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				<journal-title>Reflexão</journal-title>
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				<publisher-name>Pontifícia Universidade Católica de Campinas</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.24220/2447-6803v41n2a3765</article-id>
			<article-id pub-id-type="publisher-id">00006</article-id>
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					<subject>Articles</subject>
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			<title-group>
				<article-title>O subterrâneo religioso da vida eclesial: escuta pastoral<xref
						ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref></article-title>
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					<trans-title><italic>The subterranean religiosity of ecclesial life: Pastoral
						listening</italic></trans-title>
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						<surname>BOBSIN</surname>
						<given-names>Oneide</given-names>
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					<label>2</label>
					<institution content-type="original">Faculdades EST, Programa de Pós-Graduação
						em Teologia. R. Amadeo Rossi, 467, Morro do Espelho, 93001-970, São
						Leopoldo, RS, Brasil. E-mail: &lt;obobsin@est.edu.br&gt;.</institution>
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						Teologia</institution>
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				<author-notes>
					<corresp id="c1"><label>*</label>R. Amadeo Rossi, 467, Morro do Espelho, 93001-970, São
						Leopoldo, RS, Brasil. E-mail: <email>&lt;obobsin@est.edu.br&gt;</email>.</corresp>
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			<pub-date pub-type="epub-ppub">
				<season>Jul-Dec</season>
				<year>2016</year>
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			<volume>41</volume>
			<issue>2</issue>
			<fpage>179</fpage>
			<lpage>197</lpage>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative
						Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>O presente trabalho procura analisar a noção de subterrâneo religioso como
					prática corrente entre os grupos religiosos. O subterrâneo religioso se
					constitui como maneira de transgredir fronteiras normatizadas pelas quais os
					grupos sociais trocam economias simbólicas por meio de contrabandos que ocorrem
					a partir da vida experimentada cotidianamente, isto é, pelas necessidades dos
					grupos sociais em operacionalizar a fé em resultados práticos. Esse conceito é
					analisado em parte a partir da agregação de um subsídio empírico da religião
					submersa, por meio da metáfora do poço, e na perspectiva de uma moldura teórica
					atualizada, especialmente na metodologia da pesquisa social em conexão com a
					epistemologia.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title><italic>Abstract</italic></title>
				<p><italic>The aim of the study is to analyze the notion of subterranean religiosity
						as a current practice among religious groups. The subterranean religiosity
						is constituted as a way of transgressing standardized boundaries through
						which social groups exchange symbolic economies through contraband that
						occurs based on the experience of daily life, that is, by the needs of the
						social groups to operationalize faith in practical results. This concept is
						analyzed in part from the aggregation of an empirical resource of submerged
						religion, through the metaphor of the well, and within the perspective of an
						updated theoretical framework, especially regarding the methodology of
						social research associated with epistemology.</italic>
				</p>
			</trans-abstract>
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				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Economia simbólica</kwd>
				<kwd>Religião submersa</kwd>
				<kwd>Subterrâneo religioso</kwd>
			</kwd-group>
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				<title><italic>Keywords:</italic></title>
				<kwd><italic>Symbolic economy</italic></kwd>
				<kwd><italic>Submerged religion</italic></kwd>
				<kwd><italic>Subterranean religiosity</italic></kwd>
			</kwd-group>
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			</counts>
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		<sec sec-type="intro|methods">
			<title>Introdução e nota metodológica</title>
			<p>O presente ensaio retoma as considerações feitas pelo autor em sua preleção
				inaugural, quando assumiu a Cátedra de Ciências da Religião, na Escola Superior de
				Teologia, em 1996<xref ref-type="fn" rid="fn2">3</xref>. </p>
			<p>Uma preleção inaugural constitui um bom momento para reafirmar publicamente, embora
				de forma ainda embrionária, o compromisso com um projeto de pesquisa que se
				orientará pela busca de conhecimento científico da realidade comunitária
				eclesial/religiosa da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) no
				contexto das religiões e das igrejas<xref ref-type="fn" rid="fn3"
					><sup>4</sup></xref> que disputam palmo a palmo as pessoas, com convites,
				seduções e coerções, visando cada uma preservar o seu público, aumentá-lo ou formar
				novos rebanhos, em grande parte a serviço do Império.</p>
			<p>A execução de um projeto de pesquisa com essa perspectiva apresenta muitas
				dificuldades, se se pensar que ele balizará um programa de estudo, pesquisa e
				docência de longa duração. Naquele momento (1996) pretendeu-se discorrer brevemente
				sobre uma delas. Trata-se das limitações da pesquisa de campo para quem exerce o
				duplo ofício de pertencer ao clero e, simultaneamente, fazer pesquisa, pois há uma
				identificação muito profunda do autor deste texto com o sujeito/objeto da pesquisa
				desde a sua infância, em razão da militância religiosa. Agrega-se a essa limitação a
				compreensão de acordo com a qual o observador/pesquisador faz parte do
				sujeito/objeto pesquisado. </p>
			<p>Não há como fugir para um campo de objetividade absoluta, como se o pesquisador
				estivesse num laboratório asséptico, protegido dos vírus da subjetividade. Todo
				conhecimento tem um grau de subjetividade em razão de não haver possibilidade de
				fotografar a realidade e dizer que ela foi captada na sua dimensão profundamente
				&quot;natural&quot;. Assim, com a crítica do método funcionalista-positivista não se
				tem a pretensão da objetividade absoluta, como se a compreensão da realidade fosse
				uma reduplicação dela. O pesquisador tem que se conformar com o fato de que só
				alcança a realidade como uma determinada construção da mesma, realizada em contextos
				específicos. </p>
			<p>A coisa não existe em si. A realidade não se converte em coisas, como queria o pai da
				sociologia <xref ref-type="bibr" rid="B13">Durkheim (1984</xref>, p.11)<xref
					ref-type="fn" rid="fn4">5</xref>. Ou, como afirma <xref ref-type="bibr" rid="B20">Jensen (2010</xref>),
				&quot;Com o conceito 'mais amplo' de ciência vem também a possibilidade de uma
				ciência da religião sólida em termos teóricos metodológicos, tendo em mente que
				'religião' não é uma coisa, é claro&quot;<xref ref-type="fn" rid="fn5">6</xref>. Logo, quando o pesquisador se aproxima da realidade religiosa das pessoas,
				o faz tomando-a para si, na perspectiva de uma representação carregada de sentido.
				Desse relativismo parecem escapar apenas a fome e a cruz, se a perspectiva for
				teológica. No entanto, como se trata de uma análise sociológica da religião, pode-se
				assumir a proposta da teoria do conhecimento de Maduro:</p>
			<p>[...] construímos a realidade, sempre, em relação com aquilo que nos afeta,
				interessa, atrai ou nela intimida. Noutras palavras, a realidade que conhecemos é,
				sem dúvida, em certo sentido, &quot;objetividade&quot; que existe independente de
				nós. Mas eu insinuaria que somente a conhecemos enquanto nos afeta e interessa: isto
				é, em certo sentido, enquanto começa a fazer parte de nossa
				&quot;subjetividade&quot; (<xref ref-type="bibr" rid="B23">MADURO, 1994</xref>,
				p.179).</p>
			<p>Quem melhor percebeu os compromissos ideológicos da Sociologia da Religião no Brasil
				foi Rubem Alves, em texto cujo subtítulo fala da ciranda dos deuses entre a
				universidade e o povo. Alves analisa a conexão entre saber e contexto,
				desconstruindo a suposta objetividade e o preconceito de uma determinada sociologia
				da religião contra a religião, que previa o fim das instituições religiosas e
				percebia as religiões do povo como resíduos a serem superados pelo
				desenvolvimentismo capitalista que subordinava as ciências ao seu projeto de
				coisificação das almas, embora <xref ref-type="bibr" rid="B13">Durkheim houvesse
					afirmado que há na religião &quot;algo eterno&quot;. Para Alves (1984</xref>,
				p.110), &quot;A religião ficou reclusa nas instituições eclesiásticas, e a
				Universidade prati-camente se calou sobre ela, voltando suas atenções para assuntos
				que julgavam dignos de serem investigados&quot;. Alves delimita a sua análise entre
				as décadas de quarenta e sessenta do século passado. Seria equivocado não situar no
				tempo um texto que fala de contexto e ciência. </p>
			<p>Nessa linha de raciocínio, Danièle Hervieu-Léger vem corroborar a hipótese do
				presente trabalho, ao mostrar que a sociologia da religião, na França, após a
				Segunda Guerra Mundial, se valeu de um &quot;conjunto de estudos que se propunham
				observar e mensurar a vida religiosa das 40.mil paróquias da França&quot; (<xref
					ref-type="bibr" rid="B14">ENGLER; GARDINER, 2010</xref>). A autora reafirma que
				o interesse no estudo das organizações de base das instituições religiosas, como as
				Igrejas, reanimou a pesquisa sociológica na França. Dessa forma, a tese de Rubem
				Alves revela que no Brasil tal interesse sempre foi opaco, mesmo que em Karl Marx,
				Emile Durkheim e Max Weber a religião fora tema central de suas pesquisas.</p>
			<p>Nessa perspectiva metodológica, acrescida da consciência das limitações da presença
				em lugares epistemológicos distintos - <italic>insider</italic> e
					<italic>outsider</italic> - que se confundiram em vários mo-mentos, o presente
				texto pretende realçar e, posteriormente, analisar as falas de pessoas evangélicas
				luteranas, colhidas ao longo de uma década numa Comunidade religiosa situada na
				Grande Porto Alegre. Mas antes disto é necessário trazer para o debate referências
				mais recentes sobre o holismo semântico, desconhecido nesta virada do milênio. É um
				tema importante porque tenta superar a dicotomia entre <italic>insider</italic> e
					<italic>outsider</italic>, tão solidificada nas ciências humanas e sociais, como
				reminiscências do positivismo do século XX. Segundo Engler e Gardiner, </p>
			<p>O holismo semântico nega a dicotomia entre insider e outsider. Se for correta essa
				teoria filosófica, os insiders (por exemplo, os religiosos) não podem ter uma
				compreensão de sua própria experiência que seja privilegiada, privada, oculta ou
				incomensurável: eles são constrangidos em suas interpretações quanto os outsiders
				(por exemplo, cientistas da religião) (<xref ref-type="bibr" rid="B14">ENGLER;
					GARDINER, 2010</xref>, p.101).</p>
			<p>Após esta referência importante para a pesquisa social, este estudo se debruça sobre
				os depoimentos de membros de uma Comunidade que se pronunciaram diante de alguém do
				clero sem revelar abertamente suas práticas religiosas heterodoxas, em especial em
				condições de luto ou de doença. Por não serem falas reconhecidas pela teologia
				institucional, o autor deste estudo colocou-os sob os termos &quot;subterrâneo
					religioso&quot;<xref ref-type="fn" rid="fn6">7</xref>. </p>
			<p>Assim, a partir de uma profunda relação de confiança, construída pelo trabalho
				religioso do agente erudito da religião, pode-se alcançar os níveis mais profundos
				das falas, das relações e do jogo de forças na Comunidade religiosa em foco. A
				proximidade permitida pela relação entre fiéis e agente do clero, baseada num
				relacionamento constante em momentos de dor e de alegria, nas horas de festa, de
				decisão e de confronto, permitiu romper as fronteiras determinadas pelos papéis de
				agente religioso oficial e &quot;leigo&quot;. Sem essa ruptura dos limites dos
				papéis seria impossível chegar ao subterrâneo religioso de famílias da Comunidade.
