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O herói Che: gênero, fotografia e revolução cubana1
Andréa Mazurok Schactae
Andréa Mazurok Schactae
O herói Che: gênero, fotografia e revolução cubana1
Che, the hero: Gender, photography and Cuban revolution
Anos 90, vol. 29, e2022209, 2022
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em
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RESUMO: A Revolução Cubana tende a reafirmar o espaço público como pertencente aos homens, especialmente aos heróis, que representam um ideal de masculinidade viril. Entre os heróis da Revolução Cubana (1956-1959) que inspiraram a internacionalização desse ideal masculino revolucionário na América Latina está Ernesto Che Guevara. O nascimento do mito Che Guevara é parte da construção das narrativas sobre a Revolução Cubana. Após a sua morte, em 1967, ele foi constituído na encarnação do homem novo, revolucionário, viril, heterossexual, para além das fronteiras cubanas. Tendo-se isso em vista, o objetivo deste artigo é analisar, a partir da categoria gênero, a construção do herói Che por meio das fotografias publicadas na edição especial de outubro de 1967 da revista Bohemia, dedicada a ele. Tal proposta de análise permite dialogar com a história política, bem como compreender as imagens fotográficas como construtoras de uma narrativa biográfica, a qual foi construída pelo Estado cubano.

Palavras-chave: Che Guevara, revolução cubana, masculinidade, fotografia e história, gênero.

ABSTRACT: The Cuban Revolution tends to reaffirm the public space as belonging to men, especially to the heroes, who represent the ideal of virile masculinity. Among the heroes of the Cuban Revolution (1956-1959) who determined the internationalization of this revolutionary male ideal in Latin America, there is Ernesto Che Guevara. The birth of Che Guevara myth is part of the construction of narratives about the Cuban Revolution. After his death, in 1967, he became the incarnation of the heterosexual virile revolutionary new man, even beyond the Cuban borders. Therefore, the aim of this article is to analyze the construction of the hero Che in the photographs published in the special edition of the Cuban magazine Bohemia, dedicated to Che, in October 1967. The analysis of Ernesto Che Guevara’s photographic images published in this magazine, based on the gender category, allows us to establish a dialogue with political history, as well as to analyze photographic images as the builders of a biographical narrative, which is constructed by the Cuban state.

Keywords: Che Guevara, cuban revolution, masculinity, photography and history, genre.

Carátula del artículo

História da (s) sexualidade (s) na América Latina: séculos XIX e XX

O herói Che: gênero, fotografia e revolução cubana1

Che, the hero: Gender, photography and Cuban revolution

Andréa Mazurok Schactae
Instituto Federal do Paraná, Brasil
Anos 90, vol. 29, e2022209, 2022
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em

Received: 01 December 2021

Accepted: 05 June 2022

INTRODUÇÃO

A Revolução Cubana possibilita uma reflexão sobre o que Eric Hobsbawm (1997) conceitua como a invenção das tradições.2 E um rápido olhar para a historiografia permite perceber indícios do processo de invenção da baliza temporal que a define. Para Aviva Chomsky (2015), a Revolução Cubana começou em 1959 e segue até os dias atuais. Todavia, para outros historiadores o início da Revolução ocorreu em 26 de julho de 1953, com a ação no Quartel Moncada, porém suas origens estão no século XIX, nas guerras pela Independência de Cuba (AYERBE, 2004; LÓPEZ; LOYOLA; SILVA, 2005; LÓPEZ SEGRERA, 2012).

Outro debate presente na historiografia é sobre a atuação da guerrilha no processo revolucionário. Observa-se uma tendência a reproduzir o discurso oficial, que a coloca no centro desse processo, na década de 1950. Contudo, as autoras Aviva Chomsky (2015) e Lorraine Volo (2018) indicam que foram os movimentos urbanos os decisivos para as ações de oposição à ditadura de Fulgencio Batista (1952-1959). Porém, existe uma tendência ao silenciamento sobre a atuação das mulheres em tais movimentos, embora a memória sobre as guerrilheiras que constituíram o Pelotón Mariana Grajales, um grupo que atuou na guerra, na região oriental de Cuba, tenha mais presença na historiografia (VOLLO, 2018; SCHACTAE, 2016).

No início do século XXI, são publicados os primeiros estudos historiográficos sobre a Revolução Cubana, a partir de uma perspectiva de gênero. Entre os primeiros escritos, está o estudo de Abel Sierra Madero (2006) sobre a sexualidade na construção da nação cubana, no qual o autor analisa os discursos do século XIX e do século XX, destacando que, nos anos de 1960 e 1970, o texto “Homem novo”, de Ernesto Guevara, publicado em 1965, foi uma referência para construção de uma masculinidade nacional heteronormativa. Entre os estudos recentes, estão as reflexões das heroínas e o Estado patriarcal cubano de Lynn Stoner (2003), o livro de Lorraine Bayard de Volo (2018) e a publicação da Radical history review, no ano de 2020. O livro é um estudo da Revolução Cubana, a qual ela identifica como uma insurreição, a partir de uma análise de gênero (VOLO, 2018), e a coletânea de textos publicados na Radical history review apresentam novos olhares sobre a Revolução Cubana a partir das categorias sexualidade e gênero, problematizando o internacionalismo cubano, o transnacionalismo, a nova esquerda, movimentos anticoloniais e as influências da Revolução Cubana nos contextos atuais (CHASE; COSSE, 2020). Entre os estudos realizados no Brasil, estão os estudos de Andréa Schactae (2013; 2016) sobre o ideal de feminino, construído pela Revolução Cubana, e presentes nas publicações do Estado Cubano sobre o Pelotón Mariana Grajales e a heroína Célia Sánchez, e de Igor M. Pereira (2014) que aborda a identidade nacional em uma perspectiva de gênero.

Considerando-se essas diferentes leituras, é possível problematizar a existência de múltiplas Revoluções Cubanas e entre elas está a Revolução da Guerrilha, a qual permite a invenção dos heróis guerrilheiros, cujo discurso oficial coloca como herdeiros dos homens que combateram nas guerras de Independência de Cuba, no século XIX. Portanto, este artigo voltará o olhar para a construção do mito do herói guerrilheiro pelo Estado Cubano, tomando como foco as fotografias de Ernesto Che Guevara, que constituem a edição especial da revista Bohemia, n. 42, publicada em 20 de outubro de 1967. Vale informar que a publicação mencionada se constitui em uma das vozes oficiais do Estado Cubano, e a partir da década de 1960 ela passou a ser um dos órgãos oficiais de circulação de informações do governo revolucionário. O periódico semanal que circulou pela primeira vez em 1908 em Cuba, e a partir de 1959 passou a integrar os órgãos de comunicação do denominado Estado Revolucionário Cubano. A revista é uma publicação semanal, composta por notícias sobre diferentes temas (política, esportes, ciência, artes, cinema) nacionais e internacionais, também contém charges, fofocas de celebridades, entre outras informações e imagens. Nos anos de 1940 e 1950, segundo Patricia González (2014), a revista circulava em todo o território cubano e em outros países da América Latina, com uma tiragem de 300 mil exemplares semanais.

