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		<journal-meta>
			<journal-id journal-id-type="nlm-ta">Calidoscópio</journal-id>
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				<journal-title>Calidoscópio</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Universidade do Vale do Rio dos
					Sinos</abbrev-journal-title>
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				<publisher-name>Universidade do Vale do Rio dos Sinos</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.4013/cld.2019.171.07</article-id>
			<article-id pub-id-type="publisher-id">00007</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Artigos</subject>
				</subj-group>
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			<title-group>
				<article-title>O Leitorado Brasileiro da Universidade da Cidade do Cabo, África do
					Sul: uma experiência com o ensino de Português como Língua Adicional em um
					contexto pós-colonial</article-title>
				<trans-title-group xml:lang="en">
					<trans-title>The Brazilian Lectorate at the University of Cape Town, South
						Africa: an experience of teaching Portuguese as an Additional Language in a
						post-colonial context</trans-title>
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					<name>
						<surname>Carneiro</surname>
						<given-names>Alan Silvio Ribeiro</given-names>
					</name>
					<xref ref-type="aff" rid="aff1"><sup>1</sup></xref>
					<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>*</sup></xref>
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					<label>1</label>
					<institution content-type="normalized">Universidade Federal de São
						Paulo</institution>
					<email>asilvio2002@yahoo.com.br</email>
					<institution content-type="original">Universidade Federal de São Paulo
						asilvio2002@yahoo.com.br</institution>
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			<author-notes>
				<fn fn-type="current-aff" id="fn1">
					<label>*</label>
					<p>Doutor em Linguística Aplicada; Professor Adjunto na Universidade Federal de
						São Paulo.</p>
				</fn>
			</author-notes>
			<!--<pub-date publication-format="electronic" date-type="pub">
				<day>25</day>
				<month>10</month>
				<year>2019</year>
			</pub-date>
			<pub-date publication-format="electronic" date-type="collection">-->
				<pub-date pub-type="epub-ppub">
				<season>Jan-Apr</season>
				<year>2019</year>
			</pub-date>
			<volume>17</volume>
			<issue>1</issue>
			<fpage>121</fpage>
			<lpage>144</lpage>
			<history>
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				</date>
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					<year>2018</year>
				</date>
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				<license license-type="open-access"
					xlink:href="http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/" xml:lang="pt">
					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
						licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e
						reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original
						seja corretamente citado.</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>Resumo:</title>
				<p>O ano de 2015 marcou o início de profundos debates sobre a educação superior na
					África do Sul. O legado histórico de exclusão social do
						<italic>apartheid</italic> ainda marca grande parte de suas instituições
					públicas, incluindo as universidades. É nesse complexo contexto educacional e no
					âmbito de um conjunto de políticas de aproximação do Brasil com a África,
					coordenadas pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE) brasileiro, que foi
					implementado o Leitorado Brasileiro, na Universidade da Cidade do Cabo, em
					inglês, <italic>University of Cape Town</italic> (UCT). O objetivo deste artigo
					é delinear de forma mais detalhada as implicações desses múltiplos contextos
					macropolíticos na formulação das diretrizes do projeto pedagógico e nas práticas
					de ensino de português como língua adicional (PLA) nessa universidade, a partir
					da minha experiência como leitor na instituição. Para tal, primeiramente traço
					brevemente a trajetória da Seção de Língua Portuguesa na UCT e o impacto dos
					referidos contextos no desenho das diretrizes do projeto pedagógico da seção. Em
					seguida, tendo isso em vista, debato um conjunto de formulações teóricas no
					campo do ensino de línguas adicionais no ensino superior que guiaram o
					planejamento das práticas de ensino na universidade, com destaque para o
					conceito de competência simbólica. Ao final, apresento o programa de um dos
					cursos de português da UCT e o desenvolvimento de um conjunto de atividades
					didáticas desse curso, ambos realizados no âmbito do leitorado e que, partindo
					do horizonte teórico desenhado, indiciam potenciais modos para a construção de
					um fazer específico para o ensino de PLA na África do Sul que procura responder
					às necessidades locais.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract:</title>
				<p>In 2015, there were intense national debates about the role of higher education
					in South Africa. The historical legacy of social exclusion of apartheid is still
					present in its public institutions, including the universities. It is in this
					complex educational context and as part of a set of policies of approximation
					between Brazil with Africa, coordinated by the Brazilian Ministry of Foreign
					Affairs, that the Brazilian Lectorate was implemented at the University of Cape
					Town. The main goal of this article is to outline the implications of these
					multiple macro political contexts in the development of the guidelines for the
					pedagogical project and the teaching practices of Portuguese as an additional
					language in this university, taking as a departure point my experience as a
					lector. For this task, firstly I delineate briefly the trajectory of the
					Portuguese Language Section and the impact of the multiple aforementioned
					contexts in the drawing of the guidelines of the pedagogical project of the
					section. Secondly, following the theoretical directions pointed out, I discuss
					the conceptualizations that contributed for the planning of the teaching and
					learning practices in the area of Portuguese at UCT, with a special emphasis in
					the concept of symbolic competence. At the end, drawing from this conceptual
					framework, I present the outline of one Portuguese course and the development of
					a set of didactic tasks, both designed as part of the activities planned for the
					lectorate, which index potential ways of teaching Portuguese as an additional
					language in South Africa aiming to answer to the local needs.</p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>competência simbólica</kwd>
				<kwd>ensino superior</kwd>
				<kwd>estudos pós-coloniais</kwd>
				<kwd>língua adicional</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title>Keywords:</title>
				<kwd>additional language</kwd>
				<kwd>higher education</kwd>
				<kwd>symbolic competence</kwd>
				<kwd>post-colonial studies</kwd>
			</kwd-group>
			<counts>
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				<page-count count="24"/>
			</counts>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução</title>
			<p>O ano de 2015 marcou o início de profundos debates sobre a educação superior na
				África do Sul. O legado histórico de exclusão social do <italic>apartheid</italic>
				ainda marca muitas de suas instituições, incluindo as suas universidades. Embora
				tenham ocorrido mudanças drásticas no sistema de ensino superior sul-africano desde
				1994, com uma inclusão significativa da população africana negra<xref ref-type="fn"
					rid="fn2">2</xref>, os modelos de organização institucional, a configuração do
				quadro docente e as práticas de ensino não sofreram alterações na mesma medida. Foi
				essa constatação que instigou os estudantes da Universidade da Cidade do Cabo a
				iniciarem uma mobilização nesse ano pela retirada da estátua, na entrada principal
				do campus, de Cecil Rhodes, um dos principais representantes do imperialismo e do
				colonialismo britânico na África do Sul. Essa mobilização que ficou conhecida como o
				movimento <italic>#RhodesMustFall</italic> que daria início a uma série de
				discussões sobre a necessidade de descolonização dos símbolos, dos espaços, do
				currículo e das práticas de ensino na educação superior sul-africana, apontando
				também para a necessidade de se questionar o papel das universidades nesse contexto
					(<xref ref-type="bibr" rid="B14">The Daily Vox, 2015</xref>).</p>
			<p>Essa mobilização se desdobraria ainda no segundo semestre, de 2015, em um movimento
				nacional pelo fim das mensalidades nas universidades públicas e pelo fim da
				terceirização dos funcionários de segurança e limpeza dessas instituições, em um
				movimento que ficou conhecido como <italic>#Feesmustfall</italic> e
					<italic>#EndOutsourcing</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B26">Laterza,
					2015</xref>). Embora, em vários aspectos, esses movimentos tenham sido
				vitoriosos - pois não houve nesse ano um aumento das mensalidades e várias
				universidades iniciaram um processo de contratação direta dos funcionários
				terceirizados - tendo em vista o conjunto das desigualdades presentes na sociedade
				sul-africana, em 2016, novos protestos irromperam com bandeiras de luta em torno da
				descolonização da educação e pela educação superior gratuita (<xref ref-type="bibr"
					rid="B22">Kamanzi, 2016</xref>). Ao longo dos debates sobre educação que
				ocorreram durante esse período, os estudantes passaram também a trazer interrogações
				sobre o racismo, o machismo, o capacitismo, a discriminação por orientação sexual e
				identidade de gênero, bem como a desigualdade de condições de acesso e permanência
				nessas instituições, resultado das diferenças de classe na África do Sul.</p>
			<p>No final de 2017, após novos protestos com enfoque na educação gratuita, o governo
