Artigos: Dossiê

O esponsório segundo os documentos do Concílio Vaticano II

The sponsalia according to the documents of Vatican II

Ney de SOUZA *
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brazil
Susana Aparecida da SILVA
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brazil

O esponsório segundo os documentos do Concílio Vaticano II

Reflexão, vol. 41, núm. 1, pp. 83-93, 2016

Pontifícia Universidade Católica de Campinas

Recepção: 16 Dezembro 2015

Aprovação: 11 Abril 2016

Resumo:

O presente estudo tem por objetivo selecionar e analisar as referências à palavra esposa (sponsa) nos documentos do Concílio Vaticano II. Uma análise preliminar permitiu concluir que as palavras esposo ou esposa são usadas em três perspectivas nos documentos conciliares: em primeiro lugar, nota-se, com base em textos veterotestamentários, que Deus é o esposo de Israel. Em segundo lugar, a Igreja é esposa de Cristo. Em terceiro lugar, alguns textos tratam da família e da relação que deve permear a vida conjugal entre os esposos. O artigo visa também a analisar a relação entre essas passagens a fim de extrair dos textos e do contexto do concílio algumas reflexões para a teologia do matrimônio.

Palavras-chave: Esponsório, Esposa, Matrimônio, Vaticano II.

Abstract: The aim of the study was to select and analyze references to the word 'wife' (sponsa) in the documents of Vatican II. A preliminary analysis concluded that the words 'husband' or 'wife' are used within three perspectives in the conciliar documents: first, based on Old Testament texts, God would be the husband of Israel. Secondly, the Church is the bride of Christ. Third, some texts that deal with family and relationship should contemplate the married life between the spouses. The aim of the article was also to analyze the relationship between these passages in order to extract some reflections for the theology of marriage from the texts and context of the council.

Keywords: Sponsalia, Wife, Marriage, Vatican II.

Introdução

O tema do matrimônio e dos casais, muitas vezes tratados como leigos, hoje, na Igreja, torna-se cada vez mais relevante não somente pela escassez de vocações sacerdotais e religiosas, mas pela própria transmissão do cristianismo, a qual se deu, desde os primeiros tempos, pela tradição transmitida de pais para filhos. A instituição matrimonial, ainda que tão imprescindível para a vida da Igreja, torna-se uma das instituições mais invectivadas pela modernidade, sofrendo, inclusive, um processo de desprestígio, tal como recorda aos bispos o Papa Francisco em recente declaração: "Hoje, a família é desprezada, é maltratada, e o que se nos pede é reconhecer o belo, o autêntico e o bom que é formar uma família, ser família hoje; o indispensável que isto é para a vida do mundo, para o futuro da humanidade" (FRANCISCO, 2014).

Segundo a alocução do Papa, o tema da família deve ser tratado como uma redescoberta de sua importância para a vida da Igreja e da própria sociedade. Tal noção não é nova e, segundo a hipótese deste artigo, fundamenta-se em argumentos teológicos da eclesiologia do Vaticano II (1962-1965). De fato, os documentos conciliares trazem essa ideia, com inspiração em alguns argumentos teológicos, entre os quais se destaca a analogia entre o esponsório humano e o esponsório de Cristo com a Igreja. Já no anúncio oficial de instauração do Concílio, o Papa João XXIII havia utilizado a "figura da esposa" ao referir-se à Igreja:

Será esta uma demonstração da Igreja, sempre viva e sempre jovem, que sente o ritmo do tempo, e que, em cada século, se orna de um novo esplendor, irradia novas luzes, realiza novas conquistas, permanecendo, contudo, sempre idêntica a si mesma, fiel à imagem divina impressa na sua face pelo Esposo que a ama e protege, Jesus Cristo (JOÃO XXIII, 2007, n. 7)3.

Deve-se ainda levar em consideração que o Vaticano II se caracterizou como um concílio eminentemente eclesiológico, e não cristológico como os primeiros concílios (DE LUBAC, 1965). Por fim, no tocante ao uso da figura da esposa para referir-se à igreja e à sua relação com o sacramento do matrimônio, deve-se considerar a força da analogia segundo a explicação de Fries: "O termo de imagem da Igreja encerra, nesse contexto, um significado duplo: subentende a imagem no sentido de conceituação viva, de ideia clara formulada pela comunidade dos fiéis sobre o que é e deve ser a Igreja" (FRIES, 1975, p.6). Desse modo, o presente artigo visa justamente recolher, sintetizar e discutir essa analogia teológica com a qual se fundamenta a teologia conciliar do matrimônio.

Metodologia e análise preliminar

Segundo o historiador italiano Giuseppe Alberigo: "a história do Vaticano II não pode ser reconstituída a não ser sobre a base da análise crítica das fontes" (ALBERIGO, 2006, p.14). Embora não se deva olvidar que a uma adequada hermenêutica dos textos conciliares deve-se acrescentar uma hermenêutica do próprio Concílio, sem desconsiderar, ademais, o "espírito do Concílio" (ALMEIDA, 2005, p.22). O presente texto, então, parte de uma metodologia de estudo que tem como principal fonte a "análise documental" (MORBIOLO, 2010, p.41). O intento é investigar as referências à palavra sponsa (esposa) nos documentos do Concílio Vaticano II. Ao se procurar a palavra sponsa no texto latino, verificou-se que, na Dei Verbum, há duas ocorrências (nn. 8 e 23); na Lumen Gentium, há oito ocorrências (nn. 4, 62x, 7, 9, 39 e 41); na Sacrossanctum Concilium, há cinco ocorrências (nn. 7, 47, 78, 84 e 85); na Gaudium et Spes, duas ocorrências (nn. 29 e 43); na Dignitatis humanae, ocorre três vezes (nn. 5 e 152x); na Apostolicam Actuositatem, ocorre três vezes (n. 113x); na Perfectae Caritatis, ocorre duas vezes (nn. 1. e 12). Neste estudo, serão analisados o texto e o contexto dessas referências a fim de se sintetizar a teologia do esponsório nos documentos do Concílio Vaticano II partindo das ocorrências das palavras em questão e apoiando-se nas traduções portuguesas "oficiais" disponíveis no site da Santa Sé <www.vatican.va>.