Considerando o tempo de existência do periódico, a circulação nacional e internacional, ele possuía o poder simbólico necessário, junto a população cubana, para legitimar a construção de narrativas sobre o processo de luta armada na década de 1950, bem como para construir a revolução simbólica. A publicação selecionada é uma homenagem do Estado Cubano para um dos heróis da Revolução e pode ser considerada como a primeira biografia de Ernesto Che Guevara. A edição é composta de vários textos, escritos por diferentes autores, entre os quais Fidel Castro, bem como por um conjunto de fotografias, publicadas ao longo da edição.

O número escolhido é analisado como fundador do mito Che, pois possui 114 páginas, mais um suplemento com 17 páginas, totalizando, assim, 131 páginas, nas quais foram publicadas, ao todo, 70 fotografias de Ernesto Che Guevara e 41 outras, sem a presença do líder revolucionário. As narrativas construídas pelos textos escritos e pelas fotografias foram legitimadas pela tradição da Revista Bohemia no processo de invenção do mito Che.

Quanto ao design gráfico do periódico, deve-se destacar que, com exceção da capa, que é colorida, todas as demais páginas são em tons de preto e branco. Os textos são impressos em letras pequenas, equivalentes à fonte Times New Roman, tamanho 9 ou 10. O que chama a atenção do leitor são os títulos das matérias, com letras grandes, e as imagens (fotografias), em diferentes tamanhos e dispostas ao longo de todo o periódico.

Observando as matérias que formam a revista, embora essas não sejam objeto de análise nesse momento, verifica-se a existência de sete textos escritos por Ernesto Che Guevara, além da sua carta de despedida, dirigida a Fidel Castro, escrita em 1965, a qual figura na primeira página. Nas páginas seguintes estão dois textos de Ernesto Che Guevara e a transcrição de um dos seus discursos, sem data, no qual ele escreveu sobre José Martín, intelectual cubano e herói da Independência de Cuba, que morreu na guerra, em 1895. Mantendo o olhar ao longo do periódico, identificam-se outros 15 textos, assinados por diferentes autores, e a transcrição de dois discursos de Fidel Castro, o primeiro realizado em 15 de outubro de 1967, na televisão e no rádio, no qual ele informa o povo cubano sobre a morte de Ernesto Che Guevara e declara a criação do Día del Guerrillero Heroico, a ser comemorado no dia 8 de outubro. E o segundo foi realizado na Plaza de la Revolución, na cerimônia fúnebre. Estes discursos são compostos por 19 fotografias e somam 32 páginas.

Por motivo de espaço, decidiu-se delimitar a análise às imagens fotográficas presentes na publicação de 20 de outubro de 1967 e entre elas foram selecionadas aquelas que permitem ao leitor perceber a construção do herói Che. O foco de análise são as fotografias percebidas como fundadoras da imagem e do mito Che. A escolha das fotografias como documentos (KOSSOY, 2001; MAUAD, 1996; STANCIK, 2014; 2015) para a construção da análise é justificada pela importância que as imagens ocupam na construção da edição selecionada, assim como pelo poder que as imagens exercem no campo da política e das relações de gênero na sociedade contemporânea. Nas redes sociais e nas mídias digitais as imagens influenciam as construções generificadas, que orientam a construção de subjetividades e de símbolos. Voltar o olhar para o passado permite problematizar as construções generificadas do presente, entre as quais os ideais de masculinidades incorporados por alguns líderes políticos da atualidade. Como por exemplo os calendários com fotos do presidente russo Vladimir Putin são um indicativo da importância da análise de fotografias como fontes para os estudos de gênero e política.

As imagens fotográficas selecionadas são percebidas como constituintes de uma memória e de uma identificação do herói. O conjunto fotográfico apresenta uma narrativa biográfica que dialoga com os textos escritos, mas também pode ser lido como um texto constituído por imagens. Portanto, a inovação proposta neste artigo é a construção de uma reflexão sobre a invenção do mito, em diálogo com a história política e os estudos de gênero, a partir da análise de um conjunto fotográfico, o qual é identificado como uma biografia fundadora do mito Che e de um símbolo da Revolução Cubana. O resultado da narrativa construída pelas fotografias em questão é o mito Che Guevara e a sua subsequente legitimação como herói nacional em Cuba. Trata-se, portanto, de uma narrativa que inventa um mito e também legitima um Estado que se constitui como revolucionário.

Portanto, volta-se o olhar para a invenção do guerrilheiro, do mito e da masculinidade revolucionária em Cuba, na década de 1960, por meio de uma análise da biografia fotográfica de Ernesto Che Guevara, tal como construída pela revista Bohemia, na edição de 20 de outubro de 1967. Trata-se de uma narrativa biográfica (DOSSE, 2009; BOURDIEU, 1996), constituída pelas fotografias e figuras, que permite um diálogo com a história política (GIRARDET, 1987; HOBSBAWM, 1997; RÉMOND, 2003; SCOTT, 1994), utilizando o gênero como categoria de análise (SCOTT, 1995) e a fotografia como fonte (KOSSOY, 2001; MAUAD, 1996; STANCIK, 2014; 2015). Para se analisar as fontes e dialogar com a história política e a categoria gênero, são fundamentais os conceitos de virilidade (COURTINE, 2013), masculinidade hegemônica (CONNELL; MESSERSCHMIDT, 2005; CONNELL, 1997; 2005), invenção das tradições (HOBSBAWM, 1997) e mito político (GIRARDET, 1987).

Nascido na Argentina em 14 de junho de 1928 e assassinado no dia 9 de outubro de 1967, aos 39 anos, Ernesto Guevara de la Serna tornou-se Ernesto Che Guevara durante o conflito armado em Cuba, na segunda metade dos anos 1950 (ANDERSON, 2012), e foi transformado em um dos símbolos da Revolução Cubana. Ao longo da década de 1960, também se tornou uma referência para a esquerda no Ocidente. Atualmente, além de ser reconhecido como herói e mito, em Cuba e outros países latino-americanos, também é identificado como um santo na Bolívia, o “Chesucristo” e “Santo de los Pobres” (ALVIZURI, 2012, p. 147).

O mito Che: a virilidade fundadora de uma nova identidade nacional/internacionalista

A construção do guerrilheiro, que faz parte da invenção da Revolução Cubana - ou de uma das Revoluções Cubanas -, é também um processo de invenção de uma virilidade, que tende a definir um ideal de masculinidade que extrapola as fronteiras nacionais de Cuba. Trata-se de um ideal dotado de um núcleo identificador que é herdeiro de uma cultura ocidental, de longa duração, a qual tende a naturalizar a relação entre o poder do Estado, a masculinidade e a virilidade.

Historicamente, existe um tendencia a construir os heróis nacionais como modelos de masculinidade hegemônica (CONNELL; MESSERSCHMIDT, 2005; CONNELL, 2005). As características que os identificam são construções simbólicas, que são adaptadas às necessidades apresentadas pelo presente e tendem a reproduzir um ideal de masculinidade. Enquanto para as heroínas nacionais é construído um modelo de feminilidade que tende a apresentar características vinculadas à maternidade e a santidade, portanto à esfera privada, além da força, da coragem e do combate, características que historicamente são percebidas como pertencentes ao modelo masculino, que está ligado à esfera pública e às armas.

