Resenha
O nosso espelho do Terror
| ZACARIAS G.F.. No espelho do terror: Jihad e espetáculo. 2018. São Paulo. Editora Elefante |
|---|
Recepção: 04 Agosto 2019
Aprovação: 17 Setembro 2019
Sexta-feira, 13 de novembro de 2015: uma série orquestrada de ataques terroristas em diversos pontos da cidade de Paris matou, a tiros de fuzis, centenas de pessoas. Na casa de shows Bataclan, três homens fortemente armados invadiram o recinto, fizeram reféns, declararam palavras de ordem jihadistas, mataram 89 pessoas e se suicidaram logo em seguida, numa carnificina que remontaria aos momentos mais agudos das revoluções, guerras e ocupações que a cidade presenciou desde o século XVIII. Os parisienses viviam, meses depois do ataque à redação do Charlie Hebdo, uma noite de terror como poucas vezes presenciaram após o fim da Segunda Guerra Mundial. Entre os brasileiros que viviam em Paris e que se marcaram “seguros” na opção da rede social Facebook, estava o autor do livro ora em questão, Gabriel Ferreira Zacarias.
Publicado em outubro de 2018, o livro “No espelho do terror: Jihad e espetáculo” ( ZACARIAS, 2018a) não é um ensaio sobre a Jihad contemporânea ou sobre o Oriente Médio, mas é um texto sobre como a “Sociedade do Espetáculo” – enunciada por Guy Debord em 1967 2 –, é a forma mais avançada do capitalismo e incide sobre a reprodução da vida social como um todo ( DEBORD,1997). Com efeito, o leitor está diante de um ensaio que remonta às pesquisas que o historiador Gabriel Zacarias vinha desenvolvendo desde seu mestrado e doutorado no programa Erasmus Mundus3, que o levou até a cidade de Paris para pesquisar os arquivos pessoais de Guy Debord, adquiridos pela Biblioteca Nacional Francesa em 2010. Zacarias, residente na cidade de Paris no fatídico ano de 2015, passou a observar que o fenômeno do terrorismo que se abateu sobre a França – e sobre o Ocidente em geral –, não era o resultado de um suposto “choque de civilizações”, mas o resultado do processo de transformação das experiências reais e concretas em subjetividades mediadas por imagens. Vale afirmar que os terroristas de Paris estavam mais vinculados às representações deles mesmos nas imagens das redes sociais do que à realidade das comunidades tradicionais islâmicas, contrariando o que anunciava a mídia francesa e o Ocidente em geral ao classificar o ato na anacrônica chave do choque de civilizações.
Munido de grande poder de síntese e de uma narrativa fluente, erudita e didática, Gabriel Zacarias recorre à caixa de ferramentas da teoria crítica e dos autores da Escola de Frankfurt para apontar a patologia mais aguda do tempo atual: a realidade concreta, a vida real e suas relações foram, mormente desde a década de 1960, transformadas pelo fetiche da imagem. Em outras palavras, o processo de alienação experimentado no mundo do trabalho, em vidas que se esvaem em relações sociais mediadas por mercadorias e consumismo, levou o sujeito a tentar restituir sua potência em fugas como a indústria cultural. Porém, seguindo as teses de Guy Debord, Zacarias entende que, após 1960, a indústria do espetáculo não configura um mero adendo ou fuga à realidade,
[...] longe de simples paliativos, são as instâncias mediadoras da imagem – hoje espaços de ação virtual – que cumprem a função de modeladoras sociais das falhas. Elas permitem não apenas uma fuga imaginária, mas uma realização de desejos perversos no âmbito separado da representação
( ZACARIAS, 2018a, p.15).A despeito da formulação acima parecer aos olhos do leitor um tanto sofisticada, todos a conhecem muito bem numa sociedade dominada pelas redes sociais. De fato, se, desde o final do século XIX, o valor do sujeito foi medido pela propriedade de um automóvel pujante, pela posse de inúmeros eletrodomésticos – exemplos clássicos do capitalismo do século XX –, ou pelo sentimento de pertença ao Estado-Nacional, hoje a ordem espetacular exige que sua experiência cotidiana seja quase que completamente transferida para a representação da imagem, no Facebook, no Instagram, no Whatsapp ou em redes equivalentes. Para “existir”, é preciso postar, afirmar a retumbante dor de vidas massacradas pelo vazio do tempo presente numa representação imagética que falseia a realidade, ou melhor, submete a vida real à vida mediada pelas imagens das redes sociais.
