Editorial

Religião e ciência: tensões e diálogo

Paulo Sérgio Lopes GONÇALVES *
Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Brasil

Religião e ciência: tensões e diálogo

Revista Reflexão, vol. 43, núm. 1, pp. 3-9, 2018

Pontifícia Universiade Católica de Campinas

Recepção: 21 Agosto 2018

Aprovação: 21 Agosto 2018

Objetiva-se neste texto apresentar brevemente este número da revista “Reflexão” de temática “Religião e ciência: tensões e diálogo”. Justifica-se o projeto desta Seção Temática por tratar de um tema historicamente marcado paradoxalmente por tensões e esforços para o diálogo. Esse paradoxo se deve historicamente de um lado, ao fato de que ambas as instâncias se pretenderam absolutas e portadoras únicas da verdade sobre o mundo e o homem. De outro lado, ambas reconhecem seus limites e o potencial de complementaridade por meio do diálogo, compreendido como um processo comunicativo, que resulta em consenso e em contribuições mútuas.

Para que se tenha clareza da relação entre essas instâncias, torna-se necessário que se defina cada uma delas, embora a definição seja sempre plausível de críticas e de aperfeiçoamento epistemológico. Na busca de uma definição de ambas as instâncias, defrontamo-nos com a pluralidade conceitual, desenvolvida na respectiva história de conceituação epistêmica (PETERS; BENNETT, 2003). No entanto, quando pensamos em religião e ciência separadamente, temos a incumbência de buscar um núcleo norteador dos diversos conceitos de cada uma dessas instâncias. Nesse sentido, cremos que a concepção de experiência é de fundamental importância tanto à religião quanto à ciência. Trata-se de uma concepção que Dilthey (1970) desenvolveu com maestria ao distinguir Erfahrung de Erlebnis. O primeiro termo corresponde à sinonímia de Empiria, o que pode ser comprovado física e materialmente. Sua aplicação se situa nas Ciências Naturais – Natürwissenchaft –, e alinha a sua respectiva epistemologia. O segundo refere-se às vivências humanas, aos sentimentos, à vida vivida em toda a sua intensidade psíquica e espiritual; a aplicação deste termo se efetiva nas Ciências do Espírito – Geistenwissenchaft –, ou Ciências Humanas, em cuja epistemologia a vida vivida, em termos emocionais e racionais, torna-se fundamental à elaboração das teorias científicas.

A aplicação do conceito de experiência, especialmente como Erlebnis, à religião conduz-nos à reflexão referente à experiência religiosa, já que o termo “re-ligare” permite-nos pensar na relação que o ser humano possui com Deus. Aliás, esse nome – Deus –, indica algo que não se pode mensurar empiricamente, embora Tetens (2017) tenha mostrado que é possível elaborar uma teologia racional, fundada em uma metafísica que une matéria e espírito, por conseguinte, materializando o espírito e espiritualizando a matéria. De qualquer modo, quando pensamos a religião a partir do conceito de experiência, o fazemos a partir de nossas vivências, ainda que provenham de nossa inserção em uma instituição religiosa. Nesse sentido, a instituição religiosa formaliza a experiência, mediante as rubricas de seus ritos, concedendo à respectiva liturgia um espaço para que o homem entre em contato com o que se denomina de “Sagrado” – “Das Heilige” (OTTO, 1979). Essa experiência se ritualiza e se internaliza no sujeito religioso mediante prescrições morais e regras de conduta que sejam condizentes com a experiência religiosa efetivada.

Não obstante a sua ritualização, a experiência religiosa possui rastros de ultrapassagem dos respectivos ritos, de modo a possibilitar a experiência paradoxal do “Mysterium Tremendum et Fascinans”, pelo qual o homem religioso treme e teme ao sentir Deus, mas não se esconde dele, sentindo-se também atraído e fascinado pelo “Sacro” (ALES BELLO, 2014) que lhe advém. Trata-se de uma experiência em que o homem se utiliza de elementos rituais para realizá-la, mas que também introduz nela elementos que lhe são próprios de sua condição de sujeito religioso. É aqui que se situa a experiência religiosa como experiência do “Mistério Santo e Inefável” (PASTOR, 1986) do que chamamos Deus, de um mistério que não coincide com segredo, mas com o que estava absconditus e que ora se tornou revelatus.

