, 2012</xref>) a essa formação,
				quando defende que é muito positivo para a nossa preparação. A posição do acadêmico
				é defendida de forma a ressaltar o caráter favorável da formação por meio dos
				projetos. Dessa forma, por mais que Jean assuma a posição de acadêmico, ao ponderar
				sobre sua participação no projeto, ele expressa avaliações que só podem ser
				construídas porque já desempenhou o papel social profissional na empresa, isto é,
				ele compreende que a formação que integra academia e mundo profissional é positiva
				para sua carreira porque esteve inserido em práticas reais e efetivas do mundo do
				trabalho. Assim, emergem as identidades interligadas constituídas na interface entre
				as esferas acadêmica e profissional.</p>
			<p>Jean salienta, ainda, que os projetos permitem-nos entrar numa realidade e criar
				hábitos de trabalho. Os projetos do 7.º semestre do MIE contribuem para os
				acadêmicos se inserirem efetivamente na esfera profissional, apropriarem-se das
				práticas de linguagem e participarem de práticas que são características do mundo do
				trabalho em engenharia, ainda durante a formação acadêmica. Mais do que ilustrar
				situações da esfera do trabalho, os projetos são uma forma de os acadêmicos
				compreenderem na prática o funcionamento, as linguagens profissionais, os Discursos
				e os gêneros que circulam e caracterizam o fazer profissional do engenheiro. Por
				meio do trabalho coletivo, as práticas de leitura, de escrita e de oralidade são
				mais profundamente trabalhadas durante os projetos e, dessa forma, os acadêmicos se
				tornam insiders dessas práticas profissionais ainda durante a formação
				acadêmica.</p>
			<p>Para finalizar as discussões acerca das práticas de leitura que fazem parte da
				formação de engenheiros no MIE, discutimos a compreensão que os acadêmicos têm do
				papel da linguagem verbal em sua atuação profissional, conforme afirma Vânia:</p>
			<p>
				<disp-quote>
					<p><bold>Excerto 08:</bold> Acho que todos percebemos a importância da oralidade
						e escrita na engenharia, porque na engenharia é tudo muito técnica,
						matemática, física, não temos muito presente aquilo que da importância da
						oralidade pra nós, isso é uma falta.</p>
				</disp-quote>
			</p>
			<p>Ponderamos, a partir das palavras da estudante de engenharia, sobre a forma como a
				metodologia PBL favorece a natureza dialógica (<xref ref-type="bibr" rid="B1"
					>Bakhtin, 2003</xref>) da formação acadêmica. Na interação com os pares e no
				transitar entre as esferas acadêmica e profissional, é possível que os estudantes
				compreendam a linguagem em seus diferentes contextos de uso, o que leva à construção
				de sentidos e ao reconhecimento dos propósitos e objetivos que são mobilizados no
				empreendimento de práticas de linguagem no âmbito da Engenharia.</p>
			<p>Ainda que não mencione a leitura de forma específica, compreendemos que ela está de
				alguma forma articulada à escrita nas palavras da estudante de engenharia, pois há a
				necessidade de se apropriar de conhecimentos a partir da leitura. Ao refletir sobre
				as linguagens em circulação na esfera do trabalho em engenharia, Vânia assume o
				papel social de profissional e lança um olhar sobre a representação histórica que se
				tem dessa área do saber. Ao defender que todos percebemos a importância da oralidade
				e escrita na engenharia, Vânia expressa a visão de um sujeito que está inserido nas
				práticas profissionais e que, por conta dessa inserção, compreende os usos da
				linguagem e os papéis que ela desempenha nesse âmbito.</p>
			<p>Ponderamos, nesse sentido, sobre os reflexos da formação acadêmica na constituição
				profissional dos acadêmicos do MIE. Como discutimos em dados anteriores deste
				trabalho, nem sempre os acadêmicos de engenharia conseguem projetar sua identidade
				profissional durante a graduação, reconhecendo as demandas a eles atribuídas, pois
				não têm contato com sua área profissional durante a formação inicial. A partir das
				indicações dos professores e, especialmente, da efetiva inserção no mundo do
				trabalho, os estudantes participantes de projetos conseguem construir conhecimentos
				práticos acerca das funções e funcionamentos da linguagem na atuação do
				engenheiro.</p>
			<p>Por meio da atuação social em práticas de linguagem específicas do mundo profissional
				dos engenheiros é que os sujeitos vão se constituir profissionais, pois “o sujeito
				aprende a ser engenheiro no momento em que entra no mercado de trabalho, até então,
				estava sendo preparado para isso. [...] mas não se pode esquecer que a formação se
				conecta amplamente ao trabalho” (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Heinig e Franzen,
					2013</xref>, p. 17). Nesse sentido, os currículos que se baseiam em projetos
				preconizam uma formação articulada nas esferas acadêmica e profissional, pois, ao
				serem inseridos no mundo do trabalho, como profissionais, os estudantes ainda contam
				com o respaldo da universidade, como acadêmicos. A formação, assim, ocorre de forma
				mais ampla e proporciona essa visão apresentada por Vânia, da importância da
				leitura, da escrita e da oralidade em uso na esfera profissional, enquanto ainda
				transita pela esfera acadêmica.</p>
			<p>A partir das discussões apresentadas ao longo do texto, é possível compreender uma
