Artigos
Educação em Ciências, Arte e Ecofeminismo em Questionamentos do Antropoceno
Education in Science, Art and Ecofeminism in Anthropocene Questions
Educación en Ciencia, Arte y Ecofeminismo en Cuestiones del Antropoceno
Educação em Ciências, Arte e Ecofeminismo em Questionamentos do Antropoceno
Sisyphus - Journal of Education, vol. 13, núm. 1, pp. 57-73, 2025
Instituto de Educação da Universidade de Lisboa
Recepción: 01 Octubre 2024
Aprobación: 26 Febrero 2025
RESUMO: Esse texto apresenta os dados oriundos da elaboração de uma oficina para pós-graduandos em educação em ciências, durante um evento em Manaus (AM), que teve como objetivo promover um espaço de produção de sentidos a partir da constituição de uma mesa de trabalho sobre a temática do Antropoceno e do ecofeminismo, e da elaboração de narrativas com obras de arte contemporânea de três mulheres brasileiras. Adotamos a metodologia da pesquisa narrativa para dar corpo às experiências vividas entre nós durante a elaboração da oficina. Discutimos o protagonismo feminino como força movente de vida e da urgência de nos aproximarmos, empaticamente, de outros seres que compõem o mundo conosco, em compromissos respeitosos e no desejo de adiarmos o fim do mundo.
PALAVRAS-CHAVE: Mudanças climáticas, mulheres, vegetais, multiespécies, sensibilidade.
ABSTRACT: This text presents data from the development of a workshop for postgraduate students in science education, during an event in Manaus (AM), which aimed to promote a space for the production of meanings based on the creation of a working table on the theme of the Anthropocene and ecofeminism, and the development of narratives with works of contemporary art by three Brazilian women. We adopted the methodology of narrative research to flesh out the experiences we had during the workshop. We discussed female protagonism as a moving force of life and the urgency of empathically approaching other beings who make up the world with us, in respectful commitments and in the desire to postpone the end of the world.
KEY WORDS: Climate change, women, vegetables, multispecies, sensitivity.
RESUMEN: Este texto presenta datos del desarrollo de un taller para estudiantes de posgrado en educación científica, durante un evento en Manaus (AM), que tuvo como objetivo promover un espacio para la producción de significados a través de la creación de una mesa de trabajo sobre el tema del Antropoceno y del ecofeminismo, y el desarrollo de narrativas con obras de arte contemporáneo de tres mujeres brasileñas. Adoptamos la metodología de la investigación narrativa para dar cuerpo a las experiencias vividas durante el taller. Discutimos el protagonismo femenino como fuerza motriz de la vida y la urgencia de empatizar con otros seres que componen el mundo con nosotras, en compromisos respetuosos y en el deseo de postergar el fin del mundo.
PALABRAS CLAVE: Climático, mujeres, vegetales, multiespecies, sensibilidad.
Se nós imprimimos no planeta Terra uma marca tão pesada que até caracteriza uma era, que pode permanecer mesmo depois de já não estarmos aqui, pois estamos exaurindo as fontes da vida que nos possibilitam prosperar e sentir que estávamos em casa, sentir até, em alguns períodos, que tínhamos uma casa comum que podia ser cuidada por todos, é por estarmos mais uma vez diante do dilema a que já aludi: excluímos da vida, localmente, as formas de organização que não estão integradas ao mundo da mercadoria, pondo em risco todas as outras formas de viver. Krenak, 2019, pp. 46-47.
Futuros incertos
A percepção de alteração do mundo é ubíqua e diversa, com várias dissonâncias entre os discursos. As implicações, a maneira de nomear e de compreender essas mudanças ainda são controversas (Robin, 2013).