				fez uma proposta para conceder essa modalidade de oferta para os estudantes de baixa
				renda, bem como propôs ampliar o financiamento das instituições públicas de ensino
					(<xref ref-type="bibr" rid="B3">Areff e Spies, 2017</xref>), mas o futuro da
				implementação dessas propostas ainda depende de múltiplas negociações políticas e
				institucionais que devem ocorrer nos próximos anos.</p>
			<p>É nesse complexo contexto educacional que, no âmbito de um conjunto de políticas de
				aproximação do Brasil com a África, foi implementado o leitorado brasileiro, na
				Universidade da Cidade do Cabo, ou, em inglês, <italic>University of Cape Town
					(UCT)</italic>, no qual o autor do presente artigo atuou como leitor. Os
				leitorados são parte da política de diplomacia cultural brasileira e têm como
				objetivo a promoção da língua portuguesa e da cultura brasileira no exterior<xref
					ref-type="fn" rid="fn3">3</xref>, de acordo com as diretrizes da política
				externa do país.</p>
			<p>A prioridade dada à África pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE) do Brasil
				está registrada na fala do então chanceler brasileiro no início de 2015, Mauro
				Vieira, que, em uma reunião com os Embaixadores do Grupo Africano residentes em
				Brasília, destacou as razões históricas que fundamentam essa prioridade:</p>
			<p>
				<disp-quote>
					<p>A importância da África é um elemento definidor e incontornável para o
						Brasil. Nosso país é inconcebível sem a herança africana, motivo de orgulho
						e fundamento para a construção de um futuro que queremos mais justo. / O
						reconhecimento imediato nos anos 70 da independência dos países africanos de
						língua portuguesa - Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé
						e Príncipe -, a luta contra o <italic>apartheid</italic>, o estabelecimento,
						até 2002, de rede de dezoito representações diplomáticas na África são
						alguns dos fatos que dão testemunho do engajamento histórico do Brasil com o
						continente de que somos tão tributários (<xref ref-type="bibr" rid="B12"
							>Brasil, 2015</xref>).</p>
				</disp-quote>
			</p>
			<p>Em seu discurso, o embaixador ainda viria a destacar o aprofundamento recente das
				relações com o continente africano desde 2003 com a multiplicação dos projetos de
				cooperação técnica que atingiu 45 países, a expansão do comércio que foi
				multiplicado em quatro vezes e a ampliação da rede de representações diplomáticas
				que chegou a 37 embaixadas residentes.</p>
			<p>Como desdobramento dessas políticas, houve também uma expansão das iniciativas na
				área de diplomacia cultural, principalmente no campo do ensino de língua portuguesa
				e da educação. A adesão da África do Sul, em 2011, ao grupo que passou a se chamar
				então BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) (<xref ref-type="bibr"
					rid="B35">Ribeiro e Moraes, 2015</xref>) contribuiu para que recentemente fossem
				estabelecidos dois leitorados no país (na Cidade do Cabo e em Pretória) e para que
				acordos de cooperação no campo educacional fossem também assinados, alguns deles
				através do suporte das representações diplomáticas brasileiras.</p>
			<p>O Consulado-Geral do Brasil na Cidade do Cabo, por exemplo, participou ativamente na
				mediação de algumas dessas iniciativas como a assinatura dos protocolos de
				cooperação entre a Universidade da Cidade do Cabo e a Universidade de São Paulo e a
				FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) (<xref ref-type="bibr"
					rid="B13">Daily News, 2014</xref>). Para além disso, essa representação
				diplomática buscou, nos últimos anos, valorizar as afinidades culturais do nosso
				país com o continente africano, ao mesmo tempo em que procurou promover a imagem do
				Brasil como uma nação etnicamente diversa, seguindo a orientação geral da diplomacia
				cultural brasileira (<xref ref-type="bibr" rid="B11">Brasil, 2016</xref>). Pode-se
				destacar, entre essas iniciativas, a organização de uma visita de representantes da
				Fundação Cultural Palmares, do Ministério da Cultura, à Cidade do Cabo, em 2014, com
				o intuito de promover a articulação de projetos de cooperação. Entre as atividades
				realizadas, foi organizado, por exemplo, um debate no <italic>Iziko Slave Lodge
					Museum</italic>, um museu dedicado à história da escravidão na África do Sul,
				intitulado <italic>Slavery and Race: Brazil and South Africa</italic> (Escravidão e
				Raça: Brasil e África do Sul) (<xref ref-type="bibr" rid="B21">Iziko,
				2014</xref>).</p>
			<p>As atividades desenvolvidas no âmbito do leitorado brasileiro na Universidade da
				Cidade do Cabo seguindo a mesma direção da política cultural do consulado dessa
				jurisdição, entre 2015 e 2017, buscaram também valorizar a cultura afro-brasileira
				na promoção de suas atividades culturais, reconhecendo a sua importância na formação
				da sociedade brasileira. Em 2015, foi realizado na UCT o evento “Encruzilhadas
				Atlânticas: uma conversa com as culturas negras do Brasil e da África” (<xref
					ref-type="bibr" rid="B34">Rede Brasil Cultural, 2015</xref>), com o objetivo de
				debater as raízes da capoeira no continente africano. Na mesma linha, seguindo
				também a visão de cooperação no âmbito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa
				(CPLP) - delineadas pelos Planos de Ação de Brasília e de Lisboa - nos anos de 2015
				e 2016, na comemoração do Dia da Língua Portuguesa e da Cultura nos países da CPLP,
				foram exibidos filmes que abordam as relações entre os países de língua portuguesa,
				porém, incluindo, de forma destacada, a ótica dos afrodescendentes no Brasil e em
				Portugal e dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa). Esses eventos
				foram organizados de forma conjunta entre os Consulados do Brasil, de Portugal, de
				Angola e de Moçambique na Cidade do Cabo.</p>
			<p>No que se refere ao ensino de Português como Língua Adicional (PLA), na UCT, a minha
				atuação no leitorado buscou contribuir para que as práticas de ensino no âmbito da
				Seção de Língua Portuguesa dialogassem com esses projetos políticos de ampla
				envergadura, por um lado, os debates sobre a necessidade de descolonização do ensino
				na África do Sul e, por outro, as relações históricas entre o Brasil e a África
				ainda pouco conhecidas no contexto sul-africano. O objetivo deste artigo é delinear
				de forma mais detalhada as implicações desses múltiplos contextos macropolíticos na
				formulação das diretrizes para o projeto pedagógico e as práticas de ensino de
				português como língua adicional (PLA) nessa universidade.</p>
			<p>Para tal, primeiramente traço brevemente a trajetória da Seção de Língua Portuguesa
				na UCT e o impacto dos referidos contextos no desenho das diretrizes que orientam o
				projeto pedagógico da seção. Em seguida, tendo em vista essas diretrizes, debato um
				conjunto de formulações teóricas no campo do ensino de línguas adicionais no ensino
				superior que guiaram o planejamento das práticas de ensino na universidade, com
				destaque para o conceito de competência simbólica. Ao final, apresento o programa de
				um dos cursos de português da UCT e o desenvolvimento de um conjunto de atividades
				didáticas desse curso, ambos realizados no âmbito do leitorado e que, partindo do
				horizonte teórico desenhado, indiciam potenciais modos para a construção de um fazer
				específico para o ensino de PLA na África do Sul que procura responder às
				necessidades locais.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>A trajetória do ensino de língua portuguesa na Universidade da Cidade do
				Cabo</title>
			<p>A oferta de ensino de português como língua adicional na UCT foi iniciada em 1986,
				ainda durante o período do <italic>apartheid</italic>, com o apoio do hoje
				denominado Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, de Portugal. Após o
				encerramento dessa oferta, em 1991, o seu reinício ocorreu apenas após a assinatura
				de um acordo tripartite entre a universidade sul-africana, o Camões e a Universidade
				Eduardo Mondlane, de Moçambique, em 2005, quando a UCT passou a contar então com um
				leitor moçambicano. Em 2006, a universidade passou a ofertar cursos semestrais de
				nível básico denominados Português IA e Português IB e, em 2007, os cursos de nível
				intermediário, Português IIA e Português IIB. A média de alunos da Seção desde então
				tem sido de 30 a 40 alunos.</p>
			<p>A partir de 2015, tendo em vista a assinatura no ano anterior do acordo de cooperação
				com o governo brasileiro para a instituição de um leitorado, a UCT passou a ofertar
				as disciplinas de Português IIIA e IIIB, que têm um enfoque maior no ensino de
				literatura e cultura. Essas disciplinas passaram a ser obrigatórias para os
				estudantes interessados em obter um <italic>Major</italic> em língua portuguesa como
				parte da formação do curso de <italic>Bachelor in Arts (BA)</italic>, uma formação
				geral de graduação em humanidades. Como parte do acordo de cooperação com o governo
				do Brasil, foi desenvolvido ainda nesse ano um projeto para a oferta da formação
				pós-graduada de <italic>Honours</italic> nessa língua, mas que não tem, por
				enquanto, data de previsão para início.</p>
			<p>O início da oferta do <italic>Major</italic> e a formulação do projeto de
					<italic>Honours</italic> articuladas à chegada de um novo professor moçambicano
				pelo referido acordo tripartite e do leitor brasileiro, em 2015, inauguraram uma
				nova fase na Seção de Língua Portuguesa com a redefinição da dinâmica de ensino e
				aprendizagem e de avaliação, bem como dos objetivos de uma formação graduada nessa
				área. O delineamento desse novo perfil de formação partiu de uma reflexão em torno
				do plano estratégico da UCT que previa a construção de uma instituição
					Afropolitana<xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref>, ou seja, uma universidade
				focada no estudo das questões africanas, com o fortalecimento das suas redes de
