Fenomenolgia da Religião: conceito, desdobramentos e aplicação analítica
Recepção: 30 Junho 2020
Aprovação: 05 Novembro 2020
DOI: 10.24220/2447-6803v45e2020a5014
RESUMO: Neste artigo utilizamos os instrumentos teóricos que provêm da análise do fenômeno ser humano proposta pelo fundador da escola fenomenológica, Edmund Husserl. Mais especificamente, abordamos a distinção entre hylética e noética, e empreendemos um percurso analítico de escavação fenomenológica acerca do sacramento da Eucaristia. Isso é feito para evidenciar as dimensões constitutivas desse sacramento e de lucidar a importância da correta acepção do tema da “presença” para as vivências religiosas em momentos de privação da participação dos fiéis às celebrações, como no atual contexto de pandemia.
Palavras-chave: Análise fenomenológica, Eucaristia, Hylética, Noética.
ABSTRACT: In this paper we use the theoretical instruments proposed by the founder of the phenomenological school, Edmund Husserl, particularly the conceptual distinction between hyletics and noetics that come from the analysis of the human being phenomenon, performing an analytical path of phenomenological excavation about the sacrament of the Eucharist, in order to highlight the constitutive dimensions of this sacrament and to elucidate the importance of the correct meaning of the “presence” theme for religious experiences in times of deprivation of the participation of the faithful to the celebrations, as in the current pandemic context.
Keywords: Phenomenological analysis, Eucharist, Hyletic, Noetic.
Introdução
A suspensão das missas com a presença da comunidade dos fiéis, vigente na Itália no período entre 8 de março e 18 de maio, levantou uma questão delicada relacionada ao tema da “presença” em uma dupla acepção: a presença de Jesus na Eucaristia (somente na Eucaristia?) e a presença dos fiéis em cerimônias religiosas, bem como a participação destes da Eucaristia. Na verdade, a suspensão que fora inicialmente bem aceita pela Igreja Católica tornou-se problemática quando no dia 26 de abril houve uma retomada de atividades laborais em fábricas, sem, contudo, novas disposições governamentais quanto à abertura de lugares de culto. Naquele mesmo dia a Conferência Episcopal Italiana comunicou seu “desacordo” com o decreto do governo, emanando um documento que concluído com as seguintes palavras:
Os Bispos italianos não podem aceitar que o exercício da liberdade de culto seja comprometido. Deveria ser claro para todos que o empenho no serviço aos pobres, tão significativo durante essa emergência, nasce de uma fé que deve poder se nutrir das suas fontes, em particular da vida sacramental
(CONFERENZA EPISCOPALE ITALIANA, 2020, online, tradução nossa)3.No dia 27 de abril, durante a missa celebrada na capela da Residência Santa Marta, o Papa Francisco disse, na homilía, que é necessário exercitar a prudência e a obediência. Essas palavras foram compreendidas como uma exortação aos bispos, ao menos àqueles que escreveram o comunicado, pois de fato alguns outros já tinham demonstrado educadamente o desacordo em relação ao documento. Abriu-se, assim, um debate entre os católicos: de um lado, aqueles que compreendiam as razões do fechamento para evitar novos contágios, e, de outro, aqueles que invocavam a liberdade de culto.