Uma dessas tentativas de entender o fim do mundo é o conceito de Antropoceno (Crutzen, 2010) - o advir de uma nova era geológica, na qual os humanos se tornam uma força planetária, capazes de alterações drásticas na geologia das paisagens e nos processos geoquímicos do planeta. O Antropoceno é um conceito recente, mas que vem se tornando cada vez mais importante por demarcar essa percepção social (Haraway, 2015; Robin & Steffen, 2007; Steffen et al., 2015).
Para além de um conceito científico e geológico, representando um mero marco temporal na história do nosso planeta, o Antropoceno também significa uma mudança de paradigma. “Se o mundo anterior findou, que mundo habitamos agora?” (Danowski & Viveiros de Castro, 2014). Assim, como entender nosso planeta, nossa sociedade e nossos desafios? (Thorsson, 2020).
O ponto central para a compreensão do Antropoceno e a composição de novos mundos por vir são as mudanças climáticas. Um tema socialmente controverso (Leiserowitz et al., 2013), cujos principais mecanismos geoquímicos já são um consenso entre os pesquisadores (IPCC, 2021) e entre os ativistas (Friberg, 2021). No entanto, apresenta ainda uma forte resistência de setores políticos e econômicos, que lutam contra as mudanças no modo de vida atual necessárias para a sobrevivência nos futuros incertos do Antropoceno (Aronowsky, 2021).
Com os números de catástrofes ecológicas em constante crescimento - da atual pandemia às temperaturas recordes na Antártida logo no início de 2020 e às queimadas da floresta Amazônica e na Austrália em 2019 -, ativistas e cientistas ao redor do mundo têm se unido para chamar atenção sobre os perigos das alterações climáticas e da intervenção humana no meio ambiente. No entanto, quando tudo indicava que deveriam ser formadas alianças para pensar estratégias visando desacelerar os danos causados ao meio ambiente, uma onda nacionalista e protecionista tem tomado frente na arena política mundial (Penteado, 2022, p. 2).
Compreender esse cenário se torna, assim, uma questão educacional: como educar uma geração para um futuro incerto? Entendemos que a arte contemporânea na sua potencialidade de fruição pode nos ofertar experiências de mundo em diálogo com as questões que afetam o nosso cotidiano e das gerações futuras. Uma questão que se espalha por todos os âmbitos da nossa vida em sociedade e que se faz urgente de pesquisas, aportes teóricos e políticas públicas educacionais para que seja possível um enfrentamento.
Promover aproximações em dialogia com diferentes campos do conhecimento no cenário universitário, fundamentalmente da pós-graduação, têm sido um desafio. Nossos trabalhos acadêmicos e pesquisas perpassam a arte como promotora de sensibilização para educações que se dimensionam em processos de subjetivação, por meio de autobiografias, narrativas e compartilhamento de interesses, fazeres e escritas que envolvem natureza, experimentações pedagógicas e criação em arte e vida. E esse trilhar em parceria se afirma na intenção de produzir uma outra ciência, que Isabelle Stengers (2023) diz ser possível: menos guerreira e mais dialógica.
Percebemos a urgência em assimilar/perceber/registrar o que vem do imaginário, do cognitivo das culturas e manifestações diversas locais como forma de resistência ao Antropoceno ou quaisquer outras denominações a essa era em que o capitalismo coloca a vida humana como moeda. Entendemos que não será possível habitar o futuro se não passarmos a agir, coletivamente, em relações profundas com todas essas camadas que compõem o contemporâneo.
Temos atuado em nossas pesquisas em um respeito profundo aos seres envolvidos em nossas investigações - humanos e não humanos - e à história que podemos contar a partir de nossa ancestralidade e na percepção de que a arte contemporânea nos movimenta a pensar o Antropoceno, o colapso ambiental, o fim do mundo, as mudanças globais e a ebulição climática em alianças com teóricos que temos estudado em nossos grupos de pesquisa: Ailton Krenak, Anna Tsing, Dona Haraway, Isabelle Stengers, Maria Bellacasa, Emanuele Coccia, Timothy Morton, Déborah Danowski, Eduardo Viveiro de Castro, Deleuze, Guattari, Latour e Bakhtin.
