Artigos: Temática Livre
Recepção: 28 Fevereiro 2018
Revised document received: 17 Junho 2018
Aprovação: 29 Junho 2018
DOI: 10.24220/2447-6803v43n1a4186
RESUMO: O propósito deste artigo é o de ensaiar diálogo filosófico mínimo com as Ciências Naturais e, ao mesmo tempo, surpreender-se com nosso próprio modo de investigação. A situação dominante de nosso tempo nos convida à reflexão quando perguntamos: o que permanece impensado na relação fundamental que a ciência moderna mantém com a natureza? A elucidação deste elemento impensado não cabe a nenhuma ciência em sentido moderno em consonância com autores como Heidegger, Ortega y Gasset e Nicolescu. O desafio aqui é tornar razoavelmente visível, por meio de uma problematização filosófica, esta situação. Ora, na problematização filosófica acontece algo que não se esgota em nenhuma espécie de solução. Almeja-se, então, recuperar o caráter problemático, criativo, complexo, aberto, singular e maravilhoso da Filosofia enquanto experiência de pensamento e nunca enquanto alguma especialidade de pesquisa ao lado de tantas outras. Abordar-se-á a relação científica com a natureza, a positividade das ciências, a problematização científica e filosófica e, por fim, alguns limites da problematização científica.
Palavras-chave: Ciência, Filosofia, Heidegger, Natureza, Problematização.
ABSTRACT: The aim of this article was to establish minimal philosophical dialogue with Natural Sciences and, at the same time, to be impressed by human inquiry itself. The present dominant situation invites people to reflect upon the question: what remains unthought of regarding the fundamental relationship between modern science and nature? The elucidation of this unthought element does not belong to any science in the modern sense in accordance with Heidegger, Ortega y Gasset and Nicolescu. The challenge is to make this situation reasonably visible through philosophical problematization. Now, something in philosophical problematization is not exhausted by any kind of solution. The objective is, therefore, to recover the problematic, creative, complex, open, singular and wonderful character of philosophy as an experience of thought and never as some research specialty alongside so many others. The approach is the scientific relationship with nature, the positivity of sciences, the scientific and philosophical problematization, and, finally, limitations of scientific problematization.
Keywords: Science, Philosophy, Heidegger, Nature, Problematization.
Introdução
Nosso propósito é o de ensaiar diálogo filosófico mínimo com as Ciências Naturais e, ao mesmo tempo, surpreender-se com nosso próprio modo de investigação. A situação dominante em nosso tempo convida à reflexão quando perguntamos: o que permanece impensado na relação fundamental que a ciência moderna mantém com a natureza? O desafio é tornar razoavelmente visível, por meio de uma problematização filosófica, esta situação fundamental. Ora, na problematização filosófica acontece algo que não se esgota em nenhuma espécie de solução. Almejamos recuperar o caráter problemático, criativo, complexo, aberto, singular e maravilhoso da Filosofia enquanto experiência de pensamento e nunca enquanto alguma especialidade de pesquisa ao lado de tantas outras. Será que, com isso, filosofaremos? Será que em algum momento seremos capturados pela estranheza e singularidade desta atividade?
Balizaremos nossas ponderações levando em conta observações de poucos autores, excluindo tantos outros que se debruçaram sobre o tema. Esquema de trabalho: A relação fundamental com a natureza na Ciência e na Filosofia; Aproximação à positividade das ciências; Algo mais sobre a problematização filosófica da natureza; A relação fundamental com a natureza: exercício de problematização; Conclusão: a problematização cultiva o espanto primordial.
A relação fundamental com a natureza na ciência e na Filosofia
Dentre outras reflexões, o filósofo alemão Heidegger fala da ciência moderna e de seu poderio em meio ao qual nos encontramos. Indica, sobretudo, o âmbito ontológico fundamental a ser problematizado. De que questionamento se trata? Esta demanda não se confunde com o levantamento de meras e artificiais dificuldades nem com o cultivo de confusões. Muito mais grave é o modo como o ser humano que sempre somos se encontra em meio à realidade atual e de como é possível e/ou desejável uma modificação desta situação. Somente problematizando poderemos conquistar a distância adequada para compreender o que há de essencial.
Mas, para isso, exige-se que avistemos, de um modo preciso, com olhos de ver, o que acima de tudo nos tem presos e nos torna não-livres, na experiência e na determinação das coisas. Trata-se da moderna ciência da natureza, na medida em que ela se tornou, a partir de certos traços fundamentais, a forma geral do pensar. [...]. A questão acerca da nossa relação fundamental com a natureza, acerca do nosso saber sobre a natureza, acerca do nosso saber sobre a natureza enquanto tal, acerca do nosso domínio sobre ela, não é uma questão das ciências da natureza
( HEIDEGGER, 1992, p.55).A questão acerca da relação fundamental com a natureza não é uma questão das Ciências da Natureza. Estas ciências não buscam, grosso modo, explicitar a “relação fundamental” que elas e os seres humanos mantêm com a natureza, isto é, a compreensão previamente aceita e carente de questionamento radical acerca de seu estado de ser. Muito mais importante para elas é a articulação funcional. A moderna Ciência da Natureza aciona “as relações mensuráveis, quantitativas” entre os objetos, segundo as possibilidades inauguradas pela modernidade. Essas relações se mostram exemplarmente na objetividade moderna. Pois bem, a reflexão acerca da relação fundamental acima aludida “é questão em sentido diverso”, são interesse e investigação em sentido estranho ao das ciências da natureza. Diz respeito à “nossa” relação fundamental com a natureza e de como descobrimos o mundo e a nós mesmos.
Então, que espécie de relação é esta? Questões deste tipo – as questões genuinamente filosóficas ou metafísicas –, possuem como um traço seu o fato de problematizarem simultaneamente o ser humano que interroga e o objeto interrogado. Quando se impõem questões dessa espécie? Quando não apenas a natureza “defronte” a nós é investigada, mas, também, o ser humano “despertado” pela sua presença, isto é, “de tal modo que aquele que interroga, enquanto tal, esteja implicado na questão” ( HEIDEGGER, 2008, p.113) Busca-se, então, algo distinto do que uma pesquisa progressiva, calculadora e quantificadora da natureza. A ciência em seu pragmatismo, grosso modo, não tem o interesse de se por a si mesma em questão no sentido já aludido e nem precisa 2. O outro saber a que aludimos recebe tradicionalmente o nome de Filosofia:
[...] um saber que, antes de mais e permanentemente, põe em questão os próprios pressupostos e, desta forma, procura fundamentar. Suportar o ser-digno-de-questão manifesta-se como o único caminho humano para conservar as coisas na sua inesgotabilidade, quer dizer, preservá-las de qualquer falsificação
( HEIDEGGER, 1992, p.72).A busca de fundamentação, própria da Filosofia, não deve ser pensada simplesmente como o esforço para o estabelecimento claro e objetivo dos pressupostos básicos, mais gerais e necessários, sobre os quais erguerá seu saber – embora semelhante compreensão não seja estranha à Filosofia. Investigando os pressupostos de determinado campo de saber –, perguntando pelo seu sentido, validade, extensão, usos – ela os clarifica em seu ser, isto é, a partir daquela situação fundamental geralmente impensada. Semelhante esclarecimento possui o traço de uma recuperação reflexiva dos princípios ou dos fundamentos. Essa recuperação assemelha-se a uma responsabilização intelectual com os princípios a partir dos quais determinado saber se sustenta, conduzindo o ser humano a uma compreensão da realidade (de si e do mundo) completamente distinta daquela que vigora nas ciências positivas 3. Neste nível não cabe mais construir ou estabelecer pressupostos, fundamentos universais ou algo do gênero. Ali cabe um encontro de outra ordem: suportar o ser-digno-de-questão que inclui, em sua dinâmica, tanto o que se mostra quanto o que se vela, se oculta e retrai (i-nesgotável). Nisso encontramos a tarefa da Filosofia: a de conservar e preservar – mediante esta atitude investigativa –, o real em sua inesgotabilidade.