Nas palavras do Papa estava claro que não se tratava de uma questão de liberdade de culto, mas somente de razões de prudência, as quais deveriam, em primeiro lugar, animar os próprios sacerdotes a evitar a propagação da doença. A obediência, nesse caso, dizia respeito ao efetivo perigo de contágio denunciado pelo governo após consulta aos epidemiologistas, os quais na ocasião passaram a ser chamados pelo título de “cientistas”. O Papa exortava os sacerdotes a se ocuparem com as pessoas doentes, o que foi feito por alguns, mas os exortava também a evitar o contato com outros para não propagar o contágio. De certo a ciência médica foi necessária em tais circunstâncias; alguns, porém, viram nisso um risco de submissão da dimensão religiosa àquela política e, em último caso, à comunidade científica. Parece-me, porém, que se tratava não de uma “submissão”, mas de bom senso. Se existiram, e infelizmente ainda existem, causas naturais que ameaçam a vida das pessoas, é importante confiar em quem as estuda e as conhece e, depois, tomar decisões que garantam a sobrevivência das comunidades, tanto da civil quanto da religiosa. É verdade que os sacramentos salvam, mas o que quer dizer “salvação“? É também salvação física? Em alguns casos sim, mas também está escrito “não tentarás o Senhor teu Deus”, isto é, não se exponha ao perigo e depois peça a Deus para nos salvar, mesmo admitindo que se tratasse apenas de um perigo hipotético, o que não era o caso. Jesus ensinou isso claramente com o seu comportamento na ocasião das tentações diabólicas no deserto. Eis porque a prudência é uma virtude cardeal cujo pressuposto é a virtude teologal da caridade: não adoecer é um ato de caridade com aqueles que devem nos ajudar e que enfrentam às vezes condições difíceis, como tem acontecido no curso dessa pandemia. A caridade para com o próximo nos remete à caridade direcionada a Deus: ama a Deus sobre todas as coisas, por isso amarás o teu próximo como a ti mesmo. Se o modo de evitar o contágio é conhecido, pois há quem diz como fazê-lo, então exercitemos o conselho evangélico da obediência, que não é coerção, mas fruto do discernimento e, assim, máximo exercício de liberdade. Desse modo leio as breves exortações do Papa Francisco, as quais conseguiram extinguir com elegância e com caridade as disputas existentes, ao menos na Itália.
É importante, porém, considerar alguns aspectos das palavras do comunicado dos bispos italianos, no qual é dito que o exercício da caridade para com o próximo passa através da vida sacramental. São palavras verdadeiras e muito válidas em condições “normais”, mas gostaria de citar uma reflexão de
Edith Stein que está contida num breve texto escrito durante as perseguições nazistas, desempenhadas não só contra os Judeus, mas contra os cristãos católicos, inclusive as monjas, as quais tiveram a maior parte dos mosteiros fechados ou destruídos. No início de setembro de 1941 ela escreveu:
[...] hoje é Importante ter presente que faz parte da pobreza por nós professada o estar prontas a ter que deixar inclusive o mosteiro. Nos obrigamos a observar a clausura, mas Deus não se abrigou a nos deixar sempre dentro dos muros da nossa clausura: Ele não precisa disso, porque possui outros muros para nos proteger. O mesmo podemos dizer dos sacramentos: estes são para nós meios destinados a nos transmitir a graça, e a assiduidade em os receber não será jamais o bastante. Mas Deus não está ligado a tais meios. No momento o qual, por causa de uma violência externa, estivéssemos impedidas de os receber, Ele pode nos socorrer abundantemente por outra via, e o fará com tão maior certeza e liberdade, quanto maior tiver sido a nossa fidelidade precedente em os receber
(STEIN, 2007, p. 448, tradução nossa)4.Essas palavras parecem ter sido escritas para as circunstâncias atuais, o trecho prossegue falando do temor de que as monjas possam ser expulsas da clausura. Ela convidava à oração para que isso não ocorresse, mas dizia: “não a minha, mas a tua vontade seja feita!” (Lc 22, 42)5. Não somos absolutamente senhores da história, existem circunstâncias que se apresentam inesperadamente, e devemos nos conformar à vontade de Deus.
A situação na qual nos encontramos, de impossibilidade de receber a Eucaristia, não foi determinada por uma violência externa causada por outras pessoas, mas pela violência de um elemento da natureza. Para nos defender adotamos algumas medidas que preveem a eliminação dos contatos humanos, de modo que a vida sacramental também foi temporariamente suspensa. Contudo, reflitamos a partir do exemplo deixado por Edith, que em 1941, tendo se tornado carmelitana e assumido o nome de irmã Teresa Bendita da Cruz, nos comunica algo sobre o sentido do sacramento.
É necessário o sacramento para fazer o bem aos outros? É necessário para a salvação pessoal e dos outros? Mas o que é o sacramento?
A instituição da Eucaristia
Sabemos que a descrição da instituição da Eucaristia está no Evangelho de Mateus, no capítulo 26. Na passagem, acontecia a semana dos ázimos, isto é, a semana na qual os Judeus comem o pão sem fermento e na qual, no dia anterior à Páscoa, realizam a ceia ritual que recorda a liberação do Egito. Jesus indicou o lugar, uma casa ou um certo espaço, do qual conhecia o proprietário, para realizar a ceia. Para os Judeus a festa não tinha data fixa; no ano em que Jesus morreu, a festa ocorreu em uma sexta-feira, por isso é provável que tenha sido no ano 30 ou no ano 33. Ao que parece, porém, Jesus antecipou a ceia para a quinta-feira. Mateus diz que, naquela ocasião, Jesus predisse a traição de Judas e, enquanto comiam, tomou o pão, partiu-o e o deu a comer, e assim também o fez com o vinho: um rito que era e ainda é realizado pelo mais velho da casa.
