Iniciando nossa Caminhada

Alice Alexandre Pagan
Universidade Federal de Mato Grosso, Brasil
Aline Andréia Nicolli
Universidade Federal do Acre, Brasil
Márcia Gorette Lima da Silva
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Brasil
Silvania Sousa do Nascimento
Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil
Suzani Cassiani
Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil

Iniciando nossa Caminhada

Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, vol. 22, pp. 1-4, 2022

Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências

Recepción: 01 Febrero 2022

Aprobación: 21 Febrero 2022

Em meio ao contexto pandêmico, esperamos que todas e todos se encontrem bem e com saúde. Este editorial é dedicado aos que lutam contra o negacionismo científico e as opressões sociais.

Assim, é com alegria que escrevemos esse texto a você leitora e leitor da RBPEC, para iniciarmos um diálogo sobre a nossa revista.

A Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências foi criada em 2001 e lançada oficialmente no III Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências (III ENPEC, Atibaia, SP, 7 a 10 de novembro de 2001). A partir de então, foi publicada regularmente, com periodicidade quadrimestral, passando à modalidade de fluxo contínuo em 2019.

Como vocês sabem, foi classificada como A2 no QUALIS CAPES (2013-2016) das áreas de Educação e Ensino, além de estar indexada em bases como DOAJ, Latindex, IRESIE, Redalyc, entre outros; o que só demonstra seu papel de divulgação na nossa área, fruto de um trabalho coletivo dos/as editores/as, avaliadores/as e autores/as. A vocês que fazem a RBPEC, o nosso reconhecimento pelo trabalho colaborativo, solidário e voluntário.

Além disso, a RBPEC objetiva divulgar resultados e reflexões advindos de investigações conduzidas com ética e relevância, de forma a contribuir com a consolidação da área, a formação de pesquisadores e a produção de conhecimentos em Educação em Ciências nas temáticas preferenciais desta revista, aliadas às linhas do Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências, entre elas: Ensino e Aprendizagem de Conceitos e Processos Científicos; Formação de Professores; História, Filosofia e Sociologia da Ciência; Educação em Espaços Não-Formais e Divulgação Científica; Educação Ambiental; Educação em Saúde; Linguagens e Discurso em Ciências da Natureza; Alfabetização Científica e Tecnológica, Abordagens CTS/CTSA; Currículos e Políticas Educacionais; Diferença, Multiculturalismo, Interculturalidade.

Assumimos a Editoria em novembro de 2021 e aproveitamos o espaço para agradecer o trabalho competente dos editores, editoras e assistentes editoriais que nos precederam. A vocês, o nosso muito obrigada.

Passado o momento de transição, com a equipe efetivada em fevereiro de 2022, buscamos nessa composição uma representatividade das cinco regiões do país, além de nos apropriar deste novo universo com o objetivo de traçar boas práticas de comunicação e, ao mesmo tempo, criar condições para a indexação em outras bases. Não poderíamos, neste diálogo, deixar de agradecer ao trabalho e envolvimento do novo assistente editorial (Jonathan Atkinson), pela parceria e excelente trabalho que tem realizado.

Nesse momento de pandemia, em que enfatizamos a importância da Ciência e da Tecnologia, ao mesmo tempo em que vemos o ressurgimento de grupos negacionistas científicos e fascistas, além dos retrocessos sociais e políticos que temos vivenciado, destacamos a importância da educação científica e tecnológica bem como a pesquisa em educação em ciências para a sociedade brasileira, a fim de gritar aos quatro cantos do mundo que precisamos avançar em prol de uma sociedade mais justa, fazendo de nossas pesquisas um luta constante por uma cidadania que não está dada, que tem que ser construída, que tem que ser conquistada a cada dia. Dialogando com nosso objetivo, procuraremos fortalecer essa rede que pode ser sintetizada nessa comunidade científica, na comunidade de educadores/as e estudantes de graduação e pós-graduação, entre outras comunidades.

