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Avaliação da criatividade figural infantil em contexto de educação não formal1
Assessment of children’s figural creativity in non-formal education
Avaliação da criatividade figural infantil em contexto de educação não formal1
Revista de Educação PUC-Campinas, vol. 23, núm. 1, pp. 111-123, 2018
Programa de Pós-Graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica de Campinas
Recepção: 3 Março 2016
Revised document received: 2 Maio 2017
Aprovação: 12 Junho 2017
Resumo: Este estudo buscou avaliar a criatividade de crianças que frequentam, além da escola regular, um contexto educacional não formal no contraturno escolar. O objetivo foi investigar a influência que as variáveis Tipo de Organização não governamental e Tempo de Permanência no contexto não formal exercem sobre o desempenho criativo. Participaram do estudo 49 sujeitos na faixa etária de 9 a 11 anos, matriculados entre o quarto e o sétimo ano do Ensino Fundamental, selecionados em duas instituições do tipo Organização não governamental (instituição 1: n=26 e instituição 2: n=23). Para avaliação, foi utilizado o Teste de Criatividade Figural Infantil, composto por três atividades de estímulos incompletos, que devem ser respondidas sob a forma de desenhos. Essa ferramenta permite avaliar 12 características criativas, agrupadas em 4 fatores: Enriquecimento de Ideias, Emotividade, Preparação Criativa e Aspectos Cognitivos. Os resultados mostraram que, de modo geral, as variáveis investigadas não exerceram influência significativa em nenhum dos fatores criativos, excetuado o fato de que a variável Tempo de Permanência exerceu influência significativa nas características de Movimento (F=5,26; p≤0,001) e de Fluência (F=3,16; p≤0,05), ambas na atividade 2. Conclui-se que os meios de educação não formal ainda têm se mostrado pouco explorados nas pesquisas brasileiras, e maiores estudos como esses precisam ser desenvolvidos.
Palavras-chave: Avaliação psicológica, Criatividade, Educação formal, Educação não-formal.
Abstract: Creativity has been investigated in a very intense way in different contexts, especially education. Considering that most studies developed by take regular education, this study evaluated the creativity of children attending non-formal educational contexts after school, as an addition to the regular context. The objective was to investigate the influence of the type of non-governmental organization and time frequenting the non-formal context in creative performance. Forty nine subjects of both sexes, aged between nine and 11, from 4th to 7th year of primary school students, selected from two non-formal educational institutions (institution 1: n=26 and institution 2: n=23). The Figural Child Creativity Test was used and consisted of three incomplete stimulation activities which should be completed in the form of drawings. It allows the evaluation of creative characteristics grouped into four factors (Enrichment of Ideas, Emotionality, Creative Preparation, and Cognitive Aspects). The results showed that the type of non-formal educational and frequency of time variables did not exert significant influence on any of the creative factors, and only the second variable exerted significant influence on the movement characteristic (F=5.26; p≤0.001) and Fluency (F= 3.16; p=0.05), both in activity 2. It should be noted that, given the small sample, caution is advised when interpreting the results. It follows that the means of non-formal education still have not been sufficiently explored in Brazilian research since their influence on creativity is unclear.
Keywords: Psychological assessment, Creativity, Education formal, Non-formal education.
Introdução
Atualmente a criatividade tem sido reconhecida como uma característica bastante valorizada nos mais diferentes contextos sociais (Treffinger; Schoonover; Selby, 2013). Dada a complexidade do fenômeno e sua importância para o desenvolvimento pessoal, pode-se ver que o interesse pelo tema vem se ampliando no meio científico nas últimas décadas, a partir da ênfase e da sistematização provocadas pelo famoso discurso de Guilford ao tomar posse na American Psychological Association em 1950 (Wechsler; Nakano, 2002). Como consequência, pode ser encontrada na literatura uma grande variedade de ferramentas de diagnóstico e sugestões acerca de métodos, técnicas, estratégias e propostas formais e informais para estimular e trabalhar a criatividade, seja diretamente com os alunos, seja mediante modificações no clima de sala de aula e no ambiente em geral (Chacón, 2010).
A aquisição de competências criativas tem se mostrado muito valorizada no século atual, de maneira que, especialmente no campo educativo, tem se mostrado de particular importância, tomando várias áreas de conhecimento e todo o percurso escolar, em razão de sua relevância em qualquer contexto social (Wechsler; Sousa, 2011). Dentre os contextos em que a criatividade vem sendo investigada, o escolar tem ganhado destaque, de maneira que, em diferentes países, um número cada vez maior de educadores tem reforçado a importância de se promover um ambiente educacional que favoreça a promoção dessa competência (Martinez, 2002; Alencar; Fleith, 2008).
