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                <journal-title>Reflexão</journal-title>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.24220/2447-6803v42n1a3865</article-id>
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					<subject>Artigos: Temática Livre</subject>
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				<article-title>Tariq Ramadan: intelectual controverso</article-title>
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					<trans-title>Tariq Ramadan: Controversial intelectual</trans-title> 
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						<surname>BARBOSA</surname>
						<given-names>Francirosy Campos</given-names>
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 <bold>1</bold>
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 <bold>2</bold>
</sup> </xref>
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					<label>2</label>
					<institution content-type="original">Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Departamento de Psicologia. Av. Bandeirantes, 3900, Monte Alegre, 14040-901, Ribeirão Preto, SP, Brasil. E-mail: &lt;francirosy@gmail.com&gt;. </institution>
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				<season>Jan-Jun</season>
				<year>2017</year>
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			<fpage>125</fpage>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>Este artigo tem por objetivo apresentar uma breve biografia de Tariq Ramadan, e alguns dos seus pontos de reflexão, a partir de entrevistas, palestras e produções acadêmicas. Tariq Ramadan é professor de Oxford, defensor de uma identidade europeia e islâmica, pois, segundo ele, não é possível pensar os muçulmanos na Europa como estrangeiros; de acordo com o autor, eles são franceses, ingleses, etc. e muçulmanos. Para ele, é fundamental pensar essas duas identidades. Seu pensamento faz uma ponte entre a reinterpretação do direito islâmico e as aproximações com os valores democráticos ocidentais e seculares. Tariq Ramadan se identifica com o pensamento islâmico reformista caracterizado como: retorno às fontes do Corão e da Sunna, o que sugere uma linha “salafi”, voltada, porém, ao contexto de cada comunidade islâmica. </p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>Abstract</title>
				<p>The aim of this article was present a brief biography of Tariq Ramadan, and some of his points of reflection, from interviews, lectures and academic productions. Ramadan is a professor at the Oxford University who advocates for a European and Islamic identity because, according to him, it is impossible to think about Muslims in Europe as foreigners. According to the author, these foreigners are French, English, etc., and Muslims. For him it is essential to think about these two identities (or multiple identities). His thinking is a bridge between the reinterpretation of Islamic law and his approaches toward the Western and secular democratic values. Ramadan identifies with the reformist Islamic thought that can be characterized as the return to the sources of the Qur'an and Sunnah, which suggests a &quot;Salafi&quot; line, but considering the context of each Islamic community.</p>
			</trans-abstract>
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				<title><bold>Palavras-chave</bold>:</title>
				<kwd>Ciências islâmicas</kwd>
				<kwd>Islã</kwd>
				<kwd>Tariq Ramadan</kwd>
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				<title><bold>Keywords</bold>:</title>
				<kwd>Islam</kwd>
				<kwd>Tariq Ramadan</kwd>
				<kwd>Islamic sciences</kwd>
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					<funding-source>Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo </funding-source>
					<award-id>2015/20843-8</award-id>
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				<funding-statement>Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Processo nº 2015/20843-8)</funding-statement>
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		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução</title>
			<p>Há quase duas décadas, venho pesquisando comunidades islâmicas no Brasil tendo realizado mestrado e doutorado (<xref ref-type="bibr" rid="B3">FERREIRA, 2001</xref>, 2007), em Antropologia. O mestrado centrava-se na análise de fotografias produzidas por muçulmanos, pela imprensa e pela pesquisadora; no doutorado, o enfoque era sobre performance islâmica - explorei a construção do corpo no Islã. Ao finalizar esta última etapa, fui aprovada para o Programa de Apoio a Projetos Institucionais com a Participação de Recém-Doutores no Instituto de Artes da Unicamp para desenvolver o projeto sobre as Pesquisadoras de Islã, a fim de compreender e reconstruir suas metodologias em campo islâmico. O projeto, inspirado na metodologia empregada por <xref ref-type="bibr" rid="B12">Silva (2000</xref>) e circunscrito no livro “O Antropólogo e a sua Magia”, deu-me a possibilidade de conhecer, também, outras comunidades islâmicas no Brasil como as de Brasília, Florianópolis e Belém. Este projeto acabou tendo uma extensão maior, também financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP - Projeto de Pesquisador Regular FAPESP nº 2010/18577-4), quando me tornei docente da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. O produto final desta pesquisa resultou em um <italic>Website</italic> &lt;http://www.antropologiaeislam.com.br/&gt;, no qual estão armazenados material de campo, aulas, e material das pesquisadoras que foram tema da pesquisa.</p>