				E, com a ajuda das ciências da religião, que fazem olhar o mundo da outra pessoa e o
				seu discurso sem pré-juízos, foi possibilitado ao pesquisador saber das práticas
				religiosas fora da Comunidade de fé, tanto de forma direta como de maneira indireta.
				Iludem-se aqueles clérigos e cientistas que pensam que uma entrevista sem esse
				lastro chegue a um mínimo de objetividade: sem o lastro da confiança, o pesquisador
				ou o agente religioso escuta apenas aquilo que se passa na superfície da vida
				pessoal e social. Não se pode esquecer que um dito sempre é um desdito; que sob o
				discurso oficial, baseado em papéis e representações estereotipadas, há outra
				realidade, que tende a ser negada por algumas correntes teóricas de hoje.</p>
			<p>É preciso não esquecer, pois, que há sempre um mundo paralelo que perpassa toda a
				realidade social e pessoal. Nas empresas há o caixa dois; no casamento há, em muitos
				casos, a outra ou o outro; no mercado também se evidencia o lado paralelo - e a vida
				religiosa não é diferente de tudo isso. Mesmo assim, não falta transparência. E nas
				igrejas, como no mundo da política e de outras instituições, a situação não é tão
				diferente. Nos bastidores decide-se o fundamental, para em público se fazer a
				teatralização da democracia, em prejuízo da mesma. Por que reclamar das práticas
				religiosas ambivalentes dos fiéis, se é praxe, em todas as instituições, sejam
				religiosas ou civis, a prática do exercício paralelo do poder? Enfim, quem não quer
				passar por ingênuo deve admitir que se fale numa relação de fidelidade principal,
				também na esfera religioso-eclesiástica. </p>
			<p>Para alcançar esse mundo submerso da vida cotidiana lança-se mão aqui de uma técnica
				de pesquisa, por muitos altamente questionada, que se convencionou chamar de
				observação participante. Fez-se isso como ato segundo, pois a participação foi
				possibilitada pelo trabalho religioso, que estava em primeiro lugar. E a escuta,
				baseada numa relação permeada pelas coisas do coração, abriu muitas portas ao
				pesquisador. Os dados vieram por esse caminho, sendo depois submetidos a uma
				criteriosa análise crítica. <xref ref-type="bibr" rid="B23">Maduro (1994</xref>,
				p.31), em sua obra dedicada à teoria do conhecimento, lembra um antigo provérbio
				latino: <italic>primum vivere, deinde philosophari</italic> (&quot;primeiro viver,
				depois filosofar&quot;). O autor do presente artigo entende que a observação
				participante não contradiz o provérbio latino e, para sustentar sua posição
				metodológica, recorre a Howard S. Becker, especialista em métodos de pesquisa em
				ciências sociais para caracterizar a observação participante:</p>
			<p>O observador participante coleta dados através de sua participação na vida cotidiana
				do grupo ou organização que estuda. Ele observa as pessoas que está estudando para
				ver as situações com que se deparam normalmente e como se comportam diante delas.
				Entabula conversação com alguns ou com todos os participantes desta situação e
				descobre as interpretações que elas têm sobre os acontecimentos que observou (<xref
					ref-type="bibr" rid="B3">BECKER, 1997</xref>, p.47).</p>
			<sec>
				<title>Morte física e rituals imbólica</title>
				<p>Antes de prosseguir, cabe uma breve justificativa da escolha da morte física e
					ritual-simbólica como ponto de referência para analisar o subterrâneo religioso
					da vida eclesial. A escolha desse ponto de referência se dá porque o pesquisador
					que escreve este texto suspeita que as interpretações sobre a morte e o luto por
					parte da teologia oficial e da visão religiosa da Comunidade sejam distintas e
					distantes umas das outras, não obstante a legitimidade con-cedida pela
					Comunidade ao agente erudito que dirige os ritos. Fazendo um parêntese,
					esclarece que seu plano original não era falar sobre subterrâneos, mas trabalhar
					com a ideia de cisma individual consentido pela Igreja. Por quê? Porque parece
					haver, no fundamental, uma dis-sonância profunda entre leigos e clero, no que
					diz respeito à morte, à ressurreição e à imortalidade. Foi o apóstolo Paulo que
					afirmou que &quot;se Cristo não ressuscitou, vazia é nossa pregação, vazia
					também a vossa fé&quot; (1Co 15.14). </p>
				<p>Para que a exposição não venha a se tomar tão pesada como o luto, pretende-se
					partir de uma breve análise de Dona Flor e seus dois maridos, romance de Jorge
					Amado. Mesmo que os personagens façam parte de uma obra literária, eles refletem
					as categorias de construção de mundo do autor em seu contexto. Em outras
					palavras, tanto os personagens de uma obra literária quanto as marcas
					individuais do autor não estão descolados de uma visão de mundo ou da
					consciência coletiva. Ferrarotti, sociólogo italiano, fundamenta de forma muito
					explícita a possibilidade de se utilizarem obras da literatura para alcançar
					níveis mais profundos da realidade, os quais o sociólogo tangencia levemente com
					suas técnicas de pesquisa. Segue--se sua avaliação:</p>
				<p>Porque o poeta, o grande escritor, está ligado diretamente à consciência dos
					problemas, capta níveis mais profundos e menos transitórios, exprime tensões
					permanentes mais verdadeiras do que as informações de superfície, muitas vezes
					precisas e corretas, mas não necessariamente relevantes, podendo fornecer
					estatísticas, correlações e análises sociológicas mesmo quando são exatas e
					diligentes. Estas últimas são instrumentalmente insuficientes e incapazes de
					atingir o âmago do problema. Limitam--se a delinear, muitas vezes de forma
					louvável, sua forma exterior, sua sombra (<xref ref-type="bibr" rid="B15"
						>FERRAROTI, 1990</xref>, p.17).</p>
				<p>Com essas notas metodológicas introdutórias, incursiona-se pela trama dos
					personagens do romance de Jorge Amado, destacando seus personagens principais,
					sem que este analista se comprometa com o mundo religioso espelhado em Dona Flor
					e seus dois maridos. </p>
				<p><italic>&quot;Vadinho, o primeiro marido de dona Flor, morreu num domingo de
						carnaval, pela manhã, quando, fantasiado de baiana, sambava num bloco, na
						maior animação</italic> [...]&quot; (AMADO, [s.d.], p.21). Assim Jorge Amado
					começa o seu romance, que tem como tema o triângulo amoroso no qual Dona Flor é
					colocada como mediadora ou mediatriz entre dois homens distintos e distantes. </p>
				<p>Para a mãe de Dona Flor, que sempre fora contra o casamento, Vadinho não passava
					de um vagabundo, sem eira nem beira, viciado em trago, jogador inveterado, que
					nada valia. Também as beatas e amigas de Dona Flor partilhavam da mesma
					avaliação a respeito do falecido. De fato, Vadinho é apresentado como um
					vagabundo, amigo da noite, mulherengo, perdulário, mas também como um homem de
					bom trânsito no mundo da ordem. Sua condição de afilhado de Exu permitia-lhe
					abrir qualquer caminho fechado por alguém ou por uma força espiritual, pois essa
					&quot;entidade&quot; espiritual não corresponde ao diabo dos cristãos, mas sim
					ao deus da comunicação, das encruzilhadas. </p>
				<p>Enquanto Vadinho gastava em jogatinas e em farras com mulheres o dinheiro que a
					esposa havia ganhado em sua escola de culinária, ela o aguardava remoendo sua
					grande dor. Quando de sua volta, o malandro chegava de manso, com sua lábia e
