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			<journal-id journal-id-type="publisher-id">rf</journal-id>
			<journal-title-group>
				<journal-title>Reflexão</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Reflexão</abbrev-journal-title>
			</journal-title-group>
			<issn pub-type="epub">2447-6803</issn>
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				<publisher-name>Pontifícia Universidade Católica de Campinas</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.24220/2447-6803v41n2a3585</article-id>
			<article-id pub-id-type="publisher-id">00010</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Articles</subject>
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			<title-group>
				<article-title>Protocolos e práticas de leitura bíblica: o códice 2437 - fólio 151
						verso<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref></article-title>
				<trans-title-group xml:lang="en">
					<trans-title><italic>Protocols and practices of biblical reading: The codex 2437 - folio
						151 verso</italic></trans-title>
				</trans-title-group>
			</title-group>
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					<name>
						<surname>LIMA</surname>
						<given-names>Anderson de Oliveira</given-names>
					</name>
					<xref ref-type="aff" rid="aff1"><sup>2</sup></xref>
					<xref ref-type="corresp" rid="c1"><sup>*</sup></xref>
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				<aff id="aff1">
					<label>2</label>
					<institution content-type="original"> Pontifícia Universidade Católica de
						Campinas, Centro de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, Pós-Graduação em
						Ciências da Religião. Rod. Dom Pedro, km 136, Pq. das Universidades,
						13086-900, Campinas, SP, Brasil. E-mail:
						&lt;anderson.angela.lima@gmail.com&gt;.</institution>
					<institution content-type="normalized">Pontifícia Universidade Católica de
						Campinas</institution>
					<institution content-type="orgname">Pontifícia Universidade Católica de
						Campinas</institution>
					<institution content-type="orgdiv1">Centro de Ciências Humanas e Sociais
						Aplicadas</institution>
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					<country country="BR">Brazil</country>
				</aff>
				<author-notes>
					<corresp id="c1"><label>*</label>Rod. Dom Pedro, km 136, Pq. das Universidades,
						13086-900, Campinas, SP, Brasil. E-mail:<email>
						&lt;anderson.angela.lima@gmail.com&gt;.</email>.</corresp>
					</author-notes>
			<pub-date pub-type="epub-ppub">
				<season>Jul-Dec</season>
				<year>2016</year>
			</pub-date>
			<volume>41</volume>
			<issue>2</issue>
			<fpage>235</fpage>
			<lpage>249</lpage>
			<history>
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					<day>05</day>
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					<year>2016</year>
				</date>
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					<year>2016</year>
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					<license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative
						Commons</license-p>
				</license>
			</permissions>
			<abstract>
				<title>Resumo</title>
				<p>Este artigo traz alguns resultados obtidos em pesquisa ligada ao estágio
					pós-doutoral desenvolvido pelo pesquisador no Programa de Pós-Graduação em
					Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Nele se
					propõe um estudo parcial do códice 2437, um manuscrito grego que foi produzido
					entre os séculos XII e XIII e traz como conteúdo os quatro evangelhos do Novo
					Testamento canônico. O manuscrito ainda é pouco conhecido fora do Brasil, pois é
					parte do acervo da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e, com poucas
					exceções, só recentemente se tornou objeto de estudos mais acurados. O presente
					trabalho analítico se concentrará numa única página do manuscrito, o fólio 151
					verso, que traz uma parte do capítulo 18 do Evangelho de Lucas. Desse excerto
					procurar-se-á extrair algumas informações sobre o hipotético <italic>protocolo
						de leitura</italic> implicado no códice e alcançar conclusões sobre uma
						<italic>prática de leitura bíblica</italic> a partir da marginália incluída
					no códice por algum leitor anônimo.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title><italic>Abstract</italic></title>
				<p><italic>This article presents some results obtained during post-doctoral research
						conducted at the graduate program in Science of Religion at the</italic>
					Pontifícia Universidade Católica, Campinas<italic>. We propose a partial study
						of the codex 2437, a Greek manuscript which was written between the twelfth
						and thirteenth centuries and brings the four Gospels of the canonic New
						Testament. The manuscript is still little known outside Brazil because it is
						part of the collection of the</italic> Fundação Biblioteca Nacional do Rio
					de Janeiro <italic>and, with few exceptions, it has only recently become the
						object of more detailed studies. Our analytical work will focus on a single
						page of the manuscript, folio 151 verso, which brings a part of chapter 18
						of Luke’s Gospel. In this excerpt we endeavor to obtain information on the
						hypothetical reading protocol involved in the codex and reach conclusions
						about the practice of biblical reading from the marginalia included in the
						codex by an anonymous reader.</italic></p>
			</trans-abstract>
			<kwd-group xml:lang="pt">
				<title>Palavras-chave:</title>
				<kwd>Códice 2437</kwd>
				<kwd>Interpretação bíblica</kwd>
				<kwd>Protocolos e práticas de leitura</kwd>
				<kwd>Roger Chartier</kwd>
				<kwd>Teoria literária</kwd>
			</kwd-group>
			<kwd-group xml:lang="en">
				<title><italic>Keywords</italic>:</title>
				<kwd><italic>Codex 2437</italic></kwd>
				<kwd><italic>Biblical interpretation</italic></kwd>
				<kwd><italic>Reading protocols and practices</italic></kwd>
				<kwd><italic>Roger Chartier</italic></kwd>
				<kwd><italic>Literary theory</italic></kwd>
			</kwd-group>
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				<page-count count="15"/>
			</counts>
		</article-meta>
	</front>
	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>Introdução</title>
			<p>O objeto de estudo deste artigo é um manuscrito bíblico conhecido como códice 2437,
				um documento antigo escrito em língua grega que é parte do acervo da Fundação
				Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e que contém os quatro evangelhos do Novo
				Testamento canônico. Esse tipo de documento não é comumente encontrado no Brasil,
				pois foi escrito antes da che-gada dos europeus ao continente. O códice 2437 é,
				deveras, o mais antigo documento escrito que se pode encontrar na América Latina, o
