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A produção social de um santo: etnografi a de um processo canônico
Hugo Ricardo SOARES
Hugo Ricardo SOARES
A produção social de um santo: etnografi a de um processo canônico
The social production of a saint: Ethnography of a canonical process
Revista Reflexão, vol. 44, e194564, , 2019
Pontifícia Universiade Católica de Campinas
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RESUMO: O presente trabalho tem como objetivo analisar a constituição e o desenvolvimento do processo e da causa de beatificação/canonização do padre salesiano Rodolfo Komorek, morto no ano de 1949, na cidade paulista de São José dos Campos. A partir de um olhar etnográfico sobre a dinâmica das canonizações católicas, esse texto examina o movimento de produção de uma biografia santa por parte da congregação salesiana e as estratégias de divulgação e de controle litúrgico-ritual da devoção que colocam em prática. Em sua conclusão, o artigo demonstra que esse procedimento eclesiástico se desdobra em diferentes níveis de simbolização e que possui duas “frentes” ou sentidos de desenvolvimento: um que é interno à Igreja, voltado, portanto, ao convencimento da Congregação para as Causas dos Santos da pertinência e plausibilidade da santidade de Rodolfo; e outro que é voltado à comunidade de fiéis, em ações de divulgação da hagiografia produzida e de controle e correção da prática devocional que ocorre em diferentes lugares (o cemitério, onde originalmente fora sepultado o padre Rodolfo, e a paróquia Sagrado Família, onde ele está sepultado desde 1996).

Palavras-chave:CanonizaçãoCanonização,CatolicismoCatolicismo,SantidadeSantidade.

ABSTRACT: The present work aims to analyze the constitution and development of the process and cause of beatification/canonization of the Salesian priest Rodolfo Komorek, who died in 1949 in São José dos Campos (Brazil). From an ethnographic perspective, this text looks at the dynamics of Catholic canonizations and examines the movement of producing a holy life by the Salesian congregation and the strategies of dissemination and liturgical-ritual control of devotion they put into practice. The article concludes by demonstrating that this ecclesiastical procedure unfolds at different levels of symbolization and has two “fronts” or direction for its development: one internal to the Church, thus facing the persuasion of the Congregation for the Causes of Saints regarding the relevance and plausibility of Rodolfo’s holiness; the other, geared towards the community of believers, is found in the production and publication of the hagiography and in the control and correction of the devotional practice occurring in different places (the cemetery where Father Rodolfo was originally buried and the Holy Family parish, where he is buried since 1996).

Keywords: Canonization, Catholicism, Holiness.

Carátula del artículo

Artigo

A produção social de um santo: etnografi a de um processo canônico

The social production of a saint: Ethnography of a canonical process

Hugo Ricardo SOARES
Universidade Estadual de Campinas, Brasil
Revista Reflexão, vol. 44, e194564, 2019
Pontifícia Universiade Católica de Campinas

Recepção: 20 Abril 2019

Aprovação: 31 Julho 2019

Introdução

[...] la Chiesa è santa perché santificatrice. E la santità dei suoi figli, in subordine a quella di Cristo, la difende dal nemico e la fa splendere di grazia [...] 2

( AMATO, 2010, p.31).

No dia 31 de janeiro de 1964, data da comemoração litúrgica de São João Bosco (e também da comemoração do seu 76° aniversário de morte), ocorreu na cidade paulista de São José dos Campos a sessão solene de abertura do processo de beatificação e canonização do padre salesiano Rodolfo Komorek. Desde então, a condução da causa canônica e o estímulo da devoção ao “Padre Santo”, como também é conhecido, tem sido preocupação da casa salesiana da cidade.

Nascido em 1890 na Polônia, que à época estava sob o domínio do Império Austro-Húngaro, Rodolfo Komorek ingressou na então jovem congregação salesiana de Dom Bosco 3 com o objetivo de trabalhar como missionário em terras estrangeiras. Nessa condição, chegou ao Brasil em 1924 e nunca mais retornou ao seu país de origem. Em sua trajetória brasileira residiu e atuou em diversas cidades, seguindo sempre as ordens e determinações de seus superiores. Em 1941, ao receber o diagnóstico de tuberculose, foi transferido para a casa da congregação em São José dos Campos, com o objetivo de se tratar. No começo do século XX, essa cidade gozava do status de “estância climática”, lugar considerado apropriado para o tratamento de doenças respiratórias. Rodolfo viveu no local desempenhando suas funções de padre até 1949, quando não resistiu e foi vencido pelo bacilo de Kock.

Pouco tempo após sua morte, começaram a aparecer os primeiros relatos sobre milagres de cura atribuídos à sua intercessão. Teve início, então, um movimento devocional entre os católicos joseenses; além disso, a fama de santidade do padre Rodolfo impressionou e empolgou alguns padres salesianos que haviam convivido com ele tanto em São José dos Campos, quanto em outras cidades brasileiras por onde ele passou e atuou.

Após quinze anos de sua morte e da constatação de que, durante esse período, sua fama de santidade continuou viva, além da prática devocional cada vez mais intensa entre os fiéis, o processo canônico foi instaurado pelo então bispo diocesano Dom Francisco Borja do Amaral, a pedido dos salesianos. Esse processo terminou em 1996, com a declaração de “venerabilidade” do padre Rodolfo (o primeiro degrau rumo à santidade institucional), mas a movimentação em torno de sua candidatura aos altares vem ocupando os salesianos da cidade desde então.

Dessa forma, o presente texto se propõe a examinar alguns aspectos da constituição e do desenvolvimento desse processo canônico - e consequentemente, da “causa canônica”. Primeiramente, são analisados os conceitos de “processo” e de “causa”, conforme os sentidos que aparecem nas falas dos agentes eclesiásticos. Depois, é focalizada a produção da biografia hagiográfica do Pe. Rodolfo e a elaboração dos argumentos presentes no processo canônico que justificam teologicamente a prática devocional dos fieis. Por fim, são abordadas, ainda que de maneira menos central, as estratégias e as ações de divulgação e controle litúrgico-ritual da devoção exercido pelos salesianos junto aos devotos. Portanto, entende-se que essa análise incide sobre duas “frentes” de desenvolvimento desse procedimento eclesiástico: uma que é interna à hierarquia eclesiástica e outra que se volta à comunidade de fiéis.

No debate brasileiro sobre catolicismo, grande parte dos trabalhos, até meados da década de 1980, entendia o culto e a devoção aos santos como um locus privilegiado de manifestação da “religiosidade popular”. Compreendida muitas vezes numa chave marxista, essa religiosidade era concebia como um lugar de resistência simbólica às imposições das classes dominantes - nesse caso, representado por membros do clero.

Seguindo essa perspectiva e fazendo desdobramentos, muitos trabalhos sobre catolicismo produzidos nos últimos vinte ou trinta anos tiveram como tema a relação entre devotos e santos em suas mais variadas configurações e cenários, como as festas e as promessas ( Zaluar, 1983; Brandão, 2007), as romarias, as procissões e os cultos em santuários ( Fernandes, 1982; Steil, 1996; Menezes, 2004b). Diferentemente, há outros trabalhos que se dedicaram aos chamados “santos de cemitério”, reforçando as suas especificidades espaciais, simbólicas e ritualísticas ( Frade, 1987; Calávia Saez, 1996; Gaeta, 1999; Santos; Maia, 2008; Pereira, 2011; Andrade, 2015; Tomasi, 2017).

De toda forma, poucos pesquisadores se ocuparam do papel efetivo da Igreja Católica na produção de novos santos e em suas tentativas de administrar o ritmo litúrgico de um determinado “campo santo” ( CALÁVIA SAEZ, 1996) - ou “campo devocional”, para usar um termo mais preciso. Dentre eles, destacam-se os trabalhos dos historiadores Quadros (2011) e Teixeira (2014). O primeiro analisa o papel de alguns agentes específicos na composição do processo canônico de São Tomás de Aquino; e o segundo, cujo estudo se aproxima mais do que é proposto neste texto, investiga o processo de beatificação/canonização do padre redentorista alemão Pelágio Sauter, que atuou no Brasil na primeira metade do século XX. Mais adiante, esses trabalhos serão retomados neste artigo como parte da argumentação e da fundamentação teórica.

No debate internacional, a análise do papel dos eclesiásticos na produção de hagiografias e na condução de processos e causas canônicas é feita principalmente por historiadores medievalistas e especialistas em História Eclesiástica. Certamente um dos trabalhos mais emblemáticos nessa temática é a monumental obra do historiador francês André Vauchez (1989) sobre a santidade e as formas de reconhecê-la e legitimá-la como tal no Ocidente Medieval. Outro referencial importante é o conjunto de trabalhos desenvolvidos por pesquisadores italianos (principalmente historiadores) como Boesch-Gajano (2005, 2011), Caliò (2011) e Palma (1998a), tendo este último pensado sobre a santidade contemporânea.