De uma forma que sempre chama a atenção, a própria questão do “ser” – segundo Heidegger –, é investigada em toda outra questão, por exemplo, nas questões levantadas pelas ciências. Esta questão sempre remete aos fundamentos impensados do saber. Quando o pesquisador indaga sobre seu objeto, a resposta nunca será outro objeto que se situe no mesmo nível. Deverá ser sempre algo de outro, não simplesmente objetivável – o ser, a causa, a razão, o universal –, que se encontra além do objeto. Que estranha situação é essa a que está submetido o pesquisador de, ao investigar seu ente temático 4, ser lançado para além dele, para um espaço e um tempo que sua positividade científica não alcança? Mas isto não significa que o cientista veja e entenda deste modo “flutuante” a sua relação com a natureza pesquisada. Para ele, talvez, o fenômeno apenas se deva à carência de melhores pesquisas. Afinal ele se atém ao ente, e além deste, nada mais. Ele se atém ao que é objetivo, fixado segundo leis rígidas e nada mais. E o que ele deseja como resposta à sua indagação “nunca” extrapola o objeto visado. Então, há algo impossível de ser abarcado pela própria ciência “enquanto” ciência?
Estes âmbitos distintos de investigação geram desconforto e conflito. Segundo Heidegger, “nenhum ‘problema’ científico se entende a si mesmo” ( HEIDEGGER, 1987, p.37), já que esta compreensão, a rigor, não pertence às Ciências da Natureza. Que cientista admitiria semelhante afirmação? Afinal, não é o especialista a autoridade na compreensão, explicitação e resolução dos problemas científicos? Não é o matemático o sábio acerca do número? E o biólogo, acerca da vida? Mas a compreensão dos problemas científicos, segundo o filósofo citado, convoca a um saber que não pertence ao modo usual de ser e de pesquisar do cientista. Para Heidegger, a questão acerca da “nossa relação” com a natureza não é uma questão científica. Assim, reina em toda positividade científica uma ignorância e um silêncio acerca de sua essência ou de seu sentido enquanto ciência. Essa afirmação não desmerece a ciência. Apenas chama a atenção para o que permanece não pensado na compreensão dominante de natureza que lhe é própria. Mas, pode o saber filosófico contribuir para se obter clareza sobre isso? Em que sentido?
Sob o ponto de vista dominante do saber, a Filosofia possui no máximo um valor propedêutico, isto é, existe a serviço da objetividade lógico-categorial das diversas ciências ou, por outra, como um saber fiscalizador dos demais saberes. Nunca um saber a partir de si e para si, autônomo. Há sentido nesta afirmação. E por quê? Porque nada se pode fazer com a Filosofia, não há nada de útil ou objetivo nela. A bem dizer, segundo o olhar comum, ela parece mesmo uma fantasia, uma inutilidade, uma perda de tempo. Com questões filosóficas – os problemas filosóficos –, corremos o risco de cair num buraco e sermos objeto de riso. Com estas questões “nada se pode começar” ( HEIDEGGER, 1992, p.15), não podemos esperar começar nada.
Mas, o que mostra esta opinião dominante? Mostra que se assumiu como parâmetro do que é um problema filosófico o ponto de vista corriqueiro, atido às necessidades práticas do dia a dia. E, hoje, nosso cotidiano está atravessado pelos objetos, métodos, procedimentos, linguagem e raciocínio, projetos, planejamentos, enfim, pelo pragmatismo das ciências em geral, principalmente das Ciências Naturais. Igualmente, ao assumirmos desta forma a compreensão de todo questionamento e problematização da realidade, desenvolvemos um comportamento “epistemológico” unidimensional. O próprio saber cotidiano, denominado de pré-científico, quando procura justificar seus acertos tradicionais e longamente cultivados, busca nos métodos científicos estabelecidos a confirmação para sua funcionalidade. O “verdadeiro” saber é aquele atestado pela ciência. Curvamo-nos, dóceis, ao modo de ser da ciência inclusive quando a criticamos. Pretendemos, por exemplo, ligar a ciência à vida humana cada vez mais, para melhorar a vida, por exemplo, tornando então essa vida “melhorada” acessível a mais gente, socializando o conhecimento científico, investindo na ciência para o bem geral, entre outras questões. Em outras palavras, muito se investe para aproximar cada vez mais a ciência da vida. Não se percebe que em tais críticas apenas aparecem abordagens antropológicas e instrumentais da ciência e da técnica. A ciência ela mesma não é tocada.
Falta-nos outra medida para ver e compreender a paisagem. As ciências fornecem os parâmetros para o saber científico. Quando este orienta e domina toda compreensão da realidade, qualquer outro ponto de vista torna-se secundário e acessório. Todas as perguntas e todas as respostas significativas estão, grosso modo, viciadas. Já não surpreende o próprio domínio científico. E por que surpreenderia se a ciência se converteu, praticamente, na atmosfera exclusiva de nossa existência? A Filosofia se tornou no máximo uma espécie de discurso ao lado de tantos outros, uma disciplina ao lado de tantas outras. Os que a defendem, em geral, louvam sua antiguidade e capacidade criativa e especulativa. Fora isso, ela se tornou desnecessária tendo, há muito, sido substituída pelas ciências. A racionalidade científica não consiste num conjunto de opiniões subjetivas. É o que diz Heidegger a respeito da ciência da física:
Sobre esta física fundamentam-se as nossas fábricas gigantescas, os aviões, a rádio e a televisão, toda a técnica que mudou a terra e com ela o homem, mais do que ele suspeita. Isto são realidades, não opiniões que algum investigador ‘afastado da vida’, defende. Quer-se ter a ciência ainda mais perto da vida? Penso que ela está já tão perto que a esmaga. Precisamos antes, do adequado afastamento em relação à vida, para obtermos mais uma vez, a distância com que possamos avaliar o que acontece conosco, homens
( HEIDEGGER, 1992, p.24).Mas, tem a ciência, em seu primado pela objetividade, condições de compreender a si mesma? Tem ela condições de cultivar a distância capaz de avaliar o que acontece conosco, homens, em nossa relação com a natureza? Tem ela condições de ultrapassar sua objetividade?