			<p> Importante ressaltar que, na última década, as pesquisas sobre Islã no Brasil vêm crescendo significativamente, em especial após os atentados de 11 de setembro de 2001. Há cada vez mais demanda, tanto por temas variados quanto por discussões, em torno de questões como identidade, religiosidade, política, etc. Tenho me dedicado a estabelecer contatos e conhecer outros grupos islâmicos como os turcos, iranianos, marroquinos, a fim de perceber contornos que extrapolem as manifestações do Islã encontradas entre as comunidades árabes predominantes no Brasil. Entre outras atividades, coordeno, desde 2011, o Grupo de Antropologia em contextos islâmicos e árabes, do qual participam orientandos e não orientandos interessados em pesquisar Islã.</p>
			<p> Os orientandos desenvolvem pesquisas na área de gênero, refúgio, psicologia e antropologia, a pesquisa de doutorado de Flávia Pasqualin trata de casamentos interculturais - mulheres brasileiras que se casam com homens muçulmanos estrangeiros -, o trabalho discorre sobre os encantos e desencantos dessas relações e está em fase de finalização; Luana Baumann de Lima vem pesquisando sobre Mesquita, <italic>Lesbian</italic>, <italic>Gay</italic>, Bisexual, Trans, Queer, Intersex, Asexual e os discursos desses sobre a religiosidade islâmica e seus diversos pertencimentos - o mestrado de Luana está também em fase de finalização; Camila Paiva Motta desenvolve uma pesquisa sobre sexualidade no Islã tendo como foco mulheres casadas há mais de cinco anos; Mario Villaruel Silva iniciou, recentemente, sua pesquisa de doutorado com muçulmanos, em fluxo migratório na cidade de São Paulo, cujas práticas sexuais não são heteronormativas; ainda na questão de refugiados, Valéria Prudenciano desenvolveu uma pesquisa de Iniciação Científica com famílias de refugiados sírios e suas questões em relação ao trabalho; e Isabel Forero defendeu, em 2016, seu Mestrado em Psicologia, no qual trata do conceito de Liberdade e Direitos Humanos no Islã.</p>
			<p> Para acompanhar o desenvolvimento das minhas pesquisas e da dos alunos que oriento, me candidatei à <italic>Academic Visitor</italic> na Universidade de Oxford sob a supervisão de Tariq Ramadan, tendo sido aceita pelo <italic>Saint Antony´s College</italic>, faculdade na qual o professor ministra suas disciplinas naquela Universidade. Cabe ressaltar que o professor, quando o tema é Islã, é uma das maiores referências na Academia e vem ministrando palestras em todo o mundo sobre teologia, ética, justiça social, ecologia e diálogo inter-religioso e intercultural.</p>
			<p> Há algum tempo, venho acompanhando suas palestras e debates pela <italic>Internet</italic>, posto que suas proposições são instigantes quanto ao pensar o modo como o Islã se configura não só na Europa, como também em outros continentes. Formado na Suíça, e hoje professor na Universidade de <italic>Oxford</italic>, Tariq Ramadan é defensor de uma identidade europeia e islâmica. Seu pensamento faz uma ponte entre a reinterpretação do direito islâmico e as aproximações deste com os valores democráticos ocidentais e seculares. <xref ref-type="bibr" rid="B5">Moreras (1999</xref>) afirma que Ramadan se identifica com o pensamento islâmico reformista, o qual podemos caracterizar da seguinte forma: retorno às fontes do Corão e da Sunna para encontrar a interpretação adequada dos textos religiosos aos tempos de hoje. Ele faz uma crítica das formas de colonialismo ocidental que negam a identidade muçulmana e sugere a elaboração de uma estratégia social e política que preserve a unidade da comunidade islâmica.</p>
			<p> Tariq Ramadan é um dos intelectuais mais importantes do Islã contemporâneo e acadêmico, tornou-se uma “voz” na academia e nos espaços externos a ela. Seu trabalho destacou-se no contexto atual, no qual os muçulmanos são constantemente associados ao terrorismo, ou vistos como pessoas irracionais. Os estereótipos relacionados aos muçulmanos são muitos, e o trabalho de Tariq Ramadan contribui para a desconstrução desses estereótipos a partir do seu conhecimento da <italic>Sharia</italic> e da <italic>Fiqh</italic>. Temos o entendimento que <italic>Sharia</italic> é o corpo de leis baseado nos costumes, e fundamenta-se no Alcorão, na <italic>Sunnah</italic>, na <italic>Sira</italic> (biografia do Profeta). <italic>Fiqh</italic>, por sua vez, é a ciência islâmica do direito, jurisprudência islâmica. Linguisticamente, sharia significa caminho, com a conotação de um caminho claro que leva até a água. </p>
			<p>É importante destacar que a trajetória pessoal e intelectual de Tariq Ramadan se evidencia, também, por ser ele neto do fundador da Irmandade Muçulmana, Hassan Al-Banna<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>
 <bold>2</bold>
</sup> </xref> e filho de Said Ramadan, um dos principais discípulos deste. Tariq Ramadan se considera herdeiro da tradição reformista de seu avô materno e de seu pai. Durante algum tempo de sua vida acadêmica, Tariq Ramadan não se pronunciava como muçulmano por causa das “represálias” acadêmicas, mas diante de situações que enfrentava cotidianamente, começou a perceber que isto fazia parte de sua identidade, e não havia como não evidenciar sua origem muçulmana. Jordi Moreras, na apresentação do livro de Ramadan “<italic>El Islam Minoritario</italic>”, afirma que após o caso de Rushdie (1998), por ocasião da publicação de seu livro Versos Satânicos, Tariq Ramadan resolve estudar no Cairo e se dedicar integralmente a compreender a Sharia. Em “<italic>Mon intime conviction</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B8">RAMADAN, 2009</xref>), ele afirma que o período de estudo no Egito consistiu em uma <italic>jihad</italic> (que em árabe significa empenho, dedicação, esforço) diária, das 5h às 23h, porque considerava que só o conhecimento profundo da Lei Islâmica lhe permitiria propor um debate de qualidade.</p>
