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				<journal-title>Reflexão</journal-title>
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				<publisher-name>Pontifícia Universidade Católica de Campinas</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.24220/2447-6803v41n2a3633</article-id>
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					<subject>Articles</subject>
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				<article-title>Migração, religião e políticas públicas: o caso dos
					haitianos</article-title>
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					<trans-title><italic>Migration, religion and public policies: The case of
						Haitians</italic></trans-title>
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						<surname>COUTINHO</surname>
						<given-names>Suzana Ramos</given-names>
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					<xref ref-type="aff" rid="aff1"><bold>
							<sup>1</sup>
						</bold>
					</xref>
					<xref ref-type="corresp" rid="c1"><sup>*</sup></xref>
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					<name>
						<surname>MARCELINO</surname>
						<given-names>Bernadete Alves de Medeiros</given-names>
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					<xref ref-type="aff" rid="aff1b"><sup>1</sup>
					</xref>
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					<label>1</label>
					<institution content-type="original">Universidade Presbiteriana Mackenzie,
						Centro de Educação, Filosofia e Teologia, Programa de Pós-Graduação em
						Ciências da Religião. R. da Consolação, 896, Consolação, 01302-907, São
						Paulo, SP, Brasil. Correspondência para/Correspondence to: S.R. COUTINHO.
						E-mail: &lt;sucoutinho@gmail.com&gt;. </institution>
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						Mackenzie</institution>
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					<institution content-type="original">Universidade Presbiteriana Mackenzie,
						Centro de Educação, Filosofia e Teologia, Programa de Pós-Graduação em
						Ciências da Religião. R. da Consolação, 896, Consolação, 01302-907, São
						Paulo, SP, Brasil. Correspondência para/Correspondence to: S.R. COUTINHO.
						E-mail: &lt;sucoutinho@gmail.com&gt;. </institution>
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					<corresp id="c1"><label>*</label>R. da Consolação, 896, Consolação, 01302-907, São
						Paulo, SP, Brasil. Correspondência para/Correspondence to: S.R. COUTINHO.
						E-mail: <email>&lt;sucoutinho@gmail.com&gt;</email>.</corresp>
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				<season>Jul-Dec</season>
				<year>2016</year>
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			<volume>41</volume>
			<issue>2</issue>
			<fpage>225</fpage>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative
						Commons</license-p>
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			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>Este artigo nasce da necessidade de um maior entendimento sobre as novas
					configurações do cenário social, político e religioso brasileiro frente ao
					crescimento da entrada de imigrantes em seu território. As expressivas
					transformações (econômicas, sociais, políticas, demográficas etc.) inseriram o
					país em um debate sobre a configuração de um novo contexto de migrações em seu
					território. Focando primeiramente no fato de ser um país emissor de população
					para países desenvolvidos, o Brasil se tornou aos poucos receptor expressivo de
					novas ondas migratórias. Diversas publicações sobre o assunto revelam que
					gradualmente o país consolidou fluxos entre nações, e essa consolidação tem se
					traduzido não somente em maior diversidade, mas também em maior complexidade do
					fenômeno migratório. O texto tem como objetivo discutir os diferentes aspectos e
					desdobramentos da religiosidade dos imigrantes haitianos que estão no Brasil,
					para tanto apresentando a situação atual desses imigrantes e o modo como o
					governo está criando/alterando/adaptando novas políticas públicas de forma que
					atenda às necessidades básicas dos indivíduos recém-chegados.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title><italic>Abstract</italic></title>
				<p><italic>The aim of the article is to offer a better understanding of the new
						configurations of the Brazilian social, political and religious scenario
						regarding the increase in the immigration movement. The relevant changes
						(economic, social, political, demographic, etc.) in the country have created
						a debate regarding the new context of migration. First, Brazil has a
						historical tradition of migration to developed countries and it is now
						gradually becoming a significant place for new migratory waves. Several
						publications on the subject reveal that the country has been gradually
						experiencing migration flows between countries, and this experience reflects
						not only in greater diversity but also increased complexity of migration.