É sabido que a educação brasileira vem enfrentando, há várias décadas, enormes desafios, como as questões relacionadas à evasão, repetência, baixo rendimento escolar e violência, que são encontradas em todos os níveis de ensino, conforme salientado por Lima, Viriato e Scalcon (2004). Estudiosos têm se debruçado sobre estas questões, buscando encontrar razões que expliquem esses problemas, ora atribuídos ao aluno, ora ao professor, à família, à infraestrutura escolar, ao currículo ou às questões socioeconômicas e culturais (Lopez de Leon; Menezes Filho, 2002). Assim, pode-se verificar que, historicamente, o desafio da educação tem sido reconhecer a diversidade de alunos, em termos de ritmos, estilos, interesses e potencialidades (David et al., 2011). A amplitude faz com que o desenvolvimento da criatividade no âmbito educacional não seja visualizado como um esforço restrito somente às escolas, sendo recomendada sua ampliação para os diferentes espaços de educação que podem compartilhar dessa função, tais como os espaços de educação não formal (instalações de entidades assistenciais, Organizações Não-Governamentais (ONG), brinquedotecas, centros comunitários, casas paroquiais etc.), além dos espaços informais de aprendizagem (família, pares etc.), tal como ressaltado por Silva e Nakano (2012). Do mesmo modo, as autoras apontam para a importância de que, nesse contexto, outras populações sejam investigadas, tais como idosos que frequentam universidades de terceira idade e jovens e adultos que frequentam cursos supletivos ou de educação à distância.
Dentro dessa visão ampla de educação, Joly (2001) ressalta que se mostram necessárias mais pesquisas sobre criatividade em ambientes educacionais, voltadas para a análise e para a intervenção, com base na realidade de ensino brasileira. De acordo com Martinez (2002), ainda que inúmeros avanços venham sendo alcançados nos últimos anos por meio de práticas inovadoras e criativas, três focos ainda precisam ser efetivados na investigação da criatividade no contexto educacional: criatividade dos educadores, criatividade dos alunos e criatividade organizacional. Isso porque, apesar do reconhecimento da importância do ambiente educacional no desenvolvimento da expressão criativa dos alunos (Fleith; Alencar, 2005), poucas tentativas têm sido feitas para se avaliar a extensão em que essa característica tem sido estimulada ou inibida nesse contexto (Fleith, 2011; Wechsler; Nakano, 2011). Ao mesmo tempo, pode-se verificar também a presença de métodos do ensino monótonos, cansativos, despreparo na formação docente e limitação de recursos materiais, de modo que o acesso a um ensino diferenciado e promotor da criatividade do aluno não tem sido prática regular na maior parte das instituições (Piske, 2014).
A busca de soluções educacionais pela ótica da criatividade, de forma a se tentar encontrar caminhos que possam orientar possíveis soluções desses dilemas foi apontada por Wechsler e Nakano (2012). Somente assim tal característica poderá ser incorporada em cada indivíduo, de maneira que seus benefícios possam ser ampliados para todos os contextos em que ele se encontra inserido, assim contribuindo para seu crescimento e realização pessoal e profissional. Opinião similar é apresentada por Miranda e Morais (2014) ao ressaltarem a ideia de que qualquer escola, tomando professores preparados e motivados, pode alcançar bons resultados na planificação, implementação e avaliação de atividades que visem o desenvolvimento de alunos mais capazes, a partir de seu enriquecimento criativo.
Ainda vale ressaltar que diferentes aspectos relacionados à criatividade se têm feito presentes nas pesquisas, tais como: influência e papel do professor, criatividade discente, programas de treinamento da criatividade, atendimento a alunos superdotados e de altas habilidades, fatores estimuladores e inibidores da criatividade em estudantes e professores, avaliação do construto e clima de sala de aula, dentre inúmeros outros (Martinez, 2002; Runco, 2008; Wechsler et al., 2010; Fleith, 2011; Nakano, 2011; Silva; Nakano, 2012 ). No entanto, ainda que a gama de temáticas pareça ampla, uma dificuldade ainda presente reside no fato de que a maior parte dos estudos venha se focando nos contextos educacionais formais (escolas), de maneira a se constatar a ausência de estudos voltados aos contextos não formais (Wechsler; Nakano, 2002; Zanella; Titon, 2005; David et al., 2011; Silva; Nakano, 2012).
Verifica-se, dessa forma, que um campo a ser explorado na investigação da criatividade no contexto educacional são os contextos de educação não formal, usualmente instituições do tipo ONG, ou seja, espaços que têm como objetivo auxiliar na educação, sendo esse o objetivo do estudo aqui apresentado.
A educação não formal apresenta características diferenciadas das da escola regular, notadamente a ausência de formalidade, a irregularidade de conteúdo, a flexibilidade de tempo para a realização das atividades, a diversidade de formação dos educadores (não necessariamente a superior) e de regimes de trabalho (contratados ou voluntários). Embora as atividades não tenham a rigidez da quantidade de tempo, ou a regularidade do conteúdo como a escola regular, as instituições traçam objetivos e metas para cada atividade oferecida em sua grade, ou seja, há uma flexibilidade de alguns aspectos, mas com propósitos a serem alcançados (Teixeira, 2008; Giglio, 2011; Laranjeira; Silva, 2012). Assim, segundo Giglio (2011) e Silva (2012), toda instituição deve ter um plano de ação a ser seguido, ou seja, deve ter um planejamento das atividades que oferece, com a descrição das mesmas, como música, teatro, dança, artesanato, religião, dentre outras. Para cada uma dessas atividades, o conteúdo deve ser organizado conforme as metas a alcançar, a fim de que assim possa atingir resultados efetivos, que contribuam para a educação dos participantes.
