Artigos
Formação continuada do professor de Educação Física com foco na inclusão escolar
Continuing education for the physical education teacher aiming school inclusion
Formação continuada do professor de Educação Física com foco na inclusão escolar
Revista de Educação PUC-Campinas, vol. 21, núm. 1, pp. 59-73, 2016
PUC-Campinas
Recepção: 04 Maio 2015
Revised document received: 28 Setembro 2015
Aprovação: 29 Outubro 2015
Financiamento
Fonte: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
Número do contrato: 402016/2011-4
Financiamento
Fonte: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo
Número do contrato: 2012/ 13075-6
Resumo: Fundamentada na pesquisa reflexiva e colaborativa para a formação de professores, a presente pesquisa teve como objetivo avaliar, sob o ponto de vista dos professores de Educação Física que trabalhavam com alunos com deficiência e alunos com autismo matriculados no Ensino Regular, as aulas de uma formação teórica em relação aos conteúdos, dinâmica, material impresso e colaboração para a prática docente. Os participantes foram 16 professores de Educação Física, organizados em dois grupos: oito no período da manhã e oito à tarde. A formação teórica ocorreu por meio de cinco aulas teórico-expositivas e contemplou nove temas: definições, atitudes e concepções frente à inclusão, Tecnologia Assistiva, autismo, deficiência física, família, questões administrativo-escolares, deficiência visual e treinamento de colegas tutores. Os resultados indicaram: (1) que foi importante planejar a formação teórica a partir da demanda dos professores de Educação Física; (2) que disponibilizar aos formadores as necessidades dos formandos foi uma ação de sucesso, influenciando na realização e na avaliação das aulas; (3) que o número de aulas e a carga horária foram pertinentes às condições para o desenvolvimento da pesquisa. Conclui-se que os conteúdos mais bem avaliados foram aqueles que esclareceram dúvidas, desmistificaram o senso comum ou abrangeram teorias além do tema específico da aula; as dinâmicas mais bem avaliadas foram aquelas que utilizaram figuras, fotos e vídeos e que permitiram a reflexão e a exemplificação do quê e como fazer; os materiais impressos mais bem avaliados foram os que apresentaram sugestões de estratégia de ensino e recursos pedagógicos.
Palavras-chave: Avaliação, Educação especial, Ensino regular, Formação docente, Pesquisa colaborativa.
Abstract: The present study was based on reflective and collaborative research for teacher training. From the point of view of physical education teachers who work with disabled students and students with autism enrolled at regular schools, the aim was to evaluate the theoretical training classes regarding the syllabus, dynamics, printed materials and collaboration in teaching practice. The 16 physical education teachers who participated in the study were divided into two groups: eight in the morning and eight in the afternoon shift. The theoretical training classes included five theoretical lectures and covered nine themes, as follows: definitions, attitudes and conceptions in face of inclusion, assistive technology, autism, disabilities, family, administrative and school issues, visual impairment and tutor training. The results indicated that: (1) it is important to plan the theoretical training classes taking into account the needs of physical education teachers; (2) the classes of trainers who were aware of the needs of the trainees were successful, influencing achievement and selfassessment of the classes; (3) the number of classes and the work load met the relevant conditions for the development of research. It may be concluded that the best evaluated syllabuses were those in which doubts were clarified, common sense was demystified and theories beyond the specific subject of the lesson were covered. The best evaluated dynamics were those that motivated the class, used pictures, photos and videos that allowed reflection and examples of what and how to do; the best reviewed printed materials were those that presented suggestions for teaching strategies and learning resources.
Keywords: Evaluation, Special education, Regular education, Teacher training, Collaborative research.
Introdução
Uma concepção presente na área da Educação é a forte tendência em dicotomizar teoria e prática. Uma fala recorrente no meio escolar é que teoria e prática são assuntos diferenciados. Provavelmente, essa concepção foi produzida durante a própria formação teórica desse professor, com aulas teóricas descontextualizadas, sem um suporte na prática. Para superar essa dicotomia, o presente estudo teve como fundamento buscar junto aos professores de Educação Física suas dúvidas e dificuldades ao trabalhar com a inclusão escolar de alunos com deficiência e de alunos com autismo. Essas informações, coletadas por meio de Grupo focal e filmagens, foram a base para a seleção de conteúdos para um Programa de Formação Continuada para esses professores no presente estudo, que é um recorte de um estudo maior.
A literatura da área tem mostrado possibilidades para a formação continuada de professores de Educação Física para a inclusão escolar (Chicon, 2005; Cruz, 2008; Abreu, 2009; Chicon & Nascimento, 2011; Souza, 2013; Souza & Pitch, 2013).
Souza (2013) realizou uma pesquisa-ação, por meio de uma ação formativa com um grupo de quatro professores de Educação Física que atuavam com alunos com deficiência, com o objetivo de compreender como a ação poderia afetar o instrumental teórico e prático desses professores, bem como de verificar se tal ação poderia influenciar novas ações pedagógicas para valorizar a diversidade e a diferença. A ação formativa ocorreu por cinco meses, com reuniões semanais com duração de duas horas, acrescidas três horas não presenciais. As reuniões englobaram: conteúdos básicos da Educação Especial por meio de textos e aulas expositivas, e apresentação e discussão da realidade escolar vivida pelo professor, com exibição de um vídeo de uma das aulas do professor de Educação Física. Avaliou-se a ação formativa por meio de entrevistas, com cada participante, ao final do processo de formação. O autor concluiu que a ação proposta foi um procedimento ativo no processo de formação de professores na perspectiva da inclusão, e destacou a importância de haver, na formação continuada, momentos para a prática reflexiva dos professores. Ainda de acordo com o autor, o trabalho coletivo é importante para a estruturação e planejamento das aulas em prol de um objetivo comum, a educação inclusiva.
Souza e Pitch (2013) realizaram uma pesquisa-ação com sete professores de Educação Física com o objetivo de orientar o processo de reconstrução das práticas pedagógicas do professor na implantação da Educação Física inclusiva. O estudo foi realizado em oficina das aulas de Educação Física em que havia alunos com deficiência. A coleta de dados ocorreu por meio de observação livre e diário de campo. A partir dos dados coletados, foram realizados cinco seminários. A pesquisa foi finalizada com a divulgação dos resultados e avaliação por meio de Grupo focal. Os autores concluíram que houve um processo de reflexão-ação por parte dos professores, os quais iniciaram uma reorientação da prática pedagógica com a inserção de procedimentos para a inclusão do aluno com deficiência.
