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				<journal-title>Reflexão</journal-title>
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					<subject>Articles</subject>
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				<article-title>Poder político e religião: sobre a crítica de Rousseau a certo tipo
					de cristãos no corpo político</article-title>
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					<trans-title>Political power and religion: Rousseau's critique on certain types
						of Christians in the political body</trans-title>
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						<surname>BARROS</surname>
						<given-names>Douglas Ferreira</given-names>
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					<xref ref-type="aff" rid="aff1"><sup>1</sup>
					</xref>
					<xref ref-type="corresp" rid="c1"><sup>*</sup></xref>
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					<label>1</label>
					<institution content-type="original"> Pontifícia Universidade Católica de
						Campinas, Centro de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, Programa de
						Pós-Graduação em Ciências da Religião. Rod. Dom Pedro I, km 136, Pq. das
						Universidades, 13086-900, Campinas, SP, Brasil. E-mail:
						&lt;douglasfbarros@gmail.com&gt;.</institution>
					<institution content-type="normalized">Pontifícia Universidade Católica de
						Campinas</institution>
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					<corresp id="c1"><label>*</label> Rod. Dom Pedro I, km 136, Pq. das
						Universidades, 13086-900, Campinas, SP, Brasil. E-mail:<email>
						&lt;douglasfbarros@gmail.com&gt;</email> .</corresp>
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				<season>Jul-Dec</season>
				<year>2016</year>
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			<issue>2</issue>
			<fpage>199</fpage>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>O artigo pretende aprofundar o tema da relação entre poder e religião, tomando
					por base a análise feita por Rousseau em &quot;Do Contrato Social&quot;.
					Interessa examinar, em primeiro lugar, sua avaliação segundo a qual os cristãos,
					que concordam em se submeter a um poder religioso na terra e não ao poder
					político civil, provocariam uma cisão no interior da sociedade que abriga esses
					dois poderes de naturezas distintas. Também, por se preocuparem mais com os
					problemas transcendentes do que com os humanos, os cristãos jamais seriam bons
					cidadãos e não estariam interessados nos problemas do Estado. Em uma situação de
					perigo, os cristãos, piedosos e resignados em face da possibilidade de vitória
					do inimigo combatente, não estariam dispostos a morrer pelo bem da vida pública
					terrena. Segundo Rousseau, por não partilharem do sentimento de sociabilidade
					pública, eles não seriam bons cidadãos. Cabe perguntar: é correto aceitar que
					eles nutram um total desinteresse pela vida civil? Para aprofundar a questão,
					recorre-se, além da obra de Rousseau, a alguns aspectos da avaliação de Hobbes
					sobre o mesmo tema. Ao final, pretende-se mostrar como o debate levantado por
					ambos os filósofos constitui um dos veios centrais de uma discussão moderna da
					Teologia-Política.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title><italic>Abstract</italic></title>
				<p><italic>The aim of the article is to examine the relation between power and
						religion, based on Rousseau's analysis presented in &quot;The Social
						Contract&quot;. We are interested, firstly, in the author's conclusion
						according to which Christians, who agree on being submitted to religious
						power on earth and not to the civilian political power, cause a cleavage
						within society that includes those two distinct powers. Because they worry
						more about transcendent issues rather than human ones, the Christians would
						not be good citizens and would not be interested in the problems of the
						State. In a situation of danger, the piteous and resigned Christians would
						not be willing to die for the public good in face of the enemy. For not
						sharing the feeling of public sociability, they could not be good citizens.
						To deepen the questions of whether the Christians have truly no interest in
						civil life, we also refer to some of Hobbes's conclusions on this issue.
						Finally, we intend to point out the reasons why this debate is crucial to
						the modern discussion of Political Theology.</italic></p>
			</trans-abstract>
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				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Hobbes</kwd>
				<kwd>Poder político</kwd>
				<kwd>Religião</kwd>
				<kwd>Rousseau</kwd>
				<kwd>Teologia-Política</kwd>
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				<title><italic>Keywords:</italic></title>
				<kwd><italic>Hobbes</italic></kwd>
				<kwd><italic>Political power</italic></kwd>
				<kwd><italic>Religion</italic></kwd>
				<kwd><italic>Rousseau</italic></kwd>
				<kwd><italic>Political Theology</italic></kwd>
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		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução</title>
			<p>O objetivo do artigo é aprofundar o diagnóstico crítico feito por Rousseau a respeito
				do cristianismo em relação ao corpo político e observar como aspectos desse
				diagnóstico já se encontram formulados por Hobbes. Centrando a atenção sobre o tema
				da problemática relação entre religião e política para filósofos da modernidade,
				pretende-se entender as consequências políticas da avaliação rousseauniana de uma
				certa prática religiosa e de alguns princípios da teologia cristãs.</p>
			<p>A religião é tema ao qual Rousseau dedica especial atenção quando trata da moral, da
				formação do cidadão e dos princípios do direito político e civil. Em dois momentos
				de suas obras o debate sobre a religião tem suscitado o interesse dos intérpretes. </p>
			<p>Em &quot;Emílio&quot; ROUSSEAU, (2012a)<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>2</sup>
				</xref><italic>,</italic> na <italic>&quot;Profissão de fé do vigário de
					saboiano&quot;,</italic> Rousseau aborda os princípios da educação moral do
				cidadão. A religião é componente decisiva da educação de princípios pelos quais a
				criança e o jovem poderão se transformar em homem e cidadão. A religião natural é o
				que dará à criança acesso aos princípios universais a que todo homem deve responder.
				Encontra-se aí, porém, severa crítica às religiões reveladas, que aparentam tratar
				da universalidade, mas terminam ensinando às crianças nada mais do que um conjunto
				de palavras sem sentido (ROUSSEAU, 2012b, p.452)<xref ref-type="fn" rid="fn2"><bold>
						<sup>3</sup>
					</bold>
				</xref>.</p>
			<p>Quase no final de <italic>&quot;Du Contrat Social&quot;</italic> (1964), Rousseau
				argumenta a favor da religião civil. Estão em questão a ordem civil e os parâmetros
				para a formação do estado de direito. Uma vez que os homens das primeiras
				civilizações tiveram os deuses no lugar dos reis e a teocracia como única
				experiência de governo, resta estabelecer a crítica da religião que veio ocupar o
				lugar daquelas várias do período politeísta, a saber, o cristianismo.
