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Entre história e literatura: Dante e Dolcino
Out of History into Literature: Dante and Dolcino
Anos 90, vol. 30, e2023105, 2023
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em

Dossiê: Formas de religiosidade na Itália (séculos XIII ao XV)


Received: 06 January 2023

Accepted: 18 October 2023

DOI: https://doi.org/10.22456/1983-201X.132955

RESUMO: Ao concluir as celebrações do aniversário de Dante Alighieri, é oportuno direcionar o olhar ao herege mais famoso presente na Divina Comédia, Dolcino de Novara, para abordar a relação entre história e literatura, frequentemente ignorada. A imagem de Dolcino transmitida por Dante será uma referência privilegiada de uma “aventura herética”. A fama de Dolcino, ligada aos versos dantescos, é comparada com a documentação remanescente e, sobretudo, com a recepção pelos comentaristas da Divina Comédia, ainda que seja para tentar compreender por que o poeta não exprime condenação em relação ao herege.

Palavras-chave: Dolcino de Novara, Margareth, Dante Alighieri, heresia, Inquisição, Divina Comédia.

ABSTRACT: After the celebration of the Dante Alighieri’s centenary it’s importantto take into consideration the most famous heretic in the Divine Comedy, Dolcino from Novara, to follow the relationship between history and literature, mostly ignored. The image of Dolcino transmitted by Dante it’s the main reference of an “heretical adventure”.The fortune of Dolcino due to the poetical verses of Dante, is compared with the documents survived and with the comments on the Divine Comedy in order to understand the reason why the Poet doesn’t comdamn the heretic Dolcino.

Keywords: Dolcino da Novara, Margherita, Dante Alighieri, Heresy, Inquisition, Divine Comedy, Divine Comedy commentators.

Dolcino de Novara é o único herege presente na Divina Comédia de Dante Alighieri. Quem era ele? Que imagem é dada pelo poeta e como foi transmitida pelos comentaristas, ou seja, por aqueles que forneceram as chaves interpretativas para os versos dantescos? Antes de analisar a consolidação e a transmissão da memória do mais famoso herege medieval italiano, é necessário se debruçar sobre o que seja a heresia e quem é o herege na Idade Média. “Heresia”, deriva do grego hairesis e significa “escolha”. Contudo, os hereges na Idade Média, nunca se definiram como tal.1 Canonicamente se fala de haeretica pravitas - “pravidade herege” -, ou seja, malvadez e perversidade hereges: tal definição traz consigo uma condenação judiciária acompanhada por uma condenação moral porque - de maneira subentendida e óbvia - o herege não pode ser nada mais que dissoluto. Sobre isso, haeretica pravitas foi traduzido por Dante com a expressão “herege nequizia” (“Nos olhos dos mortais é argumento/ de fé de não de herege nequizia”, Paraíso IV 69). Dolcino não figura entre os hereges do IV círculo do Inferno, que, na verdade, não o são propriamente; pelo contrário, é evocado por Maomé, um muçulmano, inserido entre os “semeadores de escândalo e de cisma” (Inferno XXVIII, 35), os que dividiram e, em contrapasso, foram divididos no oitavo círculo e na nona balbúrdia do Inferno. A cruzada não é expressamente nominada, mas, por meio dos versos dantescos, o herege de Novara sempre será associado a um episódio armado.

Quem era Dolcino de Novara? O primeiro registro aparece em uma longa carta escrita em 1300, imediatamente após a morte de Gherardo Segarelli, o idealizador do movimento dos Apóstolos, aos membros da congregação. Tendo sobrevivido de forma resumida na Practica inquisitionis, do inquisidor Bernardo Gui, que é a primeira de três cartas, das quais temos também a segunda, de 1303 (Bernardus Guidonis, p. 330-336).2 Escritas segundo o modelo das epistolae ad fideles, não obstante os limites exegéticos-interpretativos devidos à modalidade de transmissão (em resumo), devem, contudo, ser consideradas no vértice das importâncias documentárias: delas, podem ser extraídos importantes elementos de autoidentificação. Dolcino era o chefe/rector de uma congregação apostólico-espiritual composta por irmãos (fratres) e irmãs (sorores), homens e mulheres que, só na Itália, chegariam a mais de 4.000 indivíduos, unidos uns aos outros por um vínculo não externo, mas, como é especificado, interno. Uma congregação espiritual e um contexto escatológico no qual agem os novos Apostolos.

