Resumo: A comunidade religiosa, ao mesmo tempo que sofre influências da comunidade local, exerce influências sobre ela. A Paróquia Nossa Senhora da Conceição, no bairro do Tatuapé na cidade de São Paulo, é um exemplo de comunidade eclesial que traz reflexos ou resíduos do processo de expansão geográfica e populacional local. O presente artigo busca compilar alguns relatos e informações sobre o bairro e a Paróquia do Tatuapé, de forma a revelar os processos de mútua influência e concatenação. A análise dos cenários tatuapeenses é realizada com base em retratos etnográficos do bairro e da comunidade eclesial. A religião no contexto metropolitano intensifica os processos de subjetivação da vivência e da organização religiosa, o que faz do cenário retratado um relevante estudo na Ciência da Religião.
Palavras-chave: CleroClero,Cidade de São PauloCidade de São Paulo,LeigosLeigos,Paróquia Nossa Senhora da ConceiçãoParóquia Nossa Senhora da Conceição,TatuapéTatuapé.
Abstract: The religious community, as it suffers the influence of the local community, exerts influence on it. The Parish of Nossa Senhora da Conceição, in the neighborhood of Tatuapé, São Paulo, is an example of an ecclesial community that contributes to the reflection or effects of the process of local geographic and population expansion. The aim of the article was to compile reports and information about the neighborhood and the parish of Tatuapé in order to reveal the processes of mutual influence and concatenation. The analysis of the scenario of Tatuapé was based on the ethnographic portrait of the neighborhood and the ecclesial community. Religion within the metropolitan context intensifies the subjective processes of religious experience and organization, which makes it a relevant study in the Science of Religion.
Keywords: Clergy, São Paulo city, Laypeople, Parish of Nossa Senhora da Conceição, Tatuapé.
Artigos: Dossiê
Entre clérigos e leigos: relatos históricos da comunidade católica do Tatuapé
The clergy and laypeople: Historical reports of a catholic community in Tatuapé
Recepção: 02 Março 2016
Aprovação: 09 Maio 2016
O bairro do Tatuapé tem uma história repleta de paradoxos. Ao mesmo tempo que se encontra atualmente numa das áreas mais valorizadas financeiramente e mais adaptadas à vida metropolitana, tem uma história de pouquíssimos registros. Também oscila entre uma vivência predominantemente rural e uma guinada urbana que acontece apenas do século XX, muito diferente de toda a região, que foi industrializada e urbanizada ainda no século XIX. Dentro desse processo encontram-se histórias que ajudam a entender o bairro. É importante ressaltar primeiramente que este artigo não tem a intenção de fazer um minucioso relato histórico sobre as origens e o desenrolar da história do Tatuapé. Antes, objetiva trazer alguns dados e relatos sobre o bairro onde está situada a Paróquia Nossa Senhora da Conceição (NSC).
O artigo visa traçar um breve panorama histórico do bairro e da comunidade paroquial do Tatuapé para perceber a influência que a constituição social local exerce sobre a paróquia. A metodologia utilizada se aproxima de um relato etnográfico. Ignorar as influências da vida cotidiana seria descontextualizar todas as atividades e organizações paroquiais e, ao mesmo tempo, criar uma cisão entre o religioso e o civil, ou o sagrado e o profano, o que não condiz com as estruturas sociais e religiosas brasileiras e católicas. Os relatos aqui apresentados pretendem situar o leitor na vida e na história de uma população que se constituiu primeiramente como área rural da cidade de São Paulo, assim acompanhando o desenrolar da vida religiosa da Paróquia NSC.
Pode-se falar que desde os tempos antigos o bairro do Tatuapé já estabelecia sua relação com o catolicismo. Em 1655, o padre - então licenciado - Mateus Nunes de Siqueira2 comprou as terras da região (Figura 1), que já haviam pertencido a Rodrigo Alves e seu filho e, anteriormente, a Brás Cubas (1507-1592), que fundara a cidade de Santos e chegara a São Paulo em 1560, aí se instalando.

O padre possuía muitas posses e, com seus muitos criados e índios escravos, desenvolveu vasto trabalho agrícola às margens do rio Tatuapé3. Consta ainda que o trabalho agrícola, desenvolvido desde a época de Brás Cubas, contava com criação de gados e porcos, cultivo de cana e uvas, além da fabricação de vinhos. Outra relação do bairro com a religião foi, no mesmo período, a construção de uma "ermida votada a Santo Antônio"4, pelo fundador do bairro, Brás Cubas. Construindo a ermida e instalando-se à beira do riacho, esses viajantes optavam por não mais andar à procura de riquezas, acreditando que ela pudesse estar ali mesmo (PONCIANO, 2001).
Sobre padre Mateus, o cronista Pedro Abarca5 afirma que a ele se deve o início de uma "imersão sólida" na vida da cidade de São Paulo (ABARCA, 1997, p.23). A ideia de progresso está relacionada aqui à capacidade de explorar a terra, os animais e o trabalho. O Tatuapé começa a se caracterizar como lugar de produção agrícola e pecuária. Não seria exatamente uma imersão sólida na vida da cidade de São Paulo, se ela é entendida como o fato de o bairro acompanhar o desenvolvimento da cidade, visto que o Tatuapé terá uma trajetória que o coloca sempre em desvantagem ou atraso, em comparação aos bairros da redondeza. A virada acontecerá apenas no século XX, quando o Tatuapé, impulsionado pela especulação imobiliária, será economicamente valorizado6.
Quanto à figura do fundador do bairro, Brás Cubas, há suposições de que teria subido a serra à procura de ouro e pedras preciosas. Ao deparar-se com o ribeirão Tatuapé, percorreu seu curso e constatou que sua foz era o chamado rio Grande, depois denominado rio Tietê (ABARCA, 1997). Abarca desconhece se as terras pertenceriam à sesmaria de Brás Cubas, formada por uma área bem mais vasta do que aquela onde hoje se encontra o bairro do Tatuapé (ABARCA, 1997). A região, chamada então de Freguesia de Nossa Senhora da Penha, e à qual pertencia o Tatuapé, era extensa e já havia se desmembrado de outra, chamada então de Freguesia de Nossa Senhora do Ó. O que era entendido como bairro do Tatuapé era uma triangulação entre o bairro da Penha, o rio Tietê e a região hoje conhecida como Anália Franco. Depois é que bairros irão se desmembrando e o Tatuapé assumirá a expansão que tem atualmente (PONCIANO, 2001).
Contudo, há indícios de que, quando da chegada de Brás Cubas, a região não estava vazia, mas ocupada por índios da tribo dos piqueris (PONCIANO, 2001). Não são encontradas maiores informações sobre o modo de vida desses índios nem sobre o que haveria acontecido com eles após a chegada de Brás Cubas ao Tatuapé. Também não há informações sobre se padre Mateus Nunes Siqueira escravizou índios da região ou se os trouxe de outros lugares, mas é certo que fazia uso de índios escravizados nos trabalhos em suas terras (PONCIANO, 2001).
