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				<journal-title>Reflexão</journal-title>
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				<publisher-name>Pontifícia Universidade Católica de Campinas</publisher-name>
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					<subject>Articles</subject>
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				<article-title>Lutero, questões hermenêuticas e a Reforma
					Protestante</article-title>
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					<trans-title><italic>Luther, hermeneutical issue and the Protestant
						reformation</italic></trans-title>
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						<surname>RODRIGUES</surname>
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							<sup>1</sup>
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					<label>1</label>
					<institution content-type="original">Universidade Federal de Juiz de Fora,
						Instituto de Ciências Humanas, Departamento de Ciência da Religião. R. José
						Lourenço Kelmer, s/n., São Pedro, 36036330, Juiz de Fora, MG, Brasil.
						E-mail: &lt;elisa.erodrigues@gmail.com&gt;.</institution>
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						Fora</institution>
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						Religião</institution>
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					<corresp id="c1"><label>*</label> R. José
						Lourenço Kelmer, s/n., São Pedro, 36036330, Juiz de Fora, MG, Brasil.
						E-mail: <email>&lt;elisa.erodrigues@gmail.com&gt;</email>.</corresp>
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				<season>Jul-Dec</season>
				<year>2016</year>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative
						Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>Este artigo propõe que os problemas hermenêuticos que conduziram Lutero em sua
					aproximação do texto bíblico têm relação com seu contexto histórico, marcado
					pelo pensamento místico e pelo medo da condenação eterna que a Igreja Católica
					inculcava em seus fieis. A Reforma Protestante, portanto, representaria um
					movimento religioso de ruptura com a tradição católica e inauguração de um modo
					de religião que privilegiava o indivíduo, sua consciência e sua autonomia, em
					detrimento da instituição e sua vontade de poder e determinação sobre os fieis.
					Com isso, tem início um processo de valorização do indivíduo que,
					posteriormente, resultará na sua emancipação e na autonomização das instituições
					sociais em relação à Igreja Católica. Esses dois acontecimen-tos posteriormente
					consolidaram a Modernidade, em que se vislumbra como conquista a liberdade de
					consciência.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title><italic>Abstract</italic></title>
				<p><italic>This article proposes that the hermeneutical problems that led Luther to
						his approach to the biblical text are related to its historical context,
						marked by the mystical thought and fear of eternal damnation that the
						Catholic Church inculcated in the faithful. Therefore, the Protestant
						reformation represents a religious movement that breaks with the Catholic
						tradition, and begins a new way of religion that favored individuality,
						consciousness and autonomy over the institution and its will power and
						determination of the faithful. Thus, a process of individual valuation began
						that subsequently resulted in the emancipation and empowerment of social
						institutions in relation to the Catholic Church. After that, those events
						consolidated Modernity, in which liberty of conscience is to be
						achieved.</italic></p>
			</trans-abstract>
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				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Bíblia</kwd>
				<kwd>Hermenêutica</kwd>
				<kwd>Indivíduo</kwd>
				<kwd>Liberdade de consciência</kwd>
				<kwd>Martinho Lutero</kwd>
				<kwd>Reforma Protestante</kwd>
			</kwd-group>
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				<title><italic>Keywords:</italic></title>
				<kwd><italic>Bible</italic></kwd>
				<kwd><italic>Hermeneutics</italic></kwd>
				<kwd><italic>Individual</italic></kwd>
				<kwd><italic>Liberty of conscience</italic></kwd>
				<kwd><italic>Martin Luther</italic></kwd>
				<kwd><italic>Protestant Reformation</italic></kwd>
			</kwd-group>
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	<body>
		<p>Sempre que a palavra de Deus é proclamada, ela cria consciências alegres, abertas e
			seguras diante de Deus, pois é a palavra da graça, do perdão uma palavra boa e benéfica.
			Mas sempre que a palavra humana é anunciada, cria uma consciência triste, acuada e
			aflita em si mesma, pois é a palavra da lei, da ira e do pecado, ao mostrar o que não se
			fez e o quanto se deveria fazer.</p>
		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução</title>
			<p>A Reforma Protestante do século XVI pode ser considerada um evento histórico
				relevante para a Modernidade. Ela marcou o rompimento com uma concepção religiosa
				medieval caracterizada pelo misticismo e deu lugar a certa racionalidade, que em
				lugar da igreja sacralizou o Estado. Portanto, a Reforma teria representado um
				movimento que, entre outros aspectos, alinhava-se com a emergente valorização da
				razão e da individualidade. Dois impor-tantes marcadores da era moderna e secular,
				que contribuiriam significativamente para o desenvolvimento do espírito capitalista
				posteriormente consolidado (<xref ref-type="bibr" rid="B7">PIRES, 2003</xref>,
				p.80).</p>
			<p>O caráter fundamental da Reforma foi a refutação de algumas doutrinas católicas
				apoiadas numa interpretação da Bíblia que, segundo os reformadores, favoreceria mais
				a igreja do que seus fieis. Todavia, inicialmente o movimento da Reforma não teria
				pretendido a ruptura e a divisão da Igreja Católica Apostólica Romana. Ao contrário,
				Martinho Lutero esperava debater os entendimentos, segundo ele, equivocados da
				Bíblia, resultantes da corrupção dos sacerdotes que assessoravam o Santo Papa em
				favor de causas particulares humanas. Lutero intentou alertar o Papa Leão X quanto
				aos abusos e espoliações a que os fiéis estavam sendo submetidos pelo alto clero. </p>
			<p>Quando, em 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero afixou na Igreja de Wittemberg
				(Alemanha) as 95 teses escritas em latim que criticavam os abusos da Igreja
				Católica, o reformador cogitava uma disputa intelectual dentro do seio da igreja.