A ciência entende os problemas e as soluções dentro do seu âmbito. De certa forma, o físico não atua sem ter numa mão o cronômetro e noutra a régua, isto é, sem ter parâmetros espaciais e temporais de medida. O que isto significa? Que ele já carrega as soluções para os seus problemas. A ciência, então, põe e soluciona seus problemas. Mas, são estes “genuínos” problemas? Ou são problemas pontuais, problemas relativos? Tem a ciência condições de compreender sua situação no mundo?
Aproximação à positividade das ciências
Observemos a situação científica a partir da positividade das ciências em geral. O cientista natural inicia seu trabalho a partir da natureza que já está aí, defronte e dada. Ele não começa do nada. A vida já estava fluindo segundo determinado ordenamento prévio que o cientista não inventou. E, objetivamente, nem precisa. Assim, o que o cientista encontra é essencialmente ambíguo: ele começa seus trabalhos já contando com certa organização prévia dos entes, dos possíveis futuros objetos, sobre os quais e a partir dos quais ele construirá sua interpretação peculiar. A natureza pressuposta é abordada como um estágio inicial e incompleto que deve ser ultrapassado. Nessa direção se desdobrará a interpretação científica. Mas, como é essa natureza que se oculta para a positividade científica?
Essa natureza que o cientista explora não corresponde ontologicamente àquela que ele encontra de início, não como um cientista, mas como um ser humano envolvido em alguma atividade. A natureza imediata permanece oculta na atividade científica. Interessa ao cientista, a cada vez, determinado setor da natureza, e não sua totalidade imediata. Em todo caso, antes de fazer ciência o cientista nunca encontra a natureza num completo desordenamento. A vida já sempre se organizou de alguma maneira pré-científica. Não foi a objetivação que inventou a natureza pela primeira vez. Esta realidade natural imediata se mostra numa primeira organização oferecendo-se como “material” para futuras investigações: como um conjunto contraditório de forças, responsável pela vida e pela morte, pelo começo e pelo fim, e que as habilidades humanas, a duras penas, aprendem relativamente a dominar por meio de técnicas materiais e rituais; como um conjunto de seres (animais, vegetais, minerais, astros) que se prestam às mais diversas serventias práticas; como fonte de energia, alimento, recursos os mais diversos disponíveis ao ser humano segundo as mais variadas necessidades. Contando com essa organização primária em setores da vida que atendem às mais diversas necessidades humanas – o setor “natureza” distinto do setor “linguagem”, do setor “história”, “vida”, entre outros setores –, um grande trabalho teórico-prático será feito. O cientista não inventa o ente temático pela primeira vez. A organização prática da vida sempre já descobriu o ente num contexto instrumental. Destes contextos, em algum momento, o cientista recortará algo que lhe interessa liberando o ente temático para uma investigação mais acurada. É preciso ter uma atenção mínima ao modo próprio de liberação que acontece na ciência moderna.
O físico, o biólogo, o botânico, o químico, começam por delimitar o seu objeto, por recortar o seu objeto deste setor mais geral denominado “natureza”. Desse setor o físico recorta a matéria, o biólogo a vida, o botânico a vida vegetal, o químico o elemento químico. Este elemento básico ou recorte fundamental detém o que interessa ao cientista e se converte no ente temático a ser pesquisado. Do desdobramento desse processo nascerão outras ciên-cias numa especialização crescente. Todo o procedimento a posteriori terá como objetivo (a) a exploração do ente de base, a fim de determinar o ser da matéria, e (b) servir-se desta determinação para o conhecimento/asseguramento da natureza material liberada de maneira progressiva, solucionando os problemas que se oferecem, num esforço calculador e controlador. A exploração do ente temático visa disponibilizar e assegurar, por exemplo, a coerência e a segurança da pesquisa. É preciso que os fundamentos desta construção sejam “sólidos” e continuamente fiscalizados. À medida que o conhecimento científico de determinada área progride, e para que este progresso seja possível, cada ciência se vê obrigada a rever seus conceitos e procedimentos fundamentais. Neste sentido, não se deve entender a objetivação como uma façanha acabada. Antes o contrário. A objetivação constitui-se como tarefa contínua de pesquisa e de exploração ou como o horizonte de desdobramento de uma ciência positiva que se realiza na especialização crescente.
A autoafirmação de uma ciência reside na construção de sua objetividade, ou seja, na construção/interpretação deste ente de base como objeto: a matéria, a vida, o vegetal, o elemento químico, entre outros. Toda “ciência é, com efeito, interpretação dos fatos” ( ORTEGA Y GASSET, 1989, p.25), é construção. Assim, o “recorte” não consiste numa fatia já pronta, mas num esforço de contínua delimitação deste ente temático. Com isso, cada ciência particular clarifica frente às outras a sua perspectiva na interpretação da realidade.
No entanto, este recorte necessário contém uma cilada fundamental. Ao demarcar ou recortar seu objeto, objeto este que se converte no problema básico de determinada ciência, o cientista é levado a crer “que sabe de antemão o mais importante”, que sabe qual é ou o que é o seu objeto: acredita já saber o que é a matéria, o que é a vida, por exemplo. Dessa forma “a sua tarefa reduz-se a investigar a estrutura interior de seu objeto, o seu fino tecido íntimo, poderíamos dizer a sua histologia” ( ORTEGA Y GASSET, 2007, p.58). De pronto, torna-se secundária toda a experiência prévia ao enfoque objetivo. De pronto, esquece-se que o próprio objeto temático é construção contínua. A natureza dada, passível de objetivação, é agora compreendida como simplesmente dada ou existente, como meramente sendo e estando aí, como “coisa”. Igualmente aquela porção recortada que se converteu no ente temático a ser explorado. A vinculação do recorte de uma ciência ao ser da natureza em sua totalidade prévia é agora compreendida como relação lógico-categorial. Do todo da natureza, cada parte corresponderá a um setor de pesquisa. O esforço humano de interpretação/construção converte-se em mera funcionalidade a serviço da articulação teórica e prática (técnica) característica de cada domínio. A compreensão da ciência como “interpretação possível” silencia. Assim, o cientista não vê como algo problemático o começo da ciência onde se efetiva um primeiro recorte e se torna visível pela primeira vez o ente temático pertinente a cada caso.
Aquilo com o que o cientista se debruça em sua atividade é interpretado como sendo a natureza num sentido especializado, ou seja, na Física, algo como a matéria, na Biologia, a vida. Este sentido recusa as qualidades sensoriais e qualitativas da natureza. A “matéria” ou a “vida” constituem-se, antes de tudo, como compreensões teóricas orientadoras da pesquisa. Aquela totalidade natural prévia que subjaz a todo recorte não interessa mais 5. Esta perspectiva extrapolaria, ontologicamente, a possibilidade das ciências. Mas isto não significa que aquela totalidade esteja completamente silenciada.