Chicon e Nascimento (2011) tiveram como objetivo de pesquisa compreender como a formação continuada poderia melhorar o instrumental teórico e prático dos professores de Educação Física, de forma a viabilizar a inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais. O método adotado foi a pesquisa-ação. Um grupo de estudo denominado Grupo Operativo de Formação foi constituído com seis professores, e a ação de formação foi desenvolvida em um processo de reflexão-ação-reflexão da prática docente, pautada em três momentos: (1) apresentação de conteúdos básicos da Educação Especial; (2) narrativas dos professores com reflexão sobre experiências na inclusão ou não de alunos com deficiência nas aulas de Educação Física; (3) textos para leitura e discussão, interpretação e análise de filmes, exibição de vídeos, palestras, depoimentos, aula expositiva e experiências práticas. No total, foram realizados vinte encontros semanais, com duração de três horas cada um, acrescidas três horas não presenciais. A ação formativa foi avaliada por meio de entrevistas semiestruturadas, individuais, com os participantes. Os autores concluíram que proporcionar uma formação continuada que favoreça a discussão e a reflexão sobre a prática docente pode ser uma oportunidade para que os professores de Educação Física se apropriem de teorias educacionais para a elaboração de aulas que busquem construir, coletivamente, estratégias para solucionar problemas e dificuldades surgidas no cotidiano.
Abreu (2009) objetivou investigar, analisar e intervir no processo de inclusão de alunos com deficiência nas aulas de Educação Física de uma escola de Ensino Fundamental. A pesquisa foi caracterizada como pesquisa-ação. Participaram o professor de Educação Física, todos os alunos de uma 3ª série, a professora regente, a pedagoga, os pais dos alunos com deficiência e estagiárias de Pedagogia e Psicologia. O processo de intervenção teve a duração de três meses e foram realizadas: (1) observação participante e registro em foto e vídeo de 26 aulas de Educação Física; (2) tentativa de planejamento e sistematização das aulas, em conjunto com o professor, semanalmente, durante oito aulas; (3) planejamento e sistematização das aulas, em conjunto com o professor, semanalmente, durante 10 aulas, a partir das filmagens anteriores; (4) entrevista semiestruturada com o aluno com deficiência; (5) análise documental no final da intervenção; e (6) aplicação de questionário aos professores, à pedagoga, à coordenadora e à diretora da escola. O autor concluiu que a reflexão sobre a própria prática é algo necessário e que deve ocorrer de forma constante e profunda pelo professor, e a realização da pesquisa na perspectiva colaborativa coloca os envolvidos ora na condição de quem ensina, ora na condição de quem aprende, por possibilitar a todos uma nova reconfiguração do seu papel no processo de inclusão.
Cruz (2008) objetivou acompanhar os modos como os professores lidavam com a proposta da inclusão e apontar como um programa de formação continuada podia aprimorar o instrumental do professor com vistas à elaboração de respostas às provocações lançadas pela inclusão. Um programa de formação continuada foi implementado para 13 professores de Educação Física, da classe especial e da sala regular, por meio de um Grupo de Trabalho/ Estudo. Na Fase 1, realizaram-se 13 encontros com duração de quatro horas cada um, com o registro de quatro aulas de Educação Física dos professores do grupo. Na Fase 2, realizaram-se 16 encontros, com o registro de cinco aulas de Educação Física. A dinâmica do Grupo de Trabalho/Estudo compreendeu entrevistas coletivas, análises das aulas de Educação Física de membros do Grupo que foram registradas e análise do diário de campo reflexivo. De acordo com o autor, para responder ao objetivo proposto é preciso considerar, por um lado, o programa de formação continuada, e, por outro lado, os procedimentos empregados na pesquisa. Assim, o autor concluiu que as demandas profissionais dos participantes serviram como suporte à realização da pesquisa. Além disso, as ações e reflexões permitiram o entendimento de como os professores de Educação Física atendiam os alunos com deficiência.
Já Chicon (2005) objetivou: (a) investigar e analisar resultados práticos da apropriação e execução da abordagem pedagógica crítico-superadora no ensino da Educação Física e sua pertinência aos alunos na educação inclusiva; (b) investigar o papel mediador do/a professor/a no processo de intervenção pedagógica com os alunos em uma prática inclusiva; (c) analisar resultados práticos da pesquisa-ação para a formação continuada de professores. O processo de intervenção foi organizado a partir da elaboração, conjuntamente entre professor e pesquisador, de planos de ensino anual para uma 3ª série e bimestral para a 5ª série, a serem desenvolvidos, respectivamente, por uma professora e um professor de Educação Física. O pesquisador desempenhou um papel ativo em função de dificuldades encontradas pela professora, e coordenou parte das aulas. Durante a intervenção foi realizada observação participante, registro em foto e vídeos das aulas, anotações em diário de campo e entrevistas semiestruturadas com os alunos com deficiência, durante e após a intervenção. O autor concluiu que o modelo da pesquisa-ação para a formação continuada de professores de Educação Física foi importante por trazer mudanças concretas na ação educativa desses profissionais e, também, na obtenção de conhecimentos sobre os problemas de ensino e da educação.
A partir das pesquisas apresentadas e de apontamentos publicados por outros pesquisadores sobre formação de professores com foco na inclusão escolar de alunos com deficiência e alunos com autismo matriculados no Ensino Regular, é possível arrolar características essenciais para o planejamento e o desenvolvimento de Programas de Formação Continuada, como:
Nesse sentido, o presente estudo fundamentou-se na pesquisa reflexiva e colaborativa para a formação de professores (Pimenta, 2005; Jesus, 2008a, 2008b; Mendes, 2008; Mendes & Toyoda, 2008), tendo como objetivo avaliar, sob o ponto de vista dos professores de Educação Física que trabalhavam com alunos com deficiência e alunos com autismo matriculados no Ensino Regular, as aulas de uma formação teórica em relação aos conteúdos, à dinâmica, ao material impresso e à colaboração para a prática docente.
Procedimentos Metodológicos
A formação teórica, fundamentada na pesquisa reflexiva e colaborativa, teve como participantes 16 professores de Educação Física, os quais representavam 100% dos professores de Educação Física da Rede Municipal de Ensino de um município do Centro-Oeste paulista, e que ministravam aulas para alunos com deficiência e alunos com autismo matriculados no Ensino Regular.
