Igreja e Estado em contextos de (des)secularização

Política, Religião e Educação no Brasil a partir do olhar do educador norte-americano Horace Lane

Politics, Religion, and Education in Brazil from the perspective of the North American educator HoErace Lane

Ivanilson Bezerra da SILVA
Faculdade de Sorocaba, Brasil

Política, Religião e Educação no Brasil a partir do olhar do educador norte-americano Horace Lane

Revista Reflexão, vol. 44, e194651, 2019

Pontifícia Universiade Católica de Campinas

Recepção: 30 Maio 2019

Revised document received: 01 Julho 2019

Aprovação: 31 Julho 2019

RESUMO: O artigo analisa a visão do educador e missionário norte-americano Horace Lane sobre a Política, Religião e Educação no Brasil a partir dos relatórios encaminhados aos curadores nos Estados Unidos e prospectos da Escola Americana de São Paulo produzidos para a elite brasileira. Para o educador, o Brasil ainda não havia experimentado a “verdadeira República” e só alcançaria a “verdadeira democracia” se o modelo educacional norte-americano fosse implantado no território nacional. Como missionário, diretor da Escola Americana, presidente do Mackenzie College e superintendente da obra educacional no Brasil, ele utilizou as mais variadas estratégias para mostrar que o modelo educacional e o presbiterianismo norte-americano eram capazes de colocar o país no processo de modernização defendido por agentes sociais ligados às elites republicanas. Os relatórios, como será visto, ajudam a entender as representações construídas por Horace Lane sobre o Brasil, Política, Educação e Religião.

Palavras clave: Educação, Horace Lane, Política, Religião.

ABSTRACT: The article analyses the vision of the North American educator and missionary Horace Lane about politics, religion and education in Brazil from the reports sent to the trustees in the United States and prospects of the São Paulo American School produced for the Brazilian elite. For the educator, Brazil had not experienced the “real Republic” and would only achieve “true democracy” if the North American educational model was implanted in the national territory. As a missionary, principal of the American school, president of the Mackenzie College and superintend of the educational work in Brazil, he used the most varied strategies to show that the educational model and the north American Presbyterianism were capable of putting the country in the modernization process defended by social agents linked to the republican elites. The reports, as we shall see, help us understand the representations made by Horace Lane about Brazil, politics, education, and religion.

Keywords: Education, Horace Lane, Politics, Religion.

Introdução

O objetivo do presente artigo é apresentar a visão que o educador e missionário do presbiterianismo norte-americano Horace Lane tinha do Brasil e a maneira pela qual ele apresentou sua Religião e proposta educacional como elementos necessários para modernizar o país. É importante lembrar que o período em que Horace Lane atuou como diretor, missionário e superintendente da obra educacional da South Brazil Mission (1885-1912) foi marcado por transformações políticas, sociais, econômicas e educacionais. Essas mudanças abarcavam fim da monarquia, o fim do trabalho escravo e o início do trabalho livre e assalariado, a participação do capital estrangeiro inglês e do capital norte-americano, as imigrações e a intensa circulação de novas tendências de pensamento: positivismo, industrialismo, ruralismo ( HILSDORF, 2003).

As mudanças nas esferas políticas, sociais, econômicas e educacionais representavam para a elite a ideia de progresso e modernidade. Segundo Moraes (1994), essa mentalidade influenciou também o imaginário das populações rurais, as quais entendiam que as cidades eram a possibilidade de uma série de conquistas: trabalho regular e remunerado, acesso rápido ao dinheiro e às mercadorias, uma vida cotidiana mais agitada e com mais atrativos, acesso à educação e à informação. Porém, o processo de crescimento urbano foi marcado pelas contradições sofridas pela camada populacional mais pobre: falta de moradia, problemas com o abastecimento de alimentos e água, epidemias, subemprego e desemprego. Violência e mendicância também foram alguns das dificuldades produzidas no contexto urbano, visto que nem todos usufruíam plenamente dos avanços e dos benefícios da vida urbana, apenas a camada mais rica tinha oportunidades nos bairros de elite e no centro comercial.

Porém, esse processo proporcionou a formação do proletariado industrial e urbano, composto por imigrantes estrangeiros. A cidade passa a ser símbolo do progresso, da modernidade e espaço de poder ( SILVA, 2010). Hilsdorf (2003, p.58) ressalta que: “[...] da perspectiva do capital, é pelo crescimento desses setores do comércio e serviços no processo de imigração-urbanização que vai se dando a formação da camada de empresários industriais, muitos deles também agroexportadores”.

Posto isso, é possível pensar que o Brasil presente na mente de Lane era o Brasil que ainda não havia experimentado a consolidação dos ideais republicanos. Como diretor, missionário e superintendente da obra educacional de São Paulo, ele tinha uma posição privilegiada do ponto de vista do poder. Nos relatórios encaminhados aos Trustees of New York, vários assuntos ocupam a atenção de Horace Lane, sendo eles: o número de matrículas, a falta de verbas, a missão de outros protestantes no País, a educação teológica, a educação católica, a educação da universidade sob sua orientação, as filiais da escola no interior, as finanças, relatórios de outras escolas protestantes, o trabalho religioso nas escolas, a política brasileira e o presbiterianismo norte-americano como a “verdadeira Religião” capaz de modernizar o Brasil. Para este artigo, interessa o que ele pensou acerca do Brasil, da Educação e da Religião.

O discurso de Horace Lane sobre o Brasil, a política e a Religião

Laguna (1999) fez uma análise do pensamento político de Horace Lane, destacando que ele constrói traços superficiais sobre o País. Acredita-se que, além disso, talvez Lane apenas tenha colocado no seu relatório assuntos mais pertinentes às suas preocupações, ou seja, seus discursos eram construídos de acordo com os interesses do grupo social a que pertencia. Mas, de certa forma, ele estava atento às mudanças que se configuravam naquele momento no campo político brasileiro – especialmente na cidade de São Paulo –, e aos interesses dos Trustees.

No relatório de 1907, Lane fala sobre a questão política, afirmando que estava face a face com o “Novo Brasil”. Para ele, o país estava despertando de um sono profundo mantido por séculos pelos portugueses. Além disso, outros países também entendiam que o Brasil era um grande território a ser explorado. Representantes do Brasil no Congresso Pan Americano em Haia, ao falarem sobre o país, despertaram o interesse de outras nações em relação ao seu desenvolvimento econômico, político e social. Segundo Lane, por ser uma grande nação, os capitalistas e políticos estavam de olho no Brasil para desenvolver suas atividades. Para Lane, o vale do Amazonas era muito grande e se destacava pelas características físicas, comerciais, políticas e sociais. A região de Minas Gerais tinha um bom clima. A agricultura e a indústria estavam em pleno desenvolvimento em direção ao progresso, recebendo uma grande soma de capital estrangeiro. Na sua visão, Mato Grosso, Goiás e todo o oeste do Brasil eram, em grande parte, uma “terra desconhecida” e possuíam grande quantidade de tribos indígenas selvagens.

Lane, em seu relatório, afirmava que em quase todos os Estados da União havia obras portuárias e construção de ferrovias iniciadas com capital estrangeiro. As ferrovias cortavam boa parte do país e passavam por regiões até então inexploradas e povoadas por tribos “selvagens”. Na sua visão, o Estado de São Paulo era o mais desenvolvido em relação às indústrias do que a maioria dos Estados da República.

Segundo sua interpretação, a presença de empresas norte-americanas, inglesas e italianas criou uma atmosfera social mais limpa, enquanto, na política, o país se aproximava da “verdadeira República”, porém, com traços do antigo Regime Imperial. Algumas cidades da costa do país ainda preservavam aspectos da antiga civilização portuguesa, principalmente nas cidades do interior 2. Para ele, havia uma mistura de elementos indígenas e africanos - não havia uma linhagem de cor. Isso produzia uma anarquia moral e social, da qual o estrangeiro não fazia ideia.