			<p>Para Tariq Ramadan compreender a presença islâmica na Europa exige um conhecimento das fontes islâmicas, da fé, das ciências e dos instrumentos jurídicos. É notório seu esforço em interpretar as fontes, são recorrentes as citações do Alcorão ou dos <italic>hadiths</italic> do Profeta Muhammad para exemplificar um pensamento em seus textos. Por isso ressalta, constantemente, que é importante voltar às fontes: <italic>Il faut parfois revenir aux choses élémentaires, aux notions et aux conceptions premières, afin d’essayer de clarifier les choses, de dépasser la confusion et de déterminer des étapes et des priorités dans la recherche de solutions concrètes. Nos réflexions sur l’islam commencent souvent à partir de nos analyses ou de nos perceptions des problèmes rencontrés sur le terrain. C’est peut-être suivant la méthode inverse qu’il faut procéder. Appréhender les notions et les principes, puis les confronter très pratiquement avec le réel et ses défis. C’est ce que nous proposons de faire dans le présent ouvrage</italic> (Notas do Caderno de Campo da aula proferida por Ramadan na Universidade de Oxford em maio de 2016, na disciplina de Islam na Europa). </p>
			<p>Interessante notar que, assim como em sua fala pública, também em seus livros e textos acadêmicos, o autor escreve como muçulmano colocando a cada vez que aparece o nome do Profeta, por exemplo, a expressão SAAS (que a paz esteja com ele). </p>
			<p>O projeto para o pós-doutorado em Oxford foi escrito com interesse em saber como Tariq Ramadan equaciona suas identidades (europeia e islâmica) e como enfrentou os preconceitos dentro da Academia, pois é notório que pessoas religiosas declaradas sejam sempre consideradas “menos” acadêmicas. A pesquisa centrada em Tariq Ramadan e na importância do seu pensamento para o Islã contemporâneo trouxe grandes desafios reflexivos: primeiro, porque não se trata apenas de um acadêmico, mas um acadêmico muçulmano que contribui para o entendimento do Islã na Europa, quiçá mundialmente; segundo, porque seu pensamento tem base teológica e filosófica, algo que para mim é/era novo no campo de estudo, sua percepção sobre a antropologia ainda é um tanto distanciada e, talvez, a minha aproximação tenha mobilizado principalmente a questão sobre Cultura e Religião, que ele tenta sempre separar, e eu como antropóloga não separo. </p>
			<p>Tariq Ramadan é professor de estudos islâmicos na Universidade de Oxford e diretor do <italic>Centre de Recherche sur la Législation Islamique et l'Éthique</italic> (CILE, Centro de Pesquisas, Legislação e Ética). Autor de vários livros que têm o Islã como tema central, ele vem sendo porta voz do Islã Reformista na Europa, que nada mais é senão a promoção de um revivalismo islâmico, por meio do conhecimento científico. Pode-se dizer de forma simplificada que os reformistas buscam, na Academia, uma parceria importante para interpretação de textos islâmicos pelo uso da razão, da <italic>Ijtihada</italic> (interpretação) e das ciências. Um dos empenhos atuais de Tariq Ramadan é a luta contra islamofobia e, neste sentido, vários de seus livros são uma aposta do autor, para que um público acadêmico e não acadêmico possa compreender as bases da religião e os diálogos enfrentados pelos muçulmanos na contemporaneidade. Neto do fundador da Irmandade Muçulmana, como já dito anteriormente, o autor carrega o legado do Islã Político, sem deixar de lado o esforço em pensar sobre a Jurisprudência e a Ética Islâmica.</p>
			<p>A experiência de um semestre em Oxford, sob a supervisão do professor Tariq Ramadan, foi, sobretudo, estimulante, mas impôs, também, desafios significativos como o de tentar responder ao objetivo formulado no projeto de pós-doutorado: </p>
			<disp-quote>
				<p>Ao tomar contato com o material mais amplo de Tariq Ramadan, pretende-se demonstrar como o universo do <italic>Islam</italic> político pode ser compreendido como constituído pela ‘modernidade entrelaçada’, isto é, forjado na realidade que se constitui nas conexões entre global e local, entendendo o local como composto por contextos diversos, inclusive o Brasil (<xref ref-type="bibr" rid="B1">Barbosa, 2015</xref>, p.1).</p>
			</disp-quote>
			<p>O problema formulado ainda precisa de mais tempo para ser respondido, devido à quantidade de material encontrado nesses seis meses e à própria convivência semanal com o professor, a qual enriqueceu ainda mais minhas leituras e apontamentos. A dedicação do professor Tariq Ramadan aos estudos sobre Ciências Islâmicas é <italic>full time</italic>. Só no período que estive em <italic>Oxford</italic> foram três disciplinas ministradas, um Curso de Verão em Granada, três cursos de Ética Islâmica (fiz o de Londres), entre outras tantas palestras, entrevistas, programas de televisão. </p>
			<p>Acompanhei de perto o cotidiano acadêmico de Tariq Ramadan não só em cursos, mas em Aparições na <italic>Internet</italic> e no seu canal no <italic>Facebook</italic> e <italic>Twitter</italic> &lt;https://www.facebook.com/official.tariqramadan/?fref=ts&gt;, além do <italic>site</italic> e <italic>youtube</italic>. Somente este material já seria suficiente para um trabalho significativo, mas achei melhor deixá-lo mais como pano de fundo dos livros os quais me dediquei a ler no período, e das conversas que tive com ele, </p>