						The aim is to discuss the different aspects and consequences of the
						religiosity of Haitian immigrants who have come to Brazil by discussing the
						current situation of these immigrants and how the government is
						creating/changing/adapting new policies to meet the basic needs of the
						newcomers.</italic></p>
			</trans-abstract>
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				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Haitianos</kwd>
				<kwd>Identidade</kwd>
				<kwd>Migração</kwd>
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				<title><italic>Keywords:</italic></title>
				<kwd><italic>Haitians</italic></kwd>
				<kwd><italic>Identity</italic></kwd>
				<kwd><italic>Migration</italic></kwd>
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			</counts>
		</article-meta>
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		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução</title>
			<p>Este artigo nasce da necessidade de um maior entendimento sobre as novas
				configurações do cenário social, político e religioso brasileiro frente ao
				crescimento da entrada de imigrantes em seu território. Nas últimas duas décadas, o
				interesse no estudo das migrações internacionais se ampliou em razão da relevância
				(inclusive numérica) dos deslocamentos populacionais em contexto de globalização,
				&quot;apesar do aparente paradoxo dos particularismos étnicos e culturais [...] que
				aponta para as articulações entre o 'global' e o 'local'&quot; (<xref
					ref-type="bibr" rid="B24">SANTOS <italic>et al</italic>., 2014</xref>, p.11). </p>
			<p>Como categoria de análise, esta pesquisa se une à de outros estudiosos (<xref
					ref-type="bibr" rid="B25">SEYFERTH, 2005</xref>) com o entendimento de que os
				estudos migratórios são um campo de investigação científica que indaga sobre os
				&quot;movimentos espaciais de população [...] qualificando e quantificando as
				regularidades encontradas, relacionando tais processos à formação de identidades
				[...] e procurando extrair consequências em termos de formas de intervenção, estatal
				ou não, com vistas ao contexto social mais amplo&quot; (<xref ref-type="bibr"
					rid="B20">PÓVOA NETO; FERREIRA, 2005</xref>, p.10). Do mesmo modo, o significado
				tradicional da palavra &quot;migração&quot;, tanto do ponto de vista acadêmico
				quanto do senso comum, remete ao estabelecimento de indivíduos ou grupos em um
				deter-minado país do qual não são nacionais e que os acolhe em situação liminar. </p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B2">Baeninger (2012</xref>, p.9) aponta para o fato de
				que as novas modalidades da imigração inter-nacional representam, no cenário da
				globalização, a definição e redefinição de espaços transnacionais (<xref
					ref-type="bibr" rid="B12">GLICK-SCHILLER <italic>et al.,</italic> 1997</xref>).
				A autora afirma que a importância do fenômeno migratório internacional reside hoje
				muito mais em suas especificidades, &quot;em suas diferentes intensidades e
				espacialidades e em seus impactos diferenciados (particularmente no nível local) do
				que no volume de imigrantes envolvidos nos deslocamentos populacionais&quot; (<xref
					ref-type="bibr" rid="B2">BAENINGER, 2012</xref>, p.9). Baeninger (2012) afirma
				que uma das características da imigração estrangeira no cenário da globalização é a
				condição de indocumentados desses imigrantes (<xref ref-type="bibr" rid="B22">SALES,
					1996</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B19">PATARRA; BAENINGER, 1995</xref>),
				tornando ainda mais difícil a mensuração desses fluxos.</p>
			<p>Mas o cenário da migração é desafiador não somente pelos fatores mencionados acima. A
				formação de identidades diferenciadas em contextos migratórios e as especificidades
				culturais acarretam problemas políticos e culturais e apontam para o confronto da
				concepções plurais e homogêneas de sociedade. &quot;Há, de fato, uma dimensão
				cultural (que pode ou não ser expressa na forma de etnicidade) que põe em evidência
				a importância das políticas de iden-tidade e os interesses nacionalistas mesmo
				diante do impacto da globalização econômica&quot; (<xref ref-type="bibr" rid="B24"
					>SANTOS <italic>et al</italic>., 2014</xref>, p.11). As migrações internacionais
				produzem minorias - um termo que desde a sua formação nas ciências sociais indicou a
				dimensão política decorrente do reconhecimento de grupos diferenciados dentro do
				estado-nação. Assim, &quot;desde o início dos grandes movimentos migratórios no
				século XIX, a imigração está associada a conflitos de diversas naturezas e, aos
				poucos, deixou de ser tratada exclusivamente como um problema de inserção social ou
				de assimilação&quot; (SANTOS <italic>et al</italic>., 2014, p.10). As questões e
				problemas sociais decorrentes do estabelecimento do imigrante em outro país suscitam
				conflitos no tocante à ideia de nacionalidade; e acabam por revelar, desse modo,
				novos desdobramentos em diferentes espaços (como na arena política, religiosa etc.).