				Considerando-se politicamente a &quot;religião dos lamas, dos japoneses e a do
				cristianismo romano&quot;, diz Rousseau: &quot;a terceira é tão evidentemente má,
				que se perde tempo no divertimento de demonstrá-lo. Tudo o que rompe a unidade
				social, nada vale: todas as instituições que põem o homem em contradição consigo
				mesmo, nada valem&quot; (<xref ref-type="bibr" rid="B13">ROUSSEAU, 1978</xref>,
					p.141)<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>4</sup>
				</xref>.</p>
			<p>Em termos gerais, a discussão entre os intérpretes da religião em Rousseau tem
				adquirido diferentes contornos e se estende desde a <italic>Profissão de
				fé</italic>, indicada acima, passa pelo <italic>&quot;Du Contrat
					Social&quot;</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B14">ROUSSEAU, 1964</xref>) e
				tem lugar nas &quot;Cartas escritas da montanha&quot; (ROUSSEAU, 2006), nas Rêveries
				(ROUSSEAU, 2012c) e em outros textos da vasta obra do filósofo. Muito se debateu
				sobre a religião natural, muito se tem falado nas últimas décadas sobre a religião
				civil. Há quem diga que em Rousseau encontra-se a religião abordada em suas várias
				dimensões: desde a pessoal e moral até a civil e pública (<xref ref-type="bibr"
					rid="B3">GRIMSLEY, 1968</xref>); outros dizem que essas duas dimensões são as
				componentes de um conjunto investigativo separado por gradações a respeito do
				envolvimento social do indivíduo (<xref ref-type="bibr" rid="B18">WATERLOT,
					2004</xref>); outros ainda afirmam que se trata de dois mundos em separado que,
				porém, mantêm relação de continuidade (<xref ref-type="bibr" rid="B9">KAWAUCHE,
					2008</xref>). Neste artigo, serão abordadas apenas a avaliação dos cristãos no
				corpo político já estabelecido e a possível conexão dessa crítica de Rousseau com
				aquela já feita por Hobbes. Afirma o próprio filósofo de Genebra: &quot;De todos os
				autores cristãos, o filósofo Hobbes é o único que viu muito bem o mal e o remédio,
				que ousou propor a reunião das duas cabeças da águia, e reconduzir-se tudo à unidade
				política, sem a qual jamais serão bem constituídos o Estado e o Governo&quot;
				(ROUSSEAU, 1978, p.140)<xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>5</sup>
				</xref>. </p>
			<p>É importante destacar que vários abismos teóricos separam entre si as filosofias de
				Rousseau e de Hobbes. Se o analista posiciona frente a frente suas concepções de
				&quot;estado de natureza&quot;, assim como de liberdade ou da relação que os súditos
				devem manter com o soberano, é difícil concluir algo diferente de que se trata de
				dois pensamentos inconciliáveis, senão até rivais. No entanto, um aspecto permite
				estabelecer um ponto de ligação e, por que não dizer, de união entre essas
				filosofias políticas: a posição crítica quanto à participação de um certo tipo de
				cristãos na vida pública. Basta conferir os problemas com que os dois filósofos se
				ocupam nas partes finais de o <italic>&quot;Du Contrat Social&quot;</italic> (<xref
					ref-type="bibr" rid="B14">ROUSSEAU, 1964</xref>) e de &quot;Leviatã&quot; (<xref
					ref-type="bibr" rid="B7">HOBBES, 2003</xref>) para concluir que o tema dos
				desvios políticos causados pela religião é de grande importância. Está claro para os
				dois filósofos que os alvos principais da crítica devem ser os cristãos, suas
				doutrinas e seus interesses particulares no contexto da vida pública. Desse modo,
				partindo das inquietações expressas por Rousseau quanto a esse tema e retrocedendo à
				oposição manifesta por Hobbes aos religiosos, nota-se ser possível vislumbrar, em
				sentido amplo, as consequências desastrosas para a sociedade da aproximação entre
				doutrinas religiosas e poder político.</p>
			<sec>
				<title>Descaminhos políticos do reino dos cristãos</title>
				<p>Rousseau escreve no último capítulo do &quot;Contrato Social&quot; que, desde que
					Jesus estabelecera na terra um reino espiritual, ocorrera uma série de divisões
					intestinas aos Estados (<xref ref-type="bibr" rid="B13">ROUSSEAU, 1978</xref>,
						p.139)<xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>6</sup>
					</xref>.</p>
				<p>Esses acontecimentos residiriam no fato de os fundamentos do reino espiritual
					serem por vezes inconciliáveis com os princípios do poder civil. A diferença se
					explicitaria de modo concreto na separação entre o sistema &quot;teológico do
					político&quot;, fazendo com que &quot;o Estado deixasse de ser uno&quot; (<xref
						ref-type="bibr" rid="B13">ROUSSEAU, 1978</xref>, p.139)<xref ref-type="fn"
						rid="fn6"><sup>7</sup>
					</xref>. Guiados por um conjunto de leis e de princípios políticos distintos
					daqueles civis, os cristãos passariam não mais a respeitar as ordens prescritas
					pelo poder do Estado e, sim, a se submeter ao poder concebido e moldado pela
					doutrina religiosa. Em se tratando do &quot;espírito do cristianismo&quot; ou o
					espírito dos &quot;humildes cristãos&quot;, afirma Rousseau, o que se pretendia
					que fosse um reino de outro mundo, na verdade havia se tornado, sob a chefia do
					papa, neste mundo, &quot;o mais violento despotismo&quot;. Além de a divisão
					entre poder religioso e poder civil constantemente &quot;agitar os povos
					cristãos&quot;, a existência de princípios políticos, leis e soberanos de
					naturezas distintas ocasionara &quot;um conflito perpétuo de jurisdição que
					tornou toda a boa <italic>politia</italic> impossível nos Estados cristãos e
					jamais se conseguiu saber se era ao senhor ou ao padre que se estava obrigado a
					obedecer&quot; (ROUSSEAU, 1978, p.139)<xref ref-type="fn" rid="fn7"><sup>8</sup>
					</xref>. </p>
				<p>O prejuízo para os estados não residia no simples fato de haver religiões que o
					povo seguisse, mas sim haver um tipo de crentes que desejavam que o poder
					político civil estivesse submetido à bula dos dogmas religiosos. Ciente do
					perigo dessa influência dos interesses religiosos so-bre a vida pública civil,
					Rousseau demostra preocupação com o caso de &quot;o espírito do cristianismo
					[ter tomado] conta de tudo&quot;. A cisão entre a comunidade dos cristãos
					dogmáticos e a comunidade civil - de onde se deveria erguer o poder político -
					poderia ser observada no fato de que &quot;o culto sagrado sempre permaneceu ou
					tornou-se independente do soberano e sem ligação necessária com o corpo do
					Estado&quot; (<xref ref-type="bibr" rid="B13">ROUSSEAU, 1978</xref>, p.139)<xref
						ref-type="fn" rid="fn8"><sup>9</sup>
					</xref>. </p>
				<p>Para que se localizasse melhor o alvo de sua crítica, Rousseau faz questão de
					diferenciar a religião dos cristãos dogmáticos, ávidos pelo poder político,
					daquelas que se ocupavam mais da relação de seus membros com a sociedade. O que
					ele pretende ao estabelecer essa distinção é realçar o caráter negativo de certo
					cristianismo romano cujo interesse seria tornar o poder político civil uma
					extensão dele mesmo, ou que ambos fossem o mesmo poder - político e religioso. </p>
				<p>Diferentemente desse tipo de cristianismo, outras religiões buscaram manter forte
					vínculo com as sociedades nas quais se inseriram, ressaltando a importância do
					homem manter firme a sua relação com o sagrado e com a transcendência, sem que
					esta competisse com a autoridade política constituída, gerando sedições,
					tumultos e guerras. Menos pretensiosas quanto a suas intenções políticas, um
					aspecto que diferencia tais religiões é a igual importância dada ao &quot;culto
					ao Deus supremo e aos deveres eternos da moral&quot;. O filósofo entende que
					esta modalidade religiosa corresponde ao &quot;verdadeiro teísmo&quot;, pois
					conserva algo da origem do homem e da relação que este manteve com a natureza.
