Artigo
A questão da manipulação do sujeito Ângela no conto “O Legado” de Virginia Woolf: uma análise semiótica
La cuestión de la manipulación del sujeto Angela en el cuento “El Legado” de Virginia Woolf: un análisis semiótico
The question of manipulation of the subject Angela in the short story “The Legacy” by Virginia Woolf: a semiotic analysis
A questão da manipulação do sujeito Ângela no conto “O Legado” de Virginia Woolf: uma análise semiótica
Simbiótica. Revista Eletrônica, vol. 5, núm. 1, pp. 160-171, 2018
Universidade Federal do Espírito Santo

Resumen: El objetivo principal de este artículo es discutir, en una perspectiva semiótica de base greimasiana como el personaje de Angela, en el cuento “El Legado”, de la escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941), sufre un proceso de manipulación por dos sujetos-destinadores de lo hacer persuasivo, su marido, Gilbert Clandon, y su amante, conocido sólo por las letras iniciales B. M.. De esta manera, queremos analizar cómo ocurre esta manipulación hasta su encadenamiento final, un hacer representado por el suicidio de la protagonista, mediante un entrecruzamiento de programas narrativos, proporcionado por su proprio diario, dejado a su marido como legado, destacando, así, las varias oposiciones semánticas que son construidas a lo largo de su lectura.
Palabras clave: Angela, Manipulación, Legado, Virginia Woolf.
Resumo: O objetivo central deste artigo é discutir, dentro de uma perspectiva semiótica de base greimasiana, como a personagem Ângela, do conto “O Legado”, da escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941), sofre um processo de manipulação por parte de dois sujeitos-destinadores do fazer-persuasivo, seu marido, Gilbert Clandon, e seu amante, conhecido apenas pelas letras iniciais B. M.. Dessa forma, queremos analisar como ocorre essa manipulação até seu encadeamento final, um fazer representado pelo suicídio da protagonista, por meio de um entrecruzamento de programas narrativos, proporcionado pelo seu próprio diário, deixado ao marido como um legado, destacando, assim, as várias oposições semânticas que vão sendo construídas ao longo de sua leitura.
Palavras-chave: Ângela, Manipulação, Legado, Virginia Woolf.
Abstract: The main objective of this article is to discuss, in a semiotic perspective of greimasian basis, how the character Angela, in the short story "The Legacy ", of the English writer Virginia Woolf (1882-1941), undergoes a process of manipulation by two subject-destinators of a persuasive making, her husband, Gilbert Clandon, and her lover, known only by the initial letters B. M.. This way, we want to analyze how this manipulation happens until to its final thread, a making represented by the suicide of the protagonist, by through an interweaving of narrative programs provided by her own diary, left to her husband as a legacy, pointing out, this way, the variety of semantic oppositions that are being built throughout its reading.
Keywords: Angela, Manipulation, Legacy, Virginia Woolf.
Introdução
O conto O Legado (The Legacy) é considerado um dos textos inéditos da escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941). Ele faz parte da coletânea intitulada Uma casa assombrada (A haunted house and other stories), publicada postumamente, em 1944, por seu marido Leonard Woolf. A partir de outra coletânea de contos - Segunda ou Terça-Feira
(Monday or Tuesday) (1921) -, a única do gênero publicada pela autora ainda em vida, Leonard incorporou outros textos inéditos ou que haviam sidos lançados em jornais ou revistas entre os anos de 1922 a 1941.
Essa coletânea engloba alguns de seus contos mais conhecidos e também enigmáticos, trazendo uma mistura de narrativas construídas ainda nos moldes tradicionais, como é o caso do conto acima referido, ou em estruturas mais experimentais, como pode-se observar nos contos A marca na parede e A dama no espelho: um reflexo, que já apresentam a utilização de estratégias narrativas como o fluxo de consciência e a não-linearidade do enredo, típicas de seus romances de maturidade.