				pesquisa no continente.</p>
			<p>No caso da Seção de Língua Portuguesa, isso implicou começar a construir um percurso
				formativo que pudesse reconhecer a especificidade do ensino de PLA no país, tendo em
				vista, primeiramente, a presença dos imigrantes de língua portuguesa para os quais o
				português é uma língua de herança, já que há uma população significativa de
				imigrantes portugueses e moçambicanos na África do Sul. Em segundo lugar, dar
				visibilidade e valorizar a relevância das relações diplomáticas da África do Sul com
				os demais países da <italic>Southern African Development Community</italic> (SADC),
				organização que inclui Angola e Moçambique. Porém, dada a implementação do leitorado
				brasileiro, implicou também refletir sobre a necessidade de reconhecimento das
				conexões passadas e presentes entre o Brasil e o Sul da África, o que inclui a
				história da diáspora africana no país sul-americano.</p>
			<p>Nessa direção, o projeto de formação do curso de <italic>Major</italic> em Língua
				Portuguesa da UCT começou a ser construído com um horizonte que pudesse contemplar
				aspectos das histórias globais e locais que caracterizam as múltiplas facetas da
				presença da língua portuguesa na África do Sul e no mundo contemporâneo, o que
				direcionou a especialização do <italic>Major</italic> para uma formação, em sentido
					<italic>lato</italic>, em Estudos Afro-Luso-Brasileiros. O sentido decolonial
				dessa perspectiva está no descentramento que ela sugere de Portugal ou do Brasil, ou
				de qualquer projeto nacional no entendimento do que é a língua portuguesa. Nessa
				direção, essa língua passou a ser entendida como uma língua global (<xref
					ref-type="bibr" rid="B32">Moita-Lopes, 2015</xref>) que representa uma
				multiplicidade de culturas, por isso também a ênfase especial a ser dada no curso,
				para as relações interculturais entre os países e as comunidades espalhadas ao redor
				do globo que têm o português como um de seus veículos de expressão cultural.</p>
			<p>O desenho dessa proposta de formação partiu de uma compreensão das línguas europeias
				para além dos seus processos de construção como línguas nacionais na modernidade
				reconhecendo a sua presença em múltiplos territórios e a multivocalidade que lhes é
				constitutiva (<xref ref-type="bibr" rid="B28">Makoni e Pennycook, 2007</xref>).
				Seguindo a tradição bakhtiniana de reflexão sobre a heteroglossia, a interpretação
				sobre língua(gem) que passou a orientar os trabalhos da seção é a que compreende
				qualquer forma de expressão linguística a partir das dinâmicas plurilíngues que as
				constitui como um lugar de confrontos entre diferentes vozes sociais ao longo de
				diversas escalas de espaço e tempo (<xref ref-type="bibr" rid="B6">Bakhtin,
					1981</xref>).</p>
			<p>O desdobramento dessa visão sobre língua(gem) para o ensino PLA no contexto da UCT
				implicou, em primeiro lugar, na necessidade de uma reflexão nas práticas de ensino e
				aprendizagem, tendo em vista as ideologias linguísticas que estruturam essas
				práticas, sobre as narrativas hegemônicas do passado e do presente a respeito do
				imperialismo e do colonialismo português (<xref ref-type="bibr" rid="B36">Ribeiro,
					2004</xref>), mas também sobre os projetos nacionais que informaram a construção
				da nação brasileira e dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOPs),
				dando destaque principalmente para as vozes que foram subalternizadas na construção
				desses imaginários (<xref ref-type="bibr" rid="B8">Bastos <italic>et al</italic>.,
					2002</xref>).</p>
			<p>Nessa mesma direção, a necessidade de entender o confronto de vozes nessas histórias
				se traduziu em uma reflexão sobre o papel dos fluxos de mobilidade do passado e do
				presente na construção dos discursos sobre língua, identidade e cultura nas
				diferentes comunidades nas quais a língua portuguesa está presente (<xref
					ref-type="bibr" rid="B32">Moita-Lopes, 2015</xref>) e, por isso, na necessidade
				de tematizar as práticas transglóssicas e transculturais (<xref ref-type="bibr"
					rid="B4">Assis-Peterson e Cox, 2007</xref>) dessas comunidades, reconhecendo a
				sua constituição multilíngue e multicultural (<xref ref-type="bibr" rid="B33">Naro
						<italic>et al</italic>., 2007</xref>).</p>
			<p>Nessa direção, a implementação do projeto de ensino de PLA na UCT passou a ser
				transformada com a inserção de um conjunto de materiais na sala de aula (obras
				literárias, cinematográficas, musicais, bem como outras obras artísticas e
				culturais), a partir dos quais, para além do desenvolvimento das diversas
				competências linguísticas, os estudantes pudessem adquirir conhecimentos básicos de
				história, cultura, bem como dos sistemas econômicos, políticos e educacionais em
				funcionamento nos países e nos diversos contextos em que há comunidades de falantes
				de língua portuguesa.</p>
			<p>Esse olhar integrado para o ensino de línguas que tem como foco o aprendizado de uma
				competência intercultural - ou, considerando as discussões mais recentes no campo de
				ensino de línguas adicionais, que quer fazer da sala de aula de línguas um espaço
				para o desenvolvimento de uma competência translíngue e transcultural - tem como
				objetivo contribuir para que o estudante adquira uma habilidade de operar entre
				línguas, compreendendo as diferenças de mentalidade e de visões de mundo, presentes
				em diferentes culturas (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Modern Language Association,
					2007</xref>). Foi esse horizonte que fundamentou a construção das diretrizes
				pedagógicas, presentes no planejamento estratégico da Seção de Língua Portuguesa
				para os próximos dez anos.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>A questão (inter)cultural no ensino de línguas adicionais na educação
				superior</title>
			<p>A visão de que o ensino de línguas estrangeiras na educação superior deve levar ao
				desenvolvimento de uma competência translíngue e transcultural está delineada em um
				Relatório <italic>Ad Hoc</italic>, de 2007, da renomada <italic>Modern Language
					Association</italic> (Associação de Línguas Modernas), dos Estados Unidos,
				elaborado por um comitê coordenado por Mary Louise Pratt:</p>
			<p>
				<disp-quote>
					<p>O <italic>Major</italic> na área de línguas deveria ser estruturado para
						produzir um resultado específico: falantes instruídos que têm uma
						competência translíngue e transcultural profunda. O treinamento avançado de
						idiomas muitas vezes busca replicar a competência de um falante nativo
						instruído, uma meta que os alunos pós-adolescentes raramente alcançam. A
						ideia de uma competência translíngue e transcultural, por sua vez, busca
						valorizar a habilidade do falante de operar entre línguas. (...) Ao longo do
						processo de aquisição de habilidades linguísticas funcionais, os estudantes
						são ensinados a interpretar e traduzir, a ter uma consciência crítica do
						funcionamento da linguagem, uma consciência política e histórica, bem como
						sensibilidade social e percepção estética. (Modern Language Association,
						2007, tradução livre)<xref ref-type="fn" rid="fn5">5</xref>.</p>
				</disp-quote>
			</p>
			<p>Essa visão sobre o papel das línguas adicionais no ensino superior destaca que essas
				práticas não têm como aspecto central apenas o ensino de uma língua ou de uma
				cultura estrangeira, com um enfoque na negociação de significados e no
				desenvolvimento da competência comunicativa, mas também implica o desenvolvimento de
				uma competência intercultural para contrastar e interagir através de diferentes
				línguas e culturas que está no âmbito do espaço das complexas negociações de valores
				e de identidades (<xref ref-type="bibr" rid="B27">Maher, 2010</xref>).</p>
			<p><xref ref-type="bibr" rid="B24">Kramsch (2011)</xref>, em uma revisão de suas
				próprias reflexões sobre o ensino de línguas estrangeiras e de cultura, apontou para
				a insuficiência de algumas das conceptualizações que desenvolveu anteriormente
					(<xref ref-type="bibr" rid="B25">Kramsch, 1993</xref>) sobre cultura e
				interculturalidade, por serem marcadas por um ideário modernista de nação e de
				língua. A autora entende que na atualidade, com a intensificação dos fluxos de
				mobilidade na globalização, o conceito de cultura adquiriu feições mais complexas e
				é associado com ideologias, atitudes e crenças que são constantemente criadas e
				recriadas através de recursos diversos, marcando a nossa subjetividade e os modos
				pelos quais construímos afetos, memórias, entextualizamos e transcontextualizamos
				experiências através dos nossos discursos (<xref ref-type="bibr" rid="B24">Kramsch,
					2011</xref>, p. 355).</p>
			<p>Para a autora (<xref ref-type="bibr" rid="B24">Kramsch, 2011</xref>, p. 365), o que
				está em jogo na comunicação intercultural é a habilidade de o sujeito refletir
				criticamente ou analiticamente sobre os sistemas simbólicos<xref ref-type="fn"
					rid="fn6">6</xref> que são utilizados para produzir significado, o que implica o
				desenvolvimento de uma capacidade de compreensão dos modos de produção de
				significados que está para além de uma competência intercultural translíngue e
				transcultural e envolve a construção de uma capacidade de intervenção dos estudantes
				nos espaços em que estão interagindo. A autora define essa competência como
				simbólica:</p>
			<p>
				<disp-quote>
					<p>a competência simbólica poderia ser definida como a habilidade do sujeito em
						direcionar os jogos multilíngues nos quais investe, dessa forma envolve, por
						exemplo, a habilidade de manipular categorias e normas sociais de
						veracidade, legitimidade, seriedade e originalidade e a habilidade de
						reenquadrar o pensamento e a ação.<xref ref-type="fn" rid="fn7">7</xref>
							(<xref ref-type="bibr" rid="B23">Kramsch e Whiteside, 2008</xref>, p.