					muitas juras de que mulher mesmo era Dona Flor, ao passo que as outras não
					passavam de divertimentos passageiros. Aos poucos o coração de Flor era vencido
					pela lábia do marido. Como de outras vezes, as juras de amor abrandavam o ódio,
					e lá se iam os dois para mais uma noite de amor, que Vadinho chamava de
					vadiação. A resistência de Flor era frágil, o desejo tomava-se mais forte que o
					rancor.</p>
				<p>Agora, Vadinho estava morto. Em seu quarto Flor já sentia saudade do homem que a
					fazia sofrer, mas que também sabia lhe dar prazer. Assim, Vadinho continuava
					vivo no coração de Flor ao longo dos meses de reclusão por causa do luto. Seu
					coração oscilava entre o sofrimento e a saudade do marido malandro. Foram meses
					de luto em que Dona Flor sofria a desvantagem de ser viúva. Mas na vila já
					corriam os boatos. As beatas e suas vizinhas estranhavam o período de reclusão
					de Flor. Vadinho não merecia tanto. Para as amigas e beatas, a morte de Vadinho
					representava uma carta de alforria e uma oportunidade de um novo casamento. Os
					fuxicos corriam frouxos, pois se sabia que o doutor Teodoro Madureira estava
					caidinho por Dona Flor. Ela não quis acreditar nas conversas das beatas e
					vizinhas. Todas torciam por Flor e pelo doutor Teodoro Madureira, farmacêutico
					famoso, dono da Drogaria Científica. Flor não se considerava à altura do
					farmacêutico, homem reservado, metódico, cheio de virtudes, sonho de outras
					mulheres que iam à sua farmácia levantar os vestidos para que o doutor aplicasse
					injeções. Sempre saíam frustradas, pois o doutor ficava restrito a seus deveres
					profissionais. </p>
				<p>Ao dar os primeiros passos para fora de casa, Dona Flor começou a se interessar
					pelas conversas e fuxicos das vizinhas que faziam de tudo para que a amiga se
					interessasse pelo farmacêutico. E os encontros entre Flor e o doutor Madureira
					começaram a acontecer. Meses mais tarde, o casamento foi marcado. Tudo era
					extremamente planejado. Cada coisa no seu lugar, e para cada situação a sua
					hora. Nada de sobressaltos, como no tempo de Vadinho. Nada de surpresas. Depois
					do casamento, cinema uma vez por semana, ensaios rotineiros do marido que tocava
					fagote, matinês longe de ambientes com jovens barulhentos. Sexo às
					quartas-feiras e aos sábados, com raras exceções noutro dia. Flor se sentia
					segura e orgulhosa do marido, que em nada se parecia com Vadinho. </p>
				<p>Mas a rotina foi interrompida por desejos de Flor e pela volta do morto-vivo,
					pois a morte simbólica e ritual não corresponde à morte física. Vadinho voltou
					para casa. Ele não mudara em nada. Flor tentou resistir, no início, às
					investidas eróticas do defunto vivo, pois era mulher honrada e de um homem só.
					Agora, ela estava com os dois dentro de casa. Só ela via e conversava com
					Vadinho; para o farmacêutico, ele não aparecia. Vadinho ria do doutor e Flor o
					defendia. Ele sabia que o seu retomo imaterial acontecia porque Flor o desejava. </p>
				<p>O tempo passava e o malandro continuava a fazer as suas aparições. Flor sentia-se
					dividida e ao mesmo tempo se tornava a mediadora de mundos opostos. Viveu um
					tempo nessa ambiguidade, até que pediu para a sua amiga ajudá-la porque começara
					a sentir-se cínica como o falecido. A pedido de Flor, sua amiga Dionísia de
					Oxóssi buscou auxílio em Pai Didi. Era preciso fazer uma obrigação, com um
					sacrifício de sangue, para que Vadinho voltasse para o seu lugar. E o sacrifício
					se realizou. O sangue foi derramado. Depois disso, Vadinho foi perdendo a sua
					materialidade e enfraquecendo. Pediu a ajuda de Flor para que pudesse ficar, mas
					o ritual já fora feito. Os orixás, numa guerra espiritual, amarraram Exu, o
					padrinho de Vadinho. Mesmo com Flor arrependida e não sabendo como viver sem
					Vadinho, o defunto foi sofrendo a sua morte simbólica por meio de rituais
					afro-brasileiros. Vadinho não tinha mais força, foi embora. &quot;Na hora
					derradeira, quando Exu já rolava pelo monte e um poeta compunha o epitáfio de
					Vadinho, uma fogueira se acendeu na terra e o povo queimou o tempo da
					mentira&quot; (AMADO, [s.d.], p.532).</p>
				<p>Para que não delongar nesta trama entre Flor e seus dois maridos, segue-se o
					desfecho do romance:</p>
				<p>E aqui se dá por finda a história de dona Flor e de seus dois maridos, descrita
					em seus detalhes e em seus mistérios, clara e obscura como a vida. Tudo isso
					aconteceu, acredite quem quiser. Passou-se na Bahia, onde essas e outras mágicas
					sucedem sem a ninguém causar espanto. Se duvidam, perguntem a Cardoso e Sª, e
					ele lhes dirá se é ou não verdade. Podem encontrá-lo no planeta Marte ou em
					qualquer esquina pobre da cidade (AMADO, [s.d.], p.535).</p>
				<p>Parafraseando o parágrafo final da obra de Jorge Amado, pode-se dizer, com uma
					pitada de ironia, que aqueles que duvidarem desta história podem perguntar a
					muitos dos evangélicos luteranos e de outras confessionalidades se ela é
					verdadeira ou não. Estórias como essa povoam os subterrâneos de comunidades
					urbanas e estão em cada esquina, fora dos templos, mas dentro da vida de muita
					gente, bem como em terreiros, centros espíritas, templos pentecostais e
					neopentecostais onde os pastores lutam contra as forças do mal, pois ele, em
					forma de demônios, se faz presente nas igrejas. Assim como no romance, também
					hoje se ouvem comentários de que maus espíritos estão presentes em alguns
					templos de renovação carismática da IECLB e de outras igrejas-irmãs. Eles
					assumem um rosto religioso, ludibriando, assim, lideranças pastorais. E,
					iludidas, podem estar coando mosquitos e deixando passar camelos, conforme
					expressão de Jesus em Mateus 23,24.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>A morte não mata</title>
				<p>Com a síntese da obra de Jorge Amado não se pretende tematizar características do
					feminino, mas realçar as relações entre o mundo dos vivos e o dos mortos, bem
					como destacar a confluência das oposições do personagem Dona Flor, que reflete a
					síntese dos opostos. Está-se interessado, isso sim, em perceber como o mundo dos
					mortos é percebido pelas crenças que povoam o cotidiano e seu subterrâneo, e
					como a morte é entendida numa sociedade profundamente marcada pelas relações
					pessoais. Por essa razão Dona Flor deixa de ser uma mulher de carne e osso,
					passando a ser tratada como metáfora e símbolo. </p>
				<p>Olhando para as relações entre as pessoas e os múltiplos mundos que são mediados
					por Dona Flor, percebe-se facilmente que não se trata do mundo coerente e
					unitário do protestantismo, conforme a tipologia de <xref ref-type="bibr"
						rid="B29">Weber (1981</xref>) em &quot;<italic>A ética protestante e o
						espírito do capitalismo</italic>&quot;. Deduz-se da interpretação de Max
					Weber que, no mundo protestante, há uma unidade de comportamento em todas as
					esferas da vida e uma total incapacidade do ser humano em poder influenciar,
					pela magia, a sua salvação. O ser humano está só no mundo e diante de Deus, sem
					possibilidade de influir sobre os que partiram para o outro mundo. Além disso, o
					mundo da fé e o mundo secular se confundiram no exercício secular da profissão.