A Revolução Cubana resgatou a figura da Mambisa, conforme destaca Lynn Stoner (2003, p. 92), construindo a imagem das mulheres guerreiras e servindo para legitimar o poder masculino. A lealdade e adoração das mulheres constituem as guerilheiras. Mulheres dispostas a morrer pela nação e pelo líder guerrilheiro.

Nos anos de 1980, quando foi publicada a primeira biografia da guerrilheira Célia Sanchez, falecida em 11 de janeiro, a guerrilheira ganhou um lugar entre as heroínas da nação. A transformação de Célia em heroína e símbolo da Revolução Cubana deu ao logotipo da Federação de Mulheres Cubanas (FMC) - a guerrilheira mãe - um corpo. Célia se tornou o símbolo de um ideal de feminilidade, que unifica o cuidado e o combate, isto é, ela encarna a figura da guerrilheira mãe. Rompendo com o modelo da heroína mãe, até então encarnado na figura de Mariana Grajales, mãe do Coronel Maceo, um dos líderes da Independência de Cuba (1868-1898) (SCHACTAE, 2016).

Em seus estudos sobre masculinidade hegemônica, R. Connell (1997), observa que o Estado e as instituições armadas possuem um aparato simbólico identificador de um ideal de masculinidade. Um modelo que não é fixo e nem imutável, mas está vinculado a posições de poder e tende a ser reproduzido, o qual é constituído por características que relacionam heranças culturais históricas e adaptações necessárias ao presente. A força, coragem, bravura, liderança, combatividade, lealdade e heterossexualidade são algumas características viris identificadoras de masculinidade hegemônica constitutivas um herói guerreiro.

A virilidade para Alain Corbin (2013) e Jean-Jacques Courtine (2013) é um ideal de qualidades que determinam o que é ser viril e que são reconstruídas ao longo do tempo. O ideal viril de uma sociedade militar é diferente daquele de uma sociedade mercantil, porém ambos são marcados por valores como coragem, força e domínio sexual. Portanto, a virilidade é “o conjunto de papéis sociais e dos sistemas de representações que definem o masculino e também o feminino e não pode se reproduzir, enquanto tais, senão se a hegemonia virial aparecer como pertencente à ordem natural e inelutável das coisas” (COURTINE, 2013, p. 8). A virilidade, isto é, as características identificadoras do viril, em diferentes momentos históricos, orientam a invenção dos heróis e de algumas heroínas, legitimando ideais de masculinidade e de feminilidade.

A trajetória de Ernesto Guevara antes de ir para Cuba e o nascimento de Che Guevara, em Cuba, nos anos de 1959, permitem a construção de uma narrativa biográfica composta por acontecimentos e práticas - viagens, luta armada, produção intelectual, amizades, casamento, paternidade -, que podem ser identificados como definidores de um ideal de masculinidade viril. O poder político e o domínio das armas e das letras são âmbitos de poder simbólico (BOURDIEU, 1998). Na história ocidental são considerados principalmente de domínio masculino. A construção de um herói é um processo de encarnação do poder simbólico em uma face reconhecida e capaz de legitimar um ideal político de masculinidade.

Assim, a trajetória Ernesto Guevara, a herança cultural ocidental e contexto político em Cuba contribuem para a invenção do mito Che, que é parte do processo de construção do Estado Revolucionário, em Cuba, marcado pela criação de diversas instituições3 e políticas públicas, entre os anos de 1960 e 1975. Ao mesmo tempo que se formavam as bases administrativas do poder estabelecido, eram inventados os símbolos identificadores da revolução, bem como foi elaborado um calendário de comemorações4. Nesse contexto, o Estado constituiu uma narrativa sobre uma História da Revolução, de acordo com a qual foram definidos os heróis e as heroínas5, bem como os acontecimentos e as memórias que passaram a dar sentido e legitimar a revolução simbólica. A guerrilha e a virilidade guerrilheira são projetadas como ideais revolucionários e também como símbolos que legitimam o processo político.

O guerrilheiro herói, Ernesto Che Guevara, foi constituído para encarnar e legitimar a Revolução da Guerrilha e o ideal internacionalista. As primeiras fotografias da revista compõem o primeiro texto do periódico (Figura 1), o qual é um texto reproduzido de Ernesto Che Guevara, com o título: Nuevos gritos de guerra y de Victoria (BOHEMIA, 1967, p. 4), -publicado pela primeira vez em 18 de abril de 1967, na revista Tricontinental, outro periódico do Estado Cubano. A relação entre o título e as fotografias marca o início da construção dos símbolos de um ideal de masculinidade viril e se constituem em identificadores do herói e da Revolução Cubana. A guerra e a vitória são projetadas para além das fronteiras de Cuba, e o Che é apresentado como o homem guerreiro e intelectual que guia o povo para vitória.


Figura 1.
Página em que aparece as primeiras fotografias do Che.
Fonte: BOHEMIA (1967, p. 05).

As palavras do herói aparecem junto com as fotografias (Figura 1) e podem ser percebidas como uma voz que vem revelar o caminho. Portanto, as palavras escritas ou faladas por Che Guevara constituem-se em uma característica identificadora do herói, bem como tendem a ser um poder de homens, no espaço da política. Ao observar essas fotografias, percebem-se alguns símbolos de masculinidade viril: o charuto, a barba, o livro, a boina, a farda e a arma, bem como são apresentados três momentos diferentes, vividos pelo fotografado, em Cuba, isto é, a sua atuação na guerrilha, antes de receber a boina de comandante guerrilheiro; usando a boina de comandante e atuando na organização do Estado após a vitória do movimento rebelde; e disfarçado como Adolfo Mena González, em 1966. A fotografia que se destaca está na parte superior da página e à direita, ocupando um lugar de proeminência na página, bem como figuram alguns símbolos: a boina, o charuto, a barba, a vestimenta militar e o texto.

As faces reveladas nas primeiras páginas são historicamente relacionadas como identificadores de masculinidade e poder - guerra, Estado e escrita. Também são reveladoras da atuação do fotografado nos espaços da política e da guerra, em Cuba e para além das suas fronteiras. Estratégias gráficas que revelam as virtudes do herói também estão destacadas nas citações que figuram como a fala de Che ao povo. Portanto, a publicação se constituiu como reveladora da fala de Che, que utiliza pequenos textos para construir o mito e uma narrativa sobre a revolução. E a fala inicial de Che ao povo, que diz: “qué importan los peligros o sacrificios de un hombre o de un pueblo, cuando está en juego el destino de la humanidad” (BOHEMIA, 1967, p. 5), legitima a virtude viril do sacrifício e o projeto internacionalista. Vale indicar que, ao publicar pequenos textos ou os títulos das matérias com letras grandes, o editor busca direcionar a leitura, conforme destaca Burke (2004), em suas análises sobre história e imagem.

Portanto, as fotografias e a voz inicial do herói (presentes no texto identificado com o nome “Che”) indicam o internacionalismo como uma virtude identificadora do herói e, portanto, da Revolução Cubana. Um conjunto que transmite a ideia de que ele foi capaz de sacrificar a vida para salvar a humanidade, atualizando uma herança cultural e histórica cristã, na qual um homem é identificado como o salvador da humanidade.