Que esse rito se trata de algo comum no mundo judaico é confirmado pela narração de Edith Stein, contida na biografia da sua família:
[...] a maior parte dos cristãos não sabem que a ’festa dos ázimos’ em memória do êxodo dos filhos de Israel do Egito é festejada ainda hoje, como o Senhor a festejou com seus discípulos, quando introduziu o mais sagrado dentre os sacramentos e se despediu deles. [...] o dono da casa, recitando as orações rituais, distribui ainda o pão ázimo e as ervas amargas como recordação da liberação do povo do Egito
(STEIN, 2007, p. 77, tradução nossa)6.Ela observa que com a “obstinada coerência”, assim se exprime, que caracteriza o povo judeu, a obrigação de comer o pão sem fermento era estendida por uma semana, o que valia já nos tempos de Jesus. Por esse motivo, ela conta que:
[...] uma família numerosa precisa de uma grande provisão de pães segundo determinadas prescrições e sob o controle do rabinato. Nós os comprávamos algum tempo antes da festa, envolvidos em grandes rolos de papel cinza e marrom; todavia, não podíamos tocá-los antes da noite do Seder (chamada assim por causa da ordem fixa de consumação da ceia)
(STEIN, 2007, p. 77, tradução nossa)7.O que é que Jesus acrescentou àquele rito executado seguindo a tradição? Depois de ter pronunciado as palavras “tomai e comei” disse: “isto é o meu corpo” e depois de ter dado a beber: “isto é o meu sangue”.
No Evangelho de João é dito que os apóstolos não compreenderam esse acréscimo. João (Jo 6, 22) não descreve a última ceia, mas se recorda do discurso de Jesus na sinagoga de Cafarnaum: “Em verdade, em verdade vos digo: não foi Moisés quem vos deu o pão do céu, mas é meu Pai que vos dá o verdadeiro pão do céu”. [...] Disseram-lhe: “Senhor, dá-nos sempre deste pão!”. Jesus lhes disse: “Eu sou o pão da vida; quem vem a mim, nunca mais terá fome, e o que crê em mim nunca mais terá sede” (Jo 6, 32-35). Essas palavras não foram compreendidas nem pelos judeus nem por seus discípulos, os quais, ainda que acreditassem em Jesus, diziam “Essa palavra é dura! Quem pode escutá-la?” (Jo 6, 60) e muitos se escandalizaram e foram embora, enquanto outros se mantiveram fiéis, em primeiro lugar Pedro. Quando perguntado por Jesus se também queria ir embora, ele respondeu: “Senhor, a quem iremos? Tens palavras de vida eterna” (6, 68). Talvez Pedro não tivesse entendido a identificação de Jesus com o pão, mas confiou nele, pois uma coisa tinha compreendido: que as palavras de Jesus eram palavras de salvação.
A diferença entre as duas narrativas é interessante porque diz respeito ao comer e ao beber em sentido físico e em sentido espiritual. O Evangelho de Mateus narra o que em termos teológicos, chama-se “transubstanciação”, que atribuído ao pão e ao vinho, encerra o duplo valor de elemento físico e espiritual. O Evangelho de João mira a espiritualização, seja a do pão ou a do vinho, ao identificá-los com a pessoa de Jesus que convida ao seguimento e também ao considerar a fome como o desejo de conhecimento da verdade. Por outro lado, na passagem do encontro entre Jesus e a mulher samaritana (Jo 4, 1-42) João insiste que a água não é um elemento físico, mas um nutrimento espiritual. Nessa passagem do texto de João, há a revelação à mulher de que Deus não habita em um “lugar”, mas que a ele se adora “em espírito e verdade”. Uma revelação que se torna, posteriormente, de domínio público graças ao anúncio da mulher. A ação de Jesus é duplamente extraordinária: primeiro, por falar com uma mulher e a esta revela algo de muito importante, e, segundo, por fazer com que os samaritanos escutassem o testemunho de uma mulher, o que para eles não teria valor.
