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			<journal-id journal-id-type="nlm-ta">Calidoscópio</journal-id>
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				<journal-title>Calidoscópio</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Universidade do Vale do Rio dos
					Sinos</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="epub">2177-6202</issn>
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				<publisher-name>Universidade do Vale do Rio dos Sinos</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.4013/cld.2019.171.05</article-id>
			<article-id pub-id-type="publisher-id">00005</article-id>
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					<subject>Artigos</subject>
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			<title-group>
				<article-title>A Formação no Seminário do Programa de Português para Estrangeiros da
					Universidade Federal do Rio Grande do Sul: uma modalidade híbrida de
					aprendizagem do professor-autor</article-title>
				<trans-title-group xml:lang="en">
					<trans-title>Teaching Seminar in Portuguese as a Foreign Language at
						Universidade Federal do Rio Grande do Sul: a hybrid modality for the
						learning of the teacher-author</trans-title>
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					<name>
						<surname>Costa</surname>
						<given-names>Everton Vargas da</given-names>
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					<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>*</sup></xref>
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					<label>1</label>
					<institution content-type="normalized">Framingham State University</institution>
					<email>evargasdacosta@framingham.edu</email>
					<institution content-type="original">Framingham State University
						evargasdacosta@framingham.edu</institution>
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			<author-notes>
				<fn fn-type="current-aff" id="fn1">
					<label>*</label>
					<p>Doutor em Letras; Professor de Português e Espanhol na Framingham State
						University.</p>
				</fn>
			</author-notes>
			<!--<pub-date publication-format="electronic" date-type="pub">
				<day>25</day>
				<month>10</month>
				<year>2019</year>
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			<pub-date publication-format="electronic" date-type="collection">-->
				<pub-date pub-type="epub-ppub">
				<season>Jan-Apr</season>
				<year>2019</year>
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			<volume>17</volume>
			<issue>1</issue>
			<fpage>78</fpage>
			<lpage>96</lpage>
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				<date date-type="received">
					<day>01</day>
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				<date date-type="accepted">
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					<year>2018</year>
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				<license license-type="open-access"
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
				</license>
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			<abstract>
				<title>Resumo:</title>
				<p>Este trabalho analisa a participação no seminário de formação de professores no
					Programa de Português para Estrangeiros (PPE) da Universidade Federal do Rio
					Grande do Sul, a partir da observação de eventos de formação (<xref
						ref-type="bibr" rid="B2">Costa, 2018</xref>). Partindo de uma visão de
					formação de professores como aprendizagem e reflexão conjunta (<xref
						ref-type="bibr" rid="B14">Nóvoa, 1995</xref>), assume-se que os professores
					produzem experiências significativas e agem como profissionais reflexivos (<xref
						ref-type="bibr" rid="B22">Schön, 2000</xref>; <xref ref-type="bibr"
						rid="B18">Perrenoud, 2002</xref>), desenvolvendo sua formação com
					conhecimentos de ordem teórica e prática e participando em comunidades de
					prática, onde conhecimento e identidades são construídos conjuntamente entre
					pares (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Wenger, 1998</xref>). A análise
					qualitativa dos dados permite afirmar que o seminário do PPE é um espaço
					tipicamente híbrido de formação docente (<xref ref-type="bibr" rid="B24"
						>Zeichner, 2010</xref>), no qual a participação em eventos de formação
					indica que trabalhar está a serviço do ensino e da aprendizagem dos alunos, mas
					também a serviço da aprendizagem dos professores. Além disso, identifica-se que
					a participação nos seminários é em grande medida uma oportunidade de construção
					da autoria do professor. Nessa modalidade, os professores são constantemente
					convidados a responder pelas atividades em que se engajam e assumem a
					responsabilidade pela singularidade que produzem (<xref ref-type="bibr" rid="B7"
						>Garcez e Schlatter, 2017</xref>).</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract:</title>
				<p>This paper analyzes the participation in the teacher’s training seminar in the
					Portuguese as a Foreign Language (PPE) program of Universidade Federal do Rio
					Grande do Sul, based on the observation of teacher’s education events (<xref
						ref-type="bibr" rid="B2">Costa, 2018</xref>). Starting from a vision of
					teacher education as learning and joint reflection (<xref ref-type="bibr"
						rid="B14">Nóvoa, 1995</xref>), it is assumed that teachers produce
					meaningful experiences and act as reflective professionals (<xref
						ref-type="bibr" rid="B22">Schön, 2000</xref>; <xref ref-type="bibr"
						rid="B18">Perrenoud, 2002</xref>); develop their training with knowledge of
					theoretical and practical order; and participate in communities of practice,
					where knowledge and identities are built jointly between peers (<xref
						ref-type="bibr" rid="B23">Wenger, 1998</xref>). The qualitative analysis of
					the data enables the affirmation that the PPE seminar is a typically hybrid
					space for teacher training (<xref ref-type="bibr" rid="B24">Zeichner,
						2010</xref>), in which participation in learning events indicates that
					working is at the service of teachers’ learning. In addition, it is identified
					that participation in seminars is an opportunity to construct teacher’s
					authorship. In these seminars, teachers are constantly invited to present
					accounts on the activities they engage in and, by doing so, they take
					responsibility for the uniqueness they produce (<xref ref-type="bibr" rid="B7"
						>Garcez and Schlatter, 2017</xref>).</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Formação de professores</kwd>
				<kwd>Etnografia</kwd>
				<kwd>Aprendizagem</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>Teachers’ education</kwd>
				<kwd>Ethnography</kwd>
				<kwd>Learning</kwd>
			</kwd-group>
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			</counts>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução</title>
			<p>A formação inicial e formação continuada residem em uma constante tensão que parece
				definir a própria profissão: o papel da formação continuada incorpora constantemente
				o ideário de superação de déficits da formação inicial, ao mesmo tempo em que leva
				em consideração o caráter tautológico do professor com o conhecimento, em constante
				atualização considerando momentos históricos e contextos específicos. Nesse sentido,
				estudos da área questionam perspectivas que pensam a formação inicial sem considerar
				a prática do serviço docente ou propostas de formação continuada que não compreendam
				o histórico de práticas em serviço e a formação inicial dos professores (<xref
					ref-type="bibr" rid="B13">Mizukami <italic>et al</italic>., 2003</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B6">Fundação Carlos Chagas, 2011</xref>). Com o propósito
				de visibilizar propostas sobre a formação de professores, este trabalho trata de uma
				ação de formação em português como língua adicional que pode ser entendida como
				alternativa ao modelo de ruptura entre formação inicial e continuada.</p>
			<p>O Programa de Português para Estrangeiros (doravante PPE) da Universidade Federal do
				Rio Grande do Sul é uma ação de extensão, que tem como objetivos promover a formação
				de professores de português como língua adicional (PLA) e contribuir para a expansão
				e o aprimoramento do ensino de PLA e da pesquisa na área e configura-se como
				proposta híbrida de profissionalização de docentes (<xref ref-type="bibr" rid="B24"