Essa herança universalista cristã e a narrativa construída sobre o Che são legitimadas por eventos que constituem a trajetória de Che Guevara. Os fatos de ser argentino e ter viajado pela América Latina (ANDERSON, 2012) antes de chegar em Cuba, corroboram para a projeção internacional de Ernesto Che Guevara, a qual tornou-se significativa com a vitória do movimento que se identificou como revolucionário, no ano de 1959, e está vinculada à concepção e construção do Estado Cubano Revolucionário. Foi um processo marcado pela reorganização do Estado, com a implantação de diversas políticas, e pelas viagens realizadas por ele como representante do Estado Cubano. Entre as políticas que ecoaram, para além das fronteiras nacionais, estão: a nacionalização de empresas estrangeiras, a reforma agrária, a alfabetização, os tribunais revolucionários (nesses tribunais foram julgados aqueles identificados como opositores ao regime, e muitos foram condenados ao fuzilamento) (PRADO, 2016; VASCONCELOS, 2015; CHOMSKY, 2015; LÓPEZ; LOYOLA; SILVA, 2005; AYERBE, 2004) e a criação das “Unidades Militares de Ayuda a la Producción (UMAP)” (SIERRA MADERO, 2006, p. 197), em 1965, para onde foram enviados homossexuais e outros sujeitos identificados como contrarrevolucionários.

Como consequência, em 8 de agosto de 1960, Ernesto Che Guevara foi capa da revista Times. No Brasil, no mês de agosto de 1961, os jornais Folha de S. Paulo e O Estado de São Paulo publicaram críticas à atuação de Ernesto Che Guevara pela sua participação no Conselho Interamericano Econômico e Social, ocorrido no Uruguai. Além disso, a imprensa brasileira criticou a vinda dele ao Brasil (MOLON, 2006)6, onde foi condecorado com a Ordem do Cruzeiro do Sul pelo Presidente Jânio Quadros. Vale informar que a homenagem prestada pelo governo brasileiro foi uma decisão influenciada pelo Presidente Kennedy e pelo Vaticano (BEZERRA, 2012). Em 1965, Ernesto Che Guevara publicou no Uruguai o texto O socialismo e o homem em Cuba (GUEVARA, 1965). Esse texto se tornou uma referência para a construção de uma narrativa sobre a Revolução Cubana, a qual também constitui um ideal de masculinidade viril. A relação entre a Revolução e um ideal de masculinidade viril é percebida no processo de construção do mito Che Guevara, o qual passou a orientar a construção do “homem novo” (GUEVARA, 1965), em Cuba. O internacionalismo foi apresentado como uma virtude desse homem novo e se constitui em uma característica da virilidade guerrilheira.

Uma virilidade presente na construção do mito e legitimada por uma memória, da trajetória e das experiências vivenciadas pelo homem Ernesto Rafael Guevara de la Serna, a qual é constituída pela significação das suas viagens, por suas publicações, sua atuação no Estado Cubano, sua vida privada e a sua morte em combate na Bolívia. Essa trajetória, permite a construção de uma narrativa biográfica (BOURDIEU, 1996) que legitima o guerrilheiro, o intelectual e o político internacionalista, faces do herói viril que ocupa o espaço público e torna-se uma personalidade latino-americana. Portanto, algumas experiências vividas por ele fornecem elementos simbólicos que legitimam a construção do mito, pois, conforme destaca J. Huizinga (1971), a ideia de virtude remete ao fazer e em “muitas línguas a palavra que designa a virtude derive da ideia de masculinidade ou virilidade” (p. 72). Em um contexto histórico no qual as relações internacionais são parte dos Estados, um homem virtuoso deve ter a capacidade de construir laços internacionais.

Esse atributo internacionalista, construído em torno do mito Che Guevara, também foi projetado na última página da edição já mencionada da revista Bohemia. Um trecho do seu célebre discurso, pronunciado na ONU, que foi reproduzido junto com a sua fotografia, contribuiu para legitimar a construção da característica do herói abnegado, disposto a doar a vida em defesa das nações (Figura 2). A relação entre o lugar onde o discurso foi pronunciado, o conteúdo presente no fragmento selecionado e a fotografia resulta em uma narrativa que projeta o mito político para além das fronteiras de Cuba. A luta armada, a política e o discurso, espaços de poder masculino e de legitimidade de virilidade são percebidos como construtores do mito do herói salvador e de um modelo de homem a ser seguido, dialogando com as reflexões de R. Girardet (1987) sobre a construção do mito político, e também são construções generificadas, apropriando-se de J. Scott (1995), pois são espaços simbólicos que legitimam o poder do Estado e orientam as escolhas individuais e coletivas.

Nesse sentido, a invenção do mito Che Guevara é também um processo de reconstrução da identidade nacional em Cuba, ligado à construção do socialismo cubano e do Estado Revolucionário. O mito se configura na encarnação do homem novo, internacionalista, heterossexual e viril. Para Abel Sierra Madero (2006) o hombre nuevo, de Ernesto Guevara, publicado em 1965, estabelece, uma nova cidadania, marcada por um ideal de masculinidade. Todavia, em 1967, a morte de Che Guevara impulsionou a projeção desse ideal e de um modelo de socialismo para além das fronteiras de Cuba, e a última imagem da revista Bohemia de 20 outubro de 1967 sugere uma estratégia nesse sentido, ao publicar um fragmento da fala de Guevara na ONU (Figura 2), juntamente com seu retrato.


Figura 2.
Fotografia de Che Guevara na ONU.
Fonte: BOHEMIA (1967, p.114)

O uso da fotografia de retrato (Figura 2 e Figura 3) é uma estratégia que unifica imagem e texto. Como a imagem exibe o retratado olhando para a frente com os lábios entreabertos, o herói é apresentado como se estivesse novamente falando para o povo da América Latina, considerando-se ainda que, no discurso, ele assume a identidade de argentino, cubano e de todos os países da América Latina. Ele é projetado como a encarnação do herói-guia, aquele que consegue observar o futuro e, portanto, deve ser ouvido. Além do mais, conforme destaca R. Hertz (1980), em seu livro A preeminência da mão direita, publicado em 1911, ao longo dos séculos, a cabeça é percebida como a parte superior do corpo, portanto é o lugar de poder, símbolo de honra e nobreza. Essa herança histórica e cultural de longa duração está presente na escolha de fotografias de retratos, as quais foram escolhidas para veicular imagens que sugerem a figura do herói guia e salvador, pois ele também é identificado como intelectual. Dessa forma, o destaque para os retratos legitima o poder simbólico do guia: a cabeça, que fala e olha para o passado e para o futuro.