Entretanto, seja nessas narrativas ditas mais inovadoras ou mesmo naquelas consideradas como mais tradicionais no trato com enredo, personagem, tempo e espaço, o estilo de Virginia Woolf segue tomando como base um dos princípios fundamentais de seu projeto literário - o conhecimento do homem, ou melhor, do humano em toda a sua complexidade, buscando, dessa maneira, alcançar as regiões mais íntimas e secretas do ser.
Suas personagens vão se construindo diante de nossos olhos na medida em que vão se descobrindo interiormente. Mergulhamos em suas emoções, em suas angústias, em seus medos mais profundos e acompanhamos suas difíceis tomadas de decisão diante da vida e da existência. Suas personagens, portanto, são constantemente confrontadas diante de uma espécie de espelho em que, através da imagem refletida, tomam a consciência de seu existir, ou seja, defrontam-se com aquele instante de pura epifania capaz de revelar-lhes o próprio sentido de quem são.
Para a escritora, a vida é como uma grande peça encenada sob um palco, ora trágica, ora cômica, e da qual somos todos personagens. Vivemos suas tramas e subtramas que vão sendo tecidas segundo após segundo e, posteriormente, entrelaçadas em inúmeras combinações. Vamos assumindo diferentes papéis, diferentes funções dentro dessa narrativa em constante processo de construção. Num instante, somos os protagonistas, os heróis aclamados e aplaudidos por todos, no momento seguinte, já somos os antagonistas, os anti-heróis, os anti-sujeitos de um jogo de relações de sentido que está em constante atualização. A vida e a existência se tornam, portanto, a sua grande matéria-prima de escrita, mas vale ressaltar que essa peça não está disposta de maneira tão organizada e linear; pelo contrário, ela é caótica, fluida, cheia de veredas que se entrecruzam com os caminhos principais:
A vida não é uma série de óculos que, arrumados simetricamente, brilham; a vida é um halo luminoso, um envoltório semitransparente que do começo ao fim da consciência nos cerca. Não é missão do romancista transmitir esse espírito variável, desconhecido e incircunscrito, seja qual for a aberração ou a complexidade que ele possa apresentar, com o mínimo de mistura possível do que lhe é alheio e externo? (WOOLF, 2014, p. 109).
E é com isso em mente, que este trabalho tem como objetivo analisar, a partir de uma perspectiva semiótica de base greimasiana, de que forma a personagem Ângela, esposa, patroa e amante dentro do conto O Legado é manipulada pelos vários sujeitos-destinador do fazer-persuasivo, seja numa primeira instância, por meio da opressão representada pela relação contratual que estabelece com o marido, Gilbert Clandon, um influente político do Parlamento inglês e que lhe oferece uma vida de luxo e conforto em troca de dedicação exclusiva e de fidelidade, ou através de outro contrato firmado com o misterioso B.M., amante e representante do poder de liberdade dessa vida opressora que tinha com Gilbert, mas que acaba também lhe manipulando, mas agora para um fazer decisivo de suicídio. Para tanto, descreveremos alguns pontos importantes referentes à estrutura narrativa do conto, destacando as principais oposições semânticas, bem como o percurso narrativo encadeado pelos vários programas apresentados e desenvolvidos por esses atores.
Análise Semiótica
Logo no início do conto, nos é apresentado um enunciado de estado que representa a relação de disjunção entre um sujeito (marido/Gilbert Clandon) e um objeto-valor (esposa/Ângela). A narrativa é introduzida já com o anúncio da morte de Ângela que, não se sabe ainda se acidental ou proposital, “quando, descendo do meio-fio da calçada em Piccadilly, fora morta por um carro” (WOOLF, 1984, p. 153). Como numa espécie de premonição ou premeditação da própria morte, Ângela deixa alguns objetos de presente para os seus amigos mais íntimos e queridos, como pequenas provas de sua dedicação e afeto:
Sim, prosseguiu, sentado ali aguardando-a, era surpreendente que Ângela tivesse deixado tudo em tal ordem. Cada amigo receberia uma lembrancinha como sinal de sua afeição. Cada anel, cada colar, cada caixinha chinesa - tinha verdadeira paixão por caixinhas - trazia um nome. Cada um deles evocando-lhe um momento (WOOLF, 1984, p. 153).