			<disp-quote>
				<p>“<italic>I see that knowledge is growing extraordinarily more complex, and that a deep-set revolution is occurring in human potentialities, and yet nothing seems to be changing in the production of Islamic ethics in the light of such revivals</italic>” (<xref ref-type="bibr" rid="B10">RAMADAN, 2013</xref>, p.114). </p>
			</disp-quote>
			<p> É fato que, de todo material coletado, torna-se relevante retomar sempre o livro “<italic>Radical Reform</italic>” explícito em suas aulas, isto é, o Islã que promove o conhecimento e a busca deste, trata-se, ao meu ver, da pauta de toda e qualquer fala de <xref ref-type="bibr" rid="B10">Ramadan (2013</xref>). Esta reflexão advém da importância da <italic>Ijtihad</italic> (interpretação) das fontes escriturárias islâmicas e contexto social no qual o Islã é vivido.</p>
			<p>Ciências Islâmicas por Ramadan</p>
			<disp-quote>
				<p><italic>“L´ islam attend des musulmans qu´ils retrouvent, avec toute leur foi et leur intelligence, le sens du Message, sa forcé spiritualle, sa defense de la liberté, son invitation à la connaissance, son appel à être des temoins devant les Hommes et à servir l´humanité entière”</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B9">RAMADAN, 2016</xref>, p.251).</p>
			</disp-quote>
			<p>Conforme aponta Tariq Ramadan em suas aulas, o Islã é fundado sobre uma fonte reconhecida por todas as tradições (sunitas e xiitas), por todas as escolas de jurisprudência (<italic>mazáhib</italic>, plural de <italic>mazhab</italic>), bem como por todas as correntes de pensamento e interpretação (tradicionalista, literalista, reformista, etc.). Neste sentido, o pensamento de Tariq Ramadan vai abarcar de forma diversa os vários eixos que compõem as Ciências Islâmicas, impossível destacar seu pensamento em um único artigo, mas vale a pena discorrer sobre alguns desses pontos como forma de abertura e aproximação com leitores brasileiros.</p>
			<p>Tariq Ramadan em Oxford trata da categorização das Ciências Islâmicas, desde terminologia da <italic>Sharia, Fiqh, usul al-fiqh, ijima, qiyas, Ijtihad</italic>. Entender a <italic>Sharia</italic> é compreender o Alcorão e a <italic>Sunnah</italic>, trata-se do conceito geral da criação, o que podemos chamar de caminho da leitura que deve ser entendido no contexto. A <italic>Fiqh</italic>, por sua vez, traz o comportamento, tudo que fala de Deus. Há diferentes interpretações de <italic>Shari´a</italic>, a jurisprudência e a espiritualidade (místico), para entender é preciso ouvir filósofos, teólogos. Os companheiros do Profeta implementaram a <italic>Sharia</italic> no coração, a fim de mudar o comportamento, como bem pontuou o professor Chauki Lazhar em Granada<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>
 <bold>3</bold>
</sup> </xref>:  “<italic>Shari´a não é haram e halal, Shari´a é paz, fitra etc</italic>”,</p>
			<disp-quote>
				<p><italic>The science of usul al-fiqh is elaborate and complex for it is both a methodology of linguistic, religious and juridical interpretations of the sources and, at the same time, a large frame constituted by a synthetic collection of global rulings whose function is to direct the application of ijtihad both theoretically and practically</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B6">RAMADAN, 1999</xref>, p.55).</p>
			</disp-quote>
			<p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B6">Ramadan (1999</xref>), os princípios da lei e da jurisprudência são três: regras, obrigação e qualificação. Há também três tempos importantes para sua execução: implementação da <italic>Akhlaq</italic> (Ética), <italic>fatwa</italic> (decreto/opinião), contexto, <italic>Ijtihad</italic> (interpretação). A <italic>fiqh</italic> compreende duas tradições - sunita e xiita, o que vai determinar o comportamento. Os demais instrumentos: - <italic>ijtihad, ijma</italic> (consenso), <italic>qiyas</italic> (analogia) para melhor entendimento das Ciências Islâmicas. Para o estudo do Alcorão, é fundamental abarcar sua cronologia e contexto, da mesma forma que nos estudos dos <italic>hadices</italic>
 <xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>
 <bold>4</bold>
</sup> </xref> .</p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B8">Ramadan (2009</xref>) irá pontuar frequentemente a metodologia empregada para a avaliação das fontes escriturárias. A Teologia islâmica compreende os princípios do Alcorão e da <italic>Sunnah</italic> - texto/interpretação (semântica - gramática). Tariq Ramadan reforça, em sua disciplina, que as escolas de jurisprudência apresentam metodologias diferentes e, portanto, isto vai desencadear variadas interpretações. É preciso saber que as mesmas têm princípios, significados e metodologias diferentes. Como explicar a diversidade social? - Pergunta Tariq Ramadan em uma de suas aulas. Talvez este seja o dilema dos muçulmanos. A diversidade apresentada leva, geralmente, a alguns desentendimentos da religião e das práticas religiosas. </p>
			<p>Importante destacar que, segundo o autor, há duas confusões em relação a Sharia: </p>
			<disp-quote>
				<p><italic>First, the Shari´a is not restricted to the penal code; in our typology and classification, it is an element, a part of a global path, methodology and philosophy of life…the second confusion has to do with the Shari´a and Fiqh being taken as one and the same thing when, in fact, there is an essential difference between them. Fiqh represents the product of human thought and elaboration</italic> […] (<xref ref-type="bibr" rid="B10">RAMADAN, 2013</xref>, p.60). </p>
