Editorial
Recepção: 30 Março 2021
Aprovação: 30 Março 2021
Se estivéssemos escrevendo sobre o 11 de setembro dois anos atrás, estaríamos nos referindo a um evento catastrófico do começo do século XXI, de quase duas décadas atrás, a ponto de haver se tornado evento histórico relatado em manuais. Em contrapartida, em nosso agora – o ano de 2021 –, em tempos de pandemia de Coronavirus Disease 2019 (COVID-19), que já ceifou milhares e milhares de vidas aqui no Brasil e pelo mundo afora, falar do ataque às torres gêmeas é retomar um discurso do Apocalipse, de uma percepção de fim de mundo.
Talvez como nunca antes na história de nossa geração, nutrimos e compartilhamos hoje um sentimento de urgência, de que as relações que vivemos e experimentamos, ainda que chamadas de “normais”, são trágicas, e que qualquer equilíbrio é ilusório. O real pode ser revelado nas suas tensões profundas por meio dos símbolos apocalípticos. Na densidade de seus símbolos, os sofrimentos ganham narrativa. Na década de 90 (do “já distante” século XX), havia sinais ambíguos no ar. Por um lado, se convivíamos com indícios de uma tendência de desarmamentismo nuclear com a queda do muro de Berlim, por outro, a Guerra do Golfo, pela “libertação do Kuwait”, já nos dava indícios de outro grande conflito dormente, mas prestes a explodir. Essa tensão entre as potências ocidentais, liderada pelos Estados Unidos da América (EUA), e o mundo árabe não era nova.
O 11 de setembro de 2001 apenas revelou que os inimigos podiam desferir um duro golpe contra o centro do poder ocidental. E criou uma nova percepção dos conflitos político-culturais. Naquela data, pudemos assistir ao vivo em nossas TVs o impacto dos aviões contra as Torres Gêmeas do World Trade Center. Não tivemos a mediação, o retardo, de um breve tempo, o anúncio solene de algum locutor, após vinheta de plantão jornalístico. Não! Tudo ocorreu num pavoroso aqui e agora, concomitantemente, nos terminais de TV no globo inteiro, com milhões de testemunhas oculares, que interpretavam os eventos e reagiam a eles em tempo real, antes mesmo dos apresentadores de telejornais e outros programas de notícias.
Para Habermas (2004, p. 40), a novidade daquele “ato monstruoso” foi “a força simbólica dos alvos atingidos” – mas, também, a cobertura dada pela mídia, que fez um “acontecimento local” se transformar “em um acontecimento global, e toda a população do mundo, em testemunha entorpecida”. Também cabe, aqui, a perspicaz leitura de Vilém Flusser: no começo dos anos 1990 nos mostrava que já na Primeira Guerra do Golfo estava sendo travada uma batalha para as câmeras, para a produção de imagem (Flusser, 2015). Pós-história: o domínio da imagem total. Os fatos são produzidos para as lentes, para impressionar os espectadores. Os terroristas dos ataques de 11 de setembro deram o troco: produziram um grande show macabro, de épicas e trágicas consequências, transmitido ao vivo pelos meios de comunicação do mundo inteiro em tempo real.
Naquele 11 de setembro, nossos olhos viram, nossos corações palpitaram: o tempo era o agora. Um agora de revelação, de surpresa e horror. Não podemos exagerar a importância dessa concomitância dos atentados e do olhar dos milhões de expectadores. Vivemos naquele tempo real um tempo do Apocalipse. De revelação, mas, ao mesmo tempo, de mistério. “O telegrama dessa metonímia – um nome [11 de setembro], um número [11/9] – destaca o inqualificável, reconhecendo que não o reconhecemos ou sequer conhecemos, que ainda não sabemos como qualificar, que não sabemos do que estamos falando” (Derrida, 2004, p. 96).
Do início do século XXI ao nosso agora, a opinião de Jacques Derrida parece não ter sido superada. Ainda não sabemos do que estamos falando, mesmo depois de “uma torrente de imagens e descrições” haver transformado “aqueles atos de violência nos mais visíveis, mais globais e mais bem divulgados nos últimos cinquenta anos” (Ali, 2005, p. 9). Imagens e descrições de um passado não muito distante às quais, em nosso agora, somam-se as necroimagens da Covid-19.
A citação acima de Tariq Ali foi retirada do livro cujo título resume a ópera: “Confronto de fundamentalismos” (seguido do subtítulo “Cruzadas, jihads e modernidade” – o original em inglês é de 2002, ou seja, publicado ainda no calor da hora pós-11 de setembro. Por óbvio, Tariq Ali está a se opor a Samuel Phillips Huntington e sua hipótese do “choque das civilizações”, que inicialmente foi apresentada no artigo “The clash of civilizations?”, de 1993; e, posteriormente, ampliada e publicada em forma de livro, em 1996, “The clash of civilizations and the remaking of world order”. Para Huntington (1993), as fontes culturais, não as de matrizes ideológicas ou econômicas, devem ser tomadas como causa principal dos conflitos na humanidade pós-Guerra Fria – “sendo que o confronto principal entre duas delas, o Islã e o Ocidente, recebe a parte do leão de sua atenção” (Said, 2001, online).
Voltando a Tariq Ali, como já está claro, assistimos em nosso agora, em tempos posteriores à queda do muro de Berlim, a um confronto de fundamentalismos, não de civilizações. Falando a psicanalistas brasileiros no ano de 2003, ele nos fazia relembrar que, na verdade, fundamentalismo é uma palavra de origem cristã-protestante, e não encontra correspondência no idioma árabe.