						644, tradução livre).</p>
				</disp-quote>
			</p>
			<p>A ideia de competência simbólica sugere que, mais do que ensinar aos estudantes o uso
				apropriado da linguagem em diferentes contextos de interação, o ensino de línguas
				adicionais deve contribuir para que os estudantes possam ser capazes de se
				posicionar como sujeitos multilíngues. Sujeitos que na interação social compreendem
				os diversos sistemas normativos que regulam determinados contextos, sendo capazes
				também de reenquadrá-los, criando realidades alternativas e remodelando os jogos de
				linguagem dos campos sociais nos quais intervêm.</p>
			<p>Essa perspectiva pode ser correlacionada aos diversos olhares no campo do ensino de
				línguas adicionais e da educação que têm como foco a construção de uma pedagogia
				crítica, cujo horizonte é a “reflexão, o dissenso, a diferença, o diálogo, o
				empoderamento, a ação e a esperança” (<xref ref-type="bibr" rid="B20">Guilherme,
					2002</xref>, p. 17). Como afirma <xref ref-type="bibr" rid="B15">Dei
					(2015)</xref>, a educação crítica deve ser uma forma de interrogar, com o
				objetivo de ir além dos projetos intelectuais de mudança educacional, construindo
				práticas que têm como horizonte a subversão dos modelos de educação imperialistas,
				colonialistas e racistas. Para o autor ganense, isso se traduz em uma educação para
				uma cidadania global, cujo horizonte é ajudar a “desestabilizar as relações de poder
				existentes, as hierarquias coloniais e recentrar nas questões chave de equidade,
				poder e justiça social” (<xref ref-type="bibr" rid="B15">Dei, 2015</xref>, p.
				5).</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Notas sobre as práticas de ensino no <italic>Major</italic> em Língua Portuguesa
				da UCT</title>
			<p>A partir das múltiplas questões delineadas acima sobre a dinâmica das relações
				interculturais entre os países de língua portuguesa e o desenvolvimento de
				competências translíngues e transculturais na aprendizagem de línguas, a Seção de
				Língua Portuguesa, da UCT, tem buscado promover uma transição de um modelo mais
				tradicional de ensino de línguas que foi predominante ao longo dos últimos anos para
				um modelo mais centrado no ensino de cultura por uma perspectiva crítica.</p>
			<p>Com isso, a seção tem procurado construir novos significados para o ensino de línguas
				adicionais em um contexto social, marcado por profundas desigualdades e por um
				modelo educacional de viés colonial que não atende às especificidades da maior parte
				da população local. Desde o ano passado, a emergência dos debates sobre
				descolonização e transformação do currículo na UCT tem provocado mudanças na
				programação dos cursos das mais diversas áreas do conhecimento. Tendo assumido a
				função de leitor nesse contexto e sendo o responsável pela implementação das
				disciplinas de Português IIIA e Português IIIB, tentei desenvolver os programas
				desses cursos a partir desses debates.</p>
			<p>Entretanto, considerando a minha trajetória de formação no contexto brasileiro, a
				minha atuação no ensino de PLA tem sido construída na UCT em diálogo também com o
				que no Brasil tem se compreendido como uma abordagem sociointeracional no ensino de
				línguas adicionais (<xref ref-type="bibr" rid="B38">Schoffen <italic>et
					al</italic>., 2013</xref>), a qual remete à trajetória de recepção da visão
				bakhtiniana de linguagem no país e que foi materializada nos parâmetros curriculares
				brasileiros (PCNs) para o ensino de línguas estrangeiras e de português como língua
				materna (<xref ref-type="bibr" rid="B9">Brasil, 1998a</xref> e <xref ref-type="bibr"
					rid="B10">1998b</xref>). <xref ref-type="bibr" rid="B43">Tílio (2013)</xref>, em
				uma revisão e atualização das diversas perspectivas presentes nesse ensino, seguindo
				uma linha de reflexão já apontada por <xref ref-type="bibr" rid="B31">Moita-Lopes
					(2003)</xref>, ressalta que essa abordagem se distingue de uma perspectiva
				comunicativa pela sua função conscientizadora, ao transformar o ensino de línguas em
				um espaço para o entendimento dos discursos hegemônicos e propiciar também a
				compreensão e a construção de discursos anti-hegemônicos..</p>
			<p>Na sua revisão, <xref ref-type="bibr" rid="B43">Tílio (2013)</xref> reforça, nessa
				direção, o alinhamento dessa perspectiva com os fundamentos das abordagens críticas
				no ensino de línguas, destacando como aspecto chave nessa abordagem a análise do
				conteúdo temático, associada à análise da estrutura composicional e do estilo,
				elementos constitutivos da enunciação na teoria bakhtiniana dos gêneros (<xref
					ref-type="bibr" rid="B7">Bakhtin, 2003</xref>, p. 279), como o lugar da
				discussão sobre os processos de construção de significação na linguagem<xref
					ref-type="fn" rid="fn8">8</xref>. Partindo dessa reflexão, <xref ref-type="bibr"
					rid="B43">Tílio (2013)</xref> destaca ainda as múltiplas potencialidades de uma
				compreensão das relações entre conteúdo temático como elemento constitutivo da
				enunciação vinculada a uma compreensão da relevância do que vieram a ser denominados
				como temas transversais nos parâmetros curriculares brasileiros (como ética,
				pluralidade cultural, orientação sexual, questões de gênero e raça, entre outros
				temas) como o fundamento para a seleção dos materiais dos mais diversos gêneros
				sociodiscursivos e dos múltiplos letramentos a serem trabalhados em sala de aula,
				criando condições para o desenvolvimento de uma pedagogia crítica no ensino de
				línguas adicionais.</p>
			<p>Na UCT, os cursos dos dois primeiros anos utilizam como material didático de
				referência o método <italic>Português XXI</italic>, de Ana Tavares (<xref
					ref-type="bibr" rid="B40">Tavares, 2012</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B41"
					>2014</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B42">Tavares e Souza, 2014</xref>).
