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                <journal-title>Revista Reflexão</journal-title>
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                <publisher-name>Pontifícia Universiade Católica de Campinas</publisher-name>
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                <article-title>Religião e linguagem: entre a carnalidade da palavra e a essencialidade do sentido</article-title>
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                        <surname>CAMPOS</surname>
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                    <xref ref-type="aff" rid="aff01"><sup>1</sup></xref>
                    <xref ref-type="corresp" rid="c01"><sup>*</sup></xref>
                    <xref ref-type="fn" rid="fn01"><sup>i</sup></xref>
                </contrib>
                <contrib contrib-type="author">
                    <contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-2948-5705</contrib-id>
                    <name>
                        <surname>MARIANI</surname>
                        <given-names>Ceci Maria Costa Baptista</given-names>
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                    <xref ref-type="aff" rid="aff01b">1</xref>
                    <xref ref-type="corresp" rid="c02">
                        <sup>**</sup>
                    </xref>
                </contrib>
            </contrib-group>
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                <label>1</label>
                <institution content-type="orgname">Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas)</institution>
                <institution content-type="orgdiv1">Centro de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas</institution>
                <institution content-type="orgdiv2">Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião</institution>
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                <institution content-type="original">Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), Centro de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião. R. Professor Doutor Euryclides de Jesus Zerbini, 1516, Parque Rural Fazenda Santa Cândida, 13087-571, Campinas, SP, Brasil</institution>
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                <label>1</label>
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                <institution content-type="orgdiv1">Centro de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas</institution>
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            <author-notes>
                <corresp id="c01">
                    <label>*</label>Correspondência para B.M. CAMPOS: 
                    <email>breno.campos@puc-campinas.edu.br</email></corresp>
                     <corresp id="c02">
                    <label>**</label> e C.M.C.B. MARIANI: 
                    <email>cecibm@puc-campinas.edu.br</email>.
                </corresp>
                <fn fn-type="other" id="fn01">
                    <label>i</label>
                    <p>Colaboradores</p>
                    <p>Todos os autores participaram de todas as fases da escrita do trabalho.</p>
                </fn>
            </author-notes>
            <pub-date pub-type="epub">
                <day>21</day>
                <month>8</month>
                <year>2019</year>
            </pub-date>
            <!-- <pub-date pub-type="collection"><year>2019</year></pub-date><volume>44</volume>-->
            <volume>44</volume>
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                    <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (
                        <italic>Open Access</italic>) sob a licença 
                        <italic>Creative Commons Attribution</italic>, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.
                    </license-p>
                </license>
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        <p>Não é caso raro que uma palavra adquira significados diferentes em frases ou contextos diferentes. Assim, para começo de conversa, importa-nos indicar que a palavra “mundo” é exemplo de um termo polissêmico. Convidado por nós ao diálogo, Rubem Alves
            <xref ref-type="fn" rid="fn03">2</xref> dá um sentido específico à expressão “mundo protestante” (também chamado por ele de “ideologia protestante”) ao compará-lo com o jogo de xadrez:
        </p>
        <p>
            <disp-quote>
                <p>O objetivo do jogo do xadrez é, sem dúvida, o xeque-mate. Mas mesmo o jogador derrotado deriva prazer e excitação do seu jogo. O jogo possui uma beleza estrutural que fascina. Ele é bom para pensar. E bom mesmo para se pensar com ele.</p>
                <p>O mesmo se pode dizer do mundo protestante.</p>
                <p>Ele é simples, esférico, dual, constituído, irrefutável, inesgotável em suas respostas </p>
                <attrib>(
                    <xref ref-type="bibr" rid="B04">ALVES, R.A., 1982a</xref>, p.33).