Um desses amigos, o único nomeado no texto, abre literalmente a narrativa - “Sissy
Miller”. Para Sissy, sua secretária e amiga confidente - “Era a personificação da discrição: tão
silenciosa, tão digna de confiança que se lhe podiam revelar segredos, e tudo o mais” (WOOLF, 1984, p. 155). Ângela deixa como legado um pequeno broche de pérolas, um presente que, na visão do marido, é meio inapropriado, tendo em vista a situação financeira que a “pobre” Ms. Miller tem que enfrentar a partir de agora, sem o seu emprego, e do próprio objeto, caro e luxuoso, posto nas mãos de uma pessoa com uma condição social “mais baixa”.
Aparentemente, poderíamos dizer que a jovem secretária é somente uma personagem que não assume nenhum tipo de papel fundamental dentro da narrativa, ou seja, é apenas uma funcionária que recebe uma lembrança deixada por sua patroa falecida. Contudo, o fato de o narrador ter iniciado a narrativa do conto com o seu nome cria um significado e uma possibilidade interpretativa que vai ficando cada vez mais clara ao longo da parte final do texto. Isso já evidencia certo suspense que é criado por esse narrador e que vai sendo revelado na medida em que Gilbert descobre a verdade sobre o contrato firmado com sua esposa quando viva. Outro ponto importante se refere à relação de disjunção que Sissy possui com o seu irmão, causada pela morte do mesmo há mais ou menos duas semanas antes do incidente com sua patroa:
Mas então lembrou - ela estava de luto, evidentemente. Também ela enfrentara um trágico acontecimento - um irmão, a quem se devotara, morrera apenas uma ou duas semanas antes de Ângela. Algum acidente, foi? Não sabia ao certo -lembrava-se apenas de que Ângela lhe falara a respeito. Ângela, com sua índole humanitária, abalara-se profundamente (WOOLF, 1984, p. 156, grifo nosso).
Dentro desse jogo de suspense, já vamos recebendo algumas pistas importantes. O abalo de Ângela com a morte do irmão de sua secretária, visto como uma expressão de sua alma caridosa e solidária, vai sendo ressignificado no final do texto e, dessa maneira, se torna uma peça fundamental desse quebra-cabeça proposto pelo narrador. O texto como um todo é uma descoberta, é uma busca veridictória, por parte de Gilbert, do contrato de manipulação que estabelece com Ângela, ou seja, é uma confirmação do estado caracterizado a priori como verdadeiro dessa relação aparentemente perfeita e bem definida em seus termos.
Ao casarem-se, é estabelecido um contrato de manipulação por tentação entre Gilbert Clandon, um político promissor e em início de carreira, e Ângela, que aceita os termos da manipulação, isto é, a opressão acarretada pelos deveres de uma esposa de um grande político para, assim, dedicar sua vida exclusivamente a ele, apagando qualquer vontade ou desejo próprio em troca do conforto e do luxo proporcionados pelo marido: “Pois Ângela recebera a cota de obrigações que cabe à esposa de um político proeminente. Ajudara-o muitíssimo em
sua carreira” (WOOLF, 1984, p. 155, grifo nosso). Assim, o destinador-manipulador “marido” firma um contrato com o destinatário-sujeito “esposa” a partir da oferta de objetos descritivos com valor “positivo”, como viagens, jantares, jóias, etc., em troca de “fidelidade” e “dedicação plena”.
De acordo com Barros (1990), a manipulação só se caracteriza como bem-sucedida quando ocorrem duas etapas complementares: a da atribuição de competência semântica e a de doação de competência modal:
A atribuição de competência semântica está sempre pressuposta na doação de competência modal, pois é preciso que o destinatário-sujeito creia nos valores do destinador, ou por ele determinados, para que se deixe manipular. (...) A segunda etapa do percurso do destinador-manipulador é a de atribuição de competência modal. Essa fase constituiu a manipulação propriamente dita, em que o destinador doa ao destinatário-sujeito os valores modais do querer-fazer, do dever-fazer, do saber-fazer e do poder-fazer (BARROS, 1990, p. 28, grifo nosso).