				Desde o início do leitorado brasileiro, o material foi alvo de discussões na Seção
				de Língua Portuguesa, em função da sua inadequação ao contexto, a perspectiva
				centrada linguística e culturalmente em Portugal, bem como a desatualização dos
				textos utilizados. Apesar disso, por múltiplas razões, tanto materiais (acesso
				facilitado, custo razoável, dificuldades para produção de material didático próprio,
				entre outras) quanto simbólicas (proximidade da variedade portuguesa com as
				variedades africanas, a falta de métodos africanos, entre outras), não houve um
				consenso sobre substituí-lo. O que foi negociado internamente foi a flexibilização
				do uso do material no sentido de construir um olhar múltiplo sobre a língua
				portuguesa na atualidade, tendo em vista a proposta pedagógica que estava sendo
				desenhada para o <italic>Major</italic>.</p>
			<p>Por essa razão, desde 2015, embora os cursos ainda tenham como base o método
				Português XXI, eles passaram a ser complementados com uma série de outros textos e
				materiais que têm como objetivo contrastar os diversos usos da língua portuguesa em
				diferentes regiões e países e trazer elementos culturais desses lugares. Embora isso
				ainda esteja distante da implementação da perspectiva pedagógica crítica delineada
				para o <italic>Major</italic>, os dois anos iniciais, desde então, passaram a
				cumprir de forma mais efetiva o papel de prover os fundamentos dos diversos
				conhecimentos necessários para os cursos do terceiro ano, Português IIIA e IIIB, que
				foram planejados com o intuito de consolidar os conhecimentos linguísticos
				adquiridos e aprofundar os conhecimentos dos estudantes em relação às culturas dos
				países de língua portuguesa.</p>
			<p>O curso de Português IIIA, ofertado no primeiro semestre de 2016, foi planejado com o
				intuito de abordar aspectos da língua, da cultura e da formação da sociedade
				brasileira. Ao longo de um semestre, os estudantes tiveram contato com o português
				falado no Brasil, com a literatura, a música e o cinema brasileiro, através de
				unidades didáticas específicas para esse fim. Já o curso de Português IIIB,
				oferecido no segundo semestre do mesmo ano, foi desenvolvido com o objetivo de
				abordar as relações interculturais afro-luso-brasileiras, com um tratamento, em
				particular, de obras literárias e audiovisuais que apontam, entre outros aspectos,
				para as zonas de intersecção e contato entre a língua portuguesa e a África.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>O curso de Português IIIB no segundo semestre de 2016</title>
			<p>O curso de Português IIIB foi intitulado “Vozes em Português: Imagens de um
				Caleidoscópio” e foi estruturado em seis blocos conforme abaixo:</p>
			<p>
				<list list-type="simple">
					<list-item>
						<p>
							<bold>Bloco Temático I</bold>
						</p>
						<p>
							<bold>Travessias: O Atlântico Sul</bold>
						</p>
						<p>O primeiro bloco tratará das dinâmicas de viagem e das travessias
							atlânticas que marcam as relações entre o Brasil e a África</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>
							<bold>Bloco Temático II</bold>
						</p>
						<p>
							<bold>Fronteiras: Vozes em Português</bold>
						</p>
						<p>O segundo bloco abordará a difusão da língua portuguesa, analisando o seu
							papel na constituição identitária de diferentes populações ao redor do
							globo.</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>
							<bold>Bloco Temático III</bold>
						</p>
						<p>
							<bold>Histórias: Portugal e o Colonialismo</bold>
						</p>
						<p>Este bloco analisará o contexto português no período final da ditadura
							salazarista, com especial atenção para a situação das mulheres e o
							processo que levou à Revolução dos Cravos.</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>
							<bold>Bloco Temático IV</bold>
						</p>
						<p>
							<bold>Hibridismos: A Construção de Angola</bold>
						</p>
						<p>O bloco discutirá o contexto angolano, apontando para as contradições da
							herança do colonialismo na formação da nação no início do período
							pós-colonial.</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>
							<bold>Bloco Temático V</bold>
						</p>
						<p>
							<bold>Atravessamentos: Os retornados em Portugal</bold>
						</p>
						<p>Neste bloco serão analisadas as relações estabelecidas entre os
							portugueses e os países africanos de língua portuguesa e a condição de
							retornado no período pós-ditatorial em Portugal.</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>
							<bold>Bloco VI</bold>
						</p>
						<p>
							<bold>Memórias: Histórias de Moçambique</bold>
						</p>
						<p>Esse bloco abordará aspectos da guerra civil em Moçambique e os processos
							de formação cultural e identitária do país no período pós-colonial.</p>
					</list-item>
				</list>
			</p>
			<p>Em cada um dos blocos, os estudantes tiveram acesso a materiais de diversos gêneros
				discursivos textuais e audiovisuais com o intuito de desenvolver uma compreensão da
				problemática cultural central presente em cada um deles. A metodologia envolveu
				atividades específicas de leitura e interpretação dos materiais apresentados,
				atividades de conversação, atividades de revisão de funções gramaticais e atividades
				escritas para avaliação, baseadas na escrita de gêneros já conhecidos pelos
				estudantes.</p>
			<p>Cada uma das unidades didáticas foi planejada com o intuito de criar um contexto de
				aprendizagem que provocasse um efeito de imersão cultural em uma espacialidade
				específica com suas múltiplas temporalidades. Nesse sentido, cada bloco foi pensado
				como uma dimensão, na qual o estudante era convidado a interagir com obras
				artísticas diversas que abordam os fluxos de mobilidade que tiveram um papel
				constitutivo nos territórios de língua portuguesa, principalmente os que envolveram
				a África. Nesse engajamento, os estudantes tiveram de mobilizar os seus recursos
				linguísticos e culturais e refletir sobre suas próprias trajetórias no sentido de
				pensarem acerca de sua própria posição no mundo contemporâneo.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>A experiência de ensino no bloco “Travessias: O Atlântico Sul”</title>
			<p>O primeiro bloco do curso de Português IIIB foi planejado com o intuito de abordar um
				aspecto central no estabelecimento das conexões entre a Europa, a África e as
				Américas e a construção da modernidade: o tráfico de africanos escravizados para as
				Américas. A abordagem dessa temática foi inspirada pelos trabalhos inovadores no
				campo da história e da antropologia que desde os anos de 1990 têm pensado
				criticamente as interações que ocorreram no espaço atlântico durante o período
				colonial (<xref ref-type="bibr" rid="B17">Gilroy, 1993</xref>; <xref ref-type="bibr"
					rid="B2">Alencastro, 2000</xref>), bem como refletido sobre o trânsito nesse
				espaço na formação do caráter global do colonialismo português (<xref
					ref-type="bibr" rid="B8">Bastos <italic>et al</italic>., 2002</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B37">Santos, 2002</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B36"
					>Ribeiro, 2004</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B33">Naro <italic>et
						al</italic>., 2007</xref>).</p>
			<p>Porém, a reflexão central desse bloco partiu da conceptualização teórica de Paul
				Gilroy sobre o Atlântico negro como chave teórica que explica as relações entre a
				África e a diáspora africana formando um complexo conjunto cultural translocal
				marcado por histórias de sofrimento, mas também de resistência e criatividade. Na
				visão do autor, o fluxo de mobilidade no espaço atlântico contribuiu para a formação
				de um sistema de comunicação, no qual circulam um conjunto de recursos simbólicos
				que vinculam seus diferentes pontos. Para ele, o Atlântico negro se constitui como
				uma vertente cultural crítica da modernidade modelada através do pensamento
				filosófico, da música e das artes nos diferentes espaços da diáspora africana que
				revelam uma diversidade de identidades culturais negras culturalmente híbridas
					(<xref ref-type="bibr" rid="B17">Gilroy, 1993</xref>).</p>
			<p>No seu prefácio à edição brasileira, lançada em 2001, de sua obra mais conhecida,
				Gilroy aponta para a relevância do Atlântico negro como um constructo teórico. O
				autor afirma:</p>
			<p>
				<disp-quote>
					<p>A contaminação líquida do mar envolveu tanto mistura quanto movimento.