					Por isso, o puritanismo rejeitava qualquer sinal externo de manifestação. A
					Reforma aboliu os meios mágicos de obter a graça, tendo como consequência a
					impossibilidade de comunicação entre os mundos. Também os meios mágicos para
					influenciar o outro mundo caem por terra (<xref ref-type="bibr" rid="B29">WEBER,
						1981</xref>, p.72s). Evidente que a tipologia de Weber parece ser um recurso
					teórico que pouco ajuda a entender as eternas discussões de lideranças leigas
					sobre cemitérios e proibições cada vez mais frágeis a respeito de certas
					práticas religiosas. A proibição de acender velas junto aos túmulos denuncia a
					fragilidade da proibição - refere-se aqui à percepção teológica protestante de
					que nada se pode fazer pelos mortos. Mas aqui não é lugar para tais digressões. </p>
				<p>Interessa, isso sim, a tese de <xref ref-type="bibr" rid="B12">Damatta
						(1985</xref>, p.115), segundo a qual os mortos constituem a questão central
					nas sociedades pré-modernas ou tradicionais, onde predominam teias de relações
					que impedem a emergência do individualismo. Para esse antropólogo, a morte se
					torna um problema apenas nas sociedades em que o indivíduo prevalece socialmente
					sobre o todo. Depreende-se, portanto, que se na sociedade moderna,
					individualista e protestante a morte é vista como um problema a ser enfrentado
					pela pessoa, sem a possibilidade de qualquer influência sobre o &quot;outro
					mundo&quot; ou da interferência deste na vida dos enlutados, nas socieda-des
					relacionais a morte física não coincide com a morte simbólica e ritual. Antes e
					depois de seu enterro, Vadinho continua o mesmo, e o desejo de Flor o traz de
					volta. </p>
				<p>Para exemplificar a tese de <xref ref-type="bibr" rid="B12">Damatta
					(1985</xref>), citam-se alguns dados que refletem mudanças na forma como se
					lida, hoje, com o período que antecede a morte de uma pessoa e o seu velório. Em
					comunidades evangélico-luteranas [IECLB] ainda existem resíduos de um tempo em
					que se morria em casa, com o moribundo cercado de parentes com os quais tomava a
					Santa Ceia antes da partida. O velório, por sua vez, acontecia na casa, para
					onde acorriam to-dos os parentes e amigos do morto. Nas longas madrugadas ao
					lado do morto tinha-se dificuldade de distinguir um velório de uma roda de
					piadas. Mesmo num contexto protestante (evangélico-luterano), havia um mundo de
					relações motivadas pela morte e pelo velório. Nas últimas décadas isso vem
					mudando rapidamente. Na maioria das vezes se morre num hospital, longe de casa
					e, portanto, do convívio, e o velório ocorre em capelas preparadas para esse
					fim. Assim, a morte e o velório urbanos rompem com as regras de uma sociedade na
					qual os mortos ainda estão presos a uma teia de relação. O morto é terceirizado
					pelas agências funerárias em disputas ferrenhas, muitas vezes. </p>
				<p>Noutra ocasião deve-se analisar com mais vagar, a partir de dados, que impacto
					essas mudanças estão causando na vida das pessoas. Além disso, pergunta-se se a
					busca de respostas em centros espíritas e terreiros de umbanda, no caso dos
					enlutados, não está relacionada também com o novo modo de lidar com a morte e
					com os novos procedimentos de velórios. O morrer e o velório ocorrem fora da
					casa como um mundo de relações, por imposição da sociedade que não pode perder
					tempo com nada. Cabe lembrar que em sociedades &quot;primitivas&quot; os ritos
					funerários são extremamente complexos e demorados (<xref ref-type="bibr"
						rid="B17">GENNEP, 1978</xref>, p.126). Inclusive existe, em certas tribos, a
					prática de sepultar o morto no pátio da casa em que viveu, destacando, assim, a
					sua continuidade naquele meio. </p>
				<p>Após esse excurso, volta-se ao romance de Jorge Amado, que reflete o contexto da
					sociedade relacional, que faz &quot;entender por que no Brasil a morte mata, mas
					os mortos não morrem&quot; (<xref ref-type="bibr" rid="B12">DAMATTA,
					1985</xref>, p.134). Tanto o romance quanto sua análise feita por <xref
						ref-type="bibr" rid="B12">Damatta (1985</xref>, p.80) suscitam indagações a
					respeito dos encontros e desencontros entre o discurso teológico da Igreja e os
					discursos dos membros das comunidades sobre morte, ressurreição e imortalidade.
					Essa hipótese pode ser amparada por breves depoimentos que o Jornal Evangélico
					(1997, p.12) destacou de um relatório de um pastor distrital, autoridade
					regional não mais existente em função de mudanças eclesiásticas. Veja-se a ponta
					do <italic>iceberg</italic> nas palavras dos próprios membros da Igreja:
					&quot;Agora eles só batizam quem vai na Igreja. Estão inventando moda&quot; (Uma
					mãe); &quot;Um cristão não precisa acreditar na ressurreição&quot; (Um membro de
					Comu-nidade).</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec sec-type="cases">
			<title>Relatos de casos</title>
			<p>Os casos que se seguem foram coletados de formas distintas. O primeiro foi surgindo a
				partir de comentários de mulheres evangélicas luteranas que davam apoio a Dona
					Wanise<xref ref-type="fn" rid="fn7">8</xref>, após a perda do marido. Só posteriormente, quase dois anos após a morte de
				Alberto, foi que ocorreu a entrevista com este pesquisador. Já no segundo caso,
				houve participação direta deste pesquisador, na condição de integrante do clero da
				Comunidade Evangélica Luterana de um município da Grande Porto Alegre. </p>
			<sec>
				<title>Mulher &quot;naturalista&quot;</title>
				<p>Depois de três décadas, o casamento de Dona Wanise se dissolveu pela morte do
					marido, que estava aposentado havia algum tempo. Como não conseguia viver sem
					ocupação, ele auxiliava um dos filhos na oficina mecânica que ajudara a levantar
					para encaminhar a vida do rapaz. De repente, adoeceu, surpreendendo toda a
					família. Como era uma pessoa muito fechada, automedicava-se e, quando a tosse
					apertava, apelava para o chá caseiro. Preocupada com a situação do marido, Dona
					Wanise insistiu em levá-lo para o hospital, que fica perto de sua casa. Mas ele
					foi aguentando até o momento em que não pôde mais executar as arrumações que
					estava fazendo em sua casa. Isso mostra que a impossibilidade de trabalhar
					indica o momento de buscar recursos na medicina. </p>
				<p>Como o hospital municipal fora fechado por não corresponder às normas dos
					organismos estaduais, os filhos levaram o pai para Porto Alegre. Segundo Dona
					Wanise, o hospital demorou a conseguir leito e, depois, não conseguia fechar o
					diagnóstico. Nesse meio tempo, angustiados com o desleixo dos médicos,
					procuraram pessoas de influência para trocar de hospital. No outro hospital,
					chegou-se rapidamente ao diagnóstico de pneumonia dupla, mas Alberto entrou em
					estado de coma e, em dois dias, morreu. </p>
				<p>Alberto era católico, de origem polonesa, criado numa região de teuto-brasileiros
					do Vale do Rio dos Sinos. Acompanhava a esposa em chás da Ordem Auxiliadora de
					Senhoras Evangélicas (OASE), uma organização de mulheres em todas as comunidades
					da Igreja Luterana no Brasil. Alberto participava de um ou outro culto, como
					acompanhante da esposa. Os filhos não optaram pela IECLB, embora um tenha
					batizado seus filhos na Comunidade Evangélica Luterana por insistência da mãe,
					mas nunca participou. Em relação à encomendação, correu na Comunidade a notícia
					de que seria ecumênica, fato que o pastor achou estranho. Três horas antes do
					sepultamento, os filhos conversaram com o pastor e confirmaram o que a família
					decidira a respeito da encomendação. O padre faria a encomendação num
					determinado horário, depois seguir-se-ia o pastor. Assim aconteceu, num final de
					tarde de agosto, numa capela do cemitério municipal. Enquanto o padre
					carismático saía, o pastor chegava. </p>
				<p>Na capela ao lado, ouvia-se a pregação de um pastor pentecostal, chamando à
					conversão os parentes e amigos de uma jovem mãe precocemente falecida: haveria
					uma luta nos céus no tempo final, e quem não estivesse do lado de Jesus seria
					condenado. Nenhuma palavra de consolo às crianças que pranteavam a morte da mãe;
					só ameaças aos descrentes para que se decidissem por Jesus. </p>
				<p>Depois de alguns dias da morte de Alberto, o pastor e um grupo de mulheres da
					OASE fizeram uma visita à viúva. O ambiente estava pesado. As acusações contra
					os médicos e hospitais foram tema da conversa. A família, desconsolada, aventava
					a possibilidade de processar o hospital. Alguém devia ser responsabilizado pela
					morte. Elegeram o hospital e os médicos como os únicos culpados pelo fim da vida
					do marido, pai e avô. A conversa também girou em tomo do desespero da viúva, que
					estava encontrando muitas dificuldades para encaminhar todos os papéis
					referentes ao INSS. Ainda pouco se falou do morto, só das consequências da
					morte. Depois do chá, as mulheres e o pastor fizeram um círculo para orar,
					cantaram o hino &quot;Jesus Cristo é o Senhor&quot; e todos se despediram. Meses
					mais tarde, o pastor fez nova visita. Dona Wanise repetiu toda a história dos
					dias que antecederam a morte do marido e continuou com a acusação contra os
					médicos. Algumas senhoras da OASE continuaram em contato com a viúva,
					especialmente aquelas com mais tempo de viuvez. </p>
				<p>Tempos depois, o pastor deixou a Comunidade, mas continuou sendo informado sobre
					a situação por alguns de seus membros. Dona Inês, que já havia participado de
					sessões espíritas depois da morte do marido, fez seguidos convites para que
					Wanise saísse de casa a fim de participar das atividades da Comunidade. Como as
					viúvas se aproximaram uma da outra, o antigo pastor ficou sabendo, por meio de
					Dona Inês, que Wanise estava procurando apoio num centro espírita ou terreiro de
					umbanda. Na versão de Dona Inês, isso estava acontecendo porque o morto tinha
					aparecido para ela e para os filhos, tanto na casa como na oficina. A viúva, ao
					contrário de Dona Flor, parecia querer sossego e pediu ajuda para que o morto a
					deixasse em paz e ficasse no seu lugar, conforme comentado por outras mulheres
					da Comunidade, próximas a ela. Jamais chegou aos ouvidos do antigo pastor pela
					boca da viúva; na verdade, fatos como esse chegavam a seus ouvidos por
					intermédio de outras pessoas. Parece que havia várias redes na Comunidade,
					formadas por pessoas de um determinado lugar, por laços de parentesco e pelos
					diversos grupos da Comunidade. Por meio dessas redes é que o pastor ficava
					sabendo do que se passava na vida dos fiéis, de modo que a relação entre pastor
					e membros acontecia por intermédio de algum amigo da pessoa que estava doente ou
					com algum problema. Ao autor deste artigo, isso parece revelar a dificuldade de
					um contato direto entre o fiel e o clérigo, o que é um dado importante e que
					merece ser pesquisado. </p>
				<p>Como Wanise resistia aos convites para participar do grupo da OASE, Dona Inês
					convidou--a para o estudo bíblico, do qual participavam seis mulheres e dois
					jovens, a maioria viúvos. O novo pastor dirigia os estudos, sendo que o antigo
					pastor participou de algumas reuniões iniciais e, por conhecer melhor o grupo,
					sugeriu o estudo do Livro de Rute (AT), que conta a história de três viúvas.