Sabendo dos futuros incertos e da urgência de abordarmos esses dilemas que atravessam as nossas vidas perante a destruição ambiental, crises ecológicas e devastação afetiva sem precedentes que se avoluma nessas realidades pós-pandêmicas, temos imaginado outras educações como um antídoto a esse antropocentrismo totalitário1.
Desde o último terço do século passado, o ecofeminismo foi integrado nas diferentes ciências - antropologia, filosofia, psicologia - e na prática artística, arquitetônica e urbanística. Não é coincidência. As alterações climáticas colocaram em jogo a nossa sobrevivência como espécie. Excessos, desequilíbrios e mudanças irreversíveis demandam medidas urgentes que não chegam e colocam em risco a conservação do nosso entorno, do nosso planeta. (Carabias Álvaro, 2023, p. 28)
Entrelaçando ética, pedagogia e política para servir à mudança social, a posição ecofeminista trata da conexão material (Barthold et al., 2022, p. 1809) que poderá se posicionar fortemente nesse contemporâneo, pois “o fim do mundo, conforme previsto por vários teóricos, ainda não está por vir, mas já chegou para muitas comunidades - e espécies além dos humanos - em diferentes contextos” (Chao, 2021, p. 3).
O ecofeminismo se assume como uma ferramenta para representar ideias visando desconstruir ideais que retratam o mundo de forma hierárquica e dualista, ou seja, visa-se a uma contestação da ideia de que as estruturas conceituais associam à mulher a feminilidade, o corpo e a sexualidade, enquanto os homens são associados à masculinidade e ao poder. (Guerra, 2023, p. 240)
Nesses imbricamentos entre educação em ciências com outras educações pela arte, filosofia e antropologia idealizamos uma oficina com o objetivo de promover um espaço de produção de sentidos a partir da constituição de uma mesa de trabalho sobre a temática do Antropoceno e do ecofeminismo, porque
está claro que é necessário um investimento significativo na formação de professores, com foco específico em áreas como o ecofeminismo, para preparar as futuras gerações de educadores. Esse investimento não apenas beneficiará os alunos, equipando-os com as ferramentas para entender e lidar com as complexidades da sociedade atual, mas também contribuirá para a criação de cidadãos críticos e engajados, capazes de enfrentar os desafios ecossociais a partir de uma perspectiva transformadora. (Lucas-Palacios et al., 2024, p. 324)
Metodologia narrativa
Esse texto foi composto tendo como foco de pesquisa a realização de uma ação formativa estruturada em uma oficina com pós-graduandos no campo da educação em ciências durante um evento realizado em Manaus (AM) sobre ciência, arte e inovação na Amazônia. Adotamos a metodologia da pesquisa narrativa para dar corpo às experiências vividas entre nós, professoras que organizaram a atividade, e os/as estudantes que dividiram conosco o tempo e a sala de aula durante a elaboração da oficina.
Para Clandinin e Connelly (2011, p. 49), a “experiência acontece narrativamente. Pesquisa narrativa é uma forma de experiência narrativa”. O conceito de experiência de é considerado o arcabouço da investigação narrativa marcada pela tridimensionalidade entre situação, continuidade e interação da história vivida. Weiss e Johnson-Koenke (2023, p. 393) colocam que “a investigação de narrativas valoriza a co-construção de uma narrativa como vida contada, como uma representação e uma reconstrução de uma vida em um determinado momento”.
Nesse sentido, a pesquisa narrativa é um processo dinâmico de viver e contar histórias, e reviver e recontar histórias, não somente aquelas que os participantes contam, mas também aquelas dos pesquisadores (Clandinin & Connelly, 2011). Esse movimento de contar histórias se constitui em uma tentativa de fazer sentido da vida como vivida. Weiss e Johnson-Koenke (2023, p. 390) afirmam que “essas experiências humanas narráveis existem em um fluxo de experiências que são elásticas e se estendem ao longo do tempo e do lugar nos domínios das dimensões pessoal, estética e social”.