						Dirigindo a atenção repetidamente às experiências de cruzamento e a outras
						histórias translocais, a ideia do Atlântico negro pode não só aprofundar
						nossa compreensão sobre o poder comercial e estatal e sua relação com o
						território e o espaço, mas também resume alguns dos árduos problemas
						conceituais que podem aprisionar ou enrijecer a própria ideia de cultura. Os
						ganhos potenciais aqui podem ser vislumbrados até mesmo através de um
						contraste simplificado entre nações estabelecidas e essencialmente
						sedentárias - baseadas num único centro, mesmo que seus tentáculos imperiais
						se estendam muito mais - e os padrões de fluxo e mobilidade que caracterizam
						a aventura extra-nacional e a criatividade inter-cultural. (<xref
							ref-type="bibr" rid="B18">Gilroy, 2001</xref>, p. 15).</p>
				</disp-quote>
			</p>
			<p>Esse foco no intercultural para Gilroy aponta para um entendimento da diáspora não
				como uma categoria que reproduz o funcionamento racial, mas nas suas próprias
				palavras, como “formas geo-políticas e geo-culturais de vida que são resultantes da
				interação entre sistemas comunicativos e contextos que elas não só incorporam, mas
				também modificam e transcendem” (<xref ref-type="bibr" rid="B18">Gilroy,
				2001</xref>, p. 24). Sendo assim, a problemática central desse bloco era a
				compreensão das relações entre o Brasil e a África, com um enfoque na circulação
				atlântica e nas formas geopolíticas e geoculturais de significação da diáspora no
				Brasil. As obras centrais a serem estudadas nessa parte do curso foram o romance “Um
				defeito de cor” (2006), de Ana Maria Gonçalves, e o filme “Tão Longe é Aqui” (2013),
				de Eliza Capai. Conceitualmente, ao iniciar o curso com uma abordagem sobre a
				questão diaspórica, o curso de Português IIIB teve como intuito oferecer um
				contraponto ao imaginário de nação brasileiro e ao debate sobre
				crioulização/miscigenação que havia sido abordado no curso de Português IIIA, com o
				estudo da obra de Gilberto Freyre.</p>
			<p>A unidade didática iniciou com uma apresentação e uma discussão sobre a capa do livro
				de Ana Maria Gonçalves, que tem uma foto antiga no formato de uma flor com duas
				mulheres negras. Em seguida, foi exibido o filme “Atlântico Negro: Na Rota dos
				Orixás” (1997), de Renato Barbieri, com o intuito de contextualizar e debater os
				fluxos culturais transatlânticos entre a África e o Brasil. Após essa discussão, a
				proposta era debater imagens fotográficas de negros escravizados no Brasil no século
				XIX, porém, infelizmente, em função do tempo, essa tarefa não foi realizada e
				passamos para a leitura dos trechos iniciais do livro de Gonçalves. A obra,
				inspirada pela vida da heroína negra Luiza Mahin, conta a história de Kehinde,
				mulher de Daomé, trazida ainda quando criança para o Brasil como escrava e que, na
				velhice, retornando da África para o Brasil, relata a sua história. Para uma melhor
				compreensão da obra, foi debatida uma resenha curta do livro e foram fornecidos
				materiais complementares para o desenvolvimento de uma reflexão sobre o gênero, o
				estilo e os temas presentes no romance. Na sequência das aulas, foi exibido um vídeo
				com uma entrevista com Ana Maria Gonçalves e foi feita a leitura de trechos mais
				longos de sua obra. Foram indicados também mais materiais complementares para ajudar
				na interpretação do texto da autora.</p>
			<p>Ao final do módulo, foi exibido o filme brasileiro “Tão Longe é Aqui” (2013), de
				Eliza Capai, no qual a cineasta brasileira viaja por diversos países africanos. No
				filme, gravado durante uma viagem de sete meses em países como Cabo Verde, Marrocos,
				Mali, Etiópia e África do Sul, a diretora reflete acerca de sua identidade como
				mulher e a identidade das mulheres que encontra ao longo de seu percurso. A
				narrativa é construída como se fosse uma carta que está sendo escrita pela
				diretora-narradora para uma filha que ainda não nasceu. A apresentação desse filme
				ao final do módulo tinha como intuito estimular uma reflexão sobre a continuidade
				dos fluxos interatlânticos ao longo da história, mas também sobre processos de
				construção de identidade e de diferença no âmbito dessas relações. Ao longo do
				módulo, foram construídas reflexões com o objetivo de compreender os imaginários
				sobre a África no Brasil e as formas de construção de sentido sobre o Brasil na
				África, levando em consideração o funcionamento do racismo nesses diferentes
				contextos e as diversas possibilidades de construção de posicionamentos em relação à
				condição feminina.</p>
			<p>Por essa razão, a atividade escrita para avaliação foi proposta como um convite à
				reflexão sobre ser mulher e ser africana conforme mostrado em anexo (Anexo 1). A
				ideia da proposta era que as quatro estudantes do curso pudessem se posicionar
				individualmente, em relação às reflexões feitas ao longo do bloco e, em particular,
				ao filme de Capai. Embora nascidas na África, as origens dessas estudantes eram
				mistas e diversificadas, algumas de pais imigrantes europeus, outras de famílias
				mistas de pais europeus e africanos ou ainda asiáticos. Foram dadas duas opções de
				atividade escrita, baseadas em gêneros estudados anteriormente: a escrita de uma
				carta pessoal para Eliza Capai refletindo sobre o filme ou uma resenha crítica
				resumindo e emitindo uma opinião sobre a obra cinematográfica. No dia da explicação
				da proposta, todas as estudantes assistiram ao vídeo sugerido como material de apoio
				para a escrita da carta. O vídeo, feito para uma série sobre feminismo de uma
				produtora cultural<xref ref-type="fn" rid="fn9">9</xref>, apresenta a cineasta
				brasileira e mostra vários trechos de “Tão Longe é Aqui” (2013). O episódio é
				permeado por comentários da autora que faz uma autocrítica sobre os seus próprios
				posicionamentos no seu longa-metragem.</p>
			<p>Duas estudantes optaram por fazer uma carta, uma fez uma resenha e outra fez uma
				dissertação que não correspondia exatamente ao que foi proposto<xref ref-type="fn"
					rid="fn10">10</xref>. Em comum, os trabalhos demonstravam uma sensibilização
				para as questões trazidas pelo documentário, com um engajamento efetivo com o debate
				proposto pela autora. Esse engajamento, de um modo geral, partia de uma
				identificação com o discurso da cineasta e de uma identificação com a condição
				feminina que uniria a diretora, as personagens retratadas e as estudantes,
				independentemente de suas trajetórias diversificadas, pois todas teriam algo em
				comum: o sofrimento causado pela estrutura de poder do patriarcado. Isso aparece,
				por exemplo, no trecho abaixo da carta de Corinne (pseudônimo):</p>
			<p><bold>Excerto 1</bold><xref ref-type="fn" rid="fn11">11</xref> - Processos de
				aproximação</p>
			<p>
				<list list-type="simple">
					<list-item>
						<p>1 “Nós assistimos ao seu documentário em nossa classe de Português</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>2 e isso me transformou de uma forma que você não poderia entender.</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>3 Foi de partir o coração ver como as mulheres africanas sofrem</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>4 diariamente e o quão duro elas têm que trabalhar apenas para</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>5 manter a si mesmas e aos seus filhos vivos.</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>6 Ouvindo as diferentes histórias dessas mulheres e das meninas que</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>7 falam com você no filme me fez perceber que nós como mulheres,</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>8 apesar de nossas lutas diárias diferentes, estamos lutando a mesma</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>9 batalha e afim de ganhar essa batalha, precisamos estar juntas. Nós</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>10 precisamos lutar contra a desigualdade, a violência doméstica, o</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>11 estupro e o silenciamento das mulheres.” <xref ref-type="fn"
								rid="fn12">12</xref></p>
					</list-item>
				</list>
			</p>
			<p>O alinhamento da estudante indicia um processo de identificação com o discurso da
				autora tal como comentamos acima. Na primeira parte, ela se alinha com a posição da
				cineasta que teve contato com a dor e o sofrimento de diferentes mulheres africanas
				e que vivem em condições precárias “Foi de partir o coração ver como as mulheres
				africanas sofrem diariamente” (l. 3 e 4); já na segunda parte ela busca ver a si
				própria como uma mulher que compartilha com as mulheres retratadas no filme e com
				outras mulheres uma condição de opressão “nós como mulheres, apesar de nossas lutas
				diárias diferentes, estamos lutando a mesma batalha” (l. 8 e 9). Essa identificação
				se desdobra em uma voz na última frase que se insurge em relação ao funcionamento do
				poder patriarcal que submete as mulheres a diversos tipos de violência (l. 9, 10 e
				11). Esse posicionamento parte primeiramente de uma empatia baseada no
				reconhecimento da diferença para então construir uma identidade comum, fundada em
				uma condição compartilhada.</p>
			<p>No filme de Capai, essa aproximação por empatia para a construção de uma identidade
				comum ocorre em vários momentos, mas há também diversas cenas em que a diretora do
				filme aponta para as diferenças entre ela e as mulheres retratadas no seu
				documentário. Ela faz isso ao longo do filme (Capai, 2013), mas sobretudo no vídeo
				do material de apoio (Anexo 1), no qual constrói uma autocrítica sobre os seus
				posicionamentos, tendo em vista a sua posição social como mulher branca, urbana e de
				classe média. Algumas estudantes notaram esse caráter reflexivo do filme nos seus
				textos, observando o uso da diretora de recursos narrativos sonoros e imagéticos
				como o uso do silêncio e a seleção de imagens que apresentam um caráter onírico que
				indiciam essa reflexividade.</p>
			<p>Porém, para algumas estudantes, isso pareceu insuficiente para evidenciar as
				diferenças de poder que marcam a relação da cineasta com as mulheres africanas
				retratadas no filme. Embora elas se alinhem com Capai ao se reconhecerem na condição
				genérica de mulher, como exemplificado no trecho supracitado, elas se distanciam da
				cineasta brasileira ao se pensarem como mulheres africanas. Para elas o filme de
				Capai produz um efeito de “outrificação” que produz uma exotização, considerada por
				elas, indesejável das mulheres africanas. Isso aparece, por exemplo, no trecho
				abaixo, de Lianne (pseudônimo):</p>
			<p><bold>Excerto 2 -</bold> Processos de distanciamento</p>
			<p>
				<list list-type="simple">
					<list-item>
						<p>1 “No entanto, há uma questão que precisa ser respondida, por que
							mulheres</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>2 africanas? Capai disse que ela escolheu a África para entender a
							cultura</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>3 brasileira melhor, em função das ligações históricas atlânticas entre
							o</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>4 Brasil e a África. Mas ela aborda a configuração de poder desigual,
							na</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>5 atualidade, dessas ligações no filme? Por que Capai escolheu
							entrevistar</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>6 principalmente as mulheres rurais? Por que não dar a essas mulheres
							mais</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>7 contexto e agência? Por que não há mais entrevistas com as suas</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>8 contrapartes urbanas e privilegiadas?”</p>
					</list-item>
				</list>
			</p>
			<p>O incômodo presente nos questionamentos da estudante é marcado por um alinhamento que
				busca interrogar as relações de poder entre quem faz o filme e quem é retratado
				nele. A ideia das conexões entre o Brasil e a África são colocadas em questão: “ela
				aborda a configuração de poder desigual, na atualidade, dessas ligações no filme?”