Ora, daí decorre, no ensaio de Gabriel Zacarias, o modus operandi do terrorismo contemporâneo. Ele não é parte do tradicionalismo islâmico anterior aos Estados Nacionais do século XIX ou tampouco tem relação concreta com as questões culturais e religiosas das tradicionais regiões islâmicas do mundo. Os sujeitos que atacaram tanto o Charlie Hebdo quanto a casa de shows Bataclan eram parte da “comunidade imaginada” francesa, ou melhor, eram cidadãos franceses e europeus. Isso significa que, entre outras questões, seu vínculo com o mundo islâmico e com a jihad se deu, sobretudo, pelo âmbito virtual, pela Internet e pelas redes sociais:
Não se trata, portanto, de uma retomada dos laços comunitários perdidos, de um retorno à prática religiosa familiar ou a qualquer costume transmitido pela tradição, mas sim da adesão imaginária motivada por eventos de grande repercussão midiática. O tradicionalismo que o fundamentalismo islâmico encena não é assim mais que um produto apto ao consumo espetacular
( ZACARIAS, 2018a, p.23).Para Zacarias, o terrorismo contemporâneo é parte da reprodução social produzida pelo capitalismo, cuja forma mais avançada é a indústria cultural e as relações sociais mediadas por imagens. Não à toa, diz Zacarias, os arautos do terror jogam videogame, tem perfil nas redes sociais e ostentam câmeras GoPro nas pontas de seus fuzis. Trata-se de entender o terrorismo contemporâneo não como algo exterior à cultura e à sociabilidade ocidentais, mas como parte do que o próprio Ocidente inventou como forma de reprodução da vida social, mediações e alienações de diversas formas. Assim, a violência cega do terrorismo GoPro jihadista ou os massacres perpetrados por atiradores “loucos” nos EUA – e recentemente também no Brasil –, não são fatos alheios à cultura ocidental 4. Ao contrário, são parte fundamental das formas autoritárias que lograram sucesso no século XX, seja nas consequências do Imperialismo europeu e norte-americano, seja internamente em experiências políticas como o Nazismo. Basta observar as grandes produções cinematográficas do III Reich, criando não apenas a propaganda do regime Nazista, mas sobretudo narrativas que transformam a produção da vida material, e dos conflitos aí envolvidos, numa abstração distópica de uma sociedade “sem classes” e unida no corporativismo do Partido Nazista. Qualquer semelhança com as realidades políticas do atual Ocidente não é mera coincidência.
O ensaio de Gabriel Zacarias, na esteira das teses de Debord, não configura uma novidade teórica como crítica à sociabilidade capitalista em âmbito mundial. De fato, é parte de uma consistente teoria crítica à modernidade e às suas formas de alienação, que encontram nos narradores do século XIX seus primeiros grandes críticos. De Marx à Debord, a crítica à forma mercadoria/imagem e seu cortejo de opressão e alienação acompanham uma modernidade repleta de abstrações: das ilusões de totalidade do Estado-Nação às ilusões das comunidades virtuais, páginas do Orkut e Facebook, fotos paramentadas do Instagram e uma indústria dos “ likes” 5, que só tendem a fortalecer a ideologia oferecida pela sociedade espetacular:
Com o empobrecimento da experiência cotidiana imposta pela superespecialização do trabalho, nascia o desejo pelo consumo de vidas espetaculares. A função das vedetes seria a de encenar essas vidas. A tão falada auto exposição onipresente nas redes sociais parece seguir a exata mesma lógica, como se todos hoje tivessem seu lado vedete. Não se trata apenas de se autoexpor, mas sobretudo de constituir um vivido aparente que, assim como o vivido aparente da vedete, serve a preencher o vazio da experiência cotidiana sob o Capitalismo