                </attrib>
            </disp-quote>
        </p>
        <p>Embora a citação seja do capítulo “A ideologia protestante” do livro “Dogmatismo e tolerância” (
            <xref ref-type="bibr" rid="B04">ALVES, R.A., 1982a</xref>), arriscamos dizer, com alguma dose de plausibilidade, que o protestantismo em questão possa ser tomado como o da “Reta Doutrina” – categoria que Rubem Alves apresentou à discussão acadêmica como resultado da pesquisa publicada no livro “Protestantismo e repressão” (a edição original é de 1979, e a utilizada por nós, aqui, é de 1982). Trata-se, portanto, de certo protestantismo – o dogmático – e não daquele presidido em sua teologia e ética pelo “princípio protestante” – que o próprio Rubem Alves (
            <xref ref-type="bibr" rid="B05">ALVES, R.A.,1982b</xref>, p.41) entende como um espírito ou “atitude de permanente vigilância contra os ídolos seculares e sagrados, uma recusa de ajustar-se ao status quo, uma rebelião iconoclasta que nega obediência a qualquer ordem estabelecida”.
        </p>
        <p>Segundo 
            <xref ref-type="bibr" rid="B11">Cervantes-Ortiz (2005, p.43)</xref>, que propôs a divisão da obra de Rubem Alves em períodos históricos, os dois livros fazem parte da mesma fase teológica do autor, de 1975 a 1982, “período de distanciamento de alguns teólogos da libertação e aproximação a um novo estilo intelectual, teológico e literário, marcado pela assimilação e pelo desdobramento do ‘cativeiro pessoal’”. Podemos aproximar “Protestantismo e repressão” e “Dogmatismo e tolerância” de uma espécie de acerto de contas de Rubem Alves com seu passado, vivido dentro de um de modelo de protestantismo dogmático e repressor no Brasil. Pelo menos quanto ao livro “Protestantismo e repressão”, o próprio Rubem 
            <xref ref-type="bibr" rid="B03">Alves (1978)</xref>, em artigo homônimo (“Protestantismo e repressão”), admite haver feito um acerto de contas com o passado.
        </p>
        <p>O que caracteriza o Protestantismo da Reta Doutrina (doravante, PRD)? “Resposta: o fato de privilegiar 
            <italic>a concordância com uma série de formulações doutrinárias,</italic> tidas como 
            <italic>expressões da verdade</italic>, e que devem ser afirmadas 
            <italic>sem nenhuma sombra de dúvida</italic>, como condição para participar na comunidade eclesial” (
            <xref ref-type="bibr" rid="B05">ALVES, R.A., 1982b</xref>, p.35, grifos do autor)
            <xref ref-type="fn" rid="fn04">3</xref>. Interessa-nos o significado que Rubem Alves confere ao PRD como estrutura cuja beleza é capaz de fascinar.
        </p>
        <p>
            <disp-quote>
                <p>Como se estrutura o mundo protestante?</p>
                <p>O crente é um viajante, forasteiro, peregrino. Caminha numa terra estranha e efêmera para a pátria celestial, eterna. Nas suas mãos, um mapa.</p>
                <p>[&#x2026;]</p>
                <p>A ordem está fixada. O mapa é permanente. À esquerda, o caminho que leva ao inferno: sem Cristo. À direita, o caminho que leva ao céu: com Cristo. A questão decisiva é: como passar do caminho largo (onde todos naturalmente se encontram, em virtude do pecado), para o caminho estreito?</p>
                <p>A resposta: por uma metamorfose da consciência do indivíduo </p>
                <attrib>(
                    <xref ref-type="bibr" rid="B04">ALVES, R.A., 1982a</xref>, p.34).