Não ignoramos que o objeto recortado apresenta algo de perturbador. O cientista diz saber que objeto é este. Crê neste saber, crê neste objeto, crê na sua evidência. Por sua vez, percebemos que este objeto sofre, por assim dizer, determinações cada vez mais precisas ou exatas de seu ser. Há um processo crescente de delimitação ou de melhoramento da precisão no que diz respeito à apreensão do objeto em sua objetividade. Esta intenção é responsável pela própria bifurcação constante das ciências em campos cada vez mais especializados. Em todo caso, o que não se altera é a situação fundamental deste “dado”: Há sempre um ente já posto, já aí, um “ positum”, que serve de ponto de partida de toda investigação científica.
Quando determinada ciência recortou da totalidade o que lhe interessa, esta porção dada foi simultaneamente acionada “como” aquilo sobre o que o físico, por exemplo, se detém em seu ofício. Assim, um recorte compõe “todo o horizonte” de objetivação possível do físico. Interessa a este a interpretação quantitativa da natureza realizada por meio da linguagem físico-matemática; essa, dotada de exatidão, pode fixar as descobertas em leis ou princípios universais da ciência; esses podem ser repetidos, observando-se o jogo científico; repetidos, são acionados para novas descobertas, num processo crescente de asseguramento. Ontologicamente, a natureza é sempre a mesma. O que foge a essa possibilidade (os elementos sensoriais, por exemplo) é desconsiderado. Esses elementos apenas ganharão o estatuto de “realidade” ou de “verdade” se puderem se submeter em algum grau ao método de pesquisa físico. Ocorre, como se vê, uma unidimensionalização da natureza. Se o físico não aceitar a matéria como estando aí, disponível para ser explorada em suas propriedades igualmente dadas e passíveis de fixação em leis, não há ciência em sentido moderno. Ele faz ciência acreditando no fato de seu objeto e de que o mesmo possa ser progressivamente descrito físico-matematicamente. O objeto é metodicamente desvelado, mas nunca inteiramente revelado. O pesquisador “sabe” o que é o objeto pesquisado que ele explicita cada vez mais. Ele o compreende dentro desta positividade. O estudo progressivo clarificará cada vez mais as propriedades deste objeto. Mas o objeto ele mesmo, dentro de uma perspectiva não meramente positivada, permanece um estranho recorte.
Algo mais sobre a problematização filosófica
Ensaiando certa contraposição nos limites de um diálogo mínimo entre ciência e Filosofia, pode-se dizer que há um comportamento distinto na Filosofia no que diz respeito à compreensão desta natureza como estando aí, dada. A Filosofia principia estranhando esta situação. Pode-se pensar neste estranhamento como uma conquista, um trabalho, e não um estado sentimental provisório. Assim, aprender a estranhar, espantar-se, maravilhar-se: isto pertence à problematização filosófica. E para quê? Como este estranhamento nunca é sobre isto ou aquilo, mas diante do fato da existência e/ou da totalidade, dela ser o que é e não nada, as possíveis respostas orientadas pelo pensamento científico moderno merecerão suspeita.
Se a ciência recorta a realidade, especializando-se num segmento, pertence esta fatia a algo maior? Em que sentido? Ao filósofo não interessa cada uma das coisas singulares, cada uma das especialidades, pois a Filosofia não é uma ciência ao lado de outras ciências com o seu objeto específico. “Interessa-lhe a totalidade de tudo quanto há” ( ORTEGA Y GASSET, 2007, p.57), “o que é o ser”, “o que é a substância” ( ARISTÓTELES, 2006, p.293). Este caminho de investigação ganhou desde os tempos antigos o nome de Filosofia ou Metafísica, lhe interessando o fato de ser de tudo o que é, o fato de ser ente, a totalidade dos entes, o fato de ser, o estranho ou estonteante fato de que há o real, há a realidade e não o nada. De súbito, o todo é convocado. Qual a textura desta totalidade? Isto é, trata-se da soma de todas as especialidades? Seria a totalidade o gênero supremo que abarcaria todos os gêneros precedentes? Mas, até que ponto a totalidade pode e deve ser interpretada como gênero? A Filosofia problematiza este acontecimento de uma maneira que escapa ao âmbito científico.
Na problematização, assume-se conscientemente a realidade através de um trabalho teórico que libera o pensamento para a unidade sempre já dada de homem e mundo, como exercício intelectual que leva em conta o que nunca está imediatamente visível, inclusive no saber científico. Uma citação pode auxiliar nesse processo: “‘Pro-blema’ é, pois, tomado na acepção de um movimento que, no próprio lance de jogo, atinge a si mesmo, abrindo-se como a possibilidade de uma manifestação” ( FERNANDES, 2010, p.33, nota 11). Nenhum pensamento corriqueiro ou científico possui a característica de atingir a si mesmo. Um saber que conscientemente atinge apenas o objeto ou o sujeito não é suficientemente problemático. Um saber que visa resolver os problemas, procedimento sempre importante em certos contextos, ainda não ingressou na estrutura problemática de homem e mundo. Na problematização não se visa a alguma solução, mas à mutação da compreensão dominante. Essa mutação é entendida como abertura para novas possibilidades de sentido não simplesmente dadas no trabalho positivo das ciências. Não é fora dos problemas que a Filosofia encontrará suas respostas. Problematizando, o saber pode, por exemplo, compreender ontologicamente a positividade científica como uma possibilidade de existência, mas nunca a única. Parece pouco e, no entanto, permanece como algo impossível às ciências, impossibilidade da qual elas não sentem carência em sua positividade. Afinal, não se está exigindo que a ciência seja Filosofia, embora o contrário aconteça frequentemente e com bastante ingenuidade. Nesse sentido, a compreensão filosófica encontra seu começo não quando simplesmente se constata que ao lado das ciências naturais acontecem outros saberes, mas quando o pensamento se depara e se maravilha com o fato insuperável da presença do real em sua realidade efetiva. Talvez falte ao pensamento positivo esta capacidade de se maravilhar diante do objeto num sentido que ultrapassa qualquer subjetivismo. Em todo caso, na problematização filosófica investe-se numa modificação da visão. Ali o saber atinge a si mesmo de maneira ontologicamente reveladora. Como já acenado, uma consequência deste pensamento teórico é a libertação das ciências positivas de serem a instância decisiva da vida humana e a exigência para a reflexão filosófica de pensar contra todas as tendências de estabilidade e asseguramento.
O filósofo parte de certa suspeita acerca do que se apresenta como saber instituído (o das ciências, do senso comum, da religião, do mito etc.). O que é primeiro, para ele, nunca é o que está imediatamente dado em algum grau. Diante do sabido o filósofo indaga, investiga, procura tornar transparente o elemento não sabido. Por quê? De onde vem esta necessidade? Que presença curiosa é esta, a do não-saber? O que nos move mais radicalmente, enquanto seres humanos? Que conexão subterrânea existe entre a Filosofia e o ser humano? “A metafísica [filosofia] é o acontecimento fundamental do ser-aí [ser humano]. Ela é o próprio ser-aí” ( HEIDEGGER, 2008, p.132).