				Sua motivação para tanto foi a venda de indulgências e o cultivo da adoração às
				relíquias que a instituição afirmava serem lembranças da história da cristandade. O
				circo armado de Roma, segundo Lutero, aviltava a mensagem principal do evangelho, a
				saber: o Cristo crucificado por amor à humanidade.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Lutero</title>
			<p>Martinho Lutero foi um homem marcado por convicções e, paradoxalmente, por dúvidas.
				Seus pais eram piedosos e seguidores das doutrinas e ensinos católicos. O pai era
				minerador, e a mãe, membro uma família burguesa. Por volta de 1507, a família de
				Lutero frequentava os círculos burgueses, e seus dois irmãos eram professores
				universitários. Naquela época, as pessoas que podiam estudar tinham três
				alternativas: teologia, medicina e direito. Lutero teve sua carreira acadêmica
				planejada detalhadamente pelo pai e, depois de ter se tornado mestre nas artes, foi
				encaminhado para o curso de direito.</p>
			<p>Ainda como estudante de direito, decidiu seguir a carreira religiosa após ter passado
				por uma experiência de assombro. Em 2 de julho de 1505, Lutero foi surpreendido por
				uma tempestade e - a 6 quilômetros ao norte de Erfurt, em Stotternheim - próximo
				dele caiu um raio que o aterrorizou. O jovem Lutero invocou a padroeira dos
				mineiros, santa Ana, prometendo--lhe ingressar num convento caso o salvasse. Depois
				dessa experiência, em 1507, foi ordenado monge no Mosteiro Agostiniano Eremitas
				Observantes de Erfurt, onde recebeu suas primeiras instruções sobre teologia. Nesse
				período, foi grandemente influenciado pelo seu conselheiro Staupitz, que o apoiou
				até momentos cruciais de sua vida, quando foi confrontado pelos enviados de Roma e
				excomungado da igreja (<xref ref-type="bibr" rid="B3">DREHER, 1996</xref>,
				p.14).</p>
			<p>Vale dizer que Lutero foi profundamente acometido de culpa por não se considerar apto
				para o exercício do ministério religioso. Sua culpa e inquietação o levaram a longos
				debates com o demônio, pois se sentia envergonhado pelas dúvidas que o acompanhavam
				e não se contentava com a imagem carrasca e inquisidora de Deus, corrente no período
					medievo<xref ref-type="fn" rid="fn1">2</xref>. A intensidade das questões de Lutero o encaminhou para o doutorado em
				teologia. Lutero afirmou ter sido forçado à carreira universitária e ao título de
				doutor, mas seus superiores na Ordem o designaram para o estudo da Teologia e,
				posteriormente, para a cátedra de Bíblia em Wittemberg. Na função docente, Lutero
				aliou pregação e instrução, práticas ligadas ao seu título de doutor nas Sagradas
				Escrituras e às suas convicções de fé.</p>
			<p>A Universidade de Wittenberg era ainda muito recente quando recebeu Lutero. Havia
				sido criada pelo príncipe-eleitor da Saxônia, Frederico, o Sábio, há apenas 10 anos.