                </attrib>
            </disp-quote>
        </p>
        <p>Oferecido ao fiel pelo PRD, o “mapa do mundo” – teológico e não geopolítico como um mapa-múndi –, é a cristalização de uma ideologia; comporta-se, de certo modo, como entronização do passado no presente e fechamento institucionalizado ao futuro: “ideologias são mundos, círculos, a um tempo lares e túmulos, onde vivemos e morremos. Entrar numa ideologia é entrar num destes mundos, único, com regras próprias e cores específicas” (
            <xref ref-type="bibr" rid="B04">ALVES, R.A., 1982a</xref>, p.22). Também está colocada em questão a linguagem adotada pelos protestantes que privilegiam ou cultuam a sã doutrina:
        </p>
        <p>
            <disp-quote>
                <p>Que palavras os protestantes usam? Deus, céu, inferno, salvação, Jesus Cristo, conversão, santificação, tentação, o crente, o mundo, pecado, confissão, oração – aqui estão algumas delas. E quando são usadas, um universo se constitui.</p>
                <p>É este universo, assim constituído, que forma o mundo protestante. Ele é sagrado. Tem de ser preservado. Os neófitos passam pela cuidadosa preparação que os habilita ao jogo lingüístico [...] .</p>
                <attrib>(
                    <xref ref-type="bibr" rid="B04">ALVES, R.A., 1982a</xref>, p.29)
                    <xref ref-type="fn" rid="fn05">4</xref>
                </attrib>
            </disp-quote>
        </p>
        <p>Compreender as linguagens que constroem mundos que fazem sentido às pessoas é tarefa legítima da Teologia e das Ciências da Religião – em diálogo necessário e contínuo com outras Ciências Humanas e Sociais. Trazemos, na sequência, dois exemplos para corroborar tal argumentação. Os leitores do capítulo “A ideologia protestante” do livro “Dogmatismo e tolerância” (ALVES, R.A., 1982a) dificilmente não se lembrarão de Peter Berger (O dossel sagrado) ao se depararem com a seguinte proposição de Rubem Alves (1982a, p.22, grifos do autor):</p>
        <p>
            <disp-quote>
                <p>O 
                    <italic>meu</italic> mundo, único e diferente de todos os outros, é o mundo que eu conheço e chamo pelo nome. Veio a existir por meio da linguagem. Primeiro a linguagem da minha mãe, pai e irmãos, que me disseram como as coisas se chamam, e por que elas são do jeito que são.
                </p>
            </disp-quote>
        </p>
        <p>Da mesma forma, os leitores vão associar a afirmação “houve tempos e lugares quando um homem vivia num só mundo do nascimento até à morte” (
            <xref ref-type="bibr" rid="B04">ALVES, R.A., 1982a</xref>, p.22) com Karl Mannheim (Ideologia e utopia). Ambos, Mannheim e Berger, são considerados legítimos representantes da “sociologia do conhecimento” – ferramenta teórico-metodológica de que se vale Rubem Alves em algumas de suas obras.
        </p>
        <p>Ainda segundo os arrazoados de Rubem Alves, o mundo do PRD, como o jogo de xadrez, tem regras preestabelecidas que devem ser aceitas pelos “jogadores”, ou seja, nem o iniciante (neófito) nem o veterano dentro do jogo podem fugir delas. Citado por Pierre Bourdieu na discussão quanto à “gênese e estrutura do campo religioso”, Wilhelm von Humboldt propõe que:</p>
        <p>
            <disp-quote>
                <p>O homem [...] apreende os objetos principalmente – poder-se-ia dizer exclusivamente uma vez que seus sentimentos e ações dependem de suas percepções –, da forma como a linguagem os apresenta. Segundo o mesmo processo pelo qual ele desfia a linguagem para fora de seu próprio ser acaba por se confundir com ela, e cada linguagem desenha um círculo mágico em torno do povo a que pertence, um círculo de que não se pode sair sem saltar para dentro de outro .</p>
                <attrib>(
                    <xref ref-type="bibr" rid="B08">BOURDIEU, 1992</xref>, p.27)
                    <xref ref-type="fn" rid="fn06">5</xref>
                </attrib>
            </disp-quote>
        </p>
        <p>Cassirer, por exemplo, estendeu o conceito da linguagem como modo de conhecimento “a todas ‘as formas simbólicas’ e, em particular, aos símbolos do rito e do mito, quer dizer, à religião concebida como linguagem [...]” (
            <xref ref-type="bibr" rid="B08">BOURDIEU, 1992</xref>, p.27). Por conseguinte, podemos entender a religião como linguagem que constrói mundos (“cosmos” que ordena o “caos”) e que confere sentido aos habitantes deles – e, talvez, somente a eles.