					>Zeichner, 2010</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B9">Korhonnen <italic>et
						al</italic>., 2017</xref>). Em mais de 20 de anos de trajetória, o PPE
				funciona como plataforma de articulação de políticas de internacionalização da
				universidade e atende a estudantes estrangeiros residentes na região de Porto
				Alegre, no sul do Brasil. Os trabalhos de pesquisa produzidos no programa focalizam
				questões como elaboração de materiais didáticos para ensino presencial e a
				distância, concepção de cursos de língua, literatura e cultura, avaliação e questões
				teóricas relativas ao ensino e aprendizagem de PLA. A formação dos professores
				acontece na prática de ensino e na discussão de visões teóricas durante seções de
				seminário. O seminário como prática de formação inclui a reflexão sobre o ensino, em
				seu caráter experimental, e estimula o envolvimento dos participantes em
					pesquisas<xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref> (<xref ref-type="bibr" rid="B2"
					>Costa, 2018</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B20">Schlatter <italic>et
						al</italic>. no prelo</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B7">Garcez e
					Schlatter, 2017</xref>).</p>
			<p>O objetivo deste trabalho é descrever como acontece a formação de professores nos
				seminários do PPE e apresentar o tipo de trajetórias de participação construídas
				pelos professores que dele participam. Utilizo a noção de eventos de formação (<xref
					ref-type="bibr" rid="B2">Costa, 2018</xref>) para caracterizar momentos
				propícios para aprender, com propósitos de solucionar problemas gerados em sala de
				aula e compartilhados entre colegas durante o seminário. Os eventos de formação são
				encontros dialogados entre professores no qual se focalizam questões que impactem as
				práticas docentes. <xref ref-type="bibr" rid="B11">Lemos (2014)</xref>, por exemplo,
				ao utilizar-se da noção de eventos de formação em contexto online, observou como
				certas ações desempenhadas pelas professoras, em reuniões e em pedidos ocasionais de
				ajuda, acabaram por modificar o que elas decidiam incluir ou não em seus planos de
				aula e na condução das interações com os estudantes. Em <xref ref-type="bibr"
					rid="B2">Costa (2018)</xref>, o conceito foi discutido com base nos propósitos
				comunicativos identificados em interações entre professores, no tipo de temática
				focalizada e em possíveis resultados observáveis dessas interações, como a
				elaboração de materiais didáticos, organização de ações pedagógicas conjuntas e pelo
				relato de reflexões posteriores. Dentre as modalidades de formação analisadas, o
				seminário do PPE revela-se um espaço prolífico de eventos de formação com efeitos na
				construção de identidades profissionais dos professores, e é sobre essa modalidade
				específica que este artigo se concentra.</p>
			<p>O conceito de eventos de formação provém da noção de que nas práticas do dia a dia
					(<xref ref-type="bibr" rid="B16">Pérez Gómes, 1995</xref>; <xref ref-type="bibr"
					rid="B14">Nóvoa, 1995</xref>) os professores constroem sua formação como
				profissionais reflexivos (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Schön, 1983</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B22">2000</xref>) a medida em que conhecimentos e
				identidades são constituídos conjuntamente com seus pares em comunidades de prática
					(<xref ref-type="bibr" rid="B10">Lave e Wenger, 1991</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B23">Wenger, 1998</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B7"
					>Garcez e Schlatter, 2017</xref>). A metodologia que orienta a descrição do
				conceito e que guia o trabalho de geração e análise dos dados é a pesquisa
				qualitativa de cunho etnográfico (<xref ref-type="bibr" rid="B12">Mason,
				1996</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B5">Fonseca, 1999</xref>). Para os autores
				citados, a interação entre os participantes nas atividades do cotidiano e no campo
				de trabalho tem potencial para produzir formação profissional. A partir do registro
				de observação participante, da produção de diários e de transcrições de gravações de
				áudios, o presente artigo descreve as práticas dos professores no seminário de
				formação no PPE, relacionando as ações das participantes observadas à construção de
				suas trajetórias de participação naquele contexto. Após a análise qualitativa dos
				dados, conclui-se que o seminário contribui para uma formação híbrida (inicial e
				continuada) dos professores (<xref ref-type="bibr" rid="B24">Zeichner, 2010</xref>),
				e impacta na construção de identidades ao investir no exercício público de ser
				professor-autor (<xref ref-type="bibr" rid="B7">Garcez e Schlatter, 2017</xref>). Na
				seguinte seção, apresento os conceitos teóricos estruturantes para desenvolver a
				noção de <italic>eventos de formação</italic> e para a análise dos dados.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Aspectos Estruturantes para a Pesquisa sobre Formação de Professores</title>
			<p><xref ref-type="bibr" rid="B14">Nóvoa (1995</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B15"
					>2007)</xref> propõe que a formação seja planejada observando a sua dimensão
				organizacional. Para o autor, aprender a ensinar tem a ver com transformar e mudar
				práticas pedagógicas e também organizações escolares e seu funcionamento. Assim,
				formação pode ser vista como um investimento educativo dos projetos
				político-pedagógicos em que a escola é um cenário de aprendizagem docente. A
				formação, nessa perspectiva, não estaria pautada por uma ruptura entre a formação
				inicial e continuada, mas trata-se de um processo híbrido, contínuo, permanente,
				integrado no cotidiano dos professores e das escolas (<xref ref-type="bibr"
					rid="B24">Zeichner, 2010</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B9">Korhonnen
						<italic>et al</italic>., 2017</xref>). Alinhadas à concepção de profissional
				reflexivo de <xref ref-type="bibr" rid="B21">Schön (1983</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B22">2000)</xref><xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref>,
				passa-se a ver as etapas de formação em andamento como um <italic>continuum</italic>
					(<xref ref-type="bibr" rid="B24">Zeichner, 2010</xref>). Tais perspectivas
				mostram a instituição educacional como um território de ações colaborativas e de
				formação mútua em âmbitos relevantes para todos os envolvidos, desde a organização
				das etapas de formação, passando pela consolidação da profissão e culminando na
				realidade unívoca de cada sala de aula.</p>
			<p><xref ref-type="bibr" rid="B24">Zeichner (2010)</xref> argumenta que o tradicional
				paradigma de formação de professores na universidade, segundo o qual a universidade
				e as pesquisas acadêmicas são as únicas fontes autorizadas de conhecimento sobre o
				ensino, precisa se adaptar a uma relação não hierárquica entre os saberes de
				acadêmicos, dos profissionais e das comunidades. Tal mudança de paradigma deve ser
				um trabalho coordenado entre universidade e escola tendo em vista expandir as
				oportunidades de aprendizagem sobre o ensino para futuros professores e melhor
				prepará-los para o início da prática docente.</p>
			<p>Entende-se, portanto, que formação é uma aprendizagem, contínua, situada, sendo os
				ambientes escolares primordiais em tais processos, individual ou coletivamente, o
				que faz da formação “uma construção humana e social, na qual, os diferentes
				intervenientes possuem margens de autonomia na condução dos seus projetos próprios”
					(<xref ref-type="bibr" rid="B14">Nóvoa, 1995</xref>, p. 30). A formação assim
				entendida é um percurso histórico de instauração de dispositivos de parceria entre
				todos os atores sociais, profissionais e institucionais, promovendo as comunidades
				de prática (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Lave e Wenger, 1991</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B23">Wenger, 1998</xref>) e espaços híbridos e coletivos de
				trabalho como instrumentos de formação (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Nóvoa,
					2007</xref>). Em comunidades de prática, os professores aprendem ao engajar-se
				mutuamente para alcançar propósitos compartilhados com base em uma história comum.