			</disp-quote>
			<p>Isto já demonstra o quanto o desconhecimento ocidental acaba confundindo o que para os muçulmanos é algo completamente distinto: suas escolas de pensamento. As escolas de jurisprudência: Maliki, Hanifa, Hanbali, Shafi, Jafari trazem contextos diversos de sua implementação. Eram sábios com conhecimentos complementares. </p>
			<p>Além das escolas, é preciso considerar o que Tariq Ramadan chama de “livre opinião” - as interpretações (acadêmicas), além das <italic>fatwas</italic> (decretos) emitidas por <italic>sheiks</italic> (religiosos) que vão usar seu conhecimento, sua referência de escola, <italic>hadices</italic> para explicar determinada situação. Por exemplo: se para <italic>salafi</italic> música é <italic>haram</italic> (proibido), para outras escolas não é. Lembrando que Tariq Ramadan considera os <italic>salafis</italic> literalistas dentro das Ciências Islâmicas. </p>
			<p>Literalistas propõem uma forma de <italic>taqlid</italic> (imitação) formalista de modelos do passado. Certos juristas se opõem ao desenvolvimento - contaminação de uma dada “modernidade”. A crise intelectual é visível. A fidelidade da mensagem está dentro da norma (<italic>halal/haram</italic>) das imitações - repetição e dentro das exclusões de todos os não saberes “puramente islâmicos” - pensamento islâmico <italic>fiqh</italic> (<italic>usuh al-fiqh</italic>), filosofia (<italic>ilm d-kalam, falsafah</italic>) e mística (<italic>tasawwuf</italic>). A crise intelectual é, sem dúvida, uma crise psicológica profunda, e isto tem afetado não só os muçulmanos, mas o entendimento que se faz do Islã na atualidade. Compreender a gênese do Islã torna-se urgente. Literalismo - tradicionalismo - e movimento <italic>salafi</italic> andam juntos (bom lembrar que nem todo <italic>salafi</italic> é <italic>wahhabi</italic>
 <xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>
 <bold>5</bold>
</sup> </xref> , mas o contrário sim) e têm hoje atividades políticas. Os <italic>salafí</italic> se distinguem de correntes tradicionalistas que se referem estritamente a uma escola de direito (<italic>madahhab</italic>).</p>
			<p>Só para dar um exemplo desta diversidade, <xref ref-type="bibr" rid="B9">Ramadan (2016</xref>) expõe que sunitas e xiitas têm cinco grandes tendências: (1) literalistas, que leem as fontes sem considerar as perspectivas históricas e oferecem pouco lugar à razão; (2) tradicionalistas, que vão considerar os estudiosos antigos; (3) reformistas, que devem considerar a razão para compreensão dos textos, da <italic>Ijtihad</italic> e das Ciências; (4) racionalistas, que afirmam que a razão deve se impor à autoridade dos textos e desenvolver um pensamento secularista; (5) místicos, que fazem uma leitura pela inteligência do coração e se dedicam à purificação e liberdade do ser. Completa dizendo que é possível encontrar interseções entre essas tradições - tradicionalistas/místicos, por exemplo (<xref ref-type="bibr" rid="B2">BARBOSA, 2016</xref>).</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>A gênese do Islã para Ramadan</title>
			<p>Em seu recente livro “<italic>Le Génie de L´Islam: initiation à ses fondements, sa spiritualité et son Histoire</italic>” <xref ref-type="bibr" rid="B9">Ramadan (2016</xref>) escreve sobre a gênese do Islã - uma provocação do autor ao se referir à gênese do cristianismo, do judaísmo. O Islã, por sua vez, tem sua gênese e carrega em si uma densidade que ele tenta explorar neste livro a partir da narrativa da vida do Profeta aos dias atuais. Tariq Ramadan aponta o fato da <italic>sirah</italic> (biografia do profeta), por terem sido diversas. Nessas biografias, é possível destacar as qualidades do profeta como sendo <italic>Sadiq, al- Amin e rasul- allah</italic> (fiel, mensageiro de Deus). A revelação realizada durante 23 anos foi marcada por várias batalhas entre as cidades de Meca e Medina. As revelações alcorânicas são contextualizadas, explicam a atuação do Profeta e, por isso, o autor chama a atenção para o fato de que o Alcorão não deve ser lido sem o seu respectivo contexto, porque cada mensagem revelada tem um porquê, o qual, muitas vezes, não é entendido nos termos atuais, principalmente se atentarmos ao fato de a revelação ser em língua árabe, o que dificulta o entendimento de quem não domina o idioma. A compreensão da mensagem alcorânica precisa de um trabalho de um ulemá, exegetas e juristas, não se trata de uma atividade simples, por ter contida nela variadas metáforas e analogias, além de outros termos. Impossível compreender o texto alcorânico sem interpretar o contexto histórico. O exercício da leitura é dedutivo da teoria para a prática e indutivo da prática para a teoria, tanto para o texto Alcorânico quanto para os <italic>hadices</italic> (tradição do Profeta Muhammad).</p>
			<p>Para o autor, um dos tópicos importantes é a compreensão do leitor sobre o conceito de <italic>Tawhid</italic> (unicidade de Deus) - a ideia de que nada pode ser associado a Deus é central no Islã, pois só assim será possível compreender os pilares da fé e da prática no Islã<xref ref-type="fn" rid="fn6"><sup>
 <bold>6</bold>
</sup> </xref> , além dos respectivos interditos. </p>