        </p>
        <p>Com base em Mircea Eliade e Rudolf Otto, 
            <xref ref-type="bibr" rid="B06">Berger (1995, p.38)</xref> afirma que “a religião é o empreendimento humano [porque assim se apresenta como fenômeno empírico] pelo qual se estabelece um cosmos sagrado”. Por isso mesmo que o principal intuito do livro “O dossel sagrado” é “formular alguns enunciados sobre a relação entre a religião humana e a construção humana do mundo” (1995, p.15). Não por acaso, Rubem Alves (
            <xref ref-type="bibr" rid="B05">ALVES, R.A., 1982b</xref>, p.54), grifo do autor) nos lembra que
        </p>
        <p>
            <disp-quote>
                <p>Não contemplamos a realidade face a face. Desde que nascemos, as coisas não vêm a nós em sua nudez, mas sempre vestidas pelos nomes que uma comunidade lhes deu, comunidade que já definiu como é o mundo e que, portanto, sabe o que ele é. Este conhecimento do mundo está cristalizado na linguagem.</p>
            </disp-quote>
        </p>
        <p>Como qualquer outro fenômeno religioso, o PRD é construtor de um mundo, é verdade, mas também ele nasce da linguagem. 
            <xref ref-type="bibr" rid="B13">Wach (1990, p.53)</xref> nos relembra que Humboldt, em sua filosofia da linguagem, explica o importante princípio de que “não só o grupo falante cria um modo de falar, mas também que a linguagem é instrumento da criação do grupo”. A relação entre a linguagem e seu mundo é de construção e influência recíprocas. De novo, é possível brincarmos com os sentidos da palavra “mundo”: “A atitude com relação ao ‘mundo’ que é determinada e motivada por uma experiência religiosa característica, influencia a apreciação que o homem faz dos aspectos básicos da existência humana e das normas de atividade humana” (
            <xref ref-type="bibr" rid="B13">WACH, 1990</xref>, p.66).
        </p>
        <p>O PRD oferece sentido às pessoas que dele participam, funda e sustenta a cosmovisão de seus membros. Por exemplo, ao analisar as artes dentro do protestantismo – não somente do PRD, é verdade –, Rubem Alves (
            <xref ref-type="bibr" rid="B05">ALVES, R.A., 1982b</xref>, p.131) oferece uma explicação conceitual para a necessidade de diferenciarmos, por exemplo, o mundo protestante do mundo católico:
        </p>
        <p>
            <disp-quote>
                <p>O Protestantismo privilegia a palavra em oposição à contemplação. Isto não é acidental. Tem raízes teológicas. Em contraposição aos católicos, que enfatizam a dimensão contemplativa e visual da experiência religiosa, os protestantes viram no segundo mandamento um interdito que lhes impôs um rigoroso ascetismo artístico. “Não farás para ti imagem de escultura”: o divino não pode ser representado. Representar o divino é idolatria. Já que o divino não pode ser representado pela forma, pela cor e pelo movimento, restou ao Protestantismo indicá-lo por meio da linguagem. Esta é a razão por que o meio por excelência pelo qual os protestantes vivem a religião é a linguagem: eles pregam, eles ouvem, eles cantam </p>
                <attrib>(
                    <xref ref-type="bibr" rid="B05">ALVES, R.A., 1982b</xref>, p.131).