				Trata-se de um conjunto de relações entre pessoas, atividade e mundo sobrepostas a
				outras comunidades de prática tangenciais, uma condição intrínseca para a existência
				do conhecimento que fornece o suporte necessário para a produção de significados e,
				consequentemente, para a aprendizagem (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Wenger,
					1998</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B17">Perin, 2009</xref>).</p>
			<p>No PPE, professores em diferentes fases de formação trabalham juntos e interagem em
				situações que lhes permitem ampliar seus saberes e reflexões. Nesse sentido, o
				trabalho conjunto entre professores com diferentes trajetórias (graduandos,
				pós-graduandos, formados etc.) é representativo da indução à profissão. Portanto,
				entende-se que a formação inicial e a continuada se interconectam em um
					<italic>continuum</italic> e que ações que possibilitem a indução do professor
				em preparação ao mundo da docência contribuem para diluir a problemática
				dicotomização na relação da teoria com a prática (<xref ref-type="bibr" rid="B16"
					>Pérez Gómez, 1995</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B1">Costa, 2013</xref>;
					<xref ref-type="bibr" rid="B2">Costa 2018</xref>). Assim, tal paradigma sustenta
				o modo como as ações dos professores são analisadas neste trabalho: considera-se que
				a interação nos espaços de ensino promove oportunidades de aprendizagem sobre a
				prática docente e este trabalho procura mostrar uma instância em que tais
				ocorrências podem ser observadas e descritas.</p>
			<p>As pesquisas de <xref ref-type="bibr" rid="B1">Costa (2013)</xref> e <xref
					ref-type="bibr" rid="B11">Lemos (2014)</xref> são dois exemplos em que se
				privilegia essa perspectiva. Nos dados apresentados por <xref ref-type="bibr"
					rid="B1">Costa (2013)</xref>, professores com formação específica e não formados
				na área de Letras conseguem prover respostas a dúvidas dos colegas com base em
				experiências bem-sucedidas e pela construção de seu próprio repertório, sem que o
				fato de alguns terem formação específica torne-se relevante entre eles. Pôde-se
				observar que perspectivas teóricas estão inter-relacionadas com vivências e com a
				participação em encontros dialogados, momentos propícios para aprender a ensinar,
				entendidos como eventos de formação. Já <xref ref-type="bibr" rid="B11">Lemos
					(2014)</xref> estuda eventos de formação em um caso de docência compartilhada em
				um curso de português para estrangeiros a distância. A autora verifica os modos de
				início de um evento de formação (pedidos de ajuda, exposição de situações
				problemáticas, por exemplo), tópicos mais recorrentes em eventos de formação
				(contato inicial com os alunos, organização do curso, avaliação) e também a relação
				entre ações observáveis no andamento do curso e os eventos em situações de conversas
				entre professoras. <xref ref-type="bibr" rid="B11">Lemos (2014)</xref> conclui que,
				no ensino à distância, “há condições de se verificar as ações levadas a cabo pelos
				participantes depois dos eventos de formação” (p. 112) devido ao registro das ações
				no ambiente virtual de aprendizagem e também nos artefatos utilizados pelas
				participantes para levar a cabo a docência compartilhada.</p>
			<p><xref ref-type="bibr" rid="B2">Costa (2018)</xref> apresenta extensivamente o
				trabalho que aqui é relatado, tendo o PPE como cenário, e traz o entendimento de que
				um evento de formação é um diálogo entre professores que funciona como lócus do
				desenvolvimento profissional pela perspectiva da aprendizagem (<xref ref-type="bibr"
					rid="B10">Lave e Wenger, 1991</xref>). A partir da análise etnográfica de dados
				pode-se afirmar que há uma cultura de trabalho coletivo entre professores onde
				ocorre reflexão-na-ação e sobre-a-ação (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Schön,
					1983</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B22">2000</xref>; <xref ref-type="bibr"
					rid="B18">Perrenoud, 2002</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B7">Garcez e
					Schlatter, 2017</xref>) em uma ocorrência de tempo, espaço e modos de
				participação, com ações, tópicos e propósitos mais ou menos regulares, fundamental
				para a construção do entendimento do que é ser professor em cada contexto de
				atuação. A participação em eventos de formação produz reflexões prospectivas e/ ou
				retrospectivas, seja em modalidades planejadas, como o seminário aqui estudado, ou
				mesmo as menos planejadas e contingentes, como encontros nas salas dos
					professores<xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref>. Participar de tais eventos é
				parte da prática local, uma prática produzida e reproduzida na dinâmica da
				aprendizagem.</p>
			<p>A partir da visão de formação como aprendizagem da profissão docente, <xref
					ref-type="bibr" rid="B7">Garcez e Schlatter (2017)</xref>, alinhados ao que
					<xref ref-type="bibr" rid="B1">Costa (2013</xref>; <xref ref-type="bibr"
					rid="B2">2018)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B11">Lemos (2014)</xref>
				apregoam, propõem que a orientação da formação docente na universidade seja para a
				construção das identidades de professor-autor e de professor-autor-formador. Para os
				autores, o professor-autor investe na autoria tanto em decisões em nível das
				diretivas educacionais quanto das próprias demandas da sala de aula e de outros
				contextos de ensino. Essa identidade estrutura-se na articulação de conhecimentos
				para a resolução de problemas emergentes da prática; na convivência entre
				professores mais e menos experientes; e pela produção de reflexões sobre o que
				significa aprender a ensinar em um contexto específico. O professor-autor pode
				ampliar suas práticas de formação ao promover oportunidades para o registro do
				repertório construído, assumindo, para além da identidade de professor-autor, a
				identidade de um professor que, ao produzir textos, se responsabiliza pelos próprios
				repertórios e impacta a formação de outros professores, o que constitui a identidade
				de professor-autor-formador. Neste artigo, dedico-me a analisar o seminário do PPE
				como um território de ocorrências de eventos de formação e para a construção de
				identidade de professor-autor. Na próxima seção, reflito sobre os aspectos
				metodológicos relevante para este trabalho.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="methods">
			<title>Metodologia: Parâmetros Procedimentais Para a Análise de Eventos de
				Formação</title>
			<p>Neste artigo discuto as trajetórias de duas participantes do seminário do PPE
				identificadas pelos pseudônimos Jéssica e Adriana. No período de geração dos dados
				elas estavam em diferentes estágios de formação: Jéssica no quinto semestre da
				Licenciatura em Letras/ Português-Inglês, ensinando pela terceira vez o nível
				intermediário de língua portuguesa; e Adriana, no sétimo semestre de Letras/
				Português-Espanhol, ensinando pela primeira um curso de português básico para
				falantes de espanhol no PPE. Nos dados analisados também aparecem integrantes da
				equipe coordenadora, composta por três professoras adjuntas do Instituto de Letras,
				que normalmente gerenciam os seminários, e outros participantes. A pesquisa
				acompanhou as interações dos professores e coordenadoras ao longo de 60 dias tanto
				em seminários, reuniões de tutoria, aulas em docência compartilhada, como em
				encontros na sala dos professores ou no pátio da universidade, levantando uma
				coleção de eventos de formação nos quais as professoras participam. O registro da
				observação participante foi feito por notas de campo e gravações em áudio; em
				seguida, foi elaborada a redação de um diário de campo e das transcrições de
				excertos que indicassem confluência de ações e propósitos comunicativos, temas de
				conversa e potenciais resultados pedagógicos. Um exemplo de evento de formação
				bastante típico no PPE são aqueles motivados por pedidos de ajuda relacionados a
				questões emergentes de sala de aula, como pedir sugestões de sites para
					<italic>downloads</italic> de livros de literatura em pdf, gerando uma discussão
				detalhada sobre um projeto de sarau poético em nível intermediário. No presente
				artigo, são focalizados somente os encontros ocorridos no seminário e discutem-se as
				implicações das ocorrências dos eventos selecionados para a construção das
				identidades de professor-autor no PPE.</p>
			<p>A pesquisa qualitativa de cunho etnográfico como método de investigação sobre eventos
				de formação permite compreender as ações dos professores a partir da convivência do
				pesquisador por um período significativo de imersão no contexto de atuação dos
				participantes. É pela observação dos encontros dialogados entre professores que se
				pode descrever a existência de variações nos modelos culturais do PPE e compreender
				os significados construídos pelos participantes para seus entendimentos dos
				processos em que se engajam.</p>
			<p>A partir da observação participante, procedimento primordial da etnografia,
				explora-se a capacidade que todo ator social possui para aprender novas culturas e
				para compreender o funcionamento dessas culturas, o que faz do pesquisador a
				principal ferramenta desse tipo pesquisa. Nesses casos, como membro de tal cultura
				ou como um <italic>outsider,</italic> é importante tratar o familiar como se fosse
				antropologicamente estranho, em um esforço de fazer explícitos pressupostos que
				poderiam ser tomados como tácitos (<xref ref-type="bibr" rid="B4">Erickson,
					1990</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B8">Hammersley e Atkinson, 1995</xref>).