A construção de um herói nacional e transnacional é percebida pela seleção de fotografias publicadas ao longo da revista. Elas constroem uma narrativa que pode ser lida, independente das matérias, de modo que os títulos das matérias e as legendas das figuras, por si sós, elaboram o mito e tornam o herói um modelo. As fotografias são, assim, apresentadas como uma objetivação da trajetória de Che Guevara, portanto, são percebidas pelos leitores como representações de uma realidade, como provas de uma verdade. Conforme destaca Boris Kossoy (2001), a fotografia tem a pretensão de provar a verdade sobre o passado. No caso de Cuba, um passado construído por homens brancos, viris e herdeiros de uma tradição religiosa cristã, o qual é encarnado em um homem, constituído em um símbolo de poder e masculinidade.

A construção do Guerrilheiro Heroico: o mito e o humano

A construção da capa projeta a ideia de que o herói fala a través da publicação. O retrato que estampa a capa da revista (Figura 3) denota que o herói está falando. E para ouvi-lo, é preciso ler a revista.

Certamente, a capa colorida terá marcado a memória do leitor, por duas razões. A primeira é que essa é a única imagem impressa em cores da revista, pois todas as demais imagens são estampadas em preto e branco. A segunda razão é que o retrato da capa estabeleceu um padrão que tenderia a se repetir nos outros retratos publicados ao longo dessa edição, isto é, o do herói que olha adiante, usa barba e veste a farda verde-oliva do Exército Rebelde. A existência da cor legitima a sua ligação com a instituição armada (Figura 3), mas também reproduz um ideal de poder, projetando a imagem de um homem branco, heterossexual, viril e militar.


Figura 3.
A capa.
Fonte: BOHEMIA (1967).

Assim, observa-se que se estabelece uma sequência de acontecimentos coerentes, narrados pela distribuição das fotografias na revista, capazes de construir uma narrativa biográfica (BOURDIEU, 1996), isto é, a narrativa que dá existência ao fotografado, o Herói Che: “tudo leva a supor que a história de vida mais se aproxima do modelo oficial da apresentação oficial de si” (BOURDIEU, 1996, p. 80). É necessário observar o que está em jogo na construção da narrativa. No caso em análise, o que está em jogo é a construção de um herói e de um mito, símbolo para a Revolução Cubana, que busca legitimidade.

Conforme destaca Márcio Sônego, o olhar, a atitude, os gestos e os elementos que compõem a cena na qual está a pessoa fotografada expressam relações de poder (SÔNEGO, 2010). Observando as imagens anteriores (Figuras 1, 2 e 3), elas podem ser percebidas como reveladoras de experiências e símbolos de poder, que constituem o Guerrilheiro Heroico, criado por Fidel Castro, em outubro de 1967.

Então faltava uma imagem para encarnar o guerrilheiro heroico e nesse processo destaca-se a fotografia que foi produzida no dia 5 de março de 1960, por Alberto Díaz Gutiérrez, conhecido como Alberto Korda7, fotógrafo da Revolução Cubana e vinculado ao periódico do Movimento 26 de Julho, Revolución. Segundo relatos de Korda (ELIZUNDIA, 2005), publicados em livro8, a foto foi obtida durante a cerimônia fúnebre das 100 vítimas da explosão do navio La Coubre, na esquina da rua 12 com a 23, no bairro de Vedado, em Havana. A presença de Ernesto Che Guevara no palanque montado no local era percebida em segundo plano, ele estava praticamente oculto, mas por alguns segundos veio à frente, lembra Korda, tempo necessário para o fotógrafo produzir duas fotos. No dia seguinte, uma delas foi encaminhada ao periódico Revolución, porém não foi escolhida pelos editores para compor a matéria sobre o evento do dia anterior (ELIZUNDIA, 2005).

Depois de sete anos, em 1967, o fotógrafo presenteou um editor italiano com essa foto, que havia ficado no silêncio das gavetas e arquivos desde 1960 (DOMINGUES, 2008; ELIZUNDIA, 2005). Foi a primeira vez que essa foto se tornou amplamente conhecida, após ser publicada em Milão, segundo os relatos de Korda (ELIZUNDIA, 2005), uma semana antes de ser exibida na Plaza de la Revolución, em Cuba. No discurso fúnebre em homenagem a Ernesto Che Guevara, proferido por Fidel Castro no dia 18 de outubro de 1967, ela figurou em tamanho gigante, no edifício do Ministério do Interior, onde hoje se encontra a imagem de Che em metal9. Célia Sanchez10 foi quem escolheu a foto e idealizou a exposição da reprodução gigante (Figura 4), a qual foi colocada na praça, dias antes da cerimônia (ELIZUNDIA, 2005). Vale destacar que, segundo o fotógrafo, Che Guevara nunca viu a imagem que se tornou seu símbolo no Ocidente e em outras partes do mundo. Uma imagem que circula em muitos objetos, a tal ponto que também foi usada, na década de 1990, em um perfume chamado Che Guevara; em uma marca de fósforos; no rótulo de uma marca de vodca; e na publicidade de uma igreja cristã europeia (ELIZUNDIA, 2005).


Figura 4.
Che e Fidel na Plaza de la Revolución.
Fonte: BOHEMIA (1967, p. 55, p. 53).

A escolha da foto por Célia Sanchez, uma das guerrilheiras da Sierra Maestra, pode ser percebida como ato simbólico de nascimento do herói. Uma mulher com virtudes viris (coragem, força, sabedoria, valentia) e maternas (cuidado, gentileza, abnegação) (SCHACTAE, 2016), portanto, possuidora de atributos necessários para contribuir com o nascimento da face do Guerrilheiro Heroico.

A foto de Alberto Korda, nomeada como o retrato do Guerrilheiro Heroico, constitui-se na face do herói, a qual foi legitimada na narrativa construída pela revista, as imagens da cerimônia na Praza de la Revolución e os painéis com fotos e frases de Ernesto Che Guevara, colocados em Havana. Essa fotografia como a representação do herói Che tornou-se a face mais conhecida do mito e a imagem do herói guia e salvador.

Um retrato que constitui um discurso significado por um conjunto de características: o olhar à frente representa a ligação do herói com o passado e o futuro; a boina, a barba e a vestimenta, símbolos da virilidade e do poder do guerrilheiro, conforme já afirmado acima, também o identificam como parte de um grupo: o Exército Rebelde.

As fotografias da primeira exposição do retrato, na cerimônia fúnebre (Figura 4), vinculam o guerrilheiro heroico à bandeira de Cuba em dois momentos e ângulos diferentes. Na primeira fotografia, o espaço da praça está vazio, porém há a construção de um discurso que vincula o herói à identidade nacional. A foto é também composta pela imagem da bandeira de Cuba a meio-mastro, no meio do enquadramento, à qual se somam palmeiras, símbolos da nação. Acima das palmeiras e da bandeira, projeta-se a imagem do guerrilheiro, que olha em frente, como se aguardasse o povo que virá para ocupar as cadeiras vazias que estão no primeiro plano da fotografia. Trata-se, portanto, de uma construção que coloca o herói junto aos símbolos identificadores da nação, ao mesmo tempo em que comunica a ideia de que ele aguarda a presença do povo. Na segunda fotografia, Fidel Castro e a bandeira estão em primeiro plano, o herói está ao fundo, em lugar de destaque, acima de todos os presentes e no mesmo nível da bandeira. Fidel fala ao povo, enquanto é observado pelo olhar do guerrilheiro. Essa construção simbólica legitima uma narrativa biográfica que coloca Cuba e Fidel Castro como partes significativas na construção do mito Che. O poder expresso nessa foto pertence a dois comandantes do Exército Rebelde: um que fala ao povo, Fidel Castro, e outro que está acima de todos, mas no mesmo nível da bandeira, a olhar para o porvir. Os lábios fechados e o olhar atento sugerem que ele está ouvindo as palavras do líder e observando o caminho para o futuro da Revolução.