Dei Verbum

Na Constituição Dei Verbum (n. 8), a Igreja é tratada como sponsa (esposa) ao se falar da Sagrada Tradição. A Igreja, como esposa fiel e atenciosa, ouve incessantemente a palavra do Filho de Deus.

Mediante a mesma Tradição, conhece a Igreja o cânon inteiro dos livros sagrados, e a própria Sagrada Escritura entende-se nela mais profundamente e torna-se incessantemente operante; e assim, Deus, que outrora falou, dialoga sem interrupção com a esposa do seu amado Filho; e o Espírito Santo - por quem ressoa a voz do Evangelho na Igreja e, pela Igreja, no mundo - introduz os crentes na verdade plena e faz com que a palavra de Cristo neles habite em toda a sua riqueza (cf. Col. 3,16) (Tradução nossa)4.

Cabe à Igreja introduzir os fiéis, com os quais se pode estabelecer o paralelismo de filhos, à fé revelada pela fala (locutio) de Deus.

Em outro passo da Dei Verbum (n. 23), a Igreja é novamente tratada como a esposa do Verbo encarnado. Em contraste com o n. 8, no n. 23 da Dei Verbum, a Igreja, a Sponsa, é ensinada pelo Espírito Santo. Como sponsa e mater a Igreja é chamada a nutrir continuamente seus filhos com a Palavra de Deus. Essa nutrição dá-se não somente pelo ensinamento da Sagrada Escritura e sua interpretação autorizada, mas através do estudo dos Padres da Igreja e das antigas liturgias, tal como se lê na Dei Verbum 23:

A esposa do Verbo encarnado, isto é, a Igreja, ensinada pelo Espírito Santo, esforça-se por conseguir uma inteligência cada vez mais profunda da Sagrada Escritura, para poder alimentar continuamente os seus filhos com os divinos ensinamentos; por isso, vai fomentando também convenientemente o estudo dos santos Padres do Oriente e do Ocidente, bem como das sagradas liturgias (Tradução nossa)5.

Lumen Gentium

Na Constituição Lumen Gentium, há oito ocorrências (nn. 4, 62x, 7, 9, 39 e 41). No n. 4, a Lumen Gentium apresenta a ideia de que a Sponsa-Ecclesia é adornada, (adornare) pelo Espírito Santo, com as joias dos dons hierárquicos, talvez como referência aos sacramentos ministrados pelos que receberam o sacramento da ordem e pelos diversos carismas cuja fonte remonta ao Espírito Santo. Na Lumen Gentium n. 4, apresentam-se duas características da Sponsa, as quais são salientadas e aperfeiçoadas pelo Espírito: a juventude da Igreja, sempre renovada, como esposa jovem, e a união com o Esposo, que deve chegar a uma plenitude (consummata).

A Igreja, que Ele conduz à verdade total (cf. Jo. 16,13) e unifica na comunhão e no ministério, enriquece-a Ele e guia-a com diversos dons hierárquicos e carismáticos e adorna-a com os seus frutos (cf. Ef. 4, 11-12; 1 Cor. 12,4; Gl. 5,22). Pela força do Evangelho rejuvenesce a Igreja e renova-a continuamente e leva-a à união perfeita com o seu Esposo. Porque o Espírito e a Esposa dizem ao Senhor Jesus: "Vem" (cf. Ap. 22,17) (Tradução nossa)!6

O parágrafo n. 6 da Lumen Gentium traz um dos textos mais longos e profundos a respeito da Igreja como mulher, esposa e mãe. Essa passagem se insere no subtítulo "As figuras da Igreja". O documento conciliar explica que assim como, no Antigo Testamento, a revelação do Reino é muitas vezes apresentada em imagens, também a própria natureza íntima da Igreja é manifestada ao conhecimento dos homens através de diversas imagens (analogias) tiradas quer da vida pastoril ou agrícola, quer da construção ou também da família e matrimônio. Essas imagens veterotestamentárias já se esboçam, sobretudo, nos livros dos Profetas (Is 3,13; 53,7; 54,4-17; 62,4-12; 50,1; Ez 16,11-13; Jr 2,9; 2,23; 3,12; 30,14; 31,22; Os 4,1; Mq 6,1) (LG, n. 6) e são aplicadas, por analogia teológica, direta e explicitamente à Igreja por diversos escritos neotestamentários (cf. Mt 9,14-15; Mc 2,19; Lc 5,34; Ap 19,7; 21,2; 22,17) (MAGNOLFI, 1984, p.145). A Lumen Gentium n. 6 procura justamente sintetizar e atualizar esta analogia:

Esta cidade, S. João contemplou-a 'descendo do céu, de Deus, na renovação do mundo, como esposa adornada para ir ao encontro do esposo' (Ap. 21,1 ss.). A Igreja, chamada 'Jerusalém do alto' e 'nossa mãe' (Gl. 4,26; cf. Ap. 12,17), é também descrita como esposa imaculada do Cordeiro imaculado (Ap. 19,7; 21,2. 9; 22,17), a qual Cristo gamou e por quem Se entregou, para a santificar (Ef. 5, 25-26), uniu a Si por um indissolúvel vínculo, e sem cessar 'alimenta e conserva' (Ef. 5,29), a qual, purificada, quis unida a Si e submissa no amor e fidelidade (cf. Ef. 5,24), cumulando-a, por fim, eternamente, de bens celestes; para que entendamos o amor de Deus e de Cristo por nós, o qual ultrapassa toda a compreensão (cf. Ef. 3,19). Enquanto, na terra, a Igreja peregrina longe do Senhor (cf. 2 Cor. 5,6), tem-se por exilada, buscando e saboreando as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus, e onde a vida da Igreja está escondida com Cristo em Deus, até que apareça com seu esposo na glória (cf. Col. 3, 1-4) (Tradução nossa)7.

Na Lumen Gentium n. 6, nota-se com claridade as três eloquentes imagens femininas com as quais a igreja é associada: mulher-esposa-mãe. A Igreja também é afirmada como peregrina rumo à glória final assentada junto ao seu esposo.

Lumen Gentium, encontra-se outra passagem a respeito da Igreja como Esposa, mas No parágrafo n. 7 da o diferencial dessa passagem seria sua relação analógica direta com a vida conjugal:

Cristo ama a Igreja como esposa, fazendo-se modelo do homem que ama sua mulher como o próprio corpo (cf. Ef. 5, 25-28); e a Igreja, por sua vez, é sujeita à sua cabeça (ib. 23-24). "Porque n'Ele habita corporalmente toda a plenitude da natureza divina" (Col. 2,9), enche a Igreja, que é o Seu corpo e plenitude, com os dons divinos (cf. Ef. 1, 22-23), para que ela se dilate e alcance a plenitude de Deus (cf. Ef. 3,19) (Tradução nossa)8.

O modelo de esposa ainda é aquele segundo o qual o marido é chamado a adornar a sua esposa, o que por vezes se diferencia da realidade deste início de século XXI, na qual a mulher vai tornando-se cada vez mais independente em relação ao marido. Mas também é verdade que uma relação conjugal saudável faz com que a mulher não somente seja adornada pelos presentes e joias oferecidas pelo esposo, mas também pela própria felicidade de uma relação matrimonial cristãmente concebida. Na Lumen Gentium, em seu n. 9, em contraste com a infidelidade do Antigo Israel e em concordância com a fidelidade do amor divino para com aquele povo, a Igreja (sponsa) é chamada a ter plena fidelidade (perfecta fidelitate):

Aos que se voltam com fé para Cristo, autor de salvação e princípio de unidade e de paz, Deus chamou-os e constituiu-os em Igreja, a fim de que ela seja para todos e cada um sacramento visível desta unidade salutar. Destinada a estender-se a todas as regiões, ela entra na história dos homens, ao mesmo tempo em que transcende os tempos e as fronteiras dos povos. Caminhando por meio de tentações e tribulações, a Igreja é confortada pela força da graça de Deus que lhe foi prometida pelo Senhor para que não se afaste da perfeita fidelidade por causa da fraqueza da carne, mas permaneça digna esposa do seu Senhor, e, sob a ação do Espírito Santo, não cesse de se renovar até, pela cruz, chegar à luz que não conhece ocaso (Tradução nossa)9.

No n. 39 da Lumen Gentium, verifica-se outro aspecto do esponsório da Igreja: ela é amada pelo Filho de Deus, que, por ela, entregou-se, a fim de santificá-la. Esse esponsório de amor é o fundamento pelo qual se exige a santidade da Igreja e dos fiéis:

'A nossa fé crê que a Igreja, cujo mistério o sagrado Concílio expõe, é indefectivelmente santa. Com efeito, Cristo, Filho de Deus, que é com o Pai e o Espírito ao único Santo', amou a Igreja como esposa, entregou-se por ela, para a santificar (cf. Ef. 5, 25-26) e uniu-a a Si como Seu corpo, cumulando-a com o dom do Espírito Santo, para glória de. Deus (Tradução nossa)10.

Na Lumen Gentium n. 41, o texto estabelece a relação analógica direta entre o esponsório da Igreja com a instituição do matrimônio:

Os esposos e pais cristãos devem, seguindo o seu caminho peculiar, amparar-se mutuamente na graça, com amor fiel, durante a vida inteira, e imbuir com a doutrina cristã e as virtudes evangélicas a prole que amorosamente receberam de Deus. Dão assim a todos exemplo de amor incansável e generoso, edificam a comunidade fraterna e são testemunhas e cooperadores da fecundidade da Igreja, nossa mãe, em sinal e participação daquele amor, com que Cristo amou a Sua esposa e por ela Se entregou (Tradução nossa)11.