					Dona Wanise apareceu nos estudos bíblicos. Conversava muito; qualquer versículo
					abria a possibilidade de falar de seu passado, de seu sofrimento e do sonho de
					começar nova vida. A partir de sua vivência, o texto bíblico se abriu e
					vice-versa. A conversa corria solta, pois todos os participantes tinham passado
					pela viuvez; era um grupo solidário, pois havia uma experiência de vida em
					comum. Toda vez que Wanise voltava ao grupo, novos detalhes do luto apareciam.
					Aos poucos ela deixava de enfatizar o passado para olhar para o futuro, com
					novas possibilidades. Assim, foi elaborando a ideia de que quer se ver livre do
					seu passado. Quer sepultar o passado sofrido com o marido, pois ele era fechado,
					preso em casa, trabalhador e violento em termos verbais. Também era ciumento.
					Ela só podia sair de casa com alguém da família e com hora determinada para a
					volta. Esse passado estava presente, e dele Dona Wanise queria se libertar. Do
					passado sofrido que se estendia para o presente, Dona Wanise corria. Para
					resumir, um dia ela deu o seu grito de independência no grupo de estudo bíblico:
						<italic>Quero sepultar o passado assim como sepultei o marido. Viúvo é ele,
						não eu</italic>.</p>
				<p>Em nenhum momento, no estudo bíblico, ela deixou transparecer que estava
					participando de cultos espíritas ou afro-brasileiros para se livrar do fantasma
					do marido - que, na verdade, era o passado sofrido que não queria ir embora com
					a morte física. Ela precisava sepultar o passado e se soltar para a vida. </p>
				<p>Posteriormente, o pastor antigo visitou Dona Wanise. Por telefone, confirmou o
					que outras senhoras já haviam dito: ela estava namorando. Arranjou o namorado em
					bailes para a terceira idade que ocorrem numa sociedade em São Leopoldo, na
					parte da tarde. Ela aceitou alegremente a visita que, na prática, seria uma
					entrevista. </p>
				<p>A visita ocorreu na hora combinada. O pesquisador foi recebido de forma diferente
					de outros tempos. Wanise era só sorrisos, deu três beijinhos e um forte e
					afetuoso abraço. Quando o pesquisador elogiou a pintura da casa, Wanise
					alegremente disse que era ela que a estava fazendo, após reformas feitas pelo
					cunhado. Mostrou-lhe seu trabalho de pintura em alguns cômodos da casa,
					inclusive no seu quarto onde permanecia a cama de casal. </p>
				<p>Foram para uma nova sala, que antes era um quarto. Enquanto ela requentava a água
					do chimarrão, o pesquisador olhava alguns quadros e cartazes. Tudo estava
					diferente na casa, pois a vida mudara. Na parede, em forma de quadro, havia um
					cartaz: era um horóscopo. O pesquisador fitou o olhar no quadro, que informava
					as características do signo de Dona Wanise. Da cozinha ela disse: &quot;Eu acho
					horóscopo bobagem, mas a gente tem que ter um pouquinho de superstição. Quem não
					tem!&quot; Como os caracteres daquele signo mostravam os lados positivos e
					negativos, Dona Wanise apressou-se em dizer não concordava com tudo o que estava
					escrito ali. Na conversa mais tarde - aqui antecipada -, ela voltou a falar de
					horóscopo. Diante do silêncio questionador visitante, ela titubeou e confirmou
					que o horóscopo explicava muita coisa da vida do marido: severo, carrancudo,
					introvertido e de linguagem verbal agressiva. &quot;Conheço mais gente que
					nasceu em meados de julho, como meu marido, e que é de difícil
					convivência&quot;, afirmou Wanise. </p>
				<p>A conversa se estendeu por muito tempo, com muitos detalhes. Agora, a morte
					estava mais longe, mas os parentes do marido procuravam influenciar sua vida. As
					críticas de Dona Wanise tinham um novo alvo: os parentes do marido morto e,
					especialmente, o cunhado que espalhara a notícia de que Alberto havia morrido de
					AIDS. Isso calou fundo na imagem da viúva, que não queria mais conversa com ele.
					Mas as cunhadas ainda estavam presentes com seus comentários: &quot;Vê se não
					coloca um homem para dentro de casa que vem tirar tudo o que o falecido
					construiu&quot;, afirmara uma delas. Dona Wanise ficava indignada com a
					ingerência dos familiares do falecido em sua vida. Além do mais, tudo já fora
					dividido entre os três filhos, sendo que ela poderia usufruir legalmente de tudo
					até sua morte. </p>
				<p>O entrevistador procurou nas entrelinhas descobrir se houve ou não aparições do
					morto e como a viúva lidou com elas. Então, ela afirmou que a cunhada havia
					sugerido a mudança dos móveis de seus lugares, porque parecia que o defunto
					estava em toda parte. Ela se negara a fazer essas alterações, dizendo-se uma
					mulher &quot;naturalista&quot;, expressão que usava para demonstrar que se
					compreende como uma pessoa pouco dada às questões relativas ao sobrenatural.
					Afirmou que tivera dois sonhos com o marido e que até queria que ele aparecesse,
					mas só o vira em dois sonhos. De um ela se lembrava: ele chegou de viagem, muito
					alegre, e a encontrou lavando roupa. Tomou-a pela cintura e a levou para dentro
					de casa. Lembrou que ele nunca agira dessa forma. Mas se surpreendeu ao entrar
					na casa conduzida pelo marido, pois percebeu que tudo estava diferente; eram os
					mesmos móveis, mas todos em outros lugares. <italic>Parecia que não era a minha
						casa</italic>, arrematou. </p>
				<p>Depois a conversa se desenrolou sobre o namorado, também viúvo. Falou que estavam
					pensando em viver juntos a partir do fim daquele ano (1997). Ele se parecia mais
					com Teodoro Madureira, segundo marido de Dona Flor. <italic>Por enquanto está
						dando tudo certo. Estamos nos conhecendo. Pretendo trazê-lo para minha
						casa</italic>. Deu mais detalhes: <italic>Ele não é da nossa raça</italic>.
					Falou isso porque antes tinha criticado uma nora que é &quot;ploa&quot;,
					expressão usada por teuto-brasileiros para expressar preconceito contra os
					negros. Então procurou desconversar porque o namorado é luso-brasileiro, próximo
					a uma &quot;ploa&quot;, escuro. Pouco antes havia criticado a &quot;raça&quot;
					do marido morto. Também tinha lamentado, após um atrito com um filho, que o
					ma-rido tinha sangue ruim nas veias e que, se pudesse, teria feito uma
					transfusão para tirar aquele sangue dos filhos. Ao falar nisso, começou a
					chorar. </p>
				<p>Mas logo voltou a falar, feliz, sobre o namorado. Fez planos e comparações.
					Seguidamente pediu a opinião do entrevistador. <italic>O senhor é um homem de
						estudo, e eu não sei muita coisa</italic>. Isso ocorreu várias vezes na
					conversa, o que mostra como as pessoas se comportam e falam diante de uma
					autoridade religiosa, por elas reconhecidas. No entanto, quando perguntava ao
					entrevistador, na verdade já sabia a resposta e queria a sua confirmação para
					posições já tomadas. Com o marido sempre fora diferente. Não havia diálogo. Tudo
					acontecia num ritmo machista determinado por ele. Agora, ela precisava decidir.
					E já decidira. Queria apenas a confirmação de sua decisão. </p>
				<p>Depois de muitas cuias de chimarrão, o assunto foi chegando ao fim. Então ela
					disse, aliviada, que fora muito boa a conversa. &quot;Pude desabafar, e isto é
					bom&quot;. É a primeira vez que &quot;conto para um homem a minha vida&quot;.
					Assim, contou aspectos de sua vida a um homem. E a conversa transcorreu daquela
					maneira e com aquele conteúdo, com os segredos sendo revelados, porque o homem
					desempenhava o papel que ela reconhecia como alguém do clero. Este pesquisador
					sempre se encantou com o trocadilho &quot;segredo sagrado&quot;. Para o sagrado
					não há segredo; apenas o segredo da prática de outros sagrados, subterrâneos. </p>
				<p>A conversa finalizou com outro abraço e com ela dizendo que queria uma bênção do
					pastor quando começassem a viver juntos, mas não na igreja, porque sempre há
					muito fuxico. O entrevistador sugeriu que ela assumisse isso publicamente.
					Houve, então, um momento de indefinição. Em casa ou na igreja? Em espaço privado
					ou público? A viúva ainda estava entre os dois mundos como uma mediadora. O
					marido já se fora, e outro vinha. Passado de dor e de brigas
						<italic>versus</italic> futuro sonhado com alegrias. No meio, uma bênção
					como rito de passagem que ajudaria a enfrentar junto ao público uma nova
					condição. <italic>E ele vai morar comigo, no mes-mo quarto. A não ser a cor,
						tudo ficará disposto como antes</italic>.</p>
				<p>Não se pretende fazer uma análise detalhada da morte de Alberto, da viuvez de
					Dona Wanise e da entrada de um &quot;ploa&quot; na vida da viúva. Cada um poderá
					fazê-lo do ponto de vista que lhe convier. Apenas pretende-se registrar que a
					&quot;nossa&quot; Dona Flor dos pampas gaúchos não tem em seu passado ou seu
					futuro um Vadinho. O marido morto tem algo do doutor Teodoro Madureira, sem, é
					claro, a violência verbal ausente no personagem metódico de Jorge Amado. O
					namorado também se parece com o farmacêutico do romance, sem a fama de ser um
					homem &quot;estudado&quot;. Enfim, Flor está florindo, mesmo que continue
					mediadora entre o que foi e o que vem, o passado conhecido e o futuro
					desconhecido, que pretende ser uma negação do que se foi. Isso na sua casa.
