RESISTÊNCIAS AFRICANAS: NOVOS PROBLEMAS E DEBATES
Pulular sob o rolo compressor: sobre a resistência Kel Tamacheque à agressão colonial francesa (1881-1919)
Swarming under the steamroller: Kel Tamasheq resistance to French colonial aggression (1881-1919)
Pulular sob o rolo compressor: sobre a resistência Kel Tamacheque à agressão colonial francesa (1881-1919)
Anos 90, vol. 26, e2019205, 2019
Universidade Federal do Rio Grande Sul, Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
RESUMO: Revisitar a história da resistência durante os primeiros anos da colonização francesa, entre 1881 e 1919, em diferentes territórios saarianos Kel Tamacheque é o objetivo central deste artigo. Os franceses tiveram grande dificuldade em atravessar o Saara e seus esforços incluíram dois itinerários. Um deles partiu de Dakar em direção ao leste, tendo Timbuctu, e, depois, Zinder e Lago Chade como horizonte. O outro partiu do norte em direção ao sul, partindo de Argel, Ouargla até Agadez, Zinder e Lago Chade. A discussão focaliza os principais enfrentamentos dos primeiros anos desses percursos franceses em territórios Kel Tamacheque. Desde o período colonial, eles organizaram revoltas e fizeram sentir sua recusa à ocupação tanto por luta armada como por diversas formas de insurgências e resistência cultural. Trata-se de releitura crítica de fontes documentais escritas da biblioteca colonial: publicações especializadas e documentos históricos escritos, sobretudo, por militares, religiosos, cientistas e administradores franceses.
PALAVRAS-CHAVE: História do Saara, Colonialismo francês, Kel Tamacheque.
ABSTRACT: This article seeks to broaden the discussion on the history of anti-colonial resistance in Saharan societies during the first years of French colonization, with a specific focus on the resistance of the Kel Tamasheq. The French had great difficulty traversing the Sahara, and their efforts comprised two distinct itineraries. One of them commenced in Dakar and headed east towards Timbuktu, and then Zinder and Lake Chad. The other set out from the north towards the south, departing from Algiers (Ouargla) in the direction of Agadez, Zinder, and Lake Chad. The analysis focuses on the main confrontations during the first years of French passage through Kel Tamasheq territories. Since the colonial era, the Kel Tamasheq have organized revolts and manifested their rejection of colonial occupation through armed struggle and diverse forms of insurgency and cultural resistance. The text is a critical revisiting of French colonial archives’ written sources: specialized publications and historical documents largely produced by the French military and French religious institutions, scientists, and administrators.
KEYWORDS: Saharan History, French colonialism, Kel Tamasheq.
Kel Tamacheque: para uma introdução a uma trajetória de resistência sem fim
A história do Saara permanece em grande medida, silenciada ou imersa em um historicismo servil de narrativas históricas que continuam a lhe desenhar como o árido e o vazio de territórios despidos de historicidade e, portanto, de humanidade. O presente artigo é expressão da necessidade de abrir a história do Saara a outros horizontes. Neste caso, retomar ou, como diria Benjamin (1996), resgatar um passado de interesse para o presente não só para o debate historiográfico, mas para a vida de mulheres e homens que lutam, ainda hoje, por emancipação que se atrasa.
Ao retomar os relatos de oficiais militares, cientistas e administradores franceses sobre o período colonial - como os de Mage (1868), Raille (1894), Joffre (1895), Foureau (1902), Hourst (1898), entre outros -, é possível escovar a história a contrapelo, como sugerido por Benjamin (1996), e atentar para as lutas levadas por africanos e africanas. Este é o caso dos Kel Tamacheque1 em diferentes regiões que combateram pela defesa de seus territórios e modo de vida (BOILLEY, 1999). Essa releitura da história, pelos processos da resistência, constrói-se por meio de dois itinerários pelos quais a França traçou sua ocupação do Saara central e Sael. O primeiro, norte-sul, a partir de Argel e Ouargla, no mar Mediterrâneo, passando por Biskra e Tit. O segundo itinerário, oeste-leste, desenvolveu-se desde Dakar, na costa atlântica, passando por Kayes, Bamako e Ségou até a ocupação de Timbuctu e as declarações oficiais de subordinação dos seus habitantes.
Portanto, a discussão compreende, por um lado, o período das missões científico-militares do século XIX após a rendição e exílio de Abdel el-Kader (1847) e a derrota de Kel Ahaggar em Tit (1902), conforme Etienne e Pouillon (2003). Por outro lado, acentua narrativas de situações da história da resistência no processo que levou à queda de Timbuctu, no Azawad (1894), de Agadez (1899), capital dos Kel Aïr, até a morte de Kawsan Ag Kedda que liderou uma grande revolta entre 1916 e 1919. A França gerou guerras ao intentar rasgar o deserto do Saara, sem conseguir extinguir as lutas aguerridas contrárias ao seu domínio.
Busca-se retomar, neste estudo, o que foi deixado para trás pela historiografia oficial, por não ser glorioso para a construção da hegemonia da opressão. Ou seja, as formas de rupturas e estratégias de contrapoder em uma perspectiva da história que insiste sobre a inscrição africana na história política e cultural de luta ao focalizar a dimensão multiforme (RANGER, 2010) das resistências à agressão colonial francesa, sinalizando, sobretudo, o apagamento da memória das sociedades saarianas ao longo do século XX.
