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Padres conservadores em armas: o discurso público da guerra cultural entre católicos
Conservative priests take up arms: The public discourse of cultural war among catholics
Revista Reflexão, vol. 43, núm. 2, pp. 289-309, 2018
Pontifícia Universiade Católica de Campinas

Artigos: Dossiê


Recepção: 25 Agosto 2018

Revised document received: 13 Outubro 2018

Aprovação: 23 Outubro 2018

DOI: https://doi.org/10.24220/2447-6803v43n2a4336

Resumo: Neste texto se tece considerações sobre quatro discursos públicos do padre Paulo Ricardo, liderança eclesial que tem se destacado nas mídias públicas e católicas. Ponta de lança de um catolicismo conservador que se espraia pelos espaços públicos com traços de reacionarismo, seus discursos alcançaram grande repercussão devido à intensa atividade lobista desse sacerdote junto a parlamentares evangélicos e católicos no Congresso Nacional. Padre Paulo Ricardo, ligado a grupos tradicionalistas e carismáticos, representa a face pública de um segmento considerável de católicos incomodados com as profundas transformações sociais e religiosas contemporâneas e com a emergência dos direitos de minorias, como a da população de lésbicas, gays, bixessuais, transxesuais e queer. Com o auxílio de metodologias qualitativas, analisa-se as falas do padre Paulo Ricardo em quatro vídeos publicados no YouTube. Defende-se a hipótese que esta discursividade traduz de forma clara as linhas mestras de uma “guerra cultural” encetada por grupos católicos ultraconservadores no espaço público contemporâneo.

Palavras-chave: Guerra cultural, Padre Paulo Ricardo, Tradicionalismo católico.

Abstract: In this text we analyze four public speeches by Father Paulo Ricardo, an ecclesial leader that has stood out in public and catholic media. Spearhead of a conservative catholicism with reactionary traits that is on the growth in public spaces, Father Paulo Ricardo’s intense lobbying next to evangelical and Catholic congressmen increased the repercussion of these discourses. Linked to traditionalist and charismatic groups, he represents a considerable segment of Catholics troubled by deep social and religious transformations and the emergence of rights of minorities such as the lesbian, gays, bisexuals, transgender and queer population. With the help of qualitative methodologies, we analyze the speeches recorded in four YouTube videos. We contend that this discursiveness clearly translates the main lines of a contemporary “cultural war” initiated by ultraconservative Catholic groups in the public space.

Keywords: Cultural war, Catholic traditionalism, Father Paulo Ricardo.

Introdução

O presente artigo investigará a retórica de padres conservadores, em especial a do padre Paulo Ricardo, a partir de quatro discursos públicos que se encontram em redes sociais. A retórica reacionária, de moralismo triunfalista e atuação política desses discursos é vista dentro de uma longa cadeia de ação e narrativa da direita católica brasileira, mas, ao mesmo tempo ilustra a emergência de um novo modo de ser conservador em tempos contemporâneos.

Como se apresenta a narrativa discursiva de setores reacionários-conservadores do catolicismo contemporâneo frente à política e a cultura – a partir de da questão do marxismo, da aliança pragmática entre católicos-evangélicos, da ideologia de gênero e da família –, constitui-se na pergunta-guia deste texto que terá, como metodologia, a remissão bibliográfica e a exposição comentada de quatro vídeos contendo os discursos de uma expressiva liderança sacerdotal conservadora.

Para realizar o intento, o texto divide-se em três momentos: o primeiro apresenta breves referências ao catolicismo de cunho conservador e suas ações; o segundo aborda a atuação política da Igreja, dentro de um amplo e sucinto panorama, e um terceiro, que começa com a categoria de “guerra cultural”, entendida como a nova semântica do catolicismo ultraconservador, estende-se com a apresentação curta do perfil biográfico e da atuação de padre Paulo Ricardo e finaliza-se com a apresentação comentada dos quatro discursos desse sacerdote-referência.

O artigo considera que o conjunto narrativo das falas sacerdotais fornece um excelente horizonte hermenêutico para se pensar o conservadorismo-reacionário redivivo que, de suas históricas e antigas raízes no catolicismo, reemerge e ganha a esfera pública, via redes sociais e atuação política, agora embebido em uma retórica de enfrentamento, conflito e combate ao “mal”, a “imoralidade”, ao “pecado” imiscuídos no corpo da sociedade brasileira.

Os termos adotados e utilizados pelo clérigo católico em suas falas, que serão aqui compreendidas a partir de uma exposição seriada, sinaliza pelo menos três inflexões no interior do catolicismo, a reemergência da política reacionarista como sinal forte de identidade, a aproximação entre setores carismáticos e ultraconservadores, a partir de uma base moralista (a idealização do passado hierárquico católico e da moral conservadora cristã) e o descolamento entre signos e significados historicamente datados, que passam a ser sinalizadores semânticos para uma nova identidade.

No entanto, há uma ambiguidade na reemergência midiática do discurso conservador-reacionário: por um lado sinaliza o rebrotar de raízes profundas inscritas na cultura católica brasileira, o anticomunismo e a moral familiar tradicional e, por outro, assume um aspecto de rebeldia romântico-conservadora. No decorrer desses confrontos, importa, para o sacordete e os grupos ultraconservadores, a forma e o efeito do que a profundidade, coerência e rigor analítico, teológico ou filosófico, dos enunciados discursivos.

E, no começo do tempo, era a ordem

Com o advento do Estado laico, por intermédio da primeira Carta Constitucional da República (1892), as altas esferas eclesiásticas viram a necessidade de empreender diversas estratégias para “recatolicizar” a sociedade e, por meio disso, atuar sobre as novas instituições republicanas, buscando influenciar decisões políticas e sociais por meio da formação de uma elite intelectual católica. Uma das balizas institucionais e simbólicas, que marcou o início da reação católica frente aos desafios da nova configuração política e cultural brasileira foi a promulgação, em 1916, da Carta Pastoral de Dom Sebastião Leme, arcebispo de Olinda e Recife, tornou-se, mais tarde, arcebispo e cardeal do Rio de Janeiro pelas mãos do Papa Pio XI. A Carta Pastoral fazia parte de um momento que se delineava desde a origem da República Brasileira, quando a Igreja Católica reuniu suas forças para consolidar reformas internas, como o recrutamento de novos membros estrangeiros para as ordens religiosas, a criação de novas dioceses e a consolidação de um discurso e de uma ação mais homogêneos (LIMA, 1943).

A presença dos segmentos tradicionalistas e conservadores católicos na vida pública brasileira é constante. Os primeiros são definidos neste texto como grupos que almejam uma restauração eclesial do status quo anterior ao Concílio Vaticano II e os segundos, embora aceitem as decisões conciliares, mantém posições conservadoras em termos morais e sociais, aproximando-se em linhas gerais dos tradicionalistas. Essas hostes católicas reemergiram com força e, em boa parte, seu retorno se deve às dinâmicas combinados do espaço público contemporâneo, múltiplo, transversal, das novas tecnologias de informação e das novas mídias, com um aumento da produção e do consumo de informações de forma amplamente descentralizada (multicast)2.

De toda forma, através da história republicana brasileira, muitos grupos e segmentos pretenderam – e ainda pretendem –, defender os valores tradicionais da Igreja, da nação e da família brasileiras contra supostas ameaças externas (comunismo, relativismo, marxismo cultural, Organizações Não Governamentais – ONG –, internacionais) e internas (liberalismo, teologia da libertação, comunidades eclesiais de base, entre outras).

Desde o Golpe Militar, que estabeleceu a República em 1889, setores da Igreja Católica permaneceram em uma relação de aproximação e distanciamento, apoio e conflito com os novos poderes e personagens republicanos. Não foram muitos os anos que separaram a laicização do casamento e dos cemitérios, por exemplo, da volta do Ensino Religioso, com o Decreto de 30 de abril de 1931 – Reforma Francisco Campos –, e o Artigo 153, da breve Constituição de 1934, durante o governo de Getúlio Vargas.

É preciso assinalar que essa participação católica no espaço público moderno que então principiou a se estabelecer no Brasil, sofreu a influência de dinâmicas internas à instituição eclesiástica, que se via obrigada a disciplinar seus grupos e religiosidades (catolicismo popular, ação integralista, entre outros), a enfrentar novos atores no nascente “campo religioso brasileiro” (kardecistas, protestantes de missão e, mais tarde, os pentecostais e neopentecostais) e as mutações interiores, como o Concílio Vaticano II, que introduziu racionalidade moderna no ritual e na mentalidade católicas, acelerando sensações e percepeções de ruptura, por parte de alguns grupos tradicionalistas e conservadores.