( ZACARIAS, 2018a, p.44).Esta é, portanto, a contundente contribuição do presente ensaio. Ao vincular os ataques terroristas contemporâneos – os school shottings ou o jihadismo –, à ideologia da sociedade do espetáculo, Gabriel Zacarias oferece o que há de melhor no ofício do historiador: não dobrar os fatos históricos materiais, reais e incontornáveis às narrativas abstratas e ilusórias de um mundo dominado pela sociabilidade virtual. De fato, entre outras questões, o alcance da sociedade espetacular ultrapassa e muito o âmbito do terrorismo contemporâneo ou da vida cotidiana da eterna procura de realizar o vivido aparente das estrelas de cinema. O que está em jogo na atual sociedade espetacular é a própria experiência das democracias contemporâneas. Da mesma forma se comporta a lógica de operação das campanhas eleitorais que se recusam a debater por meio de uma sociabilidade real, usando as redes sociais para espalhar velhos mantras da extrema direita do século XX. O preço de se aceitar tal alienação é cair nas armadilhas do Negacionismo, da violação dos Direitos Humanos, da submissão ao monopólio das empresas de Big Data – como Facebook e Google –, ou seja, é estar suscetível a tudo aquilo que tem sido largamente chamado de Fake News e Pós-Verdade, amplamente difundidas pelas redes sociais, Twitter e lives do Facebook. Isso é veiculado não só pelos sujeitos do novo terrorismo espetacular em questão, mas pelos mais altos mandatários políticos de uma ordem neoliberal 6, que produz, no dizer de Zacarias, um “terrorismo faça você mesmo”, uma subjetividade capaz de aniquilar, com a violência cega de vidas esvaziadas, a existência humana como a conhecemos:
Em uma sociedade na qual mesmo a mais pura e simples sobrevivência não pode ser obtida sem a mediação do mercado, o espetáculo, enquanto configuração ideológica dessa sociedade, oferece compensatoriamente a ilusão de onipotência, de autossuficiência pessoal ao alcance de um clique. O terrorista apenas troca o clique do mouse pelo clique do gatilho, e opta por uma restituição ilusória de potência que não se dá mais pelo consumo, mas pela destruição
( ZACARIAS, 2018a, p.55).Finalmente, Zacarias (2018a, p.41) argumenta ainda que, na concepção de Guy Debord (ainda em fins dos anos 1960), a mediação no âmbito separado da representação era vertical, “dada por um ponto central que ‘concentra todo o olhar’ e que realiza, portanto, uma unificação imperfeita: os indivíduos estão em relação com o centro, mas não entre si”. No entanto, com o advento da internet e das redes sociais, a mediação se tornou horizontal, afinal todos podem se representar – com as câmeras de smartphones e aplicativos a distância de um click –, nas redes da mesma forma que os artistas da Rede Globo ou de Hollywood, só que em tempo integral. É como se a tese de Debord não fosse inviabilizada, ao contrário, ainda mais ampliada. Não há vida nem sociabilidade fora da representação da imagem, fora do espetáculo em tempo integral. Porém, a aparente horizontalização da mediação espetacular, ou seja, quando todos podem ser centros emissores e receptores do vivido aparente, parece ainda carregar uma “verticalidade” e uma hierarquia disfarçadas de “democratização” do espetáculo em tempo integral, o que tornaria a inversão da vida real, o vivido aparente apontado por Debord, ainda mais perverso. Nesse sentido, as redes não alteraram a lógica espetacular constatada nos anos 1960, só a consolidaram em todas as relações sociais, bastando uma espiadinha no Instagram para percebê-lo.
De fato, a análise da trajetória de qualquer sujeito, antes “desconhecido” da grande mídia, que se valha das redes sociais para promover sua vida e carreira – seja ela qual for –, evidencia ainda a centralização dos hábitos e formas culturais ditados desde há muito pelo monopólio das grandes empresas de comunicação e da indústria cultural. A princípio, não basta possuir uma idiossincrasia, peculiaridade ou habilidade qualquer para fazer sucesso nas redes e reproduzir o vivido aparente do espetáculo; pelo contrário, tudo indica que é preciso se dobrar à forma “instagramável” da indústria cultural. Não à toa, o primeiro ato dos sujeitos, quando ganham adeptos nas redes, é prontamente aceitar convites para falar nas grandes corporações e demais veículos de comunicação. De ilustres desconhecidos a artistas e intelectuais acadêmicos, todos ocupam um mesmo espaço, cenário ou estúdio.
A sociedade espetacular configura, portanto, a própria alma do “Capitalismo como Religião” enunciado por Walter Benjamin em 1921 ( Benjamin, 2013). Nada nele tem um significado que não esteja em relação imediata com o culto da imagem. Em suma, na esteira do necessário e urgente ensaio de Gabriel Zacarias, todos esses caminhos apontam para o único Deus cultuado na atual Sociedade Totalitária Mercantil e na longa abstração do século XX: o Mercado Mundial e suas sutilezas metafísicas.