A noção de resistência entre os Kel Tamacheque, zemmer (CLAUDOT-HAWAD, 2001, p. 45), recobre, neste texto, experiências diante da agressão ocorrida nas primeiras décadas da ocupação colonial em cada uma das regiões que compõem este complexo histórico-cultural (BOAHEN, 2010)2. A abordagem prioriza a descrição da diversidade de formas de insurgências, as quais remetem à tradição guerreira (MAZRUI; WONDJI, 2012; AG ADNANE, 2018) Kel Tamacheque. Aponta para iniciativas isoladas e fragmentadas e para as lutas armadas organizadas (adakal n’tazoli) e de defesa da soberania, ou seja, da alma (adjagh fal iman). Há ainda um número diversificado de práticas cotidianas e móveis de contrapoder, pois são formas de poder (FOUCAULT, 1985), com suas estratégias criativas que se insurgem, sobretudo em situações de distribuição desigual de força (CERTEAU, 1994). A resistência é, portanto, pensada como processo multilinear e heterogêneo tanto na forma como em conteúdo (PAIVA, 2014).
Territorialidade e organização Kel Tamacheque
A sociedade Kel Tamacheque3 é composta por um conjunto de unidades territoriais e sócio políticas diferenciadas, formando confederações (tiwšaten4, tawšit no singular) organizadas em torno ao poder (timinia) vinculado a um tambor de guerra (ettebel). Reunidas, definem a noção contemporânea de tumast5, enquanto nação sociológica (SAKANYI, 2001, p. 145; TSHIYEMBE, 2000, p. 22-23)6. A tawšit, por influência do pensamento científico próprio à biblioteca colonial (KANE, 2003; MUNDIMBE, 2013; MBEMBE, 2014), foi traduzida incorretamente por “tribo”, como observou Moraes Farias (2010), que preferiu utilizar “confederações” ou “grupos do tambor”7. Nessa dinâmica de estabelecer alteridades, os franceses popularizaram a denominação da sociedade como touareg ou touarègue (tuaregue), termo derivado de tawariq que foi anteriormente utilizado pelos cronistas árabes como Ibn Battuta (séc. XIV), Hassan al-Wazzan (séc. XV), Abderrahmân As-Saadî (séc. XVII). No entanto, designam a si mesmos, segundo as variantes de sua língua, como Kel Tamajak, Kel Tamashaq, Kel Tamahaq, ou seja, os que falam a língua tamajak, tamashaq, tamahaq.
Se com a colonização (18848-1960) os territórios dos Kel Tamacheque foram divididos administrativamente, após as independências, foram fragmentados em cinco países (Argélia, Mali, Niger, Burquina Faso e Líbia).
Lutas contra a agressão e a instalação colonial
Desde o final do período de conquista dos territórios africanos - entre o final do século de XIX e início do XX -, a França passou a se empenhar em impor um sistema de poder e controle territorial que afetaria decisivamente a sociedade Kel Tamacheque e grande parte do mundo amazir do Saara central e do norte do continente.
A estratégia francesa, para a ocupação colonial dos territórios saarianos, desenhou-se a partir de duas frentes complementares: pelo norte saindo de Argel-Ouargla e pelo oeste a partir de Dakar-Bamako. A primeira adentraria os territórios Kel Tamacheque de confederações Kel Ahaggar (In Salah) e Kel Ajjer e a segunda, as terras dos Iwellemmiden em Timbuctu, Gao e Menaka (confederação Iwellemmiden Kel Ataram). Em ambas, encontraram resistências armada e política. Na pluralidade de experiência de oposição ao domínio militar, político, econômico e à imposição de mudanças (ATIENO, 2010) ao modo de vida nômade, a resistência assumiria formas de ação como negação, evitamento, exílio político como recuo estratégico, além de um conjunto de atitudes subjetivas e práticas como crítica artística e contraposição à assimilação de comportamentos e de símbolos considerados imposição exterior.
Rota Norte-Sul: a fragamentação no incansável caminhar da resistência
A colonização foi um processo difícil e só chegou aos Kel Tamacheque no final do século XIX, período em que a França decidiu conquistar e anexar à Argélia os territórios de Kel Ahaggar e Kel Ajjer (estes últimos teriam parte de suas terras sob o império Otomano e, posteriormente, Líbia). Ressalto que os Kel Tamacheque do Norte se organizavam espacialmente em regiões de nomadismo pastoril, centros comerciais, centros religiosos e regiões de cultivo com população sedentária (DUVEYRIER, 1864, p. 290). Sua existência era “[...] assegurada por meio de anexos sedentários que permanecem em lugares escolhidos no centro das suas peregrinações ou na periferia de suas terras de percursos” (DUVEYRIER, 1864, p. 247). Neste sentido, a cidade de Ouargla teve um papel central, pois era o centro mais próximo dos Kel Tamacheque sob a dominação francesa. De lá partiram diversas missões de exploração do Saara.
A conquista colonial francesa iniciou-se pela invasão da Argel em 1830, comandada por Napoleão III e Chasseloup-Laubat, mas se efetivou apenas dezessete anos mais tarde. Ou seja, em 1847, após a rendição formal de Abd el-Kader, o maior líder da resistência argelina. Desde então, dois períodos distinguiram-se: o das missões científico-militares, entre 1847 e 1900, com confrontos esporádicos com os Kel Ahhagar e Kel Ajjer, e, o período após a tomada a Tit (1902) e da instalação do domínio colonial propriamente dito, de 1900 a 1905.
Em junho de 1848, a Argélia foi anexada à França pelo mesmo decreto imperial que criou os Departamentos franceses da Argélia e lançou uma campanha expancionista a partir de Argel. O Saara - território independente da Regência de Argel e sob a autoridade das sociedades nômades9 - tornou-se, desde 1879, alvo de interesse das autoridades parisienses. Objetivavam controlar o comércio no Saara e suas riquezas já conhecidas, sobretudo, por meio de trabalhos como os realizados nas primeiras décadas do século XIX pelos exploradores Barth (1850) e Duveyrier (1860)10. Tornou-se relevante o reconhecimento do relevo, de poços e estradas para interligar Argel ao lago Chade por meio de estrada de ferro (VAUTIBAULT, 1879)11. Era estratégico criar as condições para conectar a Argélia às outras possessões na África Ocidental Francesa, permitindo escoar suas riquezas minerais de seu subsolo, rico em fosfato, bacias hídricas subterrâneas, gás natural, petróleo, urânio, ferro, cobre (CORNET, 1957; BERRAMDANE, 1992; BISSON, 2003).