				que já faz dele um objeto de estudo interessante para os pesquisadores locais.</p>
			<p>Entretanto, sabe-se muito pouco sobre a história desse documento antes de 1912,
				quando ele foi doado à Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (<xref ref-type="bibr"
					rid="B13">PINHEIRO, 2002</xref>). O que se sabe, desde as análises preliminares
				feitas por Bruce M. Metzger em visita ao Brasil na década de 1950, é que o
				manuscrito foi produzido por volta do século XII. O parecer do experiente permitiu
				que o códice fosse repertoriado entre as demais cópias do Novo Testamento conhecidas
				no mundo, pelo que ele ganhou o número 2437 e um lugar entre os minúsculos
				conhecidos que foram produzidos entre os séculos IX e XVI<xref ref-type="fn"
					rid="fn2"><sup>3</sup></xref>. Depois disso o códice passou, em 1996, por um
				processo de restauração na própria Biblioteca Nacional e logo se tornou alvo da
				atenção de alguns pesquisadores brasileiros que se dedicaram à sua datação, à sua
				descrição precisa e à produção de edições paleográficas dos quatro evangelhos,
				acrescidas de notas críticas sobre algumas diferenças entre o texto que ele
				apresenta e as melhores edições do Novo Testamento grego hoje existentes.</p>
			<p>Tendo conhecido essas primeiras análises, este pesquisador está assumindo o
				compromisso de dar sequência aos estudos do manuscrito, mas, vale dizer de antemão
				que não se tem por objetivo desenvolver um trabalho tradicional de crítica textual
				do Novo Testamento. Não se procurará analisar as variantes textuais comparando o
				códice 2437 com os demais manuscritos conhecidos, nem se tem pretensão de extrair de
				seus fólios qualquer dado relevante para as pesquisas sobre as origens do(s)
				cristianismo(s). De fato, o códice 2437 não é considerado nem tão raro nem tão
				antigo quando avaliado de um ponto de vista global, pelo que sua abordagem só se
				justifica se um referencial metodológico mais contemporâneo for empregado. Sendo
				assim, optou-se por uma metodologia de análise que une a teoria literária à história
				do livro e da leitura, a qual foi extraída das obras do historiador francês Roger
				Chartier (<xref ref-type="bibr" rid="B10">LIMA, 2015</xref>).</p>
			<p>Há dois conceitos conhecidos, mas definidos por Chartier de um modo peculiar, que
				im-portam de maneira especial neste trabalho: são eles os ‘protocolos’ e as
				‘práticas de leitura’. No primeiro deles faz-se uma análise literária de um texto
				escrito a fim de identificar o conjunto de dispositivos utilizados pelo escritor,
				com a finalidade de controlar a interpretação. Para identificar o <italic>protocolo
					de leitura</italic>, pressupõe-se que exista na mente do autor uma leitura ideal
				de sua obra e que essa leitura possa ser desvendada pelo exame das qualidades
				coercitivas empregadas para evitar os devaneios dos leitores. Roger Chartier também
				reconhece que o autor não é o único produtor do livro que assina, que os leitores
				não leem os textos que os autores escrevem sem que antes estes passem por diversos
				processos que os transformam em livros impressos que são, necessariamente, obras
				coletivas (<xref ref-type="bibr" rid="B1">CAVALLO; CHARTIER, 1998</xref>; CHARTIER,
				2006; CHARTIER, 2010; CHARTIER, 2014). A identificação hipotética de um protocolo
					<italic>de</italic> leitura, portanto, exige que o crítico considere o produto
				que de fato o leitor manuseia, levando em conta sua materialidade, o suporte que
				transmite o conteúdo, os paratextos envolvidos, assim como as convenções sociais que
				condicionam seus usos.</p>
			<p>No entanto, por mais claras que sejam as instruções que uma obra ofereça para definir
				a relação correta do leitor com o texto, sabe-se que elas não são capazes de
				suprimir a liberdade criativa dos leitores reais. Os usos que efetivamente os
				leitores realizam em contato com os livros são chamados por Chartier de práticas de
				leitura (<xref ref-type="bibr" rid="B5">CHARTIER, 2011</xref>; CHARTIER, 2014). O
				choque entre, de um lado, o ‘protocolo de leitura’ expresso no próprio livro por sua
				textualidade e materialidade e, de outro, a inventividade ilimitada dos leitores
				reais (práticas de leitura) pode ser visto como um rico campo de pesquisas, mesmo
				quando o estudo se limita a um antigo manuscrito como é o caso do códice 2437.</p>
			<p>Neste artigo, quanto ao ‘protocolo de leitura’, procurar-se-á construí-lo parcial e
				hipote-ticamente por meio do exame do conteúdo bíblico copiado e sua relação com os
				paratextos incluídos no códice pelo próprio escriba. Esses paratextos são,
				inicialmente, de dois tipos: títulos escritos no alto da página e letras maiúsculas
				colocadas às margens do texto; ambos, como se demonstrará, condicionam a recepção e
				dão indícios do tipo de leitura que o escriba idealizou para o documento. Já o exame
				da ‘prática de leitura’ desse documento exige que se considerem as marcas que lhe
				foram impostas posteriormente por alguém que o utilizou. Está-se falando de notas
				marginais com possíveis orientações para a leitura litúrgica, de correções feitas
				entre as linhas ou às margens, de ilustrações ou observações sobre variantes etc.
				Esse tipo de sinais impostos ao livro por quem o utiliza também é conhecido como
					marginália<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>4</sup></xref>, e sua análise tem
				ganhado destaque entre os estudos literários e culturais contemporâneos (<xref
					ref-type="bibr" rid="B9">JACKSON, 2001</xref>).</p>
			<p>A proposta deste estudo, portanto, é lidar com o códice 2437 tomando-o como artefato
				produzido pela humanidade, que é tanto um testemunho de determinada prática cultural
				do passado como um objeto que seguiu impulsionando a produção cultural de outras
				gerações por meio da complexa atividade humana que é a leitura. Este artigo, escrito
				especialmente para a Revista Reflexão, limita-se à análise de uma única página do
				códice 2437, o fólio 151 verso, que contém parte do capítulo 18 do Evangelho de
				Lucas e algumas poucas intervenções posteriores. Com isso o artigo deve ser encarado
				apenas como uma exposição parcial dos resultados de um projeto de pesquisa mais
				extenso que seu autor está pro-duzindo no Pós-Doutorado em Ciências da Religião pela
				Pontifícia Universidade Católica de Campinas.</p>
			<p>Preparando o estudo, as próximas páginas apresentam a imagem original do fólio 151
				verso (<xref ref-type="fig" rid="f1">Figura 1</xref>), seguida da edição
				paleográfica que foi produzida com base na pesquisa de Maria Olívia de Quadros
				Saraiva em sua tese doutoral (<xref ref-type="bibr" rid="B14">SARAIVA, 2011</xref>).