Assim, atento à lacuna de estudos desenvolvidos em contextos educativos não formais, o presente estudo visou contribuir para o conhecimento da criatividade nessa modalidade educativa, por meio da investigação da influência que as variáveis Tipo de ONG e Tempo de Permanência no contexto não formal exercem sobre o desempenho criativo.
Procedimentos Metodológicos
A amostra deste estudo foi constituída por 49 estudantes, de ambos os sexos, na faixa etária de 9 a 11 anos de idade, matriculados no contexto de educação formal regular (escola pública) e também frequentadores de instituição de caráter educacional não formal (ONG) no contraturno escolar, sendo 26 crianças participantes da instituição 1, e 23 da instituição 2.
Como critérios de inclusão foram utilizados: (1) estar devidamente inscrito na instituição de educação não formal e frequentá-la regularmente (ao menos três vezes por semana); (2) participar de contexto não formal há pelo menos seis meses; (3) estar devidamente matriculado e cursar, além de contexto não formal, o contexto de educação formal (escola); (4) cursar, na educação formal, série compatível com sua idade, sendo aceita a discrepância de até uma série escolar. Tal requisito se dá em função de dados encontrados na literatura científica, os quais afirmam que a criatividade se mostra influenciada pela escolaridade, de forma que, se não controlada essa variável, os resultados encontrados podem refletir diferenças devidas a essa variável, e não à variável foco da pesquisa (contexto educativo); (5) ter autorização dos pais ou responsável para participação do filho na pesquisa, por meio da assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido.
Ambas as instituições de educação não formal caracterizam-se como ONG e estão localizadas na região Norte de Campinas (SP). A primeira delas foi fundada em 1950 e, desde 1979 passou a ter um direcionamento para a área social e educacional. Sua missão tem sido auxiliar na assistência social, educacional, cultural, moral e espiritual da criança e do adolescente, além de desenvolver programas em benefício da comunidade, de acordo com seu Plano de Trabalho, aprovado pelo Conselho Nacional de Assistência Social. Tem como objetivo contribuir para o enfrentamento da situação de vulnerabilidade, risco pessoal e social de crianças e adolescentes entre seis anos e 14 anos e 11 meses e suas famílias, propiciando um melhor desenvolvimento integral e o fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários. Visa, ainda, constituir-se como espaço de convivência e de formação para a participação e a cidadania, buscando o desenvolvimento do protagonismo e da autonomia das crianças e adolescentes. Após entrarem na instituição, estes passam a frequentá-la de segunda-feira a sexta-feira, no turno oposto àquele em que estão matriculados na escola (educação formal). São separados em dois grandes grupos de acordo com a faixa etária, sendo um deles formado por participantes de 6 a 10 anos de idade, e o outro por participantes de 11 a 14 anos de idade.
Já a instituição 2 teve origem em 1967, tendo como atual objetivo atender crianças e adolescentes entre 6 anos e 14 anos e 11 meses e suas famílias, a fim de proporcionar um auxílio em sua educação, bem como oferecer a proteção básica à criança e ao adolescente. Como forma de atingi-los, a instituição tem buscado oferecer, aos participantes do sexo masculino com idade entre 11 a 18 anos de idade, oficinas de marcenaria, restauração e pintura; pintura artística em painéis e muros; estamparia em camisetas e outros; pintura artística em telhas e artesanato; reciclagem de vidro e papel. Já para ambos os sexos são realizadas as oficinas de capoeira, leitura, teatro de fantoches, jogos, bem como atividades para o desenvolvimento do raciocínio lógico e atividades físicas.
Instrumentos
Como instrumento de avaliação da criatividade, foi utilizado o Teste de Criatividade Figural Infantil (Nakano; Wechsler; Primi, 2011), composto de três atividades que devem ser respondidas sob a forma de desenhos, a partir de estímulos pouco definidos. Na primeira atividade é solicitada a elaboração de um desenho a partir de um estímulo pouco definido (fazer um desenho); na segunda, o participante tem que completar uma série de desenhos (acabar um desenho); e, na terceira, ele tem que fazer o maior número de desenhos a partir do mesmo estímulo (fazer desenhos a partir de um semiquadrado).
O instrumento permite a avaliação da criatividade figural, por meio da pontuação de 12 características criativas, cuja estimativa possibilita uma avaliação global da criatividade e a identificação de características mais e menos desenvolvidas no indivíduo. As características avaliadas pelo instrumento são: Fluência (número de ideias relevantes oferecidas pelo sujeito); Flexibilidade (diversidade de tipos ou categorias de ideias); Elaboração (adição de detalhes ao desenho básico); Originalidade (ideias incomuns); Expressão de Emoção (expressão de sentimentos, tanto nos desenhos quanto nos títulos); Fantasia (presença de seres imaginários, de contos de fada ou ficção científica); Movimento (clara expressão de movimento nos desenhos ou títulos); Perspectiva Incomum (pessoas ou objetos desenhados sobre ângulos não usuais); Perspectiva Interna (visão interna de objetos ou parte do corpo das pessoas, sob a forma de transparência); Uso de Contexto (criação de um ambiente para o desenho); Extensão de Limites (estender os estímulos antes de concluir os desenhos); Títulos Expressivos (ir além da descrição óbvia do desenho, abstraindo-o). As características, depois de corrigidas em cada resposta dada pelo sujeito, são agrupadas em quatro fatores: Fator 1: Enriquecimento de Ideias; Fator 2: Emotividade; Fator 3: Preparação Criativa; Fator 4: Aspectos Cognitivos, além de uma pontuação total no instrumento.