O comércio no Tatuapé constitui um episódio repleto de características peculiares, que podem trazer indícios do que viria a ser a região no final do século XX e início do XXI. As ruas Celso Garcia e Tuiuti - esta última, onde fica localizada a igreja NSC -, são repletas de comércio, em sua maioria, popular, embora também apresentem alguns pontos mais sofisticados. Além disso, o bairro conta com a presença de vários shoppings que trazem para o bairro muitos consumidores de várias regiões de São Paulo.
Muitas das informações acerca do comércio tatuapeense são fornecidas pelo cronista Pedro Abarca, que consegue relatar com bastante riqueza de detalhes algumas situações, dentre as quais os armazéns, as vacarias (que vendiam leite) e os mascates. Apesar da ausência de datas, entende-se que aquelas práticas fossem próprias do século XX, por trazerem algumas características de moradia e produção já próprias desse período.
Os empórios, armazéns e vendas, como eram chamados, praticamente forneciam de tudo. Um dos primeiros da região foi a do seu Amadeu, mais conhecido como "Caipira". Seu estabelecimento ficava na avenida Celso Garcia, defronte da atual biblioteca Cassiano Ricardo. De Guararema, Arujá, Santa Isabel, Itaquaquecetuba e de outras cidades do interior chegavam diversas mercadorias para seu armazém. O "Caipira" tinha em seu estoque: feijão, arroz, batata, mandioca, rapadura, patos, perus, galinhas, porcos, coelhos etc.
Os armazéns vendiam os grãos e cereais a granel; os animais, vivos. Coisa absolutamente natural encontrar-se nessas casas, além dos produtos citados, cordas para poço, tamancos, vassouras, tabaco em corda, linhada para pesca etc. O café, recebido pelos proprietários em grãos crus, era torrado e moído no local.
No baixo Tatuapé, ao longo da Celso Garcia, a clientela era atendida por diversos armazéns: o do Merege, o do Evaristo Frugolli e o do Correia, respectivamente na esquina da Tuiuti, Ivaí e Almirante Calheiros [...]. (ABARCA, 1997, p.43).
Os armazéns eram comuns em lugares mais interioranos, o que revela duas hipóteses viáveis. A primeira é ser a cidade São Paulo, no início do século XX, um lugar bastante interiorano. A segunda é ser o Tatuapé, bairro ainda bastante rural, um lugar com características interioranas, em contraste com a cidade que crescia, mesmo que timidamente.
Sendo o centro da cidade um lugar distante e sendo ainda precária a locomoção até os centros comerciais, as compras nos armazéns se tornavam uma prática bastante viável, visto que os donos recebiam mercadorias e ofereciam aos moradores do bairro vasta gama de produtos. Dona Alminda7 informa ainda que as compras eram feitas nos bairros comerciais da cidade, citando a região da rua Augusta.
Não tinha muito comércio. Era tudo residência. Pra comprar as coisas, tudo o que eu queria ia pra cidade. Aqui não tinha nada, loja CEM pra você comprar alguma coisa não tinha. Não tinha shopping, nada disso. [...] Tinha que sair pra comprar as coisas longe, nos bairros mais de comércio, como era na Augusta e aqui não tinha nada. Então mudou. Hoje o comércio é muito grande. A praça era residência. Não tinha comércio.
O bairro contava com a presença de pequenos comércios. Quando as pessoas precisavam comprar algo de maior valor, recorriam às lojas da região central da cidade. A prática comercial do Tatuapé era marcada pelas relações cotidianas, a exemplo das cadernetas utilizadas pelos comerciantes. Descreve Abarca (1997, p.43):
Outro detalhe importante a considerar nesse comércio: devido as [sic] grandes dificuldades econômicas pelas quais passava a maior parte das famílias, os vendedores lançavam mão das cadernetas. Estas eram preenchidas todos os dias de conformidade com as mercadorias levadas. No final do mês, eram somadas e pagas pelos fregueses.
O uso de cadernetas é prática comum em comunidades onde as pessoas têm convívio permanente. O grande número de armazéns, citado no excerto anterior, revela uma prática disseminada por todo o bairro. Esses armazéns serão chamados em outras cidades de "secos e molhados" e são bastante conhecidos no interior do estado paulista.
Mas nem tudo era vendido nos armazéns; havia outros vendedores trabalhando como ambulantes, que iam até as casas para oferecer seus produtos. Talvez o mais cotidiano deles fossem os leiteiros, que diariamente entregavam seu produto em vasilhames de vidro, recolhendo-o vazio no dia seguinte.
O grande número de vacarias existentes na região facilitava o abastecimento de leite. Os proprietários das vacarias tinham considerável freguesia nos bairros mais centrais. A distribuição era feita por meio de carroças puxadas por burros, sendo o leite acondicionado em latões. Os moradores do bairro o compravam junto às porteiras desses estábulos ou em suas portas (ABARCA, 1997, p.44).
Não demorou muito tempo para que os trabalhadores das vacarias sentissem os reflexos do processo de industrialização. Nos anos 1930 iniciou-se a distribuição de leite pasteurizado pela Companhia Vigor - mas o transporte para distribuição era o mesmo: carroça puxada por orelhas de burro. Já "a carroceria, no entanto, constituía-se de um tanque de aço, totalmente fechado, pintado de branco. Em sua parte traseira levava uma torneira para encher as garrafas ou vasilhas dos fregueses" (ABARCA, 1997, p.44). As vacarias foram desaparecendo, por causa das exigências sanitárias que passaram a ser comuns à época.
Com menos frequência que os leiteiros, também os mascates passavam pelas ruas do bairro e eram tão comuns que ganhavam apelidos.
Mascates, judeos [grafia do autor], sírios e libaneses, também faziam suas visitas certos dias do mês. Carregavam uma verdadeira loja em suas grandes malas: carreteis de linha, pentes, cadarços, meias, lenços e uma infinidade de peças. Alguns se especializavam em joias de ouro, prata e bijouteria fina. Ao mesmo tempo em que vendiam essas coisas, compravam peças de ouro "velho" por ninharia e as revendiam no centro da cidade. Estes homens parcelavam as compras em prestações a perder de vista. Pacientes e educados, voltavam quantas vezes fossem necessárias para cobrar uma única parcela. Excelentes negociantes, dificilmente perdiam uma venda. Insistiam, insistiam, até dobrar o freguês. Não importando a região de onde procedessem, todos indistintamente eram apelidados pelo povo por "turco de prestação" (ABARCA, 1997, p.45).
Apesar de fazerem parte da vida do bairro, não há maiores informações sobre o local onde residiam, quantos eram ou se eram vistos como um grupo minoritário. As crônicas que retratam os trabalhos dos mascates8 parecem colocá-los como subgrupo, dando atenção e destaque maior aos europeus.
Não foi encontrada literatura que relacione esse comércio, ainda nos moldes interioranos, ao comércio atualmente existente em grande quantidade no bairro do Tatuapé. O comércio existente no início do século XX, em sua maioria, não resistiu ao tempo, tomado que foi pela vasta quantidade de produtos industrializados que chegaram à região. Outro elemento que será um fator de influência para a transformação do comércio local é o transporte ferroviário, como se discute a seguir.