Se das epistolae emerge uma congregação apostólico-espiritual de fratres e sorores, os processos inquisitoriais revelam um horizonte evangélico ainda mais definito por meio dos termos apostoli, apostoli Christi ou pauperes Christis. A itinerância apostólica deles segundo o modelo evangélico e a consequente repressão inquisitorial são atestadas de 1300 a 1304. Depois, improvisadamente, em setembro de 1306, de Bordeaux, Clemente V, com três cartas, os convida a pregar sobre a cruzada (Bernardus Guidonis, p. 340-342) assim a Cruzada, que se efetuará em março de 1307 no Vale Sesia, será sucedida por processos inquisitoriais e pela morte na fogueira, entre outros, do Dolcino e de Margareth, “a bela”. O episódio dolciniano não só é elemento de datação (o Inferno, ou pelo menos aqueles versos, foram compostos post crociatam, isto é, após 1307), mas também mostra o desinteresse em relação à Margareth, cuja beleza suposta e conclamada não atrai o poeta: uma aventura religiosa extraordinária não é sintetizada em “casal poético”, mas tampouco em “casal herege”.3 O silêncio sobre Margareth na Comédia será contraposto pelo interesse dos comentaristas, que construirão um mito literário (Benedetti, 2009, p. 105-131; 2017, p. 27-36).

O que Dante acolhe de tal experiência religiosa? Em primeiro lugar, não aparece o termo herege: não há nenhuma condenação. Pelo contrário, são evocadas as armas “Or di a fra Dolcin dunque s’armi”, como diz Maomé no exórdio de uma intervenção de seis versos, nos quais a intenção é salvar, não de danar, aquele que a partir daquele momento - ecoando Dante - será chamado “frei Dolcino”:



Or di a fra Dolcin dunque che s’armi,
tu che forse vedrà il sole in breve,
s’ello non vuol qui tosto seguitarmi,
sì di vivanda, che stretta di neve
non rechi la vittoria al Noarese
ch’altrimenti acquistar non saria leve
(Inferno XXVIII, v. 55-59).4

Na profecia post eventum, ou seja, depois que a cruzada tinha terminado, Maomé se dirige a Dante para que, uma vez que retorne à terra, avise Dolcino para empunhar as armas para se defender dos cruzados guiados por um homem de Novara (Noarese), em um contexto de carência de alimento e abundância de neve que determinarão a sua derrota. Armas, víveres, neve, novares são os termos por meio dos quais o poeta faz irromper a realidade contemporânea - ou melhor, a sua realidade - na sua fictio poética. Dolcino é um danado em potencial entre os cismáticos, e o horizonte é de sobrevivência militar. Dir-se-ia que os hereges não pertencem ao esquema escatológico de Dante: no IV círculo do Inferno, com Farinata dos Uberti e Cavalcante dos Cavalcanti, há aqueles que negam a imortalidade da alma (aqueles “que a alma do corpo morta fazem”, Inferno 10, 10-15) (Inglese, 2018b, p. 76-80).

Cabe ressaltar que a única recorrência na Comédia do termo hereges - no sentido de seguidor de doutrina herética - pode ser encontrada nos seis versos em que descreve a atividade de São Domingos, defensor da fé, através da imagem da água de uma fonte profunda que com ímpeto atinge os hereges (Paraíso XII, 97-103), sobretudo na Provença, onde a heresia era mais difundida e onde, de 1209 a 1229, acontecera a chamada cruzada contra os albigenses, ou seja, os bons cristãos dualistas (também chamados cátaros). Em geral, a referência à heresia se dá por meio da conhecida passagem evangélica da vinha e da raposa (Purgatório XXXII, 118-120), mas “Dolcino”, em todo caso, permanece como o único verdadeiro herege na Divina Comédia.5 Esse unicum não demandou uma reflexão crítica nos primeiros comentaristas, contribuindo para consolidar a imagem de “Dolcino” como guerreiro armado. Dolcino se torna famoso não tanto por uma escolha religiosa radical, mas por uma batalha militar que perdeu.