O instrumento encontra-se validado para uso em crianças e adolescentes, estudantes do Ensino Fundamental (segundo ao nono ano). Estudos visando à busca por evidências de validade e precisão do instrumento indicaram valores entre 0,81 e 0,94 de correlação para validade concorrente com o Teste Figural de Torrance, e índices entre 0,84 e 0,95 de correlação para a precisão por meio do teste e reteste (Nakano; Wechsler, 2006). Os quatro fatores (Nakano; Primi, 2012) apresentaram bom ajuste ao modelo, verificado por meio de estudos envolvendo uso da Teoria de Resposta ao Item (Nakano; Wechsler; Primi, 2011), de maneira que os resultados das pesquisas apontam bons indicadores de precisão e validade em amostras brasileiras.
Procedimentos
A coleta de dados para a realização deste estudo foi iniciada após aprovação do Comitê de Ética que abrigou a pesquisa. Destaca-se que os resultados aqui apresentados constituem parte de um trabalho de Mestrado.
No contato com as instituições, foram explicados e esclarecidos os objetivos da pesquisa, o instrumento e o procedimento da coleta de dados, bem como foram esclarecidas quaisquer dúvidas para os educadores e responsáveis pela instituição. Após a identificação dos participantes, considerando-se a idade dos mesmos, os pais ou responsáveis foram informados do estudo e receberam, com duas semanas de antecedência, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, tendo participado do estudo somente aqueles alunos que retornaram com o documento assinado. A aplicação do instrumento foi realizada em um único encontro, de forma coletiva, com duração média de uma hora, sendo que, após a aplicação, os participantes eram liberados para retorno às atividades regulares da instituição.
Tomando-se o objetivo de verificar a influência das variáveis Tempo de instituição e ONG frequentada na criatividade figurativa dos participantes, dois procedimentos foram utilizados. Para a análise da influência da ONG frequentada, os participantes foram divididos em dois grupos: um primeiro composto por 26 crianças da ONG 1, e um segundo por 23 crianças da ONG 2. Os dados foram analisados por meio do teste não paramétrico de Mann-Whitney, dado o tamanho reduzido da amostra. Já para análise da influência do tempo que frequenta o contexto não formal, os participantes foram divididos em três grupos: 6 a 12 meses, 13 a 24 meses, 25 a 52 meses. Fez-se uso do teste Kruskal-Wallis, adotado em razão do número reduzido da amostra. Em ambas as análises foi adotado o nível de significância de 5%.
Resultados e Discussão
A primeira análise realizada visou investigar a influência das variáveis ONG frequentada e Tempo de Permanência no contexto não formal, tomando-se os quatro fatores do instrumento (Fator 1 – Enriquecimento de Ideias; Fator 2 – Emotividade; Fator 3 – Preparação Criativa; Fator 4 – Aspectos Cognitivos) e a pontuação total no teste. Os resultados da estatística descritiva e do teste de diferença de médias são apresentados na Tabela 1.
| Fator | Pontuação Total | |||||||||||||||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Contexto | 1 | 2 | 3 | 4 | ||||||||||||||||
| M | DP | M | DP | M | DP | M | DP | M | DP | |||||||||||
| ONG 1 | 50,07 | 17,36 | 5,44 | 5,97 | 9,96 | 7,54 | 46,70 | 11,60 | 111,30 | 25,69 | ||||||||||
| ONG 2 | 46,55 | 28,76 | 5,00 | 8,85 | 9,23 | 7,36 | 49,77 | 18,32 | 110,60 | 49,24 | ||||||||||
| Mann-Whitney | *F | **Sig. | F | Sig. | F | Sig. | F | Sig. | F | Sig. | ||||||||||
| 0,30 | 0,58 | 0,98 | 0,32 | 0,67 | 0,41 | 0,07 | 0,78 | 0,27 | 0,60 | |||||||||||
| Tempo de Permanência | ||||||||||||||||||||
| 6 a 12 meses | 44,32 | 27,56 | 5,27 | 8,40 | 11,14 | 8,80 | 48,27 | 15,14 | 109,00 | 45,62 | ||||||||||
| 13 a 24 meses | 51,38 | 20,90 | 7,63 | 8,66 | 7,75 | 4,46 | 42,88 | 6,74 | 109,63 | 31,19 | ||||||||||
| 25 a 52 meses | 52,11 | 17,71 | 4,21 | 5,28 | 8,68 | 6,50 | 50,05 | 17,05 | 113,74 | 31,02 | ||||||||||
| Mann-Whitney | F | Sig. | F | Sig. | F | Sig. | F | Sig. | F | Sig. | ||||||||||
| 0,65 | 0,52 | 0,60 | 0,55 | 0,86 | 0,42 | 0,64 | 0,52 | 0,08 | 0,92 | |||||||||||
Os resultados mostraram que a variável Tempo de Permanência na instituição de educação não formal não exerceu nenhuma influência significativa nas medidas de criatividade utilizadas, assim como não foram encontradas diferenças entre as duas instituições. Tal resultado contraria a hipótese levantada pelos autores de que, quanto maior o tempo que o indivíduo tomasse parte das atividades desenvolvidas nessas instituições, maior poderia ser o estímulo e incremento da sua criatividade, o que não foi constatado.