Especificamente entre este último grupo, há um crescente movimento teórico e historiográfico que visa investigar a santidade em diversos contextos históricos e culturais a partir da análise de processos canônicos e do material hagiográfico disponível (biografias santas, bulas de canonização, hinos, sermões, panegíricos etc.). Para esses autores, o culto aos santos e a temática da santidade como um todo servem não só como fonte para se pensar a história religiosa propriamente dita, mas também para analisar outras dimensões do mundo social, como a política de alianças entre grupos, a circulação de relíquias e os sistemas econômicos, a moralidade de uma época etc.

A proposta deste artigo de olhar para um processo canônico - e consequentemente, também para uma causa canônica -, como fonte e material de análise, tem inspiração nessa tradição italiana de estudos e visa ampliar o escopo do campo de pesquisa sobre a santidade, especificamente quanto àquela considerada “canonizável”, no cenário brasileiro.

Também se pretende contribuir para a formulação de um modelo explicativo mais amplo sobre a produção simbólica e a lógica das canonizações na Igreja Católica. Muito mais do que apenas um tema secundário da teologia e do direito canônico, os procedimentos de canonização podem servir também como arenas de investigação sobre outras dimensões da própria vida eclesiástica. O estudo de Francesco De Palma (1998b) sobre o processo e a beatificação de José Maria Escrivá de Balanguer, fundador do Opus Dei, é um bom exemplo de como este material pode ser usado para pensar, por exemplo, relações e alianças políticas (e não necessariamente acordos ou resoluções teológicas) no seio da Igreja.

Por fim, este texto ainda responde a uma nova demanda do campo de estudo gerada pelo grande crescimento do número de canonizações nas últimas quatro décadas. Alguns pesquisadores já vêm refletindo sobre esse movimento e aqui, mais uma vez, merecem destaque algumas contribuições italianas, como o estudo de Palma (1998a), que faz uma análise estatística dos santos e beatos anunciados depois do Concílio Vaticano II; o trabalho de Vian (1998) sobre as particularidades das canonizações de Paulo VI; e o ensaio de Ciciliot (2010) sobre as beatificações e canonizações do papa João Paulo II.

Esse é um tema que desperta a atenção de pesquisadores italianos há bastante tempo por motivos óbvios: a Itália é o país com maior número de santos; o catolicismo é um pilar fundamental da cultura e da sociedade italiana; e a documentação de todos os processos canônicos abertos pelo mundo possui uma cópia nos arquivos do Vaticano, o que facilita o acesso de pesquisadores do país.

O interesse deste texto pelo tema, no caso do Brasil, ainda que as canonizações não estejam no horizonte da maior parte dos pesquisadores do catolicismo, é estimulado pela quantidade de causas e processos que foram inaugurados no país nos últimos anos. Porém, para serem materializadas condições de estabelecer uma análise mais ampla e comparativa desses processos, pensando talvez numa “sociologia das causas canônicas brasileiras”, ou numa análise sobre a “política da santidade no país”, é preciso avançar com análises de processos e causas individuais, historicizando seus procedimentos e prestando atenção à atuação dos diversos grupos que os colocam em movimento, aos modelos de santidade manifestos etc. O texto que ora se apresenta trata exatamente desta primeira etapa.

A legislação atual sobre os processos canônicos

Antes de serem elaboradas as análises do processo e da causa do Pe. Rodolfo, é necessário apresentar, mesmo que de maneira bastante sumária, os procedimentos e regras eclesiásticas atuais que regem a instauração e o desenvolvimento de uma ação dessa natureza. Essa decisão foi tomada porque se entende que esse tipo de documentação e de procedimento ainda é pouco explorado por pesquisadores brasileiros, sendo, portanto, pouco conhecido.

A legislação eclesiástica sobre causas e processos canônicos vigente nos dias de hoje está contida nos seguintes documentos: Código de Direito Canônico de 1983, Constituição Apostólica Divinus Perfectiones Magister de 1983, Normae servandae in inquisitionibus ab Episcopis faciendis in Causis Sanctorum de 1983 e instrução Sanctorum Mater de 2007 4. Essa legislação estrutura os processos de beatificação e canonização em duas grandes etapas: a diocesana (ou local), que, após a publicação da Carta Apostólica Sanctitas Clarior de Paulo VI, passou a ser da competência dos bispos diocesanos (e não mais do Vaticano), e a etapa apostólica (ou romana), que se desenvolve em Roma sob a jurisdição da Congregação para as Causas dos Santos.

Na primeira fase, o objetivo geral é investigar a vida do postulante com relação à santidade - ou como “servo de Deus”, conforme o jargão eclesiástico -, e atestar a plausibilidade teológica de sua “fama de santidade”. Para isso, a Santa Sé, seguindo as orientações de Próspero Lambertini (depois Papa Bento XIV) (2012), recomenda que a investigação local se concentre em recolher material suficiente para comprovar se o candidato cumpriu as virtudes teologais (fé, esperança e amor) e as virtudes cardinais (prudência, justiça, fortaleza, temperança, pobreza, obediência, castidade e humildade) em grau extraordinário. Se o servo de Deus em questão é um mártir, a investigação será sobre sua “fama de martírio”, o que muda um pouco o procedimento da investigação, já que nesse caso importa menos sua vida do que o motivo e a condição de sua morte.

O bispo da diocese onde um processo tem início deve conduzir e supervisionar todos os passos dessa primeira etapa, independentemente se a investigação for sobre as virtudes ou sobre o martírio. A referida etapa é composta de pequenas investigações e procedimentos protocolares específicos, como a consulta à conferência episcopal regional sobre a conveniência daquela investigação, o requerimento do Nihil Obstat5 do candidato junto à Santa Sé, o estudo da produção escrita do candidato (e também sobre ele) e a investigação do culto destinado a ele na cidade. O bispo é ainda o responsável por escolher e nomear as pessoas que se encarregarão do trabalho, bem como supervisionar todo o seu desdobramento.

Quando as investigações são concluídas, passa-se à fase apostólica do processo, cuja responsabilidade é de um postulador romano. Sua função é acompanhar o trabalho do relator da positio, que não precisa necessariamente ser um religioso, mas que deve ter conhecimento para desempenhar a função 6. Ele também precisa pertencer ao Colégio de Relatores da Congregação para as Causas dos Santos e ter sido aprovado pelo cardeal prefeito desta congregação 7.

A positio8 é o principal documento produzido durante um processo canônico. Precisa ter uma configuração específica, ainda que existam pequenas variações de forma e organização do documento, conforme o assunto do qual está tratando. Se o processo devocional dos fiéis produz uma materialidade específica, os ex-votos, conforme inúmeros estudos demonstram ( CALÁVIA SAEZ, 1996; MENEZES, 2004a, 2004b; SOARES, 2007, 2015; ANDRADE, 2015), a positio constitui a produção material dos processos burocráticos e investigativos da Igreja como uma etapa necessária para se proceder à beatificação/canonização oficial. Não existe santo canonizado sem positio.

Ainda é importante ressaltar que, estruturada como um dossiê, a positio contém todos os documentos coletados e produzidos, no caso dos depoimentos colhidos, pelo tribunal diocesano, ou seja, em escala local. Ademais, ela apresenta os mencionados documentos de maneira que comprovem a santidade do candidato em questão.

As positiones9 entraram em uso logo após a criação da “Congregação dos Ritos” na segunda metade do século XVII. Mas foi somente com o Código de Direito Canônico de 1917 que elas ganharam padronização, tanto na forma quanto no conteúdo. Passou-se a exigir nos três tipos mais gerais de positiones (virtudes, martírio e milagres) a presença de todos os depoimentos orais e documentais (a chamada Acta processus), os debates entre a Congregação romana e os postuladores da causa ( Acta causae) e, por fim, uma lista ou relatório sobre os problemas ou dificuldades que as causas pudessem ter tido ( CRISCUOLO et al., 2011 ).

Além das positiones inicias – Positio super scriptis, para avaliar a produção escrita do candidato; Positio super non culto ou super cultu ad immemoriabili praestito, que apresenta o material da investigação sobre o culto rendido a um santo antigo, mas ainda não canonizado –, o código de 1917 também estabelecia a necessidade de se confeccionar uma positio para uma discussão introdutória sobre a vida e as virtudes (ou martírio) do candidato. Essa discussão deveria abarcar os primeiros documentos recolhidos e produzidos na investigação local, os questionamentos feitos pelos peritos da Congregação Para as Causas dos Santos sobre esse primeiro material e as respostas a esses questionamentos dadas pelos encarregados do processo canônico.