Para tanto, o pesquisador narrativo registra ações e afazeres, além de simples acontecimentos e outras expressões narrativas, ou seja, o trajeto da pesquisa narrativa está na vivência de diversas experiências de uma paisagem que proporcionam um processo reflexivo de aprendizagem baseado em recolher tais expressões narrativas em forma de textos de campo e recontá-las em uma pesquisa. (Clandinin & Connelly, 2011, p. 117)
Por isso, trabalhar com narrativas na pesquisa exige uma relação dialógica de dupla descoberta entre pesquisador e objeto de estudo na mesma proporção que existe uma relação dialética entre narrativa e experiência (Cunha, 1997) e a partir da sensibilização dessa dialética são produzidos textos de campo.
A história do narrador não é analisada separadamente, mas deixada intacta e interpretada como um trabalho completo e não fragmentado. A análise temática de narrativas leva em conta os contextos sociais mais amplos que moldam o relato subjetivo de um indivíduo e explora as linhas temáticas emergentes encontradas nas narrativas. (Weiss & Johnson-Koenke, 2023, p. 392)
Os textos de campos são como “representações construídas da experiência” o que, em um contexto de pesquisa narrativa, assume a fluidez de uma arqueologia da memória e do significado (Clandinin & Connelly, 2011, p. 149). Esse processo de compor textos de campo é interpretativo e pode ser derivado de inúmeros tipos de artefatos pessoais, familiares ou sociais do objeto de pesquisa.
As narrativas podem oferecer espaço para que as pessoas superem a solidão e o isolamento, articulem suas experiências de vida e sejam ouvidas autenticamente por meio da conexão social; dessa forma, as narrativas podem facilitar o tornar-se e o pertencer com e para o outro. (Weiss & Johnson-Koenke, 2023, pp. 393-394)
Elaboramos registros narrativos, no formato de textos de campo à medida que realizávamos a atividade formativa, que posteriormente foram revisitados com adensamento de perspectivas teóricas que fundamentaram a elaboração do texto de pesquisa que está apresentado como “Educação em ciências compondo outras educações”. Permeamos esse escrito com falas oriundas da oficina2, as quais não identificamos a autoria exata, por entendermos que é na multiplicidade de vozes que constituímos o espaço de criação no qual o coletivo é a força movente de entendimentos e produção de sentidos.
A oficina foi experimentada em sua maioria por mulheres, mães, professoras, pesquisadoras, estudantes de diversas áreas do professorar que habitam os territórios múltiplos da Amazônia em suas diversas formas de existir. Enredadas na tentativa de borrar as fixações de seus rostos e corpos, se mobilizavam pelo desejo de pensar na aproximação entre ecofeminismo e arte, assim como seus efeitos em seus processos de subjetivação.
Oficina
Entendemos com Widianingsih e colaboradores (2022, p. 1694) que a “responsabilidade ambiental e social das universidades deve refletir os objetivos da luta pelo ecofeminismo transformador como resposta a diversas patologias sociais e ambientais”.
Na literatura científica, há alguns exemplos de experiências educacionais de formação inicial de educadores que utilizam museus de arte como recursos didáticos baseados na teoria feminista, na pedagogia crítica e nos princípios da museologia crítica, que utilizam o patrimônio artístico de forma integrada e holística a partir de uma perspectiva de gênero, simbólica e identitária, com base em metodologias ativas e cooperativas de ensino e aprendizagem. (Lucas-Palacios et al., 2024, p. 323)
Inspiradas nessas possibilidades e para abordar, de mãos dadas com Krenak (2019), ideias para adiar o fim do mundo, organizamos uma oficina na temática do Antropoceno, arte e ecofeminismo. Iniciamos o encontro com músicas da playlist “Dançando as ruínas do Antropoceno”3 amplificadas numa caixa de som. Trechos da letra de algumas canções impressas em papéis coloridos foram disponibilizados em uma mesa de trabalho, inspirada na proposição de Susana Dias:
um misto de assemblage coletiva, instalação viva e interativa, performance multiespécie, escultura transitória (...) método de criação em artes e obra artística coletiva (2023, p. 5).