                </attrib>
            </disp-quote>
        </p>
        <p>A propósito do papel e lugar do sermão ou prédica, 
            <xref ref-type="bibr" rid="B14">Max Weber (1994, p.318)</xref> afirma que “o sermão ganha maior importância [...] dentro do protestantismo no qual o conceito de sacerdote foi totalmente substituído pelo conceito de pregador” – proposição weberiana que compõe uma análise mais ampla sobre o “saber sagrado”. Weber quer nos dizer que o protestantismo, desde os primeiros movimentos, incumbiu-se de eliminar os aspectos mágicos da vida religiosa personificados no sacerdote. O saber sagrado levou à criação de uma classe de “verdadeiros pregadores”, cujo discurso alcançou proeminência em relação à experiência, contemplação, arte e magia dos leigos. Como os sermões não são inteiramente eficazes para a manutenção do discurso correto e eliminação de doutrinas estranhas, pois seus efeitos “diminuem na vida cotidiana com extrema rapidez, até desaparecerem completamente” (
            <xref ref-type="bibr" rid="B14">WEBER, 1994</xref>, p.319), evidenciamos a importância das doutrinas e dos dogmas para o PRD – na condição de portadores da verdadeira interpretação das Escrituras, lentes pelas quais todo fiel deve ler a Bíblia, com todas as consequências éticas e sociais decorrentes dessa leitura.
        </p>
        <p>Com base em teses weberianas, 
            <xref ref-type="bibr" rid="B13">Wach (1990)</xref> propõe que as doutrinas determinam a cosmovisão e as condições básicas da vida de seus seguidores. Ao analisar o poder integrador das doutrinas, Wach conclui que a sistematização dos dogmas em credos ou teologias é o primeiro passo, considerado natural dentro do desenvolvimento histórico, rumo a uma organização institucional, por garantir a solidariedade dos membros dentro da organização e sua união na luta contra tudo o que vem de fora. A solidariedade é o que “liga os membros entre si e os diferencia de qualquer outra forma de organização social” (
            <xref ref-type="bibr" rid="B13">WACH, 1990</xref>, p.169). Para Rubem Alves (
            <xref ref-type="bibr" rid="B04">ALVES, R.A.,1982a</xref>, p.36): “Nenhuma linguagem pode assimilar conceitos estranhos a si mesma, sem com isso, condenar-se à destruição. Conceitos estranhos são germes invasores, daí a necessidade de inquisições, os antibióticos político-sociais. Os hereges têm de ser queimados”.
        </p>
        <p>Em 2005, Rubem Alves toma uma decisão ousada, e publica na íntegra o texto do livro “Protestantismo e repressão” sob o título “Religião e repressão”. De novidade mesmo, além do título, somente o texto da apresentação (“Trinta anos depois”) da nova obra, na qual podemos ler a seguinte explicação:</p>
        <p>
            <disp-quote>
                <p>A tentação dos absolutos é uma característica universal do espírito humano. Todos queremos possuir a verdade. E para possuir a verdade é preciso que se a engaiole. E para engaiolar a verdade é necessário engaiolar a liberdade e o pensamento. Creio, portanto, que as conclusões deste livro transbordam os limites do protestantismo e podem ser aplicadas a outras religiões. Razão por que sugeri a modificação do título original Protestantismo e repressão, para Religião e repressão </p>
                <attrib>(
                    <xref ref-type="bibr" rid="B02">ALVES, R., 2005</xref>, p.13).
                </attrib>
            </disp-quote>
        </p>
        <p>Com todo respeito, não nos parece plausível considerar que a linguagem que constrói o mundo particular do PRD e é sustentada e reproduzida por ele, naquela relação de mão dupla já apontada, seja a mesma a construir todo o imenso universo (mundo) da religião ou das religiões. Isso, porém, não nos impede de aceitar que na maioria das religiões (e de outras instituições também) possa existir o pequeno mundo da “Reta Doutrina”.</p>
        <p>Queremos manter o diálogo com Rubem Alves, mas, quem sabe, noutras direções também – ainda que seja um caminho de retorno, no sentido da libertação e da esperança. Para tanto, compreender as linguagens que constroem mundos e fazem sentido – tarefa das Ciências da Religião em diálogo com a Teologia – é nos colocarmos na tensão entre a carnalidade da palavra e a essencialidade do sentido, pois somente a partir das palavras circunstanciais é que podemos ter uma compreensão ampla dos elementos que são essenciais. 