Na atual legislação, instituída pela Const. Apost. Divinus Perfectiones Magister de 1983, essas positiones menores foram anexadas às três principais: a Positio super vita, virtutibus et fama sanctitatis (ou somente Positio super vita et virtutibus), produzida no caso de santos considerados “confessores”; a Positio super martyrion, para os mártires; e a Positio super myro, produzida somente num segundo momento de uma causa canônica, ou seja, após a comprovação das virtudes heroicas ou da veracidade do martírio como maneira de apresentar evidências de um milagre.

Outras duas mudanças fundamentais que essa legislação trouxe foram a redução dos milagres necessários para a beatificação e para a canonização (de dois para um, no primeiro caso; e de quatro para dois, no segundo), e a extinção dos longos debates entre promotores da fé e postuladores. Essas mudanças tornaram mais ágil todo o procedimento e as canonizações e beatificações passaram a demandar menos tempo.

Após os referidos esclarecimentos, passa-se, na sequência, ao objeto de investigação do presente artigo.

Processo canônico versus causa canônica

Durante pesquisa de doutorado ( SOARES, 2015), de onde surgiram as questões desenvolvidas neste texto, os dois conceitos que sintetizavam o objeto de pesquisa, notadamente “causa” e “processo”, apareciam no discurso dos padres salesianos e fiéis leigos quase sempre como sinônimos.

Contudo, em momentos pontuais, como em algumas entrevistas com os encarregados do procedimento de beatificação/canonização do padre Rodolfo (irmão Alberto, Pe. Corso, Pe. Reinaldo, Pe. Cameroni, dom Hilário Moser), era possível distinguir uma diferença entre os termos. Nesses casos, o “processo” passava a ser uma referência mais precisa, pois dizia respeito diretamente ao procedimento jurídico-burocrático da Igreja que organiza e institui as investigações (pesquisas em arquivos, coleta de depoimentos das testemunhas) e a produção documental sobre a santidade do Pe. Rodolfo.

Por sua vez, a palavra “causa” aparecia com grande frequência durante as missas em prol da beatificação/canonização do Pe. Rodolfo que aconteciam toda terça-feira na Paróquia Sagrada Família. Sendo uma celebração com intenção específica, a causa canônica do servo de Deus 10 era sempre lembrada nas homilias e caracterizada como um evento em que toda a comunidade poderia e deveria participar, com orações e doação financeiras, basicamente.

Durante as missas regulares da paróquia, a “causa”, vez ou outra, também era mencionada, principalmente nos momentos finais, quando o celebrante dava os avisos referentes à paróquia e prestava algum esclarecimento sobre o andamento da “causa” do padre Rodolfo. Quase sempre era feito também um pedido para que a comunidade pedisse graças ao santo doméstico e para que rezasse pelo bom desfecho de sua “causa”.

Nesse sentido, a causa canônica (ou simplesmente “causa”) englobaria um universo maior e mais complexo de relações e ações do que aquele dos trâmites processuais da instituição. A “causa” se refere ao conjunto de intenções e articulações simbólicas que estimulam e conduzem o processo de produção do santo – pensando a palavra processo de maneira mais ampla, fazendo referência, inclusive, à prática devocional – e isso transcende os limites jurídicos do processo e a atuação exclusiva dos eclesiásticos. Nos registros da “causa”, a comunidade de fiéis também tem agência e protagonismo sobre a futura beatificação/canonização (há uma certeza que isso um dia ocorrerá), pois através das orações ela pode intervir junto a Deus para que ele conceda o tão esperado milagre por meio da intercessão do Pe. Rodolfo.

No jogo dialógico entre os dois termos, a palavra “processo” passa a remeter ao movimento de produção e consagração de sentidos internos à hierarquia eclesiástica, sendo o referido movimento conduzido, portanto, por membros do clero e sob os auspícios da teologia. Daí resulta a não concordância com Eduardo Gusmão de Quadros, quando, em seu estudo sobre o processo do padre Pelágio Sauter, afirma:

São muitas as vozes reunidas naquelas páginas, mas é nítido que elas estão orquestradas sob a batuta dos padres postulantes da causa. Eles produziram a investigação com interesses claramente colocados. As respostas das testemunhas, mesmo se revelassem grandes divergências com a teologia oficial, foram obtidas com questões padronizadas e previamente estabelecidas. Não se deve ser ingênuo na leitura dessas fontes

( QUADROS, 2011, p.211).

E ainda: “O processo pode ser considerado uma fonte missionária, pois pretende converter e convencer, semelhante ao que fez em sua prática o redentorista [o Pe. Pelágio Sauter]. Como escreve Michel de Certeau, esse tipo de documentação é um discurso de virtudes” ( QUADROS, 2011, p.212).

Primeiramente, é importante não ser “ingênuo” na leitura de qualquer fonte documental, posto que a crítica é um princípio básico do trabalho do historiador e do cientista social. Além disso, um processo canônico é obviamente orquestrado pela instituição, pois ele é um documento interno da Igreja, escrito por eclesiásticos para que outros eclesiásticos leiam.

Pelas razões acima expostas, um processo dessa natureza não é entendido como fonte missionária, no sentido de ser produzido para a leitura e conversão dos fiéis. Diferentemente, ele é compreendido como um documento interno à instituição e que tem como finalidade o convencimento de teólogos-peritos de uma congregação vaticana sobre a veracidade e pertinência da santidade de uma pessoa.

Ao citar o texto clássico de Certeau (1982) sobre o gênero hagiográfico, Quadros também confunde a “hagiografia” com o processo. Claramente um processo canônico possui características hagiográficas, pois se destina a comprovar as virtudes cristãs do candidato, mas não tem a função básica de um texto hagiográfico, que é a divulgação de uma história santa, edificante e exemplar para a comunidade católica. Dificilmente, processos canônicos são publicados ou circulam fora dos meios eclesiásticos, mesmo após sua conclusão. Publicam-se biografias santas, ou textos hagiográficos, conforme informou o padre Pierluigi Cameroni, o postulador geral das causas salesianas, durante uma conversa no período de pesquisas na Itália (ano de 2012).

A função missionária a que alude Quadros pode ser encontrada facilmente em ações outras, que estão nos registros da causa canônica. É possível citar como exemplo as publicações de divulgação da causa e do processo feitas pelos grupos que invariavelmente se ocupam com essa atividade. No caso do padre Rodolfo, a paróquia Sagrada Família manteve durante a década de 1990 uma publicação mensal chamada “Conheça o padre Rodolfo” com este exato objetivo. Essa publicação traz artigos sobre a vida do padre, relatos de milagres e graças, notícias sobre o andamento da causa em Roma etc. A mesma paróquia oferece a já mencionada missa especial todas as terças-feiras em prol da beatificação/canonização de Rodolfo e organiza grupos de oração/terços com o mesmo objetivo. Como exemplo dessas reuniões, convém assinalar o evento “Boto fé no padre Rodolfo”, organizado uma vez por mês por um grupo de jovens paroquianos com o objetivo de juntar cada vez mais adolescentes e jovens em torno da devoção ao (quase) santo polonês (e joseense).

Por fim, as relações entre a causa e o processo podem ser exploradas através de sua interdependência. A causa, sendo um conjunto de intenções e de ações simbólicas e práticas que visam a uma canonização, acaba por alimentar um processo que, por sua vez, só existe quando há movimento devocional, ou seja, demanda por milagres por parte dos devotos. Nesse ponto reside o problema de causas que são retomadas depois de muito tempo que ficaram paradas. Se não há orações, não há milagre; sem milagre, não há fama de santidade; e sem esta, por consequência, não há sentido em instaurar um processo.

Por outro lado, sempre que um processo termina com resultado positivo, a causa ganha força, sendo este o caso da causa do padre Rodolfo. Em 1996, quando foi declarado o fim do processo canônico com a sua ascensão ao grau de “venerável”, as atividades de divulgação de sua vida e dos seus feitos ganharam novo fôlego entre os salesianos e também entre os fiéis da cidade, especialmente entre os paroquianos da Sagrada Família.

O processo canônico do padre Rodolfo

Tendo sido iniciado antes das mudanças instituídas pela Constituição Apostólica Divinus Perfectiones Magister de 1983, o processo do padre Rodolfo se desenvolveu por quase duas décadas seguindo as normas estabelecidas pela legislação antiga, contida no Código de Direito Canônico de 1917. Essa legislação determinava que fosse produzida uma primeira positio de caráter introdutório, com o intuito de ser entregue para a avaliação da Congregação para as Causas dos Santos, antes que as pesquisas sobre a vida e a fama de santidade do servo de Deus se aprofundassem mais.