				Apresenta-se ainda a tradução do texto grego para o português brasileiro, feita pelo
				autor deste artigo, a qual incluirá a tradicional segmentação dos textos bíblicos em
				capítulos e versículos para facilitar a localização do leitor.</p>
			<p>
				<fig id="f1">
					<label>Figura 1</label>
					<caption>
						<title>Fólio 151 verso</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="0102-0269-rf-41-02-00235-gf1.png"/>
					<attrib>Fonte: Fundação Biblioteca Nacional (2015).</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>[Fólio 151 verso: Edição Paleográfica]</p>
			<p>
				<fig id="ch">
					<label>Fólio 151</label>
					<caption>
						<title>verso: Tradução</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="0102-0269-rf-41-02-00235-gch.png"/>
				</fig>
			</p>
			<p>
				<list list-type="simple">
					<list-item>
						<p>Sobre o Fariseu e o Publicano</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>1 sobre a terra?” <sub>(18.9)</sub> E disse também para alguns</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>2 que eram confiantes em si mesmos que</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>3 são justos mas desprezavam os </p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>4 outros esta parábola:</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>5<sub>(18.10)</sub>”Dois homens subiram para o templo (para)</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>6 orar: e um (era) fariseu; mas o outro</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>7 publicano. <sub>(18.11)</sub> O fariseu, estando em pé,</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>8 para si mesmo orava: ‘Deus, te agradeço</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>9 porque não sou como os outros</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>10 homens, roubadores, injustos, adúlteros,</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>11 e também como este publicano. <sub>(18.12)</sub> Jejuo</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>12 duas vezes por semana, dou o dízimo</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>13 de tudo quanto adquiro’. <sub>(18.13)</sub> E o publicano,</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>14 que estava em pé afastado, não queria</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>15 nem os olhos para o céu levantar.</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>16 mas batia sobre o peito di-</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>17 zendo: ‘Deus, tem piedade de mim, peca-</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>18 dor!’. <sub>(18.14)</sub> Digo a vós: este desceu justifi-</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>19 cado para sua casa mas aquele</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>20 não. Pois todo que exalta a si mesmo será</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>21 humilhado; mas o que se humilha a si mesmo</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>22 Será exaltado”. <sub>(18.15)</sub> E traziam também</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>23 suas crianças para que tocasse e, ven-</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>24 do os discípulos, os repreenderam.</p>
					</list-item>
				</list>
			</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>O Protocolo de Leitura</title>
			<p>Para a realização das análises, esta tradução do texto será novamente citada quando
				necessário. As primeiras observações se voltam para o começo do fólio 151 verso que,
				antes de tudo, traz uma espécie de título escrito em letras vermelhas (agora pouco
				legíveis): “evp’ tou/farisai,ou kai. tou/ telw,nou”, algo como “Sobre o Fariseu e o
				Publicano” (<xref ref-type="fig" rid="f2">Figura 2</xref>).</p>
			<p>
				<fig id="f2">
					<label>Figura 2</label>
					<caption>
						<title>Detalhe do título escrito em tinta vermelha no alto do fólio</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="0102-0269-rf-41-02-00235-gf2.png"/>
					<attrib>Fonte: Fundação Biblioteca Nacional (2015).</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>A inclusão desse tipo de título às cópias dos textos bíblicos por parte de leitores e
				copistas tinha, supõe-se, o objetivo de auxiliar o leitor. Os títulos, supostamente
				anunciando os temas que serão desenvolvidos nas páginas, pedem que o leitor os levem
				em consideração primeiro. Eles estão colocados acima dos textos sugerindo a leitura
				antecipada, e chamam a atenção também pela tinta diferente (de cor vermelha) com que
				foram escritos.</p>
			<p>Na busca pelo ‘protocolo de leitura’ do manuscrito, a presença desse tipo de
				intervenção paratextual tem importantes implicações. Acontece que tais títulos, se
				não são meros excertos do texto bíblicos, são intepretações dele, resultados de
				leituras anteriores, intervenções que transformam o texto e consequentemente
				influenciam a recepção. Isto é, por meio desses paratextos os escribas e leitores
				que manuseavam os manuscritos bíblicos passaram a oferecer no próprio livro os
				resultados de seus atos interpretativos e cada novo leitor estaria, de maneira
				direta ou indireta, influenciado por essas intervenções impostas ao texto bíblico.
				Ademais, esses títulos são evidências de que a leitura bíblica praticada não era a
				contínua, que seguia os livros do começo ao fim respeitando a sua sequencialidade.
				Antes, já se vê aí, mesmo que de forma indireta, a necessidade que os leitores
				tinham de encontrar passagens selecionadas de maneira simples para a realização de
				suas leituras pontuais, descontínuas, litúrgicas.</p>
			<p>Também se pode sempre questionar se os tais títulos transmitem de maneira correta o
				conteúdo do texto bíblico que encabeçam. Um título pode sugerir um acento temático
				que não corresponda aos objetivos do texto e de seu primeiro autor, mas à
				criatividade e interesses do leitor/escriba que, deveras, se tornou um segundo autor
				ao incluir no livro um título inédito. Nesse caso, em vez de ignorar o título
				acrescido ou tratá-lo como inclusão espúria que compromete a originalidade da obra,
				esta pesquisa terá que considerar tal título e a leitura que ele sugere como parte
				de um <italic>protocolo de leitura</italic> que, por obra dos produtores do códice,