Planejamento da formação teórica
A formação teórica foi planejada a partir dos resultados advindos de dois estudos anteriores, os quais fazem parte de uma pesquisa maior. No Estudo 1, por meio de Grupo focal, foram identificadas as dificuldades encontradas por professores de Educação Física para atender à demanda da inclusão escolar de alunos com deficiência e alunos com autismo matriculados no Ensino Regular. No Estudo 2, por meio de filmagens de 28 aulas de Educação Física, foram identificadas as situações de dificuldade e de sucesso dos professores em relação à inclusão escolar.
Tais dados foram sintetizados em nove diferentes temas. Para atribuir os temas em uma sequência de aulas, três critérios foram utilizados: (1) nível de complexidade dos temas: organizar as aulas de modo a propor uma hierarquia dos conteúdos a serem trabalhados; (2) duração de cada encontro: a Secretaria Municipal de Educação autorizou os professores de Educação Física a participarem da pesquisa, no Horário de Encontro Coletivo (HEC), por um período de três horas; (3) disponibilidade dos profissionais convidados. Os nove temas foram distribuídos em cinco aulas, como exposto no Quadro 1.
Estabelecida a sequência das aulas, foram realizados convites a alguns docentes universitários da área de Educação Física e que trabalhavam e/ou pesquisavam sobre atividade física, inclusão escolar, Educação Especial e Tecnologia Assistiva, e que, além disso, destacavam-se no cenário nacional. Esses profissionais foram convidados para as Aulas 1, 2, 3 e 5. Para a Aula 4, foi convidado um docente universitário renomado e conhecido na área de Educação Especial, famílias de pessoas com deficiência, e o Diretor de Gestão Escolar da Secretaria Municipal de Educação, sendo ele quem poderia responder e esclarecer as dúvidas atribuídas pelos professores de Educação Física à questão administrativo-escolar, além de também ser quem autorizaria mudanças.
Ao realizar o convite para os docentes, os pesquisadores tiveram o cuidado de contextualizar toda a pesquisa. Pediu-se que cada um deles preparasse uma aula teórico-expositiva que contemplasse os temas definidos para a aula para a qual foram convidados.

Para possibilitar uma aula teórica contextualizada à demanda dos professores de Educação Física e, também, orientar os docentes no planejamento da aula, foram adotadas duas ações: (1) apresentar aos docentes convidados excertos das filmagens com situações de dificuldades e de sucesso advindas do Estudo 2 (filmagem); e (2) preparar e entregar a todos os docentes convidados um guia com orientações, como o tema da aula, os relatos dos professores sobre as dificuldades de cada tema, advindas do Estudo 1 (Grupo focal), e a descrição de situações-problema advindas do Estudo 2 (filmagem).
Preparou-se, também, um material impresso com textos sobre a temática de cada aula, a partir de textos indicados pelos docentes como material de apoio à apresentação.
Desenvolvimento da formação teórica
Os 16 professores de Educação Física foram divididos em dois grupos: o da manhã com oito professores, e o grupo da tarde com o mesmo número.
Estipulou-se que cada uma das cinco aulas seria realizada em um encontro com duração de três horas, uma vez que as aulas aconteceram no HEC. Assim, cada uma das aulas foi realizada no mesmo dia, de manhã com um grupo de professores e à tarde com o outro grupo. Todas as aulas aconteceram nas dependências da Secretaria Municipal de Educação.
Com relação ao modo de participação dos docentes convidados, no primeiro encontro participaram dois docentes, sendo um presencial e outro por Skype. Nos demais encontros, todos os docentes participaram presencialmente.
Avaliação da formação teórica
Com o objetivo de realizar uma avaliação da formação continuada desenvolvida, foi elaborado um questionário para avaliar as aulas teóricas, composto de duas partes. A primeira parte se propunha a avaliar cada uma das aulas em relação a três quesitos: conteúdo teórico, dinâmica e material impresso. As alternativas para a avaliação foram: inadequado, pouco adequado, adequado, bem adequado, muito adequado. A segunda parte teve como objetivo avaliar o quanto, na opinião dos professores, cada uma das aulas colaborou para a prática diária com alunos com deficiência e alunos com autismo, tendo como opções de respostas: sem colaboração, pouca colaboração, razoável colaboração, boa colaboração, muita colaboração.
A aplicação do questionário ocorreu ao final da quinta aula. O número máximo de respondentes foi 15 professores, tendo em vista que um professor faltou na quinta e última aula e, por isso, não respondeu ao instrumento de avaliação.
Resultados e Discussão
Os resultados estão dispostos em quatro tabelas e apresentam a avaliação das aulas teóricas segundo a opinião dos professores de Educação Física, conforme os itens do questionário: conteúdo teórico, dinâmica, material impresso e colaboração da formação teórica para a prática docente com alunos com deficiência ou autismo matriculados no Ensino Regular.
A Tabela 1 contém os dados que permitem apurar a avaliação dos professores de Educação Física sobre o conteúdo teórico das cinco aulas realizadas.

A Aula 1 foi, justamente, a aula introdutória da formação teórica. Nota-se que as duas categorias de respostas assinaladas, bem adequado e muito adequado, indicaram uma avaliação positiva. É válido destacar que, do total de professores participantes, quatro não tiveram a disciplina Educação Física Adaptada durante a Graduação. Nesse sentido, a Aula 1 pode ter sido uma das primeiras oportunidades que eles tiveram para se apropriar, em nível teórico, desse conteúdo.
Já está descrito na literatura que uma das dificuldades relatadas por professores de Educação Física é o "despreparo profissional" advindo de uma formação inicial "frágil" no que se refere à inclusão (Morley et al., 2005; Costa, 2009; Moraes, 2010; Fiorini, 2011). Nesse sentido, o conteúdo teórico da Aula 1 buscou esclarecer e diferenciar os conceitos comumente utilizados nas políticas públicas e no dia a dia escolar especificamente relacionados à inclusão, uma vez que os próprios professores de Educação Física relataram, no estudo anterior, essa necessidade.
Na Aula 2, as categorias de respostas revelaram uma avaliação positiva dos professores de Educação Física, na medida em que a maioria deles (60%) avaliou o conteúdo como "muito adequado". Os conteúdos tornaram-se relevantes uma vez que o tema autismo era emergente na Rede Municipal de Ensino, sendo bastante discutido e temido pelos professores de Educação Física e, também, pelos gestores escolares.