Em relação à política, nada havia mudado, segundo sua ótica. O presidente era um homem honesto e com larga experiência na vida pública, porém educado pelos jesuítas, na mesma escola que seu antecessor 3. Nesse sentido, mostrava uma tendência política conservadora, sendo inclinado a manter os interesses de Roma. Em todo o país a classe de políticos era originária do Império e as pessoas não eram consultadas, somente em raras ocasiões. Em São Paulo, as eleições eram abertas e livres. Tinha apenas um candidato a governador, e a eleição representava uma farsa.

No relatório de 1908, Lane chama a atenção dos curadores de New York, dizendo:

As relações entre um trabalho como o nosso e a condição geral do país, e deste estado em particular, que depende quase inteiramente do apoio do público, são íntimas, antes de entrar nos detalhes da administração das Escolas e da Universidade, eu rogo para brevemente apontar os assuntos do país em sua vida comercial, política e religiosa

( LANE, 1908, p.2, tradução nossa).

Para Lane, não havia como dissociar o trabalho educacional da condição geral do país. Entendia que a educação era um instrumento capaz de mudar as estruturas políticas, sociais e culturais de uma nação. Sua visão coadunava com os interesses dos republicanos brasileiros, que defendiam que a educação era um instrumento necessário para a modernização do país ( HILSDORF, 1977, 1986; SILVA, 2010). Nesse sentido, ele propõe que seja feito um apontamento sobre a vida comercial, política e religiosa do Brasil. Começa dizendo que a atenção do mundo político e comercial tem sido atraída para o Brasil e outros Estados sul-americanos. Porém, para ele, o Brasil recebia maior atenção devido ao seu tamanho, seus ricos recursos naturais, além do fácil acesso às suas terras. No mesmo relatório, pontua que grandes indústrias da Alemanha, França e Bélgica estabeleceram agências e enviaram “caixeiros-viajantes” para todo o país. Afirmava que grande soma de dinheiro era investida por capitalistas ingleses, franceses, alemães, belgas e americanos na construção de ferrovias. Lane expressa seu desejo de que, no futuro próximo, essas ferrovias pudessem fazer conexão desde os trilhos do vale do Amazonas até a região de La Plata (Argentina).

Para Lane, o ano de 1908 foi um ano produtivo na atividade fabril. Afirma:

Sob uma alta tarifa protecionista, os fabricantes nativos tomaram uma existência pouco natural, geralmente com capital estrangeiro, oprimindo o consumidor e aumentando o custo de vida. As grandes exportações de borracha e café aparentemente favorecem a balança comercial do Brasil. A enorme dívida externa, contudo, cria um verdadeiro desequilíbrio contra ela

( LANE, 1908, p.2, tradução nossa).

Mas, existiam também no Brasil condições favoráveis para a emigração:

Nos Estados centrais do Sul, e em alguma extensão no extremo, há uma crescente onda de imigração, mais perceptivelmente em São Paulo, mas, nos estados centrais litorâneos e aqueles do interior, como Goiás, Mato Grosso, há pobreza extrema e população decrescente, especialmente na Bahia, Sergipe e Ceará, onde existem secas prolongadas, assim, podemos dizer que o Brasil progride, mas, como um todo, não prospera

( LANE, 1908, p.3, tradução nossa).

Segundo Souza:

As transformações da cidade que se verificaram nas últimas décadas do século XIX e início do XX – crescimento urbano, desenvolvimento do comércio, melhoramentos como saneamento básico, água, iluminação, transportes públicos, ferrovias, ajardinamentos, teatros, jardins públicos – são denotativas deste desenvolvimento

( SOUZA, 1998, p.91).

Na visão de Monarca (1999), no limiar da República, São Paulo se afastou dos aspectos coloniais, transformando-se em uma cidade cosmopolita que concentrava as funções de capital econômico, administrativo, político e cultural do Estado. Porém, os discursos modernizadores dos Republicanos, as mudanças arquitetônicas e a atmosfera cosmopolita escondiam o lado obscuro da modernidade: as epidemias, a pobreza, a indulgência das massas urbanas, a especulação imobiliária, a escassez de imóveis, o jacobinismo político, as aglomerações operárias, a população encurralada nos cortiços e outros problemas.

Nos relatórios de Lane, não se percebe nenhum assunto relacionado a esses problemas na cidade de São Paulo; além disso, não há nenhuma proposta explícita para melhorá-los. Ao defender valores burgueses, o presbiterianismo tornou-se pouco atraente para as camadas populares ( MENDONÇA; VELASQUES FILHO, 1990). Lane menciona apenas que Goiás e Mato Grosso eram afetados pela pobreza. Seu discurso gira em torno das suas opções políticas, da importância da educação protestante para a “redenção do Brasil”, de assuntos relacionados à economia, da preocupação com a expansão do catolicismo e de outras denominações protestantes, ou seja, Lane constrói uma representação unilateral do Brasil, descartando os problemas oriundos da modernização defendida pelos republicanos.

Sobre a questão política, há três destaques que Horace Lane faz no seu relatório de 1908: o plano de valorização, a política e a justiça. Sobre o plano de valorização, ele afirma:

A fixação da taxa de câmbio em U$15, depende principalmente de S. Paulo, apesar de Rio e Minas estarem incluídos no acordo. A tentativa de proteger o plantador de café, comprando e estocando oito milhões de sacas do excedente, contrariando todas as noções lógicas de finanças e economia política, foi claramente uma escolha maligna. Ela salvou temporariamente o interesse do grande plantador de café e será assegurada a todo custo. A grande perda, se houver uma, que ninguém dúvida, irá cair sobre o estado todo, que é capaz de suportá-la. Esse foi o resumo da condição econômica

( LANE, 1908, p.5, tradução nossa).

Do ponto de vista político, Lane faz o seguinte comentário:

Politicamente, há pouco progresso na direção de uma República real. O país ainda está nas mãos de padrinhos políticos e panelinhas, herdados do Império. O povo não é consultado na escolha de seus representantes. Geralmente, há apenas um candidato indicado pelos chefes. Ainda não surgiu nenhum grande homem para moldar e dar caráter a uma verdadeira democracia, onde o povo é consultado

( LANE, 1908, p.4, tradução nossa).

Na sua visão, o Brasil ainda não havia experimentado a “verdadeira democracia”, porque estava nas mãos de pessoas, de padrinhos políticos e de panelinhas, herdeiros do Império. De certa forma, essa conjuntura política confrontava os ideais protestantes defendidos por Lane e pelo presbiterianismo, entre eles, a individualidade, a democracia e a liberdade ( RAMALHO, 1976; HILSDORF, 1977; SILVA, 2010). Percebe-se claramente a expectativa nutrida por Lane de ver um homem na política capaz de mol-dar e dar caráter à “verdadeira democracia”. O modelo de democracia pensado por Lane era o norte-americano. Toda ação e investimento dos presbiterianos norte-americanos ajudariam o Brasil a chegar à tão desejada democracia e a abandonar os resquícios do Império, sistema político altamente combatido pelos Republicanos. Sobre a questão da justiça, mencionada por Lane, o relatório destaca: “A justiça é frouxamente administrada, o julgamento por júri é uma farsa, os tribunais estão sob o controle político e a decisão de um caso, civil ou criminal, depende apenas da influência do advogado” ( LANE, 1908, p.4, tradução nossa).

No relatório de 1909, Lane avança sobre os temas dos campos comercial, industrial e financeiro. Afirmava que houve verdadeiro progresso e prosperidade. Ferrovias foram expandidas até os limites dos estados adjacentes, norte e sul, e o capital estrangeiro tinha entrado livremente para novos empreendimentos. Dez milhões de sacas de café foram exportadas. Para ele, apesar da bagunça das finanças internas e corrupção na administração pública, a boa fé tradicional dos credores internacionais foi mantida, e a posição financeira elevada da nação no exterior foi preservada.