				diferença entre currículos integrados e currículos disciplinares na formação
				acadêmica em Engenharia no que diz respeito à linguagem verbal. As metodologias como
				o PBL oferecem contextos de interação entre as esferas acadêmica e profissional, a
				partir dos quais a língua é empreendida em práticas sociais dialógicas de
				constituição dos sujeitos que atuam nesses contextos. Dessa forma, a identidade do
				engenheiro é constituída ao longo das práticas das quais participa desde a formação
				inicial e o dialogismo (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Bakhtin, 2003</xref>) de
				interação com pares do seu meio social.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações finais</title>
			<p>Este artigo teve como objetivo discutir como se efetivam práticas de leitura em dois
				contextos curriculares distintos de formação em engenharia: um baseado em projetos e
				outro, organizado por disciplinas individualizadas. Para isso, foram mobilizados
				enunciados de engenheiros formados e atuantes em sua área de formação no Brasil e de
				estudantes de engenharia em formação acadêmica e profissional articuladas em
				Portugal.</p>
			<p>As discussões sinalizam que distintos desenhos curriculares resultam em diferentes
				espaços para as práticas de leitura na formação do engenheiro. Ainda que nem sempre
				recebam um trabalho sistematizado, as práticas de leitura têm funções fundamentais
				tanto na formação acadêmica quanto na atuação profissional nas engenharias.</p>
			<p>Ao longo das análises, compreendemos que as práticas de leitura (bem como de escrita
				e de oralidade) precisam de um trabalho sistematizado e articulado durante a
				formação em engenharia. Ao aproximar a formação acadêmica da profissional, como nos
				projetos, os acadêmicos conseguem projetar sua identidade de engenheiros ainda
				durante a formação e conseguem, assim, compreender os padrões, funções e
				funcionamentos da linguagem verbal enquanto parte constitutiva das engenharias e de
				suas práticas profissionais.</p>
			<p>Consideramos que a principal contribuição dessas discussões à área do saber é que o
				trabalho com linguagem verbal em engenharia funciona de maneira mais frutífera
				quando é empreendido de forma articulada entre as unidades curriculares empreendidas
				pelos estudantes. Uma disciplina, no meio do processo, não dá conta de responder às
				demandas apresentadas. Quanto mais próximo à atuação profissional, melhor o
				estudante consegue vislumbrar o seu papel nesse contexto.</p>
			<p>Ponderamos, ainda, sobre como os resultados positivos com o trabalho por projetos na
				formação em engenharia, em outras partes do mundo, têm refletido em currículos
				brasileiros: atualmente, algumas instituições de ensino superior brasileiras vêm
				repensando seus desenhos curriculares a fim de que a formação acadêmica e a formação
				profissional dos engenheiros tenham uma maior interação durante a graduação. Em meio
				a essas mudanças, as práticas de leitura ganham, também, um lugar institucionalizado
				no currículo das engenharias. Essas iniciativas ainda são isoladas no país, mas vêm
				crescendo e ganhando força.</p>
			<p>Ressaltamos, por fim, a importância da interação entre sujeitos e discursos
				característicos da área de Engenharia durante a formação acadêmica dos futuros
				engenheiros. Participar, pois, de práticas de linguagem específicas da área e atuar
				com sujeitos sociais que transitam nesse meio são fundamentais à constituição da
				identidade do profissional, visto que é atuando ativamente que o sujeito se torna
				membro efetivo de uma determinada esfera.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>Os dados analisados neste artigo foram gerados nos contextos brasileiro e
					português entre 2010 e 2013, período no qual as instituições proponentes não
					exigiam aprovação ética para pesquisas das áreas de Educação e Linguística. Ao
					entrar nos campos de pesquisa, porém, houve solicitação prévia e, mediante
					aceitação das instituições, foi realizada a geração de dados com sujeitos, que
					também foram consultados sobre a participação. Os sujeitos deram seu aceite por
					e-mail ao responderem ao convite, entretanto, não assinaram termo de
					consentimento. Todos os nomes dos sujeitos foram substituídos por pseudônimos
					conforme se detalha no artigo.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>Justificamos a menção à escrita, ainda que o foco do artigo seja a leitura, por
					compreender que na geração dos dados, as práticas sempre foram mencionadas de
					forma coletiva.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p>As principais normas de transcrição dos excertos deste artigo são: MAÍSCULAS
					indicam ênfase, ... indicam pequenas pausas, [ ] indicam explicações das
					pesquisadoras, (( )) indicam explicações de atos não verbais.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>6</label>
				<p>“Situated identities; ways of performing and recognizing characteristic
					identities and activities” (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Gee, 1999</xref>, p.
					38).</p>
			</fn>
		</fn-group>
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					<source>Estética da criação verbal</source>
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