De que modo podemos tentar compreender as atitudes diferentes reportadas pelos dois Evangelhos? Vale o aspecto físico ou o espiritual? É necessária essa contraposição? Para afrontar essas questões, é oportuno usar instrumentos teóricos que provêm da análise do fenômeno ser humano proposta pelo fundador da escola fenomenológica, Edmund Husserl, enquadrando-os em uma nova abordagem da “fenomenología da religião”. Desenvolví tais investigações no meu livro “Il senso del sacro dall’arcaicitá ala desacralizzazione”, publicado na Itália em 2014 e traduzido em 2019 para o português com o título “O sentido do sagrado”, na coleção da Editora Paulus (São Paulo, Brasil), dirigida por Márcio Luiz Fernandes, com apresentação do diretor e professor Paulo Sérgio Lopes Gonçalves.
Nesse livro examino o fenômeno religioso do ponto de vista da antropologia filosófica para descobrir como se constitui a dimensão religiosa na interioridade humana e qual sentido têm as manifestações exteriores que chamamos “religiões”. Nesse sentido, a fenomenologia da religião está a meio caminho entre a filosofia fenomenológica e a história das religiões. Os fenômenos religiosos se mostram, ao longo do tempo, a desde do período arcaico, como possuindo algo em comum, mas também como diferentes: as expressões sacrais dos povos arcaicos certamente não são iguais àquelas das religiões históricas, e, no entanto, todas se encontram na relação com o sagrado/divino. Portanto, é necessária uma “escavação arqueológica” que traga à evidência a íntima constituição de ambas.
A experiência humana dos agrado/religioso
Aquilo que dá unidade ao fenômeno sacral/religioso ao longo do tempo e em todas as culturas é a “presença” de um “traço” da Potência no ser humano. Utilizo o termo Potência, proposto por Gerardus van der Leeuw, porque exprime bem aquilo que o ser humano “sente” em si: algo que está presente e ao mesmo tempo, transcende-o. A Potência assume nomes diferentes segundo as várias configurações, porém é, justamente nas religiões mais antigas é que isso se manifesta: van der Leeuw toma esse termo da religião dos povos melanésios, em cuja língua Potência se diz mana. Entretanto, nas religiões históricas também encontramos a onipotência entre os atributos do que se chamará Deus (o Zeus dos gregos, que significa luz, como demonstra o termo latino dies, isto é, dia e Deus) encontramos a onipotência. Trata-se da Potência de algo que se conhece e não se conhece, que está presente e nós e nos supera: esta experiência atravessa toda a humanidade. Como já dissemos, a diversidade na determinação da Potência caracteriza a diversidade de modalidades segundo as quais a relação com a Potência é entendida. Além disso, as várias configurações do divino derivam do modo com o qual essa relação é vivida.
A distinção que proponho entre sagrado e religioso se baseia exatamente nessa diversidade. Nas religiões arcaicas, tende-se a identificar a Potência com “coisas”, com “fatos”, e com “acontecimentos” que mostram em si mesmos a Potência; as religiões históricas tendem, ao contrário, a separar a Potência dando a ela uma conotação de caráter transcendente. Por que isso acontece? E mesmo que os seres humanos sejam sempre os mesmos, em que reside essa diversidade? É aqui que podemos introduzir a distinção/correlação entre hylética e noética. Esses termos são usados pelo fenomenólogo Edmund Husserl para indicar as características das nossas experiências vividas, Erlebnisse, isto é, nossas vivências. Algumas delas são constituídas por conteúdos de sensações: os dados das cores, dos sons, do tato e de outras semelhantes. Igualmente, compõem-se pelas impressões sensoriais do prazer, da dor e das cócegas, e pelos momentos sensoriais da esfera dos impulsos. Tudo isso é indicado pelo termo hylética, derivado do grego, cujo significado é “matéria”. Aquilo que transforma os estes “materiais”, como os acima exemplificados, em atos vividos intencionais é o momento consciencial, expresso pelo termo “noesi”, que indica “captar o sentido” por meio de um instrumento intelectual. Isso diz respeito a todos os seres humanos, mas em algumas culturas, sobretudo nas culturas arcaicas, o momento hylético é fortemente presente: sons, cores e visões têm uma função atrativa e se tingem de afetividade e de significados, estes últimos remetem ao componente noético, sempre presente, ainda que sem uma função primária definida, como acontece, ao contrário, nas culturas que podemos definir como “complexas”, dentre as quais estão, principalmente, os ocidentais. Isso não significa que o momento noético não seja ativo, antes, este é necessário para reconhecer a crença na existência daquilo que se desvela como sagrado.