Por vezes, os professores já ouviram falar no termo autismo, mas não estavam familiarizados com as principais características do transtorno (Suplino, 2013). A principal demanda dos professores do Ensino Regular em relação à inclusão de alunos com autismo é saber como desenvolver práticas de ensino que favoreçam a inclusão desse educando (Menezes, 2013). Considerando tais fatos, o conteúdo teórico da Aula 2 contemplou a conceituação, características e variações do espectro autista, diagnóstico e, principalmente, estratégias de ensino e recursos pedagógicos que poderiam ser estabelecidas em aulas de Educação Física.
A Aula 3 - tema deficiência física - teve o conteúdo avaliado pelos professores nas categorias "bem adequado" e "muito adequado", com indicação da qualidade do conteúdo abordado. Mesmo havendo um tema específico, o docente convidado optou por ampliar as discussões teóricas. Assim, a abrangência e a consistência do conteúdo teórico da Aula 3 favoreceram a avaliação positiva pelos professores de Educação Física. Corrobora essa avaliação o fato de o conteúdo da Aula 3 ir ao encontro do que outras pesquisas já sinalizaram, isso é, o relato de professores de Educação Física sobre a necessidade de conhecer os tipos de deficiência, as características específicas e as limitações decorrentes (Almeida, 2008; Costa, 2009; Betiati, 2010).
A Aula 4 foi dividida em duas partes, uma com o tema família e a outra com o tema questões administrativo-escolares. No que diz respeito ao conteúdo teórico sobre família, a avaliação dos professores não indicou números referentes à maioria dos professores, mas opiniões diversas. Havia uma expectativa dos professores de Educação Física de que todas as aulas teóricas oferecessem "soluções" ou ao menos dicas sobre como resolver as dificuldades que eles estavam enfrentando. Apesar de ter sido apontada pelo docente convidado a necessidade de aproximar a família da escola, não foi exemplificado como, de modo prático, isso poderia ocorrer.
A segunda parte da Aula 4 teve como tema as questões administrativo-escolares e o conteúdo teórico foi avaliado como "adequado", "bem adequado" e "muito adequado". Diferentemente das outras aulas, o conteúdo dessa aula foi composto exclusivamente pelas dificuldades relatadas pelos professores de Educação Física a respeito do tema, no estudo anterior. Entende-se que a avaliação dos professores foi positiva, na medida em que optaram por alternativas de respostas que indicaram a adequação do conteúdo teórico.
O termo administrativo-escolar engloba tanto o que acontece fora do ambiente escolar mas é relativo a ele - como as leis e normativas da Secretaria de Educação -, quanto o que ocorre no ambiente interno da escola, como as condições de trabalho e infraestrutura. Destaca-se que a questão administrativo-escolar foi uma das categorias de dificuldades mais enfatizada pelos professores de Educação Física no Estudo 1 (Grupo focal). Dessa forma, esse conteúdo teórico abordou "aspectos macro" que configuram os sistemas de ensino e condições de trabalho dos professores (Jesus & Effgen, 2012, p.15).
A Aula 5 também foi realizada em duas partes: uma com o tema deficiência visual e a outra sobre treinamento de colegas tutores. Sobre o tema deficiência visual, a avaliação dos professores envolveu as categorias de respostas "adequado", "bem adequado" e "muito adequado". Com um número expressivo, a maioria dos professores (78,57%) concebeu o conteúdo como "muito adequado". O principal fator que pode ter influenciado foi a quantidade e o nível do conteúdo teórico, isso porque o docente convidado abordou conteúdos além do que havia sido planejado. Outro fator favorável à avaliação dos professores foi ter sempre o contexto escolar como plano de fundo da teoria.
Justifica-se a relevância do conteúdo teórico dessa aula em função de ter buscado minimizar o que pesquisas já relataram como dificuldade: a falta de conhecimento específico dos professores de Educação Física (Lamaster et al., 1998; Aguiar & Duarte, 2005).
O conteúdo teórico da segunda parte da Aula 5 teve como tema o treinamento de colegas tutores, avaliado pelas categorias de resposta "adequado", "bem adequado" e "muito adequado". A maioria dos professores (71,42%) avaliou como "muito adequado".
A estratégia de ensino do colega tutor vem dos Estados Unidos da América, na qual o aluno sem deficiência auxilia o aluno com deficiência (Nabeiro, 2010). Pesquisas tem identificado os efeitos positivos dessa estratégia na inclusão em aulas de Educação Física (Souza, 2008; Nabeiro, 2010). Todavia, os dados do Estudo 1 indicaram que os professores não tinham clareza teórica sobre esse tema. Dessa forma, o conteúdo teórico da Aula 5 permitiu a desmistificação do tema, esclarecimentos sobre o assunto e, até mesmo, novas descobertas.
Em síntese, o conteúdo teórico das Aulas 1, 2, 3 e 5 se aproximou da realidade e das necessidades dos professores de Educação Física, tendo sido bem avaliado porque foi selecionado pelos docentes que sabiam, especificamente, das dificuldades desses professores, em função do guia com orientações que foi preparado e entregue a cada docente. O conteúdo teórico da Aula 4 - família foi avaliado de forma bastante divergente entre os professores. Entende-se que houve uma influência da superficialidade das informações encaminhadas ao docente convidado. Ainda sobre a Aula 4 - questões administrativo-escolares, o conteúdo compreendeu os relatos dos professores sobre as dificuldades relativas ao tema, advindos do Estudo 1. Todavia, devido à presença do Diretor de Gestão Escolar, a avaliação dos professores teve como viés as respostas e o possível impacto no cotidiano escolar de cada professor de Educação Física.
Na Tabela 2 são apresentados os dados sobre a avaliação dos professores de Educação Física em relação à dinâmica das cinco aulas teóricas.

A dinâmica da Aula 1 foi avaliada pelos participantes nas categorias "adequada", "bem adequada" e "muito adequada", e não houve uma porcentagem relativa à maioria dos professores. Alguns fatores contribuíram tanto para os professores optarem pelas alternativas de respostas positivas, quanto para a variação entre as respostas, como: (1) foi a única aula que teve a participação de dois docentes convidados, o que permitiu diferentes visões sobre o mesmo conteúdo; (2) o material impresso foi utilizado durante a aula; e (3) não foi possível finalizar todos os conteúdos, o que foi solucionado com a abordagem de um conteúdo da Aula 1 no início da Aula 2.