A forte presença de grupos católicos fizeram perdurar a atuação político-religiosa conservadora em um continuum de atuação pública, desde o Centro Dom Vital, sua revista “A Ordem”, seu fundador, Jackson de Figueiredo e a intelectualidade católica, nos anos 1920-1930, à Tradição, Família Propriedade (TFP) nos anos 1960-1980, expandindo-se pelo Brasil desde São Paulo, sob o comando de Plinio Corrêa de Oliveira e, enfim, aos atuais grupos conservadores em sua multiplicidade (MOURA, 1978; ANTOINE, 1980; CALDEIRA, 2014, 2015). Nesse sentido, localizo os discursos públicos do padre Paulo Ricardo, dentro de uma tradição de engajamento reacionária-católica. O Centro Do Vital de 1922 e a TFP de 1960 construíram a retórica simultânea, por um lado, combate aos “males do mundo moderno”, que nasceram, na perspectiva conservadora, do liberalismo, do comunismo e do protestantismo; por outro, a apologia da fé católica, ou uma configuração específica da mesma, a que celebra a hierarquia, a moral e os bons costumes, em sentido de repressão e contenção do corpo, do sexo e dos prazeres e a que se dedica a combater os “males” modernos (ZANOTTO, 2014).

Desde as primeiras reações conservadoras, a Igreja angariou para seus quadros pessoas importantes, figuras do laicato pertencentes à classe média e à elite brasileira (ZANOTTO, 2014; CALDEIRA, 2015). Sob o controle ou influência da hierarquia eclesiástica, surgiram movimentos leigos. E desde então, não faltaram mobilizações e marchas com presença massiva de gente, em geral, as classes médias, mas também classes sociais menos favorecidas.

Há nesse movimento prolongado de ocupação do espaço público e resistência à modernidade, muita semântica de combate, nacionalidade, ordem e valor da tradição (idealizada e romantizada): em 1931, a inauguração da estátua do Cristo Redentor no Corcovado, Rio de Janeiro, sob as duplas bênçãos, a religiosa e a laica-estatal, de Dom Sebastião Leme e Getúlio Vargas, presidente do Brasil por um golpe militar-civil, ou como se convencionou, Revolução de 1930; em março de 1964, a marcha “Com Deus, pela liberdade”, que precedeu o golpe civil-militar em São Paulo, saindo da Catedral da Sé, e, por fim, desde 2010 e 2014, em especial durante as eleições presidenciais, a muitas manifestações pelas mídias e, em 2015, além dos discursos conservadores, mobilizaram-se marchas nas ruas capitais brasileiras em favor do impeachment de Dilma Rousseff, então presidente da República.

Os exemplos dados não esgotam a maquinaria conservadora em sua operação. Há muito mais em termos de grupos com forte atuação, inclusive no espaço público (Opus Dei e os Arautos do Evangelho) e de ações nos espaços midiáticos e sociais. Em todos os movimentos católico-conservadores no espaço público, houve a presença massiva de gente e uma grande mobilização de mídias (internas e externas à Igreja), nas quais foram, e são veiculados discursos restauradores de uma ordem que se supunha em perigo de dissolução. Analistas, como Quadros (2015), propõem a existem de um conservadorismo mestiço, para mostrar as mudanças entre ordem conservadora e cultura brasileira.

A Igreja Católica que adentrou o século XX caracterizou-se, principalmente, por forte recentralização. Esse processo ocorreu durante todo o século XIX, sendo possível defini-lo a partir de diversos sinais: luta pela manutenção do poder temporal, tentativa de barrar o influxo de ideias modernas dentro e fora da instituição, pressão sobre legisladores e políticos, entre outros. De fato, com a ruptura do Regime de Padroado, as movimentações desses grupos intensificaram-se, já que a unidade simbólica e social entre nação, governo e Igreja Católica se desfez.

O caminho seguido deveria ser a organização e unificação de grupos de pressão, a fim de exigir do governo republicano posições favoráveis. A grande meta e o dispendioso esforço de D. Leme e do episcopado brasileiro como um todo deveria ser o de penetrar nas principais instituições sociais, a fim de imbuí-las do espírito católico. Nota-se, na empreitada, que a estratégia da Igreja Católica visava, em primeiro lugar, as elites culturais e sociais; na visão eclesiástica, era, por exemplo, “estabelecendo uma rede importante de colégios em todo o país que a Igreja conta em cristianizar as elites, para que estas por sua vez ‘cristianizem’ o povo, o Estado, a Legislação” (BEOZZO, 1984, p.280). Esse período é chamado de “restauração católica”, expressão utilizada pelos bispos brasileiros, em referência ao lema do pontificado de Pio XI: “Restaurar todas as coisas em Cristo” (AZZI, 1994). Alguns gestos exemplificam o período, como a instituição pelo Papa Pio XI da Festa de Cristo-Rei em 1925, a proclamação de Nossa Senhora Aparecida Conceição como padroeira oficial do Brasil em 1930.

O ponto principal da restauração era o esforço para que a fé católica voltasse a ser um dos elementos centrais da sociedade brasileira. O anseio conservador e tradicionalista católico é o de construir uma nação orientada por valores cristãos, idealizados e romantizados como puros e indefectíveis. O conservador ou tradicionalista religioso, para usar uma metáfora, é alguém que olha a história e a vida por um espelho retrovisor: à medida em que sociedade e cultural mudam, há afastamento de uma determinada ordem. Emerge a sensação de perda e degradação. Disso decorre a eleição e escolha de um momento anterior idílico, não raro submetido à uma visão romântica, uma retro-utopia se instaura.

Apesar das movimentações reativas, as estratégias de pressão e luta contra “adversários” internos e externos, não detiveram a curva descendente do catolicismo professado como religião, ainda que esse seja portador de enormes sincretismos (com religiões de matriz africana) e variedades internas (comunidades eclesiais de base, pastorais sociais, renovação carismática católica etc.) (CAMURÇA, 2012). De 90%, em 1910, o catolicismo como religião professada e identidade religiosa no Brasil caiu para algo em torno de 64%, em 2010, e segue em declínio3. Em contrapartida, a presença dos evangélicos, em especial os pentecostais e neopentecostais, está em curva ascendente, saindo de quase nada, em 1910, até 22%, em 2010. Ou seja, um século de muitas lutas religiosas e transformações culturais e sociais (TEIXEIRA; MENEZES, 2013).

A estratégia de enfrentamento e restauração exercida nos espaços políticos e públicos, nesse sentido, somada à aliança tática e pontual com outros grupos religiosos (evangélicos e kardecistas, por exemplo) em torno de temas como a campanha antiaborto e com as autoridades do Estado, caracterizam a posição do atual catolicismo romano conservador na sociedade brasileira.

Por outro lado, analistas como Quadros (2015), argumentam para um extenso enraizamento do conservadorismo, inclusive com matizes próprias, chamado de “conservadorismo mestiço”:

[...] procurou-se demonstrar que um conservadorismo existe e se difunde no Brasil não por meio do esforço de intelectuais, mas através das crenças morais e ideológicas que residem no homem comum, alheios a problemas filosóficos de fundo. Lançando mão de um leque psicológico socialmente lapidado, fatias expressivas do povo brasileiro dão ânimo a um conservadorismo, mas do jeito que lhes soa mais natural, mais familiar. Emergirá, assim, um conservadorismo mestiço, ‘moreno’, antropofágico, à medida que absorve elementos de conservadorismos oriundos de outras culturas, mas os digere e os transforma em algo naturalmente peculiar. [...]. Inconsciente ou não, a tendência conservadora não parece espelhar um grupúsculo (ou mesmo uma minoria) no seio da sociedade brasileira. Vislumbra-se um contingente significativo da população cujas posições ideológicas, ainda que pouco esquematizadas, tendem a estarem muito mais próximas dos conservadorismos do que dos liberalismos e dos socialismos

(QUADROS, 2015, p.110).

Sobre esse enraizamento, ocorre a atuação de grupos ultraconservadores, conservadores e tradicionalistas que não cessou de acontecer e, hoje, ocorre de diversas formas, sobretudo em mídias eletrônicas, embora as lideranças sacerdotais permaneçam importantes. Por isso, as lideranças tradicionalistas católicas contemporâneas têm sofisticado seu discurso, com o uso de novas categorias, como a de “guerra cultural”. É sobre esse aspecto específico que este artigo pretende refletir. Talvez seja melhor falar, nesse sentido, em conservadorismos, em estilos de ser conservador, com matizes que vão desde um reacionarismo radical um conservadorismo suave (QUADROS, 2015).

Um Deus de guerra e fogo: a semântica tradicionalista-conservadora

O conceito de “guerra cultural”, na verdade, foi cunhado no âmbito do embate entre perspectivas religiosas fundamentalistas e perspectivas culturais modernas e liberais nos Estados Unidos da América (EUA); mas pode-se entendê-lo de forma ampla como uma batalha semântica (HUNTER, 1991; HUNTER; WOLFE, 2006; CONTRERAS, 2010). Em outras palavras, trata-se de uma disputa moral e existencial pela linguagem enquanto modo de dizer e narrar fenômenos e eventos cruciais às relações entre sociedade, pessoas, grupos sociais e aparelhos governamentais e religiosos.