Por um lado esta experiência radical – a da Filosofia –, não significa, meramente, a construção de alguma objetividade, isto é, um esforço teórico que retira algum saber deste chão enigmático chamado “ente”, disponibilizando-o para toda a gente por meio da fixação do que foi conhecido em princípios universais. Sabe-se que, de fato, esta é uma das compreensões da atividade filosófica, a de disponibilizar o ente de alguma forma para futuras objetivações que serão realizadas, talvez, por saberes científicos especializados. Mas, não seria esta, até certo ponto, uma compreensão da Filosofia “externa a ela própria”? A Filosofia não estaria sendo interpretada a partir de sua serventia para outros saberes dotados de certa positividade? Não se estaria ali vendo alguma utilidade para a atividade filosófica haurida da atividade científica? Não se está desrespeitando certa diferença de natureza entre a Filosofia e as ciências? Não se está perdendo o prumo em relação àquela pergunta já colocada de que a questão acerca da ciência em sua totalidade não é uma questão das ciências da natureza? O “ente” ou o “ser” tem um quê de objeto para a Filosofia. Mas não em sentido equivalente ao das ciências positivas.
A Filosofia, segundo seu modo de ser, permanece problemática. É a partir do “espanto” que os filósofos, ontem e hoje, filosofam. É este o princípio da Filosofia. “É por força de seu maravilhamento [espanto] que os seres humanos começam agora a filosofar e, originalmente, começaram a filosofar” ( ARISTÓTELES, 2006, p.47). Constatar neste espanto algum estado psicológico desconfortável diante de algum enigma da existência é pouco e, a bem dizer, inadequado. Dessa forma, a atividade teórica e/ou filosófica, em sua peculiar forma de problematização, é atividade do espanto e para o espanto enquanto seu páthos primordial. O discurso científico verá este fenômeno apenas parcialmente. Não seria semelhante atitude o cultivo da distância, não daquela que, lógica e abstrata, nos afasta das coisas elas mesmas, nos conduzindo a generalidades cada vez maiores, mas daquela que educa o olhar, que ensina a dar um passo atrás e que, dessa forma, fornece um novo horizonte de visão e, com isso, também, outra espécie de proximidade? Aquela distância para ver o comportamento científico de uma maneira inacessível a este? A problematização filosófica constitui-se como uma atividade de descoberta que precede ontologicamente toda ciência especializada e não tem seu sentido no mero serviço a estas ciências. Uma ciência positiva somente é possível porque “um mundo de sentido tornou-se visível”. Consegue a ciência ter olhos para este mundo de sentido anterior à sua objetividade? A própria Filosofia, distinta das ciências, é que deve permanecer sempre problema para si mesma. Não é à toa que o filósofo Martin Heidegger diz que com a indagação filosófica a gente não consegue nada, não consegue nada de útil, não consegue mudar nada, “nada se pode começar” ( HEIDEGGER, 1992, p.14). Ou, de outro modo, que com todos estes esforços filosóficos “não podemos nem substituir nem melhorar as ciências” ( HEIDEGGER, 1992, p.21). O filósofo, segundo a visão comum, corre o risco de cair num buraco e ser objeto da risada alheia. No entanto, mantenhamos essa estranha afirmação: a filosofia, a partir dela mesma, é fundamentalmente “problematização”, é o modo imediato, singular, grave, irremissível, de encontrar o real, a unidade fática de homem e mundo.
O que o cientista não sabe é apenas ocasional e pertence ao caráter passageiro das pesquisas ou ao grau de desenvolvimento em que elas se encontram. Assim, no âmbito de uma ciência especializada, o não sabido é sempre momentaneamente não sabido. Isto porque a ciência parte de uma crença de base, a de seu ente temático e positivo, que ela sabe que é desta ou daquela maneira. Mas o cientista nunca vai além dos limites de seu campo de atuação. Nunca além de seu objeto. Nunca além daquilo que, como cientista, pressupõe saber. Nunca na direção de duvidar totalmente de seus fundamentos.
Se, por um lado, sempre pode-se dizer que nenhum cientista conhece absolutamente seu objeto – do contrário não existiria pesquisa –, por outro lado ele confia na possibilidade de conhecer este objeto, de esclarecê-lo e de exauri-lo. À força de conceitos, esgotar o ente, “domesticá-lo”, apresentá-lo sob as roupas das categorias ou propriedades características da ciência particular. Assim foi desde sempre o propósito da metafísica tradicional e esse é o propósito da ciência moderna e de sua especialização crescente. “O desdobramento da filosofia cada vez mais decisivamente nas ciências autônomas e, no entanto, interligadas, é o acabamento legítimo da filosofia” ( HEIDEGGER, 1984, p.72). À medida que determinada ciência, avançando no conhecimento de seu objeto, não dá conta do mesmo, necessitando subdividi-lo para melhor capturá-lo, acontece a especialização. As ciências desenvolvem métodos distintos com vistas ao mesmo fim: capturar o objeto, o ente temático, aquele “primeiro” objeto desde sempre, e que sempre oferece dificuldades. Mas algo presente no objeto “continua resistindo”. E não se trata de alguma mera dificuldade e insistência do objeto, passível de futura subdivisão e carente de objetivação, embora o cientista sempre possa assim interpretar o fenômeno. Devido a esta resistência o projeto científico ainda não chegou ao seu “fim” 6. Então e por isso há progresso científico.
Assim, o cientista particular encontrará sempre problemas parciais, alguns solucionáveis, outros não (como alguns que aparecem na matemática), mas todos nascem e são solucionados ou não dentro desta fé na possibilidade de conhecer o objeto. Fé essa que faz parte do próprio nascimento da ciência, da própria instauração do positum. “E não se trata de uma vaga confiança humana, mas de algo que constitui a própria ciência, até ao ponto de que para ela definir o seu problema é uma e mesma coisa com fixar o método geral da sua solução” ( ORTEGA Y GASSET, 2007, p.58).
Os problemas científicos são sempre relativos. Eles nascem dessa sua certeza fundamental. Serve como exemplo o processo de experimentação: produz-se um modelo teórico de constrangimento do real; o real é submetido a esse modelo; o modelo, talvez, não dê conta do real, isto é, a resposta não é a esperada, a solução não é a desejada; em vez do cientista jogar fora seu procedimento teórico fundamental, seus princípios, ele retorna novamente à sua mente ( mente concipio), produz um novo modelo, e repete o experimento; repetirá tantas vezes quantas forem necessárias até que a natureza case com o modelo. “Se casam uns com os outros, deciframos o hieróglifo, des-cobrimos a realidade que os fatos combriam e escondiam” ( ORTEGA Y GASSET, 1989, p.26). Vê-se que os problemas científicos nunca são problemas absolutos, “pois visam a uma solução”, a serem ultrapassados. Uma ciência põe seus problemas e os caminhos de solução, reconhece como problema apenas aqueles que para ela são vistos como problemas, isto é, lhe são acessíveis, aqueles que o próprio desenvolvimento de seu campo permite.