Em 1879, o governo francês decidiu levar avante o projeto que ligaria a Argélia ao Sudão Francês (atual Mali). Charles de Freycinet, Ministro das Obras Públicas, nomeou uma comissão de estudo e, em seguida, o tenente-coronel Flatters conduziu duas missões: em 1880 e em 1881. (BROSSELARD-FAIDHERBE, 1889)12. Contudo, o amenokal (líder tamacheque) Ahitaghel Ag Mohamed Biska13 já havia anunciado sua oposição à passagem de tropas por suas terras (BROSSELARD-FAIDHERBE, 1889). Os Chaamba14, principais aliados e frequentemente recrutados pelas companhias saarianas15, advertiram Flatters sobre o risco do projeto (BROSSELARD- -FAIDHERBE, 1889, p. 179). Apesar disso, Paul Flatters16 partiu de Ouargla, em 5 de março de l880, em direção a Ghat (região Kel Ajjer), mas, foi obrigado a voltar seis dias depois, devido a ataques dos guerreiros Kel Tamacheque (RAFFRAY, 2013), alertados pela notícia de construção de um novo meio de transporte de pessoas e bens que os privariam do controle das rotas das caravanas (DEYCARD, 2011, p. 46).
Em 4 de dezembro, Flatters iniciou a segunda expedição (COPPOLANI, 2005). Dirigiu-se para Tassili e chegou à região dos Kel Ahaggar em 18 de janeiro de 1881 (GREVOZ, 1989). Em 16 de fevereiro, a missão que compreendia 97 pessoas, foi atacada por diversos líderes dos Kel Tamacheque, entre os quais Ahitaghel e Cheikh Amoud Ag El Mokhtar. Flatters foi morto junto com alguns de seus companheiros no Oued de Tin Tarabin na região dos Kel Ahaggar. Os sobreviventes retornariam em uma marcha difícil e tumultuada, apenas dez membros da missão chegaram vivos, nenhum deles era francês.
Na metrópole, a repercussão do massacre da coluna Flatters influenciaria a visão ambígua que se estabeleceria sobre os nômades do Saara. Esse ambiente de conflitos acarretou uma resistência multiforme (RANGER, 2010) com rejeição de missões, militares ou não. Ainda que os territórios tamacheque tenham sido teatro de grande violência, essa memória ficou silenciada mesmo após as independências, pois, as fronteiras administrativas coloniais tornaram-se bases para a definição territorial dos novos países e a fragmentação acirrou-se, juntamente com a marginalização sociocultural17.
Após a derrota da coluna Flatters (1881) e forte oposição das lideranças dos Kel Tamacheque a acordos com a França, um conjunto de ofensivas foi adotado para a exploração de seus territórios. Naquele mesmo ano, foi aprovado um decreto de regulação das relações entre a metrópole e suas colônias. Esse decreto estava em consonância com o “código do indigenato”18 de 1924 que corresponde a práticas e condições para a população de territórios conquistados, definidos por Isabelle Merle (2004) como forma de legalização da violência colonial. O decreto estabeleceu a redução da liberdade de circulação e produção com sistema fiscal pesado, notadamente para os muçulmanos19, instituindo, ainda, a criação de postos militares no Saara.
A partir de 1897, Laperrine recrutou e organizou companhias meharistas (tropas especiais com utilização de camelos) para intervenção no Saara Central que foram oficializadas em 1902 como tropas regulares. Na visão do Comandante Superior dos Oasis Saarianos, Henri Laperrine, e de Gaston Cauvet, primeiro comandante da Companhia dos Oásis de Tidikelt, apenas o confronto direto coagiria a subordinação dos Kel Tamacheque às autoridades francesas. Laperrine comandou o novo avanço francês para o interior do Saara Central desde 1901. Conquistar e pacificar20 os territórios do Sul passou a ser uma prioridade e seu principal alvo.
Por sua posição geográfica, Tuat, grupo de oásis (ighizran) localizado a noroeste das montanhas de Ahaggar, significou um dos alvos para a conquista francesa no final do século XIX. Tratava-se da região de uma confederação independente com mais de trezentos núcleos habitacionais, sendo os principais Zenan e In-Salah. Este último era centro comercial importante na rota entre Timbuctu e norte do continente, sendo, também, o mais próximo dos franceses sediados em Ouargla. Segundo Pandolfi (1998), a conquista desses oásis começou pela guerra contra In-Salah (DUHARD, 2013) no final de 1899. Mas, tomar In-Salah exigia submeter militarmente todo o grupo de oásis próximos e assegurar o controle das estradas de caravanas comerciais.
Os confrontos iniciaram-se a partir da missão Flamand-Pein, expedição que se apresentou como missão geológica, mas que pretendia favorecer a conquista do oásis de Tidikelt, território dos Kel Ahaggar (BOURGEOT, 1978). Ela foi bem armada e escoltada pelo capitão Pein com cento e quarenta homens, mas foi derrotada perto de In-Salah, em 28 de dezembro de 1899 (PANDOLFI, 1998) pelos Kel Tamacheque. Os franceses imediatamente interditaram seu mercado a fim de asfixiar a vida econômica local. Em abril de 1890, nove anos após a derrota de Flatters, uma parte dos Kel Ahaggar (os Kel Rela, os Iforas, os Taitoq, os Iménan) achara-se forçada, por razões econômicas, a estabelecer acordo de paz (DUHARD, 2013).