					Tal teísmo pode, segundo Rousseau, ser &quot;chamado de direito natural&quot;.
					Outro exemplo dessas religiões que não se apartam da sociedade e não se insurgem
					contra o poder político estabelecido é a própria religião civil: &quot;aquela em
					que está inscrita num só país&quot;, tem seus cultos, dogmas, ritos todos
					prescritos por lei e são dignas de destaque devido à sua importância porque
					foram &quot;as religiões dos primeiros povos, às quais se pode dar o nome de
					direito divino civil ou positivo&quot; (<xref ref-type="bibr" rid="B13"
						>ROUSSEAU, 1978</xref>, p.141)<xref ref-type="fn" rid="fn9"><sup>10</sup>
					</xref>.</p>
				<p>Ao estender a crítica à religião dos lamas e à dos japoneses, Rousseau deixa
					entrever que seu alvo crítico principal não é o cristianismo em geral, mas uma
					certa postura dele. Tanto a religião dos lamas como a dos japoneses terminaram
					por fazer que a sociedade tivesse &quot;duas legislações, dois chefes, duas
					pátrias&quot;, por fim elas &quot;submetem [o povo] a deveres contraditórios e o
					impedem de poder ao mesmo tempo ser devoto e cidadãos&quot; (<xref
						ref-type="bibr" rid="B13">ROUSSEAU, 1978</xref>, p.141)<xref ref-type="fn"
						rid="fn10"><sup>11</sup>
						</xref>. Aqui é digno de nota o fato de Rousseau não distinguir essas religiões
					conforme uma divisão maniqueísta, tomando de um lado as boas e de outro as
					nocivas. Ele ressalta aspectos tanto positivos quanto negativos de todas.
					Entretanto, seja no cristianismo romano, na religião dos japoneses ou na dos
					lamas: &quot;Tudo o que rompe a unidade social, nada vale; todas as instituições
					que põem o homem em contradição consigo mesmo, nada valem&quot; (ROUSSEAU, 1978,
						p.141)<xref ref-type="fn" rid="fn11"><sup>12</sup>
					</xref>.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Hobbes e duas críticas: à má interpretação das Escrituras e à s duas cabeças
					da águia</title>
				<p>Também Hobbes dedica os últimos capítulos de sua obra 'Leviatã' a tecer críticas
					severas ao que ele entende serem os equívocos políticos e consequências
					maléficas ao Estado, oriundos da má interpretação das escrituras sagradas pelos
					cristãos. O fato de a crítica se desenvolver já no título da parte IV de
					&quot;Leviatã&quot; (<xref ref-type="bibr" rid="B7">HOBBES, 2003</xref>) -
					&quot;Do reino das trevas&quot; -, denota que a perspectiva negativa de Hobbes
					está carregada de tintas mais fortes do que aquelas críticas lançadas por
					Rousseau. O filósofo inglês adverte que o reino das trevas é uma confederação de
					impostores que &quot;para obterem o domínio sobre os homens neste mundo
					presente, tentam, por meio de escuras e errôneas doutrinas, extinguir neles a
					luz, quer da natureza, quer do Evangelho, e deste modo desprepará-los para a
					vinda do Reino de Deus&quot; (HOBBES, 2003, p.505).</p>
				<p>Na presença desses embusteiros, os cidadãos dispostos a obedecer à autoridade
					legítima do soberano não poderiam reconhecer a escuridão que envolve as
					doutrinas a não ser raciocinando corretamente, isto é, exercitando sua própria
					luz natural. Note-se que Hobbes explicita que o alvo de sua crítica não são as
					sagradas escrituras, mas sim o uso que alguns homens fazem delas. Mas, que
					equívocos teriam sido ocasionados da má interpretação da Bíblia?</p>
				<p>O primeiro seria o de reconhecer a Igreja de então como o reino de Cristo na
					Terra. Essa falsa constatação teria feito brotar a ideia da necessidade de
					&quot;haver um homem ou uma assembléia pela boca dos quais o nosso Salvador
					(agora no céu) falasse, e desse a lei e representasse a sua pessoa perante todos
					os cristãos, ou homens diversos, ou diversas assembléias que fizessem o mesmo em
					diversas partes da cristandade (<xref ref-type="bibr" rid="B7">HOBBES,
						2003</xref>, p.508). O reino de Deus na terra e a necessidade de afirmação
					do emissário de Cristo como autoridade, ao mesmo tempo religiosa e política,
					seriam as bases para que se criassem dois poderes de natureza distinta no mesmo
					Estado: o religioso e o civil. Bastaria apenas que aquele homem que se julgasse
					falar em nome de Cristo fornecesse alguma lei e ordenasse aos cristãos para a
					ela se submeterem para se dar a cisão entre os dois poderes. </p>
				<p>Hobbes denuncia que foi exatamente isso que decidiram os bispos da Igreja,
					reunidos no Quarto Concílio de Latrão. O que mais surpreende das doutrinas
					estabelecidas então era que caberia ao Papa exortar o rei quanto à necessidade
					de este expurgar as heresias das terras sob seu domínio. A recusa em cumprir tal
					ordem lhe acarretaria não apenas a excomunhão como, o que seria mais grave e
					inaceitável, os súditos estariam &quot;absolvidos do vínculo de sua
					obediência&quot; (<xref ref-type="bibr" rid="B7">HOBBES, 2003</xref>, p.508),
					isto é, o Papa sentenciava o limite da autoridade do soberano sobre os súditos.