Para o físico é um problema o que em princípio se pode resolver, a solução é-lhe de certo modo anterior ao problema; entende-se que chame solução e conhecimento ao tratamento que o problema tolere. Assim, das cores e dos sons e das mudanças sensíveis, em geral, o físico somente pode conhecer as relações quantitativas, e mesmo estas – as situações em tempo e espaço – só relativamente, e ainda estas relatividades apenas com a aproximação que os aparelhos e os nossos sentidos permitem. Pois bem, a este resultado, teoricamente tão pouco satisfatório, chamará solução e conhecimento. Vice-versa, considerará como problema físico somente o que pode submeter-se a medidas e o que aceita esse tratamento metódico ( ORTEGA Y GASSET, 2007, p.59).
Mas, como se viu, não é assim na Filosofia. Para esta problematizar significa filosofar, o que traz dificuldades próprias.
A filosofia é para o filosofar um problema. Nós nunca somos e estamos nela tão seguros e certos como em alguma ciência especializada
( FINK, 1958, p.9).
[...] a pergunta ‘o que é a filosofia?’ não acompanha esta última como algo posterior, mas com-pertence a ela mesma; enquanto as perguntas ‘o que é a matemática?’, ‘o que é a física?’, ‘o que é a filologia?’ não podem ser nem colocadas por estas ciências, nem solucionadas por elas
( HEIDEGGER, 2003, p.67).Filosofia e ciência podem ser apresentadas como atividades humanas. Se a ciência é fundamental para a vida humana, se esta pertence essencialmente ao ser humano, assim também a Filosofia. E, mesmo assim, se está na Filosofia de modo inseguro, se a compararmos com as ciências. Esta afirmação encontra sentido principalmente numa época que descredenciou todos os problemas metafísicos em prol das relações funcionais técnico-científicas. Nestas o saber por excelência é aquele que visa ao controle e asseguramento. Outras formas de saber tais como a arte, a política, a religião, o mito, por exemplo, ocupam um lugar secundário. Os problemas metafísicos tradicionais (verdade, todo, homem, Deus, mundo, liberdade etc.) e as metodologias filosóficas tornaram-se obsoletos. Atualmente o que interessa é, por exemplo, tornar todo ente disponível para um processo de exploração crescente. “Pois controle e segurança constituem até as marcas fundamentais do desencobrimento explorador” ( HEIDEGGER, 2002, p.21). No entanto, e como já insinuado, é possível que a Filosofia seja uma atividade humana num sentido ainda mais grave e decisivo do que a ciência.
A relação fundamental com a natureza: exercício de problematização
O caso é que quando observamos a Filosofia “a partir dela mesma”, onde ela constrói “sua própria medida” não se submetendo a nenhum parâmetro externo e estrangeiro, não encontramos nunca algo tão certo e tão seguro como o ente temático continuamente objetivado. Encontramos, no entanto, o cultivo de uma criativa incerteza e de uma libertação compreensiva de tudo o que é positivo e unidimensional.
O filósofo assemelha-se sempre e continuamente a um navegador que pela primeira vez se aventura mar adentro. Sempre pela primeira vez, pois a tradição filosófica acumulada não o exime de ter que filosofar, isto é, de experimentar diretamente os fenômenos em questão, por mais que disponha de um conjunto herdado de conceitos e de reflexões. A compreensão filosófica – e de tudo o que é criativo, até da ciência em certos aspectos –, é inalienável. “O mundo nunca sofrerá com a falta de maravilhas, mas apenas com a falta da capacidade de se maravilhar” ( CHESTERTON, 2012, p.19). O cientista, por sua vez, não precisa mais experimentar “diretamente” os fenômenos em questão. Ele conta, necessariamente, com os resultados ou conquistas de uma longa tradição teórica e prática continuamente posta à prova. Em seu trabalho, cada cientista dispõe previamente de todo um arcabouço fornecido pelo próprio campo científico dentro do qual ele se movimenta: leis, procedimentos, métodos, práticas longamente cultivadas, problemas e interesses. Depois que Newton estabeleceu os princípios que regem a “inércia” (concluindo um esforço nascido em Galileu), nenhum cientista precisou mais fazer o mesmo. Dizer o mesmo do trabalho filosófico é extremamente problemático. A maior parte do trabalho da ciência física será então o da exploração das possibilidades de conhecimento e controle da realidade a partir deste e de outros princípios da natureza, o que implica, também, na conquista de outros tantos que se mostrem necessários para solucionar as dificuldades que aparecerem. Isto não significa que haja uma clareza absoluta a respeito dos princípios assumidos como evidentes em sua positividade, mas que estes se submetem ao cálculo. Dessa tensão em relação aos princípios e da solução encontrada pela história da ciência moderna nos fala Koyré:
Newton não admitia a ação à distância. No entanto, como muito sensatamente assinalaram Maupertuis e Voltaire, do ponto de vista do conhecimento puramente empírico (que parecia ser o ponto de vista newtoniano), a distinção ontológica entre a atração e as outras propriedades dos corpos não se justificava 7. Não compreendemos a atração, é claro. Mas, porventura compreendemos as outras propriedades? Não compreender não é razão para se negar um fato. Ora, a atração é um fato. Portanto, temos que admiti-la assim como admitimos outros fatos ou propriedades dos corpos. Quem sabe, ademais, que propriedades desconhecidas podemos descobrir que lhes são pertinentes? [...] A oposição ao newtonianismo – entendido como física – foi profunda e vigorosa, a princípio. Aos poucos, entretanto, foi desmoronando. O sistema funcionava e provou seu valor. Quanto à atração, ela foi progressivamente perdendo sua estranheza. Como o expressou Mach com muita adequação, ‘a incompreensibilidade incomum transformou-se numa incompreensibilidade comum’. Uma vez acostumadas a ela, as pessoas, com pouquíssimas exceções, pararam de especular a seu respeito
( KOYRÉ, 2002, p.93, grifo do autor).Na Filosofia está em jogo a abertura para um sentido de mundo que precede e sustenta sui generis toda positividade. A pesquisa científica moderna somente é possível porque um mundo de sentido veio a ser e este sentido complexo tende a ser esquecido na medida em que a funcionalidade tornou-se dominante. Nós nos habituamos a considerar o real a partir das ciências naturais quase que exclusivamente.
Mas uma ciência positiva não pode ser completamente transparente para si mesma. Ela se move dentro do domínio deste ente temático, numa incompreensibilidade com a qual já se acostumou. As ciências, assim, se ocupam e preocupam com uma centena de coisas ou de objetos, “mas não consigo mesmas”, enquanto ocupação com a situação fundamental de sua positividade. Elas não dirigem suas investigações para o centro de sua vitalidade, o ente temático, tornando seu sentido de ser transparente. Apenas lhe interessam as possibilidades mecânicas e funcionais. Quando o fazem, o fazem de modo circunstancial, ou seja, para atender e solucionar as contradições nascidas de sua objetivação crescente. Então, seu “ modus operandi”, a princípio, nunca é posto em cheque. Ocorrem reavaliações dos conceitos fundamentais da ciência e de seu ente temático, no sentido de uma fundamentação mais rigorosa dos objetos em função das coisas elas mesmas. É o que vemos nos contextos de crise. Mas tais procedimentos nascem como exigência do conhecimento crescente da objetivação. Este afastamento em relação ao questionamento acerca de seu ente temático pertence ao seu modo de ser positivo, sendo condição para que a ciência progrida na exploração das possibilidades abertas em seu campo temático: disponibilizar em grau crescente o que ali já se anunciou como possibilidade de mundo, de homem, de vida.