			<p>O autor traz de forma básica os pilares da fé e da prática no Islã - as leis gerais <italic>ibadah</italic>. Há também os termos <italic>haram</italic> (proibido/ ilícito) e halal (licito). <italic>Haram</italic> como o consumo de carne de porco e álcool, a partir do lícito e ilícito Tariq Ramadan escreve em seu livro sobre Ética Islâmica, é um verdadeiro tratado de <italic>Adab</italic> (comportamento islâmico). Quando trata da <italic>Sharia</italic> e do conceito de <italic>Jihad</italic> (empenho, esforço, dedicação)<xref ref-type="fn" rid="fn7"><sup>
 <bold>7</bold>
</sup> </xref> , refere-se a <italic>usul al-fiqh</italic> (jurisprudência) como base e levanta a ideia de que o conceito de <italic>jihad</italic> é mal interpretado pela imprensa e pelo senso comum. No Islã, é previsto também a <italic>Shura</italic> - consulta à comunidade, que difere, por exemplo, da ideia de democracia, mas não é excludente, respeita-se, em geral, o entendimento de quem tem mais conhecimento. Toda a compreensão de humanismo, criação e natureza é explorado pelo autor. Por fim, ele aborda questões importantes do Islã contemporâneo e sua não relação com movimentos como Boko Haram e Daesh. O que esses grupos representam para a vida na comunidade? Que leituras fazem do Alcorão e da <italic>Sunnah</italic>? </p>
			<p>Este livro, lançado no início de 2016, sofreu represálias do governo francês. Várias livrarias indicam não ser um livro recomendado e há, até mesmo, dificuldade para encontrá-lo para compra durante o período do seu lançamento. Este fato foi, várias vezes, denunciado por Tariq Ramadan durante o período que estive em Oxford. O livro mostra nada mais do que alguns pontos importantes para a compreensão sobre o Islã. Não há abordagem política ou antifrancesa. Esta proibição levou Tariq Ramadan a pedir a nacionalidade francesa; ele é suíço de nascimento, mas tem residência tanto em Paris quanto em Londres. </p>
			<p>Todos os livros de Tariq Ramadan comunicam de forma clara e objetiva os preceitos do Islã. Ele fala, em sua maioria, para a comunidade europeia, mas vem, cada vez mais, sendo conhecido em sociedades diversas como, por exemplo, a americana, a asiática, por causa da tradução dos livros para a língua inglesa. A princípio, como suíço, ele escreve em francês, mas, posteriormente, seus livros são traduzidos para o inglês; há também alguns títulos em espanhol e árabe. </p>
			<p>Muito do que vem sendo desenvolvido por Tariq Ramadan, pauta-se, substancialmente, pelo conceito de <italic>Ijtihad</italic>, tanto que, o tema do Curso de Verão em Granada foi justamente este, o que trouxe um novo olhar para esta perspectiva muito utilizada no <italic>Islã</italic> como instrumento metodológico, mas pouco comentada no meio acadêmico. Em geral, atrela-se o conceito muito mais à escola xiita, no entanto, ficou claro neste curso que os sunitas o usam muito mais frequentemente, porém, é pouco divulgado nos meios acadêmicos, mas, agora, vem tomando fôlego com os textos de Ramadan (2013, 2015, 2016) e do grupo coordenado por ele CILE. No curso de Granada, o professor Mu´taz Al-Khatib discorre sobre <italic>The modern approach to Ijtihad - historical and critical review</italic>. Para ele, a <italic>Ijtihad</italic> é importante nas escolas de jurisprudência, pois é o que dá base à Reforma, produz pesquisas acadêmicas e democratiza o conhecimento. Ele dá como exemplo, o das Ciências Médicas no caso da inseminação artificial - visto do ponto de vista religioso - como a <italic>Ijtihad</italic> pode, a partir das pesquisas acadêmicas, contribuir para este conhecimento. É fundamental para ele a exegese de fontes escriturárias islâmicas. O professor Chauki Lazhar traz para o debate a importância de se pensar na criatividade da <italic>Ijtihad</italic>, e no que está pode beneficiar o conhecimento. Um dos pontos mais debatidos entre os professores do curso é a emergência e a importância de se elevar o nível acadêmico.</p>
			<p>O que está em pauta sempre é <italic>Positive Reform</italic>, que para os pesquisadores muçulmanos do curso significa conhecimento. Há um movimento interessante proposto que vai do Intelecto (formas de entendimento) para o contexto (tradição) - texto (as fontes) - objetividade, isto lembra, claramente, o processo hermenêutico de interpretação. Esses são campos que devem ser explorados separadamente, para que criem sentido no conjunto. Há diferentes campos de saber e diferentes metodologias nas Ciências Islâmicas, pontuam os professores. Para esses, a <italic>Ijtihad</italic> está atrelada à secularização e à racionalidade. </p>
			<p>Chauki Lazlas em sua palestra intitulada <italic>The role of Islamic theology in concretive ijtihad</italic>, no qual o comportamento é a base deste conhecimento, explora a <italic>Ijtihad</italic> como instrumento de reforma, pois ajuda a compreender a natureza das coisas e sua subjetividade. Para ele é importante articular o conceito de <italic>Faqh</italic> com <italic>Imam</italic> (fé), a concepção de fé e o comportamento estão imbricados. E, desta forma, buscar compreender de que maneira se regulam as críticas - faculdades reguladoras - fica evidenciado que <italic>ijtihad</italic> e conhecimento caminham juntos. Tariq Ramadan diz em sua palestra: “<italic>The knowledge is extraordinarily, but is very complex</italic> [...] <italic>the danger of ‘sciense without conscience’</italic>”. </p>