Dentre toda a diversidade de grupos e lideranças tradicionalistas católicos, antigos e contemporâneos, é possível identificar um eixo narrativo recorrente que agrupa duas ideias básicas, quais sejam: a defesa da família e a promoção dos valores tradicionais – ligados, principalmente, à boa moral e aos bons costumes cristãos. Partindo da análise das falas públicas, foi escolhida uma dessas lideranças, Padre Paulo Ricardo. Foram eleitos alguns de seus discursos, em especial seu depoimento concedido à Câmara dos Deputados, em 2013, antes das Jornadas de Junho, disponíveis em alguns canais de mídia (YouTube, Blog do padre Paulo Ricardo, dentre outros).

Como hipótese básica, argumenta-se que o discurso ultraconservador católico mudou no decorrer do tempo, desenvolvendo novas vocabulário e estratégias de restauração; porém, há limites relativos ao manejo dos vocábulos e das lutas semânticas contra as mudanças socioculturais vividas pela sociedade brasileira.

Os discursos desse sacerdote conservador alcançaram grande repercussão em muitos grupos católicos e evangélicos, especialmente em função de sua intensa atividade antiaborto, anticasamento gay e em defesa da família tradicional, tanto atuando em conjunto com parlamentares evangélicos e católicos no Congresso Nacional, quanto exercendo ações em mídias eletrônicas e impressas. O clérigo encontrou apoio na rede de comunicação da Comunidade Canção Nova, agremiação católico-carismática que possui grande estrutura social de mídia e educação e representa a re-emergência pública de um segmento considerável de católicos incomodados com as profundas transformações sociais e religiosas ocorridas, bem como com a emergência dos assim chamados direitos de minorias.

A discursividade bélica construiu um conservadorismo católico contemporâneo e fez síntese entre ideias antigas (valores “eternos” defendidos pela Igreja Católica), novas cargas semânticas (ênfase em vocabulários específicos) e performance midiático-espetacular (uso intensivo das mídias e procura da escandalização).

Os valores “eternos” estão ajuntados em torno de dois princípios, inegociáveis na visão tradicionalista-conservadora: uma verdade única como existência iniludível (Deus, Igreja, Revelação e Sagradas Escrituras) e a família heterossexual cristã como ordem natural (homem, mulher e filhos com papéis e funções fixadas). Na nova carga semântica do discurso católico, o vínculo entre esses dois princípios é profundo e ontológico; um sustenta o outro e um permite ao outro exercer domínio discursivo que agrega dos fatos, fenômenos, grupos e ações sociais muitas vezes heterogêneos e heteróclitos. Constrói-se uma teia de interpretação cerrada, pouco afeita à abertura e que embasa uma guerra semântica, ou seja, uma recusa de termos e palavras utilizadas por movimentos, como o feminista (gênero), e a defesa de outras (sexo).

Por certo, não é apenas a coincidência entre esses dois princípios que nos permite falar de uma nova carga semântica, e sim o raio de ação – isto é, a absorção e releitura, tanto de fatos histórico-filosóficos (determinadas formas do comunismo e marxismo, por exemplo), quanto de categorias analíticas (como guerra e hegemonia cultural). Na verdade, pode-se dizer que há uma absorção seletiva, seguida de uma reinterpretação catolicizada de ideias gramscianas4.

O discurso do padre, que apreende a noção de “jogos linguísticos”, imprime um significado peculiar ao uso de determinado vocabulário. Para o sacerdote católico, o uso de palavras esconde conspirações e projetos de dominação por meio do uso diretivo, dirigido e consciente de categorias linguísticas. A esse movimento, é dado o nome de “guerra cultural” contra a herança judaico-cristã. Em torno dela, as noções de verdade revelada e direito natural são manejadas, mediante diversas formas de combinação, mais ou menos explícitas. Mas quem encarnaria a nova “velha” missão de profeta que clama conversão dos homens e mulheres pelos desertos do Mundo Ocidental? Quem tomaria em armas para reestabelecer uma verdade divina assumindo o papel de Anjo da História?

Padre Paulo Ricardo como Arauto da Restauração

O Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior5 pertence ao clero da Arquidiocese de Cuiabá, Mato Grosso, embora tenha nascido em Recife (PE), em 1967. Em 1979, junto de sua família, partiu para Cuiabá. Durante um ano (1983-1984), permaneceu como estudante de intercâmbio, concluindo seu ensino médio em Michigan, EUA, onde manteve contato com livros e leituras de ambientes católicos conservadores norte-americanos (PAULO RICARDO, 2019; CHRISTO NIHIL PRAEPONERE, 2011).

Em 1985, ingressou no seminário e, em 1992, foi ordenado sacerdote. Tem formação em filosofia e teologia por uma faculdade católica, tendo defendido o mestrado em direito canônico pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, no ano de 1993. Logo, toda sua formação de graduação e mestrado se deu dentro de dois pontificados (João Paulo II e Bento XVI) extremamente ciosos em assinalar a relevância cultural do catolicismo e da Igreja no mundo contemporâneo e ocidental – sem abrir mão de certos princípios morais, aludidos na introdução.

O padre pernambucano exerceu funções ligadas ao âmbito pastoral-administrativo e de ensino em diversas faculdades e paróquias: Vigário Paroquial em Cuiabá, Reitor do Seminário Cristo, Secretário Geral do Sínodo Arquidiocesano de Cuiabá, Professor de Filosofia e Psicologia na Universidade Católica Dom Bosco, no Instituto Regional de Teologia e no Studium Eclesiástico Dom Aquino Corrêa – Campo Grande e Cuiabá. Por essas credenciais, percebe-se o quanto esse sacerdote está envolvido nas engrenagens e nos modos de existência do catolicismo e da Igreja Católica, ou, o quanto cultiva a imagem de ultracatólico, pois as referências e imagens desse curriculum povoam as redes sociais, falas e proposições.

Além dessas atividades, dedica-se, também, a escrever livros, tendo apresentado um programa semanal, chamado “Oitavo Dia”, pela Rede Canção Nova de Televisão e a atuar nas redes sociais, mantendo uma conta no Twitter, um perfil no Facebook, um blog e uma página eletrônica, com milhões de seguidores. Esses recursos são manejados e alimentados diária ou semanalmente por uma equipe – que assina as postagens de seu blog, por exemplo –, ou pelo próprio sacerdote. Em todo esse conjunto, há links para o serviço de assinaturas eletrônicos, que enviam automaticamente vídeos, postagens e propaganda para e-mails cadastrados. As páginas e os perfis contam, ainda, com a simpatia de milhares de internautas, a julgar pela quantidade de acessos, comentários e curtidas. Há uma conta no Youtube com mais de 517 mil inscritos e centenas de vídeos contendo palestras, pregações e missas feitas, assim como outros vídeos com temáticas relativas aos valores católicos tradicionais (PAULO RICARDO, 2010). Em seu portal eletrônico, o novo templário brasileiro desenvolveu uma plataforma conectada com as principais redes eletrônicas e oferta cursos (pagos), vídeos em geral (homilias, palestras, lives), artigos e crônicas, tudo isso mantido por um instituto educacional sediado em Cuiabá (PAULO RICARDO, 2010; CHRISTO NIHIL PRAEPONERE, 2011).

O conjunto dessa produção possui, segundo números contidas na própria página do YouTube, mais de 78 milhões de visualizações (PAULO RICARDO, 2010). O buscador de páginas do Google, quando digitada a expressão “Padre Paulo Ricardo”, levanta mais de 650 mil ocorrências, entre notícias, vídeos, comentários, blogs e outros tipos de produtos. Pela magnitude da atuação do sacerdote e de sua equipe, são necessárias algumas observações sobre essa arquitetura tradicionalista-conservadora.