				Ao objetivar a integração em outra sociedade, a construção de diferenças culturais
				(etnicidade) e as formas de pertencimento coletivo, corre-se o risco de produzir
				conflitos, antagonismos, xenofobia e desigualdades sociais. </p>
			<p>Partindo desse referencial, este artigo visa oferecer três frentes de reflexão
				relevantes para um entendimento, ainda que parcial, da realidade migrante haitiana
				em solo brasileiro. Na primeira parte do artigo apresenta-se ao leitor essa
				realidade específica. Ao tratar da chegada e da contextualização do imigrante,
				esbarra-se inevitavelmente em outra discussão desafiadora: os processos políticos de
				absorção e as políticas públicas em desenvolvimento no país. Por fim, na última
				parte são apresentados alguns elementos referentes à religiosidade migrante e à
				atuação de diferentes grupos religiosos na recepção e acomodação dessa população no
				território brasileiro. </p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Contextualização, absorção e políticas públicas em desenvolvimento</title>
			<p>É possível considerar que a aproximação do Brasil com o Haiti se deu com mais
				intensidade a partir de 2004, quando o Conselho de Segurança das Nações Unidas
				decidiu estabelecer a <italic>Mission des Nations Unies pour La Stabilization em
					Haiti</italic> (Minustah), constituída por soldados de diversos países,
				principalmente brasileiros. Em 2004 o Haiti sofreu um terremoto que comoveu o mundo.
				Enquanto diversos países fecharam as suas portas, o Brasil editou uma medida
				provisória liberando milhões para ajudar o Haiti (<xref ref-type="bibr" rid="B6"
					>COSTA, 2015</xref>) ). Em 2010 o país voltou a sofrer um terremoto que arrasou
				o país. Um relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados,
				elaborado meses depois da catástrofe, expõe:</p>
			<disp-quote>
				<p>O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) reconhece como
					deslocamento interno a situação no Haiti em um relatório elaborado oito meses
					depois da catástrofe, que contabilizou cerca de 1,3 milhões de pessoas
					deslocadas internamente vivendo em condições precárias nos 1.354 acampa-mentos e
					assentamentos na capital e seu entorno. Cerca de 60% da infraestrutura
					governamental, administrativa e econômica foi destruída. Mais de 180.000 casas
					desabaram ou foram danificadas e 105.000 foram completamente destruídas. Por
					volta de 23% de todas as escolas no Haiti foram afetadas pelo terremoto (4 992
					escolas), 80% das escolas em Porto Príncipe e 60% das escolas nos estados Sul e
					Oeste foram destruídas ou danificadas [...] (UNITED NATIONS HIGH COMMISSIONER
					FOR REFUGEES, 2010).</p>
			</disp-quote>
			<p>Torna-se relevante destacar que o processo migratório haitiano para outros países -
				seja decorrente de fenômenos naturais e/ou de questões sociopolíticas - já ocorre há
				muito tempo. Todavia, a análise dos últimos cinquenta anos acusa que nesse período
				houve ondas migratórias mais intensas de haitianos para outros países. Na década de