Em tudo o que dissemos acerca da positividade das ciências e do descompasso da Filosofia, algo permanece intocado e silenciado. A situação intocada na e pelas ciências “pode” desafiar nosso saber quando, forçados pelos fenômenos, nos questionamos e sentimos a necessidade fundamental de uma nova compreensão das coisas. Esta necessidade não nasce simplesmente da falta de suficiente objetivação sentida pelo desenvolvimento científico, mas pode também ser por ela motivada. Atentemos para este caso. Nasce quando a compreensão científica em sua totalidade, isto é, em sua pretensão de controle e asseguramento crescentes, gera certo mal-estar e, por isso, deixa transparecer a demanda de uma investigação de outra ordem. Aqui nos movemos num nível de compreensão que já não corresponde integralmente ao da objetivação. Mas será que, de fato, nos exemplos a seguir a compreensão científica em sua totalidade atinge um mal-estar? No que segue consideramos como proveitosa a possibilidade de um questionamento e pesquisa da natureza nascida de certas dificuldades enfrentadas pela ciência, no caso, pela ciência da Física. Por outro lado, manteremos em suspeita semelhante possibilidade devido à dificuldade que se levanta: será que a ciência da Física consegue chegar a um questionamento da compreensão de natureza que a move em sua totalidade?
Bem, quando ou como isso acontece? “Talvez” quando, em dado momento do progresso de uma ciência (compare com o desenvolvimento da Física Tradicional rumo à Física Quântica), os resultados das pesquisas já não atendem mais aos planejamentos e aos cálculos que precedem toda experimentação. Os resultados escapam ao controle prévio conhecido. O que se mostra como resultado não corresponde mais àquilo que deveria ser o resultado. Que fazer? “Talvez” uma revisão ou reformulação dos princípios orientadores de uma ciência. Com a perda do controle e do asseguramento dos resultados a ciência perde seu sentido. “Talvez” desperte a necessidade de “inventar” outra ciência, ou outros procedimentos, para dar conta das novas possibilidades do ente temático – no caso, da natureza e de suas propriedades (movimento, massa, atração etc.) –, que ora se apresentam. Esta necessidade pode surgir como resultado crescente da especialização demandada pela pesquisa. O surgimento de novos métodos e conceitos dentro da Física Contemporânea tais como incerteza, indeterminismo, aleatoriedade, descontinuidade, etc., desenvolvidos pela física quântica, nascem da necessidade de dar conta “enquanto ciência física” de uma nova perspectiva dos objetos surgidas do desenvolvimento progressivo desta ciência. Apesar da oposição aparente em relação à Física Tradicional, a Física Quântica mantém-se uma física, isto é, grosso modo, ela não renuncia nem pode renunciar ao cronômetro e à régua 8, ao seu projeto de compreensão da natureza como algo que pode ser medido e controlado.
E há mais. Situações deste tipo podem despertar o investigador para outra compreensão de tudo o que se está fazendo quando, por exemplo, os físicos se perguntam se há uma ou duas realidades 9. Segundo Nicolescu (2008, p.30) “o maior impacto cultural da revolução quântica é, sem dúvida, o de colocar em questão o dogma filosófico contemporâneo da existência de um único nível de Realidade”. Mas, segundo este autor, oriundo da Física, que é realidade?: “Entendo por Realidade, em primeiro lugar, aquilo que resiste às nossas experiências, representações, descrições, imagens ou formalizações matemáticas” Nicolescu (2008, p.30, grifo do autor). O real não se compõe, segundo este autor, por um conjunto de propriedades e princípios que funcionam (cálculo), ou simplesmente por aquilo que está ali numa positividade, mas pelo que resiste e demanda todo esforço de investigação. O real é o que continuamente escapa às armadilhas construídas pelo físico e, por isso, também o que o mantém e o orienta neste esforço. Com isso não se elimina completamente a problemática da positivação à medida que toda ciência, para ser ciência, deve necessariamente partir de algo dado. Isto que resiste – e que não é algo dotado da propriedade da “resistência” –, a realidade, mostra-se no caráter inesgotável da natureza física, continuamente explorada: “A natureza é uma imensa e inesgotável fonte de desconhecido que justifica a própria existência da ciência” ( NICOLESCU, 2008, p.31). Existirá algum parentesco significativo entre o caráter inesgotável da natureza, encontrado em sua constante resistência a todos os métodos investigativos das ciências, e a citação, já feita, de que “suportar o ser-digno-de-questão manifesta-se como o único caminho humano para conservar as coisas na sua inesgotabilidade, quer dizer, preservá-las de qualquer falsificação”? ( HEIDEGGER, 1992, p.72). A inesgotabilidade da natureza, como o físico a apresenta, e a inesgotabilidade de todas as coisas, de que fala Heidegger, equivalem? Pensa-se haver um parentesco. Por outro lado, não podemos nos eximir de perguntar se questionamentos dessa espécie conseguem se elevar ao ponto de suportar esta inesgotabilidade sem, em termos físicos, desejar exauri-la.
De certa forma, e a partir de suas pesquisas, a Física Quântica ao sensibilizar-se para uma nova compreensão de realidade, preservou ontologicamente a natureza da exacerbada falsificação da corrente cientificista/positivista. Esta entendia que a natureza já estava disponível por meio da interpretação físico-matemática e que toda a realidade natural poderia ser assim explicada. No entanto, a linguagem calculadora desenvolvida pela Física Clássica não conseguiu dar conta, por exemplo, do infinitamente grande e do infinitamente pequeno dos fenômenos físicos, mostrando-se esta, então, como apenas uma possibilidade de interpretação do ente natural. Motivada por essa situação, “talvez” desperte a partir da Física Quântica a pergunta: o que é o real físico? Por que ele não se enquadra mais nos esquemas previstos? O que está em jogo? A realidade ou nossa interpretação da mesma? Ou as duas coisas? Situações dessa espécie fazem com que o físico se depare com o problema da realidade e desperte para a sua constituição de ser embora não renuncie e nem o possa enquanto cientista ao seu procedimento físico. É possível que todo o seu esforço positivo (ele não pode renunciar, enquanto físico, à régua e ao cronômetro) possa ser visto ou compreendido com outros olhos. Isto amplia a visão que uma ciência tem de si mesma. No entanto, “como” ou “até que ponto” o físico suporta esta situação fundamental? E como ele se posiciona frente a ela? O que esta situação lhe diz? Deparamo-nos com questões que, devido ao seu aspecto de totalidade, não podem ser suficientemente pensadas no âmbito da física, embora o ser humano que “por acidente” é físico, posso ser por elas afetado. Enquanto o físico não contrariar essencialmente sua posição científica, todo este questionamento será apenas provisório, a fim de novamente encontrar os rumos para o desenvolvimento da ciência da Física. A Filosofia, talvez, lhe tenha prestado apenas uma utilidade metodológica. No entanto, por mais que ele compreenda esta situação fundamental a partir dos sucessos ou fracassos de sua especialização, “talvez” desperte nele uma nova intuição do que seja a realidade, ou seja, uma nova maneira de compreender o problema da realidade. Seria ele ainda físico? O caráter de resistência da natureza “talvez” não se deva a alguma ineficiência dos métodos científicos, mas à presença de outro modo de ser que se distingue daquele que domina a mentalidade científica positivista e que não pode ser, por sua própria natureza, abarcado por esta. A questão acerca da nossa relação fundamental com a natureza não é uma questão das ciências da natureza; a questão acerca da essência da ciência não é uma questão científica. Há algo de incontornável na relação que a Física mantém com a natureza enquanto não renunciar à sua ciência física.