Provavelmente entre os assuntos mais relevantes para este estudo, as modificações trazidas pelas várias configurações do transporte público no Tatuapé o transformarão em um bairro central, por seu fácil acesso. Essa situação se torna mais evidente na praça Sílvio Romero, lugar utilizado como uma espécie de "terminal" para os ônibus que transitam pelo bairro e fazem conexão deste com o restante da cidade. A praça também fica consideravelmente perto (aproximadamente 900m ou cinco quarteirões) da estação Tatuapé do metrô e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) (Figura 2), o que facilita o acesso de pessoas de fora do bairro à igreja NSC.

Em 28 de julho de 1875 foi inaugurada uma linha férrea entre o Rio de Janeiro e o povoado paulista de Cachoeira, situado a aproximadamente 205 quilômetros de São Paulo. Depois, em 1977, foi inaugurado um novo trecho, ligando esta cidade a Cachoeira e, consequentemente, ao Rio de Janeiro. A primeira linha foi construída pela Companhia da Estrada de Ferro de Dom Pedro I, mais tarde denominada Estrada de Ferro Central do Brasil (ABARCA, 1997, p.74).
Em 6 de novembro de 1875 inaugurou-se o trecho que liga o bairro do Brás a Mogi das Cruzes. Depois surgiram seis estações: Brás, Mooca, Belém, 4ª, 5ª e 6ª paradas, estas três últimas instaladas na região do Tatuapé, na região onde hoje se encontram as ruas Álvaro Ramos, Tuiuti e Antônio de Barros (ABARCA, 1997, p.74).
A chegada do trem - e especificamente a estação localizada no bairro - faz com que seus habitantes sejam inseridos nas rotas do transporte coletivo. Consequentemente, o bairro é inserido no contexto urbano. O Tatuapé já não é um bairro tão distante do restante da sociedade como era até então, tornando-se mais viável morar em suas redondezas. Mas o trem não extingue do Tatuapé suas características rurais, que continuarão presentes em forma de traços residuais.
Em 1901, a Light, que também era responsável pela iluminação da cidade, instalou a linha de bonde elétrico Centro-Penha. O Tatuapé era favorecido, apesar de não estar diretamente ligado à linha. No final dos anos 1960 as linhas de bonde foram extintas (ABARCA, 1997).
Interessante fato é que os bondes modernos contrastavam com o trabalho de carroceiros, que eram os maiores responsáveis pelo transporte de mercadorias pela cidade. O Tatuapé oferecia tanto animais como a manutenção deles em seus pastos (ABARCA, 1997). Era como se o Tatuapé fosse uma zona rural do Brás.
O bonde estava distante dos extremos do bairro do Tatuapé. No bairro havia as jardineiras, pequenos ônibus, "lateralmente abertos e equipados com estribos e bancos paralelos, facilitando a entrada dos passageiros em qualquer ponto" (ABARCA, 1997, p.77), que eram responsáveis pelo transporte no interior do bairro.
Aos poucos o uso do transporte coletivo foi se intensificando, o que colocou os habitantes do bairro em contato com o restante da cidade. Foi instalada na praça Sílvio Romero, na década de 40, a linha de ônibus 34, pertencente à CMTC, com ponto final na rua Tuiuti. Assim, ligava-se o bairro ao viaduto Santa Efigênia, Capitão Salomão e finalmente à Sé (ABARCA, 1997).
Em 1981 chega a linha de metrô9. Já numa configuração diferente, o Tatuapé se insere com força no cenário urbano de São Paulo, tornando-se uma referência para a região adjacente. Seus imóveis se valorizam, sua população aumenta e seus moradores são seduzidos pela "qualidade de vida" e pelo comércio local, ao mesmo tempo que se coloca como problema o trânsito presente no bairro (DNA PAULISTANO, 2009, p.341).
Um complicador para o trânsito do bairro pode ser a escassez de vias de acesso à região central, sendo a Radial Leste a principal delas. Pouco antes da construção da linha vermelha do metrô, foi realizada a obra de alargamento das ruas Alcântara Machado e Melo Freire - chamadas popularmente de Radial Leste -, via que liga grande parte da Zona Leste ao centro e, consequentemente, afunila o trânsito da região, causando consideráveis engarrafamentos.
O Tatuapé assume hoje a característica de ser um centro comercial e administrativo da região. Desde 1934 o bairro já era distrito (ABARCA, 1997, p.29), assumindo a característica de local de prestação de serviços: jurídicos, culturais, esportivos10, administrativos e públicos. Sua configuração comercial, seja pela presença de lojas de comércio popular, seja pela presença dos shoppings, coloca-o como parte de um circuito comercial. É muito comum, nas calçadas da rua Tuiuti, encontrarem-se vendedores ambulantes - e dentre eles alguns haitianos11 - com seus produtos populares importados, que também são encontrados nas lojas de rua.
Até o início do século XX o bairro do Tatuapé se caracterizou principalmente pelas atividades de agricultura e pecuária, facilitadas pela vasta pastagem existente na região. Mas, nesse período de aproximadamente quatro séculos, podem-se encontrar no bairro várias atividades como as olarias, o comércio e as produções manufaturadas que implicarão as peculiaridades que o bairro apresenta em relação aos outros da mesma região.
Diferente das regiões adjacentes, que iniciarão seu processo de industrialização na segunda metade do século XIX, as indústrias farão parte da história do Tatuapé apenas na segunda metade do século XX. Esse período implicará mudanças significativas na estrutura do bairro e, consequentemente, no cotidiano de seus moradores. Aqui se discorre sobre algumas delas, com o objetivo de apontar como a história do bairro trouxe implicações práticas que influenciam a relação dos atuais moradores com a cidade12.
Nos trabalhos rurais desenvolvidos no bairro, as práticas de plantação de uva, a produção de vinhos da família Marengo e as olarias na região do rio Grande, atual Tietê, merecem maior atenção, não só por estarem diretamente relacionadas com a chegada dos imigrantes, mas também por trazerem consigo mudança significativa nos modos de produção.
Por volta de 187013, alguns italianos da família Marengo trouxeram mudas de uvas dos Estados Unidos, e o plantio ganhou extensão no bairro (PONCIANO, 2001). A família aumentou consideravelmente a área de suas propriedades, constituindo-se como um dos grandes nomes na região. Em 1887, Marengo comprou 24 mil m2 de terras no Tatuapé (ABARCA, 1997) e, posteriormente, mais 92 mil m2 (ABARCA, 1997). A família passou a empregar muitas pessoas e, com sua vasta produção de vinhos, inseriu o Tatuapé na vinicultura nacional.
Por volta de 1930, ganhou extensão o trabalho de olarias, que fabricavam tijolos e telhas, aproveitando o solo argiloso da região próxima ao rio Tietê, que era usado para escoar a produção (PONCIANO, 2001). Apesar de tais práticas não constituírem um trabalho propriamente industriário, é o desenvolvimento delas que dará origem às indústrias no Tatuapé.