Esse documento inicial, chamado Positio Super Causae Introductione, servia para os teólogos peritos fazerem uma avaliação preliminar sobre a relevância e a plausibilidade da causa que estava sendo proposta antes da continuidade dos trabalhos. O documento era estruturado da mesma maneira que aquele referente às virtudes (a principal positio), mas com menos conteúdo, já que se originava a partir de uma pesquisa superficial sobre a vida do servo de Deus.

A Positio Super Causae Introductione do padre Rodolfo ( BEATIFICATIONIS..., 1982) foi produzida entre os anos de 1969 e 1974 e, em dezembro deste último ano, foi entregue pela postulação salesiana para avaliação dos peritos no Vaticano. O resultado dessa primeira etapa saiu em 18 de maio de 1982, com a promulgação do Votum an Causa Introducenda sit, escrita pelo promotor da fé, monsenhor Antonio Petti. Esse documento aprovou o que já havia sido feito e fez, ainda, uma recomendação para a continuidade dos trabalhos.

O fato de a causa ter nascido sob a vigência de uma determinada legislação canônica e ter passado para outra ao longo de seu interim, é certamente um dado que não deve ser ignorado pela análise. Apesar de o item 16 da terceira parte da Divinus Perfectiones Magister (Papa João Paulo II, 1983, apudCRISCUOLO et al., 2011 ) 11 determinar que as causas que já estavam em andamento na Congregação antes da promulgação da nova lei deveriam passar automaticamente para a jurisdição das novas regras, todo o debate que se estabeleceu ao longo das décadas de 1960 e 1970 entre os postuladores do processo e os peritos da Congregação seguiu, portanto, outro ritmo e lógica de desenvolvimento.

Outra questão que remete à cronologia do processo é a constatação de que ele teve início às vésperas do Concílio Vaticano II, que traria em suas discussões e determinações um novo modelo de santidade menos extraordinário na questão dos milagres e dos poderes taumatúrgicos, porém mais próximo de ações e atividades cotidianas dos fiéis. Como demonstrou Francesco De Palma, não foi por acaso que a santidade leiga cresceu consideravelmente nos anos posteriores ao Concílio (1998). Essa lenta e gradual mudança de horizontes nos parâmetros da santidade atrapalhou o desenvolvimento da causa do padre Rodolfo, como será visto mais adiante.

Com a permissão para se continuar oficialmente o processo sobre as virtudes e a fama de santidade, a causa do padre Rodolfo ganhou novo fôlego no início da década de 1980. Primeiramente, foi nomeado, como relator da Positio Super Vita et Virtutibus, o padre Valentino Macca, o qual, após alguns anos de trabalho, faleceu e deixou o texto inacabado. Para substituí-lo, foi escolhido o monsenhor José Luis Gutiérrez 12, membro do Colégio de Relatores e especialista em causas de países lusófonos.

Muito mais volumosa que a primeira, a Positio Super Vita et Virtutibus foi entregue na Congregação para as Causas dos Santos em 1992, e o resultado da avaliação foi publicado em 1995 com o título “ Relatio et Vota: congressus peculiares super virtutibus” (1995).

Esse documento, resultado da avaliação de nove teólogos peritos da Congregação para as Causas dos Santos 13, corrobora a argumentação da positio, confirmando, portanto, que Rodolfo Komorek vivenciou as virtudes cristãs em grau heroico. Poucos dias depois, o documento foi enviado ao Papa João Paulo II, que decretou a venerabilidade de seu conterrâneo. Com esse decreto, Rodolfo ganhou o título de “venerável”. Nessa condição, ainda não são permitidas manifestações devocionais públicas endereçadas a ele, nem a reprodução de imagens suas (apenas impressas). Mas é um primeiro reconhecimento da Igreja pelos seus feitos.

Os próximos passos rumo à beatificação e à canonização são as comprovações dos milagres, um para cada etapa. Quando surgir um milagre que o bispo diocesano e os encarregados da causa julgarem ser um bom caso para ser submetido à avaliação, de fato terá início um novo processo nos mesmos moldes do que foi feito para a comprovação das virtudes, ou seja, instituindo um novo tribunal para a coleta dos depoimentos, novas investigações científicas e a produção de uma nova positio. No momento, não existe processo canônico, pois a causa do padre Rodolfo está exatamente à espera de um milagre.

A produção da hagiografia e o estabelecimento de um carisma: a Positio Super Vita et Virtutibus

A positio não é um texto linear que apresenta uma narrativa com começo, meio e fim. É um corpus documental, pois é formada por vários documentos individuais, articulados entre si e que tem como eixo norteador dessa articulação a causa do servo de Deus.

Atualmente, as positiones apresentam a seguinte estrutura: (1) uma introdução contendo a história da causa e a apresentação do material documental; (2) Informatio, que consiste numa biografia do servo de Deus, com ênfase em seu perfil espiritual e com abordagem pontual sobre o cumprimento das virtudes cristãs. Nessa seção, também vêm arrolados os documentos escritos pelo servo de Deus que compunham a antiga Positio Super Scriptis; (3) Summarium, que é a relação de todos os depoimentos do processo colocados na íntegra. Em geral, essa é a maior parte de uma positio; (4) os votos e a avaliação dos teólogos peritos da Congregação para as Causas dos Santos sobre os escritos do servo de Deus, que são enviados previamente aos postuladores em Roma; (5) voto final do promotor da fé 14 sobre a plausibilidade da causa apresentada.

A leitura da positio da maneira como ela se apresenta, ou seja, uma leitura que focaliza as notas que aparecem ao longo da Informatio, que remetem aos depoimentos da seção Summarium, é uma tarefa de fôlego. Além das quase quatrocentas páginas da primeira parte, as referências aparecem em vários momentos ao longo do texto. A leitura ocorre num movimento de idas e vindas pelas páginas das duas partes. Às vezes, num mesmo parágrafo da Informatio aparecem três ou quatro referências que levam o leitor a diferentes depoentes que falaram sobre o assunto em questão. Nesse sentido, a leitura de um só parágrafo pode levar muito mais tempo do que normalmente levaria.

Analisado em todo seu conjunto, esse tipo de documento desempenha três funções básicas. Primeiramente, ele historiciza o santo ao apresentar documentos e depoimentos que testemunham a veracidade de seus feitos, os lugares pelos quais passou, as funções litúrgicas (ou não) que desempenhou, as pessoas que conheceu etc. Em suma, o texto enquadra o candidato à glória dos altares numa narrativa histórica e, consequentemente, também numa memória coletiva. Logo após, a partir de um código específico (teológico), a positio apresenta uma biografia espiritual e edificante com um carisma específico e coerente com o momento histórico em que o seu protagonista viveu. Por fim, é produzida uma argumentação que dê conta de convencer os teólogos peritos da Congregação para as Causas dos Santos de que aquela beatificação/canonização à qual se fez referência merece ser feita para o bem de toda Igreja.

A Informatio da Positio Super Vita et Virtutibus do padre Rodolfo é dividida da seguinte maneira: história da causa, fontes da causa (certidão de casamento dos pais, certidão de nascimento, de batismo, de crisma, de ordenação sacerdotal, nomeações nas paróquias em que trabalhou etc.), biografia documentada, outros documentos (cartas e textos escritos sobre ele), as respostas dadas pelos postuladores às duas objeções feitas pelo promotor da fé e, por fim, uma síntese do perfil espiritual, dando ênfase às virtudes vivenciadas em grau extraordinário e à fama de santidade.

Os depoimentos arrolados no Summarium são usados como prova e testemunho das diferentes características da personalidade e espiritualidade do padre Rodolfo que são apresentadas ao longo da Informatio. Ao todo, foram cinquenta depoentes divididos da seguinte forma: cinco bispos, dezenove padres salesianos, quatro padres seculares, treze freiras e nove leigos.

A construção dessa biografia santa, apesar de contar com depoimentos de alguns fiéis leigos, é feita principalmente a partir de depoimentos de eclesiásticos. Sobre esse ponto, quase cinquenta anos depois de ter feito parte do corpo de depoentes, Riolando Azzi fez alguns questionamentos sobre a escolha de colocar mais membros do clero do que leigos. Segundo o que foi dito por ele, faria muito mais sentido ter chamado as pessoas pobres e doentes que conviveram e foram atendidas pelo padre Rodolfo ao invés de chamar padres e freiras que dizem a mesma coisa.