Segundo o texto, o esponsório no contexto familiar faz com que o fiel participe do amor com o qual Cristo amou a sua Igreja. As duas imagens, vistas como símbolos teológicos das realidades teológicas, fazem com que se reflitam mutuamente com exceção de um aspecto: o matrimônio cristão é símbolo visível do matrimônio invisível da Igreja com Cristo, mas ambos são sobrenaturais e refletem eminentemente o amor. A missão de gerar, nutrir e educar os filhos para a vida social e espiritual é compartilhada tanto pela esposa mística de Cristo quanto pelos esposos dentro do matrimônio. Verifica-se um paralelismo analógico entre as duas realidades. Bucker apresenta uma análise crítica da teologia da Igreja-esposa presente nos textos conciliares:

O modelo de Esposa permite recolher o valor da unidade 'orgânica' em um sujeito vivo, mas ao mesmo tempo difere da Pessoa de Cristo. Trata-se de unidade sim, inclusive pensada em termos tão vigorosamente unitários como o de uma só carne, mas ao mesmo tempo trata-se de alteridade. E esta unidade na alteridade, conseguida no amor, não é um dado já conseguido e estabelecido de forma permanente, mas um projeto buscado e pretendido através de um processo carregado de vicissitudes históricas (BUCKER, 1995, p.126).

Outra crítica apresentada por Bucker seria quanto à tipologia de esposa adotada pelo texto conciliar que também pode apresentar os limites da figura teológica da Igreja-Esposa:

Esta limitação é produzida pela forma ideologizada como a mulher como Esposa tem sido apresentada na sociedade, ocupando-se exclusivamente de tarefas domésticas. Com esta ideia, o projeto missionário do Esposo, que é o Reino, seria uma dimensão desatendida. [...] A Igreja é companheira na grande obra da salvação realizada por Cristo-Esposo; ela é o primeiro fruto e modelo para a humanidade, ela conduz a todos os povos, como apresenta o Apocalipse, no encontro com o Esposo, amorosamente chamado quando ela diz: 'Vem' (BUCKER, 1995, p.126).

Para Bucker, o caminho para a superação desses limites conceituais a respeito do feminino, que comprometem o modelo da Esposa na teologia, pode vir de uma releitura dos grandes temas teológicos, justamente a partir da eclesiologia da Esposa, especialmente a eclesiologia e a Mariologia (RATZINGER & BALTHASAR, 2006; BOFF, 2008), de modo a inserir, no imaginário teológico, novos elementos hermenêuticos de união e comunhão eclesial. Bucker levanta o problema, mas não apresenta uma solução. Que outro modelo de esposa-mãe pode concordar com o modelo vigente de família recomendado pelo catolicismo?

Sacrossanctum Concilium

Na Constituição Sacrossanctum Concilium, há cinco ocorrências da palavra sponsa (nn. 7, 47, 78, 84 e 85). A Sacrossanctum Concilium n. 7, ao tratar da presença de Cristo na sua igreja e "especialmente nas acções litúrgicas", traz, sem olvidar a diferença de modalidade e/ou intensidade de presença divina na Liturgia, na ação ministerial do presbítero e na presença eucarística, a ideia do esponsório místico de Cristo com a Igreja como motivo fundante dessa presença permanente: "Em tão grande obra, que permite que Deus seja perfeitamente glorificado e que os homens se santifiquem, Cristo associa sempre a si a Igreja, sua esposa muito amada, a qual invoca o seu Senhor e por meio dele rende culto ao Eterno Pai" (Tradução nossa)12.

A Sacrossanctum Concilium n. 47 também traz a ideia de que o amor de Cristo para com sua esposa fez com que ele se constituísse como o mais eminente sinal de união para com ela: a eucaristia confiada à Igreja, sua esposa amada:

O nosso Salvador instituiu na última Ceia, na noite em que foi entregue, o Sacrifício eucarístico do seu Corpo e do seu Sangue para perpetuar pelo decorrer dos séculos, até Ele voltar, o Sacrifício da cruz, confiando à Igreja, sua esposa amada, o memorial da sua morte e ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal em que se recebe Cristo, a alma se enche de graça e nos é concedido o penhor da glória futura (Tradução nossa)13.

A relação do esponsório de Cristo com a Igreja e sua eminente relação com a eucaristia, em uma hipótese que não se mostra absurda devido à relação das palavras no texto conciliar, podem ter inspirado os padres conciliares a arrematarem na Sacrossanctum Concilium n. 78 a recomendação de que se celebre usualmente o sacramento do Matrimônio dentro da missa: "Celebre-se usualmente o Matrimônio dentro da missa, depois da leitura do Evangelho e da homilia e antes da 'Oração dos fiéis'. A oração pela esposa, devidamente corrigida a fim de inculcar que o dever de fidelidade é mútuo, pode dizer-se em vernáculo" (Tradução nossa)14.

Nos nn. 84-85, a teologia do esponsório de Cristo com a Igreja permeou ainda outros aspectos fundantes de uma espécie de espiritualização da liturgia. Verifica-se esta ocorrência quando o texto conciliar trata do Ofício Divino como reflexo visível do diálogo espiritual de Cristo com sua dileta Esposa:

84. O Ofício divino, segundo a antiga tradição cristã, destina-se a consagrar, pelo louvor a Deus, o curso diurno e nocturno do tempo. E quando são os sacerdotes a cantar esse admirável cântico de louvor, ou outros para tal deputados pela Igreja, ou os fiéis quando rezam juntamente com o sacerdote segundo as formas aprovadas, então é verdadeiramente a voz da Esposa que fala com o Esposo ou, melhor, a oração que Cristo, unido ao seu Corpo, eleva ao Pai.

85. Todos os que rezam assim cumprem, por um lado, a obrigação própria da Igreja, e, por outro, participam na imensa honra da Esposa de Cristo, porque estão em nome da Igreja diante do trono de Deus, a louvar o Senhor (Tradução nossa)15.