            <xref ref-type="bibr" rid="B12">Gesché (2004)</xref>, em sua reflexão epistemológica sobre o tratado de Deus, defende que o ponto de partida para pensar Deus hoje é o testemunho. O lugar privilegiado para colocar a questão de Deus é a experiência de fé. Assim, a linguagem se constitui num elemento fundamental, é o lugar (topos) em que a realidade se entrega a nós e, por isso mesmo, nossa primeira questão deve ser pelo que o humano experimenta e quer dizer, e como os traços aparecem na linguagem.
        </p>
        <p>
            <disp-quote>
                <p>Assim, o estudo da questão de Deus começa inevitavelmente por um estudo da linguagem, do 
                    <italic>quomodo</italic> de uma linguagem. Trata-se de tomar os contornos de uma experiência: o que se passa, o que é investido pelo homem quando ele pronuncia tal palavra? Por causa disso, não se coloca mais a questão de Deus a partir de um céu ideal, atemporal, aistórico; ela é posta no terreno concreto da experiência (linguística) onde nasceu 
                </p>
                <attrib>(
                    <xref ref-type="bibr" rid="B12">GESCHÉ, 2004</xref>, p.29, grifo do autor).
                </attrib>
            </disp-quote>
        </p>
        <p>Além de ouvir a linguagem, é preciso sondar aquilo que ela esconde. A questão linguística supõe também um projeto de ontologia da linguagem:</p>
        <p>
            <disp-quote>
                <p>[...] a linguagem não é simplesmente instrumento de comunicação, exterior à realidade em causa. Ela é a “compilação” do ser, o berço onde, no homem, a realidade vem ao mundo. Tratar-se-ia, portanto, de interrogar a realidade a partir desse lugar de linguagem onde essa mesma realidade chega até nós inseparavelmente. No caso, poderíamos chamar esse projeto de ontologia da linguagem ou teologia da linguagem: Como Deus se revela na linguagem, numa palavra? </p>
                <attrib>(
                    <xref ref-type="bibr" rid="B12">GESCHÉ, 2004</xref>, p.29).
                </attrib>
            </disp-quote>
        </p>
        <p>Nessa perspectiva, o dossiê “Religião e Linguagem”, proposto pela revista “Reflexão” e organizado por nós, pretende aprofundar o debate da construção de mundo pela linguagem, e o lugar da religião ou de Deus no meio disso tudo, trazendo contribuições de cunho epistemológico – e também trabalhos resultantes de contextos empíricos particulares –, uma vez que a questão toca a relação entre as ciências empíricas da religião e as abordagens de cunho fenomenológico. Essa discussão foi e continua a ser central no âmbito da área “Ciências da Religião e Teologia”, que supõe interdisciplinaridade e, mais do que isso, inclui a integração tensa entre a racionalidade científica moderna de cunho empírico-formal e a racionalidade própria da teologia, que conta com uma inteligência para além do domínio conceitual, ou seja, aberta a uma contemplação amorosa da realidade.</p>
        <p>O tipo de racionalidade que a teologia usa para refletir sobre a realidade à luz da fé opera alternativamente, afirma 
            <xref ref-type="bibr" rid="B07">Boff (2015, p.81)</xref>, entre a racionalidade de “conveniência” ou “persuasiva” e a racionalidade “demonstrativa” ou “necessitante”. A primeira trabalha com razões que evidenciam a harmonia entre a lógica divina e a humana: “Poderíamos falar da lógica da beleza em geral: é ‘belo’ que Deus tenha vindo entre os humanos, tenha assumido nosso destino e assim por diante. Aqui poderíamos parafrasear: é bastante belo para ser verdadeiro” (
            <xref ref-type="bibr" rid="B07">BOFF, 2015</xref>, p.82). Essa lógica que supera a racionalidade silogística, argumenta Boff, é a mais adequada às grandes questões humanas e, por ser um gênero de racionalidade aproximativo, é também mais adequado ao Mistério, pois o respeita em sua grandeza transcendente e em sua radical alteridade.