Uma de nossas metas é fazer parte do movimento da Ciência Aberta. Sendo assim, os periódicos precisam adotar “boas práticas editoriais” para que possam estar na coleção do Scielo. Com o intuito de atender a tal movimento, três dimensões têm norteado as propostas de ação (Scielo, 2020, p.7):

1. Inclusão da modalidade de preprint no fluxo de comunicação científica em convergência com os periódicos de qualidade do exterior. Um preprint é definido como um manuscrito pronto para submissão a um periódico que é depositado em servidores confiáveis antes ou em paralelo à submissão a um periódico. O uso desse mecanismo é uma opção e escolha dos/as autores/ as e cabe aos periódicos adaptarem suas políticas para aceitar a submissão de manuscritos previamente depositados em um servidor de preprint reconhecido pelo periódico.

2. Compartilhamento dos dados, códigos, métodos e outros materiais utilizados resultantes das pesquisas que, geralmente, ficam subjacentes nos textos dos artigos publicados pelos periódicos. Esse compartilhamento é de responsabilidade dos/as pesquisadores/as envolvidos/as na pesquisa que devem informar ao periódico na submissão do manuscrito. Aos periódicos cabe, em primeiro lugar, promover e, posteriormente, exigir que os conteúdos subjacentes aos artigos sejam devidamente citados e referenciados. Como opção adicional, os periódicos podem vir a exigir que esses conteúdos sejam disponibilizados em acesso aberto em linha com as políticas de dados abertos.

3. Abertura progressiva do processo de avaliação dos manuscritos por pares. Para avançar na abertura, o Scielo considera três opções: (a) publicação no artigo final do nome ou nomes dos/as editores/as responsáveis pela avaliação;(b) oferecer aos/as pareceristas a opção de dialogar diretamente com o autor correspondente com abertura ou não das identidades; (c) oferecer a opção de publicar os pareceres de aprovação de artigos com ou sem a identificação dos pareceristas. Os pareceres constituem um novo tipo de literatura na metodologia Scielo e recebem tratamento similar aos artigos de pesquisa (geralmente publicados na forma de coments).

Entendemos que apresentar essas dimensões dirigidas ao movimento da Ciência Aberta orientarão nossas ações a curto, médio e longo prazo.

Para 2022 e nos anos futuros, temos algumas ideias que gostaríamos de compartilhar com vocês. Elas se caracterizam como princípios de organização com parâmetros de monitoramento e metas que atendem a preceitos defendidos pela Scielo (2020, p. 05):

1. o conceito do conhecimento científico como bem público global;

2. o trabalho em rede como meio de maximizar a escalabilidade em termos custo efetividade e adoção do estado da arte em edição científica, cooperação e gestão das assimetrias entre coleções, áreas temáticas e periódicos; e

3. o controle de qualidade, obediência aos padrões, boas práticas e inovações da comunicação científica.

Com base nessas ideias, entendemos a comunicação como um processo que ultrapassa a articulação entre as linguagens, códigos, signos, significação, um evento de interação multimodal e intersubjetiva em uma dinâmica de construção de sentidos imprevisíveis, únicos, irrepetíveis e inesperados (Silva e Silva, 2012).

Avaliando por essa abordagem, temos nos indagado até que ponto a RBPEC não tem priorizado demasiadamente uma comunicação apenas interna, com a comunidade científica. Portanto, um de nossos objetivos é criar/fortalecer diferentes canais, também com um público externo à comunidade da pesquisa em educação em ciências. É o que nos leva a reflexões indagando: para quem falamos? para quem devemos falar?

Como um dos primeiros pontos que pensamos para o trabalho de 2022 (a curto prazo) é traçar um Plano de Comunicação da RBPEC, o qual norteará outras ações, entre elas, o Plano de Desenvolvimento Editorial para os próximos anos.

Pensamos em um diagnóstico baseado em três frentes: QUEM FALA, O QUE FALAMOS, PARA QUEM FALAMOS.