Se é verdade, como escrevia Niccolò Tommaseo, que o XXVIII canto do Inferno é um dos mais “densos de história” (Tommaseo, p. 568), o que Dante pretendia transmitir dessa “história” de Dolcino? Por que razão Dolcino é retratado de maneira positiva? Qual é o seu mérito? Por que ele quer salvá-lo? E por que motivo não há nenhuma alusão à Margareth, a sua companheira de vida religiosa, sempre ao seu lado nos comentários sucessivos, sobre quem recai o silêncio da ausência?

Racionalmente, o “esquema apocalíptico” (Inglese, 2018b, p. 55) operante na visão dantesca encontra uma concordância de ordem escatológica na elaboração profético-apocalíptica dolciniana da proposta de um esperado imperador. Não nos esqueçamos que Dante, na Monarchia, tratará da relação entre autoridade laica (imperador) e religiosa (papa) e, como relatam Boccaccio e o jurista Bertrando de Sassoferrato, a obra fora condenada à fogueira por heresia pelo cardeal Bertrando de Poggeto.6

Paradoxalmente, os versos de Dante são uma epígrafe sepulcral sobre a real experiência religiosa da congregação espiritual dos Apóstolos. A forma retórica da profecia post eventum indica, claro, um forte envolvimento do poeta nos fatos narrados,7 mas é importante reafirmar que Dante e Dolcino compartilham uma potente visão escatológica do presente: e essa pode ser a razão verossímil da “simpatia” de Dante.

De que maneira os versos dantescos são acolhidos por aqueles que imediatamente se dedicarão a comentar - e interpretar - a Comédia? Analisando a tradição dos comentários, assiste-se a um procedimento que se enriquece de notícias de modo cumulativo. Para compreender a aquisição e a inserção de dados históricos em uma tradição literária, para avaliar as dependências recíprocas e para alcançar uma maior consciência no uso das fontes, é oportuno se debruçar sobre os comentaristas mais antigos: sobre possíveis testemunhos diretos da relação entre história e literatura e do papel dos comentaristas na transmissão do caso dolciniano, porque a Comédia fascina - e educa - os gostos do público.8

Os filhos de Dante compartilham com o pai um desinteresse em relação aos hereges: não por acaso, o primeiro comentário que saiu da pena de Iacopo Alighieri, por volta de 1322, e o sucessivo, do irmão Pietro, são um tanto quanto lacônicos (Iacopo Alighieri, 1990, p. 197-198; Il «Commentarium», 1978, p. 383). Pelo contrário, é de se espantar que as glosas de Alberico de Rosciate, um importante jurista bergamasco, pertencente ao centro da vida política da sua cidade e ligado à cúria de Avignon, além de bom conhecedor dos fatos da própria terra, ignorem os versos sobre Dolcino.9 O bolonhês Graziolo Babaglioli, por volta de 1324, prolonga as suas glosas de comentário até o XXVII canto do Inferno, mas deixa de lado o episódio dolciniano.10 Iacopo della Lana, entre 1323 e 1328, se limita basicamente a parafrasear os versos dantescos e a definir Dolcino como “patarino” (Iacomo della Lana, 2009, p. 795). Até de quem se esperaria uma sensibilidade “profissional” para o problema da heresia tem-se uma desilusão: o frade menor e inquisidor Accorsio Bonfantini, titular do officium fidei fiorentino (de 1326 a 1329) e em seguida de Siena (1332-1333), se interessou pela Comédia, mas limitadamente à escolha dantesca de descrever “Dolcino” como guerreiro armado e de colocá-lo potencialmente entre os cismáticos no Inferno poético.11