					Hobbes se pergunta ainda pelo sentido das heresias tão enfaticamente atacadas
					pelos bispos católicos, pois estas nada mais seriam do que simples
					&quot;opiniões proibidas pela Igreja romana&quot;, sem qualquer valor fora dos
					limites de influência da Igreja de Cristo. O problema, para Hobbes, não
					residiria em alguém receber a pecha de herege ou heresiarca, mas, sim, nas
					consequências políticas das exigências do Papa quando ele assim qualifica uma
					pessoa ou o próprio rei, pois:</p>
				<disp-quote>
					<p>[...] por esses expedientes, sempre que há qualquer contradição entre os
						desígnios políticos do Papa e dos outros príncipes cristãos, como muitas
						vezes acontece, surge tal neblina entre os seus súditos que eles não
						distinguem entre um estrangeiro que se atirou no trono do seu legítimo
						príncipe e aquele que eles próprios lá colocaram. Nesta escuridão de
						espírito são levados a lutar uns contra os outros, sem distinguirem os seus
						inimigos dos seus amigos, conduzidos pela ambição de outro homem (<xref
							ref-type="bibr" rid="B7">HOBBES, 2003</xref>, p.509).</p>
				</disp-quote>
				<p>As trevas constituiriam assim um véu que impedia os súditos de vislumbrar qual
					soberano respeitar: ou o emissário de Cristo na Terra ou o poder civil
					legitimamente constituído. Tal indecisão disseminaria entre os cidadãos a
					incerteza quanto à proteção de suas vidas e à legitimidade dos poderes
					estabelecidos para concluir a paz e impedir a guerra. São as trevas do
					desconhecimento sobre quem detém a autoridade legítima da soberania que podem
					conduzir os homens à animosidade e ao desprazer da convivência mútua, estimular
					a compe-tição para que atinjam os seus fins particulares e fazê-los concluir da
					necessidade de se antecipar aos demais para não serem por eles dominados. Enfim,
					imersos na escuridão sobre a possibilidade de proteger a própria vida e tomados
					pelo medo da morte iminente, os homens se lançam à guerra generalizada.</p>
				<p>O diagnóstico das causas da divisão é de tal modo preciso que Rousseau assinala a
					ousadia do filósofo inglês ao propor o remédio para tal moléstia: ele [Hobbes]
					propôs &quot;a reunião das duas cabeças da águia, e reconduzir-se tudo à unidade
					política, sem a qual jamais serão bem constituídos o Estado e o Governo&quot;
						(<xref ref-type="bibr" rid="B13">ROUSSEAU, 1978</xref>, p.140)<xref
						ref-type="fn" rid="fn12"><sup>13</sup>
					</xref>. O destaque dado à união do poder se explica não apenas pelo fato de ser
					esta a solução definitiva para o problema. Era preciso unir as duas cabeças da
					águia porque o espírito dominador do cristianismo romano não tinha limites e a
					sua intenção de se apossar do poder político era uma demonstração da força da fé
					dos cristãos, na medida em que conquistar o poder civil estava de acordo com a
					proposta de justiça e de verdade dos seguidores do Papa. Por tal motivo, essa
					postura dos religiosos em relação ao poder político civil, segundo as palavras
					do <italic>&quot;Du Contrat Social&quot;</italic> era tão ardilosa: diz
					Rousseau, &quot;[...] longe de ligar os corações dos cidadãos ao Estado,
					desprende-os, como de todas as coisas da terra. Não conheço nada mais contrário
					ao espírito social&quot; (ROUSSEAU, 1978, p.141)<xref ref-type="fn" rid="fn13"><sup>14</sup>
					</xref>.</p>
				<p>Rousseau estava certo de que, para confirmar suas conclusões, não poderia
					encontrar testemunha mais apropriada do que o próprio Hobbes em sua avaliação do
					que ocorrera na Inglaterra. Em &quot;Behemoth&quot; encontra-se o relato dos
					eventos que deram origem ao esfa-celamento da autoridade da monarquia e, por
					fim, à morte do rei legítimo. O caso dos ingleses era extremo porque, entre os
					opositores da soberania do rei, não se encontravam apenas os cristãos da igreja
					romana. Hobbes precisa que os &quot;sedutores eram de várias espécies&quot;
						(<xref ref-type="bibr" rid="B8">HOBBES, 2001</xref>, p.32). </p>
				<p>Primeiro Hobbes fala dos ministros de Cristo ou presbiterianos, que também se
					autode-nominavam &quot;embaixadores de Deus&quot;. Nessa condição, tais
					religiosos &quot;pretendiam ter o direito a governar cada um de sua paróquia e,
					através de sua assembléia, a nação inteira&quot; (<xref ref-type="bibr" rid="B8"
						>HOBBES, 2001</xref>, p.32). Não poderia ser mais explícita aqui a intenção
					do poder religioso se apossar do poder civil.</p>
				<p>Nem mesmo o fato de, como assinala Rousseau, &quot;os reis da Inglaterra
					tornarem-se chefes da Igreja&quot; (<xref ref-type="bibr" rid="B13">ROUSSEAU,
						1978</xref>, p.140)<xref ref-type="fn" rid="fn14"><sup>15</sup>
						</xref>abolindo o poder temporal e eclesiástico do Papa nesse país, fora
					suficiente para neutralizar a ação de outros impostores. Os papistas,
					diferentemente dos presbiterianos, defendiam que todos deveriam se submeter
					incondicionalmente ao poder do representante de Cristo na Terra. Mas, na defesa
					de seus propósitos político-religiosos, esses papistas promoviam o esfacelamento
					da autoridade de poder civil.</p>
				<p>Hobbes menciona ainda outros grupos de cristãos, para que se tenha noção precisa
					da dramaticidade da situação vivida pelos defensores do poder civil em face
					daqueles - intran-sigentes - favoráveis à dominação do poder político civil pelo
					religioso. Os independentes, diz Hobbes, </p>
				<disp-quote>
					<p>[...] desejavam todas as congregações livres e independentes entre si [...].