				É desse modo que se pode captar a relevância que as interações professor-professor
				adquirem para os participantes no sentido de construir sua própria formação.</p>
			<p>Os dados selecionados para o presente trabalho são apresentados como transcrições,
				vinhetas narrativas e linhas do tempo. As transcrições são bastante simples e não
				têm a intenção de analisar as trocas sequenciais de turnos, e sim servem para que o
				leitor possa acessar o conteúdo das conversas, as ações comunicativas envolvidas e
				os propósitos dos participantes. Por sua vez, as vinhetas narrativas têm uma função
				semelhante, mas procuram mostrar de modo resumido uma interação mais longa
				enfatizando os pontos a serem discutidos na análise. Por fim, as linhas do tempo
				foram a alternativa sintética para discutir uma coleção uma de eventos de formação
				em que cada uma das professoras participou. Na seguinte seção, passo à discussão
				sobre os dados de eventos de formação no seminário do PPE.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Os Seminários no PPE como <italic>Lócus</italic> de Eventos de Formação do
				Professor-Autor</title>
			<p>No PPE desenvolvem-se semanalmente o seminário de formação de professores na área de
				ensino e aprendizagem de PLA, nos quais são discutidos o processo de ensino e
				aprendizagem, metodologias de ensino, elaboração de materiais didáticos, avaliação,
				entre outros (<xref ref-type="bibr" rid="B19">Schlatter, 2008</xref>). Nesta ação
				reside o propósito de formação de novos professores e a formação continuada dos
				professores em exercício. Pela sua descrição, os seminários são um
					<italic>lócus</italic> privilegiado de eventos de formação, gerenciados por um
				dos participantes, que tem como responsabilidade encaminhar a discussão, apresentar
				modos de produzir e compreender as reflexões. No Excerto I, Clarice dirige uma
				pergunta a Jéssica que inicia o seu relato de experiência na Feira Cultural, um
				projeto pedagógico que envolve todos os professores do PPE e que consiste em uma
				semana de apresentações abertas de trabalhos de cunho cultural para toda a
				comunidade universitária.</p>
			<p>
			<table-wrap id="t1">
				<label>Excerto I</label>
				<caption>
					<title>Um sarau de poesia</title>
				</caption>
				<alternatives>
							<graphic xlink:href="t1.jpg"/>
				<table frame="void" rules="none">
					<colgroup>
						<col width="5%"/>
						<col width="15%"/>
						<col width="80%"/>
					</colgroup>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="left">1</td>
							<td align="left">
								<bold>Clarice:</bold>
							</td>
							<td align="left">e o sarau [.] como é que foi</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">2</td>
							<td align="left">
								<bold>Jéssica:</bold>
							</td>
							<td align="left">nós juntamos nossas turmas né ((<italic>olhando para a
									a outra professora</italic>))</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">3</td>
							<td align="left">&#x00A0;</td>
							<td align="left">e trabalhamos com literatura [..] nós estávamos
								trabalhando com</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">4</td>
							<td align="left">&#x00A0;</td>
							<td align="left">literatura daí tinha um projeto e daí a gente optou por
								trabalhar com</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">5</td>
							<td align="left">&#x00A0;</td>
							<td align="left">escritores gaúchos e o que deu a coincidência de eles
								escolherem</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">6</td>
							<td align="left">&#x00A0;</td>
							<td align="left">escritoras porque eles queriam ver o outro lado da
								literatura sem ser</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">7</td>
							<td align="left">&#x00A0;</td>
							<td align="left">aquela literatura escrita só por homens [.] então foi
								bem legal eles</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">8</td>
							<td align="left">&#x00A0;</td>
							<td align="left">montaram isso ressaltaram destacaram e também pra
								trazer um pouco da</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">9</td>
							<td align="left">&#x00A0;</td>
							<td align="left">literatura do país deles pra apresentar [.] então [..]
								a gente fez isso e mais</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">10</td>
							<td align="left">&#x00A0;</td>
							<td align="left">a parte de encerramento que foi sobre o Mário Quintana
								que é</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">11</td>
							<td align="left">&#x00A0;</td>
							<td align="left">porto-alegrense tem a casa de cultura Mário Quintana e
								tal e foi</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">12</td>
							<td align="left">&#x00A0;</td>
							<td align="left">tudo uma parte mais assim pra encerrar [.] e também a
								Bruna ((<italic>dirigindo</italic></td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">13</td>
							<td align="left">&#x00A0;</td>
							<td align="left"><italic>à professora ao seu lado</italic>)) apresentou
								os poemas do cotidiano que são os</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">14</td>
							<td align="left">&#x00A0;</td>
							<td align="left">poemas de ônibus essa foi uma parte bonita também</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">15</td>
							<td align="left">
								<bold>Clarice:</bold>
							</td>
							<td align="left">e isso foi oral [.] esse sarau [.] tanto o teu quanto o
								teu (Bruna) foi um</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">16</td>
							<td align="left">&#x00A0;</td>
							<td align="left">sarau assim de leitura</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">17</td>
							<td align="left">
								<bold>Jéssica:</bold>
							</td>
							<td align="left">aham</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">18</td>
							<td align="left">
								<bold>Clarice:</bold>
							</td>
							<td align="left">((<italic>para Fabiane</italic>)) e tu tava lá</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">19</td>
							<td align="left">
								<bold>Fabiane:</bold>
							</td>
							<td align="left">sim</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">20</td>
							<td align="left">
								<bold>Clarice:</bold>
							</td>
							<td align="left">e os alunos participaram [.] como é que foi [.] assim
								houve uma</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">21</td>
							<td align="left">&#x00A0;</td>
							<td align="left">discussão depois</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">22</td>
							<td align="left">
								<bold>Jéssica:</bold>
							</td>
							<td align="left">não</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">23</td>
							<td align="left">
								<bold>Clarice:</bold>
							</td>
							<td align="left">[rolou]</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">24</td>
							<td align="left">
								<bold>Jéssica:</bold>
							</td>
							<td align="left">até depois assim [.] teve um problema assim que não foi
								bem pensado</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">25</td>
							<td align="left">&#x00A0;</td>
							<td align="left">[.] foi uma das anotações que também a gente pode até
								mostrar depois</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">26</td>
							<td align="left">&#x00A0;</td>
							<td align="left">[.] a atividade era pra durar uma hora mais ou menos o
								momento da</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">27</td>
							<td align="left">&#x00A0;</td>
							<td align="left">minha turma e da Bruna e depois o da Fabiane só que
								acabou fluindo</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">28</td>
							<td align="left">&#x00A0;</td>
							<td align="left">tudo assim tão seguido [.] no mesmo momento quase e
								depois nós</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">29</td>
							<td align="left">&#x00A0;</td>
							<td align="left">ficamos com um tempão em aberto[.] foi uma coisa que a
								gente</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">30</td>
							<td align="left">&#x00A0;</td>
							<td align="left">comentou pra melhorar [.] de ter um plano b né</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">31</td>
							<td align="left">
								<bold>Fabiane:</bold>
							</td>
							<td align="left">prever assim quanto tempo vai durar</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">32</td>
							<td align="left">&#x00A0;</td>
							<td align="left">((<italic>falam ao mesmo tempo e não identifico o que