Diferente - e enfim interessante - é o caso do frade Guido da Pisa, que, nas duas redações datáveis entre 1333 e 1340, mostra uma capacidade inabitual de contextualização e um conhecimento impregnado dos estereótipos difamatórios dos homens da Igreja. Em primeiro lugar, há uma referência pertinente ao ano 1300, quando, após a morte de Gherardo Segarelli, frater Dolcino Dolcino escrevera uma carta. A essa informação introdutoria, seguem os lugares comuns da polêmica anti-herege: Dolcino - “um grande cismático” (Guido da Pisa, 2013, p. 837) - seria um necromante que teria atraído junto a si clérigos e leigos; teria se autoproclamado papa e teria ordenado cardeais aos quais teria - segundo o habitual estereótipo da depravação sexual atribuída para os hereges - designado mulheres; os leigos administravam o dinheiro; além disso, teria absolvido dos pecados todos aqueles que iam até ele. A sua magia teria sido tal que não só impedia qualquer ser vivente de chegar aos montes para onde se retirara com os próprios seguidores (Guido da Pisa, 2013, p. 838), mas também transformava em couro as moedas de ouro com as quais pagava os seus soldados quando estes se decidissem a deixá-lo; por meio da magia podia afastar os exércitos inimigos; não obstante, atacava as vizinhanças, não por dinheiro, mas para obter trigo, vinho, azeite e outras coisas.

A transposição fabulosa do “mago Dolcino” faz surgir um plano de realidade imaginária - uma “moldura de magia” utilizada por quase todos os comentadores, como já apontado por Giovanni Miccoli (1956, p. 250) - e um posicionamento polemista, no qual o maravilhoso coincide com o mundo antagonista, fugidio e oculto dos hereges. Somente no final do comentário, frei Guido de Pisa faz um retorno ao dado factual positivo: Clemente V teria enviado à Itália o cardeal legado Napoleão Orsini, a quem é atribuído o sucesso da expedição, graças, também, à presença dos arqueiros genoveses, os quais efetivamente existiram (Segarizzi, 1907, p. XXVII-XXVIII). Pelo contrário, não se documentou o papel do cardeal Napoleão Orsini, envolvido em delicadas intervenções de caráter diplomático em contextos repressivos, mas que nem por isso fez uma cruzada contra Dolcino. A única fonte que fornece informações sobre a expedição armada - a Historia fratis Dulcini heresiarche - em relação ao cardeal Napoleão Orsini, se cala, e é muito provável que Guido de Pisa tenha confundido o papel de líder cruzado do cardeal com a sua participação em outras empreitadas militares.12

Em um âmbito narrativo em que os Apóstolos de Dolcino permanecem em um cenário desfocado, assume uma importância emblemática o testemunho anônimo definido como Ottimo Commento, escrito por volta de 1334, que dá uma informação sobre a morte de bem 22 dolcinianos em Pádua, um testemunho ligado à presença, na mesma cidade, de Boninsegna de Arco, irmão de Margareth, que, em 1307, os estudava.13 O eco da presença dolciniana teria sido duradouro se o frei da observância minorista, Bernardino de Siena, em um sermão em Pádua, em 1423, tivesse associado a imagem decadente de devassidão sexual a Dolcino, através da imagem da “seita do barril” (“setta del barilotto”) (Montesano, 1999, p. 118).

Até o Ottimo Commento não hesita em usar o topos difamatório da necromancia com a qual eram enganados “huomini et femine” para transformar - ou melhor, para distorcer - uma experiência religiosa também do ponto de vista lexical. Sobre isso, é oportuno fazer algumas reflexões. No Ottimo Commento, Dolcino seria um “irmãozinho” que vagara “na província de Veneza e da Lombardia”. Tal definição aparece também em Giovanni Villani: “não era frei ordenado de uma regra, mas irmãozinho sem ordem” (Villani, 1990, p. 169-170). Dolcino não era um “irmãozinho”: pertencia ao universo religioso dos pregadores itinerantes, dos profetas apocalípticos.

Há um contraste entre a utilização da expressão “frater Dulcinus” por parte dos primeiros comentaristas da Comédia e a retomada da repercussão dantesca “fra Dolcino”. É importante uma especificação lexical. Frater pode ser traduzido por frade/frei ou irmão, como soror em No século XIII florentino, a forma “frate” normalmente indica o homem de Igreja, mas em toda a produção dantesca há, sobretudo, o significado de irmão e é sempre em uma posição especial. No caso de Dolcino, temos um vocativo e, sem sombra de dúvida, o significado é de irmão (não de membro de uma ordem eclesiástica, ou seja, frei). A escolha de um dos dois termos, na tradução do latim para o italiano, muda as características de uma experiência religiosa: de uma congregação apostólica itinerante (frater/irmão) para uma ordem religiosa institucionalizada estabelecida (frater/frei). Não é uma mutação de pouca monta e acontece justamente quando se passa do latim para o vulgar: quem traduz faz uma “escolha” e cria uma “heresia”.