Antes de tudo, é de se observar a constante atualização das postagens e vídeos, um procedimento essencial nas redes eletrônicas. Em segundo lugar, nota-se uma padronização da apresentação biográfica e imagética: há um texto padrão e imagens do padre vestido de batina preta, além de imagens da Praça de São Pedro e do interior da Basílica. Posteriormente, observa-se a presença de um lema escrito em latim em quase todos os vídeos da conta no Youtube, nas páginas eletrônicas (site e blog), na conta do Twitter e no perfil no Facebook: Christo Nihil Praeponere – “A nada dar mais valor do que a Cristo”. Inclusive, a equipe que ajuda o sacerdote a postar e atualizar o blog oficial é denominada de “Equipe Christo Nihil Praeponere”. Isso é chamado de “identidade visual”, uma estratégia de mercado ensinada em faculdades e escolas de propaganda e marketing. Em quarto lugar, salta aos olhos a multiplicação de perfis criados por “fiéis-fãs” no Facebook e Twitter. Quinto: muitos vídeos postados no Youtube vetam a inserção de comentários, dificultando, assim, a propagação de polêmicas e a visibilização de comentários negativos. Um sexto ponto: cada vídeo possui um breve comentário explicativo, de maneira a resumir a ideia central da fala ou da conferência. Sétimo: a maior parte do arcabouço dessa rede, segundo o que se pôde verificar, é recente, tendo entre quatro e dois anos de existência, embora a atuação no YouTube, por exemplo, tenha se iniciado em abril de 2010 (PAULO RICARDO, 2010). Por último, todas as postagens e atividades são autorreferentes, ou seja, as peças dessa imensa rede eletrônica fazem referências umas às outras, com uma enorme e diversificada gama crescente de vídeos, textos, livros, postagens, reportagens e entrevistas.

Toda a intensa atividade do Padre Paulo Ricardo como professor, lobista junto a deputados católicos e evangélicos, pregador e palestrante está espelhada e espalhada nas redes sociais eletrônicas. Essa presença na Internet, catapultada pela oportunidade de participar de eventos de massa e apresentar um programa de TV na Comunidade Canção Nova6, é revertida, por sua vez, em apoio de grupos conservadores e na potencial visibilidade junto a campanhas políticas no Congresso Nacional (MACHADO, 2018).

A luta do padre pela preeminência dos dois princípios, o da verdade religiosa (a verdadeira igreja, a verdade revelada) e a verdade natural (a família heterossexual), usando missas, palestras e mídias eletrônicas, angariou tanto apoio quanto resistência – ambos entusiasma-dos –, dentro e fora da Igreja Católica. Por exemplo, o Diário de Cuiabá, em sua versão online, publicou uma reportagem que ilustra as resistências à atuação do padre Paulo Ricardo, a começar pelo título: “Padres pedem a bispo que Padre Paulo se cale. Em carta endereçada a arcebispo, 27 padres pedem que Padre Paulo Ricardo Azevedo seja proibido de pregar” (MORAES JR, 2012). O texto diz, porém, que houve apoio maciço, por parte de fiéis católicos, ao padre.

Por outro lado, pode-se destacar sua constante atuação no Congresso junto a políticos confessadamente católicos e evangélicos. Nas alvoroçadas mídias tradicionalistas e conservadoras, é possível ver essas mobilizações com uma linguagem apocalítica:

No dia 30 de agosto de 2012, Padre Paulo Ricardo esteve no Senado Federal, juntamente com o Padre Berardo Graz, o Padre Luís Carlos Lodi, o Sr. Paulo Fernando, Prof. Felipe Nery e Profª Janaína, a fim de discutir as propostas de mudança para o novo Código Penal. Além de participar da seção pública e falar ao Senador Pedro Taques (PDT-MT), Padre Paulo Ricardo e os demais reuniram-se também com o Senador Gim Argello, líder do PTB e o Senador Renan Calheiros, líder do PMDB, entre outros senadores. A eles, expuseram a impossibilidade de uma apreciação digna e de uma votação condizente com a vontade da população brasileira das propostas para o novo Código Penal no prazo exíguo de trinta dias, além de outros pontos específicos que causam estranheza e rejeição, como a descriminalização do aborto, a liberação da maconha, o consentimento sexual a partir dos 12 anos de idade (que liberaria a pedofilia), entre outros. O encontro foi articulado pela chamada Bancada Parlamentar Evangélica e conseguiu ao menos um ponto positivo: a prorrogação do prazo para análise das propostas em mais trinta dias. Além de participar da seção pública e falar ao Senador Pedro Taques (PDT-MT), Padre Paulo Ricardo e os demais reuniram-se também com o Senador Gim Argello, líder do PTB e o Senador Renan Calheiros, líder do PMDB, entre outros senadores

(BÍBLIA..., 2012, online, grifo meu).

Todas as controvérsias e mobilizações, amplamente divulgadas pela “mídia religiosa” (jornais e sites religiosos, sobretudo), angariam ao padre exposição, prestígio e propaganda; junto a isso, possibilitam convites para visitas, pregações e celebrações de missa em paróquias e lugares pelo Brasil, assim como entrevistas a blogs e jornais locais e regionais, feitas, obviamente, com anuência do bispo diocesano, Dom Milton Santos. Isso alimenta a própria rede midiática montada pelo sacerdote católico, bem como outras redes midiáticas religiosas de cunho tradicionalista-conservador (blogs e páginas eletrônicas de católicos e evangélicos).

Enfim, os apoios recebidos de muitos fiéis católicos e evangélicos e a desenvoltura pessoal e discursiva do sacerdote católico retroalimentam seus perfis e páginas eletrônicas, em um movimento contínuo. Contudo, isso é uma característica da relação entre o mundo da mídia e seus personagens que outros atores religiosos, evangélicos e católicos, souberam explorar em benefício de seus valores e de suas campanhas culturais (CARRANZA, 2011). Padres ultraconservadores, como Paulo Ricardo, instrumentalizam esses canais de comunicação e mídia, representando uma combinação entre leituras restritivas da tradição católica e modernidade técnica.

A guerra cultural contra as ameaças à família

Tendo em vista que a produção escrita e audiovisual do sacerdote Paulo Ricardo é enorme, serão enfatizadas quatro falas divulgadas em meio eletrônico. A totalidade dos vídeos encontra-se no YouTube, referindo-se, em sua maioria, a aulas, palestras e depoimentos dados em seu programa de TV, na Câmara dos Deputados e em outros locais públicos.

Será analisado, sobretudo, o depoimento público dado à Comissão de Direitos Humanos e Minorias, presidida pelo pastor-deputado Marco Feliciano, em meados de 2013. O vídeo sintetiza a arquitetura semântica do discurso tradicionalista-conservador e suas colunas “ideológicas” – verdade revelada e direito natural. O primeiro vídeo está referido como “A Família no centro da Política” (A FAMÍLIA..., 2013), em que se encontram ideias em torno das quais centenas de pronunciamentos giram. Os outros vídeos que analisarei serão, “PLC 122: o projeto de destruição da família” (PLC 122..., 2013), “A aliança política entre católicos e evangélicos” (ALIANÇA..., 2013) e “Marxismo Cultural e Revolução Cultural: Visão Histórica”, fundamento “teórico” do discurso que abre uma série de conferências e aulas (MARXISMO..., 2012).

O tema central da campanha do padre é a família e o título do primeiro vídeo sugere que o eixo de luta política dos grupos tradicionalistas-conservadores é o modelo familiar heterossexual voltado para a finalidade reprodutiva – no caso do catolicismo (A FAMÍLIA..., 2013). O discurso foi proferido em sessão pública na Câmara dos Deputados quando o Pastor-Deputado Marco Feliciano era o presidente da Comissão de Direitos Humanos. A fala é paradigmática dos novos grupos ultraconservadores.

Na mesa da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, o padre trouxe uma imagem de Maria (“Senhora Aparecida”, Padroeira do Brasil) e, ao fundo, havia a bandeira brasileira – quiçá esse seja o eco da antiga ação eclesiástica católica de marcar no espaço público a equivalência entre catolicismo, cidadania e Estado republicano.

O discurso de quase trinta minutos pode ser condensado em torno de algumas ideias centrais, entre as quais: o ataque geral e supostamente orquestrado, no mundo ocidental, à família – no caso, ao modelo judaico-cristão. Sob a ótica do clérigo católico, há um poderoso ataque cultural e que pode ser identificado, inclusive, no cinema de Hollywood: as famílias não precisam ser como as tradicionais (A FAMÍLIA..., 2013). Haveria, a partir dessa perspectiva, uma estratégia internacional, financiada por ONG e Fundações Internacionais (a Fundação Ford é citada), para introduzir um novo conceito de gênero, que substituiria a palavra sexo no campo da cultura (cinema, livros, arte) e da legislação. O neocruzado afirma: “Nós, acho que isso todos conseguem notar, estamos presenciando na nossa sociedade, na sociedade ocidental como um todo, a sistemática destruição da família” (A FAMÍLIA..., 2013, 0:06 min).

Para o Sacerdote, há objetivos e agentes claros: “Meus senhores, eles são inteligentes, eles têm estratégia. Eles escolheram, por exemplo, um país como sendo um tubo de ensaio, um balão de ensaio que eles lançaram. Esse país é a Suécia” (A FAMÍLIA..., 2013, 14:29 min). Segundo o padre reacionário, é possível perceber essa trama em torno de algumns fios e trançados. Essa interpretação poderia ser chamada de uma hermenêutica religiosa da suspeita permanente, ou seja, uma construção discursiva que desloca, descontextualiza e desterritorializa fatos e referências históricas, filosóficas e teológicas, reinscrevendo-as em uma nova tessitura ficcional, defendida como uma verdade induvitável.