									dizem</italic>)).</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">33</td>
							<td align="left">
								<bold>Jéssica:</bold>
							</td>
							<td align="left">[...] e eu de marinheira de primeira viagem não sabia o
								que fazer [.]</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">34</td>
							<td align="left">&#x00A0;</td>
							<td align="left">então né</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">35</td>
							<td align="left">
								<bold>Fabiane:</bold>
							</td>
							<td align="left">mas eu achei muito legal que tinha um aluno da Bruna
								que ele meio que</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">36</td>
							<td align="left">&#x00A0;</td>
							<td align="left">guiou todos os outros ((<italic>Jéssica e Bruna começam
									a contar ao mesmo tempo</italic></td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">37</td>
							<td align="left">&#x00A0;</td>
							<td align="left"><italic>sobre a atuação do aluno</italic>))</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">38</td>
							<td align="left">
								<bold>Jéssica:</bold>
							</td>
							<td align="left">ele fazia toda uma coisa de olhar pras pessoas</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">39</td>
							<td align="left">
								<bold>Clarice:</bold>
							</td>
							<td align="left">o que mais, gente ((<italic>olhando para o restante dos
									presentes</italic>))</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
			</alternatives>
					<attrib>Fonte: Diário 19, 03/07/2015, notas de campo, gravação em áudio</attrib>
			</table-wrap>
		</p>
			<p>Neste excerto, as professoras exibem um olhar retrospectivo sobre as ações
				desempenhadas com vistas a reflexões (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Perrenoud,
					2002</xref>) que podem ter impactos no futuro. Clarice solicita o relato de
				Jéssica, e suas perguntas encaminham as questões fundamentais, segundo a
				participante, para a reunião: uma visão geral do sarau na Feira, que habilidades
				foram trabalhadas, como foi a participação dos alunos (linhas 1, 15, 20). Essas
				perguntas indicam à Jéssica o que deve ser considerado relevante na discussão,
				considerando que o professor é responsável por responder sobre, narrar e articular
				as ações que promoveu durante a feira. Jéssica relata a participação de seus alunos
				e como funcionou a parceria com a sua colega e, respondendo às perguntas de Clarice,
				identifica situações problemáticas e indica modos de resolver o problema (linhas 24,
				30).</p>
			<p>A Vinheta II apresenta um momento de um dos encontros do seminário em que o diálogo
				reconfigura o entendimento de uma participante menos experiente, Adriana, que se vê
				diante de uma demanda que repercutirá no restante do seu semestre.</p>
			<p>
			<table-wrap id="t2">
				<label>Vinheta I</label>
				<caption>
					<title>Participação na Feira Cultural</title>
				</caption>
				<alternatives>
							<graphic xlink:href="t2.jpg"/>
				<table frame="void" rules="none">
					<colgroup>
						<col width="5%"/>
						<col width="95%"/>
					</colgroup>
					<tbody>
						<tr>
							<td align="left">1</td>
							<td align="left">
								<italic>Patrícia tenta projetar um vídeo e não consegue, então dá
									por encerrado o seminário mas propõe</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">2</td>
							<td align="left">
								<italic>uma reunião de professores do PPE, "mas quem quiser pode
									ficar". Ninguém sai. Começa</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">3</td>
							<td align="left">
								<italic>perguntando pelos professores que vão apresentar trabalhos
									de alunos na Feira. Adriana anota.</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">4</td>
							<td align="left">
								<italic>A comissão organizadora é Michele, Jéssica, Júlia, Simone e
									Patrícia. Ela explica que a Feira e o</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">5</td>
							<td align="left">
								<italic>jornal do PPE servem como plataformas de publicação de
									trabalhos dos alunos. Explica como</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">6</td>
							<td align="left">
								<italic>funciona o jornal e depois a Feira Cultural. Patrícia
									enfatiza que ambas estratégias têm a intenção</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">7</td>
							<td align="left">
								<italic>de formar professores para o trabalho com projetos. Numa
									perspectiva que tem o "texto como</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">8</td>
							<td align="left">
								<italic>centro da aula de português e literatura, a Feira e o jornal
									geram impactos e dão concretude para</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">9</td>
							<td align="left">
								<italic>o trabalho dos professores". Para Patrícia, o texto é a base
									de uma sala de aula e organiza as</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">10</td>
							<td align="left">
								<italic>decisões do professor. Patrícia conta retroativamente as
									etapas e os problemas enfrentados no</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">11</td>
							<td align="left">
								<italic>processo de implementação da pedagogia de projetos. Menciona
									o trabalho de Kraemer (2012) e as</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">12</td>
							<td align="left">
								<italic>dificuldades em balancear aulas de língua e gramática por
									meio de projetos. Todos estão atentos.</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">13</td>
							<td align="left">
								<italic> Para Patrícia, "estamos amadurecendo", e explica que neste
									processo de formação é importante</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">14</td>
							<td align="left">
								<italic>que os professores trabalhem juntos: "não dá pra aprender
									sem alguém que sabe mais". Ela</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">15</td>
							<td align="left">
								<italic>defende que para aprender a trabalhar é imprescindível a
									produção de materiais didáticos. Quando</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">16</td>
							<td align="left">
								<italic>encerra sua explicação sobre como o PPE funciona para os
									novatos, Patrícia pede que os</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">17</td>
							<td align="left">
								<italic>professores comecem a relatar o que vão apresentar na Feira
									Cultural. Uma professora conta de</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">18</td>
							<td align="left">
								<italic>um projeto de produção de vídeos com alunos do Programa de
									Estudante Convênio para a</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">19</td>
							<td align="left">
								<italic>Graduação. Adriana anota. Outra professora conta de projeto
									com Contos e Crônicas usando o site</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">20</td>
							<td align="left">
								<italic>Buzzfeed. Jéssica, única integrante da equipe organizadora
									presente, anota. Flávia começa a</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">21</td>
							<td align="left">
								<italic>guardar suas coisas. Patrícia olha para Adriana e Flávia,
									perguntando sobre a Feira. Adriana diz</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">22</td>
							<td align="left">
								<italic>que não preparou nada, pois achou que seria necessário um
									trabalho mais elaborado: "achei que</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">23</td>
							<td align="left">
								<italic> não ia dar conta" e que Simone tinha lhe comentado a
									respeito da Feira. Patrícia explica a Adriana</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">24</td>
							<td align="left">
								<italic>que mesmo um relato dos alunos é bom e pergunta se Adriana
									acha que conseguiria organizar algo</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">25</td>
							<td align="left">
								<italic>para a Feira. Flávia comenta que tem trabalhos sobre regiões
									do Brasil que podem ser apresentados.</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">26</td>
							<td align="left">
								<italic>Jéssica conta de seu projeto sobre literatura gaúcha,
									detalha as etapas e me chama a atenção que</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">27</td>
							<td align="left">
								<italic>não mencione o que Beatriz lhe havia sugerido no dia 01/06.