As características rurais são presentes na história do Tatuapé. Costumes, relacionamentos com vizinhança, famílias "expandidas" ou clãs, eram comuns. As famílias chegavam ao Tatuapé e se reuniam em grupos étnicos que passavam a constituir costumes e tradições (ABARCA, 1997). Há registros de presença italiana e, sem maiores informações, de presença portuguesa, síria e espanhola (ABARCA, 1997, p.42).
A povoação do Tatuapé por imigrantes está diretamente ligada ao processo abolicionista14. Ficavam na capital os imigrantes que vinham com recursos próprios. Os que não os tinham deslocavam-se para o interior do estado a fim de trabalhar nas lavouras de café. Na capital, o local mais procurado era o Brás, por sua proximidade com a cidade e pelas oportunidades de trabalho, como também pela melhor infraestrutura urbana (ABARCA, 1997). Assim, o Tatuapé era a "periferia" da época, acolhendo aqueles que viviam dos trabalhos rurais ou trabalhavam nos bairros já industrializados, e o escolhiam para moradia, por ser mais barato.
Várias são as atividades industriais que fizeram parte da história do Tatuapé, e há várias que ainda hoje continuam presentes no bairro. Mais que números ou dados, este trabalho pretende estudar o modo como a instalação das indústrias exerceu influência sobre o bairro, transformando a vida de seus habitantes e trazendo para seu convívio pessoas de toda a região. Sem preocupação com a totalidade dos dados, são aqui apresentadas as indústrias que foram mais relevantes, seja para a vida do bairro, seja para a região da praça Sílvio Romero, lugar onde está a igreja NSC.
A família do conde Francisco Matarazzo (1854-1937) exerceu grande influência no bairro do Tatuapé no início do século XX e é um nome importante na história de sua industrialização. Esse conglomerado de indústrias continuou fazendo parte da vida dos habitantes do bairro até a segunda metade do século. Na rua Tuiuti, na primeira metade do século XX15, a família instalara as Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo; Tecelagem de Seda, Tecelagem de Seda Piqueri, Tecelagem de Seda Piloto e Tecelagem de Seda Modelo são alguns dos nomes atribuídos às fabricas da família. Elas produziam tecidos de algodão e de seda natural e artificial. Devido à grande concorrência causada pelo surgimento de novas indústrias, as fábricas tiveram seus trabalhos encerrados em 1973. Tem-se a informação de que, após esse período, o grupo abriu um supermercado chamado Superbom, no mesmo prédio, mas não há datas sobre o período de funcionamento. No ano 2000 os prédios foram demolidos e deram lugar a empreendimentos imobiliários.
A família Matarazzo ainda instalou no bairro uma panificadora, responsável pela produção, segundo os slogans divulgados à época, de "pão, pãezinhos e bolo", e também um pastifício de massas alimentícias à base de semolina, farinha e ovos, que empregava entre 30 e 40 operários. A crise devida ao avanço industrial no Brasil e a concorrência levaram ao fechamento desses negócios em 1950, e o espaço foi vendido à Philco Rádio e Televisão Ltda.
Além das duas primeiras indústrias do bairro - a Cia. Imperial de Indústrias Químicas e a Tecelagem Tatuapé -, outras começaram a surgir. A seguir vieram o Cotonifício Guilherme Giorgi, a Tecelagem Textília e a fábrica Tabacow. Da década de 1930 a 1960, criou-se um verdadeiro polo industrial na região, abrangendo vasta gama de produtos. Na praça Sílvio Romero se situavam a Macalbi, da família de Hélio Del Papa, e o depósito Tupi (ABARCA, 1997).
Há um contraste histórico entre o Tatuapé e os outros bairros da Zona Leste próxima do centro. Bairros como o Brás, Mooca e Belém industrializaram-se com maior rapidez e foram urbanizados de maneira mais evidente. Até a década de 1930, o Tatuapé não contava com ruas asfaltadas, enquanto o Brás era um bairro com maior infraestrutura (ABARCA, 1997). Mas não era essa uma questão de proximidade com o centro: o bairro da Penha, mais afastado, também se desenvolveu antes. O Tatuapé era uma vasta área rural (ABARCA, 1997).
A Serraria Santa Rosa, a família Frassi, construtores de batelões] e Raphael Boccia e Américo Campanella], fabricantes de carroças e charretes as exceções. A Companhia imperial de Indústrias Químicas e a Tecelagem Tatuapé, do grupo Santista, foram as primeiras empresas de maior vulto a se instalarem no bairro (ABARCA, 1997, p.140).
Pode-se perceber nas crônicas bem detalhadas de Pedro Abarca a ideia de que o progresso e desenvolvimento estão relacionados à inserção do bairro no processo de industrialização comandada por algumas famílias. Há nas crônicas a noção de que o urbano e o industrial são sinônimos de progresso e desenvolvimento. Nestes parágrafos, o presente estudo assume o termo usado pelo autor, mesmo sabendo de todas as suas complicações como fonte de descrição de um período histórico.
Por volta da década de 1950, muitos nordestinos passaram a morar na região do Tatuapé. Conversando com dona Alminda, baiana que mora em São Paulo desde a década de 1950, pode-se perceber a presença nordestina. Ela relata que veio a passeio e acabou ficando no bairro:
Eu tinha dois irmãos que moravam aqui. Trabalhavam aqui. E a minha irmã que tinha ficado viúva e meus irmãos, como ela ficou viúva muito nova, com 22 anos, meus irmãos falaram pra ela vir pra cá pra passar uns tempos aqui. Ela andava muito triste. E eu vim com ela, fazendo companhia. Ela terminou voltando e eu fiquei porque eu já casei.
As pessoas que vinham do nordeste escolhiam morar no Tatuapé por ser mais barato. O bairro tinha menos estrutura que os outros da região, sendo menos urbanizado. Segundo dona Alminda, "o Belém é como está hoje, só que abriram algumas ruas lá, mas não tem muita diferença". Seu esposo, empregado da indústria de tecelagem, trabalhava em outros bairros, como a Mooca e o Caxangui. Apesar das incertezas de sua fala, há informações a respeito quando ela relata:
Olha, eu não me lembro assim do trabalho das pessoas. Mas eu creio que não era trabalho aqui no bairro. Era fora. Olha meu marido, meu marido trabalhava numa indústria de roupa na Mooca e logo foi transferido pro Caxingui, logo que nós casamos. E você vê, daqui até o Caxingui era muito longe. Por aqui não tinha. Aqui tinha muita fábrica.
As poucas indústrias que, segundo dona Alminda, rodeavam a praça Sílvio Romero e a Rua Tuiuti, onde está situada a igreja NSC, provavelmente transformaram o cotidiano das redondezas. Junto das fábricas vieram os postes, cabos elétricos e transformadores, lâmpadas e asfalto, rede de água e canalização do esgoto (ABARCA, 1997, p.141). Se, por um lado, a industrialização fez com que o bairro perdesse muito de suas características interioranas, por outro, inseriu-o no contexto urbano da cidade de São Paulo.