				Na época concorria com grandes expoentes, como as universidades de Viena,
				Heidelberg, Colônia, Erfurt, Leipzig e outras. Mas, com a docência de Lutero, o
				número de estudantes aumentou pouco a pouco, chegando ao número de 600 alunos em
				1520. Lá passaram a ser recebidos os alunos das províncias alemãs, da Suíça, da
				Polônia e da Boêmia (<xref ref-type="bibr" rid="B4">EBELING, 1988</xref>, p.13).</p>
			<p>No ambiente acadêmico, Lutero teve acesso aos escritos bíblicos nas línguas originais
				- he-braico e grego - sem a interpretação mediada pelos clérigos. O contato direto
				com as Escrituras inspirou sua reflexão quanto à pregação oficial da igreja e seus
				ensinos, e o conduziu ao debate teológico. Por essa época o reformador era professor
				de filosofia moral da Universidade de Wittenberg. Em sua crítica, destacou o
				problema da venda de indulgências promovida pelo Papa Leão X para o financiamento da
				construção da Basílica de São Pedro, em Roma. Seu objetivo inicial com a elaboração
				das 95 teses foi levar ao público suas ideias, mas as teses do teólogo geraram uma
				espécie de cisma e, em 21 de janeiro de 1521, foi redigida sua carta de excomunhão,
				que recebeu algum tempo depois.</p>
			<sec>
				<title>Lutero e o texto bíblico</title>
				<p>Pode-se dizer que o trabalho hermenêutico de Lutero no trato do texto bíblico
					teria sido o fio condutor do movimento da Reforma. As antigas questões que
					torturavam Lutero assim como a outros cristãos do período medieval tornaram-se
					questões de aproximação da Bíblia, isto é, questões hermenêuticas. A sua
					formação bem como o seu tempo sinalizavam posi-tivamente para ideias que se
					consolidavam paulatinamente: indivíduo e consciência, assim como outros
					conceitos que marcaram a modernidade, podem aqui ser entendidos como noções
					significativas que constituíram as condições de possibilidade para que homens
					como Lutero fomentassem uma consciência de autonomia. Daí que o contato com a
					literatura bíblica, não intermediado pelo clero, tornara-se o ponto crucial de
					sua argumentação no sentido de que se revelasse aos homens um Deus amável e
					misericordioso.</p>
				<p>Somente em 1545 Lutero falou sobre a experiência que o fez (re)descobrir a
						justificação<xref ref-type="fn" rid="fn2">3</xref>. No convento com os monges, ou junto aos alunos como professor de
					teologia bíblica, Lutero se perguntava &quot;como posso obter um Deus
					misericordioso?&quot;. A ameaça da condenação ao inferno assim como a culpa pelo
					pecado assolavam os cristãos desde a infância até a juventude. A igreja
					esforçava-se para inculcá-las em seus fieis e fazia de tais sentimentos,
					instrumentos de controle que lhes garantia a crença num Deus impiedoso quanto ao
					pecado. Demônios e duendes faziam parte do imaginário da época. Em razão disso,
					Margaretha Lude, sua mãe, costumava colocar nas proximidades da casa ervas de
					toda a sorte com a finalidade de evitar que o mal viesse sobre a família (<xref
						ref-type="bibr" rid="B3">DREHER, 1996</xref>).</p>
				<p>Historiadores da Reforma entendem que a exegese de um extrato bíblico específico
					teria contribuído para uma mudança epistêmica no entendimento teológico de
					Lutero, que resultou no deslocamento do olhar, antes centrado na Lei, para uma
					atenção especial à Graça. Essa perícope, Carta de Paulo aos Romanos, capítulo 1,
					verso 17, parte a (&quot;[...] a justiça de Deus se revela de fé para a
						fé&quot;<xref ref-type="fn" rid="fn3">4</xref>), primeiramente conduziu Lutero a pensar que, para além do Decálogo
					(Antigo Testamento), outro conjunto de textos autoritativos contidos nos
					Evangelhos (Novo Testamento) impunham-se ao fiel como regra para a salvação.
					Contudo, a atenção para a segunda parte do verso (&quot;o justo viverá pela
					fé&quot;) levou-o a concluir que a justiça de Deus e seu perdão seriam
					concedidos por meio da fé, cuja origem estaria no indivíduo, e não na
					igreja.</p>
				<p>Resulta desse entendimento que, por um lado, a morte e a condenação se
					avizinhariam daquele que não tem fé. Por outro, a alegria da vida e da salvação
					seria dada aos que tivessem fé. Tal entendimento está ilustrado nos versos do
					hino a seguir. Na primeira estrofe a salvação, fruto do amor divino provado com
					sua morte na cruz e, na segunda e terceira estrofes, o terror das trevas e a
					condenação eterna, a despeito de todas as obras realizadas em vista de se obter
					um pedaço do céu.</p>
				<p>Cristãos, alegres jubilai,</p>
				<p>felizes exultando;</p>
				<p>com fé e com fervor cantai,</p>
				<p>a Deus glorificando.</p>
				<p>O que por nós fez o Senhor,</p>
				<p>por seu divino excelso amor,</p>
				<p>custou-lhe a própria vida.</p>
				<p>Fui prisioneiro de Satã,</p>
				<p>a noite me envolvia.</p>
				<p>A minha vida, triste e vã,</p>
				<p>nas trevas se esvaía.</p>
				<p>Abismo horrível me tragou;</p>
				<p>perdi-me no pecado.</p>
				<p>As obras nunca poderão</p>
				<p>livrar-me do pecado.</p>
				<p>O livre-arbítrio tenta em vão</p>
				<p>guiar o condenado.</p>
				<p>Horrível medo me assaltou,</p>
				<p>ao desespero me levou,</p>
				<p>lançando-me ao inferno.</p>
				<p>Lutero, portanto, entendeu que a justificação ocorre quando Deus aceita o pecador
					e o justifica de todos os seus pecados. A pessoa tornada justa passa a viver
					confiando exclusivamente em Deus. Embora a justificação seja necessária, o
					processo não aconteceria da mesma maneira para todas as pessoas: &quot;a
					experiência pessoal é dada e marcante [...] [mas] não é ela que importa.