									Patrícia comenta que Jéssica pode</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">28</td>
							<td align="left">
								<italic>combinar e discutir mais com Beatriz. E Jéssica diz que vai
									conversar com alguns colegas. Antes de</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">29</td>
							<td align="left">
								<italic> dar por encerrada a reunião de professores, Patrícia conta
									de um projeto que foi publicado no</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">30</td>
							<td align="left">
								<italic>jornal do PPE que foi realizado no passado. E então anuncia
									que a reunião está encerrada. Sigo</italic>
							</td>
						</tr>
						<tr>
							<td align="left">31</td>
							<td align="left">
								<italic>Flávia e Adriana, que conta um problema que teve com um
									aluno em sua aula para a colega.</italic>
							</td>
						</tr>
					</tbody>
				</table>
			</alternatives>
					<attrib>Fonte: Diário 8, 12/06/2015, notas de campo</attrib>
			</table-wrap>
		</p>
			<p>Ao encerrar o seminário, Patrícia anuncia uma reunião de professores, permitindo que
				aqueles que não estão dando aula permaneçam no encontro (linha 2), o que indica um
				modo de criar espaço de indução aos novatos às práticas dos mais experientes (<xref
					ref-type="bibr" rid="B24">Zeichner, 2010</xref>). Também sinaliza a importância
				de que aspirantes a assumir turmas conheçam como funciona a vida de um professor
				naquele contexto. A reunião de professores tem o propósito de que os professores
				apresentem suas ideias para a Feira Cultural (linha 3). E dentre outros, as
				participantes desta pesquisa, Jéssica, Adriana e Flávia, são solicitadas a falar
				(linhas 22 a 26). Jéssica apresenta sua ideia sobre o trabalho com o sarau de
				poesias. Flávia, por sua vez, indica ter um trabalho sobre culturas das regiões
				brasileiras em andamento que poderá ser apresentado (linha 28), enquanto que Adriana
				assume não se sentir preparada para que seus alunos apresentem qualquer trabalho
				(linha 23 a 25). Patrícia incentiva a professora explicando que um relato dos alunos
				poderia ser suficiente, apontando que a possibilidade de participação na Feira não
				requer necessariamente que os trabalhos apresentados tenham que ter sido
				desenvolvidos durante todo o semestre. Apresentar na Feira Cultural é um
				compromisso, não uma obrigação. Patrícia sugere que Adriana se engaje com a Feira, e
				que procure Simone, sua tutora, para pedir ajuda sobre como orientar alunos para que
				apresentem um trabalho.</p>
			<p>Assim, a reunião de professores, que ocorre após a sessão do seminário enfoca nas
				questões mais imediatas do trabalho dos professores. Na sessão regular do seminário,
				havia um foco na reflexão sobre a materialização de construtos teóricos em tarefas
				pedagógicas. Agora, trata-se de uma discussão sobre os produtos gerados nas aulas e
				sua apresentação pública. Tanto Clarice, com suas perguntas no seminário, quanto
				Patrícia, com seus comentários, estimulam a prática reflexiva objetivando
				desenvolver a capacidade de observação, análise, metacognição e metacomunicação
					(<xref ref-type="bibr" rid="B18">Perrenoud, 2002</xref>). Por um lado, o
				seminário agrega ao Instituto de Letras um espaço de preparação para o futuro
				professor, em formação inicial, interessado na área de PLA, de refletir sobre a
				prática, de criar modelos e de desenvolver as capacidades de observação e análise. O
				seminário configura-se como um ambiente de análise prática, de partilha e
				aprendizagens ou, nas palavras de <xref ref-type="bibr" rid="B18">Perrenoud
					(2002)</xref>, um espaço de “reflexões sobre a forma como se pensa, decide,
				comunica e reage em uma sala de aula” (p. 18). Pode ser considerado, assim, um
				espaço privilegiado de ocorrência de eventos de formação, no qual diferentes
				propósitos, ações e tópicos podem caracterizar tais eventos. Além disso, é
				construído como um espaço no qual os eventos têm a participação decisiva do
				professor formador, um interlocutor mais experiente, que domina há algum tempo o que
				os participantes mais novos acabam de descobrir. O formador traz novos elementos,
				dos quais os outros professores podem se apropriar e que podem operacionalizar em
				sua sala de aula. Seu papel central é o de articulador das ações formativas,
				promovendo o desenvolvimento da equipe pedagógica, mas também de cada professor.</p>
			<p>Para o desenvolvimento de participantes, como Jéssica e Adriana, ambas graduandas, o
				seminário hibridiza formação inicial e continuada ao trabalhar com professores que
				já exercem sua profissão e novatos. Para <xref ref-type="bibr" rid="B18">Perrenoud
					(2002)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B13">Mizukami <italic>et al</italic>.
					(2003)</xref>, a formação continuada organiza-se em torno da atualização dos
				saberes disciplinares, das referências didáticas e das tecnologias. Mas o que se
				observa nos eventos de formação aqui descritos é um espaço que vai além da
				atualização de novidades: há a oportunidade de o mais experiente ver sua experiência
				ser relevante para dúvidas imprevistas dos menos experientes, o que produz novas
				experiências relacionadas. Assim, o seminário cumpre com uma das premissas da
				formação continuada: trabalhar no campo da transformação de identidades,
				reestruturações e construções de novas competências. Ao olharmos para um evento de
				formação em uma reunião pedagógica ou seminário de formação, vemos a profissão de
				professor pautada pela dinâmica de aprender a ensinar em um local específico.</p>
			<p>Ao hibridizar formação inicial e continuada, o seminário investe no desenvolvimento
				organizacional, como cultura local sobre a formação, por meio da produção de
				experiências e oportunidades para a aprendizagem (<xref ref-type="bibr" rid="B24"
					>Zeichner, 2010</xref>). Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B14">Nóvoa
					(1995)</xref>, “na formação de professores, o desafio consiste em conceber a
				escola como um ambiente educativo, onde trabalhar e formar não sejam atividades
				distintas.” (p. 29). A formação, nessa perspectiva, é permanente, integrada no
				cotidiano dos professores e das escolas, e não uma intervenção à margem dos projetos
				profissionais e organizacionais. Sendo assim, o seminário é um espaço tipicamente
				híbrido de formação docente, nos quais os eventos de formação atualizam a ideia de
				que trabalhar está a serviço do ensino, para a aprendizagem dos alunos, mas também a
				serviço da aprendizagem dos professores.</p>
			<p>Nos seminários há duas perspectivas de ação que integram a formação dos professores:
				planejar as ações tendo em vista a aplicação futura das ideias, prospectando ações,
				o que sinaliza o caráter inovador do evento; e o relato de experiência para a
				reflexão sobre as práticas, em retrospectiva, ou seja, um olhar ao futuro e um olhar
				ao passado. Nesse sentido, refletir sobre o passado tem o propósito fundante de
				replicar ações bem-sucedidas ou aprimorar o que os participantes julgam necessário
				modificar, mirando o futuro, prevendo mudança nos modos de fazer a partir de
				discussões sobre as práticas. Trata-se de um evento de formação pela essencialidade
				do posicionamento do professor, que ao aprender sobre o que é ser professor no PPE,
				contribui para a renovação desse mesmo empreendimento. Participações como as que
				foram analisadas acima indicam um propósito nuclear no PPE: o de produzir a
				identidade de professor-autor.</p>
			<p><xref ref-type="bibr" rid="B7">Garcez e Schlatter (2017)</xref> propõem que as
				licenciaturas possibilitem o desenvolvimento do professor-autor que tem a ver com
				investir na autoria do docente tanto em decisões em nível das diretivas educacionais
				quanto das próprias demandas da sala de aula e de outros contextos de ensino. A
				linha estruturante para a formação do professor-autor está na articulação de
				conhecimentos a) para a resolução de problemas emergentes da prática; b) na
				convivência entre professores mais e menos experientes; e c) pela produção de
				reflexões sobre o que significa aprender a ensinar em um contexto específico. Para
					<xref ref-type="bibr" rid="B7">Garcez e Schlatter (2017, p. 25)</xref>, é
				articulando o problema a ser enfrentado, ao “estudar, trocar ideias, propor
				projetos, elaborar materiais, divergir, buscar ajuda, experimentar, avaliar e
				refletir sobre o que fizeram”, que os participantes constroem a sua singularidade e
