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				<journal-title>Reflexão</journal-title>
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					<subject>Articles</subject>
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				<article-title>Esoterismo e astrologia na Nova Era: do ocultismo à
					psicologização</article-title>
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					<trans-title><italic>Esotericism and astrology in the New Age: From occultism to
						psychologization</italic></trans-title>
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					<institution content-type="original">Pontifícia Universidade Católica de São
						Paulo, Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião, Departamento de
						Ciência da Religião. R. Ministro Godoy, 969, 4º andar, sala 4E-09,
						05015-000, São Paulo, SP, Brasil. E-mail:
						&lt;silasg@pucsp.br&gt;.</institution>
					<institution content-type="normalized">Pontifícia Universidade Católica de São
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						Religião</institution>
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					<corresp id="c1"><label>*</label>R. Ministro Godoy, 969, 4º andar, sala 4E-09,
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				<season>Jul-Dec</season>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>O artigo procura levantar algumas questões relacionadas à presença da astrologia,
					entre outras artes divinatórias, no Movimento Nova Era. A Nova Era faz uma
					releitura do esoterismo ocidental e considera as artes divinatórias como
					disciplina-chave para a revelação de uma sabedoria oculta passível de ser
					desvelada. A Nova Era entende por esoterismo tudo aquilo que está no interior do
					indivíduo, ainda de forma oculta, e que é passível de ser desvendado e alcançado
					mediante práticas, procedimentos e estudos. Embora não se possa considerar a
					Nova Era como parte do esoterismo em sentido estrito, deve a este grande parte
					de seus conteúdos e características fundamentais. Muitas vezes vista como uma
					simplificação comercial de conhecimentos muito mais profundos, a Nova Era pode
					ser compreendida como uma vertente e estágio de desenvolvimento do esoterismo
					ocidental. A astrologia recebe dentro da Nova Era uma conotação diferenciada,
					tida como astrologia psicologizada, voltada ao estudo das características e
					potencialidades do indivíduo novaerista. </p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title><italic>Abstract</italic></title>
				<p><italic>The aim of the article is to discuss some questions related to the
						presence of astrology and other divination arts in the New Age movement. The
						New Age is a reinterpretation of Western esotericism and considers
						divination as a key discipline to provide the revelation of an occult
						wisdom. The New Age understands esotericism as everything that is within the
						individual, although in an occult form, and that is likely to be unveiled
						and reached through practices, procedures and studies. Though we cannot
						consider the New Age as part of esotericism in the strict sense, we owe much
						of its contents and main characteristics to it. It is often seen as a
						commercial simplification of deeper knowledge and the New Age movement can
						be understood as a stage of development of Western esotericism. In the New
						Age, Astrology receives a different connotation. It is similar to
						psychologized astrology devoted to the study of the characteristics and
						potential of the new age individual.</italic></p>
			</trans-abstract>
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				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Astrologia</kwd>
				<kwd>Esoterismo</kwd>
				<kwd>Nova Era</kwd>
				<kwd>Ocultismo</kwd>
				<kwd>Psicologização da religião</kwd>
			</kwd-group>
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				<title><bold>
						<italic>Keywords</italic>
					</bold>: </title>
				<kwd><italic>Astrology</italic></kwd>
				<kwd><italic>Esotericism</italic></kwd>
				<kwd><italic>New Age</italic></kwd>
				<kwd><italic>Occultism</italic></kwd>
				<kwd><italic>Psychologizing of religion</italic></kwd>
			</kwd-group>
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		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução</title>
			<p>A Nova Era é muitas vezes denominada pelos próprios praticantes como um esoterismo.
				Embora não se possa considerar a Nova Era como parte do esoterismo em sentido
				estrito, deve a este grande parte de seus conteúdos e características fundamentais.
				A astrologia e demais artes divinatórias sempre fizeram parte do esoterismo
				tradicional e no interior da Nova Era ganham uma dimensão relevante. Oráculos de
				diferentes tradições são utilizados livremente não apenas para adivinhar o futuro,
				mas principalmente para desvelar o que está oculto. Uma ênfase é posta no sentido do
				oráculo como instrumento de autoconhecimento. O Movimento Nova Era empreendeu uma
				continuação e divulgação do pensamento esotérico e possibilitou a emergência da
				astrologia erudita a um público mais amplo. A astrologia permite efetivar uma das
				grandes metas do Movimento Nova Era em relação à constituição de uma nova ciência,
				que concilia espiritualidade e racionalidade. Um dos usos mais corriqueiros da
				astrologia entre os praticantes da Nova Era é a denominada astrologia psicológica,
				tida como instrumento de autoconhecimento e aperfeiçoamento do ser.</p>
			<p>Este artigo traz primeiramente uma reflexão sobre a relação da Nova Era com o
				esoterismo ocidental e com o ocultismo em geral. Em seguida, elabora algumas
				considerações acerca das artes divinatórias na Nova Era e finaliza analisando
				especificamente a astrologia e seu papel central no interior desse movimento.</p>
			<sec>
				<title>Nova Era e Esoterismo</title>
				<p>A relação entre a Nova Era e o esoterismo é bastante estreita. Para alguns, o
					termo esotérico passou a ser utilizado como adjetivo das práticas, pensamentos e
					produtos da Nova Era. Para outros, no entanto, a Nova Era apenas vulgarizou o
					termo esoterismo, nada tendo a ver com este último. Torna-se importante,
					portanto, verificar as diferenças e conexões entre essas duas instâncias.</p>
				<p>O esoterismo pode ser definido como uma forma de pensamento com a qual a
					realidade é concebida de uma maneira específica (<xref ref-type="bibr" rid="B2"
						>FAIVRE, 1994</xref>). Há muitas controvérsias em relação ao termo
					esotérico. Para alguns, inclusive para pensadores do próprio movimento esotérico
					do século XIX, como Madame Blavatsky, indicava um conhecimento interior, uma
					espécie de doutrina secreta somente acessível aos iniciados. No entanto, essa
					aura de oculto serviu mais como uma maneira de autovalorização do que como
					efetiva restrição de acesso. Faivre lembra que muitos dos conhecimentos tidos
					como esotéricos, citando o exemplo da alquimia, estavam amplamente disponíveis
					por meio de uma literatura abundante. Há outra conotação do termo esotérico,
					muito mais comum: serve para designar um conhecimento essencial que só pode ser
					atingido por meio de técnicas apropriadas. Trata-se de um grau superior de
					conhecimento que estaria acima das diferentes escolas ou tradições, uma espécie
					de unidade transcendental. Quando utilizado nesse sentido, o discurso esotérico
					vem sempre carregado de enorme subjetividade. Faivre designa uma terceira
					acepção, mais geral e precisa: trata-se de uma forma de pensamento, que reúne
					tendências e escolas distintas com algumas características comuns.</p>
				<p>O termo esotérico já era utilizado desde a Antiguidade. No entanto, o uso de
					esoterismo como substantivo a designar um conjunto ou forma de conhecimento é
					bem mais recente. Somente no século XIX é que passou a ser amplamente utilizado.
