Resenha
Compêndio Kierkegaard De: Álvaro Valls & Gabriel Ferreira (Org.) São Paulo: LiberArs, 2015
Recepção: 27 Setembro 2016
Aprovação: 31 Outubro 2016
Nos dias 27, 28 e 29 de maio de 2013, diversos pesquisadores brasileiros seguiram rumo à Universidade do Rio dos Sinos (Unisinos), no Rio Grande do Sul, para se unirem a outros pesquisadores estrangeiros a fim de comemorar o bicentenário de nascimento do filósofo Søren Aabye Kierkegaard, nascido em 5 de maio de 1813 e falecido em 11 de novembro de 1855.
Do encontro, nasceu o “Compêndio Kierkegaard”, coletânea das conferências proferidas naquele Congresso por seis convidados estrangeiros: Jacob Howland, da Universidade de Tulsa (EUA); Richard Purkarthofer, da Universidade de Wüppertal (Alemanha); Nuno Ferro, da Universidade Nova de Lisboa (Portugal); Bruce Kirmmse, do Connecticut College (EUA); Poul Lübcke, da Universidade de Copenhague (Dinamarca) e Hélène Politis, da Universidade de Paris I: Panthéon-Sorbonne (França).
O primeiro texto, de Jacob Howland, traz como tema “Um Sócrates rejuvenecido: a autoria platônica de Kierkegaard”. Partindo da análise de “O conceito de Ironia” (de 1841) – dissertação apresentada pelo filósofo à Universidade de Copenhague com o fim de receber o título de Mestre –, o autor passeia por outros textos para mostrar o uso peculiar que ele faz das ideias de Sócrates. Jacob Howland abre a sua conferência com a segunda carta de Platão, na qual este declara que: “não existem escritos de Platão, nem jamais existirão, mas aqueles agora ditos como seus são de um Sócrates tornado belo e jovem” (HOWLAND, 2015, p.9). A partir dessa afirmação ambígua de Platão, o autor mostrará como também o Sócrates de Kierkegaard constitui um enigma semelhante.
Seguindo as trilhas de exploração da ressonância socrática na obra de Kierkegaard, segue-se o texto de Richard Purkarthofer: “A única analogia que tenho diante de mim é Sócrates: minha tarefa é uma tarefa socrática”. O autor parte dessa afirmação de Kierkegaard em “O momento” n°10, a fim de mostrar em que consiste tal analogia e o que o pensador dinamarquês almejava ao considerar a sua atividade como socrática.
O pesquisador português Nuno Ferro, por sua vez, iniciará sua análise a partir da afirmativa kierkegaardiana de que o homem é “naturalmente hipócrita”, ou tem a possibilidade de sê-lo, pelo fato de o ser humano ser constituído como uma síntese de estruturas heterogêneas. Isso possibilita que o sujeito não seja transparente a si mesmo, criando um ideal de si que não corresponde à realidade. Essa possibilidade de o ser humano ser “desonesto” e “hipócrita” se revela por meio da linguagem, pois esta é o lugar das categorias e, nesse sentido, o ponto de vista humano é essencialmente linguístico. Desse modo, há a possibilidade de o sujeito não ser o que diz e pensa ser, ou seja, ser para si mesmo um hipócrita. Mesmo em poucas páginas, é possível observar que Nuno Ferro faz uma análise profunda tanto da concepção Kierkegaardiana do homem como síntese, quanto do papel da linguagem para o pensador dinamarquês.
Bruce Kirmmse, tradutor e editor dos diários de Kierkegaard, debruça-se sobre eles a fim de compreender e clarificar o entendimento que o pensador tinha sobre si mesmo em seu mundo. Uma questão particularmente investigada é o uso frequente nos diários da palavra “mártir” ou da expressão “testemunha da verdade”. Kirmmse investiga os contornos que a noção de martírio vai ganhando no pensamento de Kierkegaard e, amparado em suas pesquisas, arrisca alguns palpites de qual seria a última posição do filósofo acerca dessa questão.
No texto seguinte, Poul Lübcke trata do tema da ontologia. De plano, o autor afirma que o artigo é basicamente um comentário sobre a afirmação do pseudônimo Johannes Climacus no “Pós-escrito conclusivo não-científico” de que: “Portanto, pode haver um sistema lógico; mas não pode haver um sistema da existência” (KIERKEGAARD, 2013, p.113). O interesse principal de Lübcke é a primeira asserção; entretanto, o autor começa esclarecendo o que vem a ser a compreensão de “sistema” no pensamento de Climacus. É evidente que essa afirmação é proferida contra Hegel, porém, antes de analisar as diferenças entre os dois pensadores, Poul Lübcke investiga as influências do professor de Kierkegaard, Poul Martin Møller, e o que este compreendia pelo termo “lógica” e em que medida Kierkegaard (e, portanto, Climacus) é influenciado por ele e em que medida diferem.
O último artigo, de Hélène Politis, trata da questão filosófica da subjetividade, tal como aparece em “O conceito de ironia constantemente referido a Sócrates” (1841). A autora inicia com a apresentação de Sócrates por Aristófanes em “As Nuvens”, passa pelas análises de Hegel até chegar às contribuições de Kierkegaard – o qual, sendo um leitor atento e inteligente, utilizará os conceitos hegelianos voltando-se contra o próprio autor. O artigo encerra com a crítica de Kierkegaard acerca do nivelamento contemporâneo, válido tanto para sua época como para os dias atuais.
O Compêndio inicia-se com a figura de Sócrates (Jacob Howland e Richard Purkarthofer) e se encerra com ela, figura que, como se sabe, é fundamental no pensamento do autor aqui celebrado. Antes de encerrar esta resenha, vale destacar que as conferências publicadas no compêndio aparecem tanto em português como em seus idiomas originais, possibilitando, assim, o acesso ao público nacional e internacional. A publicação de um texto como esse também aponta o avanço dos estudos kierkegaardianos no Brasil.
E-mail: <carloscampelo.psi@gmail.com>.