Além dos fragmentos musicais, na mesa de trabalho havia cartolina, tintas guache, canetas coloridas, cola, tesouras, linhas de bordado, agulhas e pincéis. Ao som de trovoadas, serra elétrica, zumbido de insetos, farfalhar do vento, chuvisqueiro, grunhidos de bichos e cantos de pássaros misturados com vozes humanas, trombones, pandeiros, flautas, bumbos, chocalhos e violões propusemos o convite para que se aproximassem da mesa e pudessem impregnar o papel com os sentidos de Antropoceno e ecofeminismo. Assim, num primeiro movimento, a mesa de trabalho foi dando forma a uma produção coletiva (figura 1) perpassada por falas, risos e negociações sobre o que colocar ao lado de algo que o outro havia iniciado.

Com a força de composição da mesa de trabalho, passamos para o segundo movimento da oficina, que foi elaborado tendo como base as obras de três artistas brasileiras. Entregamos um cartão com a imagem da produção artística de um lado e, do outro, informações sobre o nome da obra, nome da artista e perfil no Instagram4 (figura 2).

As imagens das obras “Cabeça Vegetal” de Mariana Vilela, “Anunciação” de Lis Haddad, e “Cabeça de cabaças” de Keila Sankofa circularam pela sala e foram evocando sentidos de forma articulada com as impressões da mesa de trabalho. Não ofertamos explicações acerca da obra ou das intencionalidades de cada artista para que as percepções dos participantes não fossem induzidas por esse contar. Somente após o esgotamento das falas de como as obras perpassam a visão de mundo de cada um, disponibilizamos dados adicionais sobre as produções artísticas.
EDUCAÇÃO EM CIÊNCIA COMPONDO COM OUTRAS EDUCAÇÕES
Bastou o convite e a mesa de trabalho se formou num instante. Tá escutando? A música diz olhos de jacaré5. Eu já vi um de pertinho. É? Sim. Dá medo, mas é fascinante. No movimento de habitar os limites da cartolina, mãos se sobrepunham em busca por pincéis e tintas coloridas que rascunhavam palavras e desenhos em meio a colagens. Você vai escrever ecofeminismo? Vai mesmo? Sabe o que é? Sei. Para mim é a mulher que defende a natureza. Eu também acho que é isso, mas não só. Penso que esse defender é no sentido de um respeito profundo a ela mesma e a todos os seres. Porque o feminismo é isso. Também acho. A composição da mesa convocou ao entendimento de ecofeminismo que muito se relaciona com o que temos estudado no campo teórico da política ecológica feminista.
Para Anjum (2020, p. 846) “o ecofeminismo conclama mulheres e homens a reconceituar o mundo de forma não hierárquica. Nesse sentido, o movimento feminista e o movimento ambientalista são vistos trabalhando juntos, com base no pressuposto de que ambos defendem sistemas igualitários e não hierárquicos”.
As ecofeministas materialistas têm visto as mulheres como as principais defensoras dos comuns porque estes constituem a base material para o trabalho reprodutivo: na sua perspectiva, defender o acesso aos comuns e à preservação de ambientes naturais e construídos (solo, água, florestas, pescas, mas também ar, paisagens e espaços urbanos) tem sido uma forma de resistência laboral contra a despossessão e condições degradantes para o trabalho reprodutivo. (Barca, 2020, p. 38)
Estar em torno da mesa possibilitou a aproximação de pessoas que não se conheciam cujas formações são muito diversas: em biologia, pedagogia, música, matemática e geografia. As articulações tanto verbais quanto de movimentação em torno do que era adicionado à composição, seja uma costura, uma pintura ou um desenho, contribuíram para um experimentar conceitual em torno do Antropoceno. Para mim tudo é culpa da ganância, de querer sempre mais. Destrói tudo para ter mais.