Voltemos ao Ottimo Commento, que associa o caso apostólico-dolciniano àquele dos irmãozinhos (reafirmada também por Benvenuto de Ímola e por Giovanni Villani): uma assimilação imprecisa e perigosa que não favorece a identificação de quem eram realmente os Apóstolos e qual era o seu horizonte religioso. Tais homologações lexicais agem sobre muitos níveis, confundindo os traços identificativos de uma realidade religiosa estruturalmente dinâmica e, portanto, dificilmente verificável e definível, sobretudo pela mentalidade jurídico-dogmática dos homens da Igreja, propensa a confundir os traços caracterizantes de cada heresia em esferas antagônicas. É emblemático, nesse sentido, o modo em que surgem as heresias - algumas inexistentes - na legislação anti-herética, por exemplo na Ad Abolendam, de 1184 (Benedetti, 2021, p. 21-41). Torna-se fundamental a análise do contexto documental de produção e de proveniência: a identidade atribuída na documentação judiciária (e pontifícia) pode se revelar, frequentemente, imprecisa, se não totalmente desvirtuada, assim como as fontes literárias (a Comédia de Dante e os seus comentários) introduzem termos não correspondentes à realidade dos fatos, como irmãozinho, necromante, patarino e cismático. A complexidade do horizonte terminológico cria um indivíduo que acumula múltiplas heresias.

Voltemos novamente ao Ottimo Commento, que se destaca também ao indicar a área de itinerância evangélica concentrada “na província de Veneza e da Lombardia”. Se a difusão na Lombardia é amplamente documentada, a “província de Veneza” é menos garantida. Na verdade, as reminescências documentais mostram como a ampla difusão da missão apostólica pareceria limitar-se àquela que poderíamos definir como a “linha do Lago de Garda”. A área da margem ocidental do lago atesta uma vitalidade que os comentaristas adotam e fazem circular de maneira repetitiva: nos montes de Brescia, Bergamo, Como e em Milão, segundo as palavras de Benvenuto de Ímola, se restringirá a Brescia, Bergamo e Como (Cristoforo Landino, 2001 p. 928), em que a supressão de Milão concorda como uma experiência de montanha muito mais que com uma “heresia citadina” (não temos nenhuma confirmação de Dolcino em Milão). A “linha do Lago de Garda” mostra uma difusão no interior montano do Garda - e particularmente em Cimego, no vale do rio Chiese -, enquanto sabemos que frei Baldrico de Brescia, um membro da direção apostólica, é originário de Toscolano, uma localidade às margens do lago.14 Percorrendo a orla do lago, chega-se a Riva del Garda e, um pouco mais para o interior, a Arco, onde a presença dos Apóstolos é confirmada pelo menos até 1331, como atestam os processos inquisitoriais remanescentes.

As informações transmitidas pelos comentaristas sobre a origem e formação de Dolcino, anteriores a 1300, data do mais antigo testemunho documental, parecem mais problemáticas. Se no Ottimo Commento, para garantir a veracidade da queima na fogueira dos 22 “irmãozinhos”, em Pádua, temos um testemunho ocular do anônimo glosador (“e eu que gloso, vi isso”), no caso de Benvenuto de Ímola, informações importantes teriam chegado de um testemunho oral, transmitidas por um parente próximo do médico de Dolcino, magister Rainaldo de Bergamo, que as narrara a Benvenuto, e que seria capaz até de dar uma descrição física do herege de Novara: um homem de “baixa estatura, de expressão alegre e querido por todos” (Benvenutus de Rambaldis de Imola, 1887, p. 362 e 359). O problema das origens de Dolcino permanece envolvido em lendas. O compilador anônimo da Historia fratris Dulcini heresiarche transmite uma informação destinada a uma fortuna historiográfica segura, até porque alcança a Practica inquisitionis de Bernard Gui: nesceu de um padre de Trontano, no vale de Ossola (Segarizzi, 1907, p. 4).