O resultado da reterritorialização e da recontextualização dessas referências é um discurso híbrido, nem teologia, nem filosofia, à maneira das construções narrativas ficcionais. A racionalidade e a lógica da construção são postas na finalidade do discurso: mobilizar forças sociais e agentes coletivos e individuais para uma ofensiva contra as alterações sociais (legislação, políticas públicas, entre outras), julgadas maléficas. Para os agentes desse discurso fundamentalista-reacionário, não há incoerências interpretativas, erros lógicos e falsos deslocamentos, o que uma análise filosófica e teológica faria saltar à vista. Aos olhos de clérigos como o Padre Paulo Ricardo, o próprio discurso é legível, verdadeiro e necessário e as críticas e resistências, operações de retardamento da missão ou influências diabólicas. Esse posicionamento torna o diálogo com os emissores e propagadores da hermenêutica religiosa da suspeita permanente um grande desafio de intercomunicação.

No depoimento que o sacerdote conservador deu a Comissão De Direitos Humanos, o elenco das balizas histórico-culturais não é linear e está atrelado ao desejo, ou à necessidade, de mostrar uma teleologia e uma linha articuladora e oculta de dominação ou hegemonia (A FAMÍLIA..., 2013). Todavia, há um paradoxo: não é mais uma linha oculta, porque o sacerdote dedica-se a desvelá-la, embora segundo ele, a maioria da população brasileira está desinformada, não sabe ou está alienada ou é mantida em prisões ideológicas. De forma resumida, estariam unidas, por essa linha, às “ideólogas” da perspectiva de gênero (Judith Butler, Simone de Beauvoir e outras), às Conferências do Cairo e de Pequim, à Organização das Nações Unidas (ONU) e ao livro “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, de Engels (A FAMÍLIA..., 2013). Esses planos atuariam juntos e seriam marcados por uma lógica de uma dominação universal e diabólica em essência.

Mas, essa forma de articular referências sociológicas e histórico-filosóficas é religiosa e gnóstica em sua raiz, atribuindo valores espirituais marcados pelo pessimismo aos símbolos e simbologias seculares e laicos. Um excesso de hermenêutica da conspiração se faz guia absoluto da leitura desses grupos conservadores e ultraconservadores católicos, com a conjugação de elementos heteróclitos e díspares entre si. A única linha a suturar a heterogeneidade dessa narrativa (uma mistura de verdades, mentiras e fantasias persecutórias), é a própria ideia de “conspiração internacional”, um vago fantasma que assombra, volta e meia, grupos sociais, religiosos ou não, que se sentem ameaçados concreta ou imaginariamente.

Nas entrelinhas do discurso, emerge uma forte autoconfiança na ação direta de uma militância cristã. Essa seria a atividade de combate ao mal e que deveria ser papel de todo cristão. Em outras palavras, o mundo jaz sob o Maligno, mas é possível colaborar com Deus no resgate da humanidade perdida e confusa. Paira aqui a noção de verdade inexpugnável que os fiéis religiosos detêm, desqualificando de antemão outras narrativas, tidas como falsas e tortuosas e que devem ser combatidas (A FAMÍLIA..., 2013).

Defendendo a ideia de sexo e papéis familiares tradicionais, como natureza e direito natural, o discurso eclesiástico feito na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, “denuncia” – termo utilizado dezenas de vezes –, o conceito de gênero como estratégica de educar (principalmente as crianças) para a construção de uma “sexualidade versátil”, escolhida ao bel-prazer dos indivíduos (A FAMÍLIA..., 2013).

Segundo o clérigo conservador, a estratégia teria começado com o marxismo, que via na família a origem das desigualdades sociais, o que demandaria uma necessária revolução marxista (A FAMÍLIA..., 2013). De acordo com essa leitura tradicional-conservadora católica do marxismo e de seu projeto de destruição da família tradicional, os papéis tradicionais de pai, mãe, esposo, esposa, pais e filhos deveriam ser abolidos porque são opressores, vindo a significar, no fundo, um conceito burguês.

A partir deste ponto, a emergência do marxismo no século XIX, o padre salta quase 100 anos de filosofia e história – com suas diversas perspectivas teóricas e processos empíricos –, e critica a abordagem de gênero das feministas e mulheres contemporâneas engajadas na luta pelos direitos de gênero: afinal, “[...] nós temos que parar com a ditadura do biologismo, diz uma das ideólogas de gênero [...]” (A FAMÍLIA..., 2013, 12:59 min). A última frase revela que o padre rejeita a crítica filosófica à noção de direito e natureza fundados na perspectiva biológica.

Segundo o sacerdote, as exemplificações do “projeto de dominação”, empreendido pelo marxismo cultural com ajuda da ONU e das ONG internacionais, construído desde os fins do século XIX, são dadas em abundância (A FAMÍLIA..., 2013). Usando como exemplo a Suécia e os socialistas, cita-se um casal de pedagogos, Myrdal, que advogava o caminho da igualdade de gênero a partir de uma educação que começasse logo nos primeiros anos da infância (A FAMÍLIA..., 2013).

No argumento tradicionalista-conservador do padre Paulo Ricardo, essa operação tinha como finalidade construir um novo padrão de gênero, uma sexualidade versátil, com a ideia de “montagem identitária” ao gosto e escolha das pessoas (A FAMÍLIA..., 2013). Daí outro salto no escuro dado pelo padre: no Brasil, há projetos de escola integral que podem ser a ponta de lança dessa dominação, caso não seja travada uma guerra, inclusive semântica, contra o uso de termos como gênero. Haveria inúmeros projetos de lei que introduzem a palavra gênero, o que pode afetar a própria política educacional (A FAMÍLIA..., 2013).

Ao fim do discurso, ele diz que essa batalha deve ser travada, inclusive, dentro da sociedade democrática e que as minorias devem ser respeitadas. Aparentemente ousado, diz que, dentro da democracia, se a sociedade brasileira quiser “destruir” a família tradicional, isso seria até aceitável; mas cobra “transparência” dos adversários, porque a maioria do povo brasileiro age de boa-fé e não sabe da “estratégia de dominação” em curso (A FAMÍLIA..., 2013).

O padre Paulo Ricardo (A FAMÍLIA..., 2013) diz que se o povo soubesse não permitiria essa destruição, velada, mas eficaz. Ele então finaliza o longo discurso dizendo:

[...] não estou aqui como padre, não estou aqui como pregador, não estou aqui como ministro da palavra, não estou aqui como católico, eu estou aqui como brasileiro, um brasileiro que estudou essas coisas para dizer a outros brasileiros: essas pessoas dedicaram suas vidas, suas energias, suas carreiras, suas famílias, tudo o que elas são para destruição da família [...]

(A FAMÍLIA..., 2013, 25min. 17seg).

No vídeo “A aliança política entre católicos e evangélicos”, com quase 11 minutos e 56 mil visualizações, o sacerdote propõe a aliança política entre católicos e evangélicos (ALIANÇA..., 2013). São reconhecidas as diferenças doutrinárias entre católicos e evangélicos, mas é feito um apelo por uma coalizão política sólida e forte em prol de um interesse maior: a luta a favor do patrimônio moral judaico-cristão e contra a hegemonia do marxismo cultural que se alastra por todo o Brasil, pela legislação e pelas escolas.

Afirma, no texto de apresentação do vídeo: “[...] não se pode tolerar que as nossas escolas se tornem fábricas de destruição do patrimônio moral judaico-cristão. Por isso, católicos e evangélicos devem deixar de lado suas diferenças para trabalhar juntos pelo bem comum e pelas nossas famílias, antes que seja tarde demais” (ALIANÇA..., 2013, online).

E, dizendo respeitar o processo democrático, reduz toda a ampla diversidade histórica e cultural dos diversos grupos de luta pelos direitos sociais de minorias à etiqueta de “celerados”, “bárbaros” de “língua bifurcada” (ALIANÇA..., 2013). Esses usariam a “compaixão cristã” e pretenderiam fazer com que a escola se torne fábricas de pessoas versáteis sexualmente, e finaliza dizendo rezar e pedir a Deus para que se saiba deixar de lado as diferenças antes que seja tarde demais (ALIANÇA..., 2013).

Todavia, a ideia de combate pela “verdade contra os erros” na sociedade e na cultura (parlamento, leis, partidos, legislações, políticas públicas) é o reconhecimento, pela via negativa, de que os valores “eternos” necessitam de defesa ferrenha e de todo um trabalho de hegemonia cultural para se reestabelecerem (ALIANÇA..., 2013). Assim, há um não-dito do discurso do clérigo conservador e de seus seguidores: ora, se são valores eternos e naturais, se são a vontade soberana de Deus, contra a qual nenhuma força natural ou sobrenatural pode se opor, qual a razão de um combate ou uma guerra cultural? É desse não-dito que brota a raiz gnóstica do discurso bélico.