A ciência é também nucleada pela concepção de experiência, consagrada como empiria na modernidade, propiciando a emergência do debate sobre o método, que encontra em René Descartes o representante o idealismo e em David Hume o representante do empirismo. Desse modo, para Descartes o conhecimento é inato ao sujeito, sendo o objeto reflexo do conhecimento oriundo do sujeito que conhece. Para Hume, o conhecimento se situa no objeto, sendo o sujeito reflexo do objeto que é imbuído do conhecimento. Mesmo aquelas ideias que não existem empiricamente, como, por exemplo, cavalo alado, são ideias empíricas. Pois temos a experiência de associar ideias, então tomamos a experiência que temos de cavalo e a unimos com a experiência de temos de pássaros. Essas duas experiências juntas fundam a ideia que temos de cavalo com asas. A empiria tornou-se o fundamento para a constituição do que se denomina ciência moderna, cujo método é marcado por três momentos fundamentais: hipótese, observação e verificação dos resultados que necessariamente são comprovados empiricamente. Disso resultou que a ciência é a instância da comprovação real das hipóteses, sendo a realidade equiparada ao que é empírico. A ciência assumiu um papel messiânico, de acordo com a concepção de Comte (1991), segundo o qual a ciência seria o estágio derradeiro e que resolveria os problemas humanos, após a humanidade ter passado por dois estágios: o religioso e o filosófico. No primeiro, as pessoas acreditavam em seres sobrenaturais que possuíam o poder de intervenção na natureza e até mesmo nas decisões humanas. No segundo, as pessoas tinham na sabedoria a sua amiga por excelência, de que se fazia necessário contemplá-la seja no âmbito do mundo das ideias, considerado perfeito e imperecível, seja no mundo da realidade, em que o homem a contemplava e a buscava na prática das virtudes, principalmente na bondade, na justiça e na prudência. No estágio científico, que é o principal e último, a humanidade terá ordem e progresso em sua organização social e em seu modo de viver, pois a ciência assume um positum real e a partir dele as experiências podem ser feitas e comprovadas incontestavelmente. Nesse sentido, a função que possuía a religião, em sua condição de eixo articulador da sociedade e das relações interpessoais, passa a dar lugar para a ciência. Esta é a nova religião instaurada na modernidade e se constitui capaz de resolver todos os problemas humanos.

A partir dessa concepção comteana, os conflitos entre religião e ciência, que historicamente já existiam, passaram a ter maior intensidade. Um grande exemplo disso, é a teoria da evolução, em que Darwin e seus seguidores acreditavam que o universo e tudo o que nele existe é fruto de um processo de evolução, marcado pela seleção, mutação e adaptação das espécies. Desse modo, consagrava à própria natureza do universo o poder de seu próprio surgimento e dinamismo evolutivo, de modo que não é necessário creditar a Deus o poder de criar o universo e os seres humanos. Além disso, não nos esqueçamos que a ciência moderna se desenvolveu de tal modo que passou a influir não apenas na biologia, mas também na medicina, principalmente na concepção de morte e na utilização da tecnologia para superar situações difíceis, trazendo à tona a possibilidade de transplantes de órgãos. Ademais, essas duas áreas científicas tiveram profundas mudanças, surgindo áreas similares, tais como a neurobiologia, a psicologia clínica e a fisioterapia (POLKINGHORNE, 2000).