				está presente na materialidade do livro e inevitavelmente altera sua
				textualidade.</p>
			<p>Sendo assim, o título “Sobre o Fariseu e o Publicano” é parte indissociável do fólio
				151 verso e, consequentemente, supõe-se que o leitor-modelo, imaginado pelo produtor
				do códice, após decifrar essa primeira forma de comunicação, passaria a esperar pelo
				texto em que os personagens fariseu e publicano estariam em cena. Entretanto, as
				primeiras palavras do texto bíblico ainda estão encerrando o conteúdo de uma unidade
				textual do fólio anterior, e o que se segue é uma introdução do narrador que prepara
				o leitor para a parábola sobre o fariseu e o publicano. Vejam-se as primeiras linhas
				do fólio 151 verso:</p>
			<p>
				<list list-type="simple">
					<list-item>
						<p>1 sobre a terra?” <sub>(18.9)</sub> E disse também para alguns</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>2 que eram confiantes em si mesmos que</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>3 são justos mas desprezavam os </p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>4 outros esta parábola:</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>5<sub>(18.10)</sub>”Dois homens subiram para o templo (para)</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>6 orar: e um (era) fariseu; mas o outro</p>
					</list-item>
				</list>
			</p>
			<p>Se o leitor estivesse empenhado numa leitura sequencial, vindo desde a página
				anterior, deveria deixar o anúncio do cabeçalho sobre o fariseu e o publicano em
				suspenso por um tempo. Porém, se ele, abrindo o códice, viesse diretamente a essa
				página em busca da narrativa sobre o <italic>fariseu</italic> e o
					<italic>publicano</italic>, o conteúdo parcial das primeiras linhas
				tornar-se-iam empecilhos que apenas o desviariam da leitura desejada. Imaginando
				esse processo da leitura pontual, o escriba se antecipa e emprega outro mecanismo de
				localização para amenizar as dificuldades do leitor-modelo. Trata-se da letra
				maiúscula escrita em tinta vermelha, que está posta exatamente antes da mancha do
				texto na linha 5 (<xref ref-type="fig" rid="f3">Figura 3</xref>). É um
					<italic>alfa</italic> (A), a primeira letra do substantivo
					<italic>Anqrwpoi</italic> (homens), que dá início à parábola em si, na voz do
				personagem Jesus (Lucas 18.10):</p>
			<p>
				<fig id="f3">
					<label>Figura 3</label>
					<caption>
						<title>Detalhe da letra maiúscula feita pelo copista no início da linha
							5</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="0102-0269-rf-41-02-00235-gf3.png"/>
					<attrib>Fonte: Fundação Biblioteca Nacional (2015).</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>Se o leitor, depois do título, avançar os olhos diretamente para a primeira
				maiúscula, encontrará exatamente o texto que o título anunciava, a parábola de Jesus
				cujos personagens são um fariseu e um publicano. Isso leva a afirmar que a letra
				maiúscula é um instrumento localizador, um delimitador de texto que funciona junto
				ao título e torna o uso do códice muito mais prático para a leitura seletiva que se
				deveria praticar, segundo o <italic>protocolo de leitura</italic> estabelecido pelos
				produtores do códice.</p>
			<p>É preciso lembrar que, quando os evangelhos canônicos foram produzidos no primeiro
				século E.C., a linguagem escrita de que se dispunha não contava com todos os sinais
				gráficos facilitadores que hoje se conhece. Nas cópias mais antigas dos textos do
				Novo Testamento não há parágrafos, vírgulas, aspas ou sequer divisão entre as
				palavras. Por conta disso, um dos desafios da interpretação bíblica é, e sempre foi,
				delimitar essas unidades textuais nos antigos textos contínuos, fazer distinção
				entre textos razoavelmente autônomos, para que a leitura, a interpretação e a
				teologia se pautassem em passagens completas e não em aforismos criados por escolhas
				pessoais e recortes feitos sem qualquer critério. Não por acaso a exegese bíblica
				costuma ensinar que a interpretação dessa literatura deve começar justamente pela
				chamada <italic>delimitação de perícopes</italic>, isto é, pela escolha criteriosa e
				devidamente justificada de uma unidade textual de sentido completo sobre a qual se
				possa trabalhar (<xref ref-type="bibr" rid="B15">WEGNER, 1998</xref>; <xref
					ref-type="bibr" rid="B11">MARGUERAT; BOURQUIN, 2009</xref>).</p>
			<p>Buscando auxiliar o leitor na delimitações dessas unidades (chamadas de perícopes),
				as Bíblias de hoje apresentam uma segmentação numerada que é aceita quase
				universalmente: a que divide os livros bíblicos em capítulos e versículos. O códice
				2437, escrito entre os séculos XII e XIII, está no meio do caminho entre os
				autógrafos e as Bíblias modernas. No tempo de sua produção, não existia uma
				segmentação universalmente padronizada que enumerasse capítulos e versículos, porém,
				a letra maiúscula há pouco comentada parece ser uma evidência de que o copista vivia
				numa das fases formativas dessa forma segmentada de apresentação da literatura
				bíblica. E o mais importante para esse trabalho é que, a partir da análise dessas
				marcas e de suas relações, julga-se ser possível chegar mais perto do tipo de
				leitura que o livro em si parece sugerir; ou seja, a partir dessas intervenções
				impostas pelos agentes históricos que leram e copiaram os livros bíblicos espera-se
				construir, ainda que hipoteticamente, o <italic>protocolo de leitura</italic> do
				manuscrito.</p>
			<p>Tratando rapidamente do conteúdo da parábola, está claro que ela quer comparar dois
				sujeitos que, tendo a intenção de orar, sobem a um cenário especial, Jerusalém, o
				monte em que o templo judaico estava localizado nos dias de Jesus:</p>
			<disp-quote>
				<p>Dois homens subiram para o templo (para) orar: e um (era) fariseu; mas o outro
					publicano. O fariseu, estando em pé, para si mesmo orava: “Deus, te agradeço
					porque não sou como os outros homens, roubadores, injustos, adúlteros, e também
					como este publicano. Jejuo duas vezes por semana, dou o dízimo de tudo quanto
					adquiro”. E o publicano, que estava de pé afastado, não queria nem os olhos para
					o céu levantar, mas batia sobre o peito dizendo: “Deus, tem piedade de mim,
					pecador!”. Digo a vós: este desceu justificado para sua casa mas aquele não.