Gaudium et Spes

Na Constituição Gaudium et Spes, verificam-se duas ocorrências do termo sponsa (nn. 29 e 43). Segundo o n. 29, a igualdade fundamental entre todos os homens deve ser cada vez mais reconhecida. Sem dúvida, os homens não são todos iguais quanto à capacidade física e forças intelectuais e morais, variadas e diferentes em cada um. Entretanto, deve superar-se e eliminar-se, como contrária à vontade de Deus, qualquer forma social ou cultural de discriminação, quanto aos direitos fundamentais da pessoa, por razão do sexo, raça, cor, condição social, língua ou religião. Um dos exemplos sociais em voga naquele tempo em muitos países do ocidente e que hoje tem sido cada vez mais superado é a questão da liberdade da mulher de escolher seu esposo, que é mencionada no n. 29: "Por exemplo, quando se nega à mulher o poder de escolher livremente o esposo ou o estado de vida ou de conseguir uma educação e cultura iguais às do homem" (Tradução nossa)16.

Não somente a igualdade de direito na escolha do cônjuge, mas o Vaticano II também defendeu o aumento da participação da atividade da mulher na pastoral eclesial: "E como hoje a mulher tem cada vez mais parte activa em toda a vida social, é da maior importância que ela tome uma participação mais ampla também nos vários campos do apostolado da Igreja" (AA, n. 9). Entretanto, é o n. 48 da Gaudium et Spes que, entre todos os documentos do concílio, concentra o maior número de referências à palavra sponsa justamente no subtítulo, que trata da santidade do matrimônio e da família (MORBIOLO, 2010, p.67). Nota-se que os padres conciliares, além de reconhecerem a finalidade soteriológica, procriacional e social do matrimônio como ato humano de autoria divina, também reconhecem o prazer da vida conjugal:

O próprio Deus é o autor do matrimônio, o qual possui diversos bens e fins, todos eles da máxima importância, quer para a propagação do gênero humano, quer para o proveito pessoal e sorte eterna de cada um dos membros da família, quer mesmo, finalmente, para a dignidade, estabilidade, paz e prosperidade de toda a família humana. Por sua própria índole, a instituição matrimonial e o amor conjugal estão ordenados para a procriação e educação da prole, que constituem como que a sua coroa (Tradução nossa)17.

Na Gaudium et Spes, o matrimônio reflete a realidade espiritual do desponsório místico entre Cristo e a Igreja:

Cristo Senhor abençoou copiosamente este amor de múltiplos aspectos, nascido da fonte divina da caridade e constituído à imagem da sua própria união com a Igreja. E assim como outrora, Deus veio ao encontro do seu povo com uma aliança de amor e fidelidade, assim agora o Salvador dos homens e esposo da Igreja vem ao encontro dos esposos cristãos com o sacramento do matrimônio. E permanece com eles para que, assim como Ele amou a Igreja e se entregou por ela, de igual modo os cônjuges, dando-se um ao outro, se amem com perpétua fidelidade. O autêntico amor conjugal é assumido no amor divino, e dirigido e enriquecido pela força redentora de Cristo e pela acção salvadora da Igreja, para que, assim, os esposos caminhem eficazmente para Deus e sejam ajudados e fortalecidos na sua missão sublime de pai e mãe (Tradução nossa)18.

Apostolicam Actuositatem

Nesse sentido, o Decreto Apostolicam Actuositatem (n. 11) traz a Igreja como "sacramento grande" em Cristo e na Igreja: "O criador de todas as coisas constituiu o vínculo conjugal princípio e fundamento da sociedade humana e fê-lo, por sua graça, sacramento grande em Cristo e na Igreja" (cf. Ef. 5, 32) (Tradução nossa)19.

É justamente devido a essa inefável analogia com a realidade espiritual que provém a sacralidade da instituição da família como detentora e portadora da relação íntima de Cristo com a Igreja:

Por isso, a família cristã, nascida de um matrimônio que é imagem e participação da aliança de amor entre Cristo e a Igreja, manifestará a todos a presença viva do Salvador no mundo e a autêntica natureza da Igreja, quer por meio do amor dos esposos, quer pela sua generosa fecundidade, unidade e fidelidade, quer pela amável cooperação de todos os seus membros.

O próprio amor com o qual o casal se relaciona é uma imagem do amor que deve haver entre o humano e o divino:

Unindo o humano e o divino, esse amor leva os esposos ao livre e recíproco dom de si mesmos, que se manifesta com a ternura do afeto e, com as obras, e penetra toda a sua vida; e aperfeiçoa-se e aumenta pela sua própria generosa atuação. Ele transcende, por isso, de longe a mera inclinação erótica, a qual, fomentada egoisticamente, rápida e miseravelmente se desvanece. Este amor tem a sua expressão e realização peculiar no ato próprio do matrimónio (Tradução nossa)20.

Não somente a atração esposa-esposa é tratada sob o prisma da transcendência, mas também a própria fecundidade. Na Gaudium et Spes n. 50, a procriação, que é tratada como uma finalidade intrínseca ao matrimônio, segundo imemorial tradição teológica, é comparada ao ato da criação efetivado pelo próprio Deus:

O matrimónio e o amor conjugal ordenam-se por sua própria natureza à geração e educação da prole. Os filhos são, sem dúvida, o maior dom do matrimónio e contribuem muito para o bem dos próprios pais. O mesmo Deus que disse 'não é bom que o homem esteja só' (Gn. 2,88) e que 'desde a origem fez o homem varão e mulher' (Mt. 19,14), querendo comunicar-lhe uma participação especial na Sua obra criadora, abençoou o homem e a mulher dizendo: 'sede fecundos e multiplicai-vos' (Gn. 1,28) (Tradução nossa)21.

