Editorial

Contribuições do protestantismo histórico para os estudos de religião na América Latina: o caso das Ciências Sociais no Brasil

Breno Martins CAMPOS *
Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Brazil

Contribuições do protestantismo histórico para os estudos de religião na América Latina: o caso das Ciências Sociais no Brasil

Reflexão, vol. 41, núm. 2, pp. 135-138, 2016

Pontifícia Universidade Católica de Campinas

Como parte integrante de um movimento de resposta a novas demandas por conhecimento especializado acerca do protestantismo no Brasil na segunda metade do século passado, foi publicado, em 1973, pela Editora Vozes (católica), o livro "Para uma sociologia do protestan-tismo brasileiro", do sociólogo de tradição protestante Waldo A. César. Trata-se de um trabalho de pesquisa que veio à luz, segundo explicações do próprio autor, por solicitação do Instituto Superior de Estudos Teológicos (ISET)2 e com objetivos bem delimitados: "documentar e em parte criticar obras e pesquisas relevantes para um estudo sobre o protestantismo brasileiro"; estabelecer uma espécie de sociografia, fundamentada em muitas obras, "para sugerir um marco teórico e algumas hipóteses que nos parecem abarcar relações fundamentais, do ponto de vista sociológico (e teológico), para um estudo mais global do fenômeno religioso repre-sentado pelo protestantismo brasileiro" (CÉSAR, 1973, p.5). Dentre os intelectuais brasileiros, havia o reconhecimento de que o protestantismo histórico vinha sendo pouco pesquisado em comparação com as investigações direcionadas, por exemplo, ao catolicismo e aos cultos africanos no país.

Para corroborar a ideia de uma demanda por novos conhecimentos quanto à presença do protestantismo no Brasil, vale mencionar o comentário ou convite que Luiz Mott em 1975 propôs na resenha que fez do livro "Para uma sociologia do protestantismo brasileiro": que César publicasse, para benefício da comunidade de estudiosos das religiões no Brasil, uma bibliografia (de preferência, comentada) do protestantismo no Brasil, pois ele havia mencionado "possuir ao redor de seiscentas fichas bibliográficas de referência sobre este tema" (CÉSAR, 1975, p.86). Além disso, Mott deu destaque àquilo que pode ser tomado como o legado mais decisivo do livro de César (1973): a sugestão de dividir os estudos sociológicos do protestantismo no Brasil em três períodos3. Para César (1973), superado o aspecto polemista da primeira fase dos estudos do protestantismo no Brasil (1930-1940) e ultrapassada a situação de maioria estrangeira a caracterizar os investigadores acadêmicos na segunda (1940-1955), foi a partir de 1955 que um número maior de protestantes brasileiros passou a se interessar por sociologia e começou a investigar cientificamente seu próprio universo de pertencimento e atuação4.

Naquele que pode ser considerado o primeiro balanço bibliográfico da produção em ciências sociais da religião no Brasil com "vida própria" e "caráter monográfico" - a opinião é de Pierucci (1999, p.250) -, Alves (1978, p.134), outro intelectual brasileiro de tradição protestante, chegou a uma conclusão interessante em diálogo com o livro de César, princi-palmente quanto ao terceiro período dos estudos de protestantismo no Brasil (marcado por confrontos e divisões):

Os cientistas que se dedicaram a fazer uma análise crítica do Protestantismo são, todos eles (na medida em que conheço), ex-pastores, ex-seminaristas, ex-líderes leigos forçados a deixar suas funções. [...] Os trabalhos, sem exceção, procuram as relações do Protestantismo com os processos de invasão cultural e ideológica que marcaram a expansão colonial norte-americana. O Protestantismo é analisado como uma ideologia repressora, totalitária, capitalista, que se encontra em casa num Estado Capitalista e totalitário. O que explicaria, em parte, o seu silêncio no Brasil após 1964.

No final dos anos 70 do século passado, a conclusão de Alves revela outra forma de dizer que os estudos acadêmicos do protestantismo no Brasil, mesmo conduzidos por protestantes históricos, continuavam restritos a um grupo de interessados.

Em seu próprio balanço acerca do que ler na sociologia da religião no Brasil, no fim do século XX, Pierucci (1999, p.270) voltou aos três períodos propostos por César:

No primeiro (1930-1940), que representa a passagem da pura polêmica para a obra histórica (ainda) polemicamente orientada, os autores escrevem na qualidade de membros filiados a uma ou outra das denominações protestantes. No segundo (1940-1955), marcado pelo aparecimento das primeiras obras e pesquisas sociológicas, surgem autores já vinculados ao meio universitário, principalmente estrangeiros. O terceiro (a partir de 1955), marcado pelo aprofundamento do foco igreja-sociedade, é o mais prolífico em obras de caráter mais definidamente sociológico, realizadas entretanto em dupla filiação: os autores estão o tempo todo com um pé no contexto eclesiástico e o outro no acadêmico5.