Benvenuto de Ímola dá uma versão aditional que o coloca no território de Romagnano e, mais precisamente, em Prato Sesia, onde corre o rio Sesia (Benvenutus de Rambaldis de Imola, 1887, p. 359). Com certeza Dolcino era de Novara, como confirmado pelo reconhecimento da forma Dolcino de Novara. Observe-se que essa expressão reflete uma escolha religiosa que não muda o nome de origem, como também no caso de Margareth de Trento, conhecida, ademais, como “a bela”. No estado atual nada se sabe “das suas origens além do local de nascimento”, como escrevia Giovanni Miccoli (1970, p. 535), ainda que a análise dos testemunhos, parece-me, não exclui a eventualidade de uma cautetosa integração complementar: caso tenha sido realmente filho de um padre de Trontano, no vale de Ossola, poderia ter vivido em Prato Sesia, entre Novara e Vercelli. Mas se trata somente de uma possibilidade. Benvenuto de Ímola dá outras informações: quando era criança teria sido mandado para Vercelli e lá criado por padre Augusto, na igreja de Santa Agnese, que o enviara para a escola do gramático magister Syon.15 A informação é verdadeira: a presença de um magister de gramática Syon em Vercelli é confirmada, vez que o testamento que ele queimou em 1290 sobreviveu (Colombo, 1896, p. 41-57).

Entre os antigos exegetas, Benvenuto de Ímola é aquele que dedica o maior espaço a Dolcino, além de escrever um excursus entre os mais ricos de todo o seu comentário, no qual, utilizando legendae cristãs circulantes sobre o nascimento do Islã, é feita até uma assimilação entre Dolcino e Maomé.16 Benvenuto de Ímola aplica a pena do contrapasso, descrevendo - pela primeira vez e de maneira totalmente anômala - as horríveis torturas que teriam dilacerado Dolcino publicamente, mas a isso se acrescentam outras informações que se tornam uma narrativa literária: os fatos históricos se projetam em literatura. Não por acaso Margareth - ausente nos versos dantescos e protagonista nos escritos dos comentaristas -, nas palavras de Benvenuto de Ímola, vem a ser uma mulher de “imensa beleza” e, além disso, de “grande riqueza”, até esposa do “doce Dolcino” (Benedetti, 2009, p. 129). Se Margareth é a única herege medieval de “imensa beleza”, nas palavras dos comentaristas, Dolcino é o único herege armado autorizado pelos versos de um poeta.

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ORIOLI, Raniero. «Venit perfidus heresiarca». Il movimento apostólico-dolciniano dal 1260 al 1307. Roma: Isime, 1988.

PAOLAZZI, Carlo. Dante e la «Comedia» nel Trecento. Milano: Vita e Pensiero, 1989.

PETOLETTI, Marco. «Ad utilitatem volentium studere in ipsa Comedia»: il commento dantesco di Alberico da Rosciate. Italia medioevale e umanistica, Roma, v. 38, p. 141-216, 1995.

PIETRO ALIGHIERI. Il «Commentarium» di Pietro Alighieri. Ed. Roberto Della Vedova e Maria Teresa Silvotti. Firenze: Leo S. Olschki Editore, 1978.

SEGARIZZI, Arnaldo. Historia fratris Dulcini heresiarche di Anonimo sincrono e De secta illorum qui se dicunt esse de ordine Apostolorum di Bernard Gui. In: SEGARIZZI, Arnaldo. (ed.). Rerum Italicarum Scriptores. Città di Castello: S. Lapi, 1907. v. 9, t. 5.

SERIACOPI, Massimo. Graziolo dei Bambaglioli sull’«Inferno» di Dante. Una redazione inedita del commento volgarizzato. Reggello: FirenzeLibri, 2005.

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WILSON, Robert. Prophecies and Prophecy in Dante’s Commedia. Firenze: Leo S. Olschki Editore, 2008.