						Outros, que sustentavam a ineficácia do batismo para os infames e para quem
						não compreendesse em que era batizado, foram por essa razão chamados de
						Anabatistas. Os que defendiam que o reino de Cristo estava prestes a começar
						na terra eram chamados de Pentamonarquistas. Havia ainda diversas outras
						seitas, como os Quacres, Adamitas etc., cujos nomes e doutrinas peculiares
						não recordo muito bem (<xref ref-type="bibr" rid="B8">HOBBES, 2001</xref>,
						p.33).</p>
				</disp-quote>
				<p>Embora fossem grupos distintos, mantendo opiniões diferentes entre si quanto às
					doutrinas que professavam, na Inglaterra eles mantinham em comum o propósito de
					se insurgirem contra Sua Majestade. Tais cristãos se mantiveram distantes dos
					distúrbios quando se iniciaram os primeiros movimentos para a derrubada do rei,
					mas, logo em seguida, viram na permanência dessa autoridade civil uma ameaça à
					liberdade de religião, que defendiam acima de quaisquer outros interesses
					públicos.</p>
				<p>Ainda mais independentes em seus propósitos e em suas crenças do que os grupos
					religiosos acima, eram os cidadãos que Hobbes denominara de &quot;homens da
					melhor espécie&quot;. Estes conheciam os escritos dos homens mais célebres das
					antigas repúblicas grega e romana &quot;[...] livros nos quais o governo popular
					era enaltecido pelo glorioso nome de liberdade, e a monarquia desgraçada pelo
					nome de tirania&quot; (<xref ref-type="bibr" rid="B8">HOBBES, 2001</xref>,
					p.33). Por isso não foi difícil que se convencessem de que a monarquia era o
					pior dos regimes. Em razão da eloquência adquirida com a leitura dos textos
					clássicos antigos, também lhes era fácil convencer os demais homens. Mesmo que
					os seus propósitos fossem distintos daqueles dos grupos de religiosos, esses
					ditos &quot;homens da melhor espécie&quot; engrossaram o coro dos que desejavam
					esfacelar a autoridade civil constituída. A segurança do poder disputada a
					golpes de retórica, os defensores da liberdade republicana e os partidários da
					religião foram decisivos para, segundo Hobbes, destruir a força do Estado para
					promover a paz e proteger a vida dos cidadãos. </p>
				<p>Entre tantos promotores da dissolução do poder civil faltava apenas considerar o
					povo. Como assinalou Hobbes, na ignorância de seu dever, os cidadãos do povo não
					eram cientes nem mesmo dos direitos que revestiam a autoridade que sobre eles
					exercia o poder (<xref ref-type="bibr" rid="B8">HOBBES, 2001</xref>). A
					preocupação em proteger suas próprias vidas e manter a paz não figurava, na
					acepção de Hobbes, no conjunto de suas prioridades.</p>
				<p>Tantas eram as fontes da discórdia que fomentaram a cisão e o enfraquecimento do
					poder na Inglaterra daquele tempo que a figura da águia de duas cabeças não era
					suficiente para representar todos os matizes da divisão interna. Para entender
					melhor o que se passou naquele país, enfim, para saber qual a relação entre a
					pulverização das doutrinas religiosas e a efetivação de seus interesses
					políticos e a influência deles sobre outros grupos de cidadãos contra a
					soberania do rei, certamente seria melhor buscar outra figura ilustrativa. Pelo
					que se observa em <italic>&quot;Behemoth&quot;</italic> (<xref ref-type="bibr"
						rid="B8">HOBBES, 2001</xref>), os vários grupos de religiosos que se
					insurgiram contra a monarquia e alimentaram a revolução constituíam algo mais
					próximo das sete cabeças da hidra de Lerna. Tal como na mitologia grega, cada
					uma de suas cabeças disseminava o ódio e promovia toda sorte de malefícios,
					tendo como o mais expressivo deles a derrocada do poder político constituído.
				</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Seriam os cristãos bons cidadãos?</title>
				<p>Diferentemente de Hobbes, que em <italic>&quot;Behemoth&quot;</italic> se mostra
					cético quanto aos benefícios que poderiam trazer os religiosos à vida civil,
					Rousseau defende a necessidade de que os homens mantivessem relação com o
					sagrado, estimulando até a instituição de uma religião civil. O ceticismo
					expresso contra um certo cristianismo no <italic>&quot;Du contrat
						social&quot;</italic> se dá pelo fato de que o ser cristão, orientado pelas
					ambições políticas de Roma, sempre implicava contradizer as exigências políticas
					de uma república. Nem mesmo aquele cristianismo que Rousseau denomina o do
					Evangelho poderia contribuir para isso, porque</p>
				<disp-quote>
					<p>[...] o cristianismo só prega a servidão e dependência. Seu espírito é por
						demais favorável à tirania, para que ela cotidianamente não se aproveite
						disso. Os verdadeiros cristãos são feitos para ser escravos; sabem-no e não
						se comovem absolutamente, porquanto esta vida curta pouco apreço apresenta a
						seus olhos (<xref ref-type="bibr" rid="B13">ROUSSEAU, 1978</xref>,
							p.143)<xref ref-type="fn" rid="fn15"><sup>16</sup>
						</xref>. </p>
				</disp-quote>
				<p>Os cristãos se preocupam mais com os problemas transcendentes do que com os
					humanos e por isso jamais seriam bons guerreiros e não se interessariam pelos
					problemas do Estado. Também a sociedade que constituem não possui qualquer
					relação com o corpo político. Encolhidos devido ao sentimento de piedade e
					resignados em face da possibilidade de vitória do inimigo combatente, eles não
					estariam dispostos a morrer pelo bem da vida pública terrena. Exatamente por não
					se valerem do sentimento de sociabilidade pública, na avaliação de Rousseau, os