Os dados encontrados apontaram para o fato de que os participantes das ONG envolvidas no estudo, independentemente de qual seja ela, não apresentaram diferenças importantes em relação ao desempenho criativo. Desse modo, o trabalho desenvolvido em ambas as instituições parece exercer influência similar na criatividade de seus participantes, tal como esperado. Tal dado vai ao encontro da hipótese inicial, já que as duas ONG escolhidas para esta pesquisa foram selecionadas tomando-se a hipótese de serem consideradas semelhantes quanto a: tipos de atividades oferecidas aos frequentadores (esportivas, leitura, escrita); equipe técnica (educadores com formação e nível de ensino similar); equipe interdisciplinar (psicóloga, assistente social, coordenadora); regras de convívio e tipo de organização – ressaltando-se ainda o fato de estarem situadas na mesma região da cidade, de modo a atender uma população com perfil socioeconômico semelhante.
Em relação à segunda variável – Tempo de Permanência –, a partir da análise descritiva foi possível verificar que, no Fator 1 (Enriquecimento de Ideias), ainda que modo não significativo, as maiores médias são apresentadas por aqueles participantes que frequentam o contexto de educação não formal há mais tempo (período superior a dois anos). Esses resultados, ainda que devam ser interpretados com cautela, dado o fato de não terem se mostrado significativamente diferentes entre os grupos, demonstram certa tendência ao fato de que, conforme aumenta o tempo que as crianças frequentam as ONG, elas passam a expressar, de maneira mais intensa, características criativas que envolvem a análise dos problemas de uma forma mais detalhada, com acréscimo de elementos e enriquecimento da resposta, visualizada em um contexto mais amplo, dinâmico e de diferentes pontos de vista (Nakano; Primi, 2012). O mesmo ocorre em relação ao Fator 4 (Aspectos Cognitivos), marcado pela utilização de recursos cognitivos que envolvem a busca de soluções diferenciadas, originais e que vão além dos limites estabelecidos.
Diante desses dados, torna-se possível pensar que, à medida que a criança permanece na ONG e se envolve naquilo que lhe é proposto – ou seja: frequenta a ONG de maneira regular; realiza as atividades oferecidas pelo educador, como atividades esportivas (tae kwon do e sapateado na ONG 1; ginástica e expressão corporal na ONG 2) ou aulas de incentivo à leitura, reforço de letramento e raciocínio lógico, dentre outras (em ambas as instituições); respeita as regras do local – isso parece, de certa forma, contribuir para o desenvolvimento de certos aspectos relacionados à criatividade.
Pode-se citar, como exemplos de possíveis contribuições, que a participação nessas ONG pode estar gerando o aumento progressivo na pontuação média no Fator 1 (Enriquecimento de Ideias) e na pontuação total do instrumento, conforme o tempo de frequência a esses espaços. Segundo a definição desse fator, as características nele envolvidas referem-se à habilidade de ver a situação de forma mais detalhada, com respostas enriquecidas e situadas num contexto mais amplo (Nakano; Wechsler; Primi, 2011). Pode-se hipotetizar, nesse sentido, que o tipo de atividade desenvolvida nesses locais pode estar estimulando esse tipo de habilidade, lembrando, no entanto, que tal análise considerou somente o aumento da pontuação média nesse fator, visto que as diferenças entre os grupos, de acordo com o tempo de permanência, não se mostraram significativas.
Aqueles participantes que frequentam as ONG há mais tempo também apresentaram médias mais altas na pontuação total do instrumento, de modo a apresentarem melhor desempenho criativo que os grupos com menos tempo de participação na educação não formal. Em parte, esse desempenho pode estar refletindo práticas diárias presentes nas instituições. Como exemplo, pode-se citar uma atividade de rotina chamada “Roda de Conversa”. Todos os dias, após o almoço, as crianças sentam-se em roda, juntamente com os educadores, e recebem informações sobre o planejamento do dia, sendo incentivadas a compartilharem acontecimentos familiares e escolares. Diante de existência de alguma situação problema vivenciada por algum dos participantes, os demais são convidados a opinar, procurar solução, oferecer conselho ou relatar situações similares vivenciadas por eles. Acredita-se que tal prática pode atuar de maneira a desenvolver e estimular uma visão de mundo mais ampla e global, de modo a trabalhar e desenvolver, nas crianças, habilidades relacionadas à resolução de problemas, um dos importantes aspectos da criatividade.