Com uma história ainda recente, a Paróquia NSC conta, paradoxalmente, com muitas transformações, desde que foi erguida a capela dedicada a Nossa Senhora da Imaculada Conceição, até se transformar na igreja localizada na praça de maior referência do bairro. Em meio ao comércio e a inúmeros edifícios, a igreja se mistura à paisagem com seu ar moderno da década de 1970, sendo também rodeada por elementos que resgatam a história de bairro rural: os idosos que jogam dominó e as pessoas que participam da paróquia desde os tempos em que o bairro não contava com transporte coletivo.
Neste trabalho acerca do bairro e da Paróquia do Tatuapé, fez-se uso de pesquisa bibliográfica, pesquisa nos arquivos paroquiais e pesquisa da tradição oral. Acredita-se que a interlocução desses três elementos ajudará a construir uma breve, porém mais completa historiografia do bairro e da Paróquia NSC.
As irmandades exercem influência em grande parte do Brasil desde o século XVIII até o XX. Com grande pujança na região sudeste, as irmandades representam grupos sociais bem específicos. Elas se dividem entre negros e brancos, elite e escravos, e acabam por manifestar conflitos entre leigos e clérigos (RANGEL, 2005). Vindas das tradições portuguesas, as confrarias e irmandades passam a exercer importante papel na organização da Igreja Católica no Brasil, angariando fundos e construindo templos que ficam sob sua administração. Algumas passarão a estar sob a égide de ordens religiosas seculares, como a dos carmelitas e franciscanos (SALLES, 2007). A cidade de São Paulo está inserida nesse cenário.
Concomitante à valorização das confrarias e irmandades na organização da Igreja Católica, encontra-se um universo delegado aos leigos, que são os responsáveis pela administração desses organismos.
Além disso, as irmandades constituem espaços de organização da sociedade paulistana, uma vez que através delas as pessoas podiam expressar suas ideias e culturas, bem como participar politicamente da sociedade. As irmandades demonstram certa autonomia e, ao mesmo tempo, uma adaptação das organizações de modelo europeu. O catolicismo do Brasil colonial e, dentro dele, o de São Paulo, se configura como espaço de organização também laical (SANTOS, 2005).
As irmandades se fizeram presentes também no bairro do Tatuapé. A primeira menção encontrada nesta pesquisa acerca da Paróquia NSC é a notícia da construção de uma capela dedicada à Imaculada Conceição (Figura 3). Em 1890 o Tenente Luís Americano recebeu do governo do estado a doação de 100 mil m2 em terras devolutas. Desse terreno, ele doou 7,5 mil m2 para a construção da igreja, que foi erigida com doações da comunidade local. A praça ganhou o nome de Largo da Conceição e, conforme os dados oficiais, a capela foi fundada em 8 de outubro de 189916.

As atividades locais se resumiam às festas de Corpus Christi e da Imaculada Conceição. É com o padre Adelino Jorge Montenegro, sobre quem não se encontrou nenhuma informação, que se iniciam, entre 1901 e 1902, as Irmandades de Nossa Senhora da Conceição, de São Benedito e de Nossa Senhora do Bom Parto. Essas irmandades passarão a ocupar a capela para a festa de seus respectivos padroeiros, por ordem do bispo D. Antônio Cândido de Alvarenga.
As irmandades não participaram da construção da capela, apesar de muito provavelmente serem formadas pelas mesmas pessoas envolvidas na obra, dado o pequeno número de habitantes do local. Contudo, foram as irmandades que iniciaram no bairro do Tatuapé aquilo que estaria mais próximo de uma vida comunitária paroquial. Essas irmandades foram encerradas por ocasião da Revolução de 1924, e a comunidade voltou a se mobilizar apenas para as festas da Imaculada Conceição e de Corpus Christi.
Em 1938 ressurgiu a irmandade de Nossa da Conceição. Foi reformada a capela, que naquele momento estava sob jurisdição da Paróquia de Nossa Senhora do Bom Parto, também do Tatuapé, passando então a contar com mais intensa atividade religiosa.
Em 1950 a comunidade local começou a utilizar um salão para a realização dos cultos e atividades comunitárias, já que a capela não mais suportava a população, que acompanhava o crescimento da cidade, mesmo que isso se desse a passos lentos. A praça onde ficava a capela, hoje chamada de Sílvio Romero (e que na ocasião da construção se chamava Largo da Conceição) (Figura 4), passou por vários processos de tentativa de apropriação e desapropriação. Em 1890, o imóvel tinha sido considerado terra devoluta e, se não fosse utilizado, voltaria ao domínio estatal. O próprio Tenente Luís Americano, que havia ganhado as terras, doou parte delas para a construção da capela. Mas havia a necessidade de regularização por parte da comunidade NSC, o que só foi feito na década de 1950. A prefeitura alegava que a praça era terra devoluta e por isso deveria ser devolvida ao poder público, enquanto a comunidade católica tentava o direito sobre o terreno, alegando usucapião. A justiça deu ganho de causa à comunidade católica, e o prefeito de então, Jânio da Silva Quadros, não recorreu da decisão.

A comunidade cresceu e a pequena capela fundada no final do século XIX não mais comportava a população local. Decidiu-se então construir uma nova igreja. Esse episódio acompanhará a história da comunidade na segunda metade do século XX e terá como grandes personagens os padres Arthur e Luís Puente Plana, dois irmãos espanhóis que muito influenciarão a sociedade local.
A Paróquia NSC, fundada em 21 de abril de 1960 e implantada em 9 de outubro do mesmo ano, recebeu em 1968 os irmãos padres Arthur e Luís Puente Plana, que trabalharam na paróquia até 1998. Padre Luís exercia a função de pároco, à época denominado vigário, figura incumbida de tarefas mais administrativas, enquanto Padre Arthur era responsável pelas questões pastorais. Dona Alminda ilustra a parceria entre os dois quando relata: "[...] o padre Luís era mais pra trabalhar. Assim na paróquia, na construção e tudo. Já o padre Arthur era evangelizando mesmo. Com os jovens, com os casais [...]". Até então, a Paróquia NSC era administrada em conjunto com a de Nossa Senhora do Bom Parto. Os dois padres, que antes trabalhavam no bairro da Penha, exerceram grande influência na história da Paróquia NSC na segunda metade do século XX. Essa influência se deu em dois aspectos. O primeiro foi a construção da igreja (Figura 5) que tomou o lugar da antiga capela e não só mobilizou grande parte da comunidade, como também foi responsável por uma nova concepção eclesial. Esta, por sua vez, levou ao segundo aspecto: o engajamento em trabalhos que extrapolam a questão cúltica, dando à paróquia um maior envolvimento com a vida cotidiana e social.