A proposta de combate “santo” e a arquitetura do discurso contra-hegemônico são defendidas nos dois vídeos a seguir: “PLC 122 (Projeto de Lei): o projeto de destruição da família” (quase 55 minutos e com mais de 18 mil visualizações) e “Marxismo Cultural e Revolução Cultural: visão histórica” (59 minutos e com mais de 271 mil visualizações) (PLC: 122..., 2013; MARXISMO..., 2012).

O primeiro vídeo, postado em 22 de novembro de 2013, tem como cenário o programa que ele apresentava na TV Canção Nova, composto por uma biblioteca, uma imagem de Nossa Senhora de Fátima e São Miguel Arcanjo (PLC 122..., 2013). Com voz calma, ele tece o cenário de uma “dramática batalha”. Segundo ele, a redação original, contida no PLC:122 (Projeto de Lei) chamada “lei da mordaça gay”, mudou, mas a malícia da lei continuou, é grave, séria e faria parte de um plano em três etapas, sendo a primeira a mudança semântica com a introdução da palavra gênero na legislação; a segunda, a votação da LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação); e a terceira etapa, a implantação gradual da orientação da ONU (a ideia de igualdade de gênero, padrões para a educação sexual etc.) (PLC 122..., 2013).

O Senador Paulo Paim, relator do PLC, “pegou” a lei, na visão do padre Paulo Ricardo, e introduziu, dentro dos dispositivos que punem o racismo e o preconceito, as palavras gênero, igualdade e identidade de gênero, que teriam sido conceitos inventados na Conferência de Pequim (PLC 122..., 2013). A partir disso, o sacerdote faz uma longa digressão, em que são costuradas, dentro de uma trama oculta (para ele), a LDB, as escolas de tempo integral e a ideologia de gênero (PLC 122..., 2013). Por isso, afirma: não se quer que nossos filhos sejam educados para escolher o sexo que querem ter, pois a maioria dos brasileiros acredita que se nasce homem ou mulher (segundo o clérigo) (PLC 122..., 2013). Por fim, haveria um processo de cerceamento e censura, pois não se permitiria que essas “perversões” sejam faladas em público.

O segundo vídeo, uma longa aula dada para seminaristas e padres, é dedicado a demonstrar a base do marxismo cultural, uma estratégia de dominação (MARXISMO..., 2012). Para chegar a tal “denúncia”, o padre neocruzado parte de Karl Marx e Friedrich Engels, passando pelos conceitos de Antônio Gramsci e chegando, por fim, ao plano contemporâneo de “destruição” do patrimônio moral judaico-cristão. O marxismo teria originado duas correntes de revolução, a que defendia as armas e a que defendia a mudança a partir da impregnação cultural (MARXISMO..., 2012).

A sociedade injusta deve ser mudada por meio de um método revolucionário, pelo poder criativo do mal e da “perversão marxista”, segundo a retórica persecutório-paranoica do padre ultraconservador. (MARXISMO..., 2012, 12min. 54seg). Assim, “Marx é somente o secretário. Satanás na verdade é Hegel. Marx é somente o porta-voz. A força do criatifva do mal, a força criativa do negativo. Faça o mal, produza o mal, destrua, e disto virá algo bom”, e emenda, “[...] é esse o princípio hegeliano. [...] Desse conflito, desta luta de tese e de antítese, surgirá uma síntese superior” (MARXISMO..., 2012, 13min).

E continua:

Hegel vê que existe uma injustiça com o mal, com o negativo, que o negativo foi demonizado, foi exorcizado de nossas vidas e, na verdade, quando você exorciza e retira o negativo da vida das pessoas, o que voê está criando? Você está criando um imobilismo, uma falta de vitalidade. Então, Hegel traz para dentro da filosofia aquilo que já era enxergado, já era visto pela arte, pelo romance, pelos satanistas. Se vocês forem ler o Fausto de Goethe [...] numa das cenas iniciais, Mefistófeles, o demônio, aparece para Fausto e se identifica. Ele quer saber quem é você. O demônio, Satanás. E ele diz: ‘eu sou aquela força do mal que sempre produz vida’. [...] Hegel coloca isso na filosofia, na sua dialética. Marx leva isso à prática, a práxis. Marx passa da teoria hegeliana para a práxis, uma práxis política em que matar, destruir, hostilizar a civilização, trazer abaixo a ordem, irá produzir uma ordem superior

(MARXISMO..., 2012, 14min. 15seg).

Essa leitura conspiracionista contém graves erros filosófico-sociológicos, mescla considerações religiosas, políticas e expressa a reação defensiva de setores ultraconservadoras diante das novas configurações da cultura, da família e da sociedade.

O “cruzado católico” diz que essa revolução cultural governa a vida dos padres e bispos. Sobre as suas palestras, afirma: “Você pode usá-las para o bem, sabendo a maldade que você deve evitar; você pode usá-las também para o mal, sabendo que eu vou dar a você uma cartilha de como ser um bom marxista, um bom teólogo da libertação e como destruir a Igreja Católica” e completa: “Você será um homem livre, terrivelmente livre, dramaticamente livre, perigosamente livre” (MARXISMO..., 2012, 18min. 8seg). As brincadeiras irônicas nesse trecho são um efeito retórico e sofístico que visa suscitar o afeto, sensibilizando para sua causa ultraconservadora.

Sobre a prática de identificar o verdadeiro do falso na igreja, reparou:

Quando de repente uma pessoa diz eu amo os pobres, eu amo a justiça social, eu amo, é, tudo aquilo que é o evangelho, o Reino de Deus, Jesus, etc., e tal, tudo bem. Até agora ele disse o que ele ama. Isso não significa nada, porque isso pode ser mera propaganda. O que você tem que perguntar é o que é que esta pessoa está combatendo. Quando essa pessoa começa a combater tudo o que nós temos de sagrado, quando ela combate a liturgia que está no missal, quando ela é contra a disciplina que está no Código de Direito Canônico e quando ela destrói a doutrina que está no catecismo da Igreja Católica, você começa a ver que o gato se esconde atrás da cortina, mas sempre deixa o rabo de fora [...] Como pode ser uma pessoa tão boa, que ama as coisas de Jesus, mas quando na sua diocese ou na sua paróquia, fazem uma missa de Zumbi, trazendo a mãe de santo, para o altar, oferecendo pipoca charuto e pinga?

(MARXISMO..., 2012, 22min).

Criticam-se as missas da pastoral dos negros celebradas por sacerdotes que propõem uma hermenêutica aberta da experiência entre o catolicismo e as tradições afro-brasileiras. Com um ar ressentido, afirma que, quando chega um ‘padrezinho’ de batina preta celebrar uma missa de Pio V para um grupo pequeno, a pessoa cai em cima desse sacerdote como se ele tivesse cometendo um crime de lesa-majestade (MARXISMO..., 2012). Afirmou, no vídeo, não achar a celebração da missa de Pio V uma solução dos problemas eclesiais, mas se pergunta, dirigindo-se ao ouvinte, porque ela é criticada, e profanações, como a Missa de Zumbi, não são criticadas (MARXISMO..., 2012). Por fim, o clérigo ultraconservador propõe ensinar os ouvintes a serem bons marxistas, para rejeitar ou abraçar o marxismo (MARXISMO..., 2012, 25min. 46seg) Esses trechos revelam uma autoconfiança extremada, aliada a um pessimismo radical sobre a sociedade moderna e a um procedimento de remontagem de ideias e conceitos filosóficos, arrancados de seu leito original (e preenchidos com correlações dúbias e equivocadas) e postos a serviço de uma causa: a guerra contra os supostos destruidores da família e da sociedade cristãs (MARXISMO..., 2012).

O templário ultraconservador cita, então, um discurso de Bento XVI proferido na Alemanha que exaltou o encontro entre Jerusalém, Atenas e Roma, as três grandes colunas da civilização ocidental: a fé cristã, a filosofia grega e o direito romano (MARXISMO..., 2012).

O pessimismo é forte:

Existe um movimento revolucionário que quer trazer abaixo essas três colunas, aliás, está derrubando essas três colunas, ou seja, as três colunas já estão no chão, em frangalhos e nós, o que precisamos fazer é reerguê-las [...]. Aqui está o grande conflito, a grande batalha cultural, a grande guerra cultural, esta guerra cultural que se expressa na destruição dessas três colunas básicas da cultura ocidental. [...] Marx, como profeta, foi um profeta pela metade. Por que? Porque ela profetizava o futuro de uma sociedade justa, sem classes, aliás, sem governo, perfeita, o paraíso aqui na terra, só que ele previa que isto iria acontecer através de uma revolta dos trabalhadores. Nota de rodapé: ele sabia perfeitamente que isso não era verdade, ele inclusive falsificou os dados das pesquisas, ele vivia na Inglaterra [...].