			<p>Outro ponto interessante é entender a “Reforma” como uma forma de revivalismo islâmico, no qual a <italic>Ijitihad</italic> entra como instrumento de conhecimento e avaliação. Muhammad Iqbal (Poeta, filósofo indiano que faleceu em 1938) afirma que se deve considerar a política Ijtihad como “<italic>the powerful man creates environment; the feeble have to adjust themselves to it</italic>” (Notas de Caderno de Campo da palestra conferida por Tariq Ramadan em Granada, curso sobre Ijtihada, palestra sobre Ijtihad) caminha junto com a ciência, pois é necessário considerar a realidade atual, diferentemente do período da revelação do Alcorão: transplante de órgãos, plástica, inseminação artificial, etc.</p>
			<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B9">Ramadan (2016</xref>) é preciso explicar o significado de <italic>Tawhid</italic> (unicidade), pois é central ao pensamento e religiosidade islâmica. A compreensão do <italic>lā 'ilaha 'ill</italic>ā<italic>l-lāh</italic> (Não há Deus se não Deus) é crucial para o pensamento de Tariq Ramadan. Para o autor, o entendimento da espiritualidade é importante para o muçulmano. É preciso compreender a mensagem da religião e o lugar do <italic>nafs</italic> (ego/alma) na experiência religiosa. Ramadan diz que há sim um problema na espiritualidade e isto tem relação com o <italic>nafs</italic>. Para o autor, a transformação do ser (pessoa) está na sua conduta correta, e este é, segundo ele, o ensinamento do Profeta. Há também um problema de falta de entendimento de palavras do árabe e, por isso, o trabalho de filósofos é de grande valia, pois é necessária a “desconstrução” da língua para um melhor entendimento.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Considerações Finais</title>
			<sec>
				<title>Por uma ética islâmica</title>
				<p>O pensamento de Tariq Ramadan é bastante envolvente, impossível transmiti-lo em um texto. A intensão aqui foi abrir uma fresta a novas reflexões, e instigar outros leitores para sua obra, pois em tempos de islamofobia crescente, os livros do autor e suas falas públicas caem como um suspiro em meio a tanta violência. O que é o Islã? Faz-se necessário compreender, no que acreditam os muçulmanos, para evidenciar de vez os estereótipos construídos pelas mídias.</p>
				<p>No livro sobre ética, o autor retoma a importância da unicidade (<italic>tawhid</italic>), e a ética é a base moral deixada pelo Profeta por intermédio das palavras de Deus reveladas no Alcorão.</p>
				<p> A preocupação do autor com a ética islâmica é tamanha, que ele também faz uso de um <italic>hadith</italic> para exemplificar o seu pensamento sobre ética: “<italic>Aquele, cuja ética é boa, receberá de Deus o mesmo mérito daquele que jejua frequentemente e mantém vigília (durante a noite)</italic>”. Desta forma, penso eu, ele não está educando somente não-muçulmanos, mas também muçulmanos, pois retoma os princípios islâmicos de forma bem compreensiva e didática.</p>
				<p>A ética, de acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B7">Ramadan (2015</xref>) embasa o conhecimento e comportamento islâmico. Busca-se, portanto, o <italic>iman</italic> (fé) e o <italic>Ihsan</italic> (sinceridade do coração). Além disso, a ética está atrelada ao domínio do saber (jurisprudência, <italic>ilm al-kalam, falsafa</italic>, saberes místicos), sendo <italic>akhlãq</italic> (ética), o bom comportamento (<italic>adab</italic>) e representa a moral profética.</p>
				<p>A preocupação com ética está presente desde os primeiros pensadores muçulmanos, a fim de melhor compreender a mensagem do Alcorão e a tradição profética. Com a emergência das ciências, sua categorização e sua hierarquização, a reflexão sobre ética se diversifica entre discussões filosóficas e origem dos valores morais (Revelação e/ou razão: <italic>falsafa, kalam</italic>). A relação entre os valores e as regras jurídicas (<italic>fiqh</italic>), ou ainda, o lugar entre o comportamento virtuoso e elevação espiritual para os sufis. </p>
				<p>A ética islâmica é intrinsecamente ligada ao significado que se dá à adoração (<italic>Ibadah</italic>), e este é o questionamento fundamental (<italic>asl</italic>). Faz-se necessário para o pensamento do autor uma compreensão extensa sobre a ética e os campos profissionais atrelados também à religião. Como trazer reflexões como ética islâmica para o campo acadêmico, é o grande desafio de Tariq Ramadan, o que vem fazendo com bastante competência.</p>
			</sec>
		</sec>
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	<back>
		<ref-list>
			<title>Referências</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>BARBOSA, F.C. Tariq Ramadan: intelectual controverso. Projeto (Pós-Doutorado) - Universidade de São Paulo, 2015. </mixed-citation>
				<element-citation publication-type="thesis">
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				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B2">
				<mixed-citation>BARBOSA, F.C. Islã: Religião ou Política? a antropóloga Francirosy Barbosa traz um panorama do islã político, suas origens e diferentes visões. Revista Diaspora: Narrativa em Movimento, 2016. Disponível em: &lt;<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.revistadiaspora.org/2016/05/06/isla-religiao-ou-politica/">http://www.revistadiaspora.org/2016/05/06/isla-religiao-ou-politica/</ext-link>&gt;. Acesso em: 26 jan. 2017.</mixed-citation>
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					<source>Revista Diaspora: Narrativa em Movimento</source>
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				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B3">
				<mixed-citation>FERREIRA, F.C.B. Imagem oculta: reflexões sobre a relação dos muçulmanos com as imagens fotográficas. 2001. 156f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) - Universidade de São Paulo, São Paulo, 2001. </mixed-citation>