Para reconstruir a história da paróquia no período de 1968 a 1998, anos em que padre Arthur e padre Luís atuaram no Tatuapé, foi feito uso dos arquivos paroquiais, principalmente dos periódicos, que foram iniciativa do padre Arthur. O periódico intitulado Sílvio Romero entrou em circulação em outubro de 1977, não tendo sido encontrados os últimos números. Mas há, nos arquivos paroquiais, grande parte de exemplares dos primeiros anos de circulação. Principalmente os primeiros periódicos, apesar de não trazerem muitos dados sobre as ocupações e atividades dos dois padres em específico, fornecem muitas informações sobre a maneira como eles organizavam a paróquia e sobre as perspectivas pastorais assumidas. Essas informações serão, nos parágrafos que se seguem, ora amparadas e ora confrontadas com as informações trazidas por dona Alminda, que viveu cotidianamente junto dos padres Arthur e Luís e fez parte dos trabalhos pastorais e da organização da paróquia.
Os periódicos deixam transparecer sua base nas muitas leituras latino-americanas do Concílio Vaticano II, que se intensificaram com as conferências de Medellín (1968) e Puebla (1979). Tais ideias tiveram na Zona Leste como seu maior expoente Dom Luciano Mendes de Almeida (1930-2006), bispo auxiliar da Região Episcopal Belém, da Arquidiocese de São Paulo, responsável por assembleias pastorais e organização de trabalhos sociais.
Algumas características de autonomia e liderança dos leigos já eram percebidas anteriormente à chegada dos dois padres. Mas a presença deles intensificou algumas características e trouxe um estilo de trabalho que marcou as atividades paroquiais por um período de trinta anos. Descrevendo a período de trabalho dos dois padres, dona Alminda relata que "tudo o que tem [...] foi o padre Luiz e o padre Arthur que fez". Seja pela construção da igreja, grande até para os padrões atuais, seja pelas estruturas pastorais, significativas no contexto eclesial da época, o trabalho dos dois padres merece uma maior atenção para entender a história da Paróquia NSC.
Em contraste com o que ocorria anteriormente, quando as atividades da paróquia se resumiam às festas da Imaculada Conceição e Corpus Christi e o bairro possuía características predominantemente rurais e poucos habitantes, a partir de 1960 a Paróquia NSC passou a contar com um maior volume de atividades pastorais e um maior fluxo de pessoas. Isso acarretou a construção de um novo templo, bem como uma maior organização dos trabalhos da comunidade.
Em sua apresentação de lançamento, o jornal Sílvio Romero informava que as "[...] atividades comunitárias estão adquirindo um grau de complexidade e uma quantidade de equipes que gera, por vezes, um desconhecimento mútuo das diferentes áreas de serviço (JORNAL SÍLVIO ROMERO, 1977, p.1). A interação entre as atividades é colocada como um dos objetivos, mas não é o único. O próprio nome do periódico já revela o objetivo de estabelecer um diálogo com as pessoas que moram no bairro, uma vez que a praça Sílvio Romero é uma referência na região. Atribuir seu nome ao jornal revela uma estratégia que extrapola os interesses internos da comunidade. A mesma apresentação do jornal, em outubro de 1977, confirma isso, quando afirma que até nos meios eclesiais a paróquia é conhecida pelo nome da praça. Todavia, o final da apresentação traz uma informação importante, alertando o leitor: "Não pense ter em mãos mais um jornal do bairro. Não pretendemos nada disso. É apenas um meio informativo da vida eclesial, um órgão de comunicação interna da comunidade paroquial e um instrumento de propaganda da nossa fé para todos os batizados do nosso bairro (JORNAL SÍLVIO ROMERO, 1977, p.1).
No expediente do jornal constava, além da equipe própria e do editor (padre Artur), uma vasta lista de casais colaboradores, composta por cinco casais e um casal coordenador geral. Havia nesse período a prática de trabalhos eclesiais organizados por casais, o que também se observa na Paróquia NSC. Muitos desses casais também participavam do Cursilho de Cristandade, atividade consequente da Ação Católica e instrumento constantemente divulgado pelo periódico paroquial. A Ação Católica tinha nascido no início do século XX com a intenção de incentivar o trabalho dos leigos. O Cursilho buscava instrumentalizar essa ação leiga, incentivando a participação em movimentos. Depois de algum tempo de trabalho com o grupo, as pessoas costumavam assumir a participação em algum trabalho. Dona Alminda assim se refere ao Cursilho, segundo ela, trazido pelo padre Artur: "Quando fiz o Cursilho, a primeira coisa que falei lá que era a minha intenção, era fazer um trabalho de costura com os pobres. E quando eu cheguei eu iniciei isso aqui".
O primeiro periódico, de outubro de 1977, trazia a informação de que o cursilho fora escolhido, desde 1970, como um "novo tipo de pastoral", muito mais centrado na experiência pessoal, assim levando à adesão pastoral e comunitária. O periódico identificava essa adesão comunitária, formada na época por 212 pessoas, como "verdadeiras comunidades eclesiais de base". O referencial de um serviço voltado para os pobres é bastante presente, tanto nos periódicos quanto no discurso de dona Alminda. Apesar de ser chamada pelo periódico de promoção humana, tal postura parece se caracterizar mais como um assistencialismo. A coluna promoção humana divulgava: "[...] Atualmente, atendemos 18 famílias que felizmente são as únicas existentes na Paróquia. Afinal nosso bairro, já está numa faixa onde os pobres já quase não existem" (JORNAL SILVIO ROMERO, 1977, p.4). O número de casas no período era bem reduzido em comparação ao contexto atual. Mais adiante, a mesma coluna ponderava: "[...] devido a [sic] pequena contribuição dos paroquianos, não pudemos, até hoje realizar o gesto de levar à periferia uma quantidade substancial de mantimentos" (JORNAL SILVIO ROMERO, 1977, p.4). Mas, para além do conceito de promoção humana ou assistencialismo, cabe aqui ressaltar a preocupação de traduzir a fé em "gestos concretos", pelos quais a paróquia se envolve com os pobres de sua região. Observa-se ainda que não há menção sobre a intenção de trazer o pobre para o convívio comunitário.
Nesse ínterim acontece o Concílio Vaticano II (1962-1965), que traz profundas transformações na vida pastoral das comunidades, principalmente com as leituras feitas pelas Conferências do Episcopado Latino-Americano em Medellín (1968) e em Puebla (1979). Essas duas conferências foram responsáveis por uma postura eclesial de tentativa de diálogo com a realidade histórica latino-americana. Na Paróquia NSC, essas conferências implicaram uma valorização do trabalho do leigo. No tempo que precedeu à realização da Conferência de Puebla, o periódico Sílvio Romero trouxe em suas páginas a ideia de que
A grande esperança é que Puebla venha a dar uma resposta de unidade de ação, de toda Igreja na América Latina, a favor do Povo de Deus. Puebla é um momento importante na História, é uma continuação de Medellín, de integração e conscientização sempre mais intensa e mais ampla (JORNAL SILVIO ROMERO, 1978, p.11).