QUEM FALA: A RBPEC tem dado ênfase à fala aos autores e autoras, mas requer avanços em um canal de diálogo ágil e interativo com os leitores , leitoras , avaliadores, avaliadoras e interlocução com outras redes de periódicos. Apesar de termos um editorial por ano, a voz dos/as editores/as ainda é pouco evidente.

A partir desse diagnóstico, uma de nossas propostas é, a curto prazo (esperamos que até o final de 2022), alinhar a nomenclatura do Scielo no escopo da Revista e, a médio prazo, definir uma política de preservação do acervo digital com o backup e a migração de todo o material para o site da ABRAPEC.

O QUE FALAMOS: A RBPEC está em fluxo contínuo publicando majoritariamente artigos de pesquisas inéditas na área com temáticas não indexadas, sem um levantamento do conjunto de palavras chaves usadas.

Nossa proposta é, a curto e médio prazo, realizar um levantamento da tipologia dos artigos publicados com ampliação dos temas e de tipos de documentos e temáticas nos últimos 5 anos; alinhar as temáticas às linhas do ENPEC; propor novas tipologias de divulgação.

PARA QUEM FALAMOS: O escopo da RBPEC a caracteriza como sendo uma publicação da ABRAPEC cujo objetivo é o de disseminar resultados e reflexões advindos de investigações conduzidas na área de Educação em Ciências, com ética e relevância, de forma a contribuir para a consolidação da área, para a formação de pesquisadores, e para a produção de conhecimentos em Educação em Ciências, que fundamentam o desenvolvimento de ações educativas responsáveis e comprometidas com a melhoria da educação científica e com o bem-estar social. Entretanto, não explicita o público para quem está dirigido.

Nossa proposta é rever o escopo, de modo a melhorar sua explicitação e sua relação com as linhas temáticas do Enpec, além de buscar formas e meios de fomentar a comunicação dele aos seus leitores e leitoras.

Entre as ações pretendemos,

(a) utilizar ferramentas como as redes sociais, realizando postagens de notícias sem um padrão formal informativo no que chamamos de Papo de Educação em Ciências.

(b) manter como outra forma de divulgar os artigos publicados, o convite às autoras e autores a enviarem uma imagem (fotografia) com alguma frase sobre o artigo de modo a dialogar com leitores e leitoras e auxiliar na divulgação científica para o público em geral. Essa ação, iniciada com a antiga equipe editorial e que entendemos não se pretende que essas postagens tenham um padrão monotônico, pouco dialógico, centrado na fala do autor/pesquisador, mas sim que criemos polílogos, diálogos, interações entre os autores e as comunidades envolvidas.

(c) atualizar o item no site (sobre a revista) incluindo os interlocutores dentro das orientações da Scielo “[...] meio científico e educacional [e] diferentes instâncias da sociedade relacionadas com a temática do periódico” (SCIELO, 2020, p. 30).

(d) buscar a segmentação dos interlocutores com COMUNICAÇÕES DIRIGIDAS: “à pesquisadores e pesquisadoras como potenciais autores e autoras e usuários nacionais e internacionais, ou ainda, potenciais leitores e leitoras, assim como de instituições relacionadas como públicos prioritários das ações”. Como público da área temos os e as jovens pesquisadores e pesquisadoras; educadores e educadoras de ciências, os e as estudantes da pós-graduação; os editores e editoras de outros periódicos da área; pesquisadores e pesquisadoras sêniores e os avaliadores e avaliadoras. Público fora da área, por sua vez, engloba financiadores e agências de fomento; gestores educacionais e programas de inclusão de acessibilidade e inclusão social; jovens estudantes do sistema formal da Educação Básica; chamadas específicas para públicos invisibilizados pela academia.