No contrato estabelecido entre destinador-manipulador e destinatário-sujeito, há um fazer-persuasivo daquele que quer manipular e que age sobre aquele que está em processo de manipulação. Em outras palavras, o destinador é dotado de um fazer-crer que tem como objetivo convencer ou persuadir o destinatário que, ao aceitar os termos do contrato, crê nos valores propostos pelo manipulador (BARROS, 1990, p. 28). No caso do conto O Legado, Ângela se deixa manipular, isto é, acredita nos valores e na instância de poder assumida pelo marido (ele tem o poder para lhe proporcionar todos os objetos-valor que Ângela almeja entrar em conjunção); aceita o contrato e passa, então, a um querer-fazer daquilo que lhe é solicitado para que, dessa forma, possa receber os valores contratuais apresentados.
Há, assim, como já foi exposto, uma manipulação por tentação que caracteriza um dos primeiros programas narrativos desenvolvidos no conto e que pode ser descrita da seguinte maneira: PN = F (viajar, jantar fora em restaurantes caros, ir a festas luxuosas, dar presentes caros) [Si (Gilbert) S2 (Ângela) A Ov (viagens, jantares, jóias, etc.)].
Como já desde o início da narrativa o manipulador se encontra em estado de disjunção com o manipulado, os termos do contrato vão sendo resgatados na narrativa através do recurso da memória: “Isto lhe fora dado por ele; isto - o golfinho de esmalte com olhos de rubi - ela o arrebatara certo dia numa rua retirada de Veneza”; “Viajaram para Veneza. Recordava-se daquele feliz período de férias, logo após as eleições. “Tomamos sorvete no Florian”. Sorriu - ela ainda tinha o comportamento de uma menina” (WOOLF, 1984, p. 154,
158, grifo nosso).
Tendo finalmente entrado em estado de conjunção com os objetos-valor que tanto almejava, Ângela passa então a sofrer o peso das responsabilidades criadas pela condição de ser esposa de Gilbert. Sua liberdade, pouco a pouco, vai sendo sufocada pelas obrigações impostas de forma sutil e quase que silenciosa pelo marido: “Jantamos na Câmara dos Comuns... À noite fomos a uma festa na casa dos Lovegrove. Eu tinha consciência da responsabilidade, perguntou Lady L., que era ser mulher de Gilbert?” (WOOLF, 1984, p. 158, grifo nosso). Assim, o sujeito-destinatário passa a tomar o compromisso estabelecido como um dever, uma obrigação que deve ser cumprida, mesmo que o preço a se pagar seja alto demais, isto é, se anulando por completo.
A manipulação atinge um nível tão alto que chega a criar em Ângela um sentimento de culpa quando não consegue cumprir alguma das incumbências propostas pelo contrato. Um exemplo pode ser observado no fato de Ângela não ter conseguido dar ao marido um filho, um herdeiro direto de seu legado de poder, mesmo que para este o fato não fosse aparentemente importante e essencial: “Causara-lhe grande desgosto, como era natural, o fato de não terem tido filhos. “Eu adoraria (...) dar um filho a Gilbert”. Estranhamente, ele próprio jamais lamentara essa falta” (WOOLF, 1984, p. 158). A subjetividade de Ângela, portanto, passa a se desenvolver totalmente em função da subjetividade de Gilbert, e por ela vai sendo anulada. Ela toma o compromisso estabelecido no contrato manipulatório para si, crê fielmente nele e se deixa ser completamente manipulada por ele, ao ponto de se auto-responsabilizar, de se auto-martirizar quando algo não é possível de ser cumprido.