A despeito da concepção de empiria ser fundamental na ciência, a concepção de Erlebnis não deixou de ter sua influência. Conforme afirmado acima, Dilthey associou esta noção às ciências do espírito – ciências humanas –, valorizando as vivências como núcleo da experiência científica. Nesse sentido, as experiências de vida compreendida em sua totalidade são de fundamental importância para esta concepção de ciência. Não há ciência sem que haja teorização sobre as experiências vividas pelos seres humanos, em seu modo de compreender e interpretar o mundo em que vive. Trata-se de efetivar um processo hermenêutico em que o próprio cientista possui uma pré-compreensão do que irá compreender, em função de suas vivências históricas ou história de vida – história sempre marcada pela historicidade humana. Ele se lança num círculo de compreensão que o faz encontrar-se com outros sujeitos e fazer outras experiências de vida, para então encontrar interpretativamente o sentido do que se pretende compreender. Por isso, a ciência é também marcada pela hermenêutica, que a desloca de um pretenso saber empírico absoluto para um saber interpretativo, sempre aberto a novas investigações e a novas expressões de verdade, e com espírito de busca da verdade, constituído de diálogo e de fusão de horizontes (GADAMER, 2003).

A relação entre religião e ciência é constituída de conflitos e de busca de harmonia. Os conflitos surgiram quando ambas as instâncias se pretenderam absolutas e imbuídas da verdade em sua plenitude de expressão. Desse modo, Dawkins (2007) considerou “Deus um delírio”, em cujo livro homônimo afirma que a ciência pretende explicar todas as coisas e a existência de Deus é algo que não se pode provar pelas teorias científicas, concentradas em cálculos matemáticos e na física moderna. Também Hitchens (2007) entendeu que “deus não é grande” ao analisar jornalisticamente as religiões e constatar violência em seus ritos, produção de guerras por proselitismo de crenças, absolutismo em suas prescrições dogmáticas e morais. Por sua vez, a religião que jamais abdicou da razão em articulação com a fé, mas que teve dificuldades para dialogar com a modernidade, sobretudo em sua vertente monoteísta, em função de defender a teoria do Deus criador, teve momentos de refutação da ciência, especialmente quando a ciência trazia à tona questionamentos sobre dogmas e prescrições morais afirmadas religiosamente. A despeito dessas posições, consideremos que a religião e a ciência são instâncias distintas epistemológica e teleologicamente, e, portanto, devem ser separadas. Nesse sentido, a religião não possui o empirismo como seu núcleo fundamental, mas a experiência do sobrenatural e de um mistério que envolve uma entrega pessoal, e que impede certezas objetivas e alude à necessidade de permanecer tão somente no âmbito da interior subjetividade.

A busca de harmonia na relação entre religião e ciência é fundamentalmente o reconhecimento da respectiva autonomia de cada instância e da possibilidade de contribuição mútua e complementaridade entre elas. Assim sendo, as instâncias reconhecem o valor uma da outra e a possibilidade de contribuição mútua, em função de que se constituem em instâncias simultaneamente autônomas e abertas à possibilidade de diálogo. Nesse sentido, o advento da secularização, ainda que em um primeiro momento parecesse ser espaço de acirramento do conflito, tornou-se importante espaço para a inserção da religião no mundo, influenciando-o e recebendo também a respectiva influência. Por isso, é possível afirmar que a secularização é a outra face da religião, em que os valores religiosos tornaram-se passíveis de vivência sem necessariamente serem relacionados diretamente a alguma instituição religiosa. Essa perspectiva torna-se plausível se considerarmos a sentença nietzscheniana acerca da “morte de Deus”, pela qual é criticada a metafísica tanto do discurso religioso quanto do discurso da ciência moderna, possibilitando assim a emergência da filosofia – ou ontologia –, hermenêutica (GONÇALVES, 2014).