Por decisão de Laperrine, outra expedição, chefiada por Cottenes, foi vitoriosa em 1902, desta vez contra Tit (PANDOLFI, 2006). Os Kel Tamacheque resistiram, mas o poder das armas era desigual, fato que levou a rendição dos Kel Ahaggar (PANDOLFI, 1998). O líder da resistência, Moussa Ag Amastane, decidiu aliar-se aos franceses, transformando-se em figura ambígua na memória dos Kel Tamacheque. Havia, portanto, uma situação interna particularmente tensa. Definir uma posição frente à França foi, no final do século XIX, um ponto central da política dos chefes dos Kel Tamacheque. Prova disto foi a pressão francesa sobre os Kel Ahaggar que terminaram forçando a mudança de suas áreas de nomadismo, suas estradas e o recebimento de tributos devido ao controle das rotas comerciais.
Este conjunto de fatores implicava em decisão entre aceitar uma dependência do poder colonial ou definir posição de hostilidade aberta. Na época, apenas os Kel Adrar, haviam optado por manter uma atitude pacífica, tendo sido submetidos pelo poder colonial sem violência armada. Todas as regiões tamacheque sofreram mudanças drásticas. A dinâmica da conquista do Saara em diversas frentes.
O programa francês prosseguiria com a missão Fourau-Lamy, realizada entre setembro de 1898 e outubro de 1900. Atravessar o Saara até o Congo, passando pelo Chade, foi o objetivo da missão. A expedição, que iniciou com nove oficiais, quatro civis, um médico, duzentos e setenta e sete homens e quase mil camelos, seguiu inicialmente a rota da missão Flatters, mas contornou, evitando a região dos Kel Ahaggar. Saiu de Ouargla (Biskra) para Timassânine, Tikhammar, Tadent, In-Azaoua (Kel Ajjer) e, depois, para Iférouane (Kel Aïr), Agadez, Zinder e Lago Chade.
A travessia de Tassili n’Ajjer apresentava dificuldade por não ser conhecido dos viajantes sem cartografia. Chegaram a ponto de água em que Paul Flatters havia sido assassinado em janeiro de 1899 (FOUREAU, 1902). A partir daí, a falta de água e a morte de grande número de camelos foram problemas maiores. Construíram um forte no poço de In-Azaoua para chegar ao maciço de Aïr onde a resistência da população se fez sentir. Foram ameaçados constantemente e atacados duas vezes. Em seu relato, Foureau afirmou que desde o dia em que conheceu “a surda obstrução e o fanatismo do Tuareg do Aïr” sabia que o caminho não seria fácil, pois “seguiam ao custo de lutas constantes e dificuldades incalculáveis” (FOUREAU, 1902, p. 806).
A desigualdade de armas de fogo a favor dos franceses diminuiu os ataques frontais, mesmo que tenham ocorrido como a batalha de Egatragh na região dos Kel Aïr, com importantes perdas para estes últimos. A tática principal era isolar, criar um vazio em torno da missão de forma a dificultar as provisões, a gerar insegurança e sede constantes (FOUREAU, 1902). A maior parte da população da capital do Aïr deslocou-se para leste, evitando contato com o invasor. Entre as famílias que fugiram dos ataques franceses se encontrava a família de Kawsan Ag Kedda, futuro líder da grande revolta de 1916-1919, que estava com dezenove anos (TRIAUD, 1999). Após a derrota no confronto com as forças da coluna Fourau-Lamy na batalha de Egatragh, os Ikazkazan fizeram uma retirada tática e deixaram suas grandes cidades (DEYCARD, 2011). Sua posição sociocultural e política de guerreiros e protetores impunha a necessidade de garantir segurança à população da confederação. A derrota foi sua grande vergonha, ferindo seu código de honra (achak) e os princípios da temuchar’a ou temuja’ra (orgulho e independência, o próprio modo de ser tamacheque). Pois, “valoriza as qualidades morais de coragem, generosidade, grandeza de alma e independência de espírito”, sendo “a estrada, continuidade/meta, uma asa da via láctea”, segundo Mahmoudan Hawad (1995, p. 13). Um conjunto de interrogações inquietava-os: como lutar contra um exército de armas de fogo com espadas e lances? Questões que ficaram várias vezes no pensamento do Kawsan. O que ia levá-lo a anos de exílio e preparação tática e para o uso de armas de fogo (TRIAUD, 1999).
A expedição chegou a Agadez em 28 de julho e permaneceu até 17 de outubro, durante esse período de ocupação militar forçou a compra de numerosos animais. Em 2 de novembro de 1899, a missão chegou a Zinder (FOUREAU, 1902), onde outra missão, a Joalland-Meynier (SIMOËN, 1996), deixara um destacamento. Para os franceses, este foi um marco simbólico no processo longo e árduo de submissão do Saara. Deixava de ser, para eles, inviolável. Para os Kel Tamacheque, contudo, iniciava-se um período árduo de desafios históricos diversos em que a luta pela liberdade, pela integridade de seus territórios e por autodeterminação exigiria mudanças de estratégias políticas, militares e sociais profundas. Criava-se, ainda, o imperativo de revisão da própria ideia de tumast/temust de forma a se recompor interna e externamente. O amenokal e líder da resistência anticolonial, Mohamed Ali Ag Attaher - em entrevista a Hélène Claudot-Hawad (2001) -, enfatizou que a tumast dos Kel Tamacheque havia se formado em processos muito anteriores ao colonizador, não se confundindo nem com os Impérios do Mali, Sonrhaï, Mossi, Haussa/Zerma, nem com o Reino Marroquino. A pesquisadora ressaltou, também, a importância complementar das afinidades culturais - ideia presente na definição de tumast - entre diferentes tiwšaten21, pois partilham laços de filiação, alianças e afinidade de língua e com mito fundador comum (CLAUDOT-HAWAD, 2001). Sinalizo a importância do Islã que, entre os séculos VIII e XI, unificou os Sanhaja, bases histórica e sociológica dos Kel Tamacheque. Naquele período, tumast unificava-se pelos laços religiosos comuns.
