Artigo
A segunda busca do Jesus histórico: um momento de conciliação1
The second quest for the historical Jesus: A conciliation moment
A segunda busca do Jesus histórico: um momento de conciliação1
Revista Reflexão, vol. 44, e194573, 2019
Pontifícia Universiade Católica de Campinas
Recepção: 26 Abril 2019
Revised document received: 13 Junho 2019
Aprovação: 24 Junho 2019
RESUMO: Falar a respeito do Jesus histórico em contraposição ao Cristo da fé pregado pela Igreja é algo relativamente recente dentro de todo o escopo da teologia cristã. Iniciada em 1748 com o trabalho de Albert Schweitzer, essa questão foi motivo de grandes embates entre Igreja e Ciência histórica, bem como entre os estudiosos dessa temática no âmbito teológico. Dentre as três fases da busca do Jesus histórico, a segunda fase, também conhecida como New Quest, pode ser considerada como um momento de conciliação entre uma posição existencialista focada no Cristo da fé, proposta por Bultmann, e a proposta histórica que resultou das pesquisas de Schweitzer. Este artigo tem o intuito de mostrar como se dá essa conciliação entre o Jesus histórico e o Cristo da fé dentro da mencionada segunda busca, pelo viés da teologia sistemática.
Palavras-chave: Cristo da fé, Jesus histórico, New Quest, Rudolf Bultmann.
ABSTRACT: Considering theology as a whole, the question about the “historical Jesus” and the “Christ of the faith” is new. Starting in 1748 with Albert Schweitzer, this question justified the clashes between the Church and Historical Science, as well as among theology scholars that studied the subject. Among the three phases of the quest for the “historical Jesus”, the second phase, also called as New Quest, can be considered a conciliation moment between an existentialist position focused on the “Christ of the faith”, as proposed by Bultmann, and the historical proposal originated in Schweitzer´s work. This article aims to show how the conciliation regarding the “historical Jesus” and the “Christ of the faith” happens within this second quest, through a systematic theological lens.
Keywords: Christ of the Faith, Historical Jesus, New Quest, Rudolf Bultmann.
Introdução
Conciliar fé e razão sempre foi um desafio para o cristianismo. Desde os primeiros séculos da era cristã, essa questão aparece para todo cristão que deseja justificar, frente ao mundo, a sua fé de maneira que ela não seja vista como algo sem fundamento.
Os primeiros cristãos, tais como Justino (século II), Orígenes (século II-III), Atanásio (século III-IV), preocuparam-se com essa conciliação entre fé e razão e escreveram diversos textos que abarcavam essa tentativa. Os vários concílios ao longo da história revelam que sempre houve uma preocupação em trazer a fé para um ambiente de compreensão frente ao mundo. Conceitos como consubstancialidade 3, pessoa ou substância, que são claros aos olhos da fé, tendo em vista as experiências dos santos, necessitavam de uma racionalização para o entendimento do mundo.
Com o passar dos séculos, o homem torna-se mais racional. A tentativa de dominar o mundo através da razão por meio dos mecanismos do cálculo e das ciências chega ao seu ápice no Iluminismo. O mundo passa a ser visto como um lugar para o império da razão; aquilo que não pode ser explicado racionalmente deve ser visto como imperfeito, como incompleto frente ao novo lugar que se origina.
Essa nova forma de ver o mundo, trazida pelo Iluminismo, terá sua influência no cristianismo e no estudo a respeito da pessoa de Jesus, como é colocado por ( SCHIAVO, 2009, p.1) quando este diz que essa busca é “fruto de uma mentalidade racionalística, que acreditava, em nome da razão, poder reconstruir a verdade histórica relacionada a Jesus”. Um olhar atento perceberá que a motivação da pergunta: seriam os Evangelhos uma fonte confiável para sabermos a história de Jesus e quem foi Jesus de Nazaré, ou deveria se buscar outras fontes para saber sobre esse tema central do cristianismo? Tem sua motivação nessa mudança de pensamento trazida pelo Iluminismo. A referida pergunta é o primeiro motor para todo o percurso da pesquisa desenvolvida ao longo da história sobre o Jesus histórico e o Cristo da fé que, partindo de Albert Schweitzer 4, chega até os dias atuais.
Com o livro de Schweitzer, publicado em 1906, é possível dizer que termina a chamada primeira busca pelo Jesus histórico, também conhecida como Old Quest. A segunda busca tem início em 1953, com Ernst Käsemann, teólogo luterano, discípulo de Rudolf Bultmann 5.