Definida a face oficial do herói, as outras fotografias podem ser percebidas como reveladoras das suas virtudes. No texto que apresenta a narrativa Ernesto Che Guevara sobre a história da revolução cubana, aparece a primeira foto do herói montado em um equino (Figura 5). Vale lembrar que, historicamente, o cavalo é identificado como símbolo da virilidade. No Ocidente e na América Latina, cavalos e armas são referências de poder, domínio e virilidade. Para Ximena Valdés (2005), o cavalo como símbolo da masculinidade é uma herança rural, ainda que há séculos esse animal já fosse percebido como símbolo de poder, desde os cavaleiros medievais até a cavalaria de guerra no século XX. A guerra e a honra, por sua vez, estão relacionadas há milênios, conforme destaca Johann Huizinga (1971).


Figura 5.
Che na Guerrilha: fotografia que acompanha relatos da guerra em Cuba.
Fonte: BOHEMIA (1967, p. 30).

A fotografia de Che montado (Figura 5) é constituída por símbolos antigos de poder - o cavalo e o cavaleira, a arma -, que constituem a virilidade guerrilheira, herdeira de uma cultura ocidental, voltada para o domínio masculino, especialmente da cultura cubana, pois os heróis da Independência de Cuba, do século XIX, são representados nas praças, em estátuas equestres. No entanto, a fotografia incorpora novos símbolos identificadores do guerreiro revolucionário: a vestimenta militar, a barba, o charuto, a boina e o fuzil, os quais, como já mencionado, constituem um conjunto de símbolos viris que legitimam o mito Che. Vale destacar que, nessa foto, se observa a invenção da virilidade guerrilheira, expressa por símbolos viris de longa duração (a arma, as vestes, a barba) e também significantes locais, vinculados ao contexto da guerra dos anos de 1950, como o charuto e a montaria, ainda que esta seja uma ressignificação de uma herança cultural de longa duração.

Sobre a construção simbólica dos heróis da independência de Cuba, é importante destacar que são homens mulatos e brancos, e que o herói mais destacado no movimento de independência é José Martí, que é lembrado como intelectual e não como guerreiro. Comumente, Martí é representado por um busto. Portanto, o ponto central da representação desse herói é a cabeça, que é a referência simbólica do seu poder. Em outros termos, sua virilidade sintetizada na representação da sua capacidade intelectual. Todavia, o contexto cubano dos anos de 1960 exigia a construção de uma virilidade identificada também com a coragem e a luta armada, além do poder intelectual.

Outro elemento simbólico presente na construção do mito é a sua morte no espaço da luta armada. No ano de 1991, o antropólogo Julian Pitt-Rivers, em um estudo sobre a honra, fez uma reflexão sobre o sangue perdido em combate e a preponderância da cabeça, ambos como símbolos de honra e poder (PITT-RIVERS, 1992). A essas colocações do autor, é necessário acrescentar que tais símbolos também constituem a virilidade.

As experiências do homem Ernesto constituem elementos necessários para a invenção do herói e de um modelo de masculinidade viril revolucionária. Esse ideal é legitimado pelo discurso de Fidel Castro, proferido em 1967, e publicado na edição especial da Bohemia, de 20 de outubro, no qual afirmou que:

Si queremos expresar cómo queremos que sean los hombres de las futuras generaciones, debemos decir: ¡que sean como el Che! Si queremos decir cómo deseamos que se eduquen nuestros niños, debemos decir sin vacilación: ¡queremos que se eduquen en el espíritu del Che! […] Si queremos expresar cómo deseamos que sean nuestros hijos, debemos decir con todo el corazón de vehementes revolucionarios: ¡queremos que sean como el Che!

Che se ha convertido en un modelo de hombre no solo para nuestro pueblo, sino para cualquier pueblo de América Latina, Che llevó a su más alta expresión el estoicismo revolucionario, el espíritu de sacrificio revolucionario, la combatividad del revolucionario […] (CASTRO, 1967, p. 64).

Esse trecho em particular consolidou o mito como exemplo e modelo a ser seguido, estabelecendo um ideal de masculinidade como referência para o socialismo cubano. Também projeta o herói como exemplo para a América Latina, destacando as suas virtudes de herói revolucionário: abnegado, com espírito de sacrifício e combatente. Um messias, um salvador. Portanto, Fidel Castro traz para o seu discurso uma memória da Revolução e uma herança da cultura latino-americana, unindo características do guerrilheiro e do cristão, qualidades necessárias para um herói latino, mas também identificadoras de virilidade guerrilheira e latino-americana.

Ao incorporar novos símbolos à elaboração do mito, sempre vinculando passado e presente, as fotografias que constroem a imagem de Che Guevara projetam um novo modelo de herói, que articula o intelectual e o guerrilheiro. A escolha predominante de retratos para representar o herói indica a afirmação dele como intelectual, bem como tornar seu rosto conhecido (Figura 6) e reconhecido como herói da Revolução Cubana.

As fotos que compõem os painéis publicitários apresentam o herói em diferentes situações: Che no trabalho manual, Che na ONU, Che fumando um charuto, dão corpo à ideia do homem trabalhador, internacionalista e viril. Ideia aprofundada no conjunto fotográfico, com 14 fotografias, reunidas em seis páginas da Bohemia, com o título: “Estampas de un libertador” (BOHEMIA, 1967, p. 60-65), e conforme as legendas a narrativa construída é de que o herói está: trabalhando com o povo; junto com os homens que comandaram a Revolução (Fidel, Camilo, Raul, Ramiro, Almeida e outro); acompanhando a sua esposa, Aleida March; lendo; jogando beisebol; tomando mate e café; e conversando com Célia Sánchez. Observando ao longo da narrativa, são apresentadas várias faces do herói: o libertador, o jovem Che, o leitor, o esposo, o pai, o amigo de Fidel, o escritor, o jogador de xadrez, o trabalhador.

O que se destaca em todas essas faces - com exceção das imagens que se referem ao período anterior à sua identificação como Ernesto Che Guevara -, é que ele figura usando a farda verde-oliva, mesmo no espaço familiar. É como se estivesse pronto para a guerra em todos os momentos - até mesmo no aniversário dos filhos ele veste uniforme.

Mesmo com a presença dessas faces humanas do herói, a face que predomina é a do guerrilheiro que morreu lutando com armas em defesa de uma ideia de liberdade. A morte é percebida como um ato de vitória, pois a honra do herói está em morrer na guerra. Essa ideia é legitimada por duas frases, que estão no final da carta escrita por Che a Fidel Castro, em 1965, e publicada na primeira página da revista. As frases “hasta la victoria siempre” (BOHEMIA, 1967, p. 3) e “Patria o muerte!” (BOHEMIA, 1967, p. 3) legitimam o projeto de revolução e as práticas identificadoras do guerrilheiro: a vitória e a morte.