					Importa, sim, a realidade objetiva da justificação em Cristo&quot; (<xref
						ref-type="bibr" rid="B1">ALTMANN, 1994</xref>, p.84). Por meio da fé - que é
					concedida pelo próprio Deus, e não pelos recursos humanos -, o indivíduo pode
					alcançar a salvação. Desse entendimento derivou ainda outra conclusão: há
					salvação fora da Igreja Católica Apostólica Romana.</p>
				<p>Nesse sentido, quando realizada a justificação, não se elimina a experiência
					diária do fiel, o que significaria que a conversão é um processo em andamento: a
					conversão segue acon-tecendo. Daí o pedido: &quot;Ajuda, querido Senhor e
					Salvador, para que permaneçamos pecadores piedosos e não nos tornemos santos
					blasfemadores&quot; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">ALTMANN, 1994</xref>, p.87).
					Esse processo conduz à ética e à ação no mundo, que Max Weber classificou como
					ascese intramundana<xref ref-type="fn" rid="fn4">5</xref>. Isso &quot;Porque o homem não vive somente com e para o seu próprio
					corpo, mas sim também com os demais homens. Esta é a razão pela qual o homem não
					pode prescindir das obras no trato com seus semelhantes&quot; (<xref
						ref-type="bibr" rid="B5">LUTERO, 1983</xref>, p.40). Noutras palavras, o
					justo viverá pela fé, mas não deverá descuidar das suas ações e práticas no
					mundo. Eis a base da ética protestante. Se, por um lado, a Lei condena, por
					outro, o Evangelho, que traz a notícia da graça, salva.</p>
				<p>Caberia ao fiel viver no mundo, sem deixar-se contaminar por ele. Algo que
					somente seria possível se permanecesse depositando fé nos méritos de Deus. Daí
					resultaram alguns princípios basilares para o movimento da Reforma.</p>
				<sec>
					<title>(a) A Bíblia como maior parâmetro</title>
					<p>Com a Reforma emerge o princípio chamado <italic>Sola Scriptura,</italic> que
						se baseia na crítica à autoridade interpretativa e doutrinária da igreja
						católica sobre a Bíblia, a qual fundou certa tradição que no curso histórico
						se sobrepôs ao próprio conteúdo bíblico. Lutero recusou essa premissa, a
						infalibilidade e a interpretação papal.</p>
					<p>Num episódio bastante conhecido da vida de Lutero, em 1521, ele foi chamado a
						se retratar diante a Dieta Imperial em Worms. Na ocasião, foi pedido que
						renegasse seus escritos teológicos que, segundo o papado, constituíam
						heresia e afronta à autoridade eclesiástica. Após ter ouvido as condições,
						Lutero solicitou um dia de reflexão. Passado o prazo, retornou diante seus
						inquiridores e apresentou seu parecer a respeito de seus escritos,
						dividindo-os em três partes: 1) fé e doutrinas, 2) contra os papas e
						papistas e 3) contra os opressores da área privada. Embora não reconhecesse
						as autoridades eclesiásticas, justificava sua negação com base, segundo ele,
						na literatura bíblica: &quot;[...] a minha convicção vem das Escrituras a
						que me reporto, e minha consciência está cativa à palavra de Deus&quot;
							(<xref ref-type="bibr" rid="B6">LUTERO, 1987</xref>, p.145).</p>
					<p>Na fala de Lutero, dois princípios parecem evidentes: acima de qualquer outra
						autoridade estaria a autoridade do texto bíblico e, da leitura e
						entendimento das Escrituras, resultaria um tipo de consciência esclarecida
						da qual deveriam derivar as escolhas individuais do fiel<xref ref-type="fn"
							rid="fn5">6</xref>.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>(b) O sacerdócio universal dos crentes</title>
					<p>Em 1520, Lutero desenvolveu um escrito que alguns pesquisadores consideram
						emi-nentemente político: &quot;À nobreza cristã da nação alemã, acerca da
						melhoria do estamento cristão&quot;<xref ref-type="fn" rid="fn6">7</xref>. Na ocasião, Lutero declarou que a concepção de que cabe somente ao
						Papa o ofício de interpretar os textos bíblicos é &quot;uma fábula
						desaforadamente inventada&quot;<xref ref-type="fn" rid="fn7">8</xref>. Assim, sustentava que o sacerdócio universal dos crentes requereria
						a quebra do monopólio papal sobre a leitura e interpretação das Escrituras.