Mediante a filosofia hermenêutica torna-se possível que religião e ciência se aproximem, reconhecendo as suas respectivas demarcações epistemológicas e o respectivo potencial de efetivação das contribuições mútuas. Essa aproximação haverá de mensurar a disposição de cientistas e religiosos em fazerem com que o processo de aproximação e contribuição mútua seja realizado, de medir também o espaço de autonomia e o que é necessário mudar em cada instância. Nesse sentido, só poderá haver harmonia entre religião e ciência se houver uma perspectiva filosófica que possibilite um processo hermenêutico de compreensão das realidades da religião e da ciência. Por realidades, entendemos as teorias religiosas e científicas, o construto social dessas instâncias, a linguagem denotativa do ser de cada uma delas, as estruturas político-sociais que subjazem tanto na religião quanto na ciência.

Diante do exposto sobre conflitos e harmonia entre religião e ciência, é possível afirmar que, de um lado, os conflitos só permanecerão se as posturas de ambas as partes forem de pretensão ao absolutismo acerca da verdade e da respectiva forma de apresentar-se no mundo. De outro lado, somente mediante a compreensão e a mensuração epistemológica das realidades da religião e da ciência será possível a convivência harmoniosa, não isenta de conflitos oriundos de divergências ocorridas em função da especificidade e autonomia de cada instância. Eis aqui o espírito que permeia este Dossiê, cujo objetivo é refletir sobre a relação entre religião e ciência, considerando suas tensões e seus canais de diálogo.

Este número da revista Reflexão está dividido em duas seções de artigos: Seção Temática “Religião e Ciência” e temas diversos. Na Seção Temática, encontramos quatro artigos. O primeiro, intitulado “Pertinência Epistemológica da relação entre Religião e Ciência”, escrito por Eduardo Rodrigues da Cruz, docente da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, tem por objetivo debater a relação entre religião e ciência, mediante a avaliação epistemológica das respectivas “im-pertinências” e das pertinências, considerando o conceito de verdade em ambas as instâncias e o substrato teórico da teologia, da epistemologia científica e da filosofia, além da incursão na pertinência social, uma vez que essas instâncias são construtos sociais. O segundo artigo, intitulado “Elétrons, Sherlock Holmes, Deus e a Secularização”, escrito por Agnaldo Cuoco Portugal, docente da Universidade de Brasília, tem por objetivo analisar a relação entre religião e ciência mediante as questões semânticas e epistemológicas envolvidas em tal relação. Para isso, o autor pressupõe que há importantes semelhanças entre os problemas de compreensão de termos científicos e religiosos, e no raciocínio que permite avaliar a justificação de teses em ciência e religião, como formas de sustentar sua respectiva compreensão realista e uma semântica literal desses termos. A partir desse pressuposto e de seu objetivo, o autor trata o assunto colocando em relação os termos “elétron” e “Deus”, conforme o realismo científico e o teísmo tradicional. O terceiro artigo é intitulado “Tensões e rupturas ente contribuição da reflexão dos teólogos católicos e a Bioética: perspectiva históricas”, escrito por Evandro Arlindo de Melo, do Instituto Sapientia de Filosofia e por Mario Antônio Sanches, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, e tem por objetivo analisar as tensões e as rupturas realizadas historicamente entre teólogos católicos e a Bioética. Para atingir este objetivo, os autores tomam a referência teológica e a analisam em três momentos de sua relação com a Bioética: a presença marcante da teologia nos momentos que definiram a Bioética como disciplina; o distanciamento crítico da Bioética em sua constituição secular; e a tensão surgida a partir da carta encíclica Veritatis Splendor. Dessa análise histórica, resulta a apresentação acerca da inserção da teologia em temas de Bioética e a abertura dela, ainda que secular, para as questões trazidas pela teologia, havendo então paradoxalmente tensões e contribuições mútuas. O quarto artigo, intitulado “Educação católica, ciências e educação: a urgência do Instrumentum Laboris”, escrito por Samuel Mendonça, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, tem por objetivo analisar como o Instrumentum Laboris, que precedeu a constituição apostólica Veritatis Gaudium do Papa Francisco, relaciona ciência e educação. Para atingir seu objetivo, o autor levanta a pergunta: Em que medida há sentido trabalhar com o Instrumentum Laboris para se colocar a questão da educação no debate com a ciência? A resposta a essa pergunta tem como ponto de partida a superação de uma ciência fragmentária para a edificação de uma educação integral, com centralidade antropológica, com abertura ao diálogo da fé com a cultura contemporânea e com um movimento em que a ciência há de servir à educação de um ser humano de múltiplas dimensões, fundamentalmente histórico e transcendente.