Alguns autores consideram que o período de 1900 a 1953 foi de No Quest, um período em que não se preocupou com a busca do Jesus histórico. Porém, para que se tenha a percepção do contexto no qual surgem as indagações que motivarão Käsemann a iniciar a segunda busca, será traçado um pequeno histórico do que acontece nesse período de cerca de 50 anos.
Para que um Jesus histórico? A questão de Bultmann
No primeiro semestre de 1899, em Berlim, houve o que se pode chamar, segundo Gibellini, a abertura do século XX teológico com 16 aulas sobre a essência do cristianismo ministradas por Adolf Harnack ( GIBELLINI, 2002). Hanarck era historiador da Igreja e havia publicado o “Manual de história do dogma”, em que levanta a tese de que o cristianismo não passa de uma helenização da mensagem cristã. Em seu livro “A essência do cristianismo”, propõe uma análise histórica do cristianismo, da seguinte maneira: “O que é o cristianismo? Tal questão nós estudaremos unicamente sob o aspecto histórico e trataremos de resolvê-la com o subsídio da ciência histórica e da experiência da vida, da qual a história é maestra” ( HARNACK, 1923, p.10).
Como historiador, Harnack acreditava que era possível, através da História, encontrar a essência do cristianismo. Para ele, os três primeiros Evangelhos são fontes confiáveis para se conhecer a pregação de Jesus. É interessante notar que Hanarck, diferentemente da linha de pensamento de Weiss 6, descarta o livro de João e, na mesma perspectiva de Strauss 7, recupera o valor dado aos sinóticos na busca pela história de Jesus. Quanto à mensagem do evangelho, em sua oitava conferência ele dirá que a característica principal é: “Deus e a alma, a alma e seu Deus” ( HARNACK, 1923, p.107). Para Harnack, a mensagem de Jesus era muito simples:
Sua mensagem é mais simples do que gostariam as igrejas; bem mais simples, mas por isso mesmo mais severa e universal. Ninguém pode se desculpar dizendo que por não entender a ‘cristologia’ a mensagem não lhe interessa. Jesus dirigia a atenção dos seres humanos a grandes questões; prometia-lhes a graça e a misericórdia de Deus. Exigia que decidissem por Deus ou por mamom, pela vida terrena ou pela vida eterna, pela alma ou pelo corpo, pela humildade ou pela auto retidão, pelo amor ou pelo egoísmo e pela verdade ou pela mentira. Estas questões são muito amplas. Os indivíduos são chamados a escutar a mensagem alegre de misericórdia e da paternidade de Deus, e a decidir se a mente opta por Deus, o Eterno, ou pelo mundo e pelo tempo. O evangelho, como Jesus o proclamou, relaciona-se somente com o Pai e não com o Filho. Não se trata de paradoxo nem de ‘racionalização’, mas de simples expressão do fato real transmitido pelos evangelistas
( HARNACK, 1923, p.107).Harnack não aceita a cristologia eclesiástica, mas considera que o evangelho sofreu uma helenização ao longo de seu desenvolvimento histórico. Para ele, converter a simplicidade do evangelho nas complexidades dos credos era algo inaceitável. “Quando se institui um credo ‘cristológico’ na frente do evangelho, e se ensina que só podemos nos aproximar dele se aprendermos corretamente tudo o que se refere a Cristo, estamos nos desviando do que ele pensava e vivia” ( HARNACK, 1923, p.109).
Dois alunos de Hanarck se contrapuseram ao mestre, sendo eles Karl Barth, teólogo protestante suíço, e Rudolf Bultmann, também teólogo protestante. Enquanto o primeiro estava preocupado, em uma linha bastante calvinista, com a revelação da Palavra de Deus, o segundo seguia com uma nova proposta que o distanciaria da via da teologia liberal 8 presente até seu tempo.