As coisas estão em uma desordem que não faz bem algum para as instituições livres ou a paz do país. Com mais de meio século de familiaridade com o funcionamento do Brasil e conhecimento próximo de seus homens públicos, alguns deles alunos meus quando jovens, não encontro opinião sobre o resultado da eleição presidencial que se aproxima. Uma melhoria com certeza há: agora dois candidatos, onde até agora só havia existido um, então uma indicação é equivalente a uma eleição. Nós agora temos dois homens que realmente representam importantes princípios do governo, cujas indicações também representam dois processos distintos; um é a perpetuação da lei dos ‘chefes’, o outro se aproxima a uma visão democrática do direito do povo de ser consultado

( LANE, 1909, p.2, tradução nossa).

Na sua visão, os dois candidatos que disputavam o pleito representavam dois processos distintos: um seria a perpetuação da lei dos “chefes”, o outro se aproximava mais da visão de uma sociedade democrática. Lane não menciona o nome dos candidatos. O primeiro, na sua visão, era um homem do exército, ambicioso, com pouca educação e que estava nas mãos de políticos egoístas. Era um homem honesto, mas arbitrário, violento e totalmente incapacitado para as sérias responsabilidades do governo. Acentua: “Ele está apaixonado pela ideia do serviço militar obrigatório inspirado no plano alemão, e é abertamente apoiado pela panelinha dos militares, que declara que este homem tem de ser eleito nem que o exército tenha que se encarregar disto” ( LANE, 1909, p.3, tradução nossa). Segundo Faoro (2001), a eleição de um presidente militar seria vista por outros países como expressão de instabilidade política, enquanto a eleição de um presidente civil, em nome ou em favor da riqueza cafeeira e industrial, restabeleceria o prestígio da União diante de outros países.

Lane deixa bem claro que não apoiava tal candidato. Embora fosse honesto, era uma pessoa arbitrária e que representava a panelinha de militares. Não é a primeira vez que emprega a palavra “panelinha” para expressar sua visão política. No relatório anterior, ele utilizou esse termo para referir-se a “panelinhas” de políticos que representavam o antigo regime, o Império. Segundo Laguna (1999), tratava-se de Hermes Rodrigues da Fonseca.

Percebe-se pelos relatórios, que Lane é mais propenso a apoiar o segundo candidato a presidente: “Do outro lado, temos o mais brilhante e culto brasileiro de sua geração, um senador, um advogado profundo e um estadista patriota que representa o elemento civil. Ele é o homem que compeliu respeito para si e para o Brasil na Conferência de Haia” ( LANE, 1909, p.5, tradução nossa). Segundo Silva (2009, p.95), a Conferência de Haia “reuniu 48 países para a discussão de diversos assuntos internacionais, a fim de estabelecer um novo equilíbrio de forças. O maior objetivo da Conferência foi a criação de uma Corte Permanente de Justiça Internacional”. No relatório de 1907, em referência à Conferência de Haia, Rui Barbosa, segundo Horace Lane, abriu os olhos de seus companheiros e chamou a atenção do mundo para o lugar que cabia ao Brasil ocupar entre as nações da Terra, bem como para os direitos de toda América do Sul. Silva (2009, p.103) acentua que Rui Barbosa: “De fato, colaborou para fortalecer a imagem pública do país em termos de política internacional, canalizando nosso emblema de liberalismo democrático e encaixando o Brasil como uma Nação articuladora de grandes possibilidades de construção de uma República de futuras projeções, para garantia das liberdades públicas”.

O apoio de Lane a Rui Barbosa pode ser justificado pelo pertencimento dele à maçonaria e pelo apoio que dava à visão norte-americana e aos ideais republicanos e abolicionistas, que ambos defendiam. Para Lane, Rui Barbosa era um homem brilhante, culto, um senador, um advogado, um estadista patriota que representava o elemento civil. Segundo Silva (2009, p.45), “Rui se encaixa como portador do desenvolvimento e dotado de um espírito reformador para atender a uma nova ordem socioeconômica que viria a acontecer, tendo como espelho as mudanças capitalistas do século XIX, preocupado fundamentalmente com as matrizes do liberalismo individualista”. Porém, Rui Barbosa não representava os interesses do então presidente da República, Afonso Augusto Moreira Pena, que, na visão de Lane, era um político inescrupuloso que não hesitaria em utilizar sua influência e poder para interferir na eleição livre. A respeito disso, ele se posiciona:

A força será usada e é aceito em geral que o soldado será colocado, se não eleito. É pouco possível que isto seja evitado, mas não muito provável; assim, o Brasil, em paz com todo o mundo, e necessitando de todas as suas energias para desenvolver os maravilhosos recursos naturais do país, parece rumo a ficar, durante os próximos quatro anos, nas mãos dos políticos ardilosos e saqueadores, e sujeito aos caprichos de um grupo militar. Eu sinto profundamente por ser obrigado a dizer que, após vinte anos, a República ainda é um nome para cobrir um governo do mais sórdido tipo de truques e intrigas. Ainda não há democracia real, nenhum governo do povo pelo povo, mas uma competição pelo poder e pelo ‘pão e peixe’

( LANE, 1909, p.4, tradução nossa).

Lane mostra suas representações sobre os políticos naquela ocasião, afirmando que o poder estava nas mãos de políticos ardilosos e saqueadores, pessoas sujeitas aos caprichos de um grupo de militares. Para ele, não havia “democracia real”, um governo eleito pelo povo e para o povo, mas uma competição pelo poder e pelo “pão e peixe”. Essa “democracia real” seria possível com a eleição de Rui Barbosa.

A crítica de Lane às condições políticas do Brasil transparece seu posicionamento a favor da eleição de Rui Barbosa. Nesse período, o candidato à presidência lançava uma “campanha civilista” contra o militarismo representado pela figura de Hermes da Fonseca. Lane, de certa forma, comunga do pensamento de Rui Barbosa, quando afirma que a eleição de um militar representava as articulações dos políticos ardilosos e saqueadores. Observa-se nas entrelinhas que Lane deposita certa esperança nos rumos da política brasileira ao apoiar o nome de Rui. Na opinião de José Murilo de Carvalho ( CARVALHO, 1990), a República brasileira era uma espécie de “ditadura republicana”, pois reforçava, na melhor das hipóteses, o paternalismo governamental e, na pior, levava água para o moinho do autoritarismo tecnocrático, com ou sem militares. Para Hilsdorf (2003), a república brasileira se assemelhava a um movimento golpista, instaurador de uma ditadura típica dos governos sul-americanos.

Em 1910, Lane dá sua opinião sobre as eleições brasileiras, tecendo críticas contra os dois candidatos, principalmente contra Hermes da Fonseca Rodrigues. A respeito deste, afirma:

O Presidente, Hermes da Fonseca é sobrinho do primeiro presidente da República, Deodoro da Fonseca. Os Fonsecas eram uma família militar antiga, que produziu alguns homens de muita capacidade, a maioria deles, no entanto, foram homens de inteligência medíocre. Todos possuíam temperamento forte, eram corajosos, ambiciosos e patrióticos, estritamente honestos em questões de dinheiro, mas nem tanto na política ou leais aos seus amigos. Deodoro traiu seu benfeitor, o Imperador, e Hermes traiu e abandonou seu grande amigo, Affonso Penna, sendo o principal responsável pela sua morte e pela ‘miserável’ e desonesta administração do vice-presidente que o sucedeu. Ninguém vai ficar muito surpreso se ele trair o seu atual administrador, Pinheiro Machado, que é um líder violento e sem escrúpulos, o principal responsável pelo bombardeio proposital em Manaus

( LANE, 1910, p.3, tradução nossa).