A valorização do trabalho laical passou a motivar a criação de organismos de administração econômica e paroquial. Na década de 1970, foi criado o Conselho Pastoral, um organismo formado por leigos e por padres responsáveis por pensar e organizar a vida pastoral da paróquia. No periódico de novembro de 1977 houve uma convocação para a reunião do Conselho Pastoral e para uma Assembleia paroquial. A comunidade paroquial começou então a ser pensada como organismo político, capaz de gerir a vida pastoral.
Mas a paróquia não vivia um momento isolado. O Plano Pastoral da Arquidiocese de São Paulo revelava o momento vivido pelos cristãos, que buscavam envolver-se em questões humanas, como o trabalho com a periferia. O objetivo do Plano Pastoral da Arquidiocese na década de 1970 foi assim apresentado: "promover a ação missionária da Igreja em São Paulo para reunir em comunidades o povo disperso, e entender as suas necessidades fundamentas a fim de que se torne sujeito de sua própria história" (ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO, c2011-2015). Em suas justificativas, o projeto falava de engajamento com a periferia e de investimentos na formação de agentes pastorais e em infraestrutura.
Durante as décadas de 1960 e 1970, muitos dos esforços financeiros da paróquia voltaram-se para a construção do atual templo, presumindo-se que os padres espanhóis provavelmente tenham conseguido alguma ajuda financeira do exterior. Mas a grande mobilização foi dos próprios paroquianos, que constantemente faziam eventos para arrecadar dinheiro para a construção. Dona Alminda relata que,
Teve alguma ajuda de fora, mas era mais daqui mesmo [...] a gente trabalhava muito. Tudo era em função da construção. [...] quermesse, [...] os chás que a gente começava a fazer. Não tinha como hoje que a gente joga bingo. Não jogava. Aquelas moças iam na loja e pediam pra eles nos emprestar roupas pra elas desfilarem. A prioridade dos chás eram os desfiles porque não podia se jogar bingo naquele tempo. E arrecadávamos o dinheiro com a entrada. Servíamos um chazinho com alguma coisa e fazíamos o desfile, mas era pago pra entrar. Tudo o que pensar de arrecadar dinheiro [...].
Cada equipe ou pastoral procurava se organizar para arrecadar fundos para a construção.
A igreja construída comporta cerca de 500 pessoas. Foi finalmente inaugurada em 1978, na mesma praça que antigamente se chamada Largo da Conceição e que depois passou a se chamar Praça Sílvio Romero. É importante ressaltar que a construção não consta apenas de uma igreja. Em sua parte inferior há um vasto salão para uso pastoral, além de salas de catequese e secretaria paroquial. Nos fundos foi construída a casa paroquial e, na parte inferior, voltada para a parte posterior da praça, há vários prédios comerciais que são alugados.
A igreja tornou-se um ponto de referência. A praça passou a concentrar um número cada vez maior de serviços. Além de comércio, conta com pontos de ônibus e táxi, posto policial, banca de jornal e feira de artesanato às terças-feiras. Além disso, tornou-se um espaço de uso da comunidade, seja para os idosos que jogam dominó embaixo de suas árvores, seja para os jovens que se reúnem nos finais de semana pela noite. Mesmo que os tatuapeenses que utilizam a praça não tenham a comunidade eclesial como referência, o templo se evidenciou no cenário do bairro.
Hoje, seja por sua relação com os paroquianos, seja pela relação destes entre si, a Paróquia NSC traz uma característica que se distingue - mesmo que não seja para a totalidade dos paroquianos - daquela existente na segunda metade do século XX, quando as relações cotidianas eram mais evidentes e mais duradouras. No que diz respeito à segunda metade do século XX, a atuação dos padres Luís e Arthur, que trabalharam na paróquia por trinta anos, fez com que eles estabelecessem relações, de modo que os paroquianos puderam criar vínculos entre si.
As informações dadas por dona Alminda mostram de forma mais evidente a convivência cotidiana do que os critérios eclesiais ou pastorais, a ponto de ela usar analogias familiares para se referir ao padre Luís: "30 anos padre aqui [...] era meu irmão, era vigário, era meu irmão, era meu pai, era tudo". Ou ainda: "A gente tinha muita afinidade aqui na igreja. Eu trabalhava no Apostolado, e ele aqui na igreja, e foi assim, muito bom. Ficamos como irmãos aqui na paróquia".
Percebe-se que os dois padres procuravam estabelecer critérios pastorais baseados no Concílio Vaticano II. Tal interpretação é possível a partir da leitura dos periódicos do final dos anos 1970, mas não se percebe que esses critérios fossem, para dona Alminda, mais importantes que a simpatia dos padres e seu carisma pastoral.
Dona Alminda era responsável pelo Apostolado da Oração, grupo formado em sua maioria por mulheres idosas, com forte apelo de trabalho e orações pelas vocações sacerdotais. Ela relata a constante presença, principalmente de padre Arthur, nas atividades do Apostolado: "Nós tínhamos reunião com ele toda quinta à tarde. Naquela época o Apostolado vinha e ele dava aula pra gente". Mas o que mais a deixava entusiasmada, e essa característica ainda é forte em seus relatos, era a presença de padre Arthur nas casas dos paroquianos. Padre Arthur "ia nas casas de família que fazia parte do grupo. Ele ia na reunião e celebrava missa". Para padre Arthur, ir às casas e celebrar missa parece ser uma estratégia pastoral para aproximar as estruturas religiosas da vida do povo. Mas dona Alminda vê entusiasmada o fato de o padre ser alguém próximo dela e de sua vida cotidiana.
Mais que isso, as relações não se limitavam ao contato entre os dois padres e o povo, mas se intensificavam entre as pessoas da comunidade. Dona Alminda lembra que era muito intenso o trabalho com a juventude: "o padre Arthur quando veio, foi uma quantidade de jovens tão grande aqui na paróquia... muito grande o trabalho dele com os jovens, e desses jovens saiu tanto casamento, inclusive o do meu filho (risos). Porque era muitos jovens, né, e eles começaram a namorar entre eles". A vida comunitária não era estabelecida apenas de vínculos e critérios pastorais. As pessoas procuravam a comunidade para conviverem entre si.
Um fato que mostra a importância dos padres espanhóis na relação com os paroquianos foi a morte do padre Luís, em 2008. Eles já não trabalhavam na paróquia, "mas o padre Arthur pediu se [o corpo do padre Luís] podia ficar aqui", relatou dona Alminda. Continuando, ela detalhou a reação dos paroquianos por ocasião do velório, quando o irmão propôs deixar fechado o salão com o corpo, para "colocá-lo [no salão] e depois fechava e no outro dia que era o enterro", conforme costume na Espanha, país de origem dos irmãos padres. Dona Alminda rejeitou: "de jeito nenhum, a gente tem que ficar um pouco rezando". O padre Arthur consentiu dizendo que "em consideração à senhora é que eu vou deixar, porque não é nosso costume", segundo depoimentos da própria dona Alminda, que acrescentou: "nós ficamos até certa hora, mandamos fazer coroa [de flores], ficou muito bonito. No outro dia de manhã até a hora do enterro ficou lotado de gente embaixo no salão. Porque foram eles que fizeram tudo isso aqui". Há que sublinhar que, apesar de falecido dez anos após ter deixado a paróquia, muita gente foi ao velório, conforme dona Alminda.