						Baseado na Segunda Carta de Paulo aos Coríntios, capítulo 3, verso 17
						(&quot;Pois o Senhor é o Espírito, e onde se acha o Espírito do Senhor aí há
						liberdade&quot;), Lutero convocou os cristãos a desfrutarem da liberdade que
						o Senhor concedia a quem buscasse discernimento e orientação diretamente da
						Bíblia. Segundo entendia, o esclarecimento sobre o seu conteúdo viria do
						próprio Deus<xref ref-type="fn" rid="fn8">9</xref>.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>(c) A clareza da mensagem bíblica</title>
					<p>Lutero acreditava que, após ter sido entendido o artigo central da
						justificação por graça e fé, a Escritura se tornava clara; isto é, no
						processo de leitura e interpretação gradual da Bíblia, os sentidos dos
						conteúdos fundamentais se autoevidenciavam com a ajuda do Espírito Santo.
						Com isso, Lutero não dispensava o estudo criterioso das Escrituras. A
						clareza da men-sagem bíblica estaria, portanto, ligada ao sacerdócio
						universal de cada crente e à oportunidade de, mediante o contato com os
						escritos bíblicos, cada indivíduo receber a graça, ter fé e ser justificado.
						Para que isso ocorresse era necessário que tais textos fossem traduzidos
						para a língua do povo.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>(d) A tradução do Novo Testamento e o cânon dentro do cânon</title>
					<p>Lutero foi responsável pela tradução do Novo Testamento da língua original -
						grega - para o alemão. Com isso, também cunhou a língua alemã moderna<xref
							ref-type="fn" rid="fn9">10</xref>. A tradução se caracterizou pela preocupação de tornar o texto
						original próximo da linguagem popular. Mas, se por um lado, essa preocupação
						quanto à tradução para o idioma alemão favoreceu o contato entre povo e
						Escrituras, por outro, o monopólio da igreja sobre o texto bíblico começou a
						ruir.</p>
					<p>Lutero concedeu grande valor à Escritura e não negou que ela era o registro
						da voz de Deus por meio da ação humana<xref ref-type="fn" rid="fn10">11</xref>. Portanto, os textos bíblicos foram mediados antropologicamente.
						Contudo, entendeu que somente a leitura que fosse intermediada pela
						inspiração do Espírito Santo superaria o escrito e desvelaria a mensagem de
						Deus. As noções de que a Bíblia foi formada também pela ação humana e de que
						o Espírito era responsável pela vivificação da letra, fizeram com que Lutero
						adquirisse certa liberdade na leitura e interpretação das Escrituras. Havia
						textos que, segundo ele, poderiam legitimar desejos humanos; logo, poderiam
						ser classificados em grau de importância. O resultado desse princípio foi
						que Lutero sentiu--se a vontade para apreciar alguns textos mais do que
						outros, e isso explica o seu pouco caso em relação ao Apocalipse, à Epístola
						aos Hebreus e mais ainda em relação à Epístola de Tiago, que poderia servir
						de legitimação para as boas-obras que a igreja até então requeria dos fiéis
						para a salvação. O reformador tinha como critério hermenêutico &quot;aquilo
						que promove Cristo&quot; e nisso se apoiava para rejeitar a influência dos
						Pais Apostólicos. Importava apenas que o centro de toda a interpretação
						bíblica apontasse para Jesus, o Cristo.</p>
				</sec>
			</sec>
			<sec>
				<title>As polaridades estruturantes da hermenêutica de Lutero</title>
				<p>Lutero também se empenhou na reforma educacional dos currículos das universidades
					e na criação de escolas cristãs que ensinassem a Bíblia para todos. O que parece
					ter caracterizado seu pensamento e que condicionava sua hermenêutica é a questão
					do embate entre antigo e novo, da era da lei <italic>versus</italic> a era da
					graça. Esse confronto foi levado às últimas consequências na fórmula
						<italic>simul iustus - simul peccator</italic> (justo e pecador ao mesmo
					tempo), a qual se reproduziria em outras polaridades correlacionadas e
					estruturantes de seu pensamento teológico, como &quot;filosofia e teologia,
					letra e Espírito, lei e evangelho, o duplo uso da lei, pessoa e obra, fé e amor,
					reino de Cristo e reino do mundo, pessoa cristã e pessoa civil, liberdade e
					cativeiro, Deus oculto e Deus revelado&quot; (<xref ref-type="bibr" rid="B4"
						>EBELING, 1988</xref>, p.19). </p>
				<sec>
					<title>(a) A letra e o Espírito</title>
					<p>Para Lutero, a palavra de Deus deveria ser lida e ouvida segundo o Espírito,
						que privilegiaria mais a sua voz do que a palavra material e escrita. O
						papel da letra, portanto, era instrumento para que o Espírito se fizesse
						ouvir. &quot;O Espírito está oculto na letra&quot; (<xref ref-type="bibr"
							rid="B4">EBELING, 1988</xref>, p.78). Segundo Lutero, a letra não
						corresponde à boa palavra de Deus, mas sim à ira. Já o Espírito é a
						boa-nova, o evangelho, porque é a palavra da graça. Nesse sentido, ele
						entendeu que a palavra da lei é simbólica e que as palavras e acontecimentos
						bíblicos em si mesmos constituem o objeto que designam. Assim, o Espírito
						Santo tem a função de atualizar essa palavra constantemente, a fim de que
						ela não se fixe ou se prenda ao passado. A compreensão da diferença entre
						letra da lei e espírito da lei tornou-se posteriormente um pilar da