A dinâmica da Aula 2 foi avaliada como "adequada", "bem adequada" e "muito adequada", com a maioria de nove professores (60%) considerando como "muito adequada". As categorias de resposta assinaladas indicaram que dinâmica foi bem avaliada, porém certas características colaboraram para a variação na intensidade do quão adequada foi a dinâmica: (1) foi ministrada por um docente e seu aluno de graduação, ambos com experiências práticas no tema, ministrando, assim, uma aula contextualizada; (2) a opção do docente em iniciar a aula com base na apresentação de vídeos com situações reais de alunos com autismo realizando atividades físicas; e (3) devido ao tempo de duração da aula, alguns materiais complementares não puderam ser explicados. Cabe aqui destacar que, ao final da aula, os pesquisadores encarregaram-se de apresentar excertos das filmagens advindas do Estudo 2 com situações de sucesso específicas do tema deficiência física.
No que se refere à dinâmica da Aula 3, os professores a avaliaram como "bem adequada" e "muito adequada". A maioria (66,67%) indicou que a dinâmica foi "muito adequada". Ações pontuais do docente contribuíram para esses resultados, como: (1) foi a única aula na qual aconteceram vivências práticas; (2) uso de exemplos práticos; e (3) uso de slides com fotos que colaboraram para as exemplificações. Houve também, por parte dos pesquisadores, a apresentação de excertos de filmagens com situações de sucesso de um professor de Educação Física ao incluir um aluno com autismo.
Em função da divisão da Aula 4 em duas partes, a dinâmica foi avaliada para cada uma delas. Especificamente sobre a dinâmica do tema família, a avaliação foi bastante distinta entre os professores, de modo que não houve uma avaliação unânime ou homogênea. As categorias de respostas assinaladas foram "pouco adequada", "adequada", "bem adequada" e "muito adequada". Os resultados da avaliação refletiram o comportamento dos professores logo após o término da aula, os quais reconheceram o domínio que o docente apresentava sobre o tema, mas se surpreenderam com o fato de ele não lhes ter solicitado que se apresentassem, não ter utilizado slides e ter-se mantido sentado durante a aula.
No que se refere à avaliação sobre a dinâmica da segunda parte da Aula 4 - tema questões administrativo-escolares - as avaliações também foram controversas, distribuindo-se de "pouco adequada" até "muito adequada". A variação na avaliação dos professores pode ter ocorrido em função características pontuais, tais como: diferentemente das outras aulas em que o docente convidado fazia explanações sobre o tema específico a partir da literatura da área, na Aula 4 - tema questões administrativo-escolares - os pesquisadores encarregaram-se de projetar slides nos quais estavam descritas as dificuldades advindas das questões administrativo-escolares e que foram relatadas pelos próprios professores de Educação Física no Estudo 1 (Grupo focal); a cada dificuldade apresentada, o Diretor de Gestão Escolar fazia uso de disposições legais sobre as possibilidades para minimizar ou não a dificuldade.
Cabe aqui frisar a hipótese de que o fato de alguns professores terem avaliado a dinâmica dessa aula como "pouco adequada" tenha relação com o fato de ela não ter assumido um caráter puramente teórico, mas sim de cunho administrativo.
Como já foi mencionado, a Aula 5 também foi dividida em duas partes. A primeira delas, sobre deficiência visual, foi avaliada pelos professores de
Educação Física no quesito dinâmica como "adequada", "bem adequada" e "muito adequada", sem uma avaliação mais homogênea pela maioria dos professores. As três categorias assinaladas pelos professores indicaram qualidade na dinâmica realizada. O docente utilizou figuras e fotos com situações vivenciadas em escolas e projetos de extensão na Universidade, além do uso de metáforas, de autoria própria, para explicar conteúdos específicos.
Os professores de Educação Física avaliaram a dinâmica da segunda parte da Aula 5 entre "adequada" e "muito adequada", tendo a maioria dos participantes (64,28%) avaliado como "muito adequada". Os elementos da dinâmica que podem ter colaborado para os resultados apresentados foram o uso de slides com figuras e fotos que exemplificavam o tema, e a apresentação da teoria de modo contextualizado com o ambiente escolar. Os pesquisadores apresentaram, ao final da aula, trechos de situações de sucesso advindas das filmagens do Estudo 2, atinentes ao tema colega tutor em aulas de Educação Física.
Em síntese, os resultados da avaliação dos professores de Educação Física sobre a dinâmica das cinco aulas teóricas permitem discuti-los a partir dos seguintes pontos: o uso de vídeos e as oportunidades para reflexão da própria prática docente, e o número e a duração das aulas.
Especificamente sobre o uso de vídeos, o objetivo foi prover uma condição de reflexão da própria prática pedagógica, a partir das situações de sucesso apresentadas, corroborando os apontamentos de Jesus (2008a) e Martins (2012), os quais destacaram a importância e a necessidade de que a formação continuada de professores promova a reflexão, isto é, que os professores possam ser levados a uma análise reflexiva e sistematizada da própria prática, na busca de superação das dificuldades existentes. Dentre as cinco aulas, apenas as Aulas 1 e 4 não tiveram a dinâmica com vídeo, de modo que nessas aulas o componente reflexão ficou comprometido.
Ainda sobre a apresentação de vídeos, percebe-se que esta tem sido uma tendência nos programas de formação continuada de professores de Educação Física na temática da inclusão, e que tem alcançado bons resultados, como foi descrito em outros estudos. Cruz (2008) concluiu que a possibilidade de registrar as aulas e, a partir daí disparar o debate, teve impacto positivo junto aos participantes da pesquisa. Na pesquisa realizada por Chicon e Nascimento (2011), os professores de Educação Física reconheceram como aspecto positivo da formação continuada "ver o que o colega estava fazendo" por meio da exibição dos vídeos das aulas de Educação Física dos próprios participantes.
Quanto à reflexão, os resultados da pesquisa de Souza (2013, p.77) caminham na direção de, também, descrever os benefícios de promover a reflexão em programas de formação continuada, uma vez que, para os professores de Educação Física participantes de um programa de formação, o "movimento de reflexão foi fundamental para a internalização de novos conhecimentos".