O que o ecofeminismo nos disse no passado foi que a opressão sistemática de uma diferença naturalizada e multicategorizada, estava indelevelmente ligada a sistemas de pensamento patriarcal, hegemônico e colonizador que servem para oprimir os corpos ativamente constituídos em uma categoria de “natureza” e em uma categoria de “mulheres” para sua desvantagem mútua. Essa continua sendo uma visão profunda. Um exame genealógico dos escritos ecofeministas das décadas de 1980 e 1990 revela como essa hierarquia de favoritismo - domínio sobre a natureza, dominação sobre as mulheres - sustentou o desastre acelerado que se abate sobre todos nós no presente. (Gough & Whitehouse, 2020, p. 1423)
Eu também acho. Sim, sim. Do capitalismo. Por isso que a Donna Haraway chama de Capitaloceno. É. Porque o que estamos vivendo hoje vem do capitalismo como forma central de vida no planeta. Eu penso que não é todo mundo que pode ser incluído como responsável pelo Antropoceno. Meu avô e a minha avó, indígena que vive no mato, não contribui. Eles ajudam a não piorar, a curar. Mas no capitalismo está todo mundo, até os seus avós, né? Acho que sim.
Na situação presente da catástrofe climática que define o Antropoceno, a distinção entre culpados e vítimas (...), é historicamente clara de um ponto de vista coletivo ou societário, mas algo difícil de traçar do ponto de vista da ação individual, uma vez que somos, hoje, muitos de nós (nós humanos e os vários não-humanos que escravizamos ou colonizamos) culpados e vítimas ‘ao mesmo tempo’: em cada ato que praticamos, em cada botão que apertamos, cada bocado de comida ou de ração animal que engolimos. (Danowski & Viveiros de Castro, 2014, p. 113)
Presta atenção na música6: na mata escura tem cura. É isso. Precisamos voltar para a mata, para reaprender com a floresta. E isso é ecofeminista. Sim. É. Risos de percepção de conexões, de que um conceito teórico está relacionado a outro e se sobrepõem em camadas de tentativas de compreender esse contemporâneo e os desafios para tentarmos adiar o fim do mundo.
Como as mulheres realizam a maior parte do trabalho de cuidado necessário para garantir a reprodução social, elas geralmente são as primeiras a perceber as transformações ambientais e a assumir o trabalho adicional necessário para sobreviver às crescentes pressões ambientais. No entanto, apesar de serem as primeiras a enfrentar, denunciar e se mobilizar contra o extrativismo e suas consequências em seus ambientes e comunidades, muitas mulheres tiveram de lutar para afirmar o poder de decisão sobre seus corpos, vidas, comunidades e territórios. (Ojeda et al., 2022, pp. 154-155)
Vai amarrar tudo? Vou. Quero costurar essa coisa toda que a gente conversou. Mas vai esconder o desenho. Quem fez esse desenho? Eu. Não tem nada não. Pode juntar tudo. O desenho vai junto com o amarrado. Está dentro. Levantaram a cartolina da mesa de trabalho para fotos em manifesto.