Karl Barth 9, com seu livro “Epístola aos Romanos”, é o principal expoente da teologia dialética. Em linhas gerais, pode-se dizer que essa teologia enfatiza a transcendência de Deus em relação ao mundo. Não há um caminho para o homem chegar a Deus, seja pela via da experiência religiosa, da história, da metafísica. O único caminho para chegar a Deus é através de Jesus Cristo. O referido autor vê, seguindo a mesma linha de Lutero, a justificação forense, na qual o homem é considerado justo diante de Deus pelo sacrifício feito por Cristo. Mais à frente, em sua carreira teológica, ele escreve sua Dogmática em que se percebe certa aproximação entre Deus e o mundo. Gibellini apresenta uma clara caracterização dessa variação teórica da teologia barthiana:
No período dialético da Epístola, valem as seguintes afirmações centrais: a) Deus é Deus, e não é o mundo; b) o mundo é mundo e não é Deus, e nenhuma via conduz do mundo a Deus; c) se Deus encontra o mundo – e é este o grande tema da teologia cristã -, esse encontro é Krisis, é juízo, é um tocar o mundo tangencialmente, que delimita e separa o mundo novo do velho. No período da Dogmática, vão tomando consistência as seguintes afirmações centrais: a) Deus é Deus, mas é Deus para o mundo: ao Deus que é o totalmente Outro sucede a figura de Deus que se faz próximo do mundo; b) o mundo é mundo, mas é um mundo amado por Deus: passa-se do conceito da infinita diferença qualitativa aos conceitos de aliança, reconciliação, redenção, como conceitos-chaves do discurso teológico; c) Deus encontra o mundo em sua Palavra, em Jesus Cristo: daí se segue a concentração cristológica subsequente ao enfoque escatológico do período dialético
( GIBELLINI, 2002, p.30).O outro aluno de Harnack, Rudolf Bultmann, segue por um caminho totalmente divergente do proposto por Barth. Ao contrário de seu colega, ele sugerirá uma nova forma de teologia baseada na filosofia existencial heideggeriana. Propõe, e por essa proposição é que ficou mais conhecido, a desmitologização do Novo Testamento. Para Bultmann, “toda a concepção do mundo que pressupõe tanto a pregação de Jesus como a do Novo Testamento, é, em linhas gerais, mitológica” ( BULTMANN, 2003, p.12). Sua preocupação é a maneira de falar sobre a pregação de Jesus para o homem de seu tempo, que não aceita mais as visões antigas de mundo como proposto pelo Novo Testamento e a cosmologia antiga, nos quais o mundo é estruturado em três planos (céu, terra e inferno), existem demônios e anjos que interferem na vida humana etc. Ele apresenta uma ideia, então, de abandonar as concepções mitológicas para alcançar um significado mais profundo da pregação de Jesus. Em suas palavras, a desmitologização é um “método de interpretação do Novo Testamento que trata de redescobrir seu significado mais profundo, oculto atrás das concepções mitológicas” ( BULTMANN, 2003, p.16).
Em suma, para ele, a palavra de Deus não é um mistério que uma pessoa possa entender; antes disso, a pessoa deve compreendê-la. Compreensão, no pensamento do autor, é diferente de explicação racional. A palavra de Deus sempre chega a alguém como uma proclamação e exige dessa pessoa uma resposta de fé. Assim, “o homem que deseja crer em Deus deve saber que não dispõe absolutamente de nada sobre o qual possa construir sua fé, e que, por assim dizer, se encontra suspenso no vazio” ( BULTMANN, 2003, p.66).
Dessa forma, a História, com sua tentativa de verificar o que aconteceu ao homem Jesus de Nazaré, não é capaz de discernir o que Deus fez em Cristo, não pode reconhecer que Jesus é um evento escatológico e que ele representa uma mensagem sempre para o aqui e o agora humano. Para Bultmann, escatológico é tudo aquilo que é decisivo para a existência ( GIBELLIN, 2002) e, assim, o evento Cristo é escatológico, porém esse evento só acontece na fé, não podendo ser conhecido de forma racional.
Sobre o referido tema, é salutar a consideração de Juán Miguel Díaz Rodelas. Ele afirma que essa interpretação existencial de Bultmann leva ao encerramento da mensagem cristã a uma filosofia particular ( RODELAS, 2006). Com isso exposto, fica claro que, para Bultmann o que importa não é Jesus histórico, mas sim a mensagem deixada pelos seus discípulos, o Kerigma, proclamação, ou seja, o Cristo da fé.
Um Jesus que precisa do Cristo e um Cristo que não existe sem Jesus
Nos seguintes questionamentos, ocorre a ruptura entre Bultmann e seus discípulos: se for somente o evento Cristo, o qual se atualiza diariamente, o ponto mais importante para a fé do cristão, que deve aceitar a palavra de Deus vinda até ele pelo Kerigma, seria necessário o conhecimento a respeito do Jesus histórico? Não seria irracional ter uma fé que se sustenta no vazio histórico? Faria sentido uma fé que se apoia somente sobre a proclamação de um grupo de pessoas a respeito de um ser histórico, sem saber quem foi esse ser?
Todas essas perguntas estão por trás do que é conhecida como New Quest, ou seja, uma nova fase de perguntas a respeito do Jesus histórico. Essa nova fase tem início em 1953, quando Ernst Käsemann 10 profere sua conferência com o tema “O problema do Jesus histórico” ( KÄSEMANN, 1978).