O processo francês no Saara, desde Argel, indica que a Conferência de Berlim (1884-1885) significou uma estratégia de recomposição da geopolítica e oficialização da balcanização do continente em zonas de influência europeias já em curso, neste caso, francesa. Ressalto, ainda, que a presença europeia nas costas africanas existia bem antes deste evento. Em 1807, por exemplo, a Inglaterra criou colônia em Serra Leoa, depois na Costa do Ouro (entre 1830 e 1874) e, em 1861, em Lagos (BRUNSCHWIG, 1971).
Rota Leste-Oeste. De Dakar-Bamako à Timbuctu: a resistência como espinho da recusa à dominação
Apesar de ter se estabelecido e formado entrepostos no Senegal desde 1624, a colonização francesa realizar-se-ia apenas na segunda metade do século XIX, depois de 1814, quando o Tratado de Paris conferiu o monopólio do comércio do Senegal à França, após a acirrada disputa com Inglaterra. A expansão para o interior do continente ocorreu com Luis Faidherbe (1818-1889), nomeado para o cargo de governador do Senegal em 1854. Na segunda metade do século XIX, o processo de colonização francesa avançou na direção do vale do rio Senegal conquistando Kayes em 1855 e estabeleceu-se em Bamako (atual capital do Mali) por volta de 1883. Depois disto, empreendeu o caminho para tomar Timbuctu, em 1894. Levariam, porém, cinco anos para conseguirem chegar a Gao, em 1989.
A resistência e luta contra o domínio francês sobre Timbuctu
Timbuctu povoava o imaginário francês do século XIX, desde a viagem de René Caillié em 1828 e, de acordo com Jacques Hureiki (2003), sua ocupação estava nos sonhos de muitos oficiais do exército. Entre estes, destacava-se o general Faidherbe, fundador da colônia do Senegal, o qual definiu Timbuctu como objetivo fundamental da penetração colonial sob seu comando (DAVOINE, 2003, p. 67-68). Em 1863, Faidherbe encarregou uma missão exploratória e diplomática no Alto Níger ao tenente Eugène Abdon Mage (1837-1869) e ao médico Marines Louis Joseph-Marie Quintin (SAINT-MARTIN, 1970). A missão durou 26 meses e resultou em um tratado de comércio e em um relatório detalhado com mapas, observações sobre seus habitantes, sua economia e descrição da difícil situação derivada da guerra Tuculor-Bambara na região de Segu. Este trabalho de Mage foi publicado pela Hachette com o título Viagem ao Sudão Ocidental, 1863-1866 em 1868. Os franceses queriam garantir o domínio das regiões mais centro-orientais do continente antes dos ingleses.
O acordo comercial feito com El Hadj Oumar Tall em 1860 havia sido estratégico, já que a região entre Segu e Timbuctu estava sob o seu controle. Havia ali, uma confluência de três rotas comerciais provenientes do Magrebe, do Senegal e da Gâmbia (SAINT-MARTIN, 1970). El Hadj Oumar Tall desapareceria em Deguimbere no início do ano de 1864. Cheikh Ahmadou reteve o avanço dos franceses, alegando insegurança, pois ainda não estava certo da morte de seu pai. Mage e Quintin ficaram sob a sua proteção vários meses, participando de batalhas contra os Bambara (SAINT-MARTIN, 1970). Mage (1868) declarou que a França deveria exercer controle do rio Níger em todo seu percurso, pois, por meio dele, as embarcações a vapor poderiam transportar canhões, permitindo, assim, conduzir a pacificação das populações. Para o tenente da Marinha francesa Jean Jaime (1892), a conquista de Timbuctu, ponto da rota das caravanas, permitiria proteger as possessões do Sul Argelinas e favorecer a continuidade da penetração colonial (JAIME, 1892).
Com uma frota de cerca de 300 barcos e de 400 fuzis, Eugène Bonnier, ambicioso oficial que havia vencido Samory Touré22, dirigiu-se para Timbuctu saindo de Segu em 26 de dezembro de 1893, desobedecendo as ordens do Governador geral do Sudão, Albert Grodet (GUILLEMIN, 2013). Mas, a glória da tomada de Timbuctu seria cantada em Paris como sucesso de Gaston Boiteux (GREVOZ, 1993; 2006), que não esperou por Bonnier em Mopti. Ao chegarem ao porto fluvial de Kabara a cerca de 10 km de Timbuctu, Boiteux deixou um grupo de soldados nativos sob as ordens do oficial da marinha Léon Aube, próximo à Timbuctu, com dois canhões. Aube juntamente com Le Dantec e seus auxiliares foram mortos por guerreiros de Kel Tingreguif em 28 de dezembro de 1893.
Contudo, a tomada de Timbuctu ainda não era reconhecida pelos Kel tamacheque e à semelhança do massacre de Flatters, a coluna de Bonnier foi destruída na batalha de Taqinbawt (Tacoubao) em 15 de janeiro de 1894, sob a liderança de Chebboun Ag Fondagammo (então com 27 anos) e seu irmão Mohamed Ag Awwab, amenokal dos Kel Tinguéréguif. O massacre surpreendeu a metrópole. De acordo com Hureiki (2003, p. 129), “[...] o impacto desse ato de guerra e de seus terríveis resultados, amplificado pela ausência de perdas do lado inimigo, afetou o imaginário colonial, habituado a conquistas rápidas e fáceis no Sudão Francês”.