Café, bolo de mandioca e suco de goiaba. Sentamos em roda. Passamos os cartões com as obras de arte e assistimos ao burburinho, comentários com quem estava ao lado e expressões faciais de assombro e descoberta. Eu como mulher negra, manauara, de periferia, filha de lavadeira me vejo com a Keila Sankofa nessa cabeça de cabaça. Tem uma cabaceira no quintal de casa e minha mãe faz chá para gente das folhas, para tirar lombriga. Essa artista é daqui? Eu também fiquei impressionada porque só dá para ver que é uma pessoa do joelho para baixo. Uma árvore de cuia ambulante na margem do rio. No terreiro da minha fé a gente usa muita cabaça. Um corpo árvore em fruto que anda. Isso. Um ser-planta, em devir vegetal. Essas considerações remetem ao pensamento do filósofo Emanuelle Coccia de que “o mundo é antes de tudo o que as plantas souberam fazer dele” (Coccia, 2018, p. 26). E o que estamos fazendo com esse mundo que as plantas produziram? Nossa aproximação profunda e respeitosa com os vegetais engendra possibilidades outras de afeto na contracorrente do capitalismo. Perguntamos se “seria possível conceber a paisagem como protagonista de uma aventura na qual os humanos são apenas um tipo participante, entre muitos outros? (Tsing, 2022, p. 229). Do jeito que está indo não, porque a gente se acha sempre melhor que todos os outros seres. Temos uma relação de poder, de vida e de morte, dos outros seres. Somos sempre, ainda, os protagonistas.
A justiça multiespécie não é algo distante para os teóricos críticos dos estudos sobre animais ou para as ecofeministas que têm mantido esse tipo de postura há décadas. Também não é algo distante para muitos teóricos indígenas e antirracistas que defendem outras cosmologias, ontologias e mundos - de fato, a maioria das comunidades indígenas organiza seus sistemas sociais e políticos para alcançar um tipo de justiça multiespécies. (Ojeda et al., 2022, p. 161)
Do que será que é feita essa cabeça vegetal? Será que dá para sentir o cheiro das plantas, de terra molhada com a chuva caindo na floresta? Parece uma kokedama gigante. Será que quando coloca na cabeça a gente passa a sentir as raízes? Eu queria que as raízes das plantas da cabeça se emaranhassem no meu cabelo. Mulher-medusa-vegetalizante. Em sensibilidade de aproximações por células fotossintetizantes. Em comunhão plantae. Em processo de vegetalização de uma vida humana mais sensível ao entorno, às nervuras folheares, às misturas. Em entrecruzamento energético por entre paredes celulares celulósicas.
Seríamos um imenso órgão de sentidos que se confunde com o objeto percebido. Um ouvido que é o som que escuta, um olho que se banha constantemente na luz que lhe dá vida. (Coccia, 2018, p. 37)
Eu acho que a gente tem que começar a fazer pausas para prestar mais atenção em nós mesmos e nos outros seres que dividem o mundo conosco. Sim, para tentar alguma outra forma. Incrível como a arte nos permite isso, né? A pausa. Parece uma convocação. Ver a artista com essa cabeça de plantas vivas é um encontro multiespécies. Tsing (2022, p. 313) afirma que “a singularidade dos encontros interespécies é importante; é por isso que o mundo continua ecologicamente heterogéneo, apesar da abrangência dos poderes globais”. Interessante como uma obra de arte nos convoca a pensar tudo isso. Para o filósofo Timothy Morton (2023, p. 117), a arte explicitamente ecológica é simplesmente a arte que traz para o primeiro plano essa solidariedade com o não-humano. E ser solidário é ser responsável também?
Nessa obra o que será cada montinho de terra? Você notou? Tem uns bem aglutinados e outros só o pozinho. Gostei do nome. Anunciação. É, mas deve ser algo bem ruim. Ou não. Por que achou que é ruim? Porque estamos anunciando só tragédias. Sim. A artista Lis Haddad nos provoca com 919 montes de terra retirada de Bento Rodrigues, vilarejo soterrado em 2015 por desabamento da barragem de rejeitos de mineração da cidade de Mariana (Minas Gerais). Um crime tragédia anunciado que pode ocorrer de novo. O número presente na obra é uma alusão às barragens cadastradas oficialmente no Brasil. Viu? Eu achei mesmo que anunciava alguma coisa ruim. Lembra a música do Tom Zé que está tocando: Agora a mineração/ Que faz de tudo deserto/ Destrói a casa do índio/ Saúde vira um inferno/ Com mercúrio mata o peixe7.