É importante perceber o contexto histórico e as novas questões teológicas que permeiam essa nova pergunta. Como foi visto acima, a teologia dialética, que surge com Karl Barth, tinha como intuito a volta à palavra de Deus, sem depender das reconstruções históricas. Esse tipo de pensamento, levado às suas últimas consequências, tem em Bultmann seu melhor representante, quando ele afirma ser o Cristo da fé o mais importante, não o Jesus histórico.
É relevante observar, ainda, a diferenciação feita por Martin Kähler, em 1892, que também é usada por Bultmann em suas considerações. Trata-se da diferenciação presente na língua alemã entre os termos Historisch e Geschichtliche. Joachim Jeremias, em seu livro “ Il problema de Gesù stórico”, apresenta uma boa indicação: “com o termo historisch ele indica o puro e simples fato do passado, com geschichtlich encerra significado duradouro” ( JEREMIAS, 1964, p.14).
No campo da exegese, começa-se a utilizar um novo método de crítica bíblica, conhecido como história das formas 11. O referido método mostrava que os Evangelhos sinóticos não eram documentos históricos, mas documentos de fé nascidos do contexto das primeiras comunidades cristãs.
Nesse pano de fundo, Käsemann aceita o proposto pela pesquisa vinda da teologia liberal: não era possível chegar ao Jesus histórico; todo aquele que se propõe a estudar a história de Jesus chegará somente ao querigma da Igreja primitiva, sendo, portanto, impossível escrever uma biografia de Jesus. O Jesus histórico puro nunca existiu, ele sempre foi interpretado pela fé. Käsemann acredita que o relato era condição para manter firme a experiência de fé dos primeiros discípulos. Em suas palavras:
A história não se faz historicamente importante pela tradição como tal, senão pela interpretação; a mera constatação de uns atos não basta, senão que se necessita a compreensão dos acontecimentos do passado, que se fizeram objetivos e se permaneceram fixados nos atos. A variação do kerigma neotestamentário prova que a cristandade primitiva manteve a confissão de sua fé através das mudanças de épocas e situações, ainda quando aquelas transformações a obrigaram a uma modificação da tradição que havia recebido. Ter somente consciência da história (Historie) que vamos arrastando detrás de nós não dá a esta, enquanto tal, nenhuma significação histórica, mesmo que seja completa de maravilhas e milagres [...] A história (Geschichte) não possui uma significação histórica mais do que na medida em que, por suas questões e suas respostas, fala em nosso tempo presente, encontrando por tanto uns intérpretes que entendam essa questões e essas respostas para nosso tempo e as apresentem
( KÄSEMANN, 1978, p.164).Juntamente com Käsemann, Fuchs, Bornkamm, Colzemann e Ebeling refizeram o caminho de reconciliação entre o Jesus histórico e o Cristo da fé. Segundo eles, havia uma cristologia implícita nas palavras e ações do Jesus histórico.
Bornkamm, em seu livro “Jesus de Nazaré”, mostra que Jesus pertence ao mundo judeu e que isso precisa ser levado em conta quando se fala sobre ele:
Jesus pertence a esse mundo. E, no entanto, no meio dele, ele é um outro, inconfundível; nisso consiste o mistério de sua influência e de sua rejeição. A fé exprimiu este mistério de muitas maneiras. Contudo, até mesmo aquele que, apesar de toda a interpretação, dirige apenas seu olhar para a visão histórica de Jesus, a forma de sua doutrina e de sua atuação, tropeça com esse mistério sem solução
( BORNKAMM, 2005, p.102).No pensamento de Bornkamm, que segue a linha de Ebeling, “existe uma união indissolúvel entre o que foi dito e a mensagem de Jesus sobre a realidade de Deus, sua soberania e sua vontade” ( BORNKAMM, 2005, p.110).
Ebeling talvez tenha sido o que mais se distanciou da posição bultmanniana ( GIBELLINI, 2002), pois defende que o ponto de passagem do Jesus pascal para o Cristo da fé é a páscoa. Segundo ele, a fé pascal é a compreensão do Jesus pré-pascal. Assim como Jesus se entrega totalmente ao Pai, abandonando-se a Ele em total entrega, assim também deve ser a relação do cristão em relação a Cristo. Ebeling vai contra Bultmann, quando questiona: se Bultmann desconsidera o Jesus histórico, como pode a fé não ter fundamento em um personagem que não é relevante? Ebeling, como mostra Gibellini, defende a cristologia implícita nas ações e ditos de Jesus e, mais ainda, em sua pessoa.
