Artigos

Marx, Engels e o movimento dos trabalhadores nos EUA: um contributo para a compreensão da conceção materialista da história

Marx, Engels and the workers’ movement in the USA: a contribution to the understanding of the materialist conception of history

Paulo Fernando Rocha Antunes
Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, Portugal

Marx, Engels e o movimento dos trabalhadores nos EUA: um contributo para a compreensão da conceção materialista da história

Griot: Revista de Filosofia, vol. 19, núm. 2, pp. 51-70, 2019

Universidade Federal do Recôncavo da Bahia

Recepção: 13 Fevereiro 2019

Aprovação: 20 Abril 2019

Resumo: :

No presente artigo procuramos recuperar a reflexão de Karl Marx e Friedrich Engels acerca do movimento dos trabalhadores estado-unidense do seu tempo, sobretudo no que ao papel dos socialistas dirá respeito. É nosso entendimento que esta reflexão contribui, apesar de pouco explorada, para a compreensão da conceção de ambos – a conceção materialista da história –, não porque tenha contribuído para a sua elaboração mais acabada, mas por via do exercício que os autores fizeram desta quando analisaram o que se passava do outro lado do Atlântico. A reflexão destes dois autores pode ainda ser, além de questões meramente teóricas, bastante atual – daí o enfoque nas questões de estratégia político-partidária –, pois que os partidos que se reclamam da classe trabalhadora hoje são, apesar de tudo, bem mais do que na segunda metade do século XIX, mas, por outro lado, bem menos expressivos do que na segunda metade do século XX. Trata-se, em rigor, de um de vários contributos particulares da conceção dos dois autores alemães.

Palavras-chave: Dogmatismo, Partido (Partido Socialista do Trabalho Germano-americano), Prática, Sectarismo, Teoria.

Abstract: :

In the present paper we try to recover the reflection of Karl Marx and Friedrich Engels on the American workers’ movement of their time, especially as regards to the role of socialists. It is our understanding that this reflection of Marx and Engels contributes, although little explored, to the understanding of the conception of both – the materialist conception of history –, not because it contributed to its final elaboration, but through the practice that the authors made this when they analyzed what was happening on the other side of the Atlantic. The reflection of these two authors may still be, in addition to merely theoretical issues, quite current – hence the focus on issues of political party strategy – since the parties that claim the working class today are, after all, much more than in the second half of the nineteenth century, but on the other hand, much less expressive than in the second half of the twentieth century. It is, in fact, one of several particular contributions of the conception of the two German authors.

Keywords: Dogmatism, Party (German-American Socialist Labor Party), Practice, Sectarianism, Theory.

Introdução

No presente artigo procuramos recuperar a reflexão de Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) acerca do movimento dos trabalhadores americano (american labor movement, ou estado-unidense, como vamos preferir utilizar a maior parte das vezes) do seu tempo –, sobretudo no que ao papel dos socialistas dirá respeito.

É nosso entendimento que esta reflexão de Marx e Engels contribui, apesar de pouco explorada ., para a compreensão da conceção de ambos – a conceção materialista da história (materialistische Geschichtsauffassung) –, não porque tenha contribuído para a sua elaboração mais acabada, mas por via do exercício que os autores fizeram desta quando analisaram o que se passava do outro lado do Atlântico. Trata-se, em rigor, de um de vários contributos particulares.

É ainda possível dizer-se que esta reflexão se segue naturalmente à que os dois autores realizaram acerca da Guerra Civil Americana (1861-1865), dado que fora um momento privilegiado da história daquela nação e que os dois puderam acompanhar .. Quer um, quer outro autor, publicaram artigos sobre o assunto, por exemplo, no New York Daily Tribune (aqui, Engels publicou, mas sob o nome de Marx) e na Die Press vienense, bem como trocaram imensa correspondência sobre o sucedido.

Ali, tratava-se de denunciar a escravatura como causa da guerra, motivo tão escamoteado pela imprensa e meios dominantes da época; agora, tratava-se de apoiar o desenvolvimento do movimento dos trabalhadores, sobretudo teoricamente, embora não apenas.

Se, no primeiro caso, Marx foi amplamente publicado, pelo menos durante a primeira metade da guerra, neste caso – um período que vai desde o final dos anos 60 até princípios dos anos 90 do século XIX – a maior parte das reflexões de Marx e de Engels é vertida em forma epistolar, a maior parte das vezes publicada já no século XX. Ao longo das suas vidas ambos trocaram abundante correspondência e aqui não foi exceção.

O que muda de uma reflexão para outra, mantendo-se o