				1960, por exemplo, diante da ditadura encabeçada por <italic>Papa Doc</italic>,
				François Duvalier<xref ref-type="fn" rid="fn2"><bold>
						<sup>2</sup>
					</bold>
				</xref>, muitos intelectuais e profissionais qualificados migraram para outras
				nações, ao passo que trabalhadores braçais buscaram a República Dominicana. Já na
				década de 1980, com o cenário de crescente pobreza, muitos haitianos continuaram a
				sair do país em direção principalmente à Europa e Estados Unidos, e também a países
				do Caribe. Em razão de uma série de fatores sociopolíticos e das recorrentes
				catástrofes naturais (no contexto deste artigo salienta-se especialmente o terremoto
				ocorrido de 2010), a situação econômica do Haiti se agravou grandemente. É nesse
				contexto que o Brasil surge como uma nova rota migratória (<xref ref-type="bibr"
					rid="B6">COSTA, 2015</xref>; 2016).</p>
			<p>O contexto delicado que vivia o Haiti após o terremoto em 2010 impulsionou uma série
				de medidas internacionais. Entre elas destaca-se a deliberação do então presidente
				Luiz Inácio Lula da Silva, que declarou ajuda humanitária e acolhimento aos cidadãos
				haitianos que migrassem para o Brasil (<xref ref-type="bibr" rid="B8">COTINGUIBA,
					2014</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B26">SILVA, 2012</xref>). <xref
					ref-type="bibr" rid="B11">Fernandes (2014</xref>, p.12) discorre que a imigração
				não pode ser gestada &quot;unicamente pelas facilidades de entrada no país, como
				preconizam os que criticam as medidas tomadas pelo governo brasileiro&quot;. Mas o
				fato é que a imagem de um Brasil hospitaleiro vinha sendo difundida, divulgando a
				ideia de um país com mais oportunidades que outros (<xref ref-type="bibr" rid="B6"
					>COSTA, 2015</xref>).</p>
			<p>Ainda assim, os fatores decorrentes da imigração para o Brasil não seriam só esses.
					<xref ref-type="bibr" rid="B8">Cotinguiba (2014</xref>) destaca, para além das
				questões políticas, a economia estagnada e as catástrofes naturais do Haiti; a
				visibilidade e crescimento econômico do Brasil (na época, em ascensão); a facilidade
				de entrar no país por fronteiras localizadas na região norte; as possíveis ofertas
				de trabalho que surgiriam com a Copa do Mundo de 2014; as expectativas de uma vida
				melhor; a questão do endurecimento de políticas de imigração em outros países; e,
				por fim, a possibilidade de um visto de permanência de maneira rápida e
				comparativamente mais simples no país. Porém, para entrar no Brasil era exigido um
				visto, que a princípio não era disponibilizado no Haiti pelas autoridades consulares
				brasileiras (<xref ref-type="bibr" rid="B6">COSTA, 2015</xref>; 2016). Para
				facilitar a entrada no Brasil, surge nesse contexto uma nova rota. </p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Caminhos e desafios: políticas públicas nacionais</title>
			<p>Diante da ausência do visto brasileiro (e, por consequência, da impossibilidade de
				entrar no país de avião), diversas rotas terrestres alternativas foram criadas.