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					<publisher-name>Universidade de São Paulo</publisher-name>
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 				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B4">
				<mixed-citation>FERREIRA, F.C.B. Entre arabescos, luas e tâmaras: performances islâmicas em São Paulo. 2007. 372f. Tese (Doutorado em Antropologia Social) - Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007. </mixed-citation>
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 				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B5">
				<mixed-citation>MORERAS, J. Nuevas vocês y nuevas vías para el islam europeo. In: EL ISLAM minoritário: Cómo ser musulmán en la Europa laica. Barcelona: Editora Tawhid, 1999. </mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
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					<year>1999</year>
				</element-citation>
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			<ref id="B6">
				<mixed-citation>RAMADAN, T. To Be a European Muslim: A study of islamic sources in the European context. Leicester: Islamic Foundation, 1999.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
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					<publisher-loc>Leicester</publisher-loc>
					<publisher-name>Islamic Foundation</publisher-name>
					<year>1999</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B7">
				<mixed-citation>RAMADAN, T. Introduction à l'éthique Islamique: Les sources juridiques, philosophiques, mystiques et les questions contemporaines. Paris: Presses du Châtelet, 2015. </mixed-citation>
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			</ref>
			<ref id="B8">
				<mixed-citation>RAMADAN, T. Mon intime conviction. Paris: Presses du Châtelet, 2009.</mixed-citation>
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			<ref id="B9">
				<mixed-citation>RAMADAN, T. Le Génie de L´Islam: Initiation à ses fondements, sa spiritualité et son Histoire. Paris: Presses du Châtelet, 2016. p.285.</mixed-citation>
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			<ref id="B10">
				<mixed-citation>RAMADAN, T. Radical reform: Islamic ethics and liberation. Oxford: Oxford University Press, 2013.</mixed-citation>
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					<year>2013</year>
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			<ref id="B11">
				<mixed-citation>RUSHDIE, S. Os versos satânicos. São Paulo: Companhia das Letras,1989.</mixed-citation>
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					<publisher-name>Companhia das Letras</publisher-name>
					<year>1989</year>
				</element-citation>
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			<ref id="B12">
				<mixed-citation>SILVA, V.G. O antropólogo e a sua mágia. São Paulo: EDUSP, 2000.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
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					<source>O antropólogo e a sua mágia</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>EDUSP</publisher-name>
					<year>2000</year>
				</element-citation>
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		</ref-list>
		<fn-group>
			<fn fn-type="financial-disclosure" id="fn8">
				<label>Apoio:</label>
				<p> Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Processo nº 2015/20843-8).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>Para Tariq Ramadan.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>Hassan al Banna, fundador do movimento a Irmandade Muçulmana, propunha uma retomada dos valores morais éticos islâmicos na sociedade egípcia e no mundo muçulmano, fundamentado nas fontes islâmicas: Alcorão e os <italic>hadiths</italic> do Profeta, consolidando assim a <italic>Sharia</italic>.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>O professor Chauki Lazhar é um dos professores do Curso de Verão que fiz em Granada em maio de 2016, curso este coordenado pelo professor Tariq Ramadan.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p><italic>Plural de hadith.</italic></p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>5</label>
				<p>Arábia Saudita é seguidora desta corrente ultra tradicional.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>6</label>
				<p>Pilares da Fé: Crença em Deus único, crença nos anjos, nos seus mensageiros, acreditar nos livros sagrados (Salmos, Torá, etc.), crença no destino, crença no dia do Juízo Final. Pilares da Prática: Testemunhar que não há Deus e não Deus, e Profeta Muhammad é seu Mensageiro; fazer cinco orações diárias; pagar o <italic>zakat</italic>; fazer jejum no mês do Ramadan; e fazer a Peregrinação a Meca (se tiver condições físicas e financeiras).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>7</label>
				<p><italic>Jihad</italic> traduzido equivocadamente como Guerra Santa (em referência às Cruzadas). A palavra <italic>Jihad</italic> vem da palavra árabe <italic>ja-ha-ba</italic> que significa esforço, empenho, dedicação, tanto que a palavra <italic>Ijtihad</italic>, um dos termos da Jurisprudência Islâmica, significa esforço intelectual. São dois os principais conceitos de <italic>jihad</italic>: <italic>jihad nafs</italic> (esforço individual, aquele que vai lidar com o ego de cada muçulmano para que se esforce a ser uma pessoa melhor), <italic>jihad</italic> como guerra (<italic>qital</italic>), quando o muçulmano tem que se defender, resistir às invasões, às agressões, ao colonialismo.</p>
			</fn>
		</fn-group>
	</back>
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