O coronel Joffre, que era encarregado das obras da estrada de ferro, foi enviado de Segu à Timbuctu, chegando em 12 de fevereiro de 1894 (JOFFRE, 1895). Depois de várias tentativas sem sucesso, os chefes Songai aliados dos franceses intermediaram o contato com os Kel Tinguereguif. Era uma cilada para facilitar o ataque francês. Nele morreu a maioria dos homens, inclusive o amenokal Mohamed Ag Awwab. Aqueles que escaparam se aliaram a Chebboun, escolhido como amenokal após a morte de seu irmão.
Jofre determinou a construção de uma fortificação em torno de Timbuctu, mas, durante cerca de um ano, foi praticamente impossível sair da cidade devido à hostilidade da população que organizava confrontos e ataques-surpresas (BOILLEY, 1993). As tropas africanas, muito eficazes nas savanas, tinham pouca capacidade para lutar no deserto apesar da superioridade de suas armas. O exército francês, contrariamente ao que proclamou, teria ainda um longo processo diante da resistência de diversas confederações dos Kel Tamacheque da região de Timbuctu e da região central do rio Níger, como os Kel Tenguereguif, Kel Antessar, além dos Ireganaten, Igawaddaran, Imizghererizen e Kel Temulayt.
Em Paris, a repercussão foi muito grande: o jornal L’Illustration23 publicou, em 24 de fevereiro de 1894, o artigo Os heróis de Timbuctu, em que compara a guerra em Timbuctu com a tomada de Argel. Outro jornal francês, Le Petit Journal, publicou um suplemento especial ilustrado com o título: A derrota Tuaregue.
A violência das conquistas coloniais e de suas estratégias de pacificação, ou seja, de submissão e reconhecimento do comando francês, tem sido insuficientemente estudada na região saariana, mas se sabe que os saques e violência das tropas francesas eram rotina. Muitos tirailleurs, soldados africanos recrutados em regiões conquistadas, engajavam-se motivados pelas recompensas que os esperavam no momento dos saques, acreditando, inclusive, voltar para casa com escravos (TYMOWSKI, 2000; BOUCHE, 1968). A resistência tamacheque deixaria marcas e diferenciaria o tratamento da administração colonial, bem como seus procedimentos de controle na região. Em 1896, iniciou a pressão sobre a população da região de Timbuctu, uma vez que foi neste ano que o governador do Sudão, Trentinian, buscou forçar a submissão formal de vários chefes dos Kel Tamacheque que viviam ao longo do rio Níger. Ele realizou uma turnê de inspeção no Sael e criou um centro administrativo em Nioro, a fim de impedir o acesso dos Kel Tamacheque às regiões férteis do vale do Níger (DAVOINE, 2003).
A política colonial francesa confrontava-se constantemente com a concorrência britânica e buscava enfraquecer a expansão de seu comércio. Entende-se, assim, a motivação que levou os ingleses a se posicionarem como contrários à ocupação francesa de Timbuctu, pois este fato somado à tomada de In-Salah, favorecia o projeto da construção da estrada de ferro trans-saariana. A Companhia inglesa do Níger controlava e explorava uma parte da atual África do Oeste e do Lago Chade (BOURGEOT, 1978).
A resistência, contudo, teria continuidade nas regiões Azawad e Azawagh por meio das ações dos Kel Tamacheque Iwellemiden (Kel Ataram e Kel Denneg). Kel Ataram estavam em região a leste, em Tagharust (Rharus), quando os franceses entraram em Timbuctu. Sob a liderança do amenokal Kahoua, eles constituíam uma confederação, ettebel, poderosa desde 1830 (RICHER, 1924).
Após Timbuctu, o objetivo francês era estender seu domínio e, para isto, a missão científica conduzida por Émile Hourst (1895-1896) era um passo decisivo. Ela deveria conhecer e descrever a hidrografia e as possibilidades de navegação do rio Níger após Timbuctu. Hourst conta, em seu relato publicado em 1898, que fez contato com o amenokal Madidou Ag al-Khottab - que comandava nas regiões de Rharous, Gao, Ménaka e Adrar - a fim de conseguir proteção para descer o rio e chegar à Say e à Sokoto. Hourst estimou que houvesse entre vinte a trinta mil guerreiros entre os Iwellemmiden sob o comandado de Madidou e considerou difícil atacá-los diretamente. Deve-se notar que, mesmo depois de tomar Timbuctu, os ataques contra as forças de ocupação francesas continuaram por várias unidades políticas Kel Tamacheque (Igawaddaren, Kel Ansar, Kel Temulayt) e Kunta, aos quais se juntaram os Kel Ara e os Kel Eguedesh em 1897 (RICHER, 1924).
Em 1898, Klobb foi nomeado comandante da região de Timbuctu que fez uma série de ataques aos tamacheque, conseguindo provocar grandes perdas e a divisão de seus líderes. Um importante líder Kel Antessar, Ahmed Mohamed N’Gouna, foi isolado e assassinado em novembro de 1898 (BOILLEY, 1999, p. 62). Klobb determinou, posteriormente, a constituição de um posto permanente em Bamaba para proteger Timbuctu dos ataques dos Iwllimenden Kel Atram (DAVOINE, 2003). Em novembro de 1899, Madidou Ag Al Khottab morreu, e foi nomeado como seu sucessor Laweye Ag Annaber que já era idoso. Ele não acreditava, segundo Hourst, no enfrentamento direto dos franceses, entretanto, seu neto Fihroun Ag Alinsar era um jovem (nascido em 1860 em Talatayt) e partidário da resistência e era quem detinha a autoridade política (HOURST, 1898).