				(l. 4 e 5). A seleção de personagens para o documentário também é vista com
				desconfiança, pois o retrato construído na obra das mulheres africanas seria
				parcial, faltaria mais contextualização e faltaria mais diversidade social: “Por que
				não dar a essas mulheres mais contexto e agência? Por que não entrevistar mais as
				suas contrapartes urbanas e privilegiadas?” (l. 7 e 8). A recusa da estudante em se
				alinhar totalmente com o modo de construção das imagens no filme de Capai se
				constitui como um posicionamento que aponta para um sentimento de necessidade de ver
				diversificado o imaginário apresentado ali sobre as mulheres africanas, mas ecoa
				também a tensão das diferenças de poder entre a cineasta e as mulheres retratadas no
				filme.</p>
			<p>A atividade escrita como resultado final de uma sequência de atividades didáticas
				marcadas pelo estudo de diferentes culturas apontou para o funcionamento. As
				estudantes foram convidadas a se engajar e compreender universos imaginários e
				pontos de vista distintos, bem como a construir seus próprios posicionamentos. Esse
				posicionar-se em relação às obras culturais analisadas implicou uma reflexão sobre
				as conexões diaspóricas e os fluxos de mobilidade no Atlântico Sul e sobre os modos
				específicos pelos quais se constroem identidades femininas em dois dos lados opostos
				desse oceano no passado e no presente. Como resultado dessa empreitada de travessia
				por diferentes culturas, emergiu um processo de identificação, marcado pela condição
				compartilhada do ser mulher, mas também um processo de distanciamento, dadas as
				diferenças das experiências de vida de mulheres com trajetórias em lugares distintos
				no tempo e no espaço (ver, por exemplo no Excerto 1, l. 8-11 e Excerto 2, l.
				2-5).</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações Finais</title>
			<p>O presente artigo teve como objetivo delinear o contexto de implementação do
				leitorado na Universidade da Cidade do Cabo, o histórico e as condições atuais do
				ensino de língua portuguesa na UCT, bem como as características do projeto
				pedagógico que está sendo construído na universidade. Tendo isso em vista, foi
				apresentada a fundamentação teórica desse projeto e como tem sido o desenvolvimento
				das práticas de ensino baseadas nele, em particular, no terceiro ano do curso de
					<italic>Major</italic> em Língua Portuguesa. A abordagem das relações entre o
				Brasil e a África no bloco “Travessias: O Atlântico Sul” teve como intuito estudar o
				impacto da circulação atlântica nos processos de configuração de imaginários sociais
				e de identidades que se constituem em espaços transitórios reconstituídos e mediados
				pela criação artística.</p>
			<p>Inspirado por esse horizonte, o convite feito às estudantes na elaboração da
				atividade escrita final do bloco “Travessias: O Atlântico Sul” era para que se
				posicionassem em relação aos diversos universos culturais representados nas obras
				artísticas estudadas, buscando compreendê-los a partir de sua condição como mulheres
				e como africanas, considerando suas origens culturais diversas. Os resultados da
				atividade apontaram para dinâmicas de pertencimento que envolvem a performance de
				identidades genéricas inclusivas e exclusivas, contribuindo para a ampliação dos
				repertórios linguísticos e culturais das estudantes. Ao compreenderem diferentes
				modos de construção de identidades femininas em diferentes temporalidades e em
				diferentes contextos, elas tiveram a oportunidade de refletir sobre as fronteiras
				que modelam os seus universos de referência e o de outras mulheres e de desenvolver
				estratégias de circulação por e entre essas fronteiras.</p>
			<p>No contexto atual da África do Sul, o curso como um todo apontou para um horizonte
				mais amplo para o ensino de língua portuguesa, ao mostrar a sua presença em redes de
				circulação mais amplas e o seu funcionamento como uma língua global, com uma
				importância especial no contexto africano. As atividades analisaram o funcionamento
				de sistemas distintos de regulação de identidades e estimularam a construção de
				posicionamentos críticos em relação a esses sistemas, contribuindo para o
				desenvolvimento da referida competência translíngue e transcultural tal como
				delineada por Pratt, mas também para a edificação de uma competência simbólica, que
				está para além da formação acadêmica e envolve também a formação cidadã. Embora o
				engajamento das estudantes com o contexto político que vivenciávamos também fosse
				diverso, ele era uma das ordens de indexicalidade estruturando o projeto pedagógico,
				o planejamento do curso e das atividades e as nossas interações cotidianas.</p>
			<p>Ainda que o foco do curso não fosse o debate direto sobre as problemáticas do
				racismo, do imperialismo ou do colonialismo, a abordagem dos fluxos culturais ao
				longo do curso tangenciou essas questões, ao recontextualizar esses debates no
				espaço da sala de aula através das diversas produções culturais analisadas. Nesse
				processo de atualização de histórias em espaços transitórios e diversos, para além
				das fronteiras nacionais, emergiu, por entre projetos globais e histórias locais
					(<xref ref-type="bibr" rid="B29">Mignolo, 2003</xref>), uma língua portuguesa
				com sonoridades, imagens e referentes específicos, com potencialidades, em termos de
				significação, ainda a serem exploradas. Uma perspectiva translíngue e transcultural
				no ensino de línguas adicionais pelo enfoque naquilo que é e está por/entre línguas
				permite processos de construção específicas do significado de determinadas línguas
				que, ainda que não alterem os seus modos de significação hegemônicos, ao menos,
				autorizam e legitimam modos de apropriação locais através dos quais elas podem se
				tornar veículos de visões contra-hegemônicas e de projetos de hegemonias
				alternativas.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>Embora, de acordo com os dados de 2013, 80% da população estudantil das
					universidades sul-africanas fosse negra, a taxa de matrícula nas universidades
					dos jovens negros na população de 20-24 anos era de apenas 16%, enquanto essa
					taxa chegava a 54% quando considerada a população branca (<xref ref-type="bibr"
						rid="B1">África do Sul, 2016</xref>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>Para maiores informações sobre o programa, consultar o site da Rede Brasil
					Cultural (<ext-link ext-link-type="uri"
						xlink:href="http://redebrasilcultural.itamaraty.gov.br/menu-a-rede/menu-leitorados"
						>http://redebrasilcultural.itamaraty.gov.br/menu-a-rede/menu-leitorados</ext-link>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>De acordo com o documento: “The Afropolitan strategy will encourage the study of
					African social, political and economic systems, the impact of climate change and
					biodiversity on different regions, infectious diseases and health systems, earth
					stewardship and geology across the continent and its oceans, African literature,
					philosophy and belief systems, evolving languages and culture, urbanisation and
					migration, and how to do business and invest in African economies, and more. UCT
					will participate in the study of indigenous knowledge systems, and will be
					receptive to learning even as we subject it to the rigorous critical analysis
					that we apply to all knowledge. These elements will impact on the course
					offerings and research programmes of many disciplines across the institution.”