					Pois todo que exalta a si mesmo será humilhado; mas o que se humilha a si mesmo
					será exaltado. </p>
			</disp-quote>
			<p>Na narrativa de Jesus, um dos sujeitos era um fariseu, um personagem enquadrado numa
				classe estereotipada pelos evangelhos, que na maior parte do tempo rivaliza com ele
				e seus seguidores. Um fariseu era um membro de uma facção religiosa que, no final do
				século I, ganhava terreno ante outros judaísmos e se colocava como a legítima
				intérprete e praticante da lei judaica. O outro personagem era um publicano, outro
				estereótipo de um sujeito que, segundo os pesquisadores, fazia parte de uma classe
				de pequenos trabalhadores terceirizados que prestavam serviços a arrendatários que
				tinham o direito de recolher os tributos locais e os repassar ao Império Romano
				(HORSLEY, 2010; <xref ref-type="bibr" rid="B15">WEGNER, 1998</xref>). É comum ouvir
				que os publicanos, ao prestar serviço aos dominadores, eram considerados traidores
				por seus patrícios, além de serem acusados de abusos ao cobrar valores maiores do
				que o realmente exigido pelo Império. Por tudo isso, os publicanos constituíam uma
				classe especialmente odiada naquele contexto social e histórico em que os evangelhos
				foram escritos. Portanto, na parábola, Jesus opõe, de um lado, um sujeito que é um
				estereótipo religioso, um fariseu contrário ao movimento de Jesus, que era
				equivocadamente bem quisto pela sociedade, e, de outro lado, um sujeito pecador, um
				desprestigiado publicano.</p>
			<p>Cumprindo cerimoniais religiosos em Jerusalém, o fariseu afirma a Deus suas virtudes
				(“não sou como os outros homens, roubadores, injustos, adúlteros, e também como este
				publicano”) e fala de suas boas ações e de sua obediência ritual (“Jejuo duas vezes
				para o sábado, dou o dízimo de tudo quanto adquiro”). Seu discurso é orgulhoso; ele
				se considerava um homem justo, melhor que os demais, e por isso se posta
				confiantemente diante de Deus. Tanta confiança só pode se pautar na certeza de estar
				cumprindo com fidelidade os contratos de sua religião que, segundo seu ponto de
				vista, foram estabelecidos por Deus. Assim sendo, pode-se concluir que suas ações se
				baseiam na maneira como ele entende a tradição religiosa, registrada nos livros
				sagrados que os fariseus liam e interpretavam. Sua confiança é natural, constatável
				em muitos grupos religiosos fundamentalistas de todos os tempos, pois traz consigo a
				expectativa de que o futuro lhes reserva grandes recompensas, as devidas sanções
				positivas pelo cumprimento do contrato religioso que julgam ter estabelecido com
				Deus.</p>
			<p>O publicano, por sua vez, age de modo muito diferente. Ele permanece afastado,
				vergonhoso, cabisbaixo e lamentava junto a Deus os próprios pecados. Ele dizia:
				“Deus, tem piedade de mim, pecador!”. Não resta dúvida de que o publicano pecador
				concordava com o fariseu em muitos aspectos relativos à cultura religiosa local. A
				mesma tradição era respeitada, os mesmos mandamentos eram conhecidos, os mesmos
				mitos fundantes eram determinantes e os mesmos contratos imaginários vigoravam.
				Todavia, o publicano sabia não agir em concordância com esses preceitos e,
				diferentemente do fariseu, tinha a expectativa de um futuro ruim, quando pagaria
				pelos erros cometidos, recebendo as sanções negativas previstas no contrato
				religioso pressuposto. É por isso que ele demonstra vergonha e apenas clama por
				piedade.</p>
			<p>Após a parábola apresentar os dois personagens e suas orações no lugar sagrado, Jesus
				emite uma conclusão surpreendente: “Digo a vós: este desceu justificado para sua
				casa mas aquele não. Pois todo que exalta a si mesmo será humilhado; mas o que se
				humilha a si mesmo será exaltado”. Jesus é capaz de dizer qual é a opinião de Deus
				sobre os personagens e, ao fazê-lo, torna suas palavras especiais, de valor
				normativo. Trata-se de uma grande mudança de paradigmas para a cultura religiosa
				judaica; ainda que a obediência aos manda-mentos e rituais não tenham sido
				descartados, a humildade é apresentada como uma virtude superior e decisiva. De um
				lado, o orgulho confiante do fariseu é reprovado e, com ele, o ideal de uma rigorosa
				vida de obediência à Lei é posta em cheque; do outro, a confissão, o lamento do
				publicano que reconhece suas faltas é aprovado, mostrando de outro modo que há
				virtudes mais importantes do que a prática de jejuns, orações e guardas de
				sábados.</p>
			<p>Até aqui, portanto, vê-se que o manuscrito traz um título em vermelho que destaca
				parte do conteúdo do fólio 151 verso, dando destaque às figuras (personagens) da
				parábola e às palavras que no texto são proferidas diretamente por Jesus. Mas há
				também uma letra maiúscula, escrita com a mesma tinta vermelha, que guia o leitor
				diretamente até o texto anunciado, a parábola sobre o fariseu e o publicano. O que
				ainda não foi dito é que, se de fato o leitor seguir esses marcadores e começar sua
				leitura na linha 5, ele passará por cima da introdução da parábola, dada pelo
				narrador, que oferece outro <italic>protocolo de leitura</italic>, o do autor do
				evangelho.</p>
			<p>Na introdução original (Lucas 18,9), o narrador anuncia o gênero parabólico e parece
				informar o leitor sobre o alvo da admoestação de Jesus (“para alguns que eram
				confiantes em si mesmos que são justos e desprezavam os outros”). No lugar do
				destaque figurativo dado pelo título, a introdução original favorecia um destaque
				temático, conceitual, uma aplicação sugerida; mas os produtores do códice 2437
				deixam de lado essas instruções e, com a maiúscula empregada como marcador da linha
				5, estimulam a leitura parcial do conteúdo do fólio. Isso evidencia a
				particularidade do códice 2437, cuja leitura idealizada não coincide com as
				intenções originais do texto bíblico.</p>
			<p>Pode-se ainda dizer que essas marcas incluídas pelo escriba reduzem as marcas da
				enunciação, obscurecendo a voz do narrador lucano para dar ao leitor ou ouvinte a
				sensação de ter, com o livro, um acesso mais direto às palavras de Jesus. Todavia,
				isso não passa de um efeito de sentido; se por um lado a mediação do narrador é
				reduzida, por outro, a mediação do escriba se materializa nos títulos e letras
				maiúsculas, tornando-se decisiva. A leitura sequencial ainda é possível, todo o
				Evangelho de Lucas está lá; contudo, há um tipo específico de uso que é proposto
				pelo códice, o qual se revela pela análise dos elementos paratextuais.</p>
			<p>Seguindo com a análise, nota-se que uma segunda letra maiúscula aparece precisamente
				à frente na linha 22, justamente depois da parábola, na linha que traz a sentença
				conclusiva de Jesus. As últimas linhas do fólio 151 versão, traduzidas, são
				essas:</p>
			<p>
				<list list-type="simple">
					<list-item>
						<p>20 não. Pois todo que exalta a si mesmo será</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>21 humilhado; mas o que se humilha a si mesmo</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>22 Será exaltado”. <sub>(18.15)</sub> E traziam também</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>23 suas crianças para que tocasse e, ven-</p>
					</list-item>
					<list-item>
						<p>24 do os discípulos, os repreenderam.</p>
					</list-item>
				</list>
			</p>
			<p>Tudo indica que esta segunda maiúscula, um <italic>ýpsilon</italic> (U) no códice
				2437, marca o fim da unidade textual, dando força à hipótese deste estudo sobre sua
				funcionalidade. As maiúsculas, agora analisadas conjuntamente, delimitam o texto que