Tais resultados podem apontar que o espaço de educação não formal pode trazer algum tipo de contribuição para a criatividade das crianças que o frequentam, de maneira a confirmar a opinião de Giglio (2011), segundo a qual esse se mostra um espaço propício e adequado para o desenvolvimento de habilidades criativas. Uma hipótese envolvendo a contribuição dos espaços de educação não formal na criatividade de seus frequentadores também havia sido levantada em estudo desenvolvido por Silva e Nakano (2013), baseando-se na existência de um diferencial oferecido por esses locais, o qual envolveria, principalmente, a diversidade e riqueza de atividades de cunho principalmente cultural. As autoras esperavam que esse tipo de vivência poderia enriquecer e desenvolver aspectos e características relacionadas à criatividade, o que, no entanto, não foi confirmado, visto que os resultados não indicaram superioridade criativa de crianças e adolescentes que frequentam contextos de educação não formal quando comparadas com aquelas que frequentam apenas o formal. Afirmam ainda que os resultados fazem refletir acerca da importância da criatividade e de sua estimulação no contexto escolar, ainda que muito esforço se mostre necessário para que o desenvolvimento real das características criativas dos alunos seja alcançado, independentemente de serem participantes apenas de contexto educacional formal, ou também frequentadoras de contexto de educação não formal.
Posteriormente, a influência das mesmas variáveis foi analisada em relação às doze características criativas separadamente, considerando-se, entretanto, a atividade de ocorrência (conforme modelo proposto no manual do instrumento). Os resultados mostraram que a maior parte das características não se mostrou influenciada por nenhuma das variáveis analisadas. Verifica-se que a variável Contexto (ONG) apenas exerceu uma influência significativa sobre a característica de Movimento (F=6,88; p≤0,01) na atividade 2, ao passo que a variável Tempo apresentou influência significativa nas características criativas de Movimento (F=5,26; p≤0,001) e de Fluência (F=3,16; p≤0,05), ambas na atividade 2.
A fim de melhor visualizar as diferenças de médias, estas são apresentadas juntamente com seus desvios padrão, para cada característica, considerando-se as variáveis ONG e Tempo de Permanência no contexto de educação não formal. Os dados são apresentados na Tabela 2.
| Características criativas | Atividade | ONG | Tempo (meses) | |||||||||||||||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | 6-12 | 13-24 | mais de 25 | ||||||||||||||||||
| M | DP | M | DP | M | DP | M | DP | M | DP | |||||||||||||
| Elaboração | 1 | 8,52 | 6,80 | 7,77 | 6,53 | 9,59 | 8,04 | 6,62 | 3,85 | 7,21 | 5,60 | |||||||||||
| Uso do Contexto | 1 | 0,59 | 0,50 | 0,64 | 0,49 | 0,64 | 0,49 | 0,63 | 0,51 | 0,58 | 0,5C | |||||||||||
| Perspectiva Incomum | 1 | 0,11 | 0,32 | 0,23 | 0,42 | 0,27 | 0,45 | 0,00 | 0,00 | 0,11 | 0,310 | |||||||||||
| Títulos Expressivos | 1 | 0,59 | 0,50 | 0,45 | 0,59 | 0,50 | 0,51 | 0,50 | 0,53 | 0,58 | 0,60 | |||||||||||
| Expressão de Emoção | 1 | 0,00 | 0,00 | 0,00 | 0,00 | 0,00 | 0,00 | 0,00 | 0,00 | 0,00 | 0,00 | |||||||||||
| Originalidade | 1 | 0,26 | 0,44 | 0,32 | 0,47 | 0,41 | 0,50 | 0,25 | 0,46 | 0,16 | 0,37 | |||||||||||
| Elaboração | 2 | 15,48 | 8,17 | 14,00 | 10,61 | 11,73 | 8,59 | 18,75 | 10,78 | 16,74 | 8,69 | |||||||||||
| Uso do Contexto | 2 | 0,27 | 0,94 | 1,05 | 1,64 | 0,59 | 1,09 | 0,75 | 1,03 | 1,26 | 1,55 | |||||||||||
| Perspectiva Interna | 2 | 0,41 | 0,69 | 0,27 | 0,55 | 0,23 | 0,61 | 0,63 | 0,91 | 0,37 | 0,49 | |||||||||||
| Movimento | 2 | 0,26 | 0,44 | 0,36 | 0,58 | 0,14 | 0,35 | 0,13 | 0,35 | 0,58 | 0,60 | |||||||||||
| Perspectiva Incomum | 2 | 0,48 | 0,80 | 0,27 | 0,45 | 0,32 | 0,47 | 0,25 | 0,70 | 0,53 | 0,84 | |||||||||||