(e) fortalecer a relevância não somente científica, mas também cultural, social e econômica da RBPEC. O papel e relevância social da revista não traduz esse engajamento nas redes sociais. Nesse cenário, pensamos em analisar as necessidades do periódico e do público com vista a conhecer as limitações e potencialidades com foco em cada cenário de marketing digital. Ampliar as ferramentas da Web 2.0 (redes sociais, plataformas, indexadores...). Para produzir um engajamento do público é necessário pensar em uma regularidade dos cenários, a permanência nos espaços midiáticos para fortalecimento da marca do periódico, a promoção de campanhas para ampliar os interlocutores e a relevância do conteúdo com vista a mobilização e o engajamento das comunidades.

São inúmeros os desafios, mas nos empenharemos ao máximo neste trabalho, fazendo nosso melhor. Esperamos contar com o apoio de todos e todas e que este seja o primeiro de outros diálogos.

Por fim, precisamos registrar que diversas correntes têm considerado a contemporaneidade como o período da sociedade do conhecimento. Não embasamos mais nossas economias apenas nos produtos e processos, mas na capacidade de conhecer, inovar e produzir informações. Muitos sites e blogs obscurantistas já se integraram a esse modelo e disputam com a ciência o território da produção de conhecimento. Enquanto eles estão falando a língua dos jovens, nós ainda promovemos jantares dançantes. Precisamos acordar e nos modernizar para aprendermos a dialogar com a juventude e a diversidade cultural, especialmente, para garantir a prosperidade da ciência.

Trata-se de uma questão de vida ou morte dos saberes científicos. Guerras são travadas nas redes sociais, na tecnologia da informação, na informação ou desinformação dos povos. Precisamos humanizar a ciência, mas também afiar nossas ferramentas de comunicação. Assim que nos sentimos, prontas para um enfrentamento, afiando nossas unhas de garota, afiando a revista e para fazermos crescer as vozes do povo e da natureza oprimida buscando garantir que a chama do conhecimento permaneça viva em cada cidadã e cidadão.

Referências

Caribé, R. C. V (2015). Comunicação científica: reflexões sobre o conceito. Informação & Sociedade: Estudos, 25(3), 89–104. http://hdl.handle.net/20.500.11959/brapci/93078

Silva, P. C, & Silva, M. (2012). Em busca de um conceito de comunicação. Revista Latinoamericana de ciencias de la comunicación, 9(16), 26–35. http://revista.pubalaic.org/index.php/alaic/article/view/470/271

Editoras-chefes

Alice Pagan é licenciada em Ciências Biológicas, Doutora em Educação e professora associada na UFMT. Mulher transgênera, transfeminista, artista plástica e pesquisadora no campo da aprendizagem de ciências e formação de professores.

Aline Nicolli é licenciada em Ciências Biológicas, Doutora em Educação e professora na Ufac. Pesquisadora no campo da Formação de Professores, Linguagem e Diálogo de Saberes na Educação em Ciências. Como mulher, professora e mãe luta pela promoção de uma educação emancipadora e pela construção de uma sociedade mais humanizada, justa e igualitária.

Márcia Gorette Lima da Silva é licenciada em Química, Doutora em Educação e professora na UFRN. Mulher, ativista, mochileira, amiga de Cuba, pesquisadora no campo da relação entre Argumentação e Criticidade na Educação em Ciências. Na luta por uma sociedade mais justa, crítica, humana e inclusiva.

Silvania Sousa do Nascimento é licenciada em Física, Doutora em Didática das Ciências e Tecnologias e professora titular na UFMG. Mulher e filha parda, nadadora, aspirante à tecladista e pesquisadora no campo da Comunicação Pública das Ciências e Tecnologias e formação de professores.

Suzani Cassiani é licenciada em Ciências Biológicas, Doutora em Educação e professora titular na UFSC. Mulher, mãe e avó, pesquisadora no campo da Decolonialidade na Educação em Ciências, Estudos de Discurso e Formação de Professores. Na luta por uma educação antirracista e pela justiça social.

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