Ângela deixa ao marido como legado os quinze volumes de seu diário, que começaram a ser escritos desde o início de seu casamento até sua morte. Por tantas vezes, esses diários foram o motivo de pequenas discussões entre os dois, já que Ângela não permitia que o marido lesse suas confissões, alegando que talvez só pudessem ser lidas após sua morte. Os diários, em primeira instância, objetos sem muita importância para Gilbert, eram a única coisa que Ângela não compartilhava com seu marido, era o único espaço onde podia exercer um pouco que sobrara de sua liberdade, era um mundo secreto, íntimo, que não podia compartilhar com ninguém, era onde dividia e desabafava sua dor causada pela opressão daquele casamento:
Para ele, evidentemente, nada deixara de especial, a não ser que fosse o diário. Quinze caderninhos, com capa de couro verde, descansavam na escrivaninha dela às suas costas. Mantinha aquele diário desde quando se casaram. Algumas de suas poucas - não as chamava de brigas, digamos discussões - foram por causa desse diário. Toda vez que entrava e a encontrava escrevendo, ela sempre o fechava ou escondia pondo a mão em cima. “Não, não, não”, ouvia-a dizer. “Depois da minha morte - quem sabe”. Deixara-o para ele, então, como seu legado. A única coisa de que não tinham partilhado enquanto ela vivia (WOOLF, 1984, p. 154).
Era o legado que deixava ao marido. Mas que tipo de legado era esse? Haveria alguma pretensão ao deixar aquelas páginas, onde se encontrava o seu olhar mais profundo e secreto sobre o sentido de sua vida, sobre aquele casamento dito como feliz e perfeito? Para Gilbert, sua morte não tinha uma motivação clara. Como, se ele lhe dava tudo do que precisava? Se ele lhe proporcionava luxo, conforto, status? O resultado do contrato, na visão de Gilbert, era a perfeição, era a cumplicidade plena entre um marido que provia tudo e uma esposa que tinha tudo de que necessitava. Ele não falhara, mas então por que Ângela havia se matado? - “Se tivesse parado um instante, e se pensasse no que estava fazendo, agora estaria viva. Mas descera do meio-fio, explicara no inquérito o motorista do carro. Não lhe dera a menor oportunidade de frear...” (WOOLF, 1984, p. 154). Quem falhara, para Gilbert, fora Ângela, ao quebrar o contrato estabelecido de uma vida de alegria e perfeição plenas.
Gilbert crê no seu cumprimento dos termos do contrato manipulatório. Tem consciência de que proporcionara os elementos necessários para que Ângela fosse feliz ao seu lado. Quando começa a pensar na possibilidade de leitura do diário, se incumbe de uma crença absoluta de que o que a esposa escreveu naquelas páginas foi apenas a descrição da vida perfeita que levavam e de quanto ele havia sido um bom marido para ela. Nesse momento, inicia-se um processo de auto-manipulação por sedução, em que Gilbert, certo de suas qualidades e atitudes, busca a leitura do diário apenas para confirmar um saber que é tomado a priori como absolutamente verdadeiro, inquestionável. A sanção conclusória do contrato manipulatório, na visão de Gilbert, deve ser tomada como absolutamente verdadeira, isto é, parece e é.
Assim, desenvolve-se na trama outro programa narrativo, agora de caráter reflexivo, ou seja, em que o sujeito do fazer (S1) e o sujeito do estado (S2) são concretizados a partir do mesmo ator (BARROS, 1990, p. 23). Aqui, no caso, por Gilbert, que tem como objeto-valor um objeto modal representado por um saber que, inicialmente, se crê como verdadeiro: PN = F(ler o diário) [S1 (Gilbert) S2 (Gilbert) A Ov (saber)].
A partir do momento que Gilbert começa a leitura do diário, vamos sendo apresentados a uma meta-narrativa que vai se construindo e influenciando a narrativa principal. Em outras palavras, vamos nos deparando, no decorrer da leitura, com a presença
de um novo programa narrativo que se constitui dentro desse programa narrativo maior e acima descrito e que serve não só para justificá-lo, como também para transformá-lo, modificá-lo, principalmente, no que diz respeito à veridição desse saber que Gilbert crê em relação a seu casamento.