| Títulos Expressivos | 2 | 2,59 | 3,21 | 1,68 | 2,96 | 1,95 | 2,96 | 4,00 | 4,66 | 1,68 | 2,86 | |||||||||||
| Expressão de Emoção | 2 | 0,22 | 0,50 | 0,05 | 0,21 | 0,09 | 0,42 | 0,13 | 0,35 | 0,21 | 0,41 | |||||||||||
| Fantasia | 2 | 0,37 | 0,56 | 0,09 | 0,29 | 0,14 | 0,35 | 0,38 | 0,51 | 0,32 | 0,58 | |||||||||||
| Fluência | 2 | 9,19 | 1,52 | 9,82 | 0,50 | 9,82 | 0,50 | 9,75 | 0,46 | 8,95 | 1,74 | |||||||||||
| Flexibilidade | 2 | 5,93 | 1,07 | 5,91 | 2,02 | 6,09 | 1,87 | 5,50 | 0,92 | 5,89 | 1,37 | |||||||||||
| Originalidade | 2 | 2,44 | 1,60 | 3,32 | 2,12 | 3,45 | 2,01 | 2,13 | 1,64 | 2,42 | 1,67 | |||||||||||
| Elaboração | 3 | 20,96 | 8,23 | 21,09 | 13,70 | 19,91 | 12,50 | 21,50 | 8,70 | 22,11 | 10,12 | |||||||||||
| Perspectiva Interna | 3 | 0,78 | 1,01 | 0,91 | 0,75 | 0,91 | 1,01 | 0,88 | 1,12 | 0,74 | 0,65 | |||||||||||
| Movimento | 3 | 0,26 | 0,52 | 0,32 | 0,56 | 0,36 | 0,65 | 0,00 | 0,00 | 0,32 | 0,47 | |||||||||||
| Perspectiva Incomum | 3 | 1,00 | 1,35 | 0,64 | 0,90 | 0,73 | 0,98 | 0,25 | 0,70 | 1,21 | 1,43 | |||||||||||
| Uso do Contexto | 3 | 0,37 | 0,74 | 0,36 | 0,95 | 0,23 | 0,75 | 0,63 | 0,91 | 0,42 | 0,90 | |||||||||||
| Títulos Expressivos | 3 | 1,44 | 2,42 | 0,59 | 1,96 | 0,41 | 1,00 | 2,37 | 3,29 | 1,26 | 2,60 | |||||||||||
| Expressão de Emoção | 3 | 0,15 | 0,45 | 0,05 | 0,21 | 0,14 | 0,46 | 0,13 | 0,35 | 0,05 | 0,22 | |||||||||||
| Fantasia | 3 | 0,07 | 0,26 | 0,32 | 1,49 | 0,32 | 1,49 | 0,13 | 0,35 | 0,05 | 0,22 | |||||||||||
| Fluência | 3 | 11,26 | 4,83 | 12,50 | 7,09 | 11,77 | 5,95 | 9,63 | 2,61 | 12,79 | 6,81 | |||||||||||
| Flexibilidade | 3 | 7,33 | 2,46 | 7,05 | 3,90 | 6,82 | 3,56 | 6,38 | 2,06 | 8,00 | 3,00 | |||||||||||
| Originalidade | 3 | 3,96 | 2,32 | 3,59 | 3,69 | 3,27 | 2,81 | 3,75 | 2,25 | 4,42 | 3,45 | |||||||||||
| Extensão de Limites | 3 | 7,07 | 3,03 | 7,50 | 5,18 | 6,86 | 4,64 | 6,63 | 1,59 | 8,00 | 4,29 | |||||||||||
Quando as duas variáveis investigadas são consideradas, a partir dos dados pode-se visualizar média maior na característica de Movimento obtida pelos participantes da ONG 2, bem como pelos participantes com maior tempo de frequência ao contexto de educação não formal (mais de 25 meses). A importância dessa característica ampara-se no fato de que o uso de movimentos nas respostas pode ser considerado um facilitador da criatividade, uma vez que possibilita a atenção à dinâmica de funcionamento das coisas, e não somente à mera percepção delas (Torrance; Safter, 1999; Wechsler, 2002).
Do mesmo modo, Fluência também foi mais bem pontuada pelos participantes com menos tempo de educação não formal. Tal característica criativa refere-se à aptidão para produzir um grande número de ideias, sem que haja a censura nas respostas que surgem. A pessoa criativa teria a capacidade de gerar um grande número de ideias perante uma situação ou problema. Essa habilidade é importante devido ao fato de que, quanto mais ideias se têm, maiores serão as possibilidades de se conseguirem soluções que respondam às necessidades, visto que geralmente as primeiras ideias são sempre as mais comuns (Torrance; Ball, 1978; Nakano; Wechsler; Primi, 2011; Nakano, 2012).
Interessantemente, durante a realização do trabalho, diversas ações rotineiras nas ONG, que puderam ser observadas pelas pesquisadoras, caracterizaram-se como atividades que possivelmente contribuem para o desenvolvimento da criatividade de seus participantes. Como exemplos podem-se citar atividades de enriquecimento extracurricular relacionadas à leitura, à síntese e ilustração de livros, e à presença de biblioteca dentro das instituições. Os aspectos cognitivos também são estimulados notadamente por meio do estímulo e auxílio na elaboração das tarefas escolares, bem como pela resolução de problemas em grupo. No entanto, os resultados obtidos pelo instrumento utilizado não confirmaram esse dado.