				a responsabilidade pela singularidade produzida<xref ref-type="fn" rid="fn5"
					>5</xref>. Em termos práticos, é importante a promoção de oportunidades de
				encontros entre professores para a manifestação de suas produções pautando o seu
				protagonismo. A formação é vista como um projeto de construção coletiva e situada no
				tempo e no espaço de atuação, em que os professores, mediante relatos na
				interlocução com seus pares, e em eventuais registros de suas práticas, podem se
				assumir como professores-autores.</p>
			<p>As trajetórias de Jéssica e Adriana, organizadas em duas linhas do tempo a seguir,
				nos ajudam a compreender como, em eventos de formação no PPE, as aprendizagens
				moldam experiências e produzem identidades das participantes como
				professoras-autoras da prática local. Jéssica oscila entre uma posição de menos
				experiente para mais experiente de acordo com as interlocuções que vai encontrando e
				as demandas que precisa resolver em suas atividades no programa. Adriana, por sua
				vez, precisa aprender a apresentar seus resultados como participante à medida que
				compreende a serviço de quê os professores estão no programa. Para as participantes,
				cada oportunidade de avançar rumo a mais acessos à prática e, assim, constituir-se
				um professor-autor, capaz de justificar e narrar suas escolhas, reatualiza os papéis
				sociais e faz emergir novas aprendizagens. Uma coletânea de eventos em que Jéssica
				se engaja pode ser vista na linha do tempo abaixo.</p>
			<p>
				<fig id="f1">
					<label>Figura 1</label>
					<caption>
						<title>Linha do tempo de Jéssica</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2177-6202-rc-17-01-0078-gf01.jpg"/>
					<attrib>(Fonte: elaborada pelo autor)</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>Como participante legítima da comunidade de prática em que atua e com uma
				diversificação de seus interlocutores, Jéssica desenvolve sua autoria em
				oportunidades que ela ajuda a desencadear, que outros propõem a ela, que ela produz
				e em que é convidada a se engajar. Sua presença na sala dos professores autoriza os
				colegas que circulam no mesmo local a chamá-la para participar de interações. Assim,
				ela é convidada a organizar a festa junina proposta por Victor, e em algumas
				ocasiões, por estarmos apenas os dois na sala, dirige-se a mim para contar sobre o
				andamento de suas aulas no curso de Letras, revelando, às vezes, não ver conexão
				entre o que estuda e o que ensina. Jéssica gostaria que as aulas da graduação fossem
				mais conectadas com o que ela faz: ensinar português para estrangeiros. Ao tomar
				conhecimento de que Victor acaba de iniciar uma faculdade de Pedagogia após se
				formar em Letras, Jéssica demonstra curiosidade. Mesmo que a visão de Victor seja
				pessimista sobre a experiência que está tendo, Jéssica parece querer saber como
				outras faculdades funcionam e vê no colega alguém com uma experiência relevante para
				estabelecer possíveis conexões entre formação acadêmica e prática de sala de aula.
				Em outras ocasiões ela junta-se aos colegas para conversar sobre diferenças
				culturais na sala de aula, sobretudo, com respeito a seus alunos chineses. O leque
				de participações que envolve um conjunto de temáticas associadas à prática do
				professor do PPE amplia-se conforme seguimos as atividades de Jéssica, mas é no
				seminário onde a participante é convidada a relatar suas vivências e a justificar
				suas escolhas, em última análise, responsabilizar-se pelas ações singulares que
				produz, construindo assim a sua autoria como professora do programa.</p>
			<p>Análogo ao modo como Jéssica beneficia-se de interações com colegas, que por sua vez,
				exercitam novos papéis ao interagir com ela, Adriana aprende alguns princípios para
				se tornar uma professora-autora no PPE, e proporciona situações valiosas para
				colegas exercitarem identidades adjacentes, caso em especial de Simone, sua tutora,
				que atua como uma espécie de orientadora. Ao passo que são análogas pelo seu
				desenvolvimento, a trajetória de Adriana parece indicar a compreensão de que
				participar é basilar no PPE, conforme indica sua linha do tempo.</p>
			<p>
				<fig id="f2">
					<label>Figura 2</label>
					<caption>
						<title>Linha do tempo de Adriana</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="2177-6202-rc-17-01-0078-gf02.jpg"/>
					<attrib>(Fonte: elaborada pelo autor)</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>Assim como no caso de Jéssica, poderia se afirmar que a cronologia não é em si o que
				define os modos de participação de Adriana, identificamos, nos eventos em que ela se
				engajou, uma evolução mais clara desde uma assunção de não conhecedora sobre a
				prática até professora que conseguiu cumprir com as demandas do PPE. Em meio à
				turbulência de deparar-se com um aluno que questiona suas escolhas, à narrativa de
				como tentou resolver o problema, até o desânimo com seu estágio de espanhol, Adriana
				trilha um percurso de aprendizagens significativas, em grande medida facilitado pela
				presença da tutora Simone, que a aconselha, orienta e assessora. É no seminário do
				PPE que Adriana é chamada a manifestar-se sobre sua intenção de participar na Feira
				Cultural, enquanto as oportunidades de interação com Simone lhe ajudam a tomar
				decisões, planejar e executar a participação de seus alunos na feira. No fim do
				semestre, o relato da sua experiência no seminário sinaliza que Adriana compreende
				quais são as demandas do seu trabalho naquele programa de português.</p>
			<p>As participantes constroem trajetórias de participação no PPE que se sobrepõem e
				impactam as experiências e identidades próprias e dos outros. Nesse sentido,
				aprender emerge na troca de experiências na dinâmica da negociação de significados
					(<xref ref-type="bibr" rid="B23">Wenger, 1998</xref>). Para <xref
					ref-type="bibr" rid="B10">Lave e Wenger (1991)</xref>, aprender tem a ver com
				aumentar os acessos para a atuação, o que é maximizado agindo, mais do que falando a
				respeito. Nessa perspectiva, aprendizagem é um modo de estar no mundo, não apenas um
				modo de saber a respeito do mundo: a aprendizagem é vista como uma ação geradora da
				vida social. Para os autores, é a participação periférica legitimada que caracteriza
				a aprendizagem como constituinte da vida social. Entende-se como participação
				periférica legitimada a ação de estar situado no mundo social de uma comunidade de
				prática, engajando-se, com os demais participantes, em mudanças de localização e
				perspectivas e desenvolvendo identidades e formas de pertencimento nesse percurso.
				Apesar de dar a entender que a participação periférica legitimada relaciona-se
				somente ao acesso que o menos experiente ganha às práticas de uma comunidade, é
				importante destacar que a complexidade das relações sociais em comunidades de
				prática coloca a aprendizagem como um regime de atividades em constante evolução, o
				que envolve que mais experientes também aprendam com a adição de novos membros aos
				seus respectivos grupos.</p>
			<p>A participação plena, também descrita pelos autores, não é um contraponto à
				participação periférica legitimada, nem quer dizer que haja finitude ao se aprender
				e renovar a prática, antes é uma forma de reconhecer que há diversidade de modos de
				participação, e que algumas convergem de modo centrípeto para consolidar os
				empreendimentos comuns. Cada participante novo reconhece o que há para aprender a
				partir da convivência com os membros mais antigos na comunidade, membros esses que
				representam e atualizam a história compartilhada das práticas. Os mais experientes
				renovam as práticas a cada dia, sendo o contato com outros membros experientes e com
				os novatos fundamental para que a aprendizagem seja a prática social estruturante
				dos grupos.</p>
			<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B23">Wenger (1998)</xref>, a aprendizagem em
				comunidades de prática é um fenômeno de negociação de identidades que incorpora
				passado e futuro, o que molda o encontro de veteranos e principiantes em uma relação
				de codependência. Os principiantes estão forjando suas identidades conforme
				compreendem continuidades e descontinuidades. Para participar e contribuir, é
				necessário acesso, é preciso encontrar conexões que permitam que a história do lugar
				seja parte de suas próprias identidades. Por sua vez, os veteranos conhecem bem a
				história e é possível que desejem preservar certas práticas ou mudá-las no futuro.