						distinção entre lei e evangelho. O reformador considerou essas duas
						realidades contrastantes, reveladoras de dois âmbitos da vida: o carnal e o
						espiritual e, na perspectiva de Lutero, as oposições do visível e do
						invisível, do exterior e do interior, do humano e do divino, do agora e do
						futuro, entre outras, revelavam uma perspectiva histórica de progressiva
						superação de uma instância pela outra - um entendimento que se consolidaria
						com a Modernidade e o deslocamento epistemológico típico desse período, do
						misticismo medieval para a lógica da razão.</p>
				</sec>
				<sec>
					<title>(b) O binômio Lei e Evangelho</title>
					<p>Por entender que a lei era tudo que exigia, enquanto o evangelho representava
						a promessa e a concessão de Deus para quem cresse em Jesus, Lutero concebeu
						o chamado binômio letra e Espírito, do qual é sinônimo o par Lei e
						Evangelho. A distinção entre lei e evangelho era fundamental, e não
						representava uma operação de substituição de uma pela outra, pois seria
						necessário defender a lei para se assegurar da pureza do evangelho. A lei
						sempre condenaria o pecador, mostrando-lhe sua situação de perdição. Por
						outro lado, o evangelho seria a boa-nova que revelava o feito salvífico de
						Deus para salvar a humanidade. Noutras palavras, a lei era necessária para
						que a graça fosse revelada. Da mesma forma, o evangelho por si só não
						bastaria, necessitando da complementação da lei<xref ref-type="fn"
							rid="fn11">12</xref>.</p>
					<p>Vale notar que, segundo esse entendimento, quando a Palavra é bem proclamada
						e a distinção entre Lei e Evangelho é compreendida, haveria um despertamento
						da consciência. Tal consciência é que tornaria o indivíduo autônomo de si
						mesmo, algo diferente de uma consciência unicamente humana, que o faria
						escravo de suas próprias possibilidades e que o obrigaria a apresentar as
						contas de tudo quanto não fez e onde falhou. </p>
				</sec>
			</sec>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Conclusão</title>
			<p>Com a Reforma e as propostas feitas pelos fundadores desse movimento, ficou evidente
				que o processo interpretativo dos escritos bíblicos pode ser efetuado
				individualmente e que o texto bíblico se presta a essa atividade. Antes da Reforma
				não era dado ao leigo o direito de interpretação do texto bíblico, tarefa essa
				exclusiva do clero e que justificava o entendimento segundo o qual os fieis deveriam
				ser conduzidos às conclusões necessárias. Lutero inaugurou a era em que cada cristão
				poderia ter sua Bíblia e, inevitavelmente, poderia elaborar suas conclusões
				particulares.</p>
			<p>Se, por um lado, a proposta de Lutero possibilitou o encontro do fiel com as
				Escrituras, contribuindo para que a relação com Deus se tornasse mais pessoal e
				independente da figura do padre, por outro lado, pode-se dizer que essa iniciativa
				deu-se no âmbito de um anseio generalizado de autonomia que tomava aldeões,
				comerciantes e artesãos da época. Nesse sentido, a leitura bíblica individual se
				encaixava num quadro social e histórico que emergia juntamente com um novo tipo de
				sociedade e, ao mesmo tempo, servia aos propósitos de grupos descontentes com os
				privilégios do clero.</p>
			<p>Provavelmente, o Lutero revolucionário que se conhece não fez mais do que externar os
				anseios de uma classe emergente, a saber, a burguesia. Por isso, faz-se necessária a
				percepção de que também a leitura de Lutero foi mediada por circunstâncias
				socioculturais específicas, visto que sua hermenêutica foi condicionada por esse
				horizonte que ainda se via em face de traços medievais. O legado protestante do
				século XVI, as contestações de Lutero ao Papado e seu exercício arbitrário do poder
				eclesiástico, bem como o posterior pensamento burguês do século XVII, constituíram
				eventos históricos significativos que favoreceram a multiplicação das alternativas
				religiosas nos séculos seguintes e possibilitaram, no âmbito religioso, a libertação
				dos fieis da obrigação de famílias confessionais. Mas não só isso.</p>
			<p>As questões hermenêuticas de Lutero tornaram-se o fio condutor de um tipo de lógica
				que gradualmente se consolidava. Ao questionar a autoridade papal e o monopólio da
				Igreja Católica na formulação de doutrinas, o movimento reformador afirmava haver
				outra via de salvação não protagonizada por essa instituição. Com isso dava voz à
				figura do indivíduo, fortalecendo assim uma concepção segundo a qual a razão
				individual poderia ser critério para o entendimento da vontade de Deus e de seu
				plano para a humanidade. Como conse-quência imediata desse entendimento, cada crente
				poderia ser um sacerdote. Cada crente poderia entender o texto bíblico. A igreja não
				seria mais fundamental para a humanidade. </p>
			<p>Das trevas, então, surgem as luzes da razão, num movimento que teve em Lutero um de
				seus protagonistas.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<ref-list>
			<title>Referências</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>ALTMANN, W. <italic>Lutero e libertação</italic>: re-leitura de
					Lutero em perspectiva latino-americana. São Paulo: Ática, 1994.