Uma forma de observar a reflexão dos professores foi por meio do registro das perguntas ou comentários que eles realizavam ao longo das aulas. A única aula em que não houve pergunta foi na Aula 4 - tema família. Nas demais aulas, as perguntas evidenciaram-se pela dúvida sobre um termo até então desconhecido, pela curiosidade sobre as fotos ou vídeos, pelos relatos das dificuldades e dos sucessos que eles vivenciaram nas escolas a partir de uma teoria apresentada pelos docentes convidados. A Aula 4 - questões administrativo-escolares - foi essencialmente pergunta e resposta, isso porque, a cada comentário do Diretor de Gestão Escolar, os professores realizavam perguntas.
No que se refere ao número de aulas e à carga horária, estes se mostraram compatíveis com as condições para o desenvolvimento da pesquisa, uma vez que foram estabelecidos em comum acordo com a Secretaria Municipal de Educação. As Aulas 4 e 5, por terem contemplado dois temas cada uma, tiveram um tempo menor para sua realização. Em outra circunstância, o número de aulas e a duração poderiam ser revistos.
A Tabela 3 apresenta a avaliação dos professores de Educação Física acerca do material impresso.

O material impresso da Aula 1 foi avaliado nas categorias "pouco adequado", "adequado", "bem adequado" e "muito adequado". A avaliação da maioria dos professores (53,33%) foi "muito adequado". Tratou-se de textos não específicos da Educação Física, mas pertinentes ao conteúdo, sendo um texto com a terminologia sobre a deficiência, outro sobre conceitos mais utilizados e a Política Nacional na Perspectiva da Educação Inclusiva (Brasil, 2008).
Com relação ao material da Aula 2, os professores o avaliaram entre "adequado" e "muito adequado", sendo que a maioria (66,67%) avaliou como "muito adequado". O material era composto por textos informativos sobre transtornos globais do desenvolvimento, síndrome de Asperger e autismo, além de textos elaborados pelo docente convidado, específicos sobre estratégias eficazes e sugestões de palavras e expressões para serem utilizadas nas avaliações sobre alunos com autismo.
No que se refere à avaliação do material impresso da Aula 3, os professores de Educação Física o avaliaram como "adequado", "bem adequado" e "muito adequado", com empate de 40% nas categorias "bem e muito adequado". Apesar de a avaliação ter indicado uma variação no quão adequado era o material impresso, há que se considerar o viés positivo da avaliação desse material. Por um lado, o material mostrou-se interessante e justifica as avaliações, por ser um capítulo de livro, de autoria do próprio docente convidado, com o tema Procedimentos Pedagógicos e Conteúdos Adaptados para as aulas de Educação Física. Por outro lado, não era um texto específico sobre a deficiência física, mas abordava as quatro grandes categorias de deficiência.
Na Aula 4, somente a parte relativa ao tema família teve material impresso. Esse foi avaliado pelos professores de Educação Física como "adequado", "bem adequado" e "muito adequado", sendo que a maioria dos professores (58,34%) avaliou como "muito adequado". Tratou-se de um texto de própria autoria do docente, que descrevia a caracterização e o funcionamento da relação família e deficiência, com destaque para a concepção de deficiência, o nascimento e o diagnóstico da criança com deficiência, as reações dos familiares e o lugar da família no atendimento à criança com deficiência.
A Aula 5 teve um material único para as duas partes da aula, e foi avaliado pelos professores de Educação Física nas categorias "adequado", "bem adequado" e "muito adequado". De modo geral, a avaliação foi positiva e a maioria expressiva de professores (71,42%) concebeu o material como "muito adequado". Tratou-se de um capítulo de livro de autoria do próprio docente, com foco no colega tutor em aulas de Educação Física.
Em síntese, por se tratar de uma formação em nível teórico, foi pertinente providenciar e disponibilizar aos professores os textos - material impresso - compatíveis com a temática de cada aula. O intuito era ofertar textos que poderiam ser lidos tanto na aula quanto posteriormente, caso os professores julgassem necessário. Para a maioria dos professores, o material impresso das Aulas 1, 2, 4 e 5 foi "muito adequado". A avaliação do material da Aula 3 ficou empatada entre "bem adequado" e "muito adequado".
O uso de textos, aqui denominados de material impresso, é recorrente em pesquisas de formação de professores de Educação Física para a inclusão, como ocorreu nos estudos de Cruz (2008) e Souza (2013). Assim como na presente pesquisa a avaliação dos professores indicou a adequação do material impresso, na pesquisa realizada por Souza (2013), um dos praticantes relatou que, além de outros elementos, os textos foram o diferencial. Cruz (2008) concluiu que um dos aspectos positivos da formação continuada, segundo relato dos professores, foi justamente a oferta de textos. Contudo, o material impresso, apesar de ter sido bem avaliado pelos professores, não substitui em hipótese alguma o conteúdo e a dinâmica de cada aula; pelo contrário, é um elemento complementar aos demais elementos da aula teórica.
Na Tabela 4 são dispostos os dados relativos à avaliação dos professores de Educação Física sobre a colaboração da formação teórica para a prática docente com alunos com deficiência e alunos com autismo.

Sobre a colaboração da Aula 1 na prática docente, os professores avaliaram como "razoável", "boa colaboração" e "muita colaboração", tendo a maioria deles (53,30%) avaliado como "muita colaboração". A avaliação sobre a colaboração foi uma consequência das avaliações sobre o conteúdo, a dinâmica e o material impresso, uma vez que essa mesma aula teve índices elevados nas avaliações anteriormente apresentadas, com a maioria dos professores avaliando como "muito adequado(a)" o conteúdo, a dinâmica e o material impresso.
Sobre a colaboração da Aula 2 para a prática dos professores, as categorias assinaladas pelos participantes indicaram uma avaliação entre "boa colaboração" e "muita colaboração". Destaca-se que uma porcentagem expressiva de professores (86,67%) avaliou como "muita colaboração". Esses números reforçaram a qualidade que também foi avaliada de modo bastante positivo nos quesitos conteúdo, dinâmica e material impresso, todos com a maioria das avaliações em "muito adequado".
Sobre a colaboração da Aula 3, a avaliação sinalizou para "boa colaboração" e "muita colaboração", tendo a última categoria sido avaliada por 73,33% professores. Nas outras avaliações em outros quesitos da Aula 3, a maioria dos professores de Educação Física sinalizou que os conteúdos teóricos abordados e a forma como eles foram trabalhados irão "colaborar muito" com as aulas de Educação Física que eles ministram na escola regular com alunos com deficiência física.