					cristãos não seriam bons cidadãos.</p>
				<p>A religião positiva, isto é, a religião civil, é aquela que instiga os cidadãos
					&quot;a amar os seus deveres&quot;<xref ref-type="fn" rid="fn16"><sup>17</sup>
					</xref>. As leis religiosas não pressupõem a negação das leis civis. Mesmo os
					dogmas não constituem ameaça à ordem social. Eles apenas se impõem sobre os
					cidadãos para que estes cumpram seus deveres para com os demais cidadãos e a
					república. Assim, para não contribuírem para fortalecer as cabeças da águia ou
					da hidra, os dogmas devem estar ligados à lei moral. Estando os cidadãos
					comprometidos em seguir os preceitos da lei moral, não restaria qualquer
					preocupação ao soberano quanto ao que eles fazem ou deixam de fazer, porque
					&quot;cada um pode ter as opiniões que lhe aprouver, sem que o soberano possa
					tomar conhecimento delas, pois, como não chega a sua competência ao outro mundo,
					nada tem a ver com o destino dos súditos na vida futura, desde que sejam bons
					cidadãos nesta vida&quot; (<xref ref-type="bibr" rid="B13">ROUSSEAU,
					1978</xref>, p.143)<xref ref-type="fn" rid="fn17"><sup>18</sup>
					</xref>.</p>
				<p>Os momentos dramáticos da destruição da soberania monárquica, apresentados em
						<italic>&quot;Behemoth&quot;</italic>, explicam por que Hobbes não vê com
					olhos tão amigáveis a existência de religiosos no interior do Estado. É certo
					que, em <italic>&quot;Leviatã&quot;</italic>, Hobbes explica e até defende, na
					parte três, como os princípios teológicos da religião cristã conduzem à
					conclusão de que o Estado religioso é legítimo e deve ser mantido pelos crentes,
					desde que separado do civil. Desejo de poder e interesses religiosos nunca
					estiveram distantes. O filósofo inglês não nutre ilusões quanto às supostas boas
					intenções dos religiosos e dos cristãos quando desejam limitar o poder civil.
					Ele sabe, pelo exemplo trazido por outro colega filósofo, menos de um século
					antes da revolução inglesa, o francês Jean Bodin, que as lutas religiosas pela
					aquisição do poder e a estabilidade política são dois eventos excludentes e
					impossíveis de ocorrer simultaneamente no mesmo lugar.</p>
				<p>As críticas desferidas aos cristãos e às doutrinas religiosas, em especial,
					posicionam o pensamento de Hobbes como pioneiro dentre os críticos da relação
					entre religião e política, como Rousseau, um dos temas mais delicados da
					filosofia política moderna. Considerando--se o largo espectro ideológico
					religioso que se apresentava na cena política inglesa da época, Ribeiro
					qualifica como de esquerda o posicionamento hobbesiano, apesar do anacronismo do
					termo. O emprego dessa noção permite observar, entretanto, como uma obra de tão
					longo alcance filosófico, como a de Hobbes, adquire várias feições, dependendo
					do ângulo sob o qual é observada. A partir de vários aspectos é, em relação a
					Rousseau, um texto adversário e, em outros, um ponto de partida crítico<xref
						ref-type="fn" rid="fn18"><sup>19</sup>
					</xref>.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Conclusão</title>
			<p>As críticas à religião e ao cristianismo, tanto para Rousseau quanto para Hobbes,
				tinham por objetivo eliminar a ameaça de divisão do poder supremo no Estado.
				Ressalta <xref ref-type="bibr" rid="B1">Bachofen (2011</xref>, p.7) que se trata de
				uma das questões mais &quot;delicadas e controversas&quot; do pensamento do filósofo
				de Genebra.</p>
			<p>No caso do filósofo inglês, a posição crítica a certo tipo de cristãos é mais
				acentuada porque a mistura de interesses políticos e religião havia produzido o
				esgarçamento do tecido social e a destruição do poder do rei, que viu encerrar
				definitivamente sua condição de ocupante supremo do poder político ao subir no
				cadafalso, conduzido à morte em plena praça pública. Hobbes tem claro que a
				destruição da soberania monárquica inglesa era fruto do &quot;manejo das
				consciências&quot; (<xref ref-type="bibr" rid="B11">RIBEIRO, 2006</xref>, p.22)<xref
					ref-type="fn" rid="fn19"><sup>20</sup>
				</xref>. Esse ponto é outro, entre vários, que distanciam as obras dos dois
				filósofos. De outro lado, em diagnóstico muito próximo daquele de Rousseau, o inglês
				está convencido de que as trevas para onde os religiosos conduziram os cidadãos
				tiveram sua origem nos dogmas da Igreja romana e no radicalismo dos cristãos
				reformados. </p>
			<p>Rousseau, assim com Hobbes, não é anticristão ou contra as religiões, como querem
				fazer crer certas leituras apressadas e pouco rigorosas. A questão central da
				crítica a certos cristãos é ressaltar que os interesses e dogmas da religião não
				interfiram no poder político e nas obrigações do cidadão para com a vida política. </p>
			<disp-quote>
				<p>[...] importa ao Estado que cada cidadão tenha uma religião que o faça amar os
					seus deveres; os dogmas dessa religião, porém, não interessam nem ao Estado nem
					a seus membros, a não ser enquanto se ligam à moral e aos deveres que aquele que
					a professa é obrigado a obedecer em relação a outrem outrem (<xref
						ref-type="bibr" rid="B13">ROUSSEAU, 1978</xref>, p.143)<xref ref-type="fn"
						rid="fn20"><sup>21</sup>
					</xref>. </p>
			</disp-quote>
			<p>O que esses quase vinte parágrafos do último capítulo de <italic>&quot;Du Contrat
					Social&quot;</italic> abordam nada mais é do que o debate sobre a teologia
				política em chave rousseauniana, o que remete às críticas já aventadas por Hobbes.