Perfectae Caritatis

No Decreto Perfectae Caritatis, a palavra sponsa ocorre duas vezes (nn. 1. e 12). No n. 1, ao tratar dos dons da vida religiosa solitária ou celibatária, o texto relaciona esse gênero de vida com os ornamentos e a sabedoria dada por Deus à Igreja:

proveio, por desígnio de Deus, uma variedade admirável de famílias religiosas, que muito contribui para que a Igreja não só esteja preparada para toda a obra boa (cf. 2 Tim. 3,17) e para o ministério da edificação do corpo de Cristo (cf. Ef. 4,12), mas ainda, aformoseada com a variedade dos dons dos seus filhos, se apresente como esposa ornada ao seu esposo (cf. Ap. 21,2) e por ela brilhe a multiforme sabedoria de Deus (cf. Ef. 3,10) (Tradução nossa)22.

Segundo se lê no n. 12, as pessoas que se dedicam a esse gênero de vida "dão testemunho diante de todos os cristãos daquele admirável consórcio estabelecido por Deus e que se há de manifestar plenamente na vida futura, pelo qual a Igreja tem a Cristo por seu único esposo" (Perfectae Caritatis. n. 12). Mais uma vez verifica-se a constante analogia entre o esponsório de Cristo com a Igreja e do esponsório dentro do sacramento do matrimônio.

Christus Dominus

No Decreto Christus Dominus n. 6, há o uso do verbo sponsor aplicado à especial responsabilidade que os bispos têm não somente para com as igrejas particulares a que estão adscritos, mas para com "todas as igrejas". Nota-se que o verbo sponsor compartilha a origem etimológica com a palavra sponsa. A responsabilidade dos bispos teria assim um fundamento nessa espécie do matrimônio ou esponsório que contraem com a Igreja:

Os Bispos, como legítimos sucessores dos Apóstolos e membros do colégio episcopal, considerem-se unidos sempre entre si e mostrem-se solícitos de todas as igrejas, pois cada um, por instituição divina e por exigência do múnus apostólico, é responsável por toda a Igreja, juntamente com os outros Bispos. Interessem-se particularmente por aquelas regiões em que não foi ainda anunciada a palavra de Deus ou em que, sobretudo por causa da escassez de sacerdotes, os fiéis correm perigo de se afastarem da prática dos mandamentos e até de perderem a fé (Tradução nossa)23.

Conclusão

Ao analisar a ocorrência das palavras sponsus ou sponsa nos documentos do Concílio Vaticano II, verificou-se que a ideia de esposa é aplicada à Igreja de forma analógica com a esposa no sentido comum da palavra. A Igreja é esposa de Cristo como a esposa o é do seu cônjuge. Cristo desposa a Igreja como outrora o Deus de Abraão desposou o povo do Antigo Israel. Ora, essa analogia, guardadas as devidas proporções, é exaurida nos textos dos documentos, pois se aplica a fecundidade do matrimônio à fecundidade da igreja; a união de amor entre os esposos ao amor incomparável de Cristo para com a Igreja; a indissolubilidade do matrimônio ao vínculo eterno e imperecível de Cristo com a Igreja; o dever maternal da mãe ao educar a prole com o dever da Igreja de ensinar a Palavra de Deus.

Um dos modos de tornar o assunto mais concreto foi o efetivado na teologia e nas determinações do Concílio a respeito do sacramento do matrimônio, não sem inspiração na síntese teológica da figura Esposa-Igreja presente nos documentos conciliares que refletem a imemorial tradição patrística e escriturística. Se essa aplicação foi suficiente, seria difícil provar, mas essa teologia do matrimônio presente nos documentos do Concílio é fundamentada nessa relação analógica entre o esponsório no sentido comum da palavra com o esponsório espiritual de Cristo com a Igreja. Não sem razão, a Sacrossanctum Concilium incentivou que o sacramento do matrimônio fosse celebrado dentro da Missa, devido à relação entre este e o sacramento da Eucaristia, os quais simbolizam e produzem de modo especial a relação de amor entre os esposos e entre a alma esposa de Deus. Ademais, segundo se infere da Christus Dominus n. 6, também os bispos, como responsáveis pela igreja particular, são esposos da Igreja, dedicando-se a ela de forma incansável e constante. Infere-se dos textos conciliares, por fim, que todos os fiéis, inclusive os religiosos que abdicaram do esponsório carnal, são chamados a participar de um esponsório, ou seja, daquela espécie de união espiritual, mística e inefável de Cristo com a Igreja, demonstrando em suas vidas a durabilidade de um vínculo de amor para com esposos, irmãos e a própria Igreja. O esponsório vivido no matrimônio seria não apenas uma figura, um sacramento, uma visão analógica da realidade espiritual do esponsório de Cristo com a Igreja. O esponsório não é somente entendido na perspectiva do vínculo de amor, indissolúvel e fecundo, mas também corresponde à missão pastoral concebida em analogia com o ato de educar os filhos, entendidos, na realidade eclesial, como todos os batizados que se nutrem da Palavra e da Tradição.

Referências

ALBERIGO, G. Breve história do Concílio Vaticano II (1959-1965)Aparecida: Santuário, 2006.