Confirmando ainda mais a tese de que esse é um processo eminentemente eclesiástico, pode-se afirmar que os depoimentos são importantes, mas que é no texto da Informatio, de autoria do relator do processo, que o santo ganha corpo e feição. O relator, nesse sentido, tem o trabalho de interpretar os depoimentos do processo e traduzir o que foi dito para um referencial teológico (grande parte dos depoimentos já vem neste tom, por serem prestados por sacerdotes e freiras).

O texto segue apresentando as características e compondo a personalidade do padre Rodolfo a partir de “topos narrativos” específicos que estão presentes nas vidas de outros santos. As virtudes cristãs dão o tom dessas estruturas narrativas, que podem ser compreendidas de maneira sequencial, ao longo da leitura do texto, mas também podem ser tomadas de maneira isolada, como uma “microhistória” que contém uma mensagem “edificante”.

Como um dos exemplos disso, existe uma passagem da biografia Beatificationis et Canonizationis servi Dei Rudolfi Komorek: sacerdotis professi Societatis Salesianae. Positio Super Virtutibus, Informatio (1995a) 15 que narra um episódio protagonizado pelo servo de Deus durante sua estadia em Niterói entre os anos de 1929 e 1934. A passagem conta que, certa vez, Rodolfo entrou na capela do Santuário de Maria Auxiliadora para adorar o Santíssimo, como era seu costume. Contudo, havia também uma faxineira arrumando os arranjos de flores do altar. Rodolfo, percebendo isso, voltou-se para a porta com intenção de sair. Mas a senhora o indagou: “ Padre Rodolfo, tem medo das pessoas? Por que foge das mulheres? Por acaso, sua mãe e Nossa Senhora não eram também mulheres?” Ele apenas acenou como resposta, sorriu timidamente e, de cabeça baixa, saiu do recinto.

O autor da positio indica, com uma nota de rodapé, a página desse relato contido no depoimento de Ébion de Lima (testemunha n°1) e ensaia algumas explicações para o episódio. A reação do padre Rodolfo, esclarece o texto, foi devido à sua humildade extrema frente ao próximo e devido ao seu espírito casto no contato com o sexo feminino.

O jeito introspectivo e reservado do padre Rodolfo é apresentado da mesma maneira que na biografia escrita pelo seu principal biógrafo Riolando Azzi 16 (1981). Ao invés de colocar a timidez como uma característica de sua personalidade, o texto argumenta que esse jeito de ser vinha de sua profunda humildade e respeito pelas coisas divinas. Por se considerar um grande pecador, Rodolfo procurava evitar prazeres; além disso, falava apenas o necessário e nunca voltava o assunto para si mesmo ( Beatificationis..., 1995a). No contato com as mulheres, era ainda mais fechado, como relatou Ébion de Lima na passagem anterior. Dessa forma, todas as características da personalidade do padre Rodolfo têm alguma justificativa a partir das virtudes cristãs teologais e cardinais.

Toda a Infomatio é construída a partir das informações retiradas dos depoimentos do processo investigativo, desenvolvido entre 1964 e 1969 e, como já foi dito, também da biografia escrita por Riolando Azzi. Desses depoimentos, certamente o de Riolando (testemunha n° 28) e o de Ébion de Lima (testemunha n°1) são os mais extensos e informativos.

No entanto, não é apenas na biografia que se define o perfil do servo de Deus. Nas seções “ Profilo spirituale”, colocado no final da Informatio, e “ Risposta a due obiezioni”, na qual o relator, com a ajuda dos postuladores e advogados da causa, responde às dúvidas manifestadas pelos censores teológicos, o santo também ganha corpo.

Padre Rodolfo é concebido como um santo humilde, que foi praticante da caridade extrema e preferiu a presença dos pobres, velhos e doentes em detrimento dos outros, inclusive dos seus próprios confrades salesianos. Porém, foi um sacerdote marcado pela obediência absoluta aos superiores e respeito à hierarquia salesiana e da Igreja. Ele aparece ainda como um sacerdote sempre disposto ao trabalho pelo bem da Igreja, no qual fora muito zeloso.

Padre Rodolfo não se envolveu com grandes causas sociais, como fizeram muitos santos e candidatos à santidade do período. No entanto, como forma de aproximá-lo do modelo bastante vinculado após o Concílio Vaticano II, a positio destaca a caridade cotidiana como principal referência de seu carisma e personalidade.

Conta uma das testemunhas, o Pe. Giovanni Kasprzyk (testemunha n°13 do processo e única que teve contato com o servo de Deus em seu período polonês), que, durante um rigoroso inverno, ainda quando morava na Polônia, Rodolfo ganhou de seus superiores um capote novo para poder se proteger do frio e do vento gelado. No entanto, poucos dias depois disso, um dos seus superiores descobriu que ele havia doado o capote para uma pessoa necessitada da comunidade local e ele mesmo estava passando frio. Muitas outras histórias referentes aos diversos períodos de sua vida que tenham na caridade seu núcleo são citadas.

A ênfase na caridade e na disposição em ajudar o próximo foi uma estratégia discursiva usada tanto na biografia quanto no processo propriamente dito. Quem contou este fato foi o próprio Riolando Azzi. Outras características poderiam ganhar destaque, mas dado o clima de mudanças trazidas pelo Concílio, essa qualidade se enquadraria melhor aos novos tempos, ao novo modelo de santo que estava sendo proposto e ganhando popularidade na Igreja.

Outra característica fundamental destacada pelo documento é o espírito mortificado apresentado ao longo de toda a vida de Rodolfo Komorek. Desde pequeno, seus irmãos Wanda e João Komorek contam que ele era dado a essas práticas ( AZZI, 1981; Beatificationis..., 1995b). Não usava luvas no frio intenso da Polônia, dormia sempre no chão, nunca se cobria o suficiente, alimentava-se apenas de alimentos ruins (ao menos para seu paladar) e comia apenas o essencial; não se permitia luxo nenhum e quase não tinha posses. A biografia argumenta que essas características o acompanharam até o final da sua vida em São José dos Campos.

Na seção Profilo spirituale, todas essas características são retomadas a partir dos depoimentos do processo. Essa seção é exatamente a mesma que havia sido escrita para a primeira positio de introdução da causa. O relator do documento, Pe. José Luis Gutierrez, explica isso na página:

[...] a síntese das virtudes que apresentamos agora depois da biografia do servo de Deus é a mesma síntese já preparada para a Positio Super Causae Introductione (1982) do advogado Andrea Ambrosi. Esta foi julgada muito pertinente pelo padre Valentino Macca, relator da causa, já morto, segundo quanto consta do estudo por ele prepardo, mas não finalizado por causa de sua repentina

( Beatificationis..., 1995b, p.281).

Essa nota explicativa confirma o argumento de que o santo canonizado (ou canonizável) é produto da junção de vários discursos sobre ele, conforme já havia percebido Quadros ao estudar o processo do padre Pelágio Sauter ( QUADROS, 2011). Esse argumento, segundo pesquisas anteriores ( SOARES, 2007, 2015), também é válido quando se volta para a maneira pela qual o santo é pensado pelos fiéis. Entre estes, o santo é concebido de diferentes maneiras, conforme a experiência e o nível de intensidade da relação de devoção: alguns o entendem como um “padre” santo, outros não se importam muito com o fato de Rodolfo ter sido padre; alguns valorizam mais a sua humildade como um exemplo a ser seguido, outros possuem uma relação mais instrumentalizada, entendendo-o principalmente como um santo milagreiro. Há, ainda, os que o consideram como o único santo da cidade enquanto outros o enquadram num sistema devocional mais amplo, que inclui também alguns personagens considerados milagreiros do cemitério da cidade.

O perfil espiritual do padre Rodolfo é resumido, portanto, da seguinte maneira: ele foi um sacerdote exemplar, caridoso ao extremo, sendo completamente doado a Deus e ao próximo; era muito severo consigo mesmo por se considerar um grande pecador; tinha um cuidado muito grande com a liturgia e com os sacramentos; ficou conhecido, dentre outros nomes, como o “Apóstolo do confessionário” e “Padre Santo”; manifestou sempre preferência pelos pobres, doentes e idosos; foi missionário e um grande devoto da paixão de Jesus Cristo.

Dessa forma, traçando o perfil espiritual mais geral, o documento passa a tratar especificamente sobre cada virtude na seção Sintese delle Virtù eroiche, que, na verdade, é uma espécie de resumo detalhado do que já foi abordado na “biografia”. Essa seção é estruturada da mesma maneira que a anterior, ou seja, o texto que conduz a argumentação é corroborado e confirmado por referências aos depoimentos contidos no Summarium.