Se todas as nossas florestas são atingidas por esses ventos de destruição, quer os capitalistas os desejem ou não, nós nos encontramos diante do desafio de viver nessa ruína, por mais horrível ou impossível que possa parecer. (Tsing, 2022, p. 313)
Então cada montinho de terra é o sofrimento materializado das vidas que foram ceifadas. De gente, de bicho, de planta e de mais tudo o que a gente não consegue nem imaginar. Uma lama de destruição. Uma tristeza. E incrível como impressiona, mesmo sendo tão distante daqui. É, mas aqui no Amazonas as tragédias também estão por todos os lugares. A força da arte que é denúncia. Mobilizadora de entendimentos outros em projeção empática com os seres e o planeta e em criticidade às políticas estabelecidas.
Os afetos são importantes, não como elementos de sentimentalismo geralmente relegados ao sexo mais fraco, mas como elementos importantes da ética contemporânea, que tem de incorporar a empatia como um valor positivo nos comportamentos humanos e na ética do cuidado dos outros que deve ser baseada na justiça e na equidade. Esta era uma perspectiva já defendida por feministas desde a primeira onda. (Lorenzo-Modia, 2023, p. 6)
Tais políticas podem ser borradas ao se arquitetar uma educação em ciências a partir da relação entre ecofeminismo e arte, pois esse encontro convoca abordagens mais sensíveis para se pensar a vida, a floresta, os não-humanos. Posicionar o sentir a partir da relação ecofeminismo e arte, materializa uma educação em ciências que toma a ciência para além do domínio da natureza e/ou a opressão das mulheres, oferecendo uma crítica fundamental à visão tradicional da ciência, entendida a partir de uma lógica do controle, comprovação da verdade e exploração. Isso porque compreendemos com Ojeda e colaboradores (2022, p. 159) que “uma contribuição central dos ecologismos feministas tem sido a ampliação do escopo e dos limites do que é considerado conhecimento”.
É necessário que estudantes em formação inicial tenham as habilidades e os conhecimentos necessários para abordar uma educação ecossocial, com conhecimento de linguagem artística, perspectiva de gênero e consciência de que a espécie humana é apenas mais uma forma de vida em um planeta finito. (Lucas-Palacios et al., 2024, p. 322)
Nesse sentido, uma educação em ciências impregnada desses sentires, desconstrói a dicotomia natureza-cultura, que subordina a exploração da primeira em detrimento da segunda; assim como promove outros modos de existir e ensinar que promovam o respeito por todas as formas de vida.
Conclusão
A oficina provocou sensibilizações tanto por meio da produção da mesa de trabalho quanto pela conversa acerca das três obras de arte de mulheres brasileiras. Discutir o Antropoceno e o ecofeminismo por outros engendramentos que escapam dos dados técnicos com os quais já estamos cotidianamente em contato nos permite pensar e elaborar propostas educativas em ciências em conexão com outros campos de conhecimento.
A mesa de trabalho oportunizou o debate acerca de conceitos chave para entendimentos acerca do Antropoceno e do Ecofeminismo de forma que as palavras oriundas das músicas tocadas na playlist foram fonte de provocação para elaborarmos outros sentidos negociados coletivamente a partir do encontro em torno da mesa.
Os cartões com as obras de arte circularam de forma a potencializarem percepções acerca da produção artísticas realizada por mulheres brasileiras, num contexto local, que nos permitiu sentir com elas e conjuntamente questionarmos esse contemporâneo que perpassa os crimes tragédias aos quais estamos vulneráveis cotidianamente.
Terminamos a oficina com a clareza do protagonismo feminino como força movente de vida e da urgência de nos aproximarmos, empaticamente, de outros seres que compõem o mundo conosco, em compromissos respeitosos e no desejo de adiarmos o fim do mundo.
Agradecimentos
As autoras agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e à Pró-reiroria de pesquisa e pós-graduação da Universidade do Estado do Amazonas.
Referências
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Notas
Notas de autor