O mito assim construído vale-se da narrativa do herói salvador, mas também serve para reafirmar práticas que são parte de um projeto de Estado em construção na década de 1960: o investimento em programas de alfabetização, o trabalho voluntário, a valorização do trabalho manual e a internacionalização da revolução. A vitória da revolução depende das várias faces do mito Che. Em seu discurso, Fidel afirma que todos devem ser como o Che. Isso significa que o cidadão cubano deve assumir as diferentes faces do mito construído pelo Estado. Um modelo de cidadania fundado na virilidade, cuja glória está em morrer defendendo o ideal da revolução. Os retratos e as fotografias, presentes na publicação, legitimam esse ideal.


Figura 6.
Retratos de Che.
Fonte: BOHEMIA (1967, suplemento, p. 15, 17).

Embora a revista publique uma entrevista com Oniria Gutiérrez (BOHEMIA, 1967), a primeira guerrilheira na Coluna comandada por Ernesto Che Guevara, são raras fotografias e falas de mulheres na publicação, as vozes e as imagens do poder revolucionário pertencem aos homens.11

As fotografias de mulheres, em sua maioria, estão na matéria sobre a cerimônia de despedida, na Plaza de la Revolución. Em apenas em seis fotografias Che Guevara aparece com mulheres: uma acompanhado do Célia Sánchez, outra com a sua mãe e as demais com a esposa, Aleida. Portanto, com a predominância de fotografias de homens e a presença da narrativa de uma guerrilheira, que esteve em combate no grupo comandado por ele, a revista legitima que o homem novo é viril e, portanto, digno de levar a Revolução para além das fronteiras cubanas. E as mulheres lembradas, além da mãe, são aquelas que incorporam o ideal viril da guerrilha.

Portanto, a trajetória e a morte de Ernesto Che Guevara permitem a construção uma narrativa biográfica que relaciona a sua trajetória com a Revolução Cubana e uma herança cultural que constitui um ideal de masculinidade viril. A sua participação na luta armada em Cuba; a sua atuação como agente do Estado Cubano; a morte no espaço da luta armada, na Bolívia; as cerimônias em sua homenagem, realizadas pelo Estado Cubano; a projeção da sua imagem de guerrilheiro nacional e internacional; a produção intelectual e a vida privada, estão presentes nas fotografias publicadas em 1967 e revelam características e espaços do poder masculino - guerra, estado, morte em combate, homenagem do Estado, projeção internacional e vida privada que se confunde com a vida pública. A narrativa que delas se projeta é de um homem viril que lutou pela liberdade do povo oprimido e morreu lutando por esse povo, na América Latina.

Conclusão

O mito político de Che Guevara constitui-se em um poder simbólico que ao mesmo tempo que legitima e identifica a Revolução Cubana, marcada pelo ideal viril, também contribui para legitimar uma narrativa sobre esse acontecimento. Deixar a pátria e a família para morrer em defesa de pessoas de outras nações é característica da biografia de Ernesto Che Guevara. Essa prática, que define a sua trajetória, torna-se fundamental na construção das narrativas da revista Bohemia de outubro de 1967. Portanto, são duas as narrativas biográficas publicadas em 1967, uma escrita e outra fotográfica, as quais se complementam, mas também podem ser lidas de maneira independente. E, sem dúvida, a narrativa que tende a atrair a atenção do leitor é a construída pelas fotografias.

A leitura das fotografias, que constituem o mito político Che Guevara, revela uma atualização de um ideal de masculinidade viril que orienta a instauração de uma identidade coletiva, a qual é orientada pela construção do ideal do homem novo, em Cuba. Assim, a construção do mito Che Guevara é parte do processo de construção e legitimação de uma das faces da Revolução Cubana e de sua projeção internacional, no contexto da Guerra Fria, na América Latina. Ao mesmo tempo, também é um processo de redefinição da identidade nacional em Cuba, no qual a cubanidade é também percebida pela capacidade de internacionalização de práticas identificadoras da Revolução e do mito - a virilidade, o trabalho voluntário, o estudo, a defesa da América Latina, a morte em defesa da pátria e da revolução.

Nas suas viagens e em suas aparições públicas oficiais, Guevara usava vestimenta militar (uniforme verde-oliva e boina com a estrela de comandante), barba (que se tornou um símbolo dos guerrilheiros que estiveram na Sierra Maestra) e quando possível, um charuto (outro elemento simbólico identificador dos guerrilheiros, em Cuba). Esse conjunto se constituiu em identificador da imagem pública de Che Guevara. Sendo projetados internacionalmente, esses símbolos da virilidade guerrilheira também passaram a caracterizar uma narrativa sobre a Revolução Cubana, fundada na guerrilha.

Entende-se aqui que esse processo é parte da invenção de uma das faces da Revolução Cubana, a qual afirma o poder simbólico (BOURDIEU, 1998) do guerrilheiro e da guerrilha. Um poder constituído de um ideal de virilidade. Portanto, a produção historiográfica (AYERBE, 2004; LÓPEZ; LOYOLA; SILVA, 2005; LÓPEZ SEGRERA, 2012) tende a construir uma explicação para os acontecimentos em Cuba dos anos de 1950, que legitima o grupo que representa um ideal de masculinidade viril, a guerrilhar. Assim, a produção acadêmica legitima uma narrativa construída pelo Estado, apresentando os guerrilheiros como sujeitos construtores das realidades em Cuba, na segunda metade do século XX.

A herança histórica da virilidade dos heróis da independência, representados nas praças montados em equinos e armados com espadas, e do intelectual José Martí unem-se para estabelecer um novo mito viril, que figura no conjunto fotográfico, e legitima um ideal revolucionário. Um modelo de cidadania para o Estado Revolucionário, que se estabelecia entre 1959 e meados da década de 1970. Em um momento que a Guerra Fria também se consolidava na América Latina, o herói Che se torna um símbolo da luta de alguns grupos que, nos anos de 1970 e 1980, se posicionam contra as ditaduras desse continente. O homem novo, construído pela propaganda do Estado Cubano, foi encarnado na fotografia de Korda (que se multiplicou em camisetas, bandeiras, chaveiros, etc.), e em poemas e canções latino-americanas (VILLAÇA, 2006).

O mito Che unifica as representações do combatente viril, do intelectual e do internacionalista, unindo necessidades políticas do Estado Cubano dos anos de 1960 com uma herança cultural generificada. Essas características estavam presentes no culto aos heróis da Independência, do final do século XIX, mas não unificadas em uma só pessoa, e sim divididas nas figuras dos Maceos, os guerreiros, e de Martí, o intelectual. O Estado Cubano, na segunda metade do século XX, articula essas heranças na construção do novo herói cubano e latino-americano, símbolo que levou a Revolução para além das fronteiras de Cuba, ressignificando a ideia martiniana da “Nuestra America”, presente em texto publicado em 1891 (MARTI, 1983). O poder simbólico do mito se apropria dos símbolos do passado e assim constitui um novo símbolo, o guerrilheiro heroico, o qual de certa forma expressa o contexto latino-americano dos anos de 1960.