Lane demonstra conhecer o cenário político brasileiro. Percebe as disputas de poder no campo político, juntamente, com suas alianças, concorrências e dominações ( BOURDIEU, 2007). As representações construídas sobre Hermes da Fonseca e sua família têm a finalidade de desqualificar esse agente e mostrar que ele não era o homem “ideal”, tanto que, no relatório, afirma que o Brasil cresceu, “chegou a sua maioridade”, sem produzir realmente um grande homem. Que relação o cenário político brasileiro tinha com a proposta educacional de Lane? Ou, então, por que depositava mais confiança nas propostas políticas de Rui Barbosa? Rui, desde o final do século XIX, era um defensor dos ideais americanos. Partilhava dos mesmos ideais republicanos e maçons de Horace Lane, como Tavares Bastos e Rangel Pestana faziam em relação à cultura norte-americana ( HILSDORF, 1986, 2009). Talvez, Hermes da Fonseca representasse para Lane uma ameaça ao avanço de suas propostas pedagógicas e educacionais.

Nesse sentido, pode ser que Lane enxergasse em Rui Barbosa não somente o “grande homem” que a República brasileira merecia, mas também uma oportunidade de ver durante seu governo os ideais que defendia sendo colocados em prática. Mas, por alguma razão, Lane afirma que apesar de Rui ser um homem inteligente, limpo e incorruptível, faltava-lhe bom senso:

O último candidato de oposição à presidência é um grande homem, intelectualmente, limpo e incorruptível, mas falta-lhe sabedoria. Estamos observando o horizonte político para descobrir um homem grande e forte para conduzir o agradável povo ao autogoverno e pôr ordem na anarquia que se estabeleceu aqui. Há material humano excelente para construir uma grande nação. Não há nenhum movimento retrógrado sério, além dos homens imprudentes e insensatos que agora estão no poder

( LANE, 1910, p.4, tradução nossa).

Mantém a mesma linha de pensamento no relatório de 1911, ao afirmar:

O Presidente militar está nas mãos de um grupo de políticos inescrupulosos e as tendências são subversão da lei e da ordem e em favor da interferência Federal nos Estados, com a consequente imposição de governadores militares. É difícil saber se a mudança da “lei corrupta do patrão” para o controle militar é um bem ou não mal. Há pouco avanço na direção de um governo realmente livre. O Brasil ainda é uma pseudo-República, pseudo do tipo latino

( LANE, 1911, p.3, tradução nossa).

Após seu posicionamento acerca do cenário político brasileiro, Lane chama a atenção dos Curadores de Nova York para o fortalecimento daquilo que denominava de “classe abastada” ou o “novo rico”:

Porém, agora, precisamos nos preocupar com a situação. Nenhuma falta de bom governo parece ser capaz de retardar o progresso material ou afugentar o capital estrangeiro. A atmosfera moral é maculada pela classe abastada. A alta tarifa aqui, assim como em casa, tem produzido uma leva de milionários. O novo-rico brasileiro não tende à filantropia, prefere ao invés disso a indulgência ostentosa das vaidades e vícios do mais censurável tipo latino. Apesar disso, porém, devemos confessar que a vida social, nesta seção e em todos os eventos, melhorou

( LANE, 1911, p.4, tradução nossa).

A crítica de Lane recai sobre aquilo que ele chama de “novo-rico brasileiro”. Diante do quadro político que havia descrito, ele afirmava que essa atmosfera não podia retardar o progresso material ou afugentar o capital estrangeiro. Havia uma tentativa de convencer os curadores de que, apesar da situação política do Brasil, era preciso continuar os investimentos, principalmente na questão educacional. Sua crítica era muito parecida com a postura adotada pelos missionários norte-americanos na segunda metade do século XIX, no período de inserção do presbiterianismo no Brasil, pois destacavam que o país era mergulhado na superstição, nos vícios e na imoralidade (BLACKFORD, 1867-1875). Para eles, esse era um dos obstáculos para o progresso do Evangelho no Brasil, além do analfabetismo e da influência do catolicismo.

Perissinotto (1994), em seu trabalho ‘Classes dominantes e hegemonia na República Velha’, afirma que formavam a elite nesse período os fazendeiros ou “produtores de café”, a burguesia comercial urbana, que desenvolvia atividades exclusivamente produtivas e a burguesia industrial.

Para Lane, o influxo de estrangeiros cultos e a crescente onda de viagens à Europa e América das classes prósperas de brasileiros aumentavam o padrão de vida, e seu reflexo era visto nas classes sociais mais humildes. Faoro (2001) afirma que ser culto e moderno significava, no século XIX e no começo do XX, estar em dia com as ideias liberais. Porém, não se sabe ao certo que tipo de reflexo das classes prósperas atingia as classes sociais mais humildes. Não é possível saber, através dos discursos de Lane, se essa situação gerava mais empregos ou aumentava as diferenças econômicas e sociais entre os “novos-ricos” e as “classes mais humildes”.

Porém, ele não se sentia seguro em dizer que as massas no Brasil eram imorais, mas sim amorais: sem percepção moral clara, de acordo com a visão norte-americana. Elas não violavam perversamente ou livremente os padrões estabelecidos de ética, mas simplesmente faziam o que seus guias espirituais católicos fizeram por séculos. Inicia, nesse sentido, uma crítica severa ao catolicismo, responsabilizando-o por esses problemas:

Roma não tem um código de moral que ensine pureza pessoal. Sua religião nada tem a ver com a moral: é uma questão de arranjar as coisas sob suas regras. Mas, com todas as suas fraquezas e vícios, e apesar da má orientação espiritual por gerações, os brasileiros são uma raça generosa e calorosa, muito melhor que seus ancestrais portugueses; respondem rapidamente a melhor orientação e são ansiosos em ascender a níveis mais elevados de vida. Eles fornecem um solo fértil para se plantar as sementes de um Cristianismo mais puro e estabelecer um sistema de ensino, com base cristã, que salvará a juventude da praga de Roma, de um lado, e da total descrença, do outro

( LANE, 1909, p.3, tradução nossa).

Percebe-se claramente que Horace Lane mantém o mesmo clima de hostilidade ao catolicismo que os pastores-missionários norte-americanos fizeram no início da inserção do presbiterianismo na segunda metade do século XIX ( SILVA, 2010). Para ele, o Brasil se encontrava nessas condições em decorrência da orientação espiritual do catolicismo. Nota-se também que ele mantém uma visão de superioridade da cultura norte-americana em relação a outros países, inclusive quanto ao Brasil.

Lane expressa o desejo de ver uma nova política se configurando no país e uma nova Religião realmente cristã sendo implantada, sendo o modelo para concretização disso a república americana e o presbiteriano norte-americano. Para o missionário americano, o Brasil, num “futuro próximo”, tomaria um lugar importante entre as nações, à medida que a vastidão e riqueza de seu interior desocupado fossem conhecidas. Segundo sua visão, os brasileiros sabiam pouco do país. Um residente do Rio provavelmente sabe mais sobre Paris do que sobre o Pará, Manaus ou Amazonas. Ele afirmava:

Devemos livrar nossas mentes de noções pré-concebidas do velho Brasil Imperial e considerar que o Novo Brasil, um dos mais populosos do velho elemento português, está sendo rapidamente suplantado pelos mais ativos italianos, alemães e outras nacionalidades, que trazem tradições de uma vida mais elevada do que a encontrada na pobre e pequena Portugal

( LANE, 1909, p.5, tradução nossa).

A crítica recaiu sobre os portugueses. Por outro lado, frisa que o “novo Brasil” recebia a influência dos mais ativos italianos, alemães e outras nacionalidades. Porém, não menciona os americanos. Qual a razão da omissão? Ela parece provocativa:

O povo americano, enquanto intensamente atento à crescente importância do Brasil, do ponto de vista comercial e político, parece ignorar o fato essencial de que a nação precisa ser educada nos ideais americanos para se identificar com a Grande América. Os padrões de vida precisam ser elevados, conceitos errôneos de liberdade, governo autônomo e Cristianismo precisam ser corrigidos. O Cristianismo protestante, analisado do ponto de vista puramente político, é indispensável, à República

( LANE 1909, p.6, tradução nossa).

Para ele, o protestantismo era indispensável à República, portanto, o “Novo Brasil” só seria possível se imitasse a “Grande América”. Para tanto, era preciso educar a nação segundo os padrões norte-americanos. Lane parece deixar nas entrelinhas que os Trustees não faziam os investimentos necessários na questão educacional, apesar do aporte financeiro que era encaminhado para essa finalidade. Porém, percebe-se, nos relatórios de Lane, que muitas escolas sob sua supervisão administrativa tinham déficit e chegaram a fechar por falta de investimento financeiro.