Logo nos primeiros cadernos, escritos nos anos iniciais de casamento, Gilbert vê a confirmação de sua crença, como se Ângela reiterasse a perfeição estabelecida pelo contrato através de sua satisfação e orgulho da condição em que se encontra. Entretanto, percebemos que a figura de Ângela se apresenta sempre em posição de subserviência ou apagada em relação à carreira promissora do marido. Ele é que sempre recebe os aplausos, que é dito como um bom companheiro, ele é que deve ser o detentor das atenções e dos elogios. Ângela assume o valor apenas de um assessório que o marido apresenta como uma de suas conquistas, como uma espécie de troféu:
Instintivamente, tomou do diário. “Gilbert”, leu abrindo-o ao acaso, “estava com um aspecto maravilhoso...” Era como se ela lhe confirmasse a observação. Naturalmente, ela parecia dizer, as mulheres julgam-no atraente. (...) Continuou a ler. “Orgulho-me de ser sua mulher!” (...) Continuou a ler. Naquele primeiro ano, ele se candidatara ao Parlamento. Fizeram uma campanha pelo seu distrito eleitoral. “Gilbert sentou-se debaixo de aplausos impressionantes”. A assistência inteira pôs-se de pé e cantou: “Pois ele é um bom companheiro”. Fiquei profundamente emocionada”. Ele também se lembrava do episódio. Ela sentara-se ao seu lado na plataforma. Via ainda o olhar que ela lhe lançara, e os olhos marejados (WOOLF, 1984, p. 157-8, grifo nosso).
No decorrer da leitura de outros diários, o nome de Gilbert começa a aparecer cada vez com menos frequência. O interesse de Ângela vai se voltando para outros assuntos, muito além da carreira do marido, que vão tomando conta das páginas de seus cadernos. O trabalho voluntário que realiza com pessoas pobres e sem nenhuma estrutura, e que tanto Gilbert zombava - “Já não era bastante cuidar dele, e da casa?” (WOOLF, 1984, p. 159) -, é um dos principais afazeres que Ângela passa a se ocupar. É nesse momento que surge na narrativa uma nova figura, enigmática e da qual desconhecemos a identidade, que estabelece uma relação inicialmente difusa com Ângela. Essa figura é a de B.M., um intelectual com quem
Ângela começa a discutir sobre questões políticas, sociais e econômicas como, por exemplo, a revolução socialista e a exploração das classes trabalhadoras pelas classes mais privilegiadas: “Eu e B.M. discutimos acaloradamente acerca do socialismo (...) B.M. fez um violento ataque às classes privilegiadas... Depois da reunião, voltei a pé com B.M. e procurei persuadi-lo. Mas é muito intransigente” (WOOLF, 1984, p. 160).
B.M. apresenta a Ângela uma realidade completamente diferente da qual estava acostumada. Ele lhe revela um mundo cheio de mazelas e sofrimentos que existe por detrás das cortinas de luxo e conforto que ela tinha ao alcance de suas mãos. Para B.M., o único caminho a se seguir era o da revolução. Era preciso mudar a configuração política do país, rever os princípios que privilegiavam os ricos e exploravam os pobres. Para Ângela, B.M. lhe trouxe o choque da realidade, a consciência dos verdadeiros valores que ela assumia em sua vida - “Emprestara-lhe livros. Karl Marx, a revolução que se aproxima” (WOOLF, 1984, p.
161). Como poderia querer o luxo enquanto tantos morriam de fome e trabalhavam exaustivamente nas fábricas para ganhar uma miséria que mal dava para sobreviver? - “B.M. contou-lhe a história de sua infância. A mãe dele vivia de biscates... Quando penso nisso, quase não suporto continuar vivendo neste luxo... Três guinéus por um chapéu!” (WOOLF, 1984, p. 161). Em outras palavras, B.M. torna-se a epifania de Ângela, o seu despertar para uma realidade antes escondida de seus olhos, encoberta, e que agora descobria da forma mais cruel possível.