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Notas

3 Tanto esta citação quanto todas as demais traduções dos documentos do Concílio Vaticano II citadas no presente artigo estão disponíveis no site do Vaticano.
4 "Per eandem Traditionem integer Sacrorum Librorum canon Ecclesiae innotescit, ipsaeque Sacrae Litterae in ea penitius intelliguntur et indesinenter actuosae redduntur; sicque Deus, qui olim locutus est, sine intermissione cum dilecti Filii sui Sponsa colloquitur, et Spiritus Sanctus, per quem viva vox Evangelii in Ecclesia, et per ipsam in mundo resonat, credentes in omnem veritatem inducit, verbumque Christi in eis abundanter inhabitare facit (cf. Col. 3,16)".
5 "Verbi incarnati Sponsa, Ecclesia nempe, a Sancto Spiritu edocta, ad profundiorem in dies Scripturarum Sacrarum intelligentiam assequendam accedere satagit, ut filios suos divinis eloquiis indesinenter pascat; quapropter etiam studium sanctorum Patrum tum Orientis tum Occidentis et sacrarum Liturgiarum rite fovet".
6 "Ecclesiam, quam in omnem veritatem inducit (cf. Io 16,13) et in communione et ministratione unificat, diversis donis hierarchicis et charismaticis instruit ac dirigit, et fructibus suis adornat (cf. Eph 4,11-12; 1Cor 12,4; Gl 5,22). Virtute Evangelii iuvenescere facit Ecclesiam eamque perpetuo renovat et ad consummatam cum Sponso suo unionem perducit. Nam Spiritus et Sponsa ad Dominum Iesum dicunt: Veni! (cf. Ap 22,17)".
7 "Quam sanctam civitatem Ioannes contemplatur, in renovatione mundi descendentem de caelis a Deo, "paratam sicut sponsam ornatam viro suo" (Ap 21,1s.). Ecclesia etiam, "quae sursum est Hierusalem" et "mater nostra" appellatur (Gl 4,26; cf. Ap 12,17), describitur ut sponsa immaculata Agni immaculati (cf. Ap 19,7; 21,2 et 9; 22,17), quam Christus "dilexit... et se ipsum tradidit pro ea, ut illam sanctificaret" (Eph 5,25-26), quam sibi foedere indissolubili sociavit et indesinenter "nutrit et fovet" (Eph 5,29), et quam mundatam sibi voluit coniunctam et in dilectione ac fidelitate subditam (cf. Eph 5,24), quam tandem bonis caelestibus in aeternum cumulavit, ut Dei et Christi erga nos caritatem, quae omnem scientiam superat, comprehendamus (cf. Eph 3,19). Dum vero his in terris Ecclesia peregrinatur a Domino (cf. 2 Cor 5,6), tamquam exsulem se habet, ita ut quae sursum sunt quaerat et sapiat, ubi Christus est in dextera Dei sedens, ubi vita Ecclesiae abscondita est cum Christo in Deo, donec cum Sponso suo appareat in gloria (cf. Col. 3, 1-4)".
8 "Christus vero diligit Ecclesiam ut sponsam suam, exemplar factus viri diligentis uxorem suam ut corpus suum (cf. Eph 5,25-28); ipsa vero Ecclesia subiecta est Capiti suo (ib. 5,23-24). "Quia in Ipso inhabitat omnis plenitudo divinitatis corporaliter" (Col 2,9), Ecclesiam, quae corpus et plenitudo Eius est, divinis suis donis replet (cf. Eph 1,22-23), ut ipsa protendat et perveniat ad omnem plenitudinem Dei (cf. Eph 3,19)".
9 "Deus congregationem eorum qui in Iesum, salutis auctorem et unitatis pacisque principium, credentes aspiciunt, convocavit et constituit Ecclesiam, ut sit universis et singulis sacramentum visibile huius salutiferae unitatis. Ad universas regiones extendenda, in historiam hominum intrat, dum tamen simul tempora et fines populorum transcendit. Per tentationes vero et tribulationes procedens Ecclesia virtute gratiae Dei sibi a Domino promissae confortatur, ut in infirmitate carnis a perfecta fidelitate non deficiat, sed Domini sui digna sponsa remaneat, et sub actione Spiritus Sancti, seipsam renovare non desinat, donec per crucem perveniat ad lucem, quae nescit occasum".
10 "Ecclesia, cuius mysterium a Sacra Synodo proponitur, indefectibiliter sancta creditur. Christus enim, Dei Filius, qui cum Patre et Spiritu "solus Sanctus" celebratur (121), Ecclesiam tamquam sponsam suam dilexit, Seipsum tradens pro ea, ut illam sanctificaret (cf. Eph 5,25-26), eamque Sibi ut corpus suum coniunxit atque Spiritus Sancti dono cumulavit, ad gloriam Dei".
11 "Coniuges autem parentesque christiani oportet ut propriam viam sequentes, amore fideli, totius vitae decursu se invicem in gratia sustineant, et prolem amanter a Deo acceptam christianis doctrinis et evangelicis virtutibus imbuant. Ita enim exemplum indefessi et generosi amoris omnibus praebent, fraternitatem caritatis aedificant, et foecunditatis Matris Ecclesiae testes et cooperatores exsistunt, in signum et participationem illius dilectionis, qua Christus Sponsam suam dilexit Seque pro ea tradidit".
12 "Reapse tanto in opere, quo Deus perfecte glorificatur et homines sanctificantur, Christus Ecclesiam, sponsam suam dilectissimam, sibi semper consociat, quae Dominum suum invocat et per ipsum Aeterno Patri cultum tribuit".