Para reforçar seu argumento, acentua que as causas do retrocesso do país estavam ligadas ainda à influência dos Jesuítas. Em suas palavras, eles estavam no controle das instituições e sua presença ameaçava a República: “Com os Jesuítas no controle absoluto, a República não vai durar. O tipo de ensino que era uma ameaça às instituições livres na França, e que foi trazido ao Brasil pelos mesmos padres e monges que não puderam continuar na França, não irá afastar o Brasil da América do Norte ou das instituições livres” ( LANE, 1909, p.7, tradução nossa).

Isto não afastaria a influência da América do Norte no Brasil, se houvesse vigorosa inserção protestante no país. Nitidamente percebe-se que Lane via a presença dos Jesuítas no campo religioso e educacional como um elemento desestruturador, incompatível com os ideais republicanos. Por outro lado, utilizava taticamente dessa visão para convencer os Trustees a fazerem mais investimentos e apoiarem seu projeto de rede de escolas ( SILVA, 2015).

Para ele, era preciso “redimir” o Brasil.

Para o Brasil se redimir, ele precisa fazê-lo pelos métodos que mantiveram nosso país forte e fiel aos princípios cristãos dos pregadores Puritanos. Não pela Doutrina Monroe, nem tratados de reciprocidade, mas por uma vigorosa inserção dos princípios protestantes no púlpito e na escola, e estabelecendo aquela forma de Cristianismo que incute pureza e honestidade. Roma está atenta ao perigo dessa invasão das ideias americanas e está ciente da importância de fortalecer seu controle sobre este povo

( LANE, 1909, p.9, tradução nossa).

Segundo o educador, o Brasil precisava redimir-se na esfera política, educacional e religiosa. Na política, porque era marcado pela presença daquilo que ele denominou de “panelinhas políticas”, ou seja, de pessoas ligadas aos ideais do antigo Regime, o Império. Na perspectiva educacional, porque o Brasil foi educado segundo os valores do catolicismo e isso representava, na ótica de Lane, um retrocesso educacional. Discurso parecido com os dos republicanos ( HISLDORF, 1977, 1986; SILVA, 2010). Segundo Hisldorf (2011, p.61), “Fossem liberais, democráticas ou conservadoras, as forças políticas movimentam-se para controlar as instituições educativas e seus agentes e impor-lhes de modo definitivo a forma escolar como a mais adequada e eficaz para ministrar e conformar a sociedade”. Na questão religiosa, a pregação católica mantinha o povo na imoralidade. As estratégias para redimir o Brasil, na visão de Lane, passavam pela pregação protestante, na construção de escolas protestantes e na divulgação dos valores da cultura norte-americana. Somente assim o Brasil experimentaria a modernização. Retoricamente, “redimir” o Brasil significava para Lane construí-lo nas bases dos ideais americanos de progresso e modernidade.

Marta Carvalho (1989) pontua que “regenerar” as populações brasileiras, núcleo da nacionalidade, tornando-as saudáveis, disciplinadas e produtivas era o que se esperava da educação no período republicano. Para a autora, tratava-se de um projeto político autoritário, pois educar era uma obra de moldagem de um povo, matéria informe e plasmável, conforme os anseios de Ordem e Progresso de um grupo que investia em si mesmo como elite com autoridade para promovê-los.

Em tom de concorrência, nítido na dinâmica de qualquer campo ( BOURDIEU, 2004) e das lutas de representações ( CHARTIER, 2002), Lane afirmava que Roma estava atenta ao perigo da invasão das ideias americanas. Para ele, uma grande quantidade de homens, padres e monges foi mandada para o Brasil para se estabelecer. As grandes ordens religiosas marcavam presença no campo religioso e educacional; para tanto, tinham a seu favor verbas abundantes, educadores treinados na França, na Alemanha, na Holanda, em toda a Europa Católica e até mesmo nos Estados Unidos. Eles compravam, construíam e mobiliavam as escolas sem se importarem com as despesas.

As ordens de ensino das Irmãs também foram alvo da análise de Lane. Dizia que elas marcavam fortemente a sua presença no Brasil por meio da educação. Afirmava que essas escolas de padres e monges estavam sob a proteção do governo e eram “consideradas iguais” ao Ginásio Nacional. A presença do catolicismo para Lane estava em todo território brasileiro. Ele diz: “Roma não faz nada pela metade” ( LANE, 1909, p.4, tradução nossa).

Para sustentar seus argumentos, Lane chegou a afirmar que as escolas sob sua responsabilidade representavam as duas aversões que o catolicismo repudiava ( LANE, 1908). Ele estava atento ao movimento de romanização da Igreja Católica. Nesse período, segundo Querido (2011), houve uma reação da Igreja Católica em relação aos movimentos protestantes e, com isso, várias congregações vieram ao Brasil na tentativa de recuperar os espaços perdidos para o movimento protestante. Aquino (2012), ao estudar o catolicismo na cidade de Botucatu, afirma que a estratégia católica foi a criação de várias dioceses, escolas, orfanatos e hospitais.

Lane retorna a ideia do “Novo Brasil”:

Em S. Paulo, o ‘Novo Brasil’ está em plena vista. As milhares de crianças estudantes indo e vindo das escolas públicas, o entusiasmo dos alunos e pais e o orgulho do governo nos dão uma visão da nova vida no ‘Novo Brasil’. Aqui nós temos um vislumbre da nova raça – peles escuras com olhos azuis, loiros com olhos negros – tons de cútis, que vão desde o preto-carvão até os loiros mais brilhantes, podem ser vistos pela cidade toda e em todas as grandes cidades do estado. Por legislação específica, e por uma medida constitucional, nenhuma religião pode ser ensinada. É também uma infelicidade que este ótimo sistema esteja sob controle político

( LANE, 1909, p.6, tradução nossa).

Para Lane, São Paulo representava o estado em que mais se percebia as marcas do “Novo Brasil” devido à organização das escolas públicas. Relembra aos Trustees sua contribuição com a reforma do ensino público paulista talvez com o objetivo de mostrar o alcance da sua atuação como educador, presidente do Mackenzie College e missionário. Seguindo a linha de pensamento de Lane, o Brasil seria um país novo se investisse na educação. Ele entendia que ela e, principalmente, a educação protestante, era a ferramenta necessária para reconstruir um país que foi colonizado pela educação jesuíta.

Segundo Mendonça (2008, p.311):

A polêmica entre o protestantes e católicos marca a história religiosa no Brasil durante a segunda metade do século XIX e boa parte do início do século XX. As condições de inserção do protestantismo no Brasil fizeram com que se alimentasse principalmente da polêmica. Por isso, o protestantismo só se torna, aparentemente, ativo e dinâmico nos momentos de confronto com a religião dominante; em outras circunstâncias da vida social, regra geral, se mostra indiferente e letárgico.

No contexto de Lane, não estavam mais em jogo as dificuldades encontradas nos primeiros anos de inserção do presbiterianismo no Brasil, como bem acentua Hilsdorf (2000) no trabalho “Simonton e o panorama religioso do Brasil nos meados do século XIX”. Entre outras coisas, Hilsdorf pontua a estratégia e a prudência de Simonton na implantação do presbiterianismo. Alguns historiadores chegam a construir as mais várias representações sobre a perseguição católica contra os presbiterianos no final do século XIX e início do XX ( LESSA, 1938; FERREIRA, 1992). Algumas polêmicas mais tarde aconteceram no campo discursivo, como foi o caso do Rev. Zacharias de Miranda e do padre Camilo Passalacqua ( SILVA, 2010).