					Agora, senhora da vida, sugere ao namorado que deixe a sua casa e o filho, se
					junte a ela em seu próprio lar, com a bênção da Igreja, num espaço, repete-se,
					talvez privado, porque no subterrâneo da vida há coisas que ainda perma-necerão,
					e sobre as quais não falará para ninguém. Busca, num outro sagrado, descobrir os
					segredos, mas não se esquece de sua comunidade étnica, da qual espera uma bênção
					mediante ritos de passagem. </p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Aparições na empresa racional</title>
				<p>O segundo relato tem como pano de fundo uma grande empresa fabricante de câmaras
					frigoríficas, detentora de tecnologia de primeiro mundo, localizada na região
					metropolitana de Porto Alegre. A empresa tinha vindo do interior do Rio Grande
					do Sul há aproximadamente cinquenta anos, trazendo a família do empresário e
					funcionários que até hoje trabalham nela. Muitos deles são evangélicos luteranos
					e participam das comunidades religiosas de Sapucaia do Sul e Esteio; alguns são
					bem ativos em diretorias paroquiais, são membros tradicionais e, portanto, fiéis
					à sua Igreja. Os donos, por sua vez, são católicos romanos.</p>
				<p>Há mais ou menos trinta anos, tragédias marcaram a empresa: o casal fundador
					morreu num acidente e acidentes de trabalho atingiram operários, com algumas
					mortes. Na linguagem popular, bateu a &quot;urucubaca&quot; na empresa. Aos
					poucos, os operários começaram a ouvir barulhos estranhos durante a noite.
					&quot;Fantasmas caminhavam pela empresa, máquinas dispa-ravam sozinhas, batidas
					de martelos eram ouvidas e outras coisas extraordinárias aconteciam&quot;. Dessa
					forma, o medo foi tomando conta dos funcionários, até que alguém sugeriu a
					celebração de um ato religioso ecumênico como forma de expulsar a
					&quot;maldição&quot; e lidar com a saudade do casal que fundara a empresa,
					querido por todos. E assim sucedeu. Após o culto ecumênico, a empresa estava
					&quot;exorcizada&quot;, e tudo voltou ao normal. </p>
				<p>Depois dessa celebração, os cultos passaram a ser realizados anualmente, no
					último dia de trabalho antes do Natal, ao final do expediente. O ato religioso
					ecumênico virou &quot;tradição&quot;. Tudo acontece da mesma forma. De todos os
					setores vêm homens e mulheres para o saguão da empresa, aglomeram-se em frente a
					uma câmara frigorífica sobre a qual se postam o pastor e o padre, lembrando,
					talvez a dramática morte do casal fundador, embaixo de uma câmara fabricada por
					sua própria empresa. A celebração tem a duração de meia hora. Após a invocação
					da Trindade, canta-se um hino e lê-se um salmo em responsório. São feitas
					leituras bíblicas, seguidas de breves mensagens do padre e do pastor. Então vêm
					a oração de intercessão, o Pai-Nosso e a bênção. Canta-se, por fim, Noite Feliz.
					Depois, o dono da empresa agradece aos oficiantes, diz algumas palavras sobre o
					novo ano que se aproxima e agradece aos funcionários. Estes, aproximadamente
					seiscentos, fazem filas para receber as sacolas de Natal doadas pela empresa,
					enquanto o dono se despede dos executivos da empresa, do padre e do pastor.
					Estes, acompanhados pelo responsável do setor de pessoal, recebem sua sacola de
					Natal sem precisar entrar na fila. </p>
				<p>A cena mostra que é preciso dialogar com os subterrâneos, com o medo, com os
					sonhos e com tudo aquilo que está submerso e assume ar de clandestinidade. Como
					dissera Dona Inês, líder da OASE: <italic>Se no culto há quarenta pessoas, dali
						sairão quarenta prédicas.</italic> E acres-centara, referindo-se às pessoas
					como Dona Wanise, que frequenta um culto de umbanda<italic>: Ela busca entender
						os mistérios</italic>. </p>
				<p>De fato, homens e mulheres de um tempo de tanto medo e exclusão, de falta de
					esperança e de perspectiva de vida, buscam nos mistérios, nos milagres e na
					magia (<xref ref-type="bibr" rid="B11">BRANDÃO, 1988</xref>, p.142), respostas
					para tantas perguntas, que não raras vezes as ciências humanas e a teologia
					jogaram para o baú da história, para o clandestino que foi superado pela
					evolução técnico-científica e pelo progresso social. Portanto, aquilo que fora
					desconsiderado como superstição, fantasia ou mito, por uma leitura iluminista do
					protes-tantismo e de outros ramos do pensamento, veio a se tornar a pedra
					angular de imensas par-celas da população, mesmo quando lidam com tecnologias
					avançadas, como no caso desta empresa.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>A metáfora do poço </title>
				<p>Acima foram expostos dois casos para falar do subterrâneo religioso da vida
					eclesial. Mas seria possível explorar muitos outros. Não seria difícil apelar
					para a memória e para as anotações feitas durante dez anos de atividade
					religiosa e sacar tantos outros exemplos em que o sonho com os parentes
					falecidos exigiu novas orações em memória nos cultos, por ocasião do dia da
					morte, dez ou quinze anos após o falecimento de alguém. Igualmente, não seria
					difícil contar quantas e quantas vezes mães preocupadíssimas com a dor de
					barriga de suas crianças e com o destino delas testemunharam que o Batismo
					resolveu todos os problemas. Também se poderia discorrer um bom tempo sobre as
					pessoas que recorreram a médiuns do Ceará ou Brasília para se curarem de câncer
					- e, quando a cura não aconteceu, o sepultamento seguiu o rito da Igreja
					&quot;traída&quot;. </p>
				<p>Também seria possível discorrer sobre os momentos festivos da Comunidade, nos
					quais pessoas fechadas e com medo de um testemunho público da fé arrancam,
					trinta anos depois, o versículo da confirmação (crisma na Igreja católica) para
					convencer alguém a ser presidente da Comunidade. Não faltam os depoimentos
					reservados de homens que, após a morte de um filho, lembram-se de um trecho de
					uma prédica ou de um versículo de consolo. Estes e tantos outros exemplos
					mostram que no subterrâneo a voz oficial da religião também se faz presente. Na
					clandestinidade da vida, a graça faz seus passeios. Também se pode descrever o
					caso da mulher que na calada da noite visitava terreiros, e no domingo
					participava dos cultos da Comunidade. Seu engajamento na pastoral popular e nos
					trabalhos de farmácia caseira deu-lhe fortes convicções para empenhar a sua vida
					no movimento popular, no qual não teme dizer que é evangélico-luterana.