Os Iwellemmiden foram vencidos e acabaram por fazer sua submissão formal em janeiro de 1903, fato que permitiu a ocupação da região de Gao, onde um posto militar já havia sido fundado em 1899. Fihroun foi eleito amenokal em outubro de 1902 (SALIFOU, 1973) e decidiu não declarar resistência imediata.
Em 1908, foi estabelecida a administração direta que permitiria a supressão do amenokal (RICHER, 1924). Fihroun, apoiado pelos Kel Essuk, engajou-se contra os franceses e encorajou uma nova revolta (DAVOINE, 2003). Em 1914, uma grande seca acentuou a fome na região. Em outubro do mesmo ano, os Iwellemmiden organizaram uma reunião com a finalidade de definir estratégias de resistência, mas foram surpreendidos pelos franceses. Nesta ocasião, Fihroun, e os principais notáveis que faziam parte do grupo de resistentes, foram condenados a dez anos de prisão pelo tribunal de Gao (SALIFOU, 1993). Dois anos depois, em 1916, eles conseguiram fugir da prisão e iniciaram uma nova fase de luta armada contra os franceses.
Fihroun chamou um jihad24 e em pouco tempo tinha a seu lado grande parte dos Kel Tamacheque da região de Menaka (SALIFOU, 1973), além do apoio dos Kel Essuk (DAVOINE, 2003). Em março do mesmo ano, atacaram o posto de Menaka, mas perdem a batalha. Fihroun faleceria pouco tempo depois em uma batalha, em 25 de junho de 1916, contra Moussa Ag Amastane, amenokal dos Kel Ahaggar que se tornou aliado dos franceses desde 1904 (LAWEL, 2010). Os sobreviventes foram saqueados na sequência (RICHER, 1924).
Em Anderambukar, os franceses derrotaram militarmente os Iwellemmiden (DAVOINE, 2003) em 9 de maio, obtendo a submissão dos líderes em meio a forte repressão (SALIFOU, 1993). Nesta fase, a organização das confederações Kel Tamacheque de regiões em crise foi sendo mais e mais fragmentada, devido às derrotas diante das armas do colonizador e, também, ao acirramento de disputas de interesses locais e/ou à diferença de visão estratégica das lideranças. Este talvez seja um dos maiores legados e a principal vitória francesa, pois este soube criar ou reavivar antigas rivalidades, pois estabeleceu novas hierarquias e formas de estruturação do poder, gerando oposições entre gerações e famílias de uma mesma confederação.
A luta Kel Aïr e a união em torno a Kawsan Ag Kedda - 1916 e 1919
Em 1899, os Kel Aïr haviam perdido a batalha contra os franceses da coluna Foureau-Lamy (1898-1900), período em que as armas de fogo eram desconhecidas da população da região (FOUREAU, 1902). A instalação dos franceses em Agadez ocorreu em 1905, contudo a resistência se manteve por longo de todo perído colonial (CLAUDOT-HAWAD, 2001).
Na região de Aïr, Kawsan (ou Kaocen) conduziu entre 1916 e 1919 uma revolta geral dos Kel Tamacheque contra a colonização francesa, para a qual mobilizou uma rede de relações sociais, comerciais e políticas. Ele era da confederação Ikazkazan, que liderava a região do Aïr (atual Níger) até a chegada do colonizador e que lutou intensamente contra os franceses desde a expedição saariana Fourau-Lamy em 1900.
Com Kawsan, surgiram estratégias de guerra mais adaptadas à confrontação em situação de força muito desigual: guerrilha, emboscada e grande mobilidade, somadas à valorização da busca de conhecimentos técnicos e militares, além de apoio político no exterior. Kawsan, que havia perdido muitos de seus familiares em confrontos com os franceses, exilou-se (como muitos outros após a batalha de Egatragh) e buscou compreender e convencer, no seu retorno em 1916 (dezessete anos de exílio), que a luta deveria modificar seus meios para a emancipação do colonizador: chamava a uma verdadeira revolução (tegriwela) de formas de estratégias militares (que chamava de ezneneki: avançar contornando o obstáculo, em vez de bater de frente) e de luta política, pois eles tinham sido vencidos pelas armas e vivam em uma situação caótica, Claudot-Hawad (2012). Escreveu cartas a líderes Kel Tamacheque - algumas delas encontram-se nos arquivos coloniais -, buscando reunir diferentes confederações para essa fase da luta. Sua volta foi precedida de preparativos, pois atuava desde o exterior nesta organização para a luta. Em 13 de dezembro de 1916, ele cercou e, depois, ocupou a cidade de Agadez para onde diversas confederações enviaram reforços (DEYCARD, 2011). Conseguiram diversas vitórias.
Os franceses reforçaram seus postos com apoio inglês, obrigando os revolucionários a recuarem de suas posições (TRIAUD, 1999). Grande repressão recaiu sobre a região. Kawsan conseguiu escapar de uma emboscada e voltou a buscar armas e aliados no exterior (CLAUDOT-HAWAD, 2012). Combateu ainda em diversas frentes, mas foi morto pelo exército turco juntamente com seu exército em 1919, em Gatroun (Líbia atual). Muitos sobreviventes exilaram-se no Sudão e Chade. Estes eventos colocaram fim à tegriwela liderada pelo guerreiro do Aïr.
Talvez ele seja evocado mais do que outros líderes históricos da resistência tamacheque contra a colonização, em versos de poemas e das canções atuais. “Melhor será para vós ganhar, pela guerra santa, as recompensas celestes, do que vos submeter a homens de boca sem véu e com bigode de cães” declamava o poeta Elou Ag Boukheida, em exortação à guerra santa contra os franceses, em texto escrito em 1905 e recolhido por Foucauld (1997, p. 290). Essas ideias e o estado de espírito espalhavam-se em muitas regiões, ainda que a superioridade bélica francesa se fizesse presente e houvesse no espaço tamacheque grande dificuldade em unir as diferentes confederações em uma só frente de luta. A recusa à submissão assumiu formatos variados e foi um dos legados de líderes como Kawsan.