Segundo Laguna (1999), através dos relatórios Lane transmitia aos Trustees que o Brasil merecia e necessitava ser tutelado cultural e educacionalmente por uma civilização superior, como era a norte-americana. Portanto, através dos seus relatórios ele justificava a presença da Escola Americana de São Paulo, o Mackenzie College e as demais escolas no seu relatório, construindo a representação de que elas eram as instituições imbuídas dos propósitos educacionais cristãos e impregnadas da cultura norte-americana, superior à cultura brasileira, construída pelo Império e pela educação jesuítica. Lane constrói a representação de que a educação protestante era superior à educação católica e era essencial para a construção do “Novo Brasil”. Para ele, o “Velho Brasil” havia sido construído pela ação católica e por panelinhas de políticos ligados ao “Velho Regime”.

As marcas desse “Velho Brasil” ainda estavam presentes no “Novo Brasil” que estava sendo construído com a implantação da República. Entre essas marcas, o Brasil carregava o analfabetismo ( LANE, 1910), embora, para ele, o percentual de analfabetismo tivesse diminuído com os investimentos que o setor público fazia em termos de educação e construção de escolas públicas. Afirmava que, em São Paulo, o analfabetismo havia diminuído bastante devido às escolas primárias e das quatro Escolas Normais, porém, nos estados do Norte e do “Centro” a educação estava atrasada.

Discurso de Horace Lane sobre educação

Foi visto no tópico anterior que, para Lane, uma das causas dos problemas sociais e políticos do Brasil estava relacionada à influência da educação católica. Para ele, essa educação reforçava a imagem de um país retrógrado e que precisava da influência de uma nova cultura, a americana. Mesmo no campo político, o Brasil ainda não havia experimentado a “verdadeira República”, dizia ele, justamente porque tinha em suas estruturas resquícios do antigo modelo político. Nesse sentido, Lane não apenas define de qual tipo de educação o Brasil necessitava, como também mostrava em seu relatório os esforços dos políticos brasileiros no sentido de se implantar um modelo educacional diferente, o republicano. Porém, considerava que a “verdadeira” República só seria possível, ou se igualaria à República americana, se houvesse a disseminação do modelo cultural norte-americano através da educação protestante.

Para Mendes (2007), a entrada de Lane no campo educacional presbiteriano de São Paulo marcou significativamente a vocação da instituição fundada pelo casal Chamberlain. As marcas se referem à expansão e consolidação da Escola Americana, à criação dos chamados cursos superiores que deram corpo ao Colégio Protestante e também às conformações impostas ao seu perfil confessional.

A perspectiva educacional de Lane parece mais voltada aos ideais republicanos quando afirma que a educação estava atrelada ao engrandecimento do país. Hilsdorf (1977, 1986, 2003) pontua, de forma relevante, o apoio das elites republicanas às escolas protestantes, devidos aos ideais individualistas, pragmáticos, progressistas e modernizantes. A respeito do apoio dos republicanos aos protestantes, há o trabalho da mesma autora defendido em 1896, sobre Rangel Pestana. Ele se torna o responsável pelo apoio de homens públicos, intelectuais liberais e republicanos aos protestantes do período, e vice-versa.

Ainda acerca da confessionalidade, Hack afirma que:

A escola deveria alcançar os filhos de liderança nacional, para educá-los no modelo cultural protestante. A finalidade principal não era evangelizá-los, mas sim transmitir-lhes princípios educacionais, para que fossem preparados adequadamente para assumir posições de liderança, contribuindo para a formação de uma nova mentalidade, como agentes de transformação social, substituindo a liturgia e a acomodação da cultura brasileira por uma sociedade dinâmica, pragmática e participativa

( HACK, 2003, p.33).

Para Hack, Lane distancia a escola da perspectiva educacional da intenção dos seus pioneiros. Porém, nos relatórios enviados aos Trustees, ainda que em período posterior, Lane tem um discurso diferente:

Temos convicções sobre o que constitui uma educação cristã e um sentimento de dever para com a causa que tentamos representar, bem como algum conhecimento das demandas do país, e nesse sentido, devemos prosseguir o nosso caminho, independentemente de louvor ou censura, pois Deus nos dá luz e força. Apesar das críticas negativas, da oposição e de todas as dificuldades e perplexidades que assaltam um trabalho deste tipo em todos os lugares, o nosso trabalho tem sido visivelmente abençoado como um todo e em muitos lugares é considerado uma referência no seu aspecto técnico, científico e pedagógico, nas atividades sociais, morais e evangelísticas. Os resultados não são visíveis para o observador casual, nem podem ser apreciadas pelo escritor irreverente, mas são aparentes para o observador atento e honesto que vê o caráter dos homens e mulheres que temos educado, nossa tendência de pensamento na comunidade é a elevação moral, é buscar a verdade e segui-la e, em uma abordagem mais perto de um cristianismo puro, para o pensamento e vida

( LANE, 1907, p.9, tradução nossa).

O discurso de Lane é ali muito diferente daquele direcionado à sociedade. Para os curadores de Nova Iorque, sua escrita ganha conteúdo cristão. A que se deve essa mudança no discurso? Talvez, com relação à sociedade, Lane objetivasse atrair maior quantidade de alunos ao omitir ou até mesmo tirar o caráter confessional da Escola Americana. Em contrapartida, com os curadores seu objetivo seria talvez conseguir mais investimentos financeiros e mostrar que sua perspectiva educacional estava fulcrada nos valores do presbiterianismo. Lane se mostra estratégico, tático, habilidoso, capaz de utilizar o poder da escrita com o objetivo de convencer seu público (clientes) e os destinatários dos documentos.

Lane fazia questão de frisar, diante das acusações, que o Mackenzie exercia influência evangélica, tinha um ambiente cristão e que muitos pastores enviavam seus filhos para essa instituição escolar ( LANE, 1907). Lane deixa bem claro aos Curadores que evitava fazer proselitismo, pois entendia claramente que a função da escola era outra, ou seja, influenciar indiretamente o ser humano com os valores cristãos e republicanos.

O grande objetivo [da Escola] é exatamente aquele que os evangelistas e pregadores têm em mente: trazer toda a sociedade para uma vida cristã mais pura. Eles tentam persuadir os homens a se tornarem cristãos; nós tentamos educá-los no viver e no conhecimento cristão, e temos assim muitas provas de que isto está sendo feito. Coloca-se a Palavra de Deus como o único fundamento seguro da sociedade. Fornece-se uma base cristã para a educação e estabelece-se um padrão cristão de vida

( LANE, 1897, p.6, tradução nossa).

Segundo Mendes (2007), essa posição afastou a Escola Americana e o Colégio Protestante da influência direta dos missionários norte-americanos e dos pastores e presbíteros nacionais, sendo uma posição de relativa autonomia. Para o autor, essa desvinculação gerou reações no campo presbiteriano brasileiro, que passou a ver a instituição criada pelo casal Chamberlain como descompromissada com os objetivos estabelecidos na sua origem.

Porém, diante dos ataques dos seus oponentes, Lane afirma que a educação tinha um caráter missionário, como se pode ver no seguinte trecho:

Agradecido que, enquanto as perplexidades costumeiras, cuidados e ansiedades não estiveram ausentes, este foi um ano de memoráveis bênçãos e progresso muito encorajador, não apenas no sentido estritamente educacional, mas também na direção da construção de caráter, do crescimento do lado missionário do trabalho e sua influência marcante nas novas instituições educacionais do país. O perigo que constantemente nos assola é uma pressão na direção do lado puramente material e utilitário do trabalho, aumentada pela nossa falta de verbas e consequente necessidade de explorar nossos recursos comerciais; para contrabalançar isto, nós lutamos para manter em nossas mentes o fato de que a única razão para nossa existência aqui é ser essencial e unicamente uma empresa missionária cristã, cujo trabalho principal é educar a juventude do país para a concepção maior e mais pura do Cristianismo, em pensamento e vida. Devemos, porém, proceder pelos métodos educacionais ao invés daqueles usados pelos pregadores evangélicos. Sempre seguindo os grandes princípios do cristianismo, devemos fazer nosso trabalho sem inculcar este ou aquele sistema de teologia ou crença sectária, mantendo de longe todo tipo de amarra eclesiástica, evitando a hipocrisia e pretensão de santidade indevida, mas seguindo em frente de maneira aberta e simples em relação ao nosso objetivo, confiando na resoluta Palavra de Deus como verdade espiritual fundamental, ao invés dos comentários do pregador, mantendo também em vista o avanço dos métodos educacionais e ciências pedagógicas

( LANE, 1908, p.7, tradução nossa).