(MARXISMO..., 2012, 30min. 13seg).

O sacerdote católico falou das crises teóricas da teoria marxista e mencionou dois filósofos: Antônio Gramsci e György Lukács. Ao primeiro, atribuiu a origem do marxismo cultural, cujo objetivo seria implodir lenta, anônima e gradualmente as três colunasa aludidas, a religião ou ética judaico-cristã, a filosofia grega e o direito romano. Seria o caminho gramsciano, a “técnica gramsciana” (MARXISMO..., 2012, 43min. 39seg). Hoje, um embate entre realidade e propaganda ocorre, pois, a dominação cultural marxista é sutil, subliminar e impregna as instituições sociais, culturais e os mecanismos políticos:

Como é que se passa, num congresso, uma lei aprovando o casamento gay? Como é que você se faz com que juristas e juízes do Supemo Tribunal Federal assinem uma sentença reconhecendo a união gay como um direito? [...] eles sabem ler a Constituição Federal, ora bolas carambolas! E na Constituição está escrito o que é que é a família e a família é constituída por homem e por mulher [...] não podemos oprimir os homossexuais, eles têm direitos. Você é preconceituoso, você não tem vergonha? Essas pessoas não têm culpa de serem homossexuais. Você prega o Deus da caridade, da tolerância, do amor, da fraternidade universal e depois quer excluir estes irmãozinhos? Esta é a propaganda. Mas o que é que eles querem obter com isso? Eles querem obter a destruição da família, porque para o pensamenro marxista, a família é um valor burguês, é uma desgraça que deve ser destruída. [....] Mas é evidente que eles não vão chegar e dizer: ‘escuta pessoal. nós viemos com um plano para destruir a família e o plano é o seguinte’. Eles não vão dizer isso porque todo mundo vai se revoltar. Por que? Porque, segundo eles, o povo está alienado, porque o povo está com o pensamento cristão tão arraigado que é necessário que nós entremos na consciência do povo e tiremos esses valores cristãos à força, usando a própria linguagem cirstã para isso.

(MARXISMO..., 2012, 50min. 25seg).

Haveria, portanto, uma ação de destruição da família que usa o próprio cristianismo e seus conceitos de amor, perdão e misericórdia (MARXISMO..., 2012). São muitos os tons persecutórios, quase paranoicos, que articulam as cores sinistras e cinzentas dessa fala. Nas entrelinhas do discurso, a reação do “cruzado católico” demonstra a amplitude das mudanças culturais em jogo no ocidente e que o Brasil tem vivido: a perda da preeminência do direito natural clássico, a extensão dos direitos civis às minorias sociais (gays, negros, mulheres) e o avanço da racionalidade jurídico-formal na área da família e da sexualidade. Ser “pai” e o ser “mãe”, o casamento e a vivência familiar, não estão mais fixados em identidades biológicas strictu sensu, mas se tornram funções e identidades plurais, desligadas de bases restritivas, ligadas agora a novas identidades de gênero (MACHADO, 2018).

A Organização das Nações Unidas (ONU), os tratados e organizações internacionais, os poderes dos estados nacionais (Judiciário, Legislativo e Executivo) reconhecem e promovem novos direitos e legislações para regular estruturas familiares que emergiram em tempos contemporâneos. Tudo isso teria desestabilizado a velha moral cristã, que se vê, assim, colocada como mais uma moral, e não como a única fonte verdadeira, sendo interpretada, ainda, como uma estrutura histórica passível de ultrapassagens. Contra essa percepção de ultrapassagem, os setores religiosos católicos ultraconservadores se insurgem, em uma batalha pela recuperação da hegemonia perdida. É duvidoso que a obtenham novamente, mas sua energia e ações têm se dirigido em três frentes: pressão sobre os legisladores (deputados e senadores), com a constituição de grupos pró-vida, pressão para impor mudanças nas legislações aprovadas, apoio aos candidatos a cargos eletivos em diversos níveis (municipal, estadual e federal) e mobilização social, com palestras, vídeos, passeatas, campanhas e outras ações capazes de engajar grupos, indivíduos e organizações dentro e fora da Igreja Católica.

Para demonstrar esse malabarismo reflexivo, o sacerdote católico conservador articula dois pontos. Primeiro, as filosofias marxistas e de gênero, partindo de Hegel e da valorização do “negativo” (antítese), visto como elemento de destruição e, portanto, de abertura para uma nova ordem (síntese), são contrárias aos planos divinos. Segundo ponto, a mudança generalizada na legislação, com o reconhecimento dos direitos civis de casais homossexuais, é apresentada como um elemento regressivo do ponto de vista moral, lembrando que o conservador é alguém que olha a história pelo retrovisor.

Alguns duvidam da eficácia desses procedimentos, mas os ecos desse discurso, dessa “guerra cultural”, têm sido acolhidos nos altos níveis de governo eclesiástico. Um indício desses ecos está no Instrumentum Laboris (Instrumento de Trabalho) do Sínodo das Famílias convocado pelo Papa Francisco, que utilizou o termo gender studies (estudos de gênero), consagrado da batalha linguística levada a termo pelo padre Paulo Ricardo, mas em um sentido negativo. O novo instrumento afirma a família como fundamentada na união entre um homem e uma mulher, vendo a adoção de filhos por casais do mesmo sexo como um risco (COLANICCHIA, 2014).

Por outro lado, nos debates sobre os Planos Estaduais e Municipais de educação de muitos estados e municípios brasileiros, efetivados ao longo de 2015 e 2018, essa narrativa místico-conservadora-apocalíptica emergiu com toda força. Em algumas cidades, vereadores e deputados evangélicos e católicos ligados às vertentes defensoras da moralidade cristã tradicional, apoiados por grupos religiosos liderados por pastores, padres e até bispos, conseguiram retirar a palavra gênero e a menção a políticas públicas que levassem em consideração a educação sexual e a perspectiva de gênero7.

À essa linha argumentativa, é acrescido, com variações um maior sentimento de anticomunismo, mais vivo agora do que antes da Queda do muro de Berlim (1989)8 e estende-se num contínuo. Quanto a isso, será útil uma pequena ilustração das diferenças discursivas entre os grupos católicos que atuaram ao final da década de 1980 e os discursos de “guerra cultural” na contemporaneidade. Em 1987, Pierucci publicou um texto interessante sobre as eleições paulistas logo após os processos de redemocratização. A “nova” direita emergiu com força, despejando seus discursos e votos nos espaços públicos e mídias. Os grupos que compunham essa direita, àquela época, continham muito mais integrantes católicos do que os grupos contemporâneos, que agrupam um conservador ecumenismo (católicos, protestantes e pentecostais) e uma conservadora aliança inter-religiosa (cristãos, kardecistas, umbandistas).

Escreve Pierucci (1987, p.45):

A nova direita prima, portanto, por diagnosticar a crise geral do presente como uma crise primeiramente cultural, uma crise de valores e de maneiras. Crise moral. Valores que se corrompem na exata medida em que os estilos de vida vão se afrouxando no embalo indulgente da mídia, dos ídolos de massa, do marketing e da publicidade, do voyeurismo, do exibicionismo, da droga, enfim, do hedonismo consumista das camadas mais ricas e intelectualizadas da sociedade. Ora, não são justamente estas (jovens) elites intelectualizadas, esnobes, as portadoras tagarelas e autolaudatórias de estilos de vida que agridem e irritam a ‘maioria moral’? Não são estas mesmas pessoas — profissionais da nova classe média assalariada - os respeitáveis rebeldes, incentivadores ativos dos “novos” movimentos sociais e, portanto, das demandas de liberalização dos costumes, de descriminalização do aborto e da maconha, de plena realização sensual, de emancipação da mulher e do jovem, de ampliação das áreas de expressão legítima da subjetividade? E não seriam, porventura, os chamados ‘novos’ movimentos sociais exatamente o Outro da ‘nova’ direita, o inimigo principal em relação ao qual ela se recorta, e contra o qual já se pôs em movimento?

Por essa perspectiva, percebem-se permanências, as ideias de degradação e dissolução, inclusive do clero e do laicato (os ligados à teologia da libertação e pastorais sociais), um certo anticlericalismo por um lado, e deslocamentos, o retorno a um anticomunismo exacerbado, por outro. À época, escreveu Pierucci (1987, p.44):

Este novo espaço sócio-cultural para a extrema direita, representado por denominações cristãs fundamentalistas, converge no seu anticlericalismo específico com o outro, o anticlericalismo-de-caserna-e-delegacia para acusar a arquidiocese de São Paulo de pactuar com os delinquentes através da política dos direitos humanos. Os padres ‘invertem os valores’ enquanto eles defendem os verdadeiros valores. Os padres com a minoria, eles com a ‘maioria moral’. Assim como o novo papa, a nova direita é mais imediatamente internacional, e isto no front da cultura de massa. Eis um dado crucial na determinação de sua novidade. A nova direita internacional, que patrocina as campanhas de renovação moral, é a mesma que secreta e veicula o imoralismo kitsch dos seriados de TV

(Dallas, Dinastia).