O envolvimento dos dois padres com a comunidade paroquial se perpetuou. Padre Arthur, ainda vivo, divide sua moradia entre a Espanha, onde fica parte do ano, e o Brasil, onde fica a outra parte. Quando ele está no Brasil, o grupo de senhoras do Apostolado da Oração lhe faz visitas, relatou dona Alminda.
A conversa com dona Alminda revela uma característica - em princípio, paradoxal - que pode ajudar a traçar o perfil da Paróquia NSC até a década de 1990. Há em seus relatos indícios de uma autonomia dos leigos, que chegam a pressionar um dos padres que lá trabalharam, a ponto de ele "sair fugido" da paróquia. Por outro lado, mostram uma valorização da figura do padre, a ponto de dona Alminda contar toda a história da paróquia com base na cronologia presbiteral.
Em outros momentos, a paróquia contou muito mais com o trabalho de leigos. Na fundação da capela dedicada à Imaculada Conceição, no final do século XIX, tem-se uma estrutura eclesial rural, assistida por padres que passam esporadicamente por ela. É pouco provável que os leigos da região não ocupassem a capela com atividades ligadas à religiosidade popular, apesar de não terem sido encontrados registros a respeito. Já sobre padre Adelino, ali atuante por volta de 1900, encontra-se a informação da criação de três irmandades. Apesar de estarem relacionadas ao padre, em geral as irmandades se caracterizam por serem organizações leigas que trabalham, ora em paralelo, ora em conjunto com a religião oficializada. A paróquia será criada apenas em 1960, e somente nesse período é que haverá um padre exclusivo para a comunidade paroquial.
Nas falas de dona Alminda encontra-se igualmente a transição entre a valorização da organização leiga e uma espécie de subserviência ao poder clerical. Sua vida é fortemente marcada pela relação com os padres, e o imaginário religioso é tão forte em sua vida que, quando perguntada sobre como era o Tatuapé na época em que se mudou para o bairro, logo diz que "era muito diferente porque naquele tempo não tinha prédio que nem hoje", e automaticamente emenda: "Eu não peguei a capelinha antiga. Eu já peguei a igreja do jeito que é hoje". É difícil falar com dona Alminda sobre algum assunto que não a leve a falar logo de como eram as atividades do Apostolado da Oração. Em todo assunto suscitado por ela, estão presentes as pessoas com quem se relacionou, ou aquelas com quem a relação foi mais difícil, por não conseguir estabelecer afinidades.
Relatando sobre o padre José, repudiado pelos paroquianos, dona Alminda disse que foi preciso reunir um grupo de pessoas para falar com o bispo, pois o padre não tinha bom trato com o povo.
Nós fomos falar com o bispo e o padre José saiu daqui praticamente fugido, nem esperando os resultados da reunião que o bispo havia marcado com os paroquianos no salão da paróquia. Ele deixou o sacrário aberto [...] pegou só as hóstias consagradas e foi embora, foi embora [...] pelo que sei ele se casou com uma freira.
Depois narrou com certo pesar:
Olha, eu me arrependo tanto de ter feito isso [...] devia ter conversado com ele, sei lá... Mas naquela época de renovação, ele queria mudar tudo. Ele chegou a dizer uma vez que o padre não ia ficar todas as vezes celebrando a missa e que os paroquianos é que iam tomar esse lugar [...] ele falou isso na missa [...].
Dona Alminda falou com tom de indignação sobre as mudanças que o padre queria, aparentemente impulsionado pelas interpretações do Concílio Vaticano II (1962-1965). Não se sabe o teor das ideias do padre, nem se seriam progressistas e renovadoras a esse ponto. O que se sabe é que as mesmas pessoas que não aceitaram as renovações propostas por padre José, vão logo em seguida aceitar várias propostas de renovação por parte dos padres Luís e Arthur, que o sucederão na administração paroquial. Num olhar já bem distanciado da história e tendo como fonte os depoimentos de dona Alminda, pode-se ver que a grande diferença está no modo como o padre se relaciona com o povo, muito mais que seus pressupostos teológicos ou eclesiológicos. Isso porque ela continuou falando de outras experiências a partir da relação estabelecida com os padres.
Ela se lembra com muita atenção do padre Pedro Stringhini, hoje bispo de Mogi das Cruzes, e de Dom Luciano Mendes de Almeida, bispo auxiliar da região Belém na década de 1970. Sobre Dom Pedro, ela diz que "ele era uma pessoa tão especial [...], ele ligou pra mim dizendo 'dona Alminda, a senhora ligou pra mim e agora eu estou retornando'. Ele é muito especial [...] muito especial [...] e até hoje. Eu apenas telefonei [...] e olha que ele me ligou depois". Sempre o chamando de Dom Pedro, mesmo quando se refere ao seu trabalho enquanto pároco da igreja de NSC, ela pouco fala de seu trabalho na paróquia, enfatizando muito mais a amizade construída entre eles.
Sobre Dom Luciano, diz que "ele tinha um trabalho incansável pelos pobres. Todo mundo sabe, de noite ele ia pras ruas dar o que tinha pros pobres. Ele usava aquele terninho bege que ele tinha. Uma vez nós juntamos dinheiro e demos um terno novo pra ele, mas ele continuava usando aquele velho". Ela também lembra de Dom Luciano, mais pelo contato que ele estabelecia com o povo, comparando-o com outros padres e bispos que, segundo ela, não eram presentes. Resgata duas atividades que foram articuladas por Dom Luciano. A primeira era a festa do trabalhador, realizada anualmente no Centro Esportivo, Recreativo e Educativo do Trabalhador, no bairro do Tatuapé. A festa arrecadava dinheiro para a pastoral do menor e contava com a ajuda de pastorais de toda a Região Belém, da Arquidiocese de São Paulo. A segunda era a festa da caridade, que acontecia na Mooca e tinha sua renda revertida para o Arsenal da Esperança, entidade voltada à assistência de moradores de rua. Nas duas festas, o Apostolado da Oração participava com a venda de doces.
A Paróquia NSC, longe de se estagnar, é resultado de um processo de transformações do bairro onde está inserida. A configuração da comunidade eclesial corresponde às transformações de cada período histórico. Mas há nessa história uma característica que se perpetue. Mesmo com a forte presença de padres que passam a organizar as atividades comunitárias a partir da segunda metade do século XX, há na vida paroquial uma forte presença de leigos, que oscila entre a autonomia e a heteronomia diante da presença eclesiástica. Apontam-se, por fim, os limites desta pesquisa em perceber se tal relação se faz presente ainda hoje; talvez ela apareça de forma residual, mas esta é uma hipótese a ser investigada em novas pesquisas.
*R. Monte Alegre, 984, Perdizes, 4º andar, Sala 4E-09, 05014-901, São Paulo, SP, Brasil. Correspondência para/Correspondence to: W.L. MARCHINI. E-mail: <welder.marchini@gmail.com>.