Na seção de temática livre, encontramos seis artigos. O primeiro, intitulado “Corpo e Sexualidade na Gaudium et Spes 49 a 51: uma interlocução com Merleau-Ponty e García Rubio”, é escrito por Gilberton Dias Nunes, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, e por José Aguiar Nobre, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O objetivo dos autores é analisar a articulação entre corpo e sexualidade na filosofia de Merleau-Ponty e na antropologia teológica de García Rubio, e realizar interlocução com a constituição pastoral Gaudium et Spes em seus números 49 a 51, em que se afirma um ser humano integral, de corpo e alma ou corpo e consciência, de modo que o ser humano é apresentado em sua unitariedade espiritual e corpórea. O segundo artigo, intitulado “Problematização filosófica e científica: a ciência moderna e sua relação fundamental com a natureza”, é escrito por Écio Elvis Pisetta, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O objetivo do autor é um ensaiar um diálogo filosófico mínimo com as ciências naturais, de modo a surpreender-se com o próprio modo de investigação. Para atingir seu objetivo, suscita a pergunta: o que não é pensado permanentemente na relação fundamental que a ciência moderna mantém com a natureza? Para responder a esta pergunta, o autor se utiliza da filosofia para contribuir com a ciência em algo que esta não pode ter sozinha; algo impensado e que somente pode ser pensado filosoficamente na subjacência da ciência.

O terceiro artigo da seção se intitula “A moral lockeana entre a razão e a revelação”, escrito por Ramiro Marinelli Duarte, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, e tem por objetivo analisar a questão da moral no interior da relação entre razão e revelação, conforme o pensamento de John Locke. Para atingir o seu objetivo, o autor analisa a questão em algumas partes da obra de Locke, especialmente o livro II do Ensaio, inferindo a racionalidade da moral, cuja contribuição provém também da revelação cristã. O quarto artigo intitulado “Contribuições de Heidegger para a via do pensamento meditativo”, escrito por Paula Renata de Campos Alves, do Instituo Federal de Minas Gerais, tem por objetivo refletir a respeito desse tipo de prática por meio do pensamento desse supramencionado autor. Para atingir seu objetivo, a autora toma o Heidegger que desenvolveu o seu pensamento a partir da década de 1940, quando já havia atingido a teoria da Ereignis – acontecimento apropriativo –, destacando os diálogos-texto que tiveram lugar num caminho do campo (1944-1945), de uma conversa sobre a linguagem entre um japonês e um pensador (1953-1954) e o texto da Serenidade (1955). Ao distinguir heideggerianamente o pensamento meditativo do pensamento calculador, que seria o raciocínio científico, a autora assume o primeiro e o coloca em relação dialógica com pensamento oriental, especialmente a escola de Kyoto, evidenciando a formulação de um “pensamento meditativo”.