				Nessa rota, os refugiados saíam de Porto Príncipe ou de Santo Domingo em direção ao
				Panamá, e de lá viajavam de avião até Quito ou Guaiaquil. Em um segundo momento,
				seguiam para Lima, no Peru. De Lima pegavam mais um avião para Iquitos e, de lá,
				seguiam de barco até Tabatinga, no Amazonas. </p>
			<p>Essa rota, utilizada até 2010, foi alterada em 2011: em Lima embarcavam em um ônibus
				que passava por Cuzco e chegavam a Puerto Maldonado, também no Peru. De lá entravam
				no Brasil, chegando à cidade de Brasileia, no Acre. Vale aqui acrescentar que muitos
				também chegavam a Brasileia pela Bolívia. Recebiam ali um visto que durava em torno
				de quinze dias a três meses e meio, emitido pela Polícia Federal, e então partiam
				para Manaus. </p>
			<p>No entanto, em um determinado momento foi suspensa a emissão de vistos, o que fez o
				número de haitianos ilegais em Tabatinga aumentar de modo expressivo. Então, em 12
				de janeiro de 2012, o Governo emitiu a Resolução Normativa nº 97 sobre a concessão
				do visto a nacionais do Haiti. Nesse ano foram concedidos 1.200 vistos, mas
				estima-se que tenham en-trado pelo Amazonas mais de 4 mil haitianos. Em 2013,
				inúmeros consulados brasileiros foram autorizados a fornecer esses vistos, e, do
				mesmo modo, a Embaixada Brasileira no Haiti recebeu autorização para liberar quantos
				vistos conseguisse. Porém, o tempo de espera pelo visto aumentava cada vez mais. Por
				esse motivo, a entrada de haitianos indocumentados pelo Amazonas continuou
				amentando: apenas nos primeiros dois meses de 2014 entraram pelo Acre em torno de 15
				mil haitianos (<xref ref-type="bibr" rid="B6">COSTA, 2015</xref>; 2016). A partir de
				então, o Acre se tornou a principal porta de entrada dos haitianos no Brasil e, uma
				vez no país, a grande maioria mudava-se para São Paulo, e posteriormente para outras
				cidades brasileiras. </p>
			<p>É importante ressaltar que o haitiano que chega ao Brasil acaba se deparando com
				inúmeros problemas. Um deles diz respeito justamente à ausência de políticas
				públicas adequadas para o acolhimento e o atendimento desse imigrante. O governo
				brasileiro manteve as fronteiras abertas e concedeu vistos de entrada e
				documentação, mas tem falhado brutalmente na inserção desse imigrante na sociedade
				brasileira, que busca à sua própria maneira meios para sobreviver no país (<xref
					ref-type="bibr" rid="B7">COSTA, 2016</xref>). </p>
			<p>
				<xref ref-type="bibr" rid="B28">Zeni e Filippim (2014</xref>) afirmam que as
				políticas que estabelecem as regras migratórias no Brasil questionam as articulações
				entre governo, setores privados e sociedade civil. Mas, para além desse
				questionamento, afirmam os autores, é necessário também esforços para que ocorra o
				acolhimento efetivo do imigrante, ainda mais &quot;no caso de migrantes provindos de
				uma situação econômica amplamente desfavorável, como o caso dos haitianos&quot;. De
				acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B21">Rodrigues (2015</xref>) para a Agência
				Senado, o Projeto de Lei (PLS) 288/2013 seria uma proposta para substituir o
				Estatuto do Estrangeiro (Lei 6.815/1980) e poderia trazer benefícios. Por outro
				lado, o pesquisador Igor Machado<bold>
					<sup>3</sup>
				</bold> , em uma análise mais detalhada do projeto de lei, identifica que este, além
				de afirmar as diferenças, compromete os direitos humanos quando atribui à Polícia
				Federal sua gerência. </p>
			<p>É também relevante refletir que mudanças legislativas são insuficientes para o
				efetivo acolhimento ao imigrante, tendo em vista as inúmeras questões relacionadas
				às políticas públicas migratórias. É com esse contexto que a sociedade brasileira se
				vê confrontada todos os dias, ao constatar a ausência do Estado e a atuação de