				o título anunciava. São mais que simples paratextos escribais, são mecanismos
				utilizados para controlar a leitura, elementos importantes para que se compreenda o
					<italic>protocolo de leitura</italic> planejado. O conteúdo escrito nas linhas
				abaixo dessa segunda maiúscula parece ter sido considerado um excedente, necessário
				apenas para aqueles que optarem por não seguir a leitura seletiva que o códice
				propõe, o que, obviamente, não é proibido.</p>
		</sec>
		<sec>
			<title>Uma Prática de Leitura</title>
			<p>No item anterior observou-se quão decisivas podem ser as aparentemente pequenas
				intervenções que um copista incluiu em sua versão de um texto bíblico. Tais marcas
				ajudam a reconstruir a leitura que esse mesmo produtor idealizou para o livro, a
				qual tem sido aqui chamada de <italic>protocolo de leitura</italic>. A partir desse
				ponto, passar-se-á a lidar com novas inter-venções, mais recentes, incluídas no
				texto em etapas posteriores à sua produção por um provável leitor. Quiçá essas novas
				marcas possam levar a saber mais sobre a história do códice 2437, algo sobre seus
				usos, algo sobre as <italic>práticas de leitura</italic> que efetivamente se
				realizaram no manuseio do manuscrito.</p>
			<p>Como a tinta vermelha do copista foi consideravelmente apagada pelo tempo, talvez em
				razão de sua má qualidade, é muito fácil distinguir nas páginas do manuscrito as
				anotações que nele foram feitas por outra mão. Trata-se da caligrafia de um segundo
				agente, que também usou tinta vermelha para fazer, com a própria pena, suas
				anotações às margens e no corpo do texto. A tinta vermelha dessa segunda mão
				permanece bem viva ainda hoje e, embora seja difícil compreender tudo o que ela
				procura comunicar, algumas conclusões preliminares podem ser alcançadas.</p>
			<p>O ponto de partida para essa análise pode ser o parágrafo citado abaixo, escrito por
				Maria Olívia de Quadro Saraiva a respeito do códice 2437:</p>
			<disp-quote>
				<p>Outras mãos fizeram algumas anotações nas margens do texto, em geral registrando
					variantes ou indicando o início e o fim de trechos destinados a leitura
					litúrgica [...] no ms. 2437, em todo ele, existem várias anotações lecionárias
					(início e término das leituras e até mesmo, como mencionado, uma espécie de
					tabela de leituras no final), o que é um indício de que o códice provavelmente
					foi usado por uma comunidade (<xref ref-type="bibr" rid="B14">SARAIVA,
						2011</xref>, p.48).</p>
			</disp-quote>
			<p>Em suma, Saraiva afirma que esse tipo de anotação aparece ao longo do códice 2437
				para registrar a presença de variantes textuais, para indicar o início ou o fim de
				trechos destinados à leitura pública (provavelmente em eventos litúrgicos) ou para
				trazer informações lecionárias, que são anotações feitas para facilitar a
				localização de determinada passagem que deveria ser lida em alguma ocasião religiosa
				especial, conforme o calendário litúrgico. As intervenções feitas pelo tal leitor no
				fólio 151 verso trazem justamente anotação de apoio ao uso do texto bíblico junto a
				um lecionário, seguindo uma prática de leitura bíblica comum cuja origem remete ao
				século IV (<xref ref-type="bibr" rid="B12">METZGER, 1992</xref>).</p>
			<p>A nota marginal do sujeito histórico que aqui está sendo chamado apenas de leitor foi
				feita à esquerda e no alto da página, para coincidir com o início do texto que
				deveria ser lido na cerimônia religiosa indicada como o domingo
					(<italic>kuriakh</italic>,) 17 (<xref ref-type="fig" rid="f4">Figura 4</xref>).
				Ela traz duas partes<xref ref-type="fn" rid="fn4">5</xref>: na parte superior
				lê-se: “<italic>tou/ telw,niou kai. tou/ farisai,ou</italic>”, cuja tradução é (do
				publicano e do fariseu). Logo se vê que há um novo destaque para a parábola que
				começa em Lucas 18.10 (linha 5), mostrando que há uma relação estreita entre a
				tradição cristã de leitura e uso dos textos dos evangelhos e o trabalho do copista
				do códice 2437. Nesse caso a <italic>prática de leitura</italic> coincide com o
					<italic>protocolo de leitura</italic>: o uso que se fez parece atender aos
				objetivos do livro, embora o autor dessa nota marginal tenha considerado necessário
				dar um destaque maior ainda à parábola e a seus personagens.</p>
			<p>
				<fig id="f4">
					<label>Figura 4</label>
					<caption>
						<title>Detalhe das anotações marginais de um leitor anônimo</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="0102-0269-rf-41-02-00235-gf4.png"/>
					<attrib>Fonte: Fundação Biblioteca Nacional (2015).</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>Na segunda parte da inscrição pode-se ler o seguinte: “ei=pen o` ku,rioj th.n
				parabolh.n tau,thn\ a;nqrwpoi du,o”. Sua tradução seria: “o senhor disse esta
				parábola: dois homens...”. Este achado é mais curioso, pois o leitor, autor da nota,
				parece ter composto uma nova introdução para a parábola. Mencionou-se anteriormente
				que a parábola originalmente contava com uma introdução narrativa (Lucas 18,9) nas
				primeiras quatro linhas da página (“E disse também para alguns que eram confiantes
				em si mesmos que são justos mas desprezavam os outros esta parábola...”), mas também
				se afirmou que o emprego de um <italic>alfa</italic> maiúsculo (A) antes da linha 5
				propunha uma nova delimitação que sugeria ao leitor que partisse direto ao conteúdo
				da parábola, à voz de Jesus. O leitor real, todavia, segue o <italic>protocolo de
					leitura</italic> apenas parcialmente. Ele ignora a introdução original proposta
				pelo livro e cria uma nova introdução, mais simples e que não trazia antecipadamente
				o tema da parábola, embora atribuísse com mais clareza o conteúdo a Jesus (o
				senhor).</p>
			<p>O leitor posterior deu seu toque pessoal ao livro; em sua <italic>prática de
					leitura</italic> acrescentou detalhes próprios à página, os quais mostram como
				ele negociou com o copista e seu ‘protocolo’ <italic>de leitura</italic>. Ele adota
				o título do escriba e, com ele, o destaque figurativo que acentua a importância dos
				personagens fariseu e publicano; ele também concorda em ler o texto a partir da
				linha 5 (Lucas 18,10) como a primeira maiúscula pedia, mas, diante da ausência da
				introdução original que ficara esquecida nas primeiras linhas, escreve uma
				introdução própria que, segundo seu ponto de vista, tornaria a leitura pública mais
				apropriada. Esse tipo de negociação entre produtor e leitor, entre ‘protocolo’ e
				‘prática de leitura’, reaparece na segunda intervenção deste leitor no fólio 151
				verso (<xref ref-type="fig" rid="f5">Figura 5</xref>):</p>
			<p>
				<fig id="f5">
					<label>Figura 5</label>
					<caption>
						<title>Detalhe da segunda marca acrescida pelo leitor ao fólio 151
							verso</title>
					</caption>
					<graphic xlink:href="0102-0269-rf-41-02-00235-gf5.png"/>
					<attrib>Fonte: Fundação Biblioteca Nacional (2015)</attrib>
				</fig>
			</p>
			<p>Desta vez o que se tem é o acréscimo de “tel” no meio do texto na linha 22, a mesma
				que já era marcada pela presença da segunda maiúscula da página (o
					<italic>ýpsilon</italic>). Trata-se de uma abreviação de te,loj, que significa
				‘fim’.</p>
			<p>Esse tipo de marca é muito comum nos manuscritos bíblicos medievais e também
				acom-panha o uso dos lecionários. Era comum que os leitores dos manuscritos
				marcassem os pontos de início e fim dos textos que seriam lidos nos rituais
				litúrgicos com as palavras gre-gas avrch. (início) e te,loj (fim), as quais podiam
				aparecer em forma abreviada (<xref ref-type="bibr" rid="B12">METZGER, 1992</xref>).