Na mesma seção do balanço bibliográfico em que apareceu o livro "Para uma sociologia do protestantismo brasileiro", Pierucci (1999, p.270) fez também menção honrosa a outra obra de 1973 muito importante para os estudos de religião no Brasil, inclusive os do protestantismo histórico: "Católicos, protestantes, espíritas", de Cândido Procópio Ferreira de Camargo et al. A data da publicação e o estilo dos dois livros, ambos publicados pela Editora Vozes, não podem ser tomados como "feliz coincidência" - é preferível enxergar "um certo Zeitgeist", como propôs Pierucci (1999, p.270).

Um salto no tempo, mas sem distanciamento do assunto: em 2003, mais precisamente nos dias 26 a 28 de agosto, o Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo realizou o "Encontro Temático: Católicos, pro-testantes, espíritas... 30 anos depois" como parte das celebrações de seus trinta anos de existência - visto que fundado em 1973 (de novo, o mesmo ano) - e com o objetivo de reunir estudiosos da religião para o debate teórico e metodológico das expressões religiosas no Brasil do início deste século. No ano seguinte, os temas e exposições do evento foram publi-cados no livro "Sociologia da religião e mudança social: católicos, protestantes e novos movimentos religiosos no Brasil", organizado por Beatriz Muniz de Souza e Luís Mauro Sá Martino.

Quando foi publicado em 1973, seu livro [de Camargo], Católicos, protestantes, espíritas, dividiu as pesquisas em sociologia da religião no Brasil em duas fases. De certa maneira, parafraseando Engels, esse livro levou a pesquisa da fase "utópica" a uma nova, a "científica". A partir de dados empíricos coletados por uma equipe de pesquisadores do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), Camargo desenvolveu um quadro teórico sistemático dos estudos de religião no Brasil (SOUZA; MARTINO, 2004, p.8).

A opinião dos organizadores do livro de 2004 quanto ao caráter de divisor de águas atribuído ao livro de 1973 é bastante plausível: "A maior parte dos estudos de religião feitos até 1970 restringiam-se à história da Igreja Católica ou do protestantismo, e eram, em geral, feitos por participantes das próprias denominações" (SOUZA; MARTINO, 2004, p.8); constatação que César havia transmitido aos partícipes do campo de interesse pelo protestantismo no Brasil desde 1973. O contexto histórico dos anos 70 (século XX) talvez possa ser tomado como um quarto período no roteiro proposto por César: o dos estudos de religião puramente acadêmicos no Brasil, dentre os quais a revista Religião e Sociedade, cujo primeiro número foi lançado em 1977, tornou-se um marco (PIERUCCI, 1999). Além disso, os livros de Camargo e César coin-cidiam numa opinião que não pode ficar sem destaque: o pentecostalismo como um capítulo de interesse especial no início da década de 70 do século passado. O pentecostalismo ultrapassara o protestantismo histórico na condição de objeto de estudo dos cientistas da religião no Brasil porque também o deixara para trás em número de fiéis - ainda que, em boa parte dos casos, os pesquisadores do fenômeno pentecostal no Brasil continuassem a ser os protestantes históricos com formação em ciências sociais.

Mais recentemente, outro divisor de águas no campo dos estudos do protestantismo no Brasil foi o livro "Introdução ao protestantismo no Brasil", de Antonio Gouvêa Mendonça e Prócoro Velasques Filho (ambos acadêmicos de tradição protestante), publicado em 1990 pelas Edições Loyola (católica) em parceria com o Programa Ecumênico de Pós-Graduação em Ciências da Religião. Na apresentação da obra, o também protestante Maraschin (1990, p.10) propôs a seguinte reflexão:

Os estudos científicos de religião no Brasil estão se desenvolvendo, aos poucos, em centros de pesquisa e universidades, preocupados com certos fenômenos que nos fascinam a todos, como os cultos africanos, o pentecostalismo, e a chamada "religião popular". Mas não têm havido estudos e reflexão sobre o protestantismo brasileiro, numa linha mais científica e, portanto, não-sectária.

A consideração de Maraschin veio em boa hora (em seu tempo e também aqui) para confirmar a suspeita de que a mera chegada dos estudos e dos estudiosos de religião em universidades e programas de pós-graduação confessionais (protestantes) não era a garantia de que a tentação da polêmica e do sectarismo estivesse vencida. Perspectiva que Pierucci (1999, p.248) radicalizou quase dez anos depois da opinião de Marachin ter sido publicada:

É bem verdade que hoje, no final dos anos 1990, depois da oficialização dos cursos de pós-graduação em Ciências da Religião em muitas universidades brasileiras, poderíamos multiplicar indefinidamente a lista de agentes religiosos que se autoproclamam cientistas simplesmente porque fazem "ciência da religião". Durma-se com um barulho desses!