A partir das médias observadas, foi possível verificar que as crianças que estão há mais tempo na ONG (mais que 25 meses), de maneira geral, destacaram-se mais do que aquelas que estão há menos tempo (de 6 a 12 meses), em diversas características criativas, tais como Títulos Expressivos, Elaboração, Uso de Contexto, Perspectiva Interna, Movimento, Perspectiva Incomum, Flexibilidade e Originalidade. Assim, o tempo de permanência nesse contexto educativo parece estar estimulando, nessas crianças, habilidades relacionadas à capacidade de detalhamento, abstração, contextualização em um ambiente mais amplo, visualização interna e dinâmica de funcionamento das coisas, consideração de diferentes pontos de vista, assim como ideias pertencentes a domínios diferentes e originais. Desse modo, aquelas que frequentam a educação não formal há mais tempo tendem a apresentar mais marcadamente características como capacidade de se expressar; organizar; planejar; propor diferentes soluções para um determinado problema, conseguindo visualizar o todo da situação; atentar ao interno, aos detalhes, ao dinamismo dos acontecimentos; e, ainda, olhar para as coisas sob diferentes visões, assim buscando oferecer respostas novas com facilidade (Nakano, 2006; Nakano et al., 2011).
Considerações Finais
Considerando-se a complexidade e amplitude do construto criatividade (Wechsler, 1996, 1997; Alencar et al., 2010), bem como sua importância no contexto educacional, tido como essencial para o desenvolvimento dessa característica (Martinez, 2002; Runco, 2008; Fleith; Alencar, 2012), o presente estudo buscou a compreensão de um ponto ainda pouco explorado: a educação não formal. Os resultados mostraram desempenhos que não se diferenciaram entre os participantes das duas ONG avaliadas, de modo que as atividades que vêm sendo desenvolvidas nesses ambientes, independentemente da variedade encontrada em um ou outro local, parecem estar contribuindo para o desenvolvimento da criatividade de seus frequentadores, especificamente no que toca ao enriquecimento de ideias.
Dada a amplitude de possibilidades de pesquisa nesse contexto, algumas limitações do presente estudo merecem ser destacadas: a restrição no número de participantes, o perfil das ONG selecionadas, assim como a localização específica em uma única região da cidade, podem ter influenciado os resultados relatados. Nesse sentido, sugere-se cautela na interpretação dos dados, bem como a necessidade de outros estudos que considerem distintas variáveis possíveis de serem investigadas nesse contexto, relacionadas ao tipo de amostra (educandos, educadores, voluntários, diretores responsáveis pelas instituições) e a outros tipos de espaços de educação não formal (associações, escolas de idiomas, brinquedotecas, escolas de arte, dentre outros). Do mesmo modo, convém destacar que a variável Tempo de Permanência considerou somente o tempo que os participantes estavam frequentando esses espaços não formais, não se tendo controlado a idade dos mesmos. Pode-se hipotetizar que uma criança que, desde idade muito pequena, se integra a essa instituição, possa se beneficiar mais do que uma criança que iniciou sua participação com mais idade. Assim, recomenda-se que estudos futuros controlem não só o tempo de permanência, mas também a idade de ingresso e a idade atual, de maneira que tais dados possam ser analisados conjuntamente. Do mesmo modo, a ausência de informações acerca do tipo de escola frequentada pelos participantes (municipal ou estadual) pode escamotear dados importantes para a discussão, sendo recomendado seu controle em estudos que futuramente venham a ser conduzidos com o mesmo objetivo.
Ainda que os resultados não tenham confirmado a hipótese elaborada a princípio – de que os espaços de educação não formal estariam oferecendo condições para o desenvolvimento da criatividade e que, quanto maior o tempo de permanência do participante, maior seria a contribuição nesse sentido –, cautela deve ser tomada na interpretação dos resultados, limitando-os às condições em que foram obtidos (limitados à amostra e ao tipo de ONG envolvida). Isso, notadamente, se se considerar que as pesquisas têm indicado que o contexto de educação não formal pode atuar como um espaço de exploração da criatividade, devendo ser mais bem investigado, dada a lacuna existente na literatura científica.
Diante disso, este achado da pesquisa faz refletir sobre o quanto os contextos educacionais podem vir a contribuir para o desempenho da criatividade, sejam eles formais (como já tem aparecido em diversas pesquisas) ou não formais (ainda pouco explorados). Especificamente em relação a este último, diversos elementos encontrados no ambiente – tais como a existência de uma relação positiva entre educadores e educandos, o clima favorável para a aprendizagem, a presença de profissionais motivados e engajados na tarefa de mediar a educação, o oferecimento de atividades artísticas e culturais diversificadas e o estímulo à realização das atividades escolares – merecem ser mais bem explorados, a fim de que possam, de modo mais efetivo, contribuir para a expressão criativa de seus frequentadores. Para isso, torna-se essencial o treinamento e esclarecimento, acerca da criatividade, dos profissionais que ali atuam. Esta se constitui, assim, uma área a ser explorada pela Psicologia Escolar.
Referências
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Notas