					Entretanto, tais testemunhos ficam na penumbra da vida - testemunho cotidiano,
					pouco visível, porque não dá lucro para ninguém; nem pode ser computado como
					mais uma conversão, porque é mais do que isso. </p>
				<p>Enfim, &quot;estes 'saber-fazer', 'saber-dizer' e 'saber-viver', todos de tão
					diversas e múltiplas implicações, constituem um dado cuja riqueza a
					fenomenologia tem, com inteira justiça, posto em destaque&quot; (<xref
						ref-type="bibr" rid="B24">MAFFESOLÍ, 1988</xref>, p.195).</p>
				<p>Concluem-se esses depoimentos com a narrativa de um conflito na organização da
					vida comunitária. Uma comunidade, tal como as associações da sociedade civil,
					escolhe um grupo dirigente que se ocupa com a administração da vida funcional,
					embora o discurso oficial tente atribuir-lhe uma função religiosa. Assim disse
					um presidente desse grupo, um senhor analfabeto, mas bem sucedido em sua pequena
					fábrica de sapatos: &quot;Pastor, lá na igreja eu não me meto; aqui, no salão
					comunitário, nós que definimos as coisas&quot;. O episódio mostra que a
					organização da comunidade religiosa é articulada por dois vetores que se cruzam
					e se chocam: o espiritual e o organizacional. Tal dinâmica se move em consensos
					e conflitos, como ilustra a metáfora do poço, exposta a seguir.</p>
				<p>Um grupo construiu um poço no pátio da Comunidade, nos seus primórdios, quando
					ainda não havia rede pública de água. O empreendimento foi conduzido por
					trabalhadores oriundos do mundo rural, que não lograram sucesso econômico. Por
					ocasião das eleições, esse grupo foi derrotado por outro, constituído por
					pequenas empresas. O grupo vencedor quis soterrar o poço, já que havia uma nova
					rede pública de abastecimento. Instala-se o conflito entre os dois grupos, mas
					eles chegam a um consenso: o poço é coberto, mas não soterrado. Lá está o poço,
					invisível - mas movimentando por décadas os bastidores da comunidade, até a
					morte dos componentes de cada facção.</p>
				<p>O poço é uma metáfora da vida comunitária e a melhor expressão do subterrâneo
					religioso, pautado pelas divergências causadas pelos poços nos templos bíblicos
					(luta pela água) e pela luta pelo espaço comunitário - que é a luta de uma
					população que migrou do campo para a cidade, refletindo a urbanização selvagem
					no Brasil, a qual inverteu, entre 1930 a 1980, a sua demografia. Se, no início
					da industrialização na era Vargas, o Brasil tinha aproximadamente 30% da
					população vivendo na zona urbana, esse percentual passou para quase 80% na
					década de oitenta. A Comunidade aqui referida nasce dentro desse processo e, em
					certo grau, reflete os conflitos da sociedade brasileira nos debates em torno de
					um poço - metáfora para entender a vida comunitária conectada aos dilemas
					pessoais. O poço coberto por laje é uma metáfora para a religião submersa,
					muitas vezes invisível, mas presente. Seguidamente as águas profundas irrompem
					as lajes dos discursos teológicos eruditos ou oficiais (<xref ref-type="bibr"
						rid="B5">BOBSIN, 1995</xref>, p.46), ressurgindo com faces estranhas em
					busca da dignidade de vida. </p>
			</sec>
		</sec>
		<sec>
			<title>Perspectivas impertinentes</title>
			<p>Depois dessas tentativas de levantar alguns aspectos do &quot;subterrâneo
				religioso&quot; da vida eclesial, a partir de um breve relato de &quot;casos&quot;,
				algumas pistas teóricas deverão ser realçadas na perspectiva de quem se ocupa com a
				formação de pastores e pastoras, futuros eruditos da religião, destacados da massa
				de fiéis para cumprir a função de pregador/a e cura d'almas. </p>
			<p>Lança-se mão da sociologia da religião para lograr esse intento, mesmo sabendo dos
				li-mites das categorias utilizadas para traçar algumas pistas teóricas. Tem-se
				consciência de que há muitos outros pontos de vista por meio dos quais se podem
				avaliar os casos relatados acima. Estudiosos de outras áreas das ciências ou de
				outros ramos da teologia poderão fazer outras leituras e apontar perspectivas
				distintas das apresentadas neste ensaio. Nesse horizonte, tecem-se algumas
				considerações sobre a ideia de &quot;campo religioso&quot; que Bourdieu construiu a
				partir da teoria da religião de Weber, mesmo sabendo que o religioso ou o sagrado
				sempre transcendem qualquer tentativa de lhes colocar fronteiras. Por sua
				&quot;natureza&quot;, o religioso ou o sagrado constituem-se como fala dos abismos
				ou do indizível. </p>
			<p>Foi mérito do sociólogo alemão <xref ref-type="bibr" rid="B29">Weber (1981</xref>,
				p.294), um clássico da sociologia da religião, colocar em destaque a ideia de que a
				formação de um clero erudito, como corpo destacado da massa, racionaliza a religião
				de tal forma que faz surgir vários personagens concorrentes no campo religioso e uma
				massa de fiéis desapropriados do capital religioso. Em outras palavras, a
				constituição de um corpo de especialistas ocorre quando se aprofunda o processo de
				institucionalização de um movimento inicialmente &quot;carismático&quot;. Weber não
				está sozinho nessa tese. Com algumas variações teóricas e de estilo, pode-se lembrar
				a contribuição do fundador do Partido Comunista Italiano, Antônio Gramsci,
				silenciado nas prisões de Mussolini e ignorado hoje pelos defensores do mercado
				total. Ao analisar a Igreja Católica da Itália e o próprio catolicismo, conclui que
				sob a mesma instituição há formas distintas de catolicismo: </p>
			<p>Toda religião, inclusive a católica [...], é na realidade uma multidão de religiões
				distintas, frequentemente contraditórias: há um catolicismo de camponeses, um
				catolicismo dos pequenos-burgueses e dos operários urbanos, um catolicismo das
				mulheres e um catolicismo dos intelectuais, também este variado e desconexo (<xref
					ref-type="bibr" rid="B18">GRAMSC1, 1984</xref>, p.144).</p>
			<p>Parece que não constituiria um empreendimento intelectual de grande envergadura
				sustentar que a análise de Gramsci poderia, em grau menor e com algumas variações de
				contexto, ser estendida para as Igrejas tradicionais. Como não se trata de
				aprofundar tal questão, que acena para a falta de unidade na pluralidade, mas apenas
				de realçá-la, volta-se à teoria da religião de Weber, conforme a compreensão do
				sociólogo francês: </p>
			<p>Enquanto resultado da monopolização da gestão dos bens de salvação por um corpo de
				especialistas religiosos, socialmente reconhecidos como detentores exclusivos da
				competência específica necessária à produção ou à reprodução de um
				&quot;corpus&quot; deliberadamente organizado de conhecimentos secretos (e portanto
				raros), a constituição de um campo religioso acompanhava a desapropriação objetiva
				daqueles que são excluídos e que se transformam por esta razão em leigos [...]
				destituídos do capital religioso [...] e reconhecendo a legitimidade desta
				desapropriação pelo simples fato de que a desconhecem enquanto tal (<xref
					ref-type="bibr" rid="B10">BOURDIEU, 1982</xref>, p.39).</p>
			<p>Como se pode ver, Bourdieu transporta termos do mundo da economia para falar dos
				mecanismos referentes ao campo simbólico-religioso e da lógica de poder entre os
				tipos de agentes destacados por Weber. Em outras palavras, Weber está dizendo que a
				formação de dois grupos distintos - clero e leigos - via de regra se dá pela
				desapropriação, por parte do clero, do capital que inicialmente é de todos. Quer
				dizer: os leigos estão destituídos do capital religioso, não obstante legitimarem o
				discurso do clero e dele também divergirem, não por ignorância, mas porque dominam
				outro código, distinto e distante daquele dos especialistas ou do corpo
				sacerdotal.</p>
			<p>Talvez esteja nessa tese weberiana uma das razões que impedem o avanço do tão
				propalado sacerdócio universal de todos os que creem. E, diga-se de passagem, o
				mesmo processo ocorre nos movimentos políticos que vão assumindo um rosto
				institucional nos meandros da intrincada máquina estatal. A socialização do fazer
				político lentamente vai se deslocando para um corpo de especialistas. Foge-se disso
				ao não se descolar das massas organizadas. No caso da religião institucional,
				poder-se-ia romper com os interesses religiosos do corpo de especialistas mediante a
				socialização do poder pela troca de saberes. </p>
			<p>No entanto, pode ser muito trivial atribuir somente à divisão social do trabalho
				religioso a distância e a falta de elos entre, de um lado, aquilo a que se chama
				&quot;subterrâneo religioso&quot; da massa dos leigos que não fazem parte do núcleo
				que sustenta a comunidade e, de outro lado, o discurso do clero. Sabe-se que os
				acontecimentos e fatos não se originam de uma causa só e que o campo religioso é
				muito mais do que simples reflexo dos conflitos sociais. Reconhece--se um pluralismo
				causal, da mesma forma que se vê o lado clandestino da vida na sua natureza
				polissêmica, talvez, como resistência à desapropriação por parte do clero. </p>
			<p>Em razão dessa ressalva, não se pode concluir esta exposição sem antes lançar mais
				uns <italic>flashes</italic> teóricos sobre as possíveis causas da existência de uma
				prática religiosa que, de certa forma, se alimenta do discurso oficial da Igreja e a
				aceita como administradora dos ritos de passagem, mas não se satisfaz com a produção
				simbólico-religiosa do clero legítimo, buscando, assim, noutras fontes clandestinas
				o sentido da vida e respostas para os mistérios. </p>
			<p>Para lançar novas luzes sobre a discussão utiliza-se aqui de análises de sociólogos
				que não têm poupado críticas à própria sociologia, como o francês Michel Maffesoli,
				que parte de temas por ela marginalizados na busca de novas perspectivas, e cujas
				críticas a ela podem ser estendidas para as ciências humanas e para a teologia. Em
				seu livro <italic>O conhecimento comum</italic>, Maffesoli levanta perguntas
				importantes para a sua disciplina, pois parte da afirmação de que os sociólogos
				conhecem muito pouco da sociedade onde vivem. E o mesmo não valeria para os teólogos
				e as teólogas? Tal constatação o leva a se perguntar: &quot;Sabemos ainda ouvir e
				interpretar o pensamento da praça pública?&quot; (<xref ref-type="bibr" rid="B24"
					>MAFFESOLI, 1988</xref>, p.198).</p>
			<p>O pensamento da praça pública é caracterizado com muitas expressões afins:
				clan-destinidade da existência (<xref ref-type="bibr" rid="B24">MAFFESOLI,
					1988</xref>, p.195), que é &quot;fragmentada, polissêmica, feita de sombra e luz
				ou, numa só palavra, o que é cada vez mais admitido, obra de um homem, ao mesmo
				tempo sapiens e demens&quot; (MAFFESOLI, 1988, p.203). Consequentemente, a vida
				social é percebida cada vez mais como heterogênea, plural, complexa, e - por que não
				dizer? - totalmente heterodoxa no subterrâneo. Por isso, nenhuma perspectiva que se
				entende unidimensional será capaz de compreender as muitas dimensões do vivido
				(MAFFESOLI, 1988, p.218), que é simultaneamente racional e passional. Por fim, na
				clandestinidade da existência ou no subterrâneo da vida social e religiosa, sob a
				fachada teológica de um purismo doutrinal, percebe-se uma grande diversidade
				religiosa, mas não politeísta. Para dialogar com a clandestinidade da vida, a razão
				como única dimensão parece pobre e fadada a leituras unilaterais. Logo, a empatia e
				o reconhecimento da pluralidade parecem ser condições mínimas para entabular um
				diálogo ainda em forma de balbucio. Pois ainda &quot;vemos em espelho e de maneira
				confusa, mas, depois, veremos face a face. E o nosso conhecimento é limitado&quot;
				(1 Co 13.12-13).</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Provocação conclusiva</title>
			<p>Este ensaio recorreu a Dona Flor e a seus dois maridos, personagens de uma obra de
				Jorge Amado, para fazer uma transição entre os aportes teórico-metodológicos para
				estudos de caso de uma Comunidade religiosa da qual se destacaram dois depoimentos e
				uma metáfora que transcende o conflito institucional. Assim, foram relatados dois
				casos para destacar aspectos daquilo que se ousou denominar de &quot;subterrâneo
				religioso&quot;. Por fim, este pesquisador aventurou-se numa avaliação sociológica
				que desembocou timidamente numa fenomenologia do cotidiano. </p>
			<p>Agora, cabe a pergunta: o que a brama do romance tem a ver com o fazer teológico?