				E isso já explica de que se trata a inclusão de “tel” na linha 22 do fólio 151
				verso. A delimitação feita pelo escriba com o acréscimo de uma letra maiúscula antes
				do texto é imprecisa. Na linha 22 a maiúscula indica apenas a linha em que um texto
				termina, mas o leitor ainda terá que descobrir por conta própria em que ponto da
				linha a unidade textual realmente chega a termo. Foi reagindo a isso que o leitor
				que manuseou o códice 2437 em-pregou um recurso mais preciso, escrevendo FIM no
				ponto exato em que a leitura da parábola deveria terminar.</p>
			<p>O códice 2437 é, portanto, um terreno marcado por diferentes momentos na história da
				leitura bíblica. Ele traz o Evangelho de Lucas, acrescentando-lhe sinais gráficos
				que evidenciam uma longa trajetória de usos ligados às instituições religiosas. Na
				atividade dos copistas, os evangelhos canônicos eram reproduzidos - mas também
				interpretados, segmentados, sele-cionados e aplicados - de maneiras específicas. E o
				códice não pôde, como se viu, manter sua aparência original com o passar dos anos; o
				tempo lhe impôs cicatrizes e (sem considerar os processos de restauração mais
				recentes) nele se encontram as marcas de seus usos, os quais indicam,
				principalmente, sua presença em cerimônias litúrgicas. Além disso, dentre esses
				sinais muitos corrigem ou aperfeiçoam os mais antigos, revelando a evolução dos
				interesses e necessidades em torno de um mesmo objeto. História tão complexa faz
				lembrar que não se está lidando com um simples livro, mas com um objeto que os
				homens que o produziram e manusearam consideraram sagrado e que os pesquisadores do
				século XXI devem ao menos considerar um importante artefato da cultura material
				humana.</p>
		</sec>
		<sec sec-type="conclusions">
			<title>Conclusão</title>
			<p>Conforme já salientado, a originalidade deste trabalho não reside na escolha do
				códice 2437 como objeto de estudo. Deveras, julga-se que sua importância se deve ao
				emprego de um referencial teórico particular, pautado nos trabalhos de um
				historiador da cultura (Roger Chartier) que conduziu à busca de
					<italic>protocolo</italic> e <italic>prática de leitura</italic> nas linhas
				desse manuscrito. Por isso este estudo dedicou muito mais atenção às marcas impostas
				ao texto bíblico por sujeitos históricos anônimos e medievais do que aos trabalhos e
				intenções do autor do Evangelho de Lucas ou Jesus. Neste caso, o empenho se deu
				especialmente sobre o título escrito no cabeçalho do fólio 151 verso, sobre duas
				letras maiúsculas acrescidas à margem esquerda do texto e suas funcionalidades, e
				sobre as anotações pouco legíveis feitas na mesma página num momento posterior.</p>
			<p>Das análises feitas do fólio 151 verso e dos elementos acima listados, conclui-se que
				há um <italic>protocolo de leitura</italic> bastante peculiar inscrito na
				materialidade do texto. Esse <italic>protocolo</italic> procura conduzir o leitor a
				ler na página apenas a parábola de Lucas 18.10-14, ignorando as linhas iniciais e
				finais que ali se encontram. Trata-se de uma leitura seletiva, de uma segmentação
				artificialmente imposta ao texto bíblico. Esse ‘protocolo’ também quer conduzir o
				leitor a se lembrar da parábola contada pelo personagem Jesus a partir de seus dois
				perso-nagens, o que, segundo a presente interpretação, obscurece o acento temático
				originalmente dado à parábola do evangelho. Por fim, o <italic>protocolo de
					leitura</italic> também reduz a presença me-diadora do narrador do evangelho,
				dedicando toda a atenção às palavras que o próprio texto atribui a Jesus.</p>
			<p>Além dessas, outras conclusões foram alcançadas pelo estudo das poucas marcas
				deixadas no fólio 151 verso por um suposto leitor. Já se afirmou aqui que a leitura
				praticada foi seletiva e aparentemente seguiu as delimitações sugeridas pelo
				escriba, mas também se nota que o tal leitor acabou por acrescentar uma nova e breve
				introdução narrativa à parábola, em substituição àquela que o texto bíblico
				originalmente trazia. Esse leitor reafirmou o acento figurativo dado à parábola pelo
				título do copista, contudo, deu-lhe ainda mais espaço ao reproduzi-lo na margem. Ele
				também acrescentou algumas letras na linha 22, a fim de apontar com mais precisão o
				limite da parábola e provavelmente da leitura pública que faria no 17º domingo do
				seu calendário religioso. Ou seja, as marcas deixadas por esse leitor são evidências
				de que o <italic>protocolo de leitura</italic> opera sua coerção sobre o leitor,
				embora não seja capaz de suprimir a criatividade dos leitores de carne e osso quando
				em contato com o livro em suas peculiares <italic>práticas de leitura</italic>.</p>
			<p>Diante disso tudo, fica claro que o códice aqui analisado não está sendo visto apenas
				como mais uma cópia dos evangelhos. Hoje ele é um livro único, em que as formas
				dadas e as inter-venções do escriba procuram gerar uma experiência de leitura única,
				e onde a presença da marginália de um leitor desconhecido indica a relação do livro
				com a vida humana, com a cultura letrada no interior de uma tradição religiosa
				cristã. É por isso que não se anunciou no começo do artigo um estudo da tradição
				bíblica manuscrita, mas, de maneira bem mais específica, o estudo de um códice
				único, que é conhecido pelo número 2437, e de um fólio único, o 151 verso.</p>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<ref-list>
			<title>Referências</title>
			<ref id="B1">
				<mixed-citation>CAVALLO, G.; CHARTIER, R. (Org.). <italic>História da leitura no
						mundo ocidental</italic>. São Paulo: Ática, 1998. v.1,
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							<surname>CAVALLO</surname>
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							<surname>CHARTIER</surname>
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					<source>História da leitura no mundo ocidental</source>
					<publisher-loc>São Paulo</publisher-loc>
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					<fpage>129</fpage>
					<lpage>145</lpage>
					<year>2010</year>
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				<mixed-citation>FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL. Fólio 151 verso. Rio de Janeiro:
					Biblioteca Nacional, 2015.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
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						<collab>FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL</collab>
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					<year>2015</year>
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				<mixed-citation>HORSLEY, R.A. <italic>Jesus e a espiral da violência</italic>:
					resistência judaica popular na Palestina romana. São Paulo: Paulus, 2010.