A expressão “heroicidade das virtudes” ou “virtudes heroicas” aparece na obra Ética a Nicômaco, de Aristóteles, e é reinterpretada por Santo Tomás de Aquino, segundo os critérios cristãos ( CRISCUOLO et al., 2011 ). Para o teólogo medieval, duas são as origens possíveis para a heroicidade no cumprimento das virtudes: os dons do Espírito Santo e as próprias virtudes em si.

As virtudes cristãs são sete no total e foram divididas em dois grupos: as virtudes teologais, que se referem à relação dos homens com Deus (fé, esperança e caridade); e as virtudes cardinais, que norteiam as condutas de vida (prudência, justiça, temperança e fortaleza).

Na legislação eclesiástica de canonizações, o conceito de virtude heroica é concebido segundo essa orientação tomista, sintetizada na obra de Próspero Lambertini (Bento XIV), que a define da seguinte forma: “[...] para que seja heroica, a virtude cristã deve ser cumprida prontamente e prazerosamente, acima do modo comum e almejando um fim sobrenatural, sendo assim, sem o raciocínio humano [...]” ( LAMBERTINI, 2010, p.321).

Essa definição, muitas vezes, pressupõe que seu agente seja uma espécie de super-homem (um “supercristão”) que está acima das fraquezas humanas. No entanto, esse modelo de santidade, do santo que faz coisas extraordinárias, mudou muito ao longo dos últimos dois séculos. Especificamente depois das deliberações do Concílio Vaticano II, as virtudes passaram a ser valorizadas nas ações cotidianas, executadas nos momentos mais ordinários da vida e por gente considerada “comum”.

Dessa forma, as virtudes do padre Rodolfo são apresentadas a partir de depoimentos que contam suas atitudes no dia a dia, descrevendo sua rotina nos vários lugares por onde passou. A primeira virtude descrita é a fé. Para apresentá-la, o relator retoma os depoimentos de algumas testemunhas que conviveram com o padre Rodolfo em São José dos Campos. Esse é o caso do Pe. Gastão Mendes, que, à época da morte do servo de Deus, era o superior salesiano da cidade.

[...] a observância escrupulosa que ele tinha das leis de Deus e da Igreja atesta que foi sempre exemplar. Padre Rodolfo demonstrava de modo particular sua fé viva em Deus e em Nosso Senhor Jesus Cristo, quando o víamos ajoelhado humildemente sobre o pavimento da igreja tantas vezes. Passava horas inteiras em adoração

( Beatificationis..., 1995b, p.237).

Em outros depoimentos citados no texto, mais uma vez a fé do padre Rodolfo é representada pelo seu apreço e pela adoração a Jesus Sacramentado:

[...] A fé do Pe. Rodolfo transparecia. Bastava ver o modo como ele rezava, o cuidado que tinha com a Santíssima Eucaristia, a genuflexão que fazia quando passava à frente do Santíssimo Sacramento... tudo fazia imaginar que ele via na hóstia consagrada o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo [...]

( Beatificationis..., 1995b, p.296).

[...] Sobre a devoção à Divina Eucaristia, padre Rodolfo fez verdadeiramente um sacrifício de amor ao Santíssimo Sacramento. Eu particularmente vi muitas vezes que padre Rodolfo ficava prostrado até a noite em frente ao

( Beatificationis..., 1995b, p.298).

A positio valoriza também, ainda falando sobre a fé, a forma como o servo de Deus celebrava a missa. Mesmo tuberculoso, seu cuidado com as “coisas do céu” (para usar uma expressão atribuída a ele) era tão grande que Rodolfo se esforçava ao máximo para não tossir durante as celebrações, pois considerava isso um desrespeito. Aqui, o texto faz, inclusive, uma comparação de sua missa com a que era celebrada por outro padre da cidade, também salesiano e tuberculoso, que tossia muito durante a celebração ( Beatificationis..., 1995b).

A fé do padre Rodolfo está representada nestes dois aspectos: a devoção à Eucaristia e o cuidado com a liturgia, principalmente com a celebração da missa. Nesse sentido, Rodolfo se configura como um sacerdote exemplar, independente de seu pertencimento a uma congregação religiosa.

Outra virtude muito enfatizada e que ajuda a compor a imagem do padre Rodolfo é a já citada caridade. Esta é apresentada em duas partes: a “caridade com Deus” e a “caridade com o próximo”. A primeira parte refere-se à dedicação do padre Rodolfo a Deus; para representar isso, os depoimentos versam sobre o espírito de oração que ele manifestava:

[...] Posso dizer que o padre Rodolfo foi um homem de oração. Ao amanhecer se levantava, abria a igreja, depois permanecia ajoelhado ao lado do confessionário, rezando numa atitude que inspirava verdadeira devoção. Durante todo o dia, quando não tinha nenhuma ocupação, andava igualmente à igreja [...]. Sua atitude de fervor na igreja era percebida por todos [...] ao rezar nunca sentava, ficava sempre de joelhos rezando com as mãos juntas e sem se apoiar em nada

( Beatificationis..., 1995b, p.309).

Aqui, também Riolando dá um depoimento esclarecedor: “[...] a vida do Pe. Rodolfo foi uma vida de oração. Aproveitava todos os momentos livres para se colocar em comunhão com Deus. A capela e o tabernáculo eram de fato o centro de sua vida“ (Beatificationis..., 1995b, p.309).

O que fica claro com esses depoimentos é que, na construção da personalidade do santo, as virtudes são postuladas em relação umas com as outras. No caso que se discute aqui, “fé” e “caridade com Deus” são praticamente a mesma coisa, referindo-se ao espírito de oração e de cuidado com as “coisas da Igreja e do céu”. Essa ênfase em sua espiritualidade faz algumas pessoas o conceberem como um santo contemplativo, modelo que, naquele momento, devido aos ares de mudança trazidos pelo Vaticano II, estava um pouco em esquecimento.

Os outros depoimentos referentes a essa virtude narram, além do espírito de oração e da relação profunda com Deus, a preocupação evangelizadora do padre Rodolfo. Segundo a irmã Clara Moreira (testemunha n°6), Rodolfo estava sempre chamando as pessoas à Igreja para se confessarem e receberem a Santíssima Eucaristia. Também cuidava para nunca falar o nome de Deus em vão. Segundo Ébion de Lima, ele tinha um profundo ódio ao pecado ( Beatificationis..., 1995b).

Com relação à segunda parte, notadamente “caridade com o próximo”, os depoimentos são muito abundantes, revelando que essa é uma das principais características da personalidade e espiritualidade do padre Rodolfo presente na memória local sobre ele. Esse fato já havia sido amplamente divulgado na biografia escrita por Azzi (1981). Conforme o próprio biógrafo relatou em entrevista, essa foi uma estratégia de que se valeu para tornar atual a exemplaridade da vida do santo, para o período quando se desenvolveu o processo.

Quase todas as passagens dos depoimentos, reproduzidas na Informatio, que versam sobre a “caridade com o próximo” praticada pelo padre Rodolfo, referem-se ao período vivido em São José dos Campos e à relação que ele estabeleceu com os doentes, idosos e pobres da cidade. Convém listar alguns desses depoimentos:

[...] Certa vez me contaram que na Santa Casa havia um doente com uma gangrena no pé. Durante a higienização da ferida, feita pela enfermeira, o doente permanecia com o pé dentro de uma solução de permanganato, porque esta doença gera um cheiro ruim. Mas padre Rodolfo sentava-se ao lado dele para confessá-lo, sem manifestar nenhum sinal de repugnância e isso para se mortificar [...]

( Beatificationis..., 1995b, p.315).

[...] Padre Rodolfo cumpria com naturalidade gestos que talvez outros sacerdotes não fizessem: ajudava estranhos que encontrava pelas estradas durante suas caminhadas, ajudava os empregados domésticos, inclusive nas atividades mais desagradáveis, visitava frequentemente os doentes [...] quando via alguém carregando peso, corria ajudar [...]

( Beatificationis..., 1995b, p.317).

Rodolfo praticava a caridade ajudando as pessoas em suas atividades cotidianas, inclusive nos trabalhos mais humildes. Segundo o relator da positio, essa era uma forma encontrada por ele para se humilhar perante Deus e se anular em detrimento do próximo.

Em algumas ocasiões, o mesmo depoimento, ou a mesma informação narrada em dois ou mais depoimentos diferentes, serve para justificar a heroicidade do cumprimento de mais de uma virtude. Como foi dito, a “fé” e a “caridade com Deus” acabam se diluindo nas mesmas representações. Aqui, também, entram a humildade e a pobreza, outras duas características fundamentais da personalidade do padre Rodolfo, inclusive nos arranjos hagiográficos dos devotos.