				Ousa--se aqui dizer que Dona Flor é símbolo e metáfora, e que à reflexão teológica
				cabe lidar com os dois &quot;mundos&quot;, assim como Dona Flor o fez, com
				sofrimento e prazer. Também Vadinho e Teodoro Madureira, de formas distintas,
				constituem metáforas para uma reflexão teológica na perspectiva de caminhos ainda
				não trilhados pelas igrejas protestantes históricas, espe-cialmente as nascidas no
				século XVI, que resistem teologicamente a se aproximar desse solo religioso
				transversalizado pela exclusão social, fruto das desigualdades, e pela diversidade
				religiosa que se orienta por duas forças ou dimensões: fundamentalismo exclusivista
				e hibridismo. Ninguém está, portanto, sugerindo uma teologia &quot;vadinhana&quot;
				ou extremamente metódica como a vida do Dr. Teodoro Madureira, mas sim
				&quot;floriana&quot;, que lide simultaneamente com o racional e o mítico, o
				tradicional e o moderno, o existencial e o libertador, o oficial e o clandestino,
				sem esquecer das ambiguidades da vida tão presentes no religioso e sintetizadas na
				metáfora do poço.</p>
			<p>Provocativamente encerra-se este estudo lembrando uma percepção da história
				apresentada por Marx, que não contraria a metáfora do poço:</p>
			<p>Os homens fazem sua história, mas não a fazem como querem: não a fazem sob
				circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente,
				legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime
				como pesadelo os cérebros dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em
				revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente
				nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram em seu auxílio os
				espíritos passados (<xref ref-type="bibr" rid="B25">MARX, 1978</xref>, p.17s).</p>
			<p>Não só em períodos revolucionários históricos, mas em momentos cruciais da vida, como
				na doença, no luto e no desemprego, os homens e as mulheres &quot;conjuram em seu
				auxílio&quot; não só os espíritos passados, mas também as práticas e crenças pouco
				ortodoxas que sabem incorporar ao discurso do clero, responsável pela reta doutrina,
				outras visões de mundo e de religião, como bem expressou Hervieu-Léger: &quot;O
				religioso é uma dimensão transversal do fenômeno humano que trabalha, de modo ativo
				e latente, explícito ou implícito, em toda a extensão da realidade social, cultural
				e psicológica, segundo a modalidades próprias a cada uma das civilizações dentro das
				quais se tenta identificar a sua presença&quot; (<xref ref-type="bibr" rid="B19"
					>HERVIEU-LÉGER, 2008</xref>, p.22s). </p>
			<p>Não há, pois, dicotomias entre sagrado e profano, erudito e popular, mítico e
				racional, <italic>insider</italic> e <italic>outsider</italic> etc. Como alguém já
				disse de forma muito apropriada, na perspectiva de que o homem é simultaneamente
				justo e pecador: o &quot;ou&quot; precisa perder lugar para o &quot;e&quot;. O
				subterrâneo religioso trabalha com essa hermenêutica &quot;floriana&quot;, mas não
				sincrética.</p>
			<p>Resta, por fim, observar que a apropriação dessa mediação pelo mediador universal do
				capitalismo, o dinheiro - que torna público o que estava no subterrâneo religioso -
				é um outro assunto que brota da reflexão acima e que merece outras pesquisas.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
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					<article-title>A filosofia semântica e o problema
						insider/outsider</article-title>
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					(Org.). Sociologia da Religião. São Paulo: Paulinas , 1990.</mixed-citation>
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					<chapter-title>A contribuição dos clássicos</chapter-title>
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				<mixed-citation>GEERTZ, C. The interpretation of cultures. New York: Basic Books,
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				<mixed-citation>GRAMSC1, A. Concepção dialética da história. Rio de Janeiro:
					Civilização Brasileira, 1984. </mixed-citation>
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				<mixed-citation>HERVIEU-LÉGER, D. <italic>O peregrino e o convertido</italic>: a
					religião em movimento. Petrópolis: Vozes , 2008.</mixed-citation>
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					<source><italic>O peregrino e o convertido</italic>: a religião em
						movimento</source>
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				<mixed-citation>JENSEN, J.S. Epistemologia. Revista de Estudos da Religião,
					p.89-105, set. 2010. </mixed-citation>
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				<mixed-citation>JORNAL EVANGÉLICO. 1ª quinzena de outubro, p.12, 1997. </mixed-citation>
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				<mixed-citation>LAVILLE, C.; DIONE, J. A construção social do saber. Porto Alegre:
					Artmed, 1999. p.24-49. </mixed-citation>
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				<mixed-citation>MAFFESOLÍ, M. O conhecimento comum. São Paulo: Brasiliense ,
					1988.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>MARX, K. O 18 Brumário e cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro: Paz e
					Terra, 1978.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>TEIXEIRA, H.A.; REBLIN, I.A.; NÚÑEZ DE LA PAZ, N.I. (Org.).
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					Oneide Bobsin. São Leopoldo: Karywa, 2016. </mixed-citation>
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						de Oneide Bobsin</source>
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				<mixed-citation>WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São
					Paulo: Pioneira, 1981.</mixed-citation>
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				<mixed-citation>WEBER, M. Economia e sociedade. Brasília: Editora UnB, 1981.
					v.1</mixed-citation>
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					<year>1981</year>
					<volume>1</volume>
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		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>O presente texto, com algumas mudanças para um público mais amplo, foi publicado
					numa edição comemorativa sob o título &quot;O subterrâneo religioso da vida
					eclesial: um tema gerador&quot;. O subtítulo mostra que sua publicação foi
					restrita à finalidade da comemoração: celebrar os vinte anos de docência do
					autor e os quinze anos do Núcleo de Estudos e Pesquisa do Protestantismo em
					&quot;Subterrâneo Religioso: reflexões a partir do pensamento de Oneide
					Bobsin&quot; (TEIXEIRA <italic>et al.,</italic> 2016, p. 11-44). </p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>3</label>
				<p>O presente texto foi publicado por Estudos Teológicos meio ano após a preleção
					inaugural, tornando-se um tema gerador de muitos debates (BOBSIN, 1977, p.261).
					O texto passou a ser referência nos exames de seleção para Graduação e
					Pós-Graduação nos Cursos de Teologia das Faculdades EST - Escola Superior de
					Teologia. Em razão de se ter constituído numa referência bibliográfica durante
					quase duas décadas, é retomado agora nesta publicação.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>4</label>
				<p>As questões levantadas na preleção inaugural desdobraram-se nos anos seguintes em
					várias publicações: BOBSIN (2002a, p.39), BOBSIN (2002b, p.13) e BOBSIN (2008,
					p.136). O segundo texto tornou-se palestra e publicação na Alemanha BOBSIN
					(2003, p.201). </p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>5</label>
				<p> Ao estender para os fatos sociais a perspectiva da física, Durkheim queria dar
					cientificidade à sociologia, abrindo, assim, lugar para a nova disciplina na
					Universidade. Um fato social sempre é externo ao indivíduo. Daí o estatuto
					científico da sociologia. No século XX, porém, tal visão foi sendo questionada
					com muita força, mas ainda persiste no campo universitário brasileiro. Manuais
					de Pesquisa Social tecem severas críticas ao positivismo, dentre os quais o de
					Laville e Dione (1999, p.24). Também os estudos feministas fazem pesadas
					críticas ao objetivismo que ignora a fala das mulheres sob o domínio da opressão
					da família patriarcal (NEITZ, 2014, p.54).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>6</label>
				<p>O Programa de Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São
					Paulo está traduzindo artigos de Jensen e outros, que tratam da relação entre
					epistemologia, questões metodológicas e pesquisa empírica. Introdução ao projeto
					de tradução de artigos do &quot;<italic>The Routledge Handbook of Research
						Methods in the Study of Religion Introduction to the project of translation
						of selected chapters of The Routledge Handbook of Research Methods in the
						Study of Religion</italic>&quot; (NEITZ, 2014).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>7</label>
				<p> Diferentemente da percepção à época em que foi redigida a preleção inaugural
					(1996), hoje o &quot;subterrâneo religioso&quot; está visibilizado na mídia,
					especialmente na Televisão, com cultos carismáticos, neopentecostais e de outras
					tradições religiosas. Se o &quot;subterrâneo religioso&quot; se tornou público
					pela via midiática, há fortes interesses submersos nos acordos políticos e nos
					meios de comunicação em divulgar tais cultos. Certamente há exceções, dentre as
					quais os programas veiculados pela Igreja Católica e, em menor grau, pela TV
					Adventista, que não mercantilizaram a fé.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>8</label>
				<p>Usam-se pseudônimos para evitar possíveis constrangimentos.</p>
			</fn>
		</fn-group>
	</back>
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