					p.188.</mixed-citation>
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							<surname>HORSLEY</surname>
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						popular na Palestina romana</source>
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				<mixed-citation>JACKSON, H.J. <italic>Marginalia</italic>: readers writing in books.
					New Haven: Yale University Press, 2001. p.6.</mixed-citation>
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							<surname>JACKSON</surname>
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					<year>2001</year>
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			<ref id="B10">
				<mixed-citation>LIMA, A.O. A história da cultura escrita e suas possíveis
					contribuições à interpretação bíblica contemporânea. <italic>Revista de História
						Comparada</italic>, v.9, n.2, p.18-35, 2015.</mixed-citation>
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					<article-title>A história da cultura escrita e suas possíveis contribuições à
						interpretação bíblica contemporânea</article-title>
					<source>Revista de História Comparada</source>
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					<lpage>35</lpage>
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			<ref id="B11">
				<mixed-citation>MARGUERAT, D.; BOURQUIN, Y. <italic>Para ler as narrativas
						bíblicas</italic>: iniciação à análise narrativa. São Paulo: Loyola, 2009.
					p.43.</mixed-citation>
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			<ref id="B12">
				<mixed-citation>METZGER, B.M. <italic>Manuscripts of the Greek Bible</italic>: An
					introduction to Greek Paleography. New York: Oxford University Press, 1992.
					p.43.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
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						Greek Paleography</source>
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			<ref id="B13">
				<mixed-citation>PINHEIRO, A.V. O evangelho manuscrito em grego existente no acervo
					da Biblioteca Nacional Brasileira: aspectos codicológicos. In: ANAIS da
					Biblioteca Nacional (1998). Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional , 2002. v.118,
					p.7-33.</mixed-citation>
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					<source>O evangelho manuscrito em grego existente no acervo da Biblioteca
						Nacional Brasileira: aspectos codicológicos</source>
					<comment>NAIS da Biblioteca Nacional(1998)</comment>
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					<fpage>7</fpage>
					<lpage>33</lpage>
				</element-citation>
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			<ref id="B14">
				<mixed-citation>SARAIVA, M.O.Q. <italic>O Evangelho de Lucas no manuscrito grego da
						Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro</italic> (<italic>cód. 2437</italic>):
					edição e glossário. Tese (Doutorado em Linguística Teórica e Descritiva) -
					Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2011. p.48,
					234.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="thesis">
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					<source><italic>O Evangelho de Lucas no manuscrito grego da Biblioteca Nacional
							do Rio de Janeiro</italic> (<italic>cód. 2437</italic>): edição e
						glossário</source>
					<comment content-type="degree">Tese (Doutorado em Linguística Teórica e
						Descritiva)</comment>
					<publisher-name>Universidade Federal de Minas Gerais</publisher-name>
					<publisher-loc>Belo Horizonte</publisher-loc>
					<year>2011</year>
					<fpage>48</fpage>
					<lpage> 234</lpage>
					<page-range>48, 234</page-range>
				</element-citation>
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			<ref id="B15">
				<mixed-citation>WEGNER, U. <italic>Exegese do Novo Testamento</italic>: manual de
					metodologia. São Leopoldo: Sinodal, 1998. p.84, 281.</mixed-citation>
				<element-citation publication-type="book">
					<person-group person-group-type="author">
						<name>
							<surname>WEGNER</surname>
							<given-names>U.</given-names>
						</name>
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					<source><italic>Exegese do Novo Testamento</italic>: manual de
						metodologia</source>
					<publisher-loc>São Leopoldo</publisher-loc>
					<publisher-name>Sinodal</publisher-name>
					<year>1998</year>
					<fpage>84</fpage>
					<lpage> 281</lpage>
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				</element-citation>
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		</ref-list>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>Este trabalho foi produzido como parte da pesquisa de pós-doutorado em Ciências
					da Religião que o autor empreende na Pontifícia Universidade Católica de
					Campinas com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
					Superior.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>3</label>
				<p>A maioria dos manuscritos antigos conhecidos do Novo Testamento estão entre esses
					minúsculos dos séculos IX a XVI. O minúsculo mais antigo de que se tem
					conhecimento é o códice 461, do ano 835 (SARAIVA, 2011, p.23).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>4</label>
				<p>Maria do Céu Estibeira define marginália dizendo: “O termo
						<italic>marginalia</italic>, do adjetivo latino <italic>marginalis</italic>,
					significando ‘à margem de’, refere-se, portanto, aos comentários ou às notas
					escritas nas margens ou noutros espaços em branco junto do texto de uma página
					impressa, nas folhas em branco ou nas folhas de guarda de um livro e foi
					importado de Coleridge, o qual veio a revelar-se um mestre exímio desta técnica
					e a tornar-se numa referência na história da anotação” (ESTIBEIRA, 2010,
					p.130).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>5</label>
				<p>O autor deste estudo agradece ao colega Jairo Paes Cavalcante Filho por sua
					decisiva contribuição com esta pesquisa, mediante a decifração de várias notas
					marginais presentes no códice 2437.</p>
			</fn>
		</fn-group>
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