				Como afirma <xref ref-type="bibr" rid="B1">Bachofen (2011</xref>, p.7), trata-se de
				um acontecimento maior, o do cristianismo, que introduz duas coisas muito diferentes
				na história dos homens &quot;(uma muito positiva, outra catastrófica): o espírito
				dos evangelhos, de um lado; do outro, a cisão no coração da vida política
				distinguindo dois reinos e determinando como rivais a autoridade do príncipe e a
				autoridade do sacerdote&quot;. Destaca o comentário que o tema da teologia política
				em Rousseau está pleno de aspectos que denotam aparentes contradições em suas
				abordagens sobre a religião, assim como sobre a relançar entre religião e poder
				político (<xref ref-type="bibr" rid="B1">BACHOFEN, 2011</xref>). Certamente, os
				pontos a explorar desse tema se estendem desde a <italic>Profissão de fé</italic>
				até a defesa da <italic>religião civil</italic>. Intencionalmente não se pretende
				abordar aqui todo esse amplo campo de interpretação sobre as religiões.</p>
			<p>A opção deste estudo por explorar o, talvez, mais severo momento crítico de Rousseau
				aos cristãos, a saber, que trata da intenção dogmática de unificar os poderes
				religioso e político sob a mesma autoridade religiosa, se ancora também no fato de
				que é tema estruturante do debate moderno acerca do poder e do político em sentido
				amplo. Observando-se essa discussão em perspectiva histórica, circunscrita aos
				Estados ocidentais cujas raízes culturais e políticas mantiveram vínculos com a
				Europa, vê-se que revoltas, guerras e revoluções estiveram estreitamente ligadas ao
				debate sobre a separação entre religião e política. Críticas modernas mais
				contundentes sustentaram a tese da religião como desvirtuadora da consciência do
				povo. A defesa de uma sociedade secularizada e da política separada da teologia se
				apresen-tou como um dos trabalhos mais promissores, em termos históricos, do
				trabalho filosófico da modernidade. Confirma essa tese a repercussão crítica de
				obras como &quot;Leviatã&quot; (<xref ref-type="bibr" rid="B7">HOBBES, 2003</xref>)
				e o &quot;Tratado Teológico-Político&quot; (<xref ref-type="bibr" rid="B2">ESPINOSA,
					2003</xref>), além do <italic>&quot;Du Contrat Social&quot;</italic> (ROUSSEAU,
				2003).</p>
			<p>As perspectivas críticas da religião e do cristianismo deixadas por Rousseau e por
				Hobbes ainda servem como advertência para os perigos implícitos da aproximação entre
				fé e interesses pelo poder político. Mesmo que o alvo dos debates e dos embates
				atuais tenha se deslocado do campo exclusivo dos cristãos para o dos judeus e o dos
				islâmicos, entre outros, ou pelo menos que esteja disseminado entre esses grupos
				todos, é no mínimo prudente constatar que as posições desses dois filósofos ainda
				podem iluminar os impasses vividos no presente. Para aqueles que defendem que, no
				nível das ideias, o tempo atual parece ter se desgarrado definitivamente do seio da
				filosofia moderna, essas teses apresentadas por Rousseau e por Hobbes permitem
				entrever que, no nível dos problemas concretos, a humanidade ainda se encontra
				fortemente atada aos eventos que se deram em alguns dos momentos mais trágicos e
				violentos da história moderna.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
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							<surname>ROUSSEAU</surname>
							<given-names>J.J.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<chapter-title>Emile ou de l'éducation</chapter-title>
					<source>COLLECTION Complete des oeuvres, Genève, 1780-1789. Genève: L'Édition du
						Peyrou et Moultou. 2012a. v.4</source>
						<year>2016</year>
					<comment content-type="cited">Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri"
							xlink:href="http://www.rousseauonline.ch/Text/volume-4-emile-ou-de-l-education-tome-premier.php"
							>http://www.rousseauonline.ch/Text/volume-4-emile-ou-de-l-education-tome-premier.php</ext-link>
					</comment>
					<date-in-citation content-type="access-date" iso-8601-date="2016-09-08">8 set.
						2016</date-in-citation>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B16">
				<mixed-citation>ROUSSEAU, J.J. Emile ou de l'éducation, Tome II. In:
						<italic>COLLECTION complete des oeuvres, Genève, 1780-1789</italic>. Genève:
					L'Édition du Peyrou et Moultou. 2012b. v.5. Disponível em: &lt;<comment
						content-type="cited">Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri"
							xlink:href="http://www. rousseauonline.ch/Text/volume-5-emile-ou-de-l-education-tome-premier.php"
							>http://www.
							rousseauonline.ch/Text/volume-5-emile-ou-de-l-education-tome-premier.php</ext-link>
					</comment>&gt;. Acesso em: 8 set. 2016.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>ROUSSEAU</surname>
							<given-names>J.J.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<chapter-title>Emile ou de l'éducation, Tome II</chapter-title>
					<source><italic>COLLECTION complete des oeuvres, Genève, 1780-1789</italic>.
						Genève: L'Édition du Peyrou et Moultou. 2012b. v.5</source>
						<year>2016</year>
					<comment content-type="cited">Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri"
							xlink:href="http://www. rousseauonline.ch/Text/volume-5-emile-ou-de-l-education-tome-premier.php"
							>http://www.
							rousseauonline.ch/Text/volume-5-emile-ou-de-l-education-tome-premier.php</ext-link>
					</comment>
					<date-in-citation content-type="access-date" iso-8601-date="2016-09-08">8 set.
						2016</date-in-citation>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B17">
				<mixed-citation>ROUSSEAU, J.J. Les confessions: Les rêveries du promeneur solitaire.
					In: <italic>COLLECTION complete des oeuvres, Genève, 1780-1789</italic>. Genève:
					L'Édition du Peyrou et Moultou. 2012c. v.10. Disponível em: &lt;<comment
						content-type="cited">Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri"
							xlink:href="http://www.rousseauonline.ch/Text/volume-10-les-confessions-les-reveries-du-promeneur-solitaire.php"
							>http://www.rousseauonline.ch/Text/volume-10-les-confessions-les-reveries-du-promeneur-solitaire.php</ext-link>
					</comment>&gt;. Acesso em: 8 set. 2016.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>ROUSSEAU</surname>
							<given-names>J.J.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<chapter-title>Les confessions: Les rêveries du promeneur
						solitaire</chapter-title>
					<source><italic>COLLECTION complete des oeuvres, Genève, 1780-1789</italic>.
						Genève: L'Édition du Peyrou et Moultou. 2012c. v.10</source>
						<year>2016</year>
					<comment content-type="cited">Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri"
							xlink:href="http://www.rousseauonline.ch/Text/volume-10-les-confessions-les-reveries-du-promeneur-solitaire.php"
							>http://www.rousseauonline.ch/Text/volume-10-les-confessions-les-reveries-du-promeneur-solitaire.php</ext-link>
					</comment>
					<date-in-citation content-type="access-date" iso-8601-date="2016-09-08">8 set.