13 "Salvator noster, in Cena novissima, qua nocte tradebatur, Sacrificium Eucharisticum Corporis et Sanguinis sui instituit, quo Sacrificium Crucis in saecula, donec veniret, perpetuaret atque adeo Ecclesiae dilectae Sponsae memoriale concrederet Mortis et Resurrectionis suae: sacramentum pietatis, signum unitatis, vinculum caritatis, convivium paschale, "in quo Christus sumitur, mens impletur gratia et futurae gloriae nobis pignus datur".
14 "Matrimonium ex more intra Missam celebretur, post lectionem Evangelii et homiliam, ante "orationem fidelium". Oratio super sponsam, ita opportune emendata ut aequalia officia mutuae fidelitatis utriusque sponsi inculcet, dici potest lingua vernacula".
15 "84. Divinum Officium ex antiqua traditione christiana ita est constitutum ut totus cursus diei ac noctis per laudem Dei consecretur. Cum vero mirabile illud laudis canticum rite peragunt sacerdotes aliique ad hanc rem Ecclesiae instituto deputati vel christifideles una cum sacerdote forma probata orantes, tunc vere vox est ipsius Sponsae, quae Sponsum alloquitur, immo etiam oratio Christi cum ipsius Corpore ad Patrem". "85. Omnes proinde qui haec praestant, tum Ecclesiae officium explent, tum summum Sponsae Christi honorem participant, quia laudes Deo persolventes stant ante thronum Dei nomine Matris Ecclesiae".
16 "Ut si mulieri denegetur facultas libere sponsum eligendi et vitae statum amplectendi, vel ad parem educationem et culturam quae viro agnoscitur accedendi".
17 "Ipse vero Deus est auctor matrimonii, variis bonis ac finibus praediti; quae omnia pro generis humani continuatione, pro singulorum familiae membrorum profectu personali ac sorte aeterna, pro dignitate, stabilitate, pace et prosperitate ipsius familiae totiusque humanae societatis maximi sunt momenti. Indole autem sua naturali, ipsum institutum matrimonii amorque coniugalis ad procreationem et educationem prolis ordinantur iisque veluti suo fastigio coronantur".
18 "Christus Dominus huic multiformi dilectioni, e divino caritatis fonte exortae et ad exemplar suae cum Ecclesia unionis constitutae, abundanter benedixit. Sicut enim Deus olim foedere dilectionis et fidelitatis populo suo occurrit, ita nunc hominum Salvator Ecclesiaeque Sponsus, per sacramentum matrimonii christifidelibus coniugibus obviam venit. Manet porro cum eis, ut quemadmodum Ipse dilexit Ecclesiam et Semetipsum pro ea tradidit, ita et coniuges, mutua deditione, se invicem perpetua fidelitate diligant. Germanus amor coniugalis in divinum amorem assumitur atque virtute redemptiva Christi et salvifica actione Ecclesiae regitur ac ditatur, ut coniuges efficaciter ad Deum ducantur atque in sublimi munere patris et matris adiuventur et confortentur".
19 "Cum Conditor omnium constituerit coniugale consortium exordium et fundamentum societatis humanae, idque gratia sua reddiderit sacramentum magnum in Christo et in Ecclesia" (cf. Eph. 5, 32).
20 "Talis amor, humana simul et divina consocians, coniuges ad liberum et mutuum sui ipsius donum, tenero affectu et opere probatum, conducit totamque vitam eorum pervadit; immo ipse generosa sua operositate perficitur et crescit. Longe igitur exsuperat meram eroticam inclinationem, quae, egoistice exculta, citius et misere evanescit. Haec dilectio proprio matrimonii opere singulariter exprimitur et perficitur".
21 "Matrimonium et amor coniugalis indole sua ad prolem procreandam et educandam ordinantur. Filii sane sunt praestantissimum matrimonii donum et ad ipsorum parentum bonum maxime conferunt. Ipse Deus qui dixit: "non est bonum esse hominem solum" (Gn 2,18) et qui "hominem ab initio masculum et feminam... fecit" (Mt 19,4), volens ei participationem specialem quamdam in Suiipsius opere creativo communicare, viro et mulieri benedixit dicens: "crescite et multiplicamini" (Gn 1,28).
22 "Unde e consilio divino mirabilis varietas coetuum religiosorum succrevit, quae valde contulit, ut Ecclesia, non solum ad omne opus bonum instructa (cf. 2 Tm. 3, 17) et ad opus ministerii in aedificationem Corporis Christi (cf. Eph. 4, 12) parata sit, sed etiam variis donis filiorum suorum decorata appareat sicut sponsa ornata viro suo (cf. Ap. 21, 2) et per eam innotescat multiformis
23 "Episcopi, qua legitimi Apostolorum successores et Collegii episcopalis membra, inter se coniunctos semper se sciant atque omnium Ecclesiarum sollicitos sese exhibeant, cum ex Dei institutione et praecepto apostolici muneris unusquisque Ecclesiae una cum ceteris Episcopis sponsor sit. Praesertim solliciti sint de illis orbis terrarum regionibus in quibus verbum Dei nuntiatum nondum est aut in quibus, praecipue ob parvum sacerdotum numerum, christifideles in periculo versantur a vitae christianae mandatis discedendi, immo et ipsam fidem amittendi".

Autor notes

*Av. Nazaré, 993, Ipiranga, 04263-100, São Paulo, SP, Brasil. Correspondência para/Correspondence to: N. SOUZA. E-mail: <nsouza@pucsp.br> .

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