Na medida em que B.M. vai se tornando mais frequente, mais citado nas páginas dos cadernos, vamos percebendo o desenrolar de uma narrativa sutil e que revela em seu núcleo um caso de traição. B.M. e Ângela tornam-se amantes, aquele passa a visitá-la quando o marido não está, ou encontram-se quando Ângela diz ir ao comitê beneficente. Por trás desse caso amoroso, há a presença de outro contrato de manipulação que é estabelecido entre os dois. B.M. passa a ser o detentor de um novo poder que Ângela começa a almejar - a liberdade, o caminho para uma vida mais significativa e sem opressão. Os objetos-valor dados pelo marido a Ângela já não lhe satisfazem mais, perderam o sentido que tinham antes de conhecer B.M., um sujeito do fazer que manipula Ângela para um querer contrário ao suscitado pelo marido: PN = F(ser livre) [S1 (B.M.) S2 (Ângela) A Ov (liberdade, não-opressão)].
B.M. é a porta de saída daquela vida opressora. Ele apresenta-lhe valores tentadores e que não podem ser recusados. Mas, e o marido? Não havia um contrato inicial com ele? B.M. provoca um querer-fazer em Ângela que não vai ser concretizado. Ele deseja que sua amante rompa o contrato e afirme-se nos novos valores em questão. Largar o marido, fugir daquela vida luxuosa, porém, ilusória, opressora e esmagadora. B.M. quer que Ângela reassuma sua identidade enquanto sujeito, liberte-se e faça a revolução em sua própria vida: “Jantei sozinha com B.M... Chegou irrequieto. Ele disse que era tempo de nos entendermos... Tentei fazê-lo ouvir. Mas recusou-se. Ameaçou dizendo que se eu não...” (WOOLF, 1984, p. 162). Contudo,
esse agir é interrompido. A manipulação por tentação assume um caráter de intimidação através de uma ameaça não-revelada, riscada de seu diário, como algo proibido de ser posto em palavras: “O resto da página fora riscado. Escrevera “Egito. Egito. Egito”” (WOOLF, 1984, p. 162).
Inferimos da narrativa que B.M. queria fugir com Ângela e, se isso não fosse possível, iria acontecer uma tragédia - “Procurou de novo. Disse-lhe que não tinha chegado a decisão alguma... Supliquei que me deixasse. Ele a coagira aqui nesta mesma casa” (WOOLF, 1984, p. 162, grifo nosso). A sua procura se tornava cada vez mais insistente. A ameaça, se caso Ângela não resolvesse tomar uma atitude, só é revelada após uma série de silêncios, de espaços em branco deixados nas páginas finais de seu diário. Poderia dar alguma resposta -“Escrevi-lhe uma carta. E depois várias páginas deixadas em branco. E depois havia isto: “Nenhuma resposta à minha carta”. E depois, mais páginas em branco; e depois isto: “Fez o que ameaçou fazer”” (WOOLF, 1984, p. 162-3). Descobrimos que B.M. se matou e que
Ângela, desolada, - “Terei coragem de fazê-lo também?” (WOOLF, 1984, p. 163) -, também se mata alguns dias depois.
A narrativa se fecha e o segredo da morte de Ângela é revelado - “Via-a diante de si.
Parada no meio-fio da calçada em Picadilly. O olhar fixo; os punhos cerrados. O carro apontou...” (WOOLF, 1984, p. 163). A dor que sentiu ao entrar em disjunção com aquele que representava a única saída de sua condição de opressão levou Ângela a uma atitude extrema. O “meio-fio” que descera assume a função de um símbolo que divide sua escolha entre a vida e a morte; de um lado o viver e, do outro, o morrer; acima do meio-fio, o retorno à mediocridade da vida que levava com o marido, e abaixo do meio-fio, uma opção de entrar em conjunção novamente com o amante morto. A morte, portanto, adquire um valor positivo, de certa maneira eufórico, para Ângela, como uma medida desesperada de recuperar o amor que lhe significava a libertação.
Entretanto, a grande questão levantada, ao término da leitura do diário, se focaliza na figura de Gilbert. Saímos, então, do programa narrativo desenvolvido pela meta-narrativa do diário e voltamos para o programa principal em que Gilbert buscava a confirmação da condição de verdade do contrato estabelecido com a esposa. O diário funciona como um instrumento de poder que possibilita a Gilbert passar de um estado inicial de não-saber, tomado na sua aparência como um saber, para outro estado final de saber. Ou seja, Gilbert passa de um não-saber sobre as reais motivações da morte de sua esposa para o seu verdadeiro motivo, inclusive que sua morte não foi um acidente, mas um ato de suicídio.