					Deve-se a Eliphas Levi (1810-1885) a divulgação do termo em conjunto ao de
					ocultismo. Se o esoterismo é mais compreendido como uma forma de pensamento, o
					ocultismo seria mais uma forma de ação ou conjunto de práticas legitimado pelo
					esoterismo. Nesse sentido não é possível confundir os dois termos, embora muitas
					vezes sejam utilizados como sinônimos, principalmente no universo da Nova
					Era.</p>
				<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B2">Faivre (1994</xref>), há quatro elementos
					fundamentais que caracterizam o esoterismo. Eles são importantes de serem
					destacados inclusive para poder compreender o papel do esoterismo na Nova Era. O
					primeiro desses elementos apontados é o da correspondência: há uma
					interdependência universal entre o todo e as partes, entre o macro e o
					microcosmos. O segundo elemento diz que a natureza é viva, ou seja, é rica em
					revelações de todos os tipos e pode ser lida como um livro. Dessa natureza
					participam não apenas as coisas empíricas e objetivas, valorizadas pela ciência
					moderna, mas também os elementos espiritualistas e subjetivos. A terceira
					característica do esoterismo diz respeito à imaginação e às mediações. O uso de
					mediações, como rituais, signos e imagens, permite alcançar o conhecimento
					pleno. Por fim, a última característica do esoterismo diz respeito à experiência
					da transmutação. É essa que permite ir além de uma mera espiritualidade
					contemplativa. Trata-se de um segundo nascimento, uma modificação profunda no
					indivíduo.</p>
				<p>Além dessas características fundamentais, <xref ref-type="bibr" rid="B2">Faivre
						(1994</xref>) aponta ainda duas outras secundárias, que podem ou não estar
					presentes num determinado conhecimento esotérico. No entanto, entende-se que
					para a Nova Era essas duas características assumem importância crucial. A
					primeira delas diz respeito à concordância entre duas ou mais tradições
					diferentes na expectativa de se obter uma iluminação ou sabedoria de qualidade
					superior. Trata-se de se chegar a um conhecimento perene, uma tradição
					primordial que estaria acima das diferenças. A segunda dessas características
					trata da transmissão do conhecimento. A isso corresponde a questão da
					autenticidade e validade do conhecimento, bem como a maneira como e por quem
					esse conhecimento é transmitido.</p>
				<p> De certo modo, a Nova Era não pode ser englobada no interior das correntes
					esotéricas. No entanto, há inúmeras ligações possíveis de serem percebidas entre
					essas duas instâncias. <xref ref-type="bibr" rid="B5">Hanegraaff (1996</xref>)
					ressalta que é bastante comum, tanto para os <italic>insiders</italic> como para
					os <italic>outsiders</italic>, estabelecer associações de certos movimentos
					antigos da tradição esotérica, como a antroposofia, por exemplo, com a Nova Era.
					As correntes esotéricas tradicionais são claramente demarcadas e possuem
					histórias próprias, e não são dependentes do Movimento Nova Era. Em geral, essas
					histórias antecedem em muito o período em que a Nova Era começou a ser
					difundida. Outro elemento importante é que a maioria dessas correntes esotéricas
					não quer se ver confundida com o rótulo &quot;Nova Era&quot;, principalmente
					pela conotação comercial e superficial desta última. No entanto, o simples fato
					de tanto os de dentro como os de fora da Nova Era fazerem essa associação é um
					elemento de grande importância. Isso indica possíveis afinidades entre as
					correntes esotéricas e a Nova Era. Além disso, as seções de Nova Era das
					livrarias passaram a ser incrementadas com a literatura esotérica. De alguma
					maneira isso acarretou um impulso na divulgação das próprias correntes
					esotéricas. Além do mais, convém ressaltar que muitos dos adeptos da Nova Era,
					principalmente aqueles mais voltados à seriedade dos estudos ocultos, acabaram
					frequentando e se vinculando a vários desses grupos esotéricos. Se não há uma
					ligação indistinguível, o que é o caso, a relação parece ser de simbiose, pois
					ambos os lados se alimentam dela.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>As correntes esotéricas e a Nova Era</title>
				<p>As origens da Nova Era podem ser traçadas desde alguns anos após o final da
					Segunda Guerra Mundial. Grupos formados em torno da crença em seres
					extraterrestres e da visita de Objetos Voadores Não Identificados (OVNI) na
					Terra foram influenciados por pensamentos esotéricos de várias procedências.
						<xref ref-type="bibr" rid="B6">Hanegraaff (2005</xref>) destaca os escritos
					da teósofa cristã Alice Bailey (1880-1949) e também a metafísica antroposófica
					do visionário alemão Rudolf Steiner (1861-1925) como inspiradores desses
					pioneiros. A Nova Era em seu início, denominada por Hanegraaff de Nova Era em
					sentido estreito, tinha forte inclinação milenarista. Uma oração, canalizada por
					Alice Bailey, denominada 'The Great Invocation', e que tem influência até os
					dias atuais, inspirou esses pioneiros com uma espécie de milenarismo cristão
					ocultista. Essa perspectiva milenarista desses grupos de cultuadores de OVNI foi
					adotada pelas comunidades alternativas que começaram a surgir nos anos 1960,
					inclusive Findhorn, na Escócia, talvez o grande ícone da Nova Era. A crença
					central, ainda em sintonia com a &quot;grande invocação&quot;, era de que essas
					comunidades apresentavam um novo jeito de viver, harmonizando as leis da
					natureza e o mundo espiritual. Acreditavam que esses seriam pontos irradiadores
					de onde partiria um grande movimento transformador e o advento de uma nova era.
					Um grande pensador expoente de Findhorn, David Spangler, 1945-, também
					considerado um dos iniciadores da Nova Era, fora discípulo de Alice Bailey. O
					início da Nova Era pode ser caracterizado por essa metafísica ocultista,
					influenciada especialmente pela teosofia e pela antroposofia de Steiner. Havia
					uma forte ênfase nos valores comunitários e numa moralidade calcada no amor
					altruísta e no serviço a toda humanidade, em busca de novos momentos que
					possibilitariam a salvação do planeta.</p>
				<p>Noções então sistematizadas no século XIX por Helena Blavatsky (1831-1891)
					influenciaram sobremaneira esse início da Nova Era, mas mantêm uma espécie de
					pano de fundo até os dias atuais. Entre elas podem-se destacar: a formação do
					cerne de uma irmandade universal da humanidade (sem dúvida mais presente no
					início da Nova Era, mas não menos presente hoje); o estudo das leis naturais e
					das forças ocultas do ser humano; a busca de uma espiri-tualidade oriental como
					sabedoria primordial; a síntese entre ciência, religião e filosofia; a
					popularização da ideia de carma.</p>
				<p>Outras correntes esotéricas também exerceram forte influência na constituição da
					Nova Era. Aleister Crowley (1875-1947), fundador da <italic>Hermetic Order of
						the Golden Dawn</italic>, foi outro pensador esotérico com forte influência
					no interior do movimento. Outras correntes esotéricas de destaque para a Nova
					Era foram o gnosticismo, o mesmerismo, a <italic>Saint Germain Community, The
						New Thought</italic>, este último seguindo os ensinamentos de Phineas Quimby
					(1802-1866). A interpretação do mesmerismo realizada por Quimby pode ser
					considerada como matriz da crença Nova Era segundo a qual cada indivíduo cria a
					sua própria realidade (<xref ref-type="bibr" rid="B5">HANEGRAAFF, 1996</xref>).
					Seguidores de Quimby disseminaram seus ensinamentos, inclusive o da cura da
					mente, precursora da filosofia do pensamento positivo. </p>
				<p>Outra forte influência esotérica na formação das ideias e crenças da Nova Era
					deve ser atribuída a Carl Jung (1875-1961). Esse pensador psicanalista foi um
					dos maiores responsáveis pela inclinação psicológica da religião Nova Era. Jung
					teve, ao lado de seus estudos e pesquisas na área terapêutica, uma intensa
					incursão pelo mundo do esoterismo, principalmente por meio do pensamento
					alquimista e ocultista de Paracelso, da Rosacruz e também da teosofia. A ligação
					entre religião e ciência, tão propalada pela Nova Era, tem em Jung um de seus
					mais fortes pilares de sustentação. </p>
			</sec>
			<sec>
				<title>A Nova Era e as características do esoterismo</title>
				<p>Para a Nova Era, o termo esoterismo recebe a conotação de tudo aquilo que está no
					interior do indivíduo, ainda de forma oculta, e que é passível de ser desvendado
					e alcançado mediante práticas, procedimentos e estudos, cabendo ao indivíduo a
					tarefa da descoberta. Ao contrário de se referir a uma tradição histórica,
					passou a significar um tipo de religião que tem sua base em elementos subjetivos
					focados na experiência interior (<xref ref-type="bibr" rid="B5">HANEGRAAFF,
						1996</xref>).</p>
				<p>As possibilidades do desenvolvimento do esoterismo Nova Era já estavam dadas
					desde a constituição do esoterismo ocidental, que trouxe as contribuições do
					neopitagorismo, do estoicismo, do neoplatonismo e do hermetismo, mas incorporou
					a ênfase na natureza e a preocupação em desvendar os segredos desse mundo. Esse
					processo de secularização, como demonstrou <xref ref-type="bibr" rid="B5"
						>Hanegraaff (1996</xref>), foi fundamental para o posterior surgimento da
					Nova Era. Os estudos esotéricos pós Renascença aprofundaram a perspectiva de uma
					similaridade entre neoplatonismo, hermetismo e cristianismo, levando ao
					surgimento da ideia de que todos faziam parte de uma mesma tradição. Essa ideia
					desembocou, posteriormente, na formulação da <italic>Philosophia
						Perennis</italic> e, no século XIX, ganhou força com a redescoberta das
					tradições orientais. Esse princípio de um conhecimento perene, acima das
					diferenças das tradições, foi adotado pela Nova Era como um de seus princípios
					básicos. O <italic>Corpus Hermeticum</italic>, atribuído a Hermes Trismegisto,
					desem-penhou papel fundamental no esoterismo ocidental, principalmente na sua
					ênfase na gnose intuitiva e na atitude positiva do ser humano em relação ao
					cosmos. Segundo Hanegraaff (1996) esses temas são extremamente similares àqueles
					propalados por influentes autores da Nova Era, como Shirley MacLaine, Jane
					Robert e Stanislav Grof. A esse <italic>Corpus Hermeticum</italic> foram
					acrescentados elementos da magia, inclusive da cabala cristã. A ligação da
					tradição esotérica com a magia propiciou as condições históricas de toda uma
					visão mágica do mundo presente na Nova Era, além de ter fornecido as bases para
					o desenvolvimento do neopaganismo, uma de suas principais vertentes. </p>
				<p>O esoterismo ocidental é, dessa feita, a manifestação de um sincretismo religioso
					baseado numa cosmologia que envolve as descobertas da natureza, a ciência, a
					filosofia e a dimensão espiritual religiosa. Essa característica permanecerá
					incólume na religião Nova Era.</p>
				<p>Destarte, fica evidente de que a Nova Era pode ser entendida como uma expressão
					do esoterismo ocidental. <xref ref-type="bibr" rid="B5">Hanegraaff (1996</xref>)
					aponta as seguintes concordâncias: o paradigma holográfico, relação entre o
					macro e microcosmos, sincronicidade e possibilidade de adivinhação, se ajustam
					às leis das correspondências (primeira das características do esoterismo
					definidas por Faivre); a natureza está impregnada pela energia divina,
					possibilitando uma magia natural; a imaginação e a mediação são ricamente
					perceptíveis por meio dos rituais, imagens e simbolismos da Nova Era; a
					importância atribuída à individuação e o processo interno místico de purificação
					e regeneração parecem exemplificar os elementos de transmutação espiritual. O
					próprio xamanismo, tão valorizado na Nova Era, pode ser compreendido como uma
					forma de transmutação. Além dessas características fundamentais do esoterismo, a
					Nova Era apresenta, ainda, a ideia de concordância, quando coloca juntas as mais
					diferentes tradições, e a da transmissão a partir de uma fonte confiável. Nesse
					último caso, dada a importância dada à divindade interior e sabedoria dentro de
					cada indivíduo, as figuras do mestre e discípulo não são tão evidentes. Há uma
					ênfase em que o indivíduo percorra, por si mesmo, as experiências que o levarão
					à evolução espiritual. Na Nova Era dá--se importância aos chamados
					facilitadores, aqueles que já passaram pela experiência e podem auxiliar os
					demais para que façam suas viagens interiores.</p>
				<p>Além das características do esoterismo ocidental apresentadas por Faivre, e
					perceptíveis na Nova Era, <xref ref-type="bibr" rid="B5">Hanegraaff
					(1996</xref>) aponta outros elementos que podem complementar aquela visão, como
					o processo de secularização e racionalização. Por um lado, o desencantamento do
					mundo (no sentido weberiano) possibi-litou o fortalecimento de uma cosmologia
					científica, favorável ao progresso científico e à mo-dernidade, garantindo as
					bases práticas da Nova Era. Por outro lado, a influência do Roman-tismo teria
					garantido a ideia das correspondências e da natureza viva.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>O esoterismo na atualidade</title>
				<p>Pela obra de <xref ref-type="bibr" rid="B14">Torre <italic>et al</italic>.
						(2013</xref>), pode-se ver que a Nova Era na América Latina vai muito além
					da conexão com o esoterismo. Essa é uma característica geral da Nova Era e não
					se restringe apenas ao continente latino-americano. Principalmente após os anos
					1980, a Nova Era ganhou uma conotação muito mais ampla e aberta à sociedade.
					Para alguns, tal fato representou a perda de princípios esotéricos fundamentais
					e teve como consequência a comercialização barata e superficial de elementos
					tidos como esotéricos. O próprio termo acabou virando sinônimo de qualquer tipo
					de religiosidade alternativa às tradicionais. Espaço esotérico (MANGNANI, 1999)
					passou a significar qualquer empreendimento que vende desde pequenas imagens de
					gnomos, cristais ou livros Nova Era, até abrigar as instituições mais
					tradicionais responsáveis pela divulgação dos conhecimentos de escolas
					esotéricas. Em outras palavras, o termo está desgastado. Mesmo a mídia passou a
					tratar esoterismo, ocultismo e misticismo como sinônimos dessa comercialização
					rápida da Nova Era.</p>
				<p>No entanto, o próprio <xref ref-type="bibr" rid="B9">Magnani (1999</xref>; 2000)
					lembra que nesse meio há pessoas bastante sérias e interessadas no
					desenvolvimento de um conhecimento esotérico mais profundo, como também há
					aqueles que se voltam apenas aos produtos da moda e de comercialização rápida.
					Um simples ponto, de caráter claramente comercial, pode oferecer a venda de
					produtos baratos, como um jogo de runas do tipo &quot;interprete você
					mesmo&quot;, e também promover palestras com pessoas capacitadas num
					conhecimento esotérico que poderiam propiciar o ingresso de algum cliente no
					mundo do esoterismo. Há, também, aqueles espaços destinados às sociedades
					iniciáticas que se caracterizam por apresentar um sistema doutrinário baseado em
					uma tradição filosófica e/ou religiosa bem definida. Mesmo nesses espaços, no
					entanto, é possível perceber a comercialização de produtos outros que vão além
					dos livros. Além disso, praticamente todos dispõem de <italic>sites</italic> de
					internet que não apenas servem para divulgar eventos, como também promover a
					venda de seus serviços.</p>
				<p>A variedade das escolas esotéricas e iniciáticas é extremamente ampla, e seria
					praticamente impossível de se apontar sequer as principais delas. Muitas possuem
					filiais nos principais países do continente latino-americano, algumas delas com
					intercâmbios e conexões mais estreitas, outras com autonomia bastante acentuada.
					De alguma maneira, as principais correntes esotéricas possuem ramificações nos
					países latino-americanos e estão, ine-vitavelmente, conectadas à Nova Era. Como
					afirmado anteriormente, o público participante faz parte do circuito Nova Era de
					errância e de busca constante (<xref ref-type="bibr" rid="B1">AMARAL,
						2000</xref>). Podem permanecer por pouco tempo em cada uma dessas agências,
					bem como podem se tornar membros fiéis e percorrer todo o caminho iniciático ali
					proposto.</p>
				<p>A Sociedade Teosófica, criada em 1875 por Helena Blavatsky, está presente em
					muitas das grandes cidades latino-americanas, com Buenos Aires, Bogotá, Lima,
					Santiago, São Paulo, Rio de Janeiro, cidade do México e muitas outras. A
					Eubiose, fundada em 1921 por Henrique José de Souza (1883-1963), seguidor da
					obra de Blavatsky, tem filiais em muitas cidades no Brasil, Chile e Venezuela,
					além de outros países fora do continente. A Sociedade Antroposófica, criada por
					Rudolf Steiner, presente também em muitos países, possui várias ramificações em
					diferentes áreas, como educação e saúde. O mesmo poderia ser afirmado para
					várias outras grandes escolas esotéricas, como a Ordem Rosacruz, a Ordem
					Hermética Golden Dawn, a Fraternidade Saint Germain etc. Ainda em relação às
					disciplinas básicas do esoterismo, convém lembrar a intensa relação da Nova Era
					com a astrologia e a magia. Do mesmo modo já então apresentados, esses elementos
					são vivenciados em diferentes graus de intensidade e profundidade. É possível
					passar vários anos estudando astrologia em alguma grande escola ou aprender a
					ler carta natal em um seminário de final de semana e sair, logo em seguida,
					oferecendo serviços astrológicos a qualquer interessado.</p>
				<p>Mesmo que os mais puristas não concordem, a Nova Era representa um estágio do
					eso-terismo. Secularizado, pauperizado e palatável às mais diferentes
					exigências, é um retrato típico do momento sociocultural.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>As práticas divinatórias na Nova Era</title>
				<p>As práticas divinatórias são uma constante no mundo da Nova Era. Inseridas no
					conjunto do ocultismo, são percebidas como instrumentos capazes de fazer
					desvelar tudo aquilo que está oculto, permitindo ao sujeito que consulta
					encontrar sua verdadeira natureza e destino. O desvelamento do destino é
					compreendido, pelos praticantes da Nova Era, não como algo imutável, mas como
					uma oportunidade de enxergar as possibilidades de realização do ser (<xref
						ref-type="bibr" rid="B4">GUERRIERO, 2002</xref>).</p>
				<p>As práticas divinatórias, também chamados jogos divinatórios ou oráculos, dizem
					respeito a todo tipo de meio ou instrumentação utilizado para desvendar as
					supostas verdades ocultas. Caracterizam-se como uma maneira de adquirir
					informações sobre o futuro e o desconhecido, não acessíveis pelos canais mais
					convencionais de comunicação, como a fala e o discurso racional (<xref
						ref-type="bibr" rid="B16">ZUESSE, 2005</xref>). </p>
				<p>A Nova Era elegeu, ao longo do tempo, algumas práticas divinatórias como
					preferenciais e mais completas, como a astrologia e o tarô. Muitas outras, no
					entanto, têm suas origens nos mais distantes contextos culturais e sofreram o
					processo de ressignificação característico da Nova Era. Muitas vezes
					simplificadas, essas práticas são utilizadas e abandonadas à medida que os
					adeptos aderem ou não, como as Runas vikings, o <italic>I Chig</italic> e a
					numerologia. Muitas dessas práticas Nova Era se encontram afastadas de seus
					mitos de origem, como é o caso do jogo de búzios. A mitologia de Ifá, originária
					da tradição africana Iorubá, já havia sido modificada ao longo do tempo pelo
					processo de constituição do candomblé no Brasil e em outros países da diáspora
					africana, mas foi bastante simplificada e pasteurizada no universo Nova Era, no
					qual a leitura dos búzios se apresenta ao lado de inúmeras outras práticas
					divinatórias sem qualquer relação entre si. A recorrência a uma tradição mítica,
					mesmo que distante, é ins-trumento importante da Nova Era e funciona como
					instância legitimadora desses discursos (<xref ref-type="bibr" rid="B9">MAGNANI,
						1999</xref>). </p>
				<p>Um exemplo bastante interessante é o do tarô. A leitura dessas cartas é tida, no
					meio Nova Era, como um instrumento bastante poderoso de desvelamento do oculto
					e, principalmente, de autoconhecimento. As livrarias especializadas na
					literatura Nova Era possuem, em geral, uma seção especializada em livros sobre
					tarô. <italic>Sites</italic> da internet divulgam o tarô a qualquer interessado,
					e as consultas ao tarô guardam enorme sucesso no meio. Em suma, na Nova Era o
					tarô é reconhecido com grande seriedade e como um forte instrumento aglutinador
					e potencializador de desvelamento da realidade oculta. O mito criado em torno do
					tarô coloca-o no interior de uma sabedoria milenar e profunda. No entanto, a
					origem do tarô é bem mais prosaica. Surgiu em meados do século XV na Europa como
					um jogo de baralho. Somente no século XVIII é que adquiriu uma conotação de
					adivinhação e no final do século XIX passou a fazer parte do cerne do esoterismo
					moderno. Na Nova Era, o tarô chegou a partir da divulgação em larga escala do
					esoterismo ocidental.</p>
				<p>Os termos artes, jogos ou práticas divinatórias vêm de divinação. O termo
					&quot;divinação&quot; está ligado particularmente ao verbo divinar, ou seja,
					tornar algo divino, não sendo, porém, esse o sentido de uso corrente. Segundo
						<xref ref-type="bibr" rid="B8">Karcher (1998</xref>), divinação revela
					aquilo que está oculto através de meios nem sempre racionais. Faz isso por meio
					de algo considerado pelos praticantes como de inspiração divina (deuses,
					espíritos, anjos, demônios) ou por meio de arquétipos. Os adeptos da Nova Era
					utilizaram o termo intuição para designar o processo de tomada de consciência
					das ditas verdades ocultas. Além disso, identificam essa intuição com uma
					possível ligação com as forças, ou pelo termo que é mais frequentemente
					utilizado, energias superiores. </p>
				<p>O adivinho, ou <italic>homo divinus</italic>, é aquele a quem os deuses
					concederam o dom de adivinhar. Na Nova Era, no entanto, seguindo a lógica
					corrente do meio, esse adivinho pode ou não ser um agente externo. É comum que o
					próprio sujeito consulente apreenda uns poucos princípios de algumas práticas
					divinatórias e pratique a si mesmo. Há aqueles que, inclusive, não as-sumem
					compromissos ou atitudes sem antes consultar um oráculo qualquer. O importante é
					que o adivinho estabeleça uma relação entre a estrutura social e o quadro de
					valores. O adi-vinho, para fazer um diagnóstico bem sucedido, deve estabelecer
					uma correspondência entre a vida do cliente, seus problemas, e os aspectos
					sociais mais amplos. Utiliza símbolos propo-sitadamente vagos e flexíveis,
					garantindo uma liberdade em suas interpretações (<xref ref-type="bibr" rid="B15"
						>TURNER, 1979</xref>).</p>
				<p>A divulgação do conhecimento místico e oculto das práticas divinatórias se dá
					basicamente por meio da literatura Nova Era sobre o tema, das vivências, dos
					cursos de cura duração e de <italic>sites</italic> da internet. O buscador pode,
					por si mesmo, entrar em contato com as técnicas e a sabedoria de cada prática
					divinatória e começar a praticar em si mesmo ou para seus próximos. Outro meio
					bastante comum é o da consulta oracular. Nessas, o consulente contrata os
					serviços de um adivinho mais ou menos respeitado, dependendo do seu prestígio no
					meio.</p>
				<p>Oráculos não são religião, mas são vistos como sagrados, místicos e participantes
					de uma &quot;esfera cósmica&quot;. Há um aspecto dos oráculos que evidencia sua
					dimensão mística. Sendo supostamente um instrumento de contato com o divino e
					com tudo aquilo que está oculto, a divinação responde, em parte, pela sede de
					transcendência dos sujeitos que a utilizam. O êxtase experimentado pelo adivinho
					e, de certa maneira, pelo consulente, consolida a sensação de distanciamento da
					realidade objetiva e visível, e de acesso a uma outra realidade, desta vez
					oculta e misteriosa.</p>
				<p>A Nova Era tem como um de seus princípios a ideia de que toda a realidade se
					encontra no interior de um grande <italic>holos</italic> (<xref ref-type="bibr"
						rid="B5">HANEGRAAFF, 1996</xref>). Nesses termos, o adivinho tem o poder de
					desvendar o oculto, pois tudo está interligado. Há uma indistinção entre o micro
					(o ser humano) e o todo (compreendido como toda a natureza, material e
					espiritual). A divindade é vista na Nova Era como uma propriedade do próprio
					ser. A divinação passa a ser encarada, com muita naturalidade, como uma via
					capaz de estabelecer uma conexão entre o indivíduo e o seu próprio deus
					interior. Essa nova mística não é aquela tradicional da entrega e a da
					contemplação silenciosa, mas a porta de entrada à sua verdade interior. </p>
				<p>Há uma confiança no poder das mancias e dos próprios adivinhos, no sentido de
					estabelecer, não uma comunicação com o sobrenatural, mas com aquilo que é tido
					como a mais profunda realidade natural, ou seja, a divindade existente dentro de
					cada um. </p>
				<p>Numa vida resignada, o indivíduo pode localizar as causas de um possível
					sofrimento na vontade de um deus externo, mas na Nova Era, deus está dentro de
					cada um. Não se deve esperar uma ajuda externa, ou que o adivinho descubra o
					devir já traçado para o consulente, mas abrir os canais e a percepção de como o
					indivíduo pode ajudar a si mesmo.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>Astrologia e Nova Era</title>
				<p>A astrologia ocupa lugar central no sistema de crenças e práticas da Nova Era. A
					própria origem do termo Nova Era pode ser compreendida como uma variação do
					termo &quot;Era de Aquário&quot;, utilizado principalmente nos anos 1960 e 1970.
						<xref ref-type="bibr" rid="B6">Hanegraaff (2005</xref>) define esse período
					como o de um <italic>Movimento Nova Era em sentido estrito</italic>. Muitas das
					características apresentadas naquele momento se assemelhavam a movimentos de
					culto e tinham como um de seus pontos de crença central a ideia de que o planeta
					estaria entrando numa nova era astrológica, a Era de Aquário. </p>
				<p>O termo &quot;Nova Era&quot; ainda não era utilizado como definição ou
					identificação de um movi-mento, o que somente vai acontecer numa etapa
					posterior, a partir dos anos 1980, definida por <xref ref-type="bibr" rid="B6"
						>Hanegraaff (2005</xref>) como 'Movimento Nova Era em sentido amplo'. Em um
					primeiro momento da Nova Era em um sentido estrito, o planeta Terra estaria
					entrando em um novo ciclo evolucionário que acarretaria um tipo de consciência
					espiritual superior. O velho mundo, dominado e regido pelo signo de peixes,
					estaria em ruínas e seria substituído por esse novo momento aquariano. <xref
						ref-type="bibr" rid="B3">Ferguson (1995</xref>) definiu esse momento como o
					de uma conspiração aquariana. A sociedade de então estaria passando por crises
					profundas e o próprio planeta sofreria grandes cataclismas, resultando num
					profundo colapso da civilização. Aquelas pessoas que estivessem conectadas aos
					novos valores seriam os líderes das transformações em rumo à Era de Aquário, um
					novo momento, uma nova era da humanidade passível de ser vivida em harmonia com
					as leis cósmicas do Universo.</p>
				<p>Numa perspectiva astrológica, as grandes eras estão relacionadas à inclinação do
					eixo terrestre em relação aos signos zodiacais. A cada dois mil anos,
					aproximadamente, o planeta entra numa nova era, regida por um novo signo. A Era
					de Peixes, que vingou entre o começo da era comum, com o nascimento de Jesus
					Cristo, e o momento atual, estaria fortemente marcada pela fé cristã e pelas
					religiões institucionalizadas. A política e a vida social foram dominadas pela
					autoridade centralizada, pelo dogmatismo, pelos conflitos e guerras. O momento
					atual representa a ruptura com os antigos valores e a mudança gradual para a Era
					de Aquário. É o momento de resgate da antiga sabedoria e da união entre a
					tecnologia e espiritualidade. Os seguidores da astrologia acreditam que esse
					momento propicia a har-monização, a paz e o crescimento espiritual.</p>
				<p>Mas a astrologia não é importante para a Nova Era apenas por essa questão de
					fundo. Um dos princípios básicos da Nova Era é o da psicologização da religião.
					Essa psicologização está fortemente ancorada na perspectiva de uma psicologia do
					inconsciente relaciona à astrologia, também chamada de astrologia psicológica.
					Outro fator a ser ressaltado é o da astrologia ter se popularizado antes mesmo
					da Nova Era e ser utilizada por esta como uma porta de entrada no mundo do
					esoterismo.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>A presença da astrologia no mundo da Nova Era e o esoterismo moderno</title>
				<p>A astrologia cumpre um papel de aparente aglutinação entre o simbolismo místico e
					a ciência empírica. Para muitos adeptos da Nova Era ela representa a perfeita
					união de saberes tão propalada e aguardada da Era de Aquário. Não é sem motivos
					que a astrologia se transformou numa face de ampla visibilidade da Nova Era, mas
					também numa prática bastante comum entre os novaeristas, possibilitando o
					surgimento de um amplo campo de atuação profissional para os novos
					astrólogos.</p>
				<p>Em praticamente todos os países da América latina por onde a Nova Era teve algum
					tipo de repercussão, surgiram a partir dos anos 1970 inúmeros serviços
					relacionados à astrologia. Entre eles podem-se destacar as escolas de astrologia
					erudita. Convém ressaltar que a astro-logia já estava popularizada através dos
					horóscopos publicados em jornais, mas o estudo de uma astrologia erudita
					representava uma iniciação no mundo esotérico. Surgiram institutos de
					astrologia, voltados ao estudo, pesquisa e ensino da disciplina; associações
					nacionais, como a Associação Brasileira de Astrologia, fundada em 1977; e também
					sindicatos de astrólogos, mostrando que essa é uma profissão que luta por um
					reconhecimento na sociedade. O Sindicato dos Astrólogos do Estado de São Paulo
					foi o primeiro do Brasil, fundado em 1980, e desde então luta pela representação
					legal da categoria perante os poderes públicos.</p>
				<p>Não tão oficial assim foi a proliferação de pequenas escolas e centros de estudos
					astrológicos espalhados por todas as grandes cidades. Muitos daqueles que se
					interessavam pelos valores propalados pela Nova Era foram buscar na astrologia
					um meio tido como eficaz para a realização do autoconhecimento e compreensão dos
					acontecimentos pessoais, sociais e mundiais. De acordo com uma pesquisa
					realizada por <xref ref-type="bibr" rid="B9">Magnani (1999</xref>) sobre o
					circuito neoesotérico na cidade de São Paulo, em muitos dos espaços voltados às
					práticas da Nova Era havia a oferta de cursos de astrologia ou de consultas
					astrológicas. Até o presente momento, a astrologia ocupa lugar destacado nos
					serviços ofertados no universo da Nova Era. O número de <italic>sites</italic>
					que divulgam conhecimentos astrológicos ou fazem referências à astrologia ou
					simplesmente oferecem consultas e serviços astrológicos é incomensurável.</p>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B13">Stuckrad (2007</xref>) lembra que as tradições
					astrológicas fazem parte da história ocidental há muito tempo. No entanto, essas
					tradições recebem influência dos momentos históricos em que estão inseridas,
					sofrendo transformações que acompanham as mudanças sociais e culturais mais
					amplas. Tal fato não poderia ser diferente em relação às mudanças sociais
					ocorridas a partir dos anos 1960. Para esse autor, tais mudanças possibilitaram
					o surgimento da astrologia moderna. Edgar <xref ref-type="bibr" rid="B11">Morin
						definiu esse momento como o retorno dos astrólogos (1972</xref>). A
					astrologia popular dos horóscopos de jornais continua seu sucesso, mas surge
					outra astrologia, erudita, relacionada a um público cada vez mais ávido por
					aprofundamento em outros saberes que não apenas os da racionalidade
					científica.</p>
				<p>O público voltado à Nova Era, principalmente no momento da Nova Era em sentido
					estrito dos anos 1960 e 1970, tinha um alto grau de escolaridade e
					posicionamento social. Isso foi uma constante nos diferentes países da América
					Latina por onde a Nova Era se fez presente, mesmo que em momentos um pouco
					diferentes daqueles apontados por <xref ref-type="bibr" rid="B6">Hanegraaff
						(2005</xref>). Conhecer um pouco da astrologia erudita significava sair da
					superficialidade oferecida pelos horóscopos dos jornais e revistas e entrar num
					mundo de um conhecimento esotérico, superior, mais profundo e de outra ordem.
					Por si mesmo, esse possibilitava um autoconhecimento e uma sabedoria esotérica
					que ia além dos limites da ciência moderna. Tal fato possibilitou, desde então,
					o enorme sucesso da astrologia nos meios da Nova Era. </p>
				<p>Nos dias atuais, mesmo diante daquelas características apontadas por <xref
						ref-type="bibr" rid="B6">Hanegraaff (2005</xref>) como de um Movimento Nova
					Era em sentido amplo, essa lógica se faz presente. As características do momento
					atual, como a maior preocupação com o desenvolvimento espiritual individual do
					que com o social e a comercialização dos valores e ideias da Nova Era, não
					diminuíram a importância e presença da astrologia. Pelo contrário, a divulgação
					de cursos, manuais e consultas astrológicas permanecem em alta. O campo de
					aplicação da astrologia não se restringe somente às pessoas. Há muitos
					astrólogos especializados na aplicação desse conhecimento a empresas e eventos
					específicos. Cartas natais são encomendadas por empre-sários que querem saber o
					melhor momento para empreender um determinado negócio. Astrólogos são contatados
					pelos meios de comunicação para interpretar eventos sociais. Não são poucos os
					profissionais da astrologia que se mantêm e vivem profissionalmente desses
					serviços. Tal fato significa que há um mercado expressivo que sustenta todas
					essas práticas e, em última instância, que a astrologia continua presente na
					vida dessas pessoas. </p>
				<p>A astrologia é uma disciplina central do esoterismo moderno. Segundo <xref
						ref-type="bibr" rid="B2">Faivre (1994</xref>), a astrologia compõe, junto à
					gnose, ao hermetismo, à magia e à alquimia, as formas de pensamento ou tradições
					do esoterismo. Tendo essa ligação forte com o esoterismo, não é de se estranhar
					que a astrologia tenha recebido tamanha importância no interior da Nova Era.</p>
				<p>A Nova Era não apenas teve forte influência do esoterismo como pode ser
					compreendida como um momento do desenvolvimento da vertente ocidental do
					esoterismo. O conhecimento esotérico, até então voltado para poucos, passou a
					ser divulgado mais abertamente e para um público mais amplo após os anos 1960.
					Para <xref ref-type="bibr" rid="B5">Hanegraaff (1996</xref>), essa mudança
					significou a passagem de uma atitude mais passiva dos movimentos esotéricos até
					então, para um posicionamento mais ativo em termos sociais, voltado à construção
					de uma nova sociedade. Ainda para esse autor, do ponto de vista intelectual, as
					ideias básicas da Nova Era têm origem no esoterismo ocidental moderno,
					representando uma espécie de secularização desse esoterismo. Embora decorrente
					do esoterismo tradicional, o pensamento dominante da Nova Era guarda algumas
					especificidades que são fundamentais para a compreensão da importância dada à
					astrologia. Uma delas é a possibilidade de arranjos entre, de um lado, o
					pensamento místico e esotérico e, de outro, uma visão científica desencantada.
					Outra, ainda, é a incorporação da moderna psicologia, principalmente por meio
					das obras de Jung.</p>
				<p>Em relação à primeira, a astrologia representaria a união cabal e perfeita do
					misticismo e da ciência moderna. Plena de mitologias e reconhecidamente um saber
					simbólico, a astrologia faria a conciliação com a ciência moderna na medida em
					que há uma correspondência com o posicionamento dos astros no firmamento, fato
					esse passível de ser comprovado empi-ricamente pela observação e registrado de
					maneira previsível nas efemérides. Embora haja muita divergência entre os
					astrólogos sobre como se efetiva a influência dos astros sobre os
					acontecimentos, a vida e a personalidade das pessoas, o fato é que a astrologia
					carrega uma &quot;aura&quot; de ciência. Em tempos em que a veracidade do
					conhecimento é dada pela ciência, e não simplesmente pela fé, esse fato passa a
					ser bastante relevante. Para os adeptos da Nova Era, a astrologia é científica. </p>
				<p>No entanto, a Nova Era critica a posição mecanicista da ciência moderna. A Nova
					Era anseia por novos paradigmas científicos, uma ciência que seja voltada,
					também, para outros saberes. Apoiados nas novas descobertas científicas,
					notadamente no campo da física das partículas, os adeptos da Nova Era logo
					perceberam um potencial a ser explorado. Esses novos paradigmas da ciência
					apontavam para uma imprevisibilidade e indeterminismo. A astrologia seria uma
					perfeita representante dessa nova ciência, uma nova aliança entre saberes. Por
					um lado, teria o apoio das observações astronômicas, tendo, inclusive,
					incorporado as descobertas dos novos planetas a partir do advento do telescópio.
					Por outro, traria o campo das indeterminações, visto que a astrologia sempre foi
					vista como uma ciência interpretativa dos astros, necessitando sempre da
					intuição do astrólogo.</p>
				<p>Para a Nova Era, essa ciência da astrologia representaria aquilo que se espera da
					nova ciência: é baseada em fatos (supostamente) verificáveis. Embora para os
					seus praticantes as efemérides astrológicas representem os fatos, hoje se sabe
					que o posicionamento dos astros não corresponde exatamente ao que é descrito em
					termos de signos zodiacais. A astrologia foi constituída a partir de uma visão
					geocêntrica, mas hoje se sabe que a visão que se tem dos planetas é distorcida,
					pois o movimento deles, inclusive da Terra, se dá em torno do Sol (visão
					heliocêntrica). Como os astrólogos não levam esse detalhe em consideração, a
					astrologia ainda é vista como uma ciência baseada em fatos verificáveis. </p>
				<p>Além disso, a astrologia postula uma correspondência entre o nível planetário e o
					nível terrestre a partir de analogias simbólicas, as quais só podem ser
					constituídas a partir da intuição do astrólogo. Desse ponto de vista, ela seria
					uma ciência que junta a sensibilidade e intuitividade ao conhecimento empírico
					racional.</p>
				<p>A correspondência entre os astros e a vida mundana se dá, para a Nova Era, a
					partir do princípio de que tudo está interligado. Essa visão holística, oriunda
					de correntes esotéricas, é a chave para a garantia da eficácia simbólica da
					astrologia.</p>
				<p>A astrologia esteve presente nas principais escolas esotéricas desde o final do
					século XIX. O Movimento Nova Era teve por base muitas dessas tradições. De
					maneira coerente ao processo empreendido pela Nova Era, esses conhecimentos
					foram sendo divulgados a um público cada vez mais amplo. A popularização dessas
					tradições em geral, e da astrologia em particular, levou a uma simplificação e a
					uma espécie de pasteurização desses conhecimentos. Embora se mantendo afastada e
					diferenciada da astrologia popular, a astrologia erudita da Nova Era significou
					a possibilidade de acesso a um público infinitamente mais amplo do que aquele
					das sociedades esotéricas.</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>A psicologização da astrologia</title>
				<p>A Nova Era pode ser entendida como uma psicologização da religião, a qual, por
					sua vez, tem uma forte relação com a astrologia. Esse processo pode ser
					compreendido como o esclarecimento de elementos religiosos, inclusive a
					divindade, por meio de estados de espírito, projeções da psique, emoções
					profundas, arquétipos etc. Os fenômenos esotéricos passaram a ser associados a
					aspectos psicológicos (<xref ref-type="bibr" rid="B5">HANEGRAAFF, 1996</xref>,
					p.224). Segundo Hanegraaff, produziu-se na Nova Era um duplo processo de
					psicologização da religião e sacralização da psicologia. </p>
				<p>A ideia, já formulada desde Feuerbach e Freud, de que os seres metaempíricos são
					criações humanas, fruto de projeções de conteúdos inconscientes, foi incorporada
					pela Nova Era. No entanto, a consequência ateística foi descartada, e Deus
					passou a ser visto como sendo parte integrante do <italic>self</italic>. Há uma
					tendência de compreender o cosmos como uma mente divina imanente, e a alma
					individual como uma parte, também perfeita, desse todo.</p>
				<p>A popularização da psicologia produziu um sincretismo entre ideias religiosas e
					deter-minadas formas da nova ciência psicológica, o que confundiu os limites
					entre conceitos de <italic>insight</italic> psicológico e desenvolvimento
					espiritual. Essa tendência, no entanto, dadas as ca-racterísticas dos valores
					esotéricos a ela subjacentes, pode apresentar aspectos positivos, na visão de
					Heelas. Como diz esse autor, &quot;em alguns países ocidentais as crenças em
					'vida interior' se tornaram certamente mais populares do que as crenças no
					teístico Deus pessoal do Cristianismo tradicional&quot; (<xref ref-type="bibr"
						rid="B7">HEELAS, 2008</xref>, p.5). </p>
				<p>O Movimento Nova Era incorporou preocupações relacionadas à vida interior dos
					sujeitos, como bem-estar emocional, autoestima, paz interior, equilíbrio,
					satisfação e completude. Ao valorizar essa dimensão do <italic>self</italic> e
					trazer como princípio a ideia de uma divindade interior que o indivíduo pode, e
					deve, despertar, abriu as portas para uma forte conotação psicológica em suas
					práticas e metas. Esse caminho espiritual da Nova Era é confundido com
					autoconhe-cimento. Em várias cidades brasileiras encontra-se uma infinidade de
					serviços de astrólogos que utilizam seus conhecimentos para o desvelamento das
					verdades interiores de seus clientes. <xref ref-type="bibr" rid="B12">Siqueira
						(2003</xref>) aponta vários grupos Nova Era da região de Brasília, que
					oferecem tratamentos e terapias voltadas à superação de problemas psicológicos
					por meio da busca do eu interior e da iluminação espiritual.</p>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B6">Hanegraaff (2005</xref>) afirma que Jung
					partilhava de uma perspectiva espiritual fortemente enraizada no esoterismo e
					nas correntes ocultistas, a qual possibilitou a apresentação da espiritualidade
					como uma forma de psicologia científica. Hanegraaff (1996) aponta ainda o
					Movimento do Potencial da Mente, surgido nos Estados Unidos no final do século
					XIX e que pregava ideias metafísicas sobre o poder de atração da mente e o
					pensamento positivo, como tendo exercido forte influência sobre a junção do
					ocultismo e da psicologia na espiritualidade Nova Era.</p>
				<p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B13">Stuckrad (2007</xref>), a astrologia foi
					ganhando cada vez mais uma dimensão voltada a questões individuais, resultando,
					na segunda metade do século XX, na consolidação de uma astrologia psicológica.
					Foi esse interesse privado da astrologia que garantiu a presença profissional de
					muitos astrólogos, agora ofertando leituras de cartas natais a pessoas em busca
					de autoconhecimento. Esse mesmo autor também imputa a Jung a responsabilidade
					por uma certa impregnação religiosa do psiquismo, o que, por um lado, sacralizou
					a psicologia e, por outro, psicologizou a religião. </p>
				<p>
					<xref ref-type="bibr" rid="B13">Stuckrad (2007</xref>) vai mais longe e afirma
					que a ligação entre a psicologia do inconsciente e a astrologia é tão intensa e
					evidente hoje que praticamente não se encontra uma escola astrológica que não
					recorra a sistemas fundamentais da psicologia para realizar seu trabalho de
					interpretação dos astros.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Conclusão</title>
			<p>A Nova Era surge a partir do esoterismo ocidental, simplificando seus conteúdos e
				possibilitando sua popularização a um público amplo. Nesse processo, considera as
				artes divinatórias como disciplina-chave para a revelação de uma sabedoria oculta,
				passível de ser desvelada. Mesclado com elementos da cultura contemporânea,
				notadamente oriundos do campo científico, o <italic>ethos</italic> Nova Era valoriza
				intensamente a dimensão individual. Percebe como esotérica uma sabedoria que está no
				interior do indivíduo ainda de forma oculta, e que é passível de ser desvendada e
				alcançada mediante práticas, procedimentos e estudos. </p>
			<p>Assim, a astrologia é ressignificada e compreendida como instrumento de evolução do
				ser. Recebe uma conotação diferenciada, tida como astrologia psicologizada, focada
				no estudo das características e potencialidades do indivíduo novaerista. No mundo da
				Nova Era deste começo de século XXI, a astrologia continua sendo utilizada como um
				dos principais instrumentos voltados ao autoconhecimento e que possibilitam o
				autodesenvolvimento do <italic>self</italic>. Consultar a carta natal permite ao
				indivíduo conhecer as particularidades ocultas de sua personalidade e de seus
				potenciais de desenvolvimento. Mais que querer saber sobre o futuro, os adeptos da
				Nova Era buscam, pela astrologia, encontrar os caminhos interiores que permitirão a
				elevação espiritual e a realização.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<ref-list>
			<title>Referências</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>AMARAL, L. <italic>Carnaval da alma</italic>: comunidade, essência e
					sincretismo na Nova Era. Petrópolis: Vozes, 2000. </mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>AMARAL</surname>
							<given-names>L.</given-names>
						</name>
					</person-group>
					<source><italic>Carnaval da alma</italic>: comunidade, essência e sincretismo na
						Nova Era</source>
					<publisher-loc>Petrópolis</publisher-loc>
					<publisher-name>Vozes</publisher-name>
					<year>2000</year>
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			</ref>
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