No começo da sua fala, Lane menciona as “perplexidades costumeiras”. Nos seus relatórios, continua a falar dos seus opositores, católicos e protestantes. Portanto, mostrar a imagem do homem piedoso, do missionário e do diretor preocupado com a obra missionário-educacional era uma tática da parte de Lane, não somente com o objetivo de garantir investimentos e solidificar seu trabalho, mas também com o propósito de reconstruir sua imagem desgastada no campo presbiteriano brasileiro. Isso é tão perceptível que até mesmo os Boards se posicionaram a seu favor, quando o tesoureiro Henry M. Humphrey sai em sua defesa nas páginas do jornal “O Estandarte”. Ele gozava de prestígio e era um homem que mantinha a visão dos Trustees em relação à obra educacional no Brasil. Lane insiste em mostrar que a obra educacional não é diferente da obra evangelista, tanto que afirma categoricamente: “Nós somos uma INSTITUIÇÃO MISSIONÁRIA e sentimos que nosso pedido às Igrejas é tão forte quanto a dos missionários Evangelistas” ( LANE, 1907, p.8).

Lane entende que suas instituições escolares eram missionárias e seu apelo às igrejas era tão forte quanto a dos missionários evangelistas, ou seja, ele colocava suas escolas no mesmo patamar de importância na obra de evangelização. A educação para Lane era uma estratégia de evangelização indireta, que tinha tanta importância quanto à pregação proselitista dos missionários. Ele faz questão de mostrar bem essa diferença para os Curadores, pais de alunos e sociedade. Porém, para os Curadores, ele deixa bem claro que existiam práticas de exercícios espirituais no cotidiano da escola, visto que havia o trabalho religioso na Capela que era realizado pelo capelão Rev. Modesto Carvalhosa. Os exercícios na Capela aconteciam todos os dias às 10h. Nas manhãs de domingo, as crianças dos internatos (meninos e meninas) se reuniam na Capela para a Escola de Domingo. As aulas eram ministradas por alguns professores e alunos do Mackenzie College.

Nas manhãs de domingo, os pupilos dos dois internatos, meninas e meninos, se reúnem na Capela Mackenzie para a ESCOLA DE DOMINGO, e são divididos em aulas lecionadas pelos professores comuns da escola diurna e alguns dos estudantes do Mackenzie. Nós publicamos um jornal mensal da Escola de Domingo, lições sobre a vida de Cristo para uso de nossa escola e os enviamos para Florianópolis, fornecemos também para o trabalho realizado em Pinheiros pelo Rev. Sr. Carvalhosa. Um dos nossos estudantes realiza serviços regulares, todo domingo, na Lapa, um subúrbio da cidade. Dois outros lecionam em uma escola noturna na Móoca. O Rev. Carvalhosa realiza um serviço regular na Capela Mackenzie, aberto ao público, imediatamente após a Escola Dominical

( LANE, 1908, p.10, tradução nossa).

O diretor do Mackenzie College sugere que outras escolas sob sua direção tinham a mesma prática e aproveitamento do material, o que permite pensar na circulação de modelos e práticas pedagógicas e, consequentemente, reforça a tese de que as Escolas Americanas, sob a direção de Lane, constituíam uma rede de escolas. Aqui há um elemento esclarecedor, quando Lane afirma que o material usado na Escola de Domingo também circulava na Escola Americana de Florianópolis. Não era apenas o material religioso que era encaminhado, os livros didáticos também circulavam nas escolas supervisionadas por ele ( LANE, 1911).

No prospecto de 1894, Lane acentua sua visão educacional, dizendo:

Como é geralmente sabido, a Escola Americana não tem fins comerciais. Qual então o móvel? Cremos que nos é licito aspirar, dentro dos limites das nossas forças, colaborar na educação da mocidade sem outro motivo, senão elevá-la, e assim contribuir para o engrandecimento do país. A Escola Americana no sentido mais lato da palavra. Sonhamos em criar, com o correr do tempo, um estabelecimento completo em todas as suas partes, para ambos os sexos. Não uma imitação servil das Escolas da América do Norte – mas uma adaptação do que há de melhor nelas, ao meio, à índole do povo, às melhores tradições da sociedade, às instituições e às necessidades econômicas desta América

( LANE, 1894, p.15).

Lane em momento algum pontua a questão da religiosidade, mas as contribuições que a perspectiva educacional da escola americana sob sua responsabilidade daria ao Brasil e à juventude. Em sua visão, não seria uma imitação servil do modelo norte-americano. Atique (2007) afirma, entre outras coisas, que a perspectiva educacional de Lane era uma obra yankee no Brasil, que tinha como objetivo divulgar a cultura norte-americana no Brasil a ponto de motivar os jovens estudantes da Escola Americana de São Paulo e Mackenzie College a estudarem nos Estados Unidos. Nesse sentido, para o autor, o fato de estudantes brasileiros estudarem em território norte-americano reforçava a imagem de superioridade daquele país na formação profissional dos brasileiros.

Lane também divulga em 1894 o prospecto do Mackenzie College, dizendo:

Este curso é a continuação, em grau superior, da Escola Americana, sendo como a transição do curso secundário, denominado ‘Grammar School’, conforme a organização das Escolas norte-americanas, e que constitui o nexo entre os estudos elementares e os cursos de estudos técnicos e profissionais

( LANE, 1894, p.3, tradução nossa).

Na mesma linha de divulgação da Escola Americana de São Paulo, Lane procura convencer seu público sobre a importância de estudar no Mackenzie College. Isso pode ser percebido quando ele afirma:

O Instituto Mackenzie é uma sucursal da Universidade do Estado de Nova Iorque e, portanto os seus cursos são equivalentes aos das Academias Cornell, Columbia, Union, etc. As divergências permitidas pelos ‘Regents’ dessa Universidade são mudanças no sentido de conformar-se às necessidades do Brasil sem, contudo desmerecer o curso. Os estudantes de qualquer curso do ‘Mackenzie College’ serão admitidos à matrícula em qualquer Academia dos Estados Unidos no ano correspondente ao que estiverem cursando. É o nosso intuito dotar o Brasil com um estabelecimento que ofereça as mesmas vantagens de instrução, que se acham os estabelecimentos estrangeiros para onde se dirige a flor da nossa mocidade e onde se reforça o amor pátrio. Procuramos ministrar uma educação completa e adaptada ao meio nacional

( LANE, 1894, p.4, tradução nossa).

Essa era a maneira de Lane atrair os filhos da elite paulista, mostrando que sua instituição escolar estava atrelada ao modelo educacional norte-americano e equivalia aos cursos das Academias Cornell, Columbia e Union. Lane sabia muito bem que a educação brasileira ainda tinha resquício do modelo educacional imperial, pois recorrentemente frisava isso aos curadores norte-americanos, assim como sabia que, para o cenário republicano, isso representava um sistema retrógrado ( LANE, 1911). Portanto, apresentar uma proposta educacional baseada na educação norte-americana adaptada à realidade brasileira não seria apenas uma forma de atrair alunos, mas também de implantar no Brasil um sistema educacional e uma rede de escolas baseado no modelo norte-americano.

Segundo Hack:

O Mackenzie apresentava um sistema educacional verticalizado no sentido de oferecer cursos em todos os níveis de ensino, a começar pelo jardim-de-infância até o curso superior. A filosofia mackenzista era promover o envolvimento do aluno com a instituição e seus sistema de ensino e, muito mais, despertar o interesse em progredir nos estudos para alcançar uma formação profissional ou acadêmica

( HACK, 2002, p.161).