Notes

1 Especificamente sobre Dolcino, ver Merlo (2011, p. 129-138); de caráter enciclopédico e combinatório, mas sempre muito útil, é Orioli (1988). Ainda que Dolcino seja ignorado, o tema da heresia em Dante teve um certo sucesso nos últimos anos: Il mondo errante (2013); Dante and Heterodoxy (2014); Ortodossia e eterodossia in Dante Alighieri (2014) Falzone (2018, p. 43-72).
2 A produção historiográfica sobre Dolcino foi reconstruída nas resenhas de Miccoli (1956, p. 245-259) - agora presente em Arsenio Frugoni, Arnaldo da Brescia, Giovanni Miccoli, Fra Dolcino (Mores, 2017, p. 81-111) - e Merlo (1974, p. 701-708). A tradição manuscrita e as fontes são estudadas em Benedetti (2009, p. 339-362).
3 Sobre o tema do casal nas experiências religiosas hereges, ver Benedetti (2016, p. 87-103).
4 Observa-se como o episódio central do confronto armado (Or di a fra Dolcin dunque s’armi) se enfraquece na tradução em português (“A Frei Dolcino diz, pois não findaram”), perdendo o sentido profundo do caso dolciniano para Dante, através da imagem das armas - A Frei Dolcino diz, pois não findaram/Teus dias e hás de ao sol tornar em breve,/Se desejos de ver-me o não tomaram,/Que se aperceba; pois, cercando-o, a neve/Dará triunfo à gente de Novara,/A quem vencê-lo assim há de ser leve - (Alighieri, 2020, p. 192).
5 Sobre esse tema, ainda é útil Tocco (1899), a ser integrado com Manselli (1970, p. 719-722). Em relação ao contexto religioso, ver Merlo (2013, p. 229-241) e, com alguns deslizes sobre o contexto histórico pela utilização de uma bibliografia nem sempre atualizada com o debate hagiográfico, ver Lombardo (2018, p. 37-79).
6 O cardeal toma somente o terceiro livro do tratado, em que se discute sobre as relações entre o papado e o império. Não se tratara de um processo inquisitorial verdadeiro e próprio, mas de um gesto político teatral e simbólico, entre os anos 1329 e 1330 (Maccarrone, 2011, p. 65-69).
7 Sobre as profecias post eventum ver Wilson (2008, p. 197-207), especificamente sobre Dolcino (2008, p. 63-65).
8 Há mais de um século, Arnaldo Segarizzi inaugurara esse tipo de análise (Segarizzi, 1907, p. VII-XII).
9 Sobre a obra e sobre o autor, ver Bellomo (2004, p. 53-60) e Petoletti (1995, p. 141-216).
10 Sobre o qual se pode ver em Seriacopi (2005).
11 Para uma análise do comentário, ver Corrado (2012, p. 237-264); sobre o inquisidor, ver Benedetti (2021, p. 121-125).
12 Sobre o papel de Napoleone Orsini - «o personagem eclesiástico mais importante em uma Itália entra privada de pontífice, como deus ex machina de um caso herege» - ver Orioli, (1988, p. 268 e 276-277). Sobre o prosseguimento do seu compromisso diplomático na Umbria, ver Brufani (1989, p. 32-33 e 43); Benedetti (2010, p. 708); Danelli (2018, p. 172-188).
13 Sobre esse episório, ver Benedetti (2011, p. 529); existem diversas redações do texto (Amico dell’Ottimo, 2018, p. 235; Ottimo commento alla Commedia, 2018, p. 590).
14 A identificação de Baldrico de Brescia com Baldrico de Toscolano e a valorização dos territórios da margem ocidental do lago de Garda, ver em Benedetti (2010, p. 152-163); sobre a expansão dos Apóstolos, Cf. Orioli (1988, p. 289-299).
15 «Infantulus venit Vercellas; ibi nutritus in ecclesia sanctae Agnetis iuxta portam Sarvi fluvii in quem intrat Siccida sub presbitero qui vocatus est Augustus, qui eum misit ad scholas sub magistro Syon professore grammaticae» (Benvenutus de Rambaldis de Imola, 1887, p. 359).
16 Sobre esses temas v. Fiorentini, 2016, p. 586, 566-594; especificamente sobre Maomé, v. Ciccuto, 2013, p. 257-266.

Author notes

*E-mail: marina.benedetti@unimi.it



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