					352p.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>ALTMANN</surname>
							<given-names>W.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source><italic>Lutero e libertação</italic>: re-leitura de Lutero em
						perspectiva latino-americana</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
					<publisher-name>Ática</publisher-name>
					<year>1994</year>
					<size units="pages">352p</size>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B2">
				<mixed-citation>BAESKE, A. et al. Reflexões em torno de Lutero: São Leopoldo:
					Sinodal, 1984. v.2. (Série: Lutero - Es-tudos 4). </mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>BAESKE</surname>
							<given-names>A.</given-names>
						</name>
						<etal/>
					</person-group>
					<source>Reflexões em torno de Lutero</source>
					<publisher-loc>São Leopoldo</publisher-loc>
					<publisher-name>Sinodal</publisher-name>
					<year>1984</year>
					<volume>2</volume>
					<comment>Lutero - Es-tudos 4</comment>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B3">
				<mixed-citation>DREHER, M. A crise e a renovação da igreja no período da reforma.
					São Leopoldo: Sinodal , 1996. p.14-25. (Coleção História da Igreja,
					v.3).</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>DREHER</surname>
							<given-names>M.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>A crise e a renovação da igreja no período da reforma</source>
					<publisher-loc>São Leopoldo</publisher-loc>
					<publisher-name>Sinodal</publisher-name>
					<year>1996</year>
					<fpage>14</fpage>
					<lpage>25</lpage>
					<comment>Coleção História da Igreja</comment>
					<volume>3</volume>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B4">
				<mixed-citation>EBELING, G. <italic>O pensamento de Lutero</italic>: ama introdução.
					São Leopoldo: Sinodal , 1988.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
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							<surname>EBELING</surname>
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						</name>
					</person-group>
					<source><italic>O pensamento de Lutero</italic>: ama introdução</source>
					<publisher-loc>São Leopoldo</publisher-loc>
					<publisher-name>Sinodal</publisher-name>
					<year>1988</year>
				</element-citation>
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			<ref id="B5">
				<mixed-citation>LUTERO, M. Da liberdade cristã. 4.ed. São Leopoldo: Sinodal ,
					1983.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
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							<surname>LUTERO</surname>
							<given-names>M.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Da liberdade cristã</source>
					<edition>4</edition>
					<publisher-loc>São Leopoldo</publisher-loc>
					<publisher-name>Sinodal</publisher-name>
					<year>1983</year>
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			</ref>
			<ref id="B6">
				<mixed-citation>LUTERO, M. Obras selecionadas. São Leopoldo: Sinodal , 1987. v.9. </mixed-citation>
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					<person-group person-group-type="author">
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							<surname>LUTERO</surname>
							<given-names>M.</given-names>
						</name>
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					<source>Obras selecionadas</source>
					<publisher-loc>São Leopoldo</publisher-loc>
					<publisher-name>Sinodal</publisher-name>
					<year>1987</year>
					<volume>9</volume>
				</element-citation>
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			<ref id="B7">
				<mixed-citation>PIRES, F.P. Viagem à terra do Brasil. Jean de Léry: entre a
					medievalidade e a modernidade. Caminhando, v.3, n.11, p.89-112,
					2003.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="journal">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>PIRES</surname>
							<given-names>F.P.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<article-title>Viagem à terra do Brasil. Jean de Léry: entre a medievalidade e a
						modernidade</article-title>
					<source>Caminhando</source>
					<volume>3</volume>
					<issue>11</issue>
					<fpage>89</fpage>
					<lpage>112</lpage>
					<year>2003</year>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B8">
				<mixed-citation>WEBER, Max. Ensaios de sociologia. Rio de Janeiro: LTC, 2008, cap.