Sobre a colaboração na prática docente em relação Aula 4, com o tema família, a avaliação foi bastante distinta entre as categorias de resposta, desde "pouca colaboração" até "muita colaboração". Acredita-se que essa avaliação seja um reflexo das avaliações sobre conteúdo, dinâmica e material e, de certo modo, os resultados aqui apresentados comprovam essa interpretação.
Sobre a colaboração da Aula 4 - questões administrativo-escolares - os resultados indicaram a avaliação dos professores como "razoável colaboração", "boa colaboração" e "muita colaboração". Na opinião da maioria dos professores (58,33%), a aula colaborou para o trabalho que eles desenvolvem nas escolas. É oportuno destacar que os professores aproveitaram a oportunidade para debater outras questões, além do tema inclusão escolar, mas que, na opinião deles, relacionavam-se com a prática pedagógica.
Sobre a colaboração da Aula 5 - tema deficiência visual - os professores avaliaram como "boa colaboração" e "muita colaboração", e a maioria dos participantes (71,43%) avaliou essa aula como "muita colaboração". É interessante notar que, para a Aula 5 - tema deficiência visual - a avaliação atingiu a categoria "muito adequada" em todos os quesitos avaliados (conteúdo, dinâmica, material impresso e colaboração).
Sobre a colaboração da Aula 5 - tema treinamento de colegas tutores - os professores avaliaram como "boa colaboração" e "muita colaboração". A maioria dos professores (85,71%) indicou que ela foi de "muita colaboração" para a prática docente. O elevado índice de respostas como "muita colaboração" quase alcançou a unanimidade e, apoiado nas avaliações anteriores, faz transparecer a importância de um conteúdo teórico bem fundamento somado a uma dinâmica envolvente.
Em síntese, como os professores de Educação Física se depararam com um conteúdo condizente com as suas necessidades, a avaliação foi positiva sobre a colaboração dessas aulas para a prática pedagógica em situação de inclusão escolar.
A avalição dos professores evidenciou que houve uma relação entre o conteúdo teórico e a colaboração das aulas para sua prática docente. Para as Aulas 1, 2, 3 e 5 foram disponibilizados aos docentes trechos dos relatos dos professores de Educação Física sobre as dificuldades vivenciadas na inclusão, advindos do Estudo 1 e, quando possível, complementados com a descrição de situações-problema advindas das filmagens (Estudo 2). Dessa forma, os docentes receberam previamente informações substanciais que embasaram a seleção dos conteúdos e, durante as aulas, as dificuldades eram retomadas e contextualizadas com a teoria. Já para a Aula 4, como tema família, foram entregues ao docente convidado relatos superficiais dos professores de Educação Física, apenas com críticas, sem vídeo sobre o tema ou outros elementos.
Nota-se que as cinco aulas teóricas atingiram, em diferentes proporções, a categoria de avaliação "muita colaboração". Porém, as aulas que trataram especificamente das deficiências e transtornos, como a Aula 2 - autismo, Aula 3 - deficiência física, Aula 5 deficiência visual e treinamento de colega tutor foram as mais bem avaliadas, como aulas que muito colaboraram para a prática profissional.
Considerações Finais
O objetivo do estudo foi avaliar, sob o ponto de vista dos professores de Educação Física que trabalhavam com alunos com deficiência e alunos com autismo matriculados no Ensino Regular, as aulas de uma formação teórica em relação aos conteúdos, à dinâmica, ao material impresso e à colaboração para a prática docente.
Conclui-se que, em relação aos conteúdos, os mais bem avaliados foram aqueles que esclareceram dúvidas, desmistificaram o senso comum e abrangeram teorias além do tema específico da aula, principalmente abordando procedimentos de ensino para aulas regulares de Educação Física em que haja alunos com deficiência e alunos com autismo.
Em relação à dinâmica, as mais bem avaliadas foram aquelas que se mostraram motivadoras e que, por meio de figuras, fotos e vídeos, permitiram a reflexão e a exemplificação do quê e como fazer.
Em relação ao material impresso, aqueles que apresentaram sugestões de estratégias de ensino e de recursos pedagógicos foram bem avaliados.
Em relação à colaboração para a prática docente, as aulas mais bem avaliadas foram aquelas que trataram especificamente das deficiências e transtornos.
Destaca-se que disponibilizar para os formadores (docentes convidados) as necessidades dos formandos (professores de Educação Física) com procedimentos sistematizados, teve influência positiva nos resultados da avaliação, uma vez que foram preparados conteúdos e dinâmicas contextualizados à demanda destes últimos.
Diante da avaliação dos professores, é notório que a combinação entre os quesitos conteúdo, dinâmica e material impresso, foi o que permitiu que as aulas teóricas fossem bem avaliadas.
Para realizar uma formação continuada que atinja índices positivos e satisfatórios nas avaliações, o que pode ser traduzido em ganhos aos participantes, é indispensável um planejamento condizente com o objetivo e a abordagem teórico-metodológica adotada.
Tendo como premissa promover a reflexão, ou seja, criar condições de reflexividade sobre a inclusão em aulas de Educação Física, foi primordial obter dados que permitissem planejar a formação, dados esses advindos do relato dos próprios professores de Educação Física (Estudo 1) e de filmagens de aulas (Estudo 2) contemplando a identificação das dificuldades e das necessidades dos professores. Para promover a reflexão é essencial considerar o contexto de trabalho, como o ambiente escolar e as práticas que nele ocorrem (Martins, 2012). Assim, conclui-se que foi realizada uma formação teórica fundamentada na demanda dos professores, partindo dos princípios de que a vivência prática leva à reflexão e de que o conteúdo teórico se aproxima da prática, como mostraram os dados.
Por fim, conclui-se que a opção metodológica de avaliar as aulas teóricas a partir do ponto de vista dos professores é uma das possibilidades de avaliação, mas seria preciso ainda verificar no cotidiano escolar se a formação teórica impactou a prática dos participantes, o que será motivo de um estudo posterior. Assumindo que a formação docente "pode muito, mas não pode tudo" (Jesus & Effgen, 2012, p.15), a formação teórica foi a primeira parte de um programa de formação continuada, sendo que, em outro estudo, foi realizada a formação prática dos professores de Educação Física, complementando a teórica.
Agradecimentos
À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, processo (nº 402016/2011-4) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, processo (nº 2012/ 13075-6).