A reflexão a respeito da relação entre o Jesus histórico e o querigma cristológico explícito fundamenta-se no querigma cristológico implícito, que em última análise é a própria pessoa de Jesus. O querigma cristológico explícito deriva do fato de que Jesus anunciou, concretamente, Deus. É isso que o querigma professa e que é a soma de todas as pregações cristológicas: Jesus, a Palavra de Deus. Nele, Deus veio até nós. Foi Jesus quem tornou Deus compreensível
( GIBELLINI, 2002, p.54).A segunda busca do Jesus histórico envolveu também teólogos não-bultmannianos, como Joachim Jeremias, o qual também aceita a ideia de que os evangelhos são escritos de fé dos discípulos de Jesus, sendo, portanto, impossível a reconstrução de uma biografia de Jesus. Contudo, discorda da posição Bultmanniana e manifesta sua preocupação com a pesquisa sobre o Jesus histórico, a qual pode seguir dois caminhos: levar os preceitos de Bultmann às últimas consequências e se aproximar do docetismo, em que Cristo não passa de uma ideia; ou então deixar de lado a premissa de que o “Verbo se fez carne”, colocando a pregação de Paulo no lugar da mensagem de Jesus ( JEREMIAS, 1964).
Para Jeremias, “a origem do cristianismo não é o querigma, não são as experiências pascais dos discípulos, não é uma ideia do Cristo; a origem do cristianismo é um evento histórico, e precisamente a aparência de Jesus de Nazaré” ( JEREMIAS, 1964, p.21).
Uma visão de conjunto sobre a 2ª busca
Ao longo de toda a New Quest, alguns pontos podem ser destacados como síntese do período de busca. Houve, inicialmente, uma tentativa de reaproximar o querigma do histórico; a Old Quest teve um caráter totalmente científico, buscando descobrir o Jesus histórico até chegar a um ponto em que não conseguiu mais avançar, tendo que assumir que não era possível recuperar o personagem histórico que procurava.
Posteriormente, com a teologia dialética e, depois, com a teoria bultmanniana, foi dada extrema importância ao querigma, como se a questão histórica não fosse importante. Afinal, segundo essa linha de raciocínio, questionou-se: para que saber sobre o Jesus histórico, se o que salva as pessoas é a crença e a compreensão da palavra de Deus que chega até elas através do Cristo do querigma? Ironicamente, os que contrapõem a ideia bultmanniana são os discípulos dele.
Käsemann e outros alunos de Bultmann iniciam a construção dessa ponte entre a primeira busca e a escola bultmanniana. Para eles, não era possível conceber um Cristo que era somente uma ideia, um ideal de homem que havia sido construído por quem andou com certo judeu da Galileia. Assim, apresentavam a tese de que o querigma não se sustentava sozinho; ele era fruto das interpretações daqueles que haviam ouvido e visto os ditos e atos de Jesus. A essa cristologia que surge, deu-se o nome de cristologia implícita. Segundo Bueno de la Fuente, há indícios que permitem falar de um cristologia implícita nos tempos pré-pascais, tais como a vinculação do Reino com o ministério de Jesus, a sua relação com o Pai, a autoridade que emana de sua atuação ( FUENTE, 2002). Os expoentes da segunda busca tinham em mente que, no discurso de Jesus, percebiam-se traços que não faziam parte do judaísmo antigo, nem do cristianismo primitivo. Por esse motivo, eles devem ser considerados dignos de confiança para um historiador honesto; além disso, em Jesus percebe-se o germe de fé que haveria de estar presente naqueles que aceitariam o querigma, primeiramente.
Conclusão
A segunda busca do Jesus histórico não deve ser compreendida como um momento isolado dentro da temática acerca do Jesus histórico. Conforme foi demonstrado, ela nasce como uma reação às teses de Rudolf Bultmann, que tentava desvencilhar o personagem histórico daquilo que se seguiu a ele. Assim, para a concepção do referido autor, Jesus era uma representação do anúncio do evangelho, uma vez que esse anúncio tem como base a sua própria vida. Segundo os diversos autores da segunda busca, no entanto, pensar num Cristo sem história é algo descabido para uma fé que busca dar razões de sua esperança.
A segunda busca do Jesus histórico se mostra, então, como momento de conciliação entre uma preocupação historiográfica e biográfica - típica da primeira busca do Jesus histórico, ocorrida nos séculos XVIII a XX -, e o anúncio do Cristo da fé, fruto da experiência cristã dos primeiros discípulos, que se baseia em um ser histórico, Jesus de Nazaré. A referida conciliação revela a grande contribuição que essa segunda busca trouxe para a teologia sistemática atual no que tange à temática do Jesus histórico e do Cristo da fé.
Referências
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Notas
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