Esta objetividade nunca pode abarcar toda a plenitude essencial da natureza ainda que o domínio de objetos da física seja uniforme e concluso em si mesmo. A representação científica nunca é capaz de evitar a essência da natureza porque, já em princípio, a objetividade da natureza é, apenas um modo em que a natureza se expõe. Para a ciência física, a natureza permanece, portanto, incontornável. Esta palavra indica aqui duas coisas: por um lado, que não se pode contornar a natureza, no sentido de a teoria nunca poder passar à margem do vigente, permanecendo sempre dependente de sua vigência; por outro lado, não se pode contornar a natureza, no sentido de a própria objetividade impedir que a representação e certeza da ciência possa abarcar um dia toda a plenitude da natureza. [...]. A representação da ciência, por sua vez, nunca poderá decidir se, com a objetividade, a riqueza recôndita da essência da ciência não se retira e retrai ao invés de dar-se e se deixar aparecer. A ciência nunca pode fazer esta pergunta e, muito menos, questionar esta questão. Na condição de teoria, já se instalou na região da objetividade
( HEIDEGGER, 2002, p.53).
[...] nenhuma física tem condições de falar da física, como física. Todas as sentenças da física falam sempre a partir da física. Em si mesma, nenhuma física pode vir a ser objeto de uma pesquisa física
( HEIDEGGER, 2002, p.55).Conclusão
A problematização cultiva o espanto primordial
Dessa forma, alcançamos por meio de uma mínima problematização filosófica a situação fundamental em que se move a moderna compreensão científica da natureza e que não pode ser compreendida essencialmente pela ciência. E, com isso, somos jogados a este páthos da problematização. Pertence sempre e propriamente ao filosofar uma inquietação constante e crescente. Problematizando, dá-se voz, vez e autoridade a esta experiência do princípio inacessível à experiência científica. Que “teoria” é essa? Trata-se de uma compreensão da Filosofia como tarefa íntima do ser humano, a mais própria. Dizer esta experiência, isto é, deixar que esta experiência se mostre no exercício de dizer, a cada vez, a realidade efetiva em que nos movemos, corresponde à atitude filosófica. Pois não fazemos Filosofia simplesmente porque queremos. A Filosofia não é propriedade intelectual disponível do ser humano. Ela é essencialmente ambígua, num sentido a ser sempre debatido. À ciência, em sua positividade não pertence esta ambiguidade. Não lhe pertence, pelo que dissemos, a possibilidade de que sua essência, sua situação fundamental, seja problema para ela mesma. Referimo-nos, por caminhos nem sempre evidentes à questão do ser, tal como o filósofo que orienta boa parte dessas reflexões a explicitou.
Conduzir a reflexão para este chão insólito corresponde ao que denominamos de problematização filosófica. Ali o real é encontrado como e enquanto problema, isto é, fazendo o exercício de suportar sua inesgotabilidade. Esta inquietação conduz àquilo que a Filosofia entendeu como o princípio do filosofar, ou seja, o espanto, que sempre de novo convoca os homens à Filosofia. A compreensão deste sentimento fundamental exige do ser humano uma atitude de acolhida daquilo que não se mostra mediado pelos conceitos, leis, regras, enfim, pela positividade. Nesta direção a atividade filosófica se mostra no esforço investigativo que perguntando pelo ente que aí está, defronte, visa o ser, o todo e, neste jogo descobridor, constrói-se a si própria.
De maneira um tanto claudicante ficamos às voltas com a positividade das ciências inquirindo alguns de seus princípios e nos perguntando acerca da problematização filosófica. O interesse didático se manifestou na tentativa do diálogo, isto é, de explorar a legitimidade e o alcance de ambas, frisando a diferença de natureza que lhes pertence. Com isso, minimamente, nos aproximamos do direito e da dignidade das ciências e estranhamos ainda mais o saber filosófico: como é difícil dizer algo que possui em si mesmo sua própria medida. Tínhamos o objetivo de tecendo comparações entre ciência e Filosofia, até onde fosse possível, demarcar pontos de encontro, de suspeita e até mesmo de simpatia teórica. Afinal, moramos no mundo da ciência e da tecnologia, do cálculo e da eficiência sem conta e, no entanto, algo continua a faltar. Deixamo-nos tocar pela “experiência” da Filosofia? Conseguimos nos dispor ao que nenhuma ciência positiva pode nos dar?
Os problemas filosóficos não carecem nem pedem nem devem ser solucionados. Se não fosse assim, se mostraria uma incompreensão fundamental acerca de seu modo de ser. O que é a Filosofia permanece sempre e continuamente para a atividade filosófica um problema que gera conflito dentro das doutrinas filosóficas. Mas, onde se fundamenta esta necessidade da problematização? No próprio modo de ser do que somos, nessa existência que, como tal, é transcendência. Esta pode ser interpretada como uma luta contínua contra toda acomodação naquilo que se institucionalizou, quer sob a forma de hábitos sociais e equivalentes, quer sob a forma de categorias e conceitos. Quando o ser humano se acomoda ou meramente se acostuma, algo de essencial nele é minimizado. Esta recusa detém sua importância até certo ponto, como na positividade das ciências. Mas não sempre e continuamente. Por isso, segundo o que dissemos, o comportamento filosófico que convoca a outra compreensão será, em geral, considerado como estranho e incomum.
O projeto científico nunca é totalizante porque, grosso modo, restringe-se ao recorte em questão, deixando fundamentalmente de fora a questão pelo ser humano que, “entre outras coisas”, faz ciência. Ele nunca é totalizante porque a questão em pauta ultrapassa toda objetivação, tanto aquela especializada num recorte, quanto outra atida a um objeto mais geral ou universal genérico. E a existência humana nunca é genérica e universal. Esta questão ultrapassa toda mera objetivação ou subjetivação. Compreendidos desta forma os problemas filosóficos nada solucionam, mas tornam a realidade visível em sua “gravidade”.
Referências
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ORTEGA Y GASSET, J. O que é a filosofia. Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2007. p.57-59.
Notas
Autor notes
*Av. Pasteur, 296, Urca, 22290-240, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: <eciopisetta@gmail.com>>..