					3, p.226-249.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>WEBER</surname>
							<given-names>Max.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source>Ensaios de sociologia</source>
					<publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
					<publisher-name>LTC</publisher-name>
					<year>2008</year>
					<comment>3</comment>
					<fpage>226</fpage>
					<lpage>249</lpage>
				</element-citation>
			</ref>
		</ref-list>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>2</label>
				<p> Como outros católicos de seu tempo, Lutero esforçava-se para merecer a
					misericórdia de Deus, seguindo todas as práticas incentivadas pela disciplina
					ascética dos monges. Mas isso não parecia o bastante para evitar a ideia da
					condenação eterna (<italic>Cf</italic>. ALTMANN, 1994. p.80-8).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>3</label>
				<p>Esse relato pode ser encontrado no <italic>Prefácio ao primeiro volume da edição
						completa dos escritos latinos</italic>.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>4</label>
				<p>A Bíblia de Jerusalém. Tradução do texto em Língua Portuguesa dos originais,
					1973.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>5</label>
				<p>Para Weber, conforme a ética intramundana, o protestante se portaria
					asceticamente no mundo a fim de, pela sua reta conduta moral, acumular riquezas
					que seriam indícios materiais de algo ainda maior: a salvação espiritual. Nos
						<italic>Ensaios reunidos de Sociologia da Religião</italic> (GARS -
						<italic>Gesammelte Aufsätze zur Religionssoziologie</italic>), os capítulos
					iniciais do volume I compreendiam os ensaios sociológicos mais conhecidos de
					Weber sobre o protestantismo ascético: &quot;A ética protestante e o espírito do
					capitalismo&quot; e &quot;As seitas protestantes e o espírito do
					capitalismo&quot;. Além desses textos, &quot;A psicologia social das religiões
					mundiais&quot; e as &quot;Rejeições religiosas do mundo e suas direções&quot;
					(publicadas em português em: Weber (2008) apresentam as considerações de Weber
					sobre o modelo de religiosidade ascética protestante que pressupõe a ação
					individual no mundo. Uma ação racional e planejada, como afirma Weber, quanto a
					fins.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>6</label>
				<p> Posteriormente, essa orientação foi chamada de &quot;princípio escriturístico da
					Reforma&quot;, segundo o qual a interpretação dos textos bíblicos deveria ser
					feita à luz da própria Escritura, pois ela se autorrevelaria à medida que uma
					leitura fosse desenvolvida sob a inspiração do Espírito Santo. Para Lutero, a
					teologia era basicamente a interpretação das Sagradas Escrituras e somente por
					meio dela e da pregação da palavra é que se atingiria a vontade de Deus para o
					ser humano, no desvelamento compreensível das Escrituras.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>7</label>
				<p>Esse texto está publicado em Lutero (1987, v.2).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>8</label>
				<p>Em suas 95 teses, Lutero mostrou como eixo central o combate à instituição: que a
					vida do fiel fosse penitência (tese 1) e que o perdão divino fosse concedido
					gratuitamente (tese 37). Com isso, recusou o comércio da graça divina e
					&quot;destacou a atualidade de Cristo e da fé, que dispensa intermediários
					institucionais&quot;.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>9</label>
				<p>A partir de 1523, Lutero chamou a atenção das autoridades políticas para a
					necessidade de criação de escolas cristãs que capacitassem homens e mulheres a
					ler e entender os textos bíblicos. Nesse intento, o reformador escreveu auxílios
					e subsídios que cooperaram na preparação de pastores e de professores
						<italic>Cf.</italic> ALTMANN, Walter. <italic>Idem</italic>, p.105.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn9">
				<label>10</label>
				<p>Ebeling mostra que Lutero representou um &quot;evento linguístico&quot;, na
					medida em que, em todas suas obras, ajudou a forjar a língua alemã. Até então
					nenhuma outra pessoa havia agido dessa forma. Lutero teria demonstrado que as
					línguas foram os agentes que promoveram o evento evangelho e, em especial, no
					Antigo Testamento e no Novo Testamento, com as línguas hebraicas e gregas.
					Nisso, chamou a atenção para a revelação como evento mediado pela linguagem e,
					portanto, passível de interpretação (<italic>Cf</italic>. EBELING, 1988,
					p.20-24).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn10">
				<label>11</label>
				<p>Segundo ele: &quot;<italic>a palavra de Deus teve que ser anotada por escrito por
						nossa fraqueza</italic>&quot;. <italic>Cf</italic>. ALTMANN, W.
						<italic>Idem</italic>, p.107.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn11">
				<label>12</label>
				<p>&quot;De nada vale pregar só uma parte, mas sim a palavra de Deus em suas duas
					partes. Preguem-se os mandamentos para intimidar os pecadores a manifestar-lhes
					os pecados, de modo que se arrependam e se convertam. Mas isto não basta. É
					preciso anunciar também a outra palavra, a promessa da graça, ensinando o que é
					a fé, sem a qual mandamentos, arrependimento e tudo o mais será em vão&quot;
						(<italic>Cf</italic>. LUTERO, 1983, p.39).</p>
			</fn>
		</fn-group>
	</back>
</article>