A Potência, desse modo, é individuada em uma árvore solitária na savana, ou em um alto monte, como diziam os samaritanos, os quais acreditavam que Deus habitava sobre o monte Gerizim, o qual atraía pela sua grandiosidade, ou então os gregos, para os quais os deuses moravam sobre o Monte Olimpo, sempre coberto de nuvens. Isso acontece porque o ser humano tem necessidade de tornar visível a Potência, de poder contemplá-la, ainda que saiba que a árvore não é deus, mas é o seu espírito objetivado.
Edith Stein defende nos diz que as coisas têm um sentido, porque nele está presente o Espírito de Deus, que dá forma a elas. Nas religiões históricas teoriza-se, no entanto, a distinção entre a presença de Deus “nas coisas” e a transcendência de Deus, cuja presença não se resume às coisas. Essa distinção não é clara nas religiões arcaicas e nas tradicionais, estas últimas presentes ainda em nossos dias, por exemplo entre os povos amazônicos, na África e também na Austrália. Portanto, podemos dizer que o aspecto noético caracteriza majoritariamente as religiões históricas, como o Judaísmo, o Cristianismo, o Islã, o Hinduísmo e o Budismo, citando as mais conhecidas. Essas religiões, no entanto, mantêm ligações com a dimensão hylética, não somente nas várias formas de ritos, mas também ao designar um “lugar” a Deus ou aos deuses que derivam daquilo que é Supremo. Quando a samaritana pergunta a Jesus se Deus se adora no templo ou sobre o monte, no fundo, indica lugares. A resposta de Jesus, reportada pelo Evangelho de João, é completamente “noética“: Deus se adora em espírito e verdade, não em um lugar, não é necessário um lugar para adorá-lo.
A questão da Eucaristia
Em relação à questão da Eucaristia, quem tem razão? João ou Mateus? O pão e o vinho são necessários, ou basta seguir Jesus para ter a fome saciada? Basta a sua palavra? A questão não pode ser colocada nesses termos, com se se tratasse de uma contraposição. Na verdade, as duas versões são válidas. No Evangelho de Mateus, Jesus utilizou coisas feitas pelos seres humanos, como o pão e o vinho, os quais servem sobreviver e que são frutos da capacidade humana de transformar a natureza. Por isso, quando se agradece a Deus por tê-las recebido, o ato motivado pelo fato de que Ele nos criou com uma inteligência que nos consente de sobreviver, sendo que a sobrevivência é importante do ponto de vista físico e psíquico e diz respeito à dimensão hylética do ser humano. Este, porém, tem necessidade também de “compreender” (que é o aspecto noético) a importância daquelas duas coisas (pão e vinho) e de reconhecer que são devidas a Deus. Até aqui chega o Judaísmo, para o qual a identificação de Deus com duas substâncias físicas era inconcebível, sobretudo a ação de beber o beber o vinho, “sangue” de Jesus. Sabemos, de fato, que os judeus não podem ingerir carnes que contenham o sangue do animal, pois comer o sangue é comer a vida. Esse é um aspecto fundamental do alimento kosher. Podemos notar que a identificação do sangue com a vida revela a importância do momento hylético: o sangue que se vê escorrer para fora do corpo quando o ser humano morre e que “impressiona”, talvez amedronte, indica a morte, por isso o sangue é vida. Esse é um pensamento presente em todas as culturas arcaicas.
Jesus afirma que está “presente” naquelas duas “coisas” ele está “presente” quando se faz uma particular oferta ao Pai, como a realizada por ele durante a última ceia. Isso garante uma presença real e contínua também no nível hylético, mas o reconhecimento da presença é noético. Dessa forma, ambos os momentos estão compreendidos no sacramento da Eucaristia, de modo que se não houvesse o momento noético, o hylético seria insuficiente.