Existe ainda uma pequena subseção no final da Informatio para avaliar, também a partir dos depoimentos, como Rodolfo se saiu no cumprimento heroico dos conselhos evangélicos, ou votos, comumente feitos pelos eclesiásticos. Os principais elencados no documento são a “obediência”, a “pobreza”, a “humildade” e a “castidade“. No caso do padre Rodolfo, sua positio enfatiza a obediência sempre que um superior o proibia de fazer tantas mortificações. Isso aconteceu ainda no período de seminário e também em diversas outras ocasiões.

Aqui, há mais uma estratégia discursiva interessante do processo, pois um dos problemas teológicos encontrado pelo relator da causa foi que, nos relatos sobre o padre Rodolfo, aparecia com frequência menções ao seu espírito de penitente visceral. Esta questão, inclusive, aparece como a prima obiezioni feita à causa pelo promotor da fé, ainda quando se preparava a primeira positio na década de 1970.

Como foi dito, padre Rodolfo dormia no chão, não se agasalhava, não se alimentava corretamente, praticava muitos jejuns (mesmo doente), usava um cilício na perna etc. Esse tipo de prática, típica de santos tridentinos, não é mais bem vista pela hierarquia eclesiástica, sendo considerada uma prática “arcaica” ( Beatificationis..., 1995b), conforme afirmou o promotor da fé, é. O santo precisa cuidar de si, tanto do seu espírito quanto do corpo. Nos trechos que essa característica não é abordada, já que ela aparece em muitos dos depoimentos, o texto enfatiza a obediência ao cumprimento imediato da ordem para não praticar mais o ato. Nota-se, assim, que o “problema” é convertido em prova de santidade!

Outra virtude marcante do padre Rodolfo, a castidade, é descrita principalmente pelas freiras com quem conviveu. Como tinha por prática frequentar cotidianamente os hospitais, sanatórios e asilos, que em sua maior parte eram cuidados pelos institutos religiosos femininos presentes na cidade, o contato com as irmãs foi constante. Mas sempre que necessitava lidar com alguma delas, os relatos contam que Rodolfo jamais as olhava nos olhos, permanecendo sempre de cabeça baixa. Outro episódio usado para argumentar a favor de sua castidade heroica conta que, no leito de morte, poucos dias antes de seu passamento, Rodolfo, já muito fraco, havia pedido para amarrarem uma corda em sua cama para ele conseguir se levantar sozinho, ou seja, ele admitia que o tocassem nem em momentos difíceis como esses.

Por fim, finalizando o perfil biográfico e espiritual, a positio dedica atenção especial ao conselho evangélico que mais marcou a vida do servo de Deus: a humildade. Muitos são os depoimentos sobre esse aspecto de sua personalidade:

[...] Mais de uma vez vi o padre Rodolfo se declarar pecador quando lhe diziam que era um padre santo. De fato, as ações dele eram sempre assim, humildes, embasadas no respeito que tinha para com as outras pessoas, principalmente os pobres e doentes [...

( Beatificationis..., 1995b, p.280).

Junto com o espírito de pobreza, de penitência, uma outra virtude que era característica do Pe. Rodolfo era a humildade. Era uma coisa notável nele. Todos o viam como um padre humilde e era conhecido na cidade como o ‘Padre Santo

( Beatificationis...,1995b, p.344).

Evidentemente, este padre Rodolfo que emerge do texto da positivo, representa um modelo de santo datado, que, mesmo à época das pesquisas do tribunal diocesano e de produção da biografia, já era considerada anacrônica por alguns membros da própria Congregação Salesiana. Riolando Azzi conta que, provavelmente, foi por esse motivo que a causa nunca “empolgou” de fato a maioria dos salesianos brasileiros, com exceção de alguns que o conheceram melhor.

Por fim, depois de apresentar o perfil espiritual e a personalidade do padre Rodolfo a partir dos exaustivos relatos citados, a positio aborda a “fama de santidade” e seus dons sobrenaturais.

Há uma primeira análise da devoção cemiterial dizendo que ela é crescente e que não se configura como culto público. Como explicado pelo irmão Alberto, atual secretário da causa, o culto público existe apenas quando um eclesiástico ou um representante do clero organiza manifestações devocionais no túmulo de um servo de Deus sem uma avaliação mais criteriosa da Igreja. Essa forma de culto é condenada e pode malograr uma causa canônica quando identificada. No entanto, o culto devocional dos fiéis, organizado por devotos solitários ou em grupo, não é entendido como culto público; ao contrário, é visto como a principal evidência da fama de santidade, um valor fundamental para o estabelecimento e desenvolvimento de uma causa e de um processo canônico.

De todo modo, a análise do culto existente não ocupa muito espaço ao longo da positio. Há apenas uma confirmação feita pelo bispo da sua não existência, para que a causa seja aceita pela Congregação para as Causas dos Santos. Esse fato indica, mais uma vez, que esse é um procedimento de convencimento eclesiástico, o qual se dedica a montar uma argumentação que justifique a santidade do personagem em questão. Como foi indicado páginas atrás, a administração do culto (ritos cemiteriais e liturgia) e da fama de santidade entre os fiéis é colocada em prática num outro nível de ações e produção simbólica.

A fama de santidade é abordada no final do documento a partir do mesmo procedimento usado para justificar a personalidade e a espiritualidade do servo de Deus, ou seja, fazendo referências aos depoimentos do Summarium. Mais uma vez, a positio se torna repetitiva (como bem argumentou Riolando Azzi na entrevista), pois a fama de santidade é confirmada muito mais pela personalidade e pelas ações do servo de Deus do que por sua capacidade taumatúrgica. Para a Igreja, o santo bom não é necessariamente o mais milagreiro.

As referências aos poderes sobrenaturais do padre Rodolfo que a positio traz não corroboram o que é dito muitas vezes pelos fieis. O documento não cita, por exemplo, os poderes de bilocação e levitação que abundam nas narrativas devocionais. Ele faz referência às capacidades de evangelização do servo de Deus, principalmente a partir do confessionário. São três as capacidades sobrenaturais do padre Rodolfo indicadas no texto: a “ prescrutatio cordium”, ou seja, a habilidade de conhecer a consciência do outro; a profecia; e o dom de induzir as almas ao arrependimento. Não há menção sobre sua capacidade de curar os enfermos, ainda que episódios como esses tenham aparecido ao longo de toda a argumentação.

Padre Rodolfo é concebido como um confessor que conhecia os desejos e pecados mais íntimos daqueles que o procuravam para a confissão. Na positio, são relatados inúmeros episódios quando essa habilidade se fez presente, impressionando e até amedrontando alguns fiéis.

Outra habilidade sobrenatural do padre Rodolfo era sua capacidade de conseguir conversões e induzir o arrependimento dos pecadores, como bem relata a irmã Clara Moreira:

[...] o dom especial que se notava no padre Rodolfo era a facilidade com a qual ele obtinha conversões das almas. As suas palavras tinham uma verdadeira eficácia sobre elas [...]

( Beatificationis..., 1995b, p.176).

[...] O fato sobrenatural que melhor era notado no padre Rodolfo era sua capacidade de converter os doentes. Ele sempre conseguia converter os doentes mais renitentes... isso é uma coisa muito difícil, mudar uma alma assim [...]

( Beatificationis..., 1995b, p.361)

As habilidades taumatúrgicas do santo são relativizadas pela positio. Como dito, são relatadas curas também, mas estas sempre aparecem a partir de uma bênção dada ou após a administração da Eucaristia para algum doente. No entanto, esses não são casos usados para o processo posterior ao das virtudes que se dedica à comprovação de um milagre. Os casos de cura que aparecem nessa primeira fase da causa são apenas ilustrativos e servem para compor o personagem. Se futuramente o padre Rodolfo perpetrar algum milagre de maior relevância, um novo processo terá início.

Conclusão
A produção social de um santo

Segundo a legislação eclesiástica, a Igreja não faz o santo, ela o reconhece e o legitima como tal. Nessa perspectiva, o objetivo de um processo canônico é traduzir a opinião da comunidade de devotos sobre um determinado servo de Deus numa linguagem (ou código) teológica estabelecida e alimentada pela Santa Sé. Isso não deixa de ser verdade, já que um processo canônico se faz com depoimentos de fiéis, e não somente de eclesiásticos. Porém, a Igreja, representada pelo grupo interessado numa canonização, também dá sua parcela de contribuição nesse processo criativo.

Produzir um santo é um procedimento no qual a prática e as representações devocionais são confrontadas com as regras e os paradigmas conceituais da doxa teológica. Nesse sentido, levar adiante um processo dessa natureza é desenvolver uma ação ortoprática ( GASBARRO, 2006), pois, a partir do confronto entre esses dois polos, alargam-se os sentidos da relação e da experiência de devoção, manifestos pelos devotos, ao mesmo tempo em que se propõe uma nova configuração sobre a santidade do servo de Deus para a própria Igreja.