        </p>
        <p>Em termos alvesianos, a racionalidade própria da Teologia é, antes de tudo, poética:</p>
        <verse-group>
            <verse-line>A teologia é um poema do corpo,</verse-line>
            <verse-line>o corpo orando,</verse-line>
            <verse-line>o corpo dizendo suas esperanças,</verse-line>
            <verse-line>falando sobre seu medo de morrer,</verse-line>
            <verse-line>da ânsia de imortalidade,</verse-line>
            <verse-line>apontando para utopias,</verse-line>
            <verse-line>espadas transformadas em arados,</verse-line>
            <verse-line>lanças fundidas em podadeiras...</verse-line>
            <attrib>(
                <xref ref-type="bibr" rid="B01">ALVES, R., 1982</xref>, p.9).
            </attrib>
        </verse-group>
        <p>Boa leitura (do mundo e dos textos)!</p>
    </body>
    <back>
        <fn-group>
            <fn fn-type="other" id="fn02">
                <label>2</label>
                <p>Em nossa parceria acadêmica, o Corpus bibliográfi co de Rubem Alves tem sido um eixo transversal de pesquisas e publicações na interface da teologia com as Ciências da Religião. Sugerimos, aqui, a leitura de dois artigos nossos: “Peter Berger e Rubem Alves: religião como construção social entre a manutenção do mundo e a libertação” (CAMPOS; MARIANI, 2015) e “Lições do abismo: refl exões sobre teologia, mística e poesia em Rubem Alves” (CAMPOS; MARIANI, 2018).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn03">
                <label>2</label>
                <p>Em nossa parceria acadêmica, o 
                    <italic>Corpus</italic> bibliográfico de Rubem Alves tem sido um eixo transversal de pesquisas e publicações na interface da teologia com as Ciências da Religião. Sugerimos, aqui, a leitura de dois artigos nossos: “Peter Berger e Rubem Alves: religião como construção social entre a manutenção do mundo e a libertação” (
                    <xref ref-type="bibr" rid="B09">CAMPOS; MARIANI, 2015</xref>) e “Lições do abismo: reflexões sobre teologia, mística e poesia em Rubem Alves” (
                    <xref ref-type="bibr" rid="B10">CAMPOS; MARIANI, 2018</xref>).
                </p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn04">
                <label>3</label>
                <p>Seguindo metodologia weberiana, Rubem 
                    <xref ref-type="bibr" rid="B05">Alves (1982b)</xref> constrói três “tipos-ideais” de protestantismo: o da “Reta Doutrina” (sã doutrina), que é o objeto do livro “Protestantismo e repressão”; o do “sacramento” (mística, liturgia e sacramento); e o do “espírito” (experiência subjetiva e êxtase intenso).
                </p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn05">
                <label>4</label>
                <p>A citação acima é bastante clara para demonstrar o argumento de que a palavra “mundo” (usada duas vezes) tem sentidos diferentes em frases diferentes: teologicamente, significa a parte decaída da humanidade; e, sociologicamente, o universo ideológico do protestantismo.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn06">
                <label>5</label>
                <p>Em nota, 
                    <xref ref-type="bibr" rid="B08">Bourdieu (1992)</xref> explica haver retirado a citação de Humboldt de sua leitura de Ernst Cassirer, na obra “
                    <italic>Sprache und Mythos</italic>” (“Linguagem e mito” foi publicado no Brasil pela Editora Perspectiva).
                </p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn07">
                 <label>Como citar este artigo/
                <italic>How to cite this article</italic>
            </label>
                <p>CAMPOS, B.M.; MARIANI, C.M.C.B. Religião e linguagem: entre a carnalidade da palavra e a essencialidade do sentido. 
                    <italic>Reflexão</italic>, v.44, e194662, 2019. http://dx.doi.org/10.24220/2447-6803v44e2019a4662
                </p>
            </fn>
        </fn-group>
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