O quinto artigo da seção é intitulado “A beata Maria de Araújo nos simpósios internacionais sobre o padre Cícero: traços de uma protagonista invisibilizada”, escrito por Ercília Maria Braga de Olinda, da Universidade Federal do Ceará e Maria Paula Jacinto Cordeiro, da Universidade Regional do Cariri, e tem por objetivo analisar cientificamente o modo como foi tratada a beata Maria de Araújo nos trabalhos apresentados nos simpósios internacionais sobre o padre Cícero, ocorridos entre 1989 e 2014. Para atingir esse objetivo, as autoras partem do evento do “milagre da hóstia”, em que a referida beata teria comungado das mãos do padre Cícero e a respectiva hóstia teria se transformado em sangue na boca da beata. Segundo elas, com o passar dos anos, o evento não visualizou Maria de Araújo nas interpretações e concepções de santidade que envolveram os fatos. Para a realização da pesquisa, as autoras selecionaram material – conferências, painéis e comunicações –, mediante a estruturação de análise textual discursiva, resultando em um fluxo temático pertinente e relevante à pesquisa histórica, psicológica e fenomenológica. O último artigo intitulado “Calvino e o trato com os hereges em Genebra”, escrito por Armando Araújo Silvestre, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, tem por objetivo compreender contextualmente a pessoa de Calvino. Para atingir o seu propósito, o autor analisa casos polêmicos ocorridos em Genebra, levados a cabo no “Pequeno Concílio” que administrava a referida cidade. Destaque para as situações relativas aos hereges, que mereceram análise de como procedeu Calvino, especialmente com personagens como Bolsec, Castellion, Serveto e um suicida.

Enfim, neste número a revista “Reflexão” o leitor será levado a pensar na relação entre religião e ciência, e a passear em temas diversos que se situam na área Ciências da Religião e Teologia, como forma de levar a cabo a pesquisa no âmbito da pós-graduação. No entanto, cabe acentuar a presente Seção Temática como forma de suscitar o debate sobre a relação entre religião e ciência, apresentando suas tensões e sua possibilidade diálogo, compreendido como um processo comunicativo que traz à tona contribuições mútuas. Nossa posição jamais será pelo absolutismo da refutação mútua, pelo fato de que análise epistemológica provoca à aproximação, ao diálogo e às contribuições mútuas, sem isenção de conflitos, mas sempre requerendo espírito de humildade e de abertura ao novum, tão apropriado tanto à religião quanto à ciência.

Referências

ALES BELLO, A. Il senso del Sacro: Dall’aicarcità alla desacralizzazione. Roma: Castelvecchi Lit Edizioni, 2014.

COMTE, A. Curso de filosofia positiva. In: COMTE, A. Auguste Comte. São Paulo: Abril Cultural, 1991. p.1-40. (Os Pensadores).

DAWKINS, R. Deus, um delírio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

DILTHEY, W. Der Aufbau der geschichtlichen Welt in den Geisteswissenchaften. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1970.

GADAMER, H.-G. Verdade e método: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Petrópolis: Vozes, 2003. v.1.

GONÇALVES, P.S.L. Qual é o locus de Deus: no túmulo ou no homem? A religião à luz da fenomenologia ou ontologia hermenêutica heideggeriana. Numen: Revista de Estudos e Pesquisa da Religião, v.17, n.2, p.224-250, 2014.

HITCHENS, C. Deus não é grande: como a religião envenena tudo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007.

OTTO, R. Das Heilige: Über das irrationale in der idee des Göttlichen und sein Verhältnis zum Rationalem. München: Ch. Beck, 1979.

PASTOR, F.A. La Lógica de lo Inefable: Una teoría teológica sobre el lenguaje del teísmo Cristiano. Roma: PUG, 1986.

PETERS, T.; BENNETT, G. Construindo pontes entre a ciência e a religião. São Paulo: Editora Unesp, 2003.

POLKINGHORNE, J. Ciencia y teología: una introducción. Santander: Sal Terrae, 2000.

TETENS, H. Pensar a Dios: Un ensayo de teología racional. Salamanca: Sígueme, 2017.

Como citar este artigo/How to cite this article

GONÇALVES, P.S.L. Religião e ciência: tensões e diálogo. Reflexão, v.43, n.1, p.3-9, 2018. Editorial. http://dx.doi.org/10.24220/2447-6803v43n1a4333

Autor notes

* R. Professor Doutor Euryclides de Jesus Zerbini, 1516, Parque Rural Fazenda Santa Cândida, 13087-571,Campinas, SP, Brasil. E-mail: <paselogo@puc-campinas.edu.br>..

HMTL gerado a partir de XML JATS4R por