Portanto, a herança internacionalista - vinda do projeto de América de José Martí, nas lutas pela Independência de Cuba e da influência dos Estados Unidos na América Latina do século XIX - e a virilidade formam o núcleo central da construção do mito Che Guevara. A frase, de José Martí, na segunda página da revista Bohemia, em outubro de 1967, “Es la hora de los hornos y no se ha de ver mas que la luz” (BOHEMIA, 1967, p. 4), pode ser compreendida como a revelação do herói guia para a liberdade, na segunda metade do século XX. Por coincidência, em 14 de junho de 1845, nasceu em Cuba José Antonio de la Caridad Maceo y Grajales, que se tornou herói da Independência, e no mesmo dia, porém em 1928, nasceu na Argentina outro ser humano, que em 1967 se tornou a encarnação de uma das faces da Revolução Cubana. A partir de uma herança do passado - símbolos, mitos, fotografias -, o Estado Revolucionário transformou o homem Ernesto Guevara em texto e imagem, inventando o mito Che Guevara.

O desafio apresentado à análise da fonte utilizada neste texto foi identificar o núcleo central que constitui o mito Che Guevara, nas imagens fotográficas, publicadas em 1967. Observando as fotografias selecionadas e se apropriando das reflexões de R. Girardet (1987), sobre a construção de mitos políticos, e de J. Scott (1995), sobre a categoria gênero, é possível afirmar que o núcleo central desse mito consiste de: conspiração - uma sociedade, uma organização hierarquizada, comandada por homens (a guerrilha); passado/futuro - um lugar de igualdade fora do presente, onde está o fim da angústia do presente (a Revolução Cubana como um processo contínuo); unidade - estabelecimento de uma sociedade unida, de uma liturgia de Estado, com celebrações cívicas, rituais (o Estado Revolucionário); o herói - um lutador, um combatente (o guerrilheiro), um intelectual, um internacionalista, um esposo, um amigo, um pai. As ideais apresentadas com um conjunto constituem a masculinidade viril guerrilheira, a qual é percebida em símbolos e práticas simbólicas, herdada dos homens heroicos do passado e ressignificadas nos anos de 1960, no processo de construção do homem novo pela Revolução Cubana.

Supplementary material
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Notes
Notes
1 Este texto tem como base reflexões apresentadas em um projeto elaborado pela autora e publicado em 2019, e em textos apresentados em eventos acadêmicos (Fazendo Gênero 12 e 31º Simpósio Nacional de História - ANPUH, no ano de 2021).
2 Para Hobsbawm (1997, p. 9), as tradições inventadas são construídas em lugar e tempo determinados, e são identificadas por um conjunto de práticas rituais ou simbólicas que objetivam orientar comportamentos pela repetição, portanto tendem a ser percebidas como uma continuação do passado.
3 Instituições criadas entre 1959 e 1975, bem como diversos congressos realizados nesse período, foram definindo o Estado Cubano Revolucionário. Entre essas instituições e congressos, cito: Associação de Jovens Rebeldes, Diretório Revolucionário 13 de Março, Juventude do Partido Socialista (1960); unificação dessas instituições em 1962, na União de Jovens Comunistas (UJC); criação da Federação de Mulheres Cubanas (FMC), 1 de outubro de 1962; Comitês de Defesa da Revolução (CDR), 1960; CTC Revolucionária, 1960; I Congresso de Jovens Rebeldes, 1962; I Congresso da União de Estudantes Secundários, 1962; Partido Comunista Cubano (PCC), 1965; Unidades Militares de Ajuda à Produção (UMAP), 1965; I Congresso do PCC, em 1975. Ver: Ayerbe (2004), Sierra Madero (2006), Castro (1978) e Bell; López; Caram (2007).
4 Comemorações: Fundação do Movimento 26 de Julho; Aniversário da Revolução, 1 de janeiro; Memória de Camilo Cienfuegos, 28 de outubro; Dia do Guerrilheiro Heroico, morte de Che Guevara, 8 de outubro. Além dessas, foi estabelecido um tema para cada ano a partir de 1959 (Año de la Libertación), 1960 (Año de la Reforma Agraria), 1961 (Año de la Educación), 1962 (Año de la Planificación), 1963 (Año de la Organización), 1964 (Año de la Economía), 1965 (Año de la Agricultura), 1966 (Año de la Solidaridad), 1967 (Año del Viet Nam Heroico), 1968 (Año del Guerrillero Heroico). O calendário completo do período 1959-2013 e a construção do tempo revolucionário é apresentado por Prado (2013).
5 Heróis e heroínas da Revolução: Abel Santamaria; Fidel Castro; Camilo Cienfuegos; Ernesto Che Guevara; Melba Hernandez; Célia Sanchez; Vilma Espin; Haydée Santamaria. Também foram incorporados os heróis da guerra da Independência (1895-1898) José Antonio Maceo y Grajales; Mariana Grajales (mãe de Maceo) e José Martí.
6 Vale lembrar que, no dia 16 de abril de 1961, Fidel Castro declarou o caráter socialista da Revolução Cubana, fato que aprofunda as tensões entre Estados Unidos e Cuba. Para Prado (2013, p. 61) a Revolução é marcada por duas fases: 1959-1961, fase verde-oliva, e, a partir de 1961, iniciou-se a fase vermelha.
7 Nas referências a ele ao longo do texto será utilizado o nome Alberto Korda.
8 A entrevista com Korda foi realizada em 1999 e publicada em 2005, após a morte do fotógrafo, fato ocorrido em 25 de março de 2001 (ELIZUNDIA, 2005).
9 A imagem no Ministério do Interior é uma obra do artista cubano Enrique Ávila e tem 30 metros de altura. O artista utilizou como inspiração a foto de Korda. O monumento foi inaugurado no ano de 1993 (ALBERDI, 2010).
10 Célia Sanchez é uma das guerrilheiras da Sierra Maestra, que ocupou espaços destacados na construção do Estado Cubano, entre 1959-1980, e também foi constituída em um símbolo da Revolução Cubana (SCHACTAE, 2016).
11 É importante lembrar que Oniria passou a compor o grupo comandado por ele em agosto de 1957, portanto, antes de Fidel Castro criar oficialmente o Pelotón Mariana Grajales, um grupamento de guerrilheiras que foi estabelecido no ano de 1958. Sobre mulheres na guerrilha, ver: MOREIRA; SCHACTAE; SOTO (2015) e VOLO (2018).
Author notes

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Figura 1.
Página em que aparece as primeiras fotografias do Che.
Fonte: BOHEMIA (1967, p. 05).

Figura 2.
Fotografia de Che Guevara na ONU.
Fonte: BOHEMIA (1967, p.114)

Figura 3.
A capa.
Fonte: BOHEMIA (1967).

Figura 4.
Che e Fidel na Plaza de la Revolución.
Fonte: BOHEMIA (1967, p. 55, p. 53).

Figura 5.
Che na Guerrilha: fotografia que acompanha relatos da guerra em Cuba.
Fonte: BOHEMIA (1967, p. 30).

Figura 6.
Retratos de Che.
Fonte: BOHEMIA (1967, suplemento, p. 15, 17).
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