Pela boca bélica de sacerdotes como Paulo Ricardo, a ‘nova direita’ elege como bom combate os valores que uma idealizada e romantizada nova ordem internacional tem imposto. Daí seu anseio em alastrar o campo de combate para as estruturas culturais e educacionais contemporâneas (museus, planos de educação etc.), enxergando na Rede Globo, uma grande parceira do “marxismo cultural”.

Conclusão

A primeira observação que poderia ser feita sobre o discurso eclesiástico, é sobre os jogos linguísticos ou a batalha semântica que o clérigo tradicionalista-conservador trava. No entanto, há uma dissociação entre forma e conteúdo, projetando neste, uma visão moralista, por exemplo, quando associa o pensamento de Hegel a uma ideia demoníaca. A agressividade discursiva quando acusa o “marxismo cultural”, personificado pela ONU, por ONG internacionais e pelo feminismo, de operar uma dominação simbólica – sobretudo, mediante substituição de palavras –, o padre inventa um adversário e, ao mesmo tempo, reduz o espectro de combate a um elemento supostamente homogêneo, oposto ao patrimônio judaico-cristão. A redução é operada, também, quando se considera como elemento central desse patrimônio apenas a família em sua configuração burguesa, que emergiu ao longo dos séculos XVII, XVIII e XIX, entrando em crise em meados do século XX.

Apesar de acusar o campo adversário de praticar “guerra semântica”, o padre Paulo Ricardo emprega essa mesma “tática” quando nomeia autoras feministas, como Butler e Beauvoir, não como filósofas ou intelectuais, mas como “ideólogas do marxismo cultural”, desqualificando-as e deslegitimando-as. Contra pensadoras e movimentos feministas, o front católico ultraconservador impinge rótulos depreciativos e as descaracteriza em sua discursividade, reconhecida, por um lado, mas comparada a mentiras, ilusão e manipulação, por outro. Emerge um estilo de rebeldia romântico-conservadora, com ares de outsider: a atitude de combate e enfrentamento é dirigida a adversários imaginados como globais. No combate semântico, visto como guerra cultural, signos e significados são articulados em função de uma suspeita generalizada (a “ideologia de gênero” é apresentada como plano de dominação cultural). O que se coloca como suspeito é associado ao mal, em sentido da moralidade e em sentido religioso-social.

Os discursos tradicionalistas-conservadores espelham, de forma enviesada, as tessituras das imensas transformações econômicas, culturais e sociais que o mundo ocidental e o Brasil têm vivido. A retórica da acusação pode ser lida, nesse sentido, como sintoma de um estado sociocultural vivido pelo segmento católico conservador: a queda da hegemonia católica que arrastou algumas influências socioculturais exercidas sobre a sociedade, a legislação e a educação brasileiras. Por isso, pode-se ler o discurso do clérigo reacionário como sintoma da perda de hegemonia cultural da narrativa católica tradicionalista e conservadora e, ao mesmo tempo, como batalha para promover uma contra-hegemonia cultural na esfera pública. Nos discursos enfocados neste texto, percebe-se uma oposição dura entre duas equações de termos, sendo uma considerada verdadeira e a outra, falsa: de um lado, mulher-biologia-natureza-razão-igreja-família-patrimônio-moral judaico-cristã, de outro, gênero-construção social-cultura-irrazoável-versatilidade sexual-nova ordem mundial.

Apesar de o padre dizer que aceita as regras do regime democrático e da liberdade de expressão, os jogos linguísticos – vividos como arma retórica e semântica de desumanização de alteridades –, são arriscados, na medida em que o novo cruzado afirma que o “adversário”, no caso das feministas, por exemplo, e todos os que estão nessa “coalizão” hegemônica sob a batuta do “marxismo cultural”, não “jogam limpo” e escondem os “motivos” verdadeiros. A verdade está sempre escondida, sempre atrás e ele, o padre, está investido da missão, supostamente dada por Deus, de desvelar e revelar, nos espaços públicos e mídias, quais são os motivos e as estratégias ocultas e as verdades que se tenta abafar e esquecer.

A questão das guerras culturais é fundamental, não apenas um modismo. Contudo, essa guerra cultural travada pelo catolicismo conservador nos EUA, Europa e na América Latina é afetada e poderá sofrer inflexão, quiçá um recuo, no atual pontificado. Em entrevista dada ao Corriere della Sera, publicada no dia 5 de março de 2014 (quarta-feira de cinzas), o Papa Francisco diz que nunca compreendeu a expressão “valores inegociáveis”, que é o mote dos grupos católicos conservadores e reacionários. O arquivamento dessa expressão poderia representar uma tentiva de celebrar um armistício nas “guerras culturais” combatidas pela Igreja e pelo magistério papal no Ocidente, em especial nos Estados Unidos, ao longo das últimas décadas – uma expressão que nasce nos EUA dos anos 1960, assumida por um magistério católico que via nos fenômenos de liberalização social, uma ruptura moral-cultural à qual era preciso reagir com uma verdadeira cruzada. De fato, é preciso lembrar que o discurso tradicionalista-conservador desses clérigos é fruto do movimento católico norte-americano de guerra cultural, agora globalizado, mas também da herança dos movimentos e associações do catolicismo reacionário-conservador brasileiro dos anos 1920-1960. A nova carga semântica que emerge nos discursos e falas espalhados pelas redes sociais eletrônicas, está baseada em uma teologia da antimodernidade eurocêntrica e uma teologia política dos valores inegociáveis, reforçada pelo pensamento ratzingeriano, sobretudo a partir dos anos 1970.

Os próximos capítulos dessa invenção simbólico-gnóstica baseada no uso seletivo e descontextualizado da tradição católica, passa pela questão de como os sacerdotes brasileiros, líderes dessas guerras culturais, irão comportar-se diante das inflexões semânticas que o papado de Francisco tem delineado (crítica ao mercado e ao financismo, ecologia integral e outros) e diante do confronto com outros movimentos em defesa dos direitos de minorias socioculturais (LGBTQIs, coletivos feministas, entre outros) no espaço público conflagrado, dividido e em estado de tensão e crise na atual democracia liberal-representativa brasileira.

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Como citar este artigo/How to cite this article

SILVEIRA, E.J.S. Padres conservadores em armas: o discurso público da guerra cultural entre católicos. Reflexão, v.43, n.2, p.289-309, 2018. http://dx.doi.org/10.24220/2447-6803v43n2a4336
2 Vive-se em uma era hiperconectada, disso todos sabem. A sociedade da informação está em um outro patamar, o da universalização absoluta da produção e do consumo de informação por intermédio de uma paleta de canais. A lógica broadcast – um centro que transmite conteúdo único a uma audiência –, está em declínio e, em ascensão, a lógica multicast – uma multidão de produtores e veiculadores de mensagens para uma multidão de consumidores. Na lógica broadcast, a formação de sentido se dá na concatenação de argumentos em que a coerência se dá ao longo da informação. Na lógica multicast a formação de sentido se dá de maneira mais fragmentada, individualizada e fortemente subjetivizada.
3 As médias regionais e citadinas são extremamente variáveis: o Norte é menos católico que o Nordeste. As capitais do Nordeste são menos católicas que as cidades do sertão, para citar dois exemplos.
4 Os conceitos e ideias de Antônio Gramsci, destacado intelectual marxista, são relidos e reinterpretados de forma misturada e truncada pelo Padre Ricardo e por seu grupo de apoiadores e adeptos.
5 Os dados biográficos foram consultados no site da editora Ecclesiae. As equipes do sacerdote auxiliam-no nas redes sociais, inclusive com uma página na Wikipédia (PAULO RICARDO, 2019).
6 O programa foi apresentado durante algum tempo na Rede Canção Nova, mas deixou de ser veiculado. Ver Programa Oitavo Dia... (2011). Pode-se acompanhar a programação da TV na rede por meio do link: <http://tv.cancaonova.com/tv-ao-vivo/>.
7 Em 2015, a câmara de São Paulo votou em primeiro turno o Plano de Educação sem o termo “gênero” (DOMINGUES, 2015). Houve também forte mobilização de grupos católicos e evangélicos, concretizando um pouco a aliança proposta pelo clérigo Paulo Ricardo (BEDINELLI, 2015).
8 Conferir com Pierucci (1987). O anticomunismo, apesar de marcante, não era a tônica central nos movimentos de grupos da nova direita, integrada por católicos.

Autor notes

E-mail: <emerson.pesquisa@gmail.com>.



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