Dê uma olhada: os Estados Unidos, após o término da Guerra Fria, estava[m] em uma busca desesperada por um novo inimigo. Por quê? Porque, para preservar sua hegemonia, os grandes impérios precisam de inimigos; não é só com os americanos que isso acontece, foi assim com os britânicos antes deles, com os franceses, alemães e romanos
(Ali, 2003, p. 13).Além disso, interessa a todo império transformar seu interesse particular em algo universal. Mais do que “se você não está conosco, você está contra nós” (o que é meio óbvio), George Walker Busch transmitiu a seguinte mensagem depois do 11 de setembro: “Se você não está conosco, está com os terroristas” (Ali, 2003, p. 9). Em contrapartida, sem um adversário com contornos definidos, não parece estranho que fundamentalistas religiosos brasileiros, por exemplo, encontrem até os dias de hoje no comunismo, esquerdismo, globalismo, ecumenismo – e em outros “ismos”, quase todos ligados à pauta ou agenda de costumes –, uma espécie de inimigo para chamar de seu, e contra o qual lutar.
Também não há como não trazer à memória do trágico 11 de setembro o impactante artigo de Saramago (2001), “O fator Deus”, publicado imediatamente após os atentados a denunciar a utilização do nome de Deus como justificativa para violências, as mais cruéis. Os deuses, ele afirma, com o olhar carregado por um ateísmo angustiado, “[...] só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o ‘fator Deus’, esse, está presente na vida como se efetivamente fosse o dono e o senhor dela” (Saramago, 2001, online).
Evocando imagens que nos colocam diante de cenas de violência extrema, com requintes de crueldade, levanta uma crítica feroz às religiões que “nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana” (Saramago, 2001, online). No entanto, ele contrapõe, Deus está inocente. Se existir Deus, ele está inocente
[...] de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gêmeas de Nova York, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela ação dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da história
(Saramago, 2001, online).Esse que justifica o terror, ele afirma, é o “fator Deus”, que se deixou ver claramente no ataque às torres gêmeas em 11 de setembro, mas que também é “o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, não a outra...) a bênção divina” (Saramago, 2001, online).
Por tudo isso, neste dossiê da revista Reflexão, perguntamo-nos pelas mudanças no campo religioso 20 anos depois do 11 de setembro. Como passamos a perceber os conflitos políticos a partir de esquemas dualistas da imaginação apocalíptica após a experiência da visão concomitante da catástrofe? A experiência de testemunhar uma “praga do final dos tempos”, ao vivo, nos tornou mais vigilantes, inquietos, insones? Esse olhar vigilante nos tornou mais sensíveis à presença sempre iminente do inimigo? Nossos padrões de identificação dos agressores de nossas estruturas sociais se tornaram mais rigorosos, intransigentes?
Formulamos as perguntas acima em primeira pessoa do plural porque sujeitos religiosos de nossa cultura, no sul do mundo, também se identificaram com o pavor que tomou os EUA. Muitos se entusiasmaram com a vingança estadunidense contra Saddan Hussein e o Iraque. A luta cristã contra o eixo do mal foi motivo de orações e apoios religiosos também do lado de cá. Coisa de gente extremista, de ultrarradicais? O negacionismo, a beligerância e a intolerância religiosa brasileira contemporânea não permitem essa classificação restrita. Talvez novas formas de fundamentalismo tenham se desenvolvido e sedimentado nas práticas e discursos de amplos grupos religiosos da sociedade e além. Tivemos uma experiência colonizada do Apocalipse, sentimos o pavor do outro e a vingança que não era nossa? Transferimos essa urgência para dentro de nossa sociedade e passamos a perscrutar os inimigos potenciais ao nosso lado? Pudemos, por outro lado, constatar alguns sinais de esperança no campo da ética e da espiritualidade? Está aberto o debate!
Referências
Ali, T. Confronto de fundamentalismos: cruzadas, jihads e modernidade. 2. ed. Rio de Janeiro, 2005.
Ali, T. Fundamentalismo e política na atualidade. In: Estados Gerais da Psicanálise: II Encontro Mundial, 2., 2003, Rio de Janeiro. Anais eletrônicos [...]. Rio de Janeiro: Estados Gerais da Psicanálise, 2003. Disponível em: http://egp.dreamhosters.com/encontros/mundial_rj/download/conf_TAli_port.pdf. Acesso em: 23 mar. 2021.
Derrida, J. Auto-imunidade: suicídios reais e simbólicos: um diálogo com Jacques Derrida. In: Borradori, G. Filosofia em tempo de terror: diálogos com Jürgen Habermas e Jacques Derrida. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. p. 95-145.
Flusser, V. Entrevista Flusser Budapest. [entrevista cedida a] Miklós Peternák. [S. l.: s. n.], [2015?]. 1 vídeo (21min 4seg). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=SPwAHxzuznU&list=PLYitNCB1Uv1u6qqlZ5ASlyWh_0ct4t_fG&index=3. Acesso em: 23 set. 2021.
Habermas, J. Fundamentalismo e terror: um diálogo com Jürgen Habermas. In: Borradori, G. Filosofia em tempo de terror: diálogos com Jürgen Habermas e Jacques Derrida. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. p. 37-55.
Huntington, S. P. The clash of civilizations? Foreign Affairs, v. 73, n. 3, p. 22-49, 1993. Alailable from: https://www.foreignaffairs.com/articles/united-states/1993-06-01/clash-civilizations. Cited: Mar. 22, 2021.
Said, E. O choque de ignorâncias. Folha de S. Paulo, São Paulo, 17 out. 2001. Caderno Mundo. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft1710200128.htm. Acesso em: 22 mar. 2021.
Saramago, J. O fator Deus. Folha de S. Paulo, São Paulo, 19 set. 2001. Caderno Especial. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u29519.shtml. Acesso em: 22 mar. 2021.
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