				Se por um lado, Adriana precisa aprender com os mais experientes a preparar uma
				apresentação de seus alunos, levar a cabo as apresentações na posição de gerente do
				evento e responder pela exposição pública dos trabalhos em um seminário, inclusive
				ouvindo críticas, os mais experientes também são informados de que certos temas
				precisam ser retomados com certa frequência, para que os novatos possam ter acesso
				aos modos de proceder, mas também porque, por meio de exemplos, podem aprimorar o
				modo de proceder, não ignorando o que os problemas de hoje informam sobre o amanhã.
				Nesse sentido, os participantes que <xref ref-type="bibr" rid="B23">Wenger
					(1998)</xref> qualifica como mais periféricos despertam a própria prática e os
				seus participantes mais experientes para a necessidade de novas sistematizações e
				projeções sobre o futuro da comunidade de prática.</p>
			<p>Todas as situações aqui descritas estão associadas à existência de modalidades de
				formação que proporcionam o trabalho assessorado e os espaços de publicidade do
				trabalho dos alunos, típicos da pedagogia de projetos, bem como o relato público das
				práticas dos professores no sentido de formar professores-autores durante os
				seminários. Nos encontros de sexta-feira, há uma constante orientação dos
				participantes em identificar pontos a melhorar, embora nada precise ser programado e
				circunscrito antecipadamente. A colega que critica a má administração do tempo nas
				apresentações poderia ter agido de outro modo se Adriana tivesse se antecipado e
				apontado tais questões como pontos a melhorar, assim como Jéssica faz no mesmo
				seminário. Adriana, no entanto, precisa aprender todas essas minúcias para
				participar e aprender rumo à plenitude de práticas de tornar-se professora-autora e
				responder pelo seu próprio fazer. É assim que a participação nos seminários é em
				grande medida uma oportunidade de construção da autoria do professor. Nos
				seminários, os professores são constantemente a responder pelas atividades em que se
				engajam e podem assumir a responsabilidade pela singularidade produzida (<xref
					ref-type="bibr" rid="B7">Garcez e Schlatter, 2017</xref>).</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações Finais</title>
			<p>Pautada em grande medida pelo trabalho com projetos pedagógicos e pela interação
				entre menos e mais experientes produzindo a identidade de professor-autor, a prática
				nos seminários do PPE é negociada conforme os participantes vão construindo suas
				próprias trajetórias de autoria, engajando-se, narrando, justificando, expondo-se,
				interpretando e sendo interpretados. Ser professor-autor é um movimento interno no
				PPE que revela haver suficiente compreensão, em diferentes medidas, de qual é a
				agenda de formação de professores vigente: não há como ser professor sem se engajar
				nas práticas que aqui são descritas e analisadas. E durante os seminários, o
				programa revela-se uma comunidade que agrega diferentes práticas interacionais em
				que a construção do discurso das identidades dos professores está em constante
				atualização e consolidação. É nesse espaço privilegiado de convite às trocas que a
				interlocução com os pares permite que cada professor encontre sua voz como autor de
				sua própria prática.</p>
			<p>Pensar a participação em eventos de formação como condição que possibilita situações
				de aprendizagem requer que se assuma que se formar professor é em grande medida
				formar-se professor de um lugar específico. Nesse sentido, analisar eventos de
				formação objetiva oferecer um modo de olhar para as práticas pedagógicas locais,
				tendo por base os tópicos, os propósitos e os resultados dos encontros dialogados
				entre professores (<xref ref-type="bibr" rid="B14">Nóvoa, 1995</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B2">Costa, 2018</xref>), de modo mais ou menos estável, e a
				resolução e reflexão sobre questões pedagógicas, em movimentos retrospectivos ou
				prospectivos.</p>
			<p>Tanto Adriana como Jéssica estão transitando em diferentes momentos. Adriana parte do
				não saber até a exposição pública para descobrir que ainda há muito mais por
				aprender. Para Jéssica, há o trânsito entre ser ajudada por uma colega a elaborar
				uma ideia e prover a outra um modelo eficiente de correção de prova. No seminário, é
				convocada a narrar, mas também contribui ao se justificar, antecipar melhorias e
				inovações, e a, eventualmente, ajudar os outros com alguma sugestão. O
				professor-autor constrói sua identidade preponderantemente pelas experiências
				significativas que vai colecionando no local de trabalho (<xref ref-type="bibr"
					rid="B7">Garcez e Schlatter, 2017</xref>), sendo a construção e a reificação de
				discursos orais próprios dessa comunidade de prática uma das características
				essenciais que este trabalho consegue identificar nos eventos de formação.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>A extensa lista de trabalhos acadêmicos no âmbito do programa mostra que a
					produção de conhecimento específico sobre a área de PLA constitui-se como
					objetivo do programa.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>O paradigma da prática e do profissional reflexivo baseia-se em três definições:
					a) conhecimento-na-ação, b) reflexãona-ação e c) reflexão-sobre-a-ação e
					sobre-a-reflexão-na-ação. O <italic>conhecimento-na-ação</italic> trata do saber
					fazer, da ação inteligente orientadora de toda a atividade humana, e é
					construído, mesmo que por esquemas automáticos ou rotineiros, a partir da
					experiência ou reflexões passadas. A <italic>reflexão-na-ação</italic> significa
					pensar sobre o que se está fazendo ao mesmo tempo em que se faz: “pensamos
					retrospectivamente sobre o que fizemos, de modo a descobrir como nosso ato de
					conhecer-na-ação pode ter contribuído para um resultado inesperado” (<xref
						ref-type="bibr" rid="B22">Schön, 2000</xref>, p. 32). Refletir-na-ação supõe
					rigor, sistematização e um distanciamento produzido pelo questionamento que
					envolve o profissional na situação problemática que pretende resolver, o que o
					torna sensível a obstáculos e resistências à sua intervenção. A
						<italic>reflexão-sobre-a-ação</italic> e
						<italic>sobre-a-reflexão-na-ação</italic> são consideradas as análises que o
					profissional vai realizar posteriormente sobre as características da sua própria
					ação. Neste caso, o conhecimento é utilizado para descrever, analisar e avaliar
					suas memórias de intervenções anteriores, o que, para o filósofo <xref
						ref-type="bibr" rid="B3">John Dewey (1997)</xref>, estaria relacionado ao
					entendimento do que é uma experiência para a formação do indivíduo: uma memória
					que frutifica em novas ações.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>Em <xref ref-type="bibr" rid="B2">Costa (2018)</xref>, são analisadas
					extensivamente as modalidades de seminários de formação, tutorias e docência
					compartilhada. Além disso, considera-se que etnograficamente encontros não
					planejados na sala dos professores constituem-se como uma modalidade emergente.
					Dado o escopo deste artigo, focalizam-se os eventos de formação observados nos
					seminários.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p>Adicionalmente, os autores advogam pela formação do professor-autor-formador, que
					tem a ver com promover oportunidades para o registro do repertório construído,
					assumindo, para além da identidade de professor-autor, a identidade de um
					professor que, ao produzir textos, se responsabiliza pelos próprios repertórios
					e impacta a formação de outros professores. Devido a limitação de espaço, este
					artigo concentra-se especificamente na análise de identidade do
					professor-autor.</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<ref-list>
			<title>Referências</title>
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						Português Língua Adicional em um Instituto Cultural Brasileiro no
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				<element-citation publication-type="thesis">
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					<source>Práticas de Formação de Professores de Português Língua Adicional em um
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			<ref id="B2">
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					do Rio Grande do Sul, 299p.</mixed-citation>
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