						2016</date-in-citation>
				</element-citation>
			</ref>
			<ref id="B18">
				<mixed-citation>WATERLOT, G. <italic>Rousseau</italic>: Religion et politique.
					Paris: PUF, 2004.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>WATERLOT</surname>
							<given-names>G.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source><italic>Rousseau</italic>: Religion et politique</source>
					<publisher-loc>Paris</publisher-loc>
					<publisher-name>PUF</publisher-name>
					<year>2004</year>
				</element-citation>
			</ref>
		</ref-list>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>2
				</label>
				<p>Para as consultas ao 'Emílio' utilizou-se a (ROUSSEAU, 2012a), donde se indica o
					volume, seguido da localização do trecho na obra e página. Em <italic>'Du
						contrat social'</italic>, as citações são retiradas da edição das Obras
					Completas da Coleção Pléiade, doravante Obras Completas seguido do número do
					volume da coleção, título da obra em francês, localização do trecho citado na
					obra e paginação. Da tradução publicada pela Editora Abril, 1978, de Lourdes
					Santos Machado, indica-se apenas o ano da edição e a página.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>3</label>
				<p>Diz Rousseau: &quot;Se eu tivesse de pintar a estupidez irritante, pintaria um
					pedante a ensinar o catecismo a crianças; se eu pretendesse enlouquecer uma
					criança, obrigá-la-ia a explicar o que diz quando recita o seu catecismo.
					Objetar-me-ão que, como maioria dos dogmas do cristianismo são mistérios,
					esperar que o espírito humano seja capaz de os conceber, não de esperar que a
					criança seja homem, é esperar que o homem deixe de o ser. A isso, começo por
					responder que há mistérios que o homem não só está na impossibilidade de
					conceber como de crer, e que não vejo o que se ganha em ensiná-los às crianças,
					a não ser ensiná-las a mentir muito cedo. E ainda digo que, para admitir os
					mistérios, é necessário compreender, pelo menos, que eles são incompreensíveis;
					e as crianças nem sequer são capazes desta concepção. Para a idade em que tudo é
					mistério, não existem mistérios propriamente ditos&quot;. Tradução de Sérgio
					Milliet (ROUSSEAU, 1995, p.294-295).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>4</label>
				<p>ROUSSEAU, 1978, p.141, <italic>Cf</italic>. O.C. T. III. <italic>&quot;Du Contrat
						Social&quot;</italic>. IV, 8, p.464.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>5</label>
				<p>ROUSSEAU, 1978, p.140, O.C. T. III. <italic>&quot;Du Contrat
						Social&quot;</italic>. IV, 8, p.463.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>6</label>
				<p><italic>Ibid.</italic>, p.139, O.C. T. III. <italic>&quot;Du Contrat
						Social&quot;</italic>. IV, 8, p.463.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>7</label>
				<p><italic>Ibid</italic>.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>8</label>
				<p>ROUSSEAU, 1978, p.139, O.C. T. III. <italic>&quot;Du Contrat
						Social&quot;</italic>. IV, 8, p.463.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>9</label>
				<p><italic>Ibid.</italic></p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn9">
				<label>10</label>
				<p><italic>Idi</italic>., p.141, O.C. T. III. <italic>&quot;Du Contrat
						Social&quot;</italic>. IV, 8, p.464.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn10">
				<label>11</label>
				<p>ROUSSEAU<italic>, loc. cit.</italic></p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn11">
				<label>12</label>
				<p>ROUSSEAU<italic>,</italic> 1978, p.141, O.C. T. III. <italic>&quot;Du Contrat
						Social&quot;</italic>. IV, 8, p.464.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn12">
				<label>13</label>
				<p>ROUSSEAU, 1978, p.140, O.C. T. III. <italic>&quot;Du Contrat
						Social&quot;</italic>. IV, 8, p.463.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn13">
				<label>14</label>
				<p><italic>Ibid.</italic>, p.141-142, O.C. T. III. <italic>&quot;Du Contrat
						Social&quot;</italic>. IV, 8, p.465.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn14">
				<label>15</label>
				<p> ROUSSEAU, 1978, p.140, O.C. T. III. <italic>&quot;Du Contrat
						Social&quot;</italic>. IV, 8, p.463.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn15">
				<label>16</label>
				<p>ROUSSEAU, 1978, p.143, O.C. T. III. <italic>&quot;Du Contrat
						Social&quot;</italic>. IV, 8, p.467.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn16">
				<label>17</label>
				<p>Embora a religião civil não seja objeto deste artigo, há que destacar a
					observação de Bachofen (2011, p.11) a respeito do tema, a partir de Blaise
					Bachofen, o qual: &quot;[...] estima antes que a religião civil deve neutralizar
					o fanatismo do cristianismo, que adquiriu historicamente a forma da 'religião do
					sacerdote' e que parasita e incomoda constantemente o corpo político. Como são
					insatisfeitas as soluções de Hobbes e de Locke, convém institucionalizar a
					tolerância e fazer disso um dogma teológico, afirmado pelo Estado, o qual todas
					as religiões em vigor deverão admitir, de modo que vivam em paz com todas&quot;
					Ver também: Bachofen (2011, p.37-62). </p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn17">
				<label>18</label>
				<p> ROUSSEAU, 1978, p.143, O.C. T. III. <italic>&quot;Du Contrat
						Social&quot;</italic>. IV, 8, p.467.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn18">
				<label>19</label>
				<p>A posição irredutível na defesa da ordem e sua simpatia pela monarquia, como diz
					Ribeiro, &quot;cada vez mais pessoal e menos expressa nas conclusões de suas
					obras [...] o aproximam [Hobbes] da 'direita', e seu recurso ao contrato e aos
					interesses como fundamento para a teoria política, [afastam-no] do direito
					divino, situam-no mais perto de uma posição republicana, ou seja, de um
					'centro', é [portanto] na religião que nosso autor mais se achega ao que
					poderíamos chamar de 'esquerda' de seu tempo&quot;. (RIBEIRO, 2006, p.20).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn19">
				<label>20</label>
				<p>Ver também: HILL (1977; 1987; 2001) e OSTRENSKY (1997).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn20">
				<label>21</label>
				<p>ROUSSEAU, 1978, p.143, O.C.T. III. <italic>&quot;Du Contrat
					Social&quot;</italic>. IV, 8, p.467-468.</p>
			</fn>
		</fn-group>
	</back>
</article>