Referências
Abreu, J.R.G. Inclusão na educação física escolar: abrindo novas trilhas. 2009. Dissertação (Mestrado em Educação Física) - Centro de Educação Física e Desportos, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2009.
Aguiar, J.S.; Duarte, E. Educação inclusiva: um estudo na área da educação física. Revista Brasileira de Educação Especial, v.11, n.2, p.223-240, 2005.
Almeida, M.S. Educação física escolar e a inclusão de aluno com deficiência. 2008. Dissertação (Mestrado em Distúrbios do Desenvolvimento) - Faculdade de Educação Física, Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2008.
Betiati, W. Compreensão dos professores de educação física frente à inclusão de alunos com síndrome de down em escolas de Ibipora/PR. 2010. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Educação Física) - Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2010.
Brasil. Ministério da Educação. Política nacional de educação especial na perspectiva da educação inclusiva. Brasília: MEC, 2008.
Chicon, J.F. Inclusão na educação física escolar: construindo caminhos. 2005. Tese (Doutorado em Educação) Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.
Chicon, J.F.; Nascimento, S.F. Formação continuada de professores de educação física na perspectiva da inclusão. In: Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte, 17., 2011, Porto Alegre. Anais eletrônicos... Porto Alegre: UFRGS, 2011. p.1-12. Disponível em: <Disponível em: http://www.rbconline.org.br/congressos/index.php/XVII_CONBRACE/2011/index>. Acesso em: 21 jan. 2016.
Costa, F.R.B. Formação e desenvolvimento profissional em Educação Física dilemas e desafios na educação inclusiva. 2009. Dissertação (Mestrado em Educação Física) - Escola Superior de Educação Física, Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2009.
Cruz, G.C. Formação continuada de professores de educação física em ambiente escolar inclusivo. Londrina: Eduel, 2008.
Fiorini, M.L.S. Concepção do professor de Educação Física sobre a inclusão do aluno com deficiência 2011. Dissertação (Mestrado em Educação) - Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista, 2011.
Jesus, D.M. O que nos impulsiona a pensar a pesquisa-ação colaborativo-crítica como possibilidade de instituição de práticas educacionais mais inclusivas? In: Baptista, C.R.; Caiado, K.R.M.; Jesus, D.M. (Org.). Educação especial: diálogo e pluralidade. Porto Alegre: Editora Mediação, 2008a. p.139-159.
Jesus, D.M. Formação de professores para a inclusão escolar: instituindo um lugar de conhecimento. In: Mendes, E.G.; Almeida, M.A.; Hayashi, M.C.P.I. (Org.). Temas em educação especial: conhecimentos para fundamentar a prática. Araraquara: Junqueira & Marin, 2008b. p.75-82.
Jesus, D.M.; Effgen, A.P.S. Formação docente e práticas pedagógicas: conexões, possibilidades e tensões. In: Miranda, T.G.; Galvão Filho, T.A. (Org). O professor e a educação inclusiva: formação, práticas e lugares. Salvador: EDUFBA, 2012. p.11-18.
Lamaster, K. et al. Inclusion practices of effective elementary specialists. Adapted Physical Activity Quarterly, v.15, p.6481, 1998.
Martins, L.A.R. Reflexões sobre a formação de professores com vistas a educação inclusiva. In: Miranda, T.G.; Galvão Filho, T.A. (Org.). O professor e a educação inclusiva: formação, práticas e lugares. Salvador: EDUFBA , 2012. p.19-32.
Mendes, E.G. Caminhos da pesquisa sobre formação de professores para a inclusão escolar. In: Mendes, E.G.; Almeida, M.A.; Hayashi, M.C.P.I. (Org.). Caminhos da pesquisa sobre formação de professores para a inclusão escolar. Araraquara: Junqueira & Marins Editores, 2008. p.92-122.
Mendes, E.G.; Toyoda, C.Y. Projeto S.O.S inclusão: consultoria colaborativa para favorecer a inclusão escolar num sistema educacional municipal. In: Dechichi, C.; Silva, L.C. (Org.). Inclusão escolar e Educação Especial: teoria e prática na diversidade. Uberlândia: Edufu, 2008. p.87-118.
Menezes, A.R.S. A inclusão de alunos com autismo em escolas públicas de Angra dos Reis. In: Nunes, L.R.O.P.; Wlater, C.C.F. (Org.). Ensaios sobre autismo e deficiência múltiplaSão Carlos: ABPEE, 2013. p.117-126.
Moraes, F.C.C. Educação física escolar e o aluno com deficiência: um estudo da prática pedagógica de professores. 2010. Tese (Doutorado em Educação) - Centro de Ciencias Humanas e Sociais, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campo Grande, 2010.
Morley, D. et al. Inclusive physical education: Teachers views of including pupils with special educational needs and/ or disabilities in physical education. European Physical Education Review, v.11, n.1, p.84-107, 2005.
Nabeiro, M. O colega tutor nas aulas de educação física inclusiva. In: Mendes, E.G.; Almeida, M.A. (Org.). Das margens ao centro: perspectivas para as políticas e práticas educacionais no contexto da educação especial inclusiva. Araraquara: Junqueira & Marin , 2010. p.401-406.
Pimenta, S.G. Pesquisa-ação crítico-colaborativa: construindo seu significado a partir de experiências com a formação docente. Educação e Pesquisa, v.31, n.3, p.521539, 2005.
Souza, F.A. Formação, educação física e inclusão: compreendendo os processos inclusivos2013. Dissertação (Mestrado em Educação Física) - Centro de Educação Física e Desportos, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2013.
Souza, J.V. Tutoria: estratégias de ensino para inclusão de alunos com deficiência em aulas de educação física. 2008. Tese (Doutorado em Educação Especial) - Centro de Educação e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2008.
Souza, G.C.; Pitch, S. A reorientação da ação pedagógica na educação física sob a perspectiva da inclusão: a pesquisa-ação como caminho. Movimento, v.19, n.3, p.149169, 2013.
Suplino, M. A inclusão de pessoas com autismo em escola regular: desafios e possibilidades. In: Nunes, L.R.O.P.; Wlater, C.C.F. (Org.). Ensaios sobre autismo e deficiência múltiplaSão Carlos: ABPEE, 2013. p.161-170.
Autor notes
Correspondência para/Correspondence to: M.L.S. FIORINI. E-mail: <salzanifiorini@yahoo.com.br>