				diferentes grupos religiosos no acolhimento desses imigrantes. </p>
		</sec>
		<sec>
			<title>As instituições religiosas e o acolhimento local</title>
			<p>Com o fluxo contínuo de imigrantes para o Brasil, é possível observar o trabalho
				desenvolvido por algumas instituições religiosas. Em São Paulo, a que está em mais
				evidência hoje é a Pastoral do Migrante: falar em imigração haitiana em São Paulo
				significa falar do trabalho que vem sendo desenvolvido por esse grupo. A Pastoral é
				um dos braços da Missão Paz, coordenada pela Igreja Católica (<xref ref-type="bibr"
					rid="B16">LUCIO, 2015</xref>). A &quot;Missão Paz&quot; compõe-se de quatro
				diferentes núcleos, com distintas finalidades: &quot;Casa do Migrante, Centro
				Pastoral e de Mediação dos Migrantes, Centro de Estudos Migratórios e as paróquias
				Nossa Senhora da Paz, Latino--Americana e Italiana&quot; (LUCIO, 2015, p.51). Nos
				últimos anos, a Missão Paz atendeu a muitos imigrantes haitianos, prestando
				acolhimento e mediando serviços de saúde, educação e assistência social, jurídica e
				psicológica. A Casa do Migrante recebe diariamente imigrantes de diversos países,
				sendo que sua permanência no local é determinada individualmente, de acordo com a
				necessidade de cada um</p>
			<disp-quote>
				<p>A Casa do Migrante é um ambiente que abriga imigrantes e refugiados, por período
					indeterminado, até documentação e empregos serem conseguidos. Esse espaço conta
					com 110 leitos divididos em ala masculina e feminina, banheiros, área para as
					crianças e um grande espaço de confraternização. O Centro Pastoral e de Mediação
					dos Migrantes (CPMM) é o eixo legal, onde os imigrantes são atendidos por
					advogados e profissionais que vão regularizar a situação e depois promover
					encontros entre empregador e o imigrante, para tramitações de emprego&quot;
						(<xref ref-type="bibr" rid="B16">LUCIO, 2015</xref>, p.51).</p>
			</disp-quote>
			<p>Além do auxílio com a documentação, a Missão Paz oferece diversos cursos, entre os
				quais o de língua portuguesa. Arrecada e distribui roupas e produtos de higiene, e
				faz a mediação entre empresas e imigrantes. Muitas empresas têm procurado a Missão
				Paz para ofertar suas vagas aos imigrantes haitianos. Algumas são de pequeno porte,
				enquanto outras são grandes e conhecidas nacionalmente. Até agora, a Missão Paz,
				pelo menos em São Paulo, está entre as instituições mais expressivas no acolhimento
				ao imigrante haitiano. </p>
			<p>Ao lado dela, outras organizações religiosas - ainda que de forma mais discreta -
				também têm atuado no apoio ao imigrante na cidade de São Paulo; é o caso de algumas
				igrejas evangélicas, como a Assembleia de Deus e a Igreja Adventista do Sétimo Dia
				(para mais, ver <xref ref-type="bibr" rid="B18">MARCELINO, 2015</xref>). Em
				entrevista para o jornal Folha de São Paulo, o padre Paolo Parise informou que
				apenas 30% desses imigrantes são católicos (<xref ref-type="bibr" rid="B4">BILENKY,
					2015</xref>). <xref ref-type="bibr" rid="B7">Costa (2016</xref>) acrescenta que,
				inicialmente, quando chegavam a Manaus, frequentavam, cantavam e até tocavam em
				algumas missas, e por isso, chegou-se a acreditar que fossem católicos, mas logo se
				percebeu que eram pouquíssimos os católicos entre eles, e que a grande maioria eram
				batistas e adventistas. No que diz respeito à denominação religiosa desses
				imigrantes, o autor enfatiza: </p>
			<disp-quote>
				<p>Os imigrantes não se integraram com suas igrejas correspondentes no Brasil. Eles
					criaram a Igreja Metodista Haitiana, Adventista Haitiana, Batista Haitiana,
					Assembleia de Deus Haitiana. Por outro lado, as correspondentes denominações
					religiosas brasileiras nada fizeram para acolher, ajudar e integrar os haitianos
					em suas igrejas (<xref ref-type="bibr" rid="B7">COSTA 2016</xref>, p.61).</p>