Nessa mudança há também a questão da identidade da esposa construída pelo marido. Num primeiro momento, temos uma imagem inicial específica que Gilbert toma de sua esposa, símbolo da subserviência e da fidelidade requeridas nos termos do contrato manipulatório, enquanto em outro essa mesma imagem é transformada a partir da leitura dos quinze volumes do diário deixados por Ângela como um legado ao marido. De fato, o legado não se restringe apenas à figura do diário, mas à verdade desmascarada pela meta-narrativa e que gera a sanção final do contrato manipulatório: “Recebera seu legado. Ela lhe revelara a verdade. Ela descera do meio-fio para reunir-se com o amante. Descera do meio-fio para libertar-se dele” (WOOLF, 1984, p. 163). Gilbert conclui que Ângela não cumpriu aquilo que foi exigido no contrato, Ângela mentiu.
De acordo com Barros (1990), a sanção se caracteriza justamente pelo momento em que o destinador-manipulador faz o seu julgamento do fazer interpretativo do sujeito-destinatário, ou seja, ele confirma se o fazer realizado pelo sujeito manipulado foi realmente concretizado ou não e se foi verdadeiro ou falso, mentiroso ou secreto:
Na interpretação, o destinador julga o sujeito, pela verificação de suas ações e dos valores com que se relaciona. Essa operação cognitiva de leitura, ou melhor, de reconhecimento do sujeito, consiste na interpretação veridictória dos estados resultantes do fazer do sujeito. Os estados são, dessa forma, definidos como verdadeiros (que parecem e são) ou falsos (que não parecem e não são) ou mentirosos (que parecem, mas não são) ou secretos (que não parecem, mas são), e o destinador neles acredita ou deles duvida. Para assim interpretar, o destinador-julgador verifica a conformidade ou não da conduta do sujeito com o sistema de valores que representa e com os valores do contrato inicial estabelecido com o destinador-manipulador (BARROS, 1990, p. 33, grifo do autor).
Com isso em mente, podemos construir um quadro veridictório que define a relação desses sujeitos participantes do contrato manipulatório e que nos auxilia na avaliação desse jogo de máscaras que vai sendo tecido entre segredos e mentiras, que são ou não reveladas no desenrolar do programa narrativo (FIORIN, 2005, p. 31). Como base, temos uma relação de oposição entre dois valores modais, de um lado a questão do /ser/, e de outro, a do /parecer/:

A partir desse quadro, podemos concluir que a sanção a qual Gilbert chega se pauta no desmascaramento de uma mentira, pois o seu contrato com Ângela se caracteriza por um parecer, que numa primeira instância é tido como um ser verdadeiro, mas que na realidade não é. A leitura do diário o fez entrar em conjunção com o verdadeiro modo de ser das coisas, com a verdade do fracasso de sua manipulação, causada pela atuação de outro sujeito, B.M., que também trava com seu objeto-valor, Ângela, uma relação de manipulação - “Não pôde suportar. Tinha de conhecer a verdade” (WOOLF, 1984, p. 164). Gilbert finalmente conhece a falsidade em que a sua ideia de casamento perfeito e feliz estava baseada. Foi o legado deixado pela esposa, o choque, o desmoronamento de todas as imagens e crenças. Gilbert toma a consciência de sua condição opressora - “Descera do meio-fio para libertar-se dele” (WOOLF, 1984, p. 164). O diário é apenas um motivo, o objeto transformador que o leva a encontrar a última peça do quebra-cabeça que faltava.
Referências
BARROS, Diana Luz Pessoa de (1990). Teoria semiótica do texto. São Paulo: Ática.
FIORIN, José Luiz (2005). Elementos de análise do discurso. São Paulo: Contexto.
WOOLF, Virginia (2014). “Ficção moderna”. In: O valor do riso e outros ensaios. Trad. de Leonardo Fróes. São Paulo: CosacNaify.
______. (1984). “O Legado” In: Uma casa assombrada. Trad. de José Antônio Arantes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.