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Apresentação
Iuri Andréas REBLIN
Iuri Andréas REBLIN
Apresentação
Reflexão, vol. 41, núm. 2, pp. 133-134, 2016
Pontifícia Universidade Católica de Campinas
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Apresentação

Apresentação

Iuri Andréas REBLIN
Escola Superior de Teologia, Brazil
Reflexão, vol. 41, núm. 2, pp. 133-134, 2016
Pontifícia Universidade Católica de Campinas

O protestantismo é um arcabouço que abriga contrastes curiosos. Nascido sob a égide do princípio "ecclesia reformata semper reformanda est", na esteira da publicação das 95 teses na porta da igreja de Wittenberg no dia 31 de outubro de 1517 por Martinho Lutero, o protestantismo se constituiu como um movimento que, depois, se desdobrou em diferentes confissões religiosas dentro do cristianismo. A proposta de se repensarem certas doutrinas e práticas religiosas, num diálogo com o espírito bíblico diante do engessamento institucional da Igreja Cristã de então, das artimanhas de poder e de um controle do discurso religioso, não apenas balançou as estruturas da época como acabou formando pequenas novas microestruturas. Suas características, ora em maior, ora em menor escala, acabaram se repetindo, mas com uma diferença: a quebra de uma hegemonia e a proliferação de confissões religiosas acabaram, de certa forma, libertando o sujeito religioso, possibilitando-lhe não apenas escolher entre uma ou outra confissão religiosa, como também transitar entre elas, inclusive, sem a necessidade de se filiar a uma ou outra.

Naturalmente, o movimento protestante acabou contribuindo para o surgimento do capi-talismo, da secularização e de outras transformações sociais, políticas, econômicas e culturais que, no mundo ocidental predominantemente cristão, ao menos, acabou relegando a própria religião para o âmbito privado. Apesar disso, ela - enquanto instituição de poder - continua exercendo uma influência significativa nas relações e nas práticas cotidianas, bem como na esfera pública, particularmente, no Brasil, vide as ações da bancada evangélica do Congresso, por exemplo. Não se está afirmando aqui que a dinâmica do protestantismo, seu movimento e seus desdobramentos foi ruim, mesmo porque o pensamento especulativo do "o que aconteceria se..." ou o "e se..." num olhar ao passado, à história, pertence melhor ao campo ficcional.

É nessa direção que reside, a meu ver, a grande contribuição do protestantismo histórico para os estudos de Religião na América Latina: provocar o "e se..." não num olhar ao passado, mas num olhar ao presente com vistas ao futuro. Ou seja: provocar a suspeita sobre discursos, agenciamentos e articulações políticas, bem como provocar a pergunta "tem que ser assim?", "e se fosse diferente...?", "pode ser diferente?", "por que tem que ser assim?". Isto é, ao reclamar o poder da palavra, de dizer a palavra, de interpretar a palavra e repassá-la às pessoas, quebrando a hegemonia de enunciados e práticas, o movimento protestante rompeu com o feitiço da linguagem - tal como identificado por Ludwig Wittgenstein em seu Tratado Lógico-Filosóficos - e elucidou que fatos tidos por vezes como naturais (como as instituições e as organizações, por exemplo, as instituições religiosas) são construções sociais, sujeitas às dinâmicas das relações, suscetíveis a falhas e, portanto, passíveis de questionamento e transformação, como o próprio protestantismo.

É claro que nem sempre o "e se..." evoca a melhor saída. E mesmo que evoque a melhor saída num determinado momento, nada impede que a mesma dinâmica de opressão retorne sob uma nova roupagem. Poder questionar para transformar, entretanto, é a ação implícita no princípio "ecclesia reformata semper reformanda est". E esta é a outra contribuição do protestantismo: somos todos sempre e indelevelmente pecadores e, por mais que queiramos, por mais que nos esforcemos ou nos penitenciemos, não eliminamos essa característica de nossa carne, de nossa sequência de ácido desoxirribonucleico em nossas células (nosso DNA). Entretanto, "quando tudo está perdido, sempre existe um caminho, quando tudo está perdido, sempre existe uma luz", como proclama Renato Russo na canção "A via Láctea". E esse caminho é a justificação por graça e fé concedida por Deus. Essa é a dinâmica que se articula no espírito epistemológico protestante, e é essa dinâmica que você encontrará nos textos desta edição.

Tenha uma boa leitura!

Material suplementar
Notas
Autor notes

* R. Amadeo Rossi, 467, Morro do Espelho, 93001-970, São Leopoldo, RS, Brasil. E-mail: <reblin_iar@yahoo.com.br>.

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