O caso particular das ciências sociais da religião no Brasil permite a compreensão de que as contribuições do protestantismo histórico para os estudos de religião no país - e, por extensão, na América Latina - deram-se mais por atuação individual de protestantes do que por projetos institucionais. Além disso, a maior de todas as contribuições dos protestantes para os estudos de religião no Brasil foi a produção de conhecimento a respeito do próprio protestantismo histórico, uma vez que os movimentos e as igrejas protestantes tradicionais no Brasil, desde a segunda metade do século XIX até os dias de hoje, nunca foram o foco principal, muito menos exclusivo, dos estudos de religião - o que não significa que os protes-tantes históricos, dos polemistas aos cientistas, não tenham produzido também outras formas de saberes.

Ao dedicar um número para pensar o protestantismo no Brasil às vésperas dos quinhentos anos da Reforma Protestante, a revista Reflexão (fundada também na década de 70 do século XX, mais precisamente em 1975) cumpre o importante papel de dar prosseguimento à produção de conhecimento acerca do protestantismo no Brasil na academia universitária; ademais, ao publicar os artigos que compõem este número, a revista permite ao próprio protestantismo, reflexivamente, a análise do tipo de conhecimento que vem sendo produzido nas últimas décadas, bem como a possibilidade de dar continuidade a eles.

Referências

ALVES, R.A. A volta do sagrado: os caminhos da sociologia da religião no Brasil. Religião e Sociedade, n.3, p.109-141, 1978.

BOURDIEU, P. Sociólogos da crença e crenças de sociólogos. In: BOURDIEU, P. Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense, 1990. p.108-113.

CAMARGO, C.P.F. (Org.). Católicos, protestantes, espíritas. Petrópolis: Vozes, 1973.

CÉSAR, W.A. Para uma sociologia do protestantismo brasileiro. Petrópolis: Vozes , 1973.

CÉSAR, W.A. Para uma sociologia do protestantismo brasileiro. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 16, p.85-86, 1975. Resenha de: MOTT, L. Disponível em: <Disponível em: http://www.revistas.usp.br/rieb/article/view/69879>. Acesso em: 24 out. 2016.

MARASCHIN, J. Apresentação. In: MENDONÇA, A.G.; VELASQUES FILHO, P. Introdução ao protestantismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 1990. p.9-10.

PIERUCCI, A.F. Sociologia da religião: área impuramente acadêmica. In: MICELI, S. (Org.). O que ler na ciência social brasileira (1970-1995) São Paulo: ANPOCS, 1999. v.2: Sociologia, p.237-286.

SOUZA, B.M.; MARTINO, L.M.S. Prefácio: A compreensão de um paradoxo. In: SOUZA, B.M.; MARTINO, L.M.S. (Org.). Sociologia da religião e mudança social: católicos, protestantes e novos movimentos religiosos no Brasil. São Paulo: Paulus, 2004. p.7-10.

Notas

2 "O ISET realizou encontro em S. Paulo, de 27 a 29 de julho de 1972, entre sociólogos e teólogos, com o objetivo de examinar as ba-ses sociográficas do catolicismo romano, do protestantismo e dos cultos africanos no Brasil. Por motivos de força maior, não foi possível estudar estes últimos. O ISET pretende dar continuidade aos debates, agora estimulando temas específicos de pesquisa no campo religioso e registrando informações gerais sobre trabalhos em execução" (CÉSAR, 1973, p.43).
3 A tese do autor propõe que o roteiro bibliográfico dos estudos do protestantismo no Brasil, da polêmica sectária à investigação sociológica, pode ser dividido nos três períodos seguintes: "1. Polêmica e história: a história como elemento polêmico (1930-1940)" (CÉSAR, 1973, p.10); "2. Primeiras obras e pesquisas sociológicas (1940-1955)" (CÉSAR, 1973, p.14); "3. Igreja e sociedade: confronto e divisão ideológica (a partir de 1955)" (CÉSAR, 1973, p.19).
4 Trata-se de uma proposta de análise que leva em conta o caráter processual dos estudos do protestantismo no Brasil, que não é a mesma coisa que considerar que o advento do último estágio tenha eliminado protestantes polemistas e pesquisadores estrangeiros do cenário de produção de saberes protestantes e de conhecimentos sobre o protestantismo no Brasil - a mudança é quanto à ênfase ou hegemonia a caracterizar cada período.
5 Em nenhum dos três períodos de investigação do protestantismo no Brasil ao longo do século XX, os autores citados nas recensões (de César, Alves e Pierucci) estiveram livres dos riscos apontados por Bourdieu (1990) quanto às tentações do jogo duplo e da dupla vantagem envolvidas numa condição de dupla filiação (religiosa e científica); ainda assim, pode-se dizer que os autores polemistas (líderes das igrejas protestantes), os pesquisadores estrangeiros (cientistas protestantes) e os cientistas sociais brasileiros (protestantes) cumpriram o papel de produzir conhecimento a respeito do protestantismo no Brasil.

Autor notes

* Rod. Dom Pedro, km 136, Pq. das Universidades, 13086-900, Campinas, SP, Brasil. E-mail:<breno.campos@puc-campinas.edu.br> .

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