Se para o devoto, a relação de devoção é estabelecida com o santo, principalmente em decorrência de uma identificação pessoal, de laços familiares, ou ainda, devido à fama de milagreiro dele, para a instituição o que importa é o exemplo evangélico sintetizado na hagiografia e sua capacidade de arregimentar cada vez mais fiéis. Não por acaso, ao longo da história os santos sempre foram usados como poderosas ferramentas de evangelização, criando-se uma verdadeira pedagogia da/na santidade a partir de suas hagiografias.

Ao longo de toda a causa do padre Rodolfo, os postuladores desempenharam e continuam a desempenhar um papel fundamental de articulação entre o mundo da ortodoxia e o da prática cotidiana da religião católica. Por um lado, por meio das vias burocráticas institucionais, produziram um carisma negociando os seus termos quando isso se fez necessário; por outro, produziram e alimentaram uma fama de santidade mais prática e referente aos ritos devocionais entre os fiéis.

Nesse texto, procurou-se demonstrar esse procedimento com uma visão mais ampla. O estudo e a análise de um processo canônico por si só, atentando-se apenas ao que foi escrito e publicado pelos eclesiásticos, é limitado, pois não permite lançar um olhar ampliado sobre o processo social mais geral que está por trás da produção de uma positio, por exemplo. Por isso, defende-se que, para se analisar um processo dessa natureza, é preciso entender o seu papel dentro da causa.

A partir da relação entre esses dois conceitos, notadamente “processo” e “causa”, conforme aparecem nas narrativas dos eclesiásticos e dos devotos, foi possível organizar a análise e identificar de maneira mais precisa os tipos de ações que estão na base da produção do santo.

Sendo um documento eclesiástico, o processo canônico tem a função de tornar mais adequadas as narrativas mítico-hagiográficas sobre personagens santificados pelos fiéis e deixá-los mais condizentes com as determinações ortodoxas do conhecimento teológico. O documento produzido no processo, a positio, é, sem dúvida, o espaço onde essas negociações aparecem de maneira mais clara. Sua função é a de produzir uma “legenda”, para usar uma denominação popular dos textos hagiográficos. A “legenda” não é necessariamente uma biografia exaustiva ou fantasiosa do santo; ela se refere ao que “deve ser lido”, ao que é “exemplar”.

Um processo canônico sempre acaba. Como foi indicado, o processo sobre as virtudes do padre Rodolfo se encerrou em 1996, estabelecendo as características de sua personalidade e os parâmetros de sua santidade. Porém, para o santo continuar vivo no campo devocional (ou ao menos, no campo local), a sua causa precisa continuar ativa, o que inclui diversos tipos de ações a serem mantidas, como a divulgação da devoção, as tentativas de controle sobre o imaginário hagiográfico, a criação de novos espaços devocionais etc. Trata-se de ações que visam estimular e controlar a prática devocional.

O atual secretário da causa, irmão Alberto, disse que, mesmo se um dia o padre Rodolfo for declarado beato e/ou santo, a causa não acabará. Em seu entendimento, a Igreja precisa estar sempre vigilante para que as devoções não se desviem do caminho correto e não se tornem meros artifícios de uma “religião sem referências”.

O santo, portanto, continua vivo não só para seus devotos, mas também para aqueles que desejam sua efetiva beatificação/canonização. O santo traduz esquemas teológicos em esquemas ortopráticos eficazes. Nesse sentido, quando se analisa o seu culto e a estrutura de sua hagiografia, consegue-se, muitas vezes, observar como se dão algumas relações simbólicas no seio do catolicismo. O culto aos santos, inclusive, continua como um dos principais sinais da identidade católica.

Atualmente, existe entre os salesianos envolvidos com a causa do Pe. Rodolfo, especificamente irmão Alberto e dom Hilário, muita esperança de que a beatificação aconteça em breve. Porém, os salesianos de São José dos Campos, com a firme intenção de proceder com essa canonização, sabem que ainda têm muito trabalho a fazer. Precisam, agora, de um milagre e já estão se mobilizando para isso.

Material suplementar
Referências
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Notas
Como citar este artigo/ How to cite this article
SOARES, H.S. A produção social de um santo: etnografia de um processo canônico. Reflexão, v. 44, e194564, 2019. http://dx.doi.org/10.24220/2447-6803v44e2019a4564
2 “[...] a Igreja é santa porque é santificadora. E a santidade dos seus filhos, subordinadas àquela de Cristo, a defendem do inimigo e a fazem resplandecer com graça” (tradução minha).
3 A “Pia Sociedade de São Francisco de Sales”, ou como é popularmente conhecida, “Congregação Salesiana” foi fundada em 1859 por Dom Bosco, e aprovada pelo Papa Gregório IX em 1874. Seu fundador foi beatificado em 1929 e canonizado em 1934 pelo Papa Pio XI, passando a ser conhecido como “São João Bosco”.
4 Todos esses documentos podem ser encontrados no site do Vaticano, inclusive em língua portuguesa.
5 Nihil Obstat ou Nulla Osta (em italiano, como também aparece nos manuais e publicações sobre processos canônicos) é como é chamada a declaração que a Santa Sé promulga referente a um candidato à santidade quando não existe nada contra ele nos arquivos do Vaticano. Esse documento não prova, nem pressupõe a santidade, apenas indica que, até então, não há nada que, de antemão, impeça a abertura de seu processo canônico.
6 Em geral, para a função de relator são exigidos, além dos conhecimentos básicos sobre história eclesiástica e teologia, também fluência na língua do país do servo de Deus e conhecimentos sobre psicologia, sociologia e geografia (quando necessário).
7 O atual prefeito da Congregação para as Causas dos Santos é o cardeal Giovanni Angelo Becciu.
8 No jargão eclesiástico, a positio não se refere apenas à questão dos santos e beatos. Ela é uma espécie de dossiê relativo a um determinado assunto ou prática específica. Em sua constituição, além da petição ou pedido de estudo e análise da documentação que a acompanha, submetida pela parte interessada, devem estar presentes os pareceres e/ou os votos dos peritos e consultores que avaliaram a questão.
9 É usado o plural latino da palavra positio.
10 “Servo de Deus” é o termo que a hierarquia eclesiástica utiliza para se referir a alguém que tenha um processo canônico tramitando.
11 Aqui, cita-se a Const. Divinus Perfectiones Magister a partir do apêndice documentário colocado no final do livro Le Cause dei Santi, mas como foi dito, ela também está disponível no site do Vaticano no seguinte link: < http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_constitutions/documents/hf_jp-ii_apc_25011983_divinus-perfectionis-magister.html>. Acesso em: 20 jan. 2019.
12 Como demonstra Quadros (2011), Monsenhor Guitierrez também foi o responsável pela confecção da positio de Pelágio Sauter.
13 Os consultores teólogos, assim como os consultores históricos da Congregação para as Causas dos Santos (acionados quando a causa em questão contenha fontes que necessitem de uma avaliação especializada), são nomeados pelo Papa para ocuparem o cargo por cinco anos.
14 Antes das mudanças da legislação canônica de 1983, os “promotores da fé” tinham um peso bem maior no desenvolvimento dos processos. Eles eram responsáveis por alimentar os inúmeros debates teológicos sobre a plausibilidade ou não das causas avaliadas, fato que as tornava extremamente longas. Um exemplo disso é a causa do padre José de Anchieta. Ela teve início em 1617, mas somente em 2014 o jesuíta foi canonizado.
15 Optou-se por fazer as citações das partes da positio de maneira independente. Isso porque elas mantêm numeração própria e, ainda que estejam organicamente ligadas, possuem funções independentes. Serão feitas apenas citações da segunda positio ( Super Vita et Virtutibus), publicada pela Congregação para as Causas dos Santos em 1995, já que a primeira positio, de 1982, traz praticamente o mesmo conteúdo, com exceção da Informatio, que é bem menos volumosa que a da segunda.
16 Riolando Azzi é um importante e conhecido filósofo e historiador da Igreja no Brasil. Foi aluno do padre Rodolfo no Colégio Salesiano de Lavrinhas e padre salesiano até o início da década de 70, quando deixou a batina. Ainda quando era padre, escreveu a biografia do padre Rodolfo, que até hoje é considerada a mais completa. Foi também um dos principais articuladores da causa e do processo canônico no início da década de 1960. Durante pesquisa de doutorado, foi possível entrevistá-lo em duas ocasiões.
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