Assim sendo, o ser humano corpóreo, psíquico e espiritual encontra na Eucaristia o divino em todos esses níveis, correspondentes à razão profunda pela qual a segunda Pessoa da Santíssima Trindade se encarnou para ser conosco, o Emanuel, Deus conosco. Há ainda, porém, uma “potência do espírito”, pois, se não se reconhece em Jesus a sua divindade, o pão e o vinho perdem seu valor. O Evangelho de João é importante porque Deus está presente no pão e no vinho – e se trata de presença real, não simbólica – , mas não “vinculado” a eles; está presente em “espírito e verdade”, mesmo sem o pão e o vinho. A comparação que João propõe entre o maná, pão dado por Moisés aos judeus em fuga do Egito, e o pão do céu, o verdadeiro que dá vida ao mundo, isto é, o próprio Jesus, mostra que somente este é capaz de dar a salvação. Além disso, indica que, se o pão não for transfigurado pela presença de Deus, não serve, e que, se não se crê nessa presença, o vinho tampouco tem serventia. Por isso diz: “Eu sou o pão da vida; quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim não terá mais sede” (Jo 6, 35). O “vir” a Ele e o “crer” Nele são motivos espirituais e são aqueles que fazem compreender que na Eucaristia Deus está presente, por isso é possível a comunhão espiritual, como é oficialmente admitido pela Igreja Católica. O Papa Francisco, durante a suspensão das missas com a presença dos fiéis nas igrejas, celebrava a sua missa privada em Santa Marta. No momento da comunhão recitava a oração com a qual se invocava a comunhão espiritual para os fiéis que estavam impedidos de receber a hóstia consagrada.
Para voltar à situação atual
O dilema descrito não é mais colocado na Itália, onde as igrejas católicas, assim como as demais, já foram abertas ao público. No entanto, essa tensão pode ser reproposta em outros contextos e, em todo caso, está relacionada a uma questão fundamental: o valor dos sacramentos.
Procurei evidenciar a complexidade da Eucaristia, assim como a sua beleza, porque nela estão envolvidos todos os aspectos do ser humano, mas também a importância da dimensão espiritual. Em particulares situações de contingência histórica e social, se a prática dos sacramentos não for possível por motivos que restrinjam moralmente o ser humano, a força do Espírito pode triunfar, reconhecendo que Jesus é o pão descido do céu. Isso é lembrado pelo Papa Francisco, indicado pela Santa Edith Stein, e pode ser lido no Evangelho de João. É interessante que nessa imensa onda de clausura muitos tenham dado ouvidos ao anseio religioso presente no ser humano e frequentemente não ativado por causa das preocupações e distrações cotidianas. Com um tempo maior à disposição para meditar, muitos usaram os meios de comunicação, providenciais no sentido mais autêntico da palavra, para seguir as celebrações religiosas, meios estes que se mostraram providenciais no sentido mais autêntico da palavra, e muitos puderam receber a Eucaristia através da oração: aquela que se define como comunhão espiritual é tão eficaz quanto a feita com as partículas, porque indica que desejamos a presença de Jesus em nós, que Nele e que a Ele nos apegamos, como ensina Edith Stein.
Falei da situação italiana, mas como a pandemia atinge o mundo inteiro, onde os católicos estão presentes, a questão que afrontei não diz respeito somente a uma Igreja local, mas a todas as igrejas. É oportuno atentar para que os diversos governos não hajam com discriminação em relação a uma igreja em benefício de outra, sobretudo nos territórios em que existe uma pluralidade de denominações e de cultos. É também oportuno seguir as indicações que evitam o contágio, se foram emanadas. Todavia, mesmo nos casos em que não haja proibições, parece-me sábio e coerente com a mensagem de Jesus operar com discernimento e com prudência, considerando, como nos ensina o Papa Francisco, que a saúde na vida terrena é uma coisa importante, porque até que se tenha vida, pode-se operar sempre mais para alcançar a salvação eterna. A vida é uma oportunidade que deve ser bem aproveitada, e nós devemos ajudar os outros a aproveitá-la melhor. A nossa capacidade de operar, em todo caso, é muito limitada: não nos resta outra coisa senão repetir com Edith Stein as palavras de Jesus: “não a minha, mas a tua vontade seja feita!” (Lc 22, 42).
Referências
BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002.
CONFERENZA EPISCOPALE ITALIANA. DPCM, la posizione della CEI. Conferenza Episcopale Italiana, Roma, 26 apr. 2020. Disponibili in: https://www.chiesacattolica.it/dpcm-la-posizione-della-cei/. Accesso in: 30 nov. 2020.
STEIN, E. Dalla vita di una famiglia ebre e altriscritti autobiografia. Roma: Città Nuova, 2007, p. 77-448.
Notas
Autor notes
* Correspondência para/Correspondence to: A. ALES BELLO. E-mail: alesbello@tiscali.it.