			</disp-quote>
			<p>Além da cidade de São Paulo, é possível identificar em outras partes do Brasil a
				atuação de diferentes grupos religiosos no auxílio a esses imigrantes. Na região do
				Acre, Amazonas e Rondônia, a igreja Assembleia de Deus se mobilizou para acolhê-los
				- e também em São Paulo se observa sua atuação. Em relação aos projetos da Igreja
				Adventista do Sétimo Dia (IASD) junto aos imigrantes haitianos no Brasil, foi
				possível mapear e detectar pelo menos alguns deles; nesses grupos, formados por
				haitianos adventistas, a igreja desenvolve também um projeto social. Existe um
				projeto em Porto Velho (RO), onde a Igreja IASD inaugurou no ano de 2014 o primeiro
				templo adventista exclusivo para haitianos. A Igreja Adventista do Sétimo Dia também
				agrega membros haitianos em outros Estados, como Santa Catarina (estima-se ter em
				torno de 120 imigrantes), Mato Grosso (em Cuiabá a igreja inaugurou um templo para
				haitianos no final de 2015 (<xref ref-type="bibr" rid="B1">ALVES, 2015</xref>), e em
				São Paulo (<xref ref-type="bibr" rid="B18">MARCELINO, 2015</xref>). De modo geral,
				as instituições evangélicas acolhem e auxiliam o imigrante haitiano com aulas de
				língua portuguesa e apoio social de cunhos diversos, e, apesar da tímida atuação de
				algumas delas, considera-se que a soma dessas ações na tentativa de recepcionar,
				acomodar e auxiliar o haitiano, de alguma forma, tem amenizado a delicada situação
				imigratória no país.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Conclusão</title>
			<p>É necessário ter em mente que, dentro desse contexto, há diferentes tipologias que
				acabam por compor um quadro heterogêneo dos processos migratórios, com reflexos
				inclusive nas suas construções teóricas. Categorias como migrantes, deslocados,
				refugiados, exilados, itinerantes, ilegais acabam por se tornar &quot;rótulos&quot;
				que &quot;priorizam o sistema mundial e a demanda de mão de obra&quot; (<xref
					ref-type="bibr" rid="B24">SANTOS <italic>et al</italic>., 2014</xref>, p.11) em
				uma abordagem que enfatiza sobretudo os aspectos econômicos e políticos do processo
				migratório. E, se há uma multi-plicidade de categorias e construções teóricas em
				torno dos processos migratórios (<xref ref-type="bibr" rid="B9">DURAND; LUSSI,
					2015</xref>), a mesma multiplicidade é vista na construção da identidade. A
				partir dos estudos de <xref ref-type="bibr" rid="B13">Goffman (1959</xref>),
				passou-se a afirmar que indivíduos constroem suas identidades e que a manutenção
				dessas identidades depende do processo resultante das interações mantidas pelo
				indivíduo no processo de compreensão de si próprio e de suas intervenções na
				realidade. </p>
			<p>Já o debate atual oferece novos paradigmas, na medida em que a discussão não se
				limita a uma identidade, mas abrange várias identidades: pessoais, sociais,
				simbólicas, étnicas, religiosas. A partir da abordagem das teorias pós-modernas
					(<xref ref-type="bibr" rid="B3">BAUMANN, 2001</xref>), identidade é &quot;cada
				vez menos essência e mais móvel, múltipla, comportamental e instrumental&quot;
					(<xref ref-type="bibr" rid="B23">SANTOS, 2010</xref>, p.30). A expressão
				&quot;identidade múltipla&quot; (<xref ref-type="bibr" rid="B15">KAHN, 1983</xref>)
				mostra que os diferentes componentes da identidade étnica se alteram no tempo
				histórico e nas mudanças de situação social, em contexto de escolhas obrigatórias
					(<xref ref-type="bibr" rid="B25">SEYFERTH, 2005</xref>). </p>
			<p>Ao tratar da multiplicidade identitária, esta pesquisa está focando o olhar
				prioritariamente para o aspecto da religiosidade. É inviável discutir a temática da
				migração sem que seja levado em consideração o aspecto religioso desses imigrantes.