No prospecto de 1898, Lane fala sobre as oficinas de trabalho manual que foram ofertadas para os estudantes do ensino superior e obrigatórios aos estudantes da Escola Americana:

O fim que visamos não é preparar o menino para um ofício, como se faz nos liceus de artes e ofícios, mas sim, educá-lo, conservar-lhe a saúde, desenvolver-lhe as forças físicas, agregando ao ensino formal dos livros o ensino manual que torne o homem completo para a vida prática. Tem-se observado que este ensino manual, em 1º lugar prepara o aluno para a vida prática dando-lhe certo conhecimento técnico; 2º dá-lhe uma habilidade não só para manejar os instrumentos como também para produzir as cousas com ordem e exatidão; em 3º lugar, e principalmente, desenvolve as faculdades intelectuais e dá conhecimentos positivos, suplementando a educação formal, despertando o amor e gosto pelo trabalho em geral, fazendo ao mesmo tempo com que o aprecie dignamente

( LANE, 1898, p.14).

Para ele, o objetivo era preparar o aluno para a vida prática, além de despertar-lhe o amor e o gosto pelo trabalho. Para Lane, os prospectos da Escola Americana não trazem mudanças, acerca do objetivo da Educação, diferentes das que foram apresentadas até aqui.

No prospecto do Mackenzie College, Lane de forma estratégica, afirma:

Na incorporação do Mackenzie College à Universidade não tivemos em vista criar um sistema exótico de ensino superior, mas apenas de unificar os cursos e subordiná-los à Universidade e ao mesmo tempo subordinar os da Escola ao College a fim de estabelecer um nexo lógico entre os cursos graduados de preparatórios e os superiores dos dois Estabelecimentos. Com tal subordinação pode o Mackenzie oferecer aos estudantes as garantias e os privilégios que goza o estudante que representa as melhores tradições da educação americana. Também isso garante aos alunos da Escola Americana um preparo conveniente para os estudos superiores. Assim, o Mackenzie College é, de fato, a continuação em grau superior do curso secundário, graduado da Escola Americana. Mas, embora estejam ambas sujeitas à mesma administração e aos regulamentos e às ordenanças da mesma Universidade, ainda assim cada estabelecimento tem os seus cursos completos e seu corpo docente separado e independente

( LANE, 1908, p.5, tradução nossa).

Observa-se a diferença da instituição educacional fundada pelo casal Chamberlain. Lane, de fato, imprimiu uma nova visão educacional, que abrangia a criação de novos cursos, a organização do curso superior e a ampliação do espaço físico. Ferreira (1992) destaca que, durante a gestão de Lane, o Mackenzie progrediu. Pelos prospectos da Escola Americana e do Mackenzie College, não se percebe sua preocupação com a confessionalidade, o que reforça as análises de Mendes (2007).

Nesse sentido, para Lane a educação protestante era uma forma não somente de evangelização indireta, mas também uma estratégia de implantar a cultura norte-americana, juntamente com os valores protestantes, a fim de transformar o modo de vida do povo brasileiro. Segundo Laguna (1999), os relatórios que Horace Lane enviava para os Trustees de Nova Iorque mostram o recorrente esforço dele para convencer os dirigentes de que o trabalho escolar dos protestantes norte-americanos devia ser mantido, visto que era importante para a afirmação da “recém-proclamada” República Brasileira, confirmando o entendimento apresentado pela historiografia ( HILSDORF, 1977).

Para Warde (2000a), a república norte-americana era considerada por muitos intelectuais brasileiros uma “verdadeira terra prometida” sem as mazelas da Europa envelhecida e conflituosa. Para eles, o Velho Mundo deixava de ser o modelo que o Brasil deveria imitar se desejasse alcançar o status de “civilizado”. Em meados do século XIX e início do XX, produziu-se a ideia de que os Estados Unidos ofereciam o espelho para a modernidade através da crença de que estava se concretizando a esperança do “homem novo”, ou seja, o homem necessário à modernidade ( WARDE, 2000b). Essa visão circulou no campo educacional através de discursos e ações de políticos, intelectuais e educadores brasileiros, com o objetivo de disseminar a convicção de que a educação era o fator essencial à sobrevivência da nação ( CARVALHO, 1998).

Considerações Finais

Nos seus discursos dirigidos aos representantes norte-americanos, Lane constrói a imagem de um Brasil que necessitava experimentar a “verdadeira república”. Através deles, posiciona-se ideologicamente em relação ao contexto político brasileiro, mostrando que, através da educação, era possível construir um “Brasil Novo”. Para tanto, era preciso disseminar os valores da cultura norte-americana por meio da educação.

Lane dizia que o Brasil, “como a outra América”, necessitava de um ensino e de uma direção para a mocidade que fossem simétricas e desenvolvessem uma verdadeira democracia; a “escola ideal” deveria representar a “sociedade ideal”. Para ele, a tendência da escola era nacionalizar o ensino e fortalecer o patriotismo e o civismo. Ela proporcionaria a todo o cidadão a oportunidade de preparar-se para tomar parte ativa e responsável da vida nacional. Segundo Lane, a relação da escola se dava em quatro dimensões: primeiro, com a família; segundo, com a sociedade; terceiro, com as instituições políticas; e quarto, com a vida moral e religiosa.

Nesse sentido, era preciso educar bem a juventude, porque o destino do Brasil seria forçosamente confiado aos que se sentavam nos bancos escolares, portanto, essa era a grande responsabilidade do educador. Para ele, a sociedade da época estava inserida num contexto de progresso científico e industrial sem exemplo na história do mundo.

Como educador e defensor do modelo norte-americano, divulgou que esse modelo era superior ao praticado pela “Velha Europa”. A divulgação do modelo pedagógico defendido por Lane ganhou adeptos entre os republicanos paulistas, que, além de fazer a divulgação, também se apropriaram de tal modelo. Para tanto, serviram-se dos conselhos de Horace Lane para a implantação da proposta pedagógica norte-americana nas escolas públicas paulistas. Para eles, a proposta era a mais moderna e poderia contribuir para a construção de um país mais democrático e modernizado.

Ao fabricar suas representações em torno da Religião e educação, ele se solidifica como educador no campo religioso, educacional e político. Além disso, produz práticas culturais destinadas a moldar certos padrões sociais naqueles que se apropriavam da sua visão educacional, principalmente alunos, professores e republicanos ligados à sua rede de sociabilidade. Não faltaram vozes entre os republicanos que difundiram o modelo educacional norte-americano como o mais avançado e moderno. Para tanto, era preciso mostrar que a educação no período imperial era arcaica, anacrônica, obsoleta, e não proporcionaria a construção de uma sociedade moderna, livre, democrática.

Lane coloca suas instituições educacionais no centro do debate sobre a importância da educação para a construção do “Novo Brasil”. Em seu discurso, a Escola Americana e o Mackenzie College representavam instituições modernas que estavam atentas às transformações decorrentes da sociedade. Elas eram, em sua visão, instituições capazes de moldar os jovens, transformando-os em cidadãos livres, bons e democráticos.

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Como citar este artigo/ How to cite this article

SILVA, I.B. Política, Religião e Educação no Brasil a partir doolhar do educador norte-americano Horace Lane. Reflexão, 44, e194651, 2019. http://dx.doi.org/10.24220/2447-6803v44e2019a4651

Notas

2 Não é possível saber ao certo em que sentido Lane faz esse destaque. Talvez fosse pela influência do catolicismo na vida política de algumas cidades. Por exemplo, nos primeiros anos de República e até mesmo no começo do século XX, vê-se uma disputa de poder em algumas cidades do interior entre católicos e protestantes, maçons republicanos e conservadores. Consultar: Silva (2010).
3 Lane se referia a Afonso Pena. Para Lane, o resultado das eleições não mudaria o cenário político brasileiro, visto que, segundo seu pensamento, Afonso Pena também foi educado pelos jesuítas, assim como seu antecessor, Francisco de Paula Rodrigues Alves.
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