Fakando Ag Shaykhou contou - em entrevista concedida à Claudot-Hawad (2012, p. 251) - que Kawsan dizia que “[...] mesmo se os franceses e seus escravos sejam mais numerosos que os grãos de areia das dunas do deserto, se eu incrustar e quebrar o espinho da recusa da dominação, mesmo que a força deles seja com a da rocha e do cobre petrificando pilares da eternidade, um dia, o clamor de sua resistência face ao exército deles fará com que vacilem”.
A derrota de Kawsan foi seguida de enorme repressão, mas não evitou a sua memória viva, nem o desejo de independência. Ele ponderava que era preciso buscar novos conhecimentos, novas estratégias de lutas e que o inimigo precisava ser conhecido para ser vencido. Kawsan foi, para Hawad (1996), um líder exemplar que reagiu contra a destruição de seu país, além da liderança que instigava, ao mesmo tempo, a luta e a transformação social, pois entendia ser preciso ir além do próprio mundo tamacheque.
Após as revoltas como as de Chebboun, N’Gonna, Fihroun e de Kawsan, os territórios tamacheque conheceram insurgências constantes. A população criou diferentes práticas de resistência, além de repetidas revoltas ao longo de toda a ocupação colonial. Contudo, aconteceram confusões de estratégias com fragmentações das tiwšaten e intenso sofrimento social. Ambivalências e ambiguidades na chamada “pacificação dos nazarenos” geraram relações tensas e consequências para o tratamento recebido pela sociedade Kel tamacheque, como ampla militarização das administrações coloniais e pouco acesso à escolarização, diferenciando-a, ainda mais (ou marginalizando), de outras populações das colônias francesas.
Da agressão colonial francesa emergiram a resistência - na forma de confronto, recusa à submissão, evitamento do colonizador -, o exílio e até a colaboração tática. As revoltas coloniais em sua resistência endêmica, como vimos, sucederam-se desde 1881 (massacre da coluna de Flatters que pretendia avaliar as possibilidades de traçar uma estrada de ferro religando o Sudão francês ao Magrebe) até Kawsan.
Depois da Segunda Grande Guerra, sobretudo nos anos de 1950, novos movimentos acendiam as esperanças de líderes tamacheque de emancipação de suas regiões. Aceleram-se as lutas por independências em grande parte conduzida por jovens africanos que tinham feito seus estudos em Dakar na renomada escola William Ponty e na França. Esta não era, contudo, a condição dos Kel Tamacheque que foram mantidos (e se mantiveram) em grande maioria fora das escolas francesas e da administração colonial.
Conclusão... “continuar a pulular sob o rolo compressor”
Resistir, nas palavras de Mahmoudan Hawad, “consiste em se assumir a despeito da adversidade e da derrota, de não esposar à lógica dos vencedores nem se impressionar com sua armada, em resumo, de continuar a pulular sob o rolo compressor” (HAWAD, 2012). Desde Kawsan, a resistência (zemmer) criativa, seja fragmentada e fugaz ou organizada e persistente, forjou novas dinâmicas como instrumentos de reflexão, de construção de memória coletiva e de ação. Manifesta-se, igualmente, no esforço da construção de novas narrativas da história tamacheque. Resistir tornou-se um exercício coletivo e uma forma de saber incorporado, passou a declarar-se por meio de poemas, canções, provérbios e nas dramatizações que ocorrem nos encontros intercomunitários. Assim, no movimento intenso de transformação surgiram novas formas de expressão estética, artística e política.
A resistência está, portanto, vinculada em seu pensamento à ruptura das trocas de experiências, ao apagamento da memória, ao declínio da narração e à perda do sentido da história. Kimba Idrissa (1994) afirmou que as resistências anticoloniais no oeste do Níger em 1905-1906 colocaram a questão da consciência política e social de populações que se revoltam e se organizam contra o colonizador. Alexander Neumann (2012) assegura que se trata de um conceito sociologicamente vivo mesmo que tenha ficado no campo acadêmico, associado “[...] a fenômenos pré-modernos, a obstinações reacionárias ou um avatar sem futuro do marxismo doutrinário” (NEUMANN, 2012).
Para a compreensão da história política tamacheque, o conceito de resistência permitiu, em primeiro lugar, reativar a memória sobre um conjunto de confrontos armados contra a agressão colonial a fim de manter a soberania política, econômica e territorial. Essa forma guerreira é, ainda hoje, fortemente louvada na produção literária e poética (CLAUDOT-HAWAD, 1993). Em segundo lugar, reúne mobilizações de lutas de liberação contra a dominação francesa, como a liderada por Kawsan Ag Kedda entre 1916 e 1919 (IDRISSA, 2003).
Ao longo do século XX, a resistência (zemmer) e a revolta (tanakra) iriam assumir uma dimensão unificadora na grande diáspora Kel tamacheque, pois criaram conexões novas entre as diferentes confederações para viabilizar práticas de recusas ao domínio francês (e, posteriormente, aos Estados-nação em que seriam involuntariamente divididos). Além disso, a intensificacção da migração terminou por ampliar a rede interna de sustentação, como no caso dos deslocamentos de um território tamacheque a outro de diferentes regiões administrativas. Os itinerários dessa mobilidade involuntária constituíram uma forma de continuidade de luta em que a sociedade teve que se redefinir e se reinterpretar para incluir suas diásporas e suas novas formas de mobilidade como estratégia de criar e viabilizar alternativas. A necessidade de mudanças sociais precisava ocorrer sem romper com as profundas ancoragens territoriais e culturais.
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Notas
Autor notes
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