						(<xref ref-type="bibr" rid="B44">University of Cape Town, 2009</xref>)</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p>The language major should be structured to produce a specific outcome: educated
					speakers who have deep translingual and transcultural competence. Advanced
					language training often seeks to replicate the competence of an educated native
					speaker, a goal that postadolescent learners rarely reach. The idea of
					translingual and transcultural competence, in contrast, places value on the
					ability to operate between languages. (...) In the course of acquiring
					functional language abilities, students are taught critical language awareness,
					interpretation and translation, historical and political consciousness, social
					sensibility, and aesthetic perception. (<xref ref-type="bibr" rid="B30">Modern
						Language Association, 2007</xref>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>6</label>
				<p>Resumidamente, para a autora, o discurso como um sistema simbólico é composto
					pelas representações simbólicas (relacionadas às estruturas lexicais e
					gramaticais), pelas ações simbólicas (relacionadas às performances) e pelo poder
					simbólico (relacionadas aos processos de indexicalização) (<xref ref-type="bibr"
						rid="B24">Kramsch, 2011</xref>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>7</label>
				<p><italic>symbolic competence could be defined as the ability to shape the
						multilingual game in which one invests, i.e., the ability to manipulate the
						conventional categories and societal norms of truthfulness, legitimacy,
						seriousness, and originality, and the ability to reframe human thought and
						action</italic>. (<xref ref-type="bibr" rid="B23">Kramsch e Whiteside,
						2008</xref>, p. 644)</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>8</label>
				<p>Nos parâmetros curriculares brasileiros, o conteúdo temático é definido como “o
					que é ou pode tornar-se dizível por meio do gênero”, a construção composicional
					como “estrutura particular dos textos pertencentes ao gênero” e o estilo como
					“configurações específicas das unidades de linguagem derivadas, sobretudo, da
					posição enunciativa do locutor; conjuntos particulares de seqüências que compõem
					o texto etc.” (<xref ref-type="bibr" rid="B10">Brasil, 1998b</xref>, p. 21)</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn9">
				<label>9</label>
				<p>O vídeo produzido pelo Espaço Cultural Húmus está disponível para acesso no
					Youtube (<ext-link ext-link-type="uri"
						xlink:href="https://www.youtube.com/watch?v=2PeFQhcsCAw"
						>https://www.youtube.com/watch?v=2PeFQhcsCAw</ext-link>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn10">
				<label>10</label>
				<p>A avaliação dos estudantes é regulada por parâmetros institucionais específicos:
					a nota final é composta por um exame escrito (50%), um exame oral (10%) e as
					atividades desenvolvidas ao longo do curso (40%). No âmbito desses 40%, nesse
					curso em específico, os estudantes tinham atividades escritas e um seminário
					como forma de avaliação. Os gêneros resenha e carta haviam sido trabalhados no
					curso anterior como parte de sequências didáticas específicas (<xref
						ref-type="bibr" rid="B16">Dolz <italic>et al</italic>., 2004</xref>)
					adaptadas para o contexto. Nesse sentido, as atividades avaliativas retomavam
					conhecimentos adquiridos anteriormente e, a princípio, foi prontamente
					compreendida pelas estudantes, por isso, a presença de um texto do gênero
					dissertação escolar foi algo atípico.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn11">
				<label>11</label>
				<p>Os trechos estão apresentados com as correções sugeridas pelo professor. Todas as
					estudantes assinaram um termo de consentimento esclarecido autorizando o uso
					desses trechos. Os procedimentos éticos para pesquisa seguiram as orientações
					disponíveis na instituição para pesquisas consideradas de baixo risco.
						(<ext-link ext-link-type="uri"
						xlink:href="http://www.humanities.uct.ac.za/hum/research/ethics"
						>http://www.humanities.uct.ac.za/hum/research/ethics</ext-link>).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn12">
				<label>12</label>
				<p>Os trechos estão apresentados com as correções sugeridas pelo professor. Todas as
					estudantes assinaram um termo de consentimento esclarecido autorizando o uso
					desses trechos. Os procedimentos éticos para pesquisa seguiram as orientações
					disponíveis na instituição para pesquisas consideradas de baixo risco.
						(<ext-link ext-link-type="uri"
						xlink:href="http://www.humanities.uct.ac.za/hum/research/ethics"
						>http://www.humanities.uct.ac.za/hum/research/ethics</ext-link>).</p>
			</fn>
		</fn-group>
		<app-group>
			<app id="app1">
				<label>Anexo 1</label>
				<p>
					<bold>SLL3076S Português III B</bold>
				</p>
				<p>
					<bold>Atividade Escrita 1 (8 pontos)</bold>
				</p>
				<p>
					<italic>“(A pergunta é) Porque sou parte da minha sociedade ou porque sou parte
						da sociedade africana?”</italic>
				</p>
				<p>
					<italic>“Você sente que você é parte da sociedade africana?”</italic>
				</p>
				<p>
					<italic>“Eu me sinto africana, eu me sinto árabe e eu me sinto profundamente
						mediterrânea”</italic>
				</p>
				<p>Mulher entrevistada no Marrocos, (<xref ref-type="bibr" rid="B39">Tão Longe é
						Aqui, de Eliza Capai, 2013</xref>)</p>
				<p>E você? Como você se sente? Escolha uma das opções abaixo para a sua atividade
					escrita. A data de entrega inicial é 11 de agosto, a data limite é 16 de
					agosto.</p>
				<p>
					<bold>Opção A)</bold>
				</p>
				<p>Assista e entrevista abaixo com Eliza Capai e tome notas:</p>
				<p>
					<ext-link ext-link-type="uri"
						xlink:href="https://www.youtube.com/watch?v=2PeFQhcsCAw"
						>https://www.youtube.com/watch?v=2PeFQhcsCAw</ext-link>
				</p>
				<p>Escreva uma carta para a diretora do documentário (no mínimo 30 linhas).</p>
				<p>
					<list list-type="simple">
						<list-item>
							<p>- Apresente-se, fale quem você é, sua trajetória de vida, suas
								experiências pessoais como mulher e o seu entendimento da sua
								identidade (ou não) como africana.</p>
						</list-item>
						<list-item>
							<p>- Escreva sobre como o filme a tocou (ou não), aborde o que você
								sentiu ao ver e ouvir as histórias de diferentes mulheres ao longo
								do filme.</p>
						</list-item>
						<list-item>
							<p>- Mencione se você se identifica (ou não) com os posicionamentos da
								diretora e pense nos desafios políticos que o filme aponta para
								articulação das mulheres e da luta feminista em uma sociedade
								globalizada.</p>
						</list-item>
					</list>
				</p>
				<p>
					<bold>Opção B)</bold>
				</p>
				<p>Escreva uma resenha do filme de Eliza Capai. A sua resenha deve ter no mínimo 30
					linhas e incluir:</p>
				<p>
					<list list-type="simple">
						<list-item>
							<p>- Um resumo do enredo principal do filme, mencionando os países que
								ela visitou e as mulheres que ela encontrou ao longo de sua
								viagem.</p>
						</list-item>
						<list-item>
							<p>- Trechos de falas das mulheres que exemplifiquem a discussão
								proposta pelo filme.</p>
						</list-item>
						<list-item>
							<p>- Uma crítica ao filme na qual você se posicione em relação às
								imagens construídas pela cineasta sobre as mulheres africanas tendo
								em vista a sua própria experiência.</p>
						</list-item>
					</list>
				</p>
			</app>
		</app-group>
		<ref-list>
			<title>Referências</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>ÁFRICA DO SUL. 2013. <italic>2013 Higher Education Data:
						Participation</italic>. Atualizado em 22 jan. 2016. Disponível em: <ext-link
						ext-link-type="uri"
						xlink:href="http://www.che.ac.za/focus_areas/higher_education_data/2013/participation"
						>http://www.che.ac.za/focus_areas/higher_education_data/2013/participation</ext-link>.
					Acesso em: 10 out. 2016.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="webpage">
					<person-group person-group-type="author">
						<collab>ÁFRICA DO SUL</collab>
					</person-group>
					<year>2013</year>
					<source>2013 Higher Education Data: Participation</source>
					<date-in-citation content-type="updated">22 jan. 2016</date-in-citation>
					<comment>Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri"
							xlink:href="http://www.che.ac.za/focus_areas/higher_education_data/2013/participation"
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					<date-in-citation content-type="access-date">10 out. 2016</date-in-citation>
				</element-citation>
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				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
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							<surname>ALENCASTRO</surname>
							<given-names>L. F.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<year>2000</year>
					<source>O Trato dos Viventes: A Formação do Brasil no Atlântico Sul</source>
					<edition>1ª ed.</edition>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Companhia das Letras</publisher-name>
					<size units="pages">544 p</size>
				</element-citation>
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				<mixed-citation>AREFF, A.; SPIES, D. 2017. <italic>Breaking: Zuma announces free
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					Acesso em: 08 jan. 2018.</mixed-citation>
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							<surname>AREFF</surname>
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						</name>
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							<surname>SPIES</surname>
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					<date-in-citation content-type="access-date">08 jan. 2018</date-in-citation>
				</element-citation>
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					Transglossia: para compreender o fenômeno das fricções linguístico-culturais em
					sociedades contemporâneas sem nostalgia. <italic>In:</italic> S.M.
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						e Educação</italic>. 1ª ed., Campinas, SP, Mercado de Letras, p.
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						</name>
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					</person-group>
					<year>2007</year>
					<chapter-title>Transculturalidade e Transglossia: para compreender o fenômeno
						das fricções linguístico-culturais em sociedades contemporâneas sem
						nostalgia</chapter-title>
					<person-group person-group-type="compiler">
						<name>
							<surname>BORTONI-RICARDO</surname>
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					<source>Transculturalidade, Linguagem e Educação</source>
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					<publisher-loc>Campinas, SP</publisher-loc>
					<publisher-name>Mercado de Letras</publisher-name>
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