				Ao se escutarem histórias de fé dessas pessoas recém-chegadas, vê-se a experiência
				de fé indissociada das suas vidas cotidianas. A religião não pode ser entendida
				nesse contexto meramente como um aspecto (entre outros) na vida do imigrante; ela
				engloba tudo. A fé do imigrante afeta a sua interação cotidiana com o não imigrante,
				forma o futuro desse imigrante no contexto social de destino e influencia a
				sociedade para além da sua própria presença em um determinado contexto social. Em
				outras palavras, &quot;para entender os imigrantes, é preciso entender a sua fé.
				Mais, para entender mudanças sociais em sociedades compostas por imigrantes, não se
				pode desconsiderar a religião destes imigrantes&quot; (<xref ref-type="bibr"
					rid="B5">CONNOR, 2014</xref>, p.5, tradução nossa). </p>
			<p>Um caráter importante que abarca parte dos resultados desta investigação diz respeito
				à multiplicidade não somente identitária, mas também de dados e de métodos. A
				multiplicidade de dados aqui é revelada por se tratar de uma investigação que,
				apesar de limitar a análise aos haitianos, não está focada em um determinado grupo
				religioso. Ao contrário, a pesquisa que dá origem a este artigo é construída com
				base em pesquisas prévias, o que permite elaborar um maior entendimento do cenário
				mais amplo a respeito da construção da identidade religiosa dos imigrantes em
				diferentes contextos. É a partir desse espectro de dados - de campo e texto - que
				será possível investigar padrões mais gerais de movimentos religiosos e adaptações
				de imigrantes. </p>
			<p>É nesse complexo contexto teórico-metodológico que o presente estudo entende que,
				dentre os diversos campos de conhecimento, o dos estudos migratórios é um dos que
				mais convidam à participação de profissionais de diferenciados focos de interesse
				disciplinar (<xref ref-type="bibr" rid="B20">PÓVOA NETO; FERREIRA, 2005</xref>). Do
				mesmo modo, é um dos que mais desafios oferecem à investigação, à coleta de dados e,
				também, à atuação social. </p>
			<p>É em razão dessas dificuldades - e também em razão do reconhecimento de que é deste
				tipo de pesquisa e produção acadêmica que o país precisa, para não copiar paradigmas
				políticos alheios - que este projeto é gerado. O país vive hoje um momento crucial
				de deli-neamento de políticas públicas frente a essa complexidade e frente também ao
				crescimento da entrada de imigrantes em seu território.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
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					<source>HiperNotícias</source>
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						Brasil</chapter-title>
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						migratórios</article-title>
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					<issue>34</issue>
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					Christiano Editorial, 2014. </mixed-citation>
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					<article-title>Migração haitiana para o Brasil: acolhimento e políticas
						públicas</article-title>
					<source>Revista Pretexto</source>
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						2015</date-in-citation>
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			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>De acordo com Grondin (1985, p.43), a dinastia Duvalier imperou por muitos anos
					no Haiti. Duvalier era chamado de &quot;Papa Doc&quot; (Papai Doutor) e
					considerado um &quot;mestre manipulador da cultura&quot;. Adotava medidas
					autoritárias e fascistas de dominação política: encarcerava, torturava e exilava
					adversários políticos.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>Informações obtidas em Faermann (2015). Informações obtidas também em palestra
					ministrada por Igor Machado no curso de extensão universitária &quot;Desloca
					Migra Mentos Mentes&quot;, no Memorial da América Latina no dia 16 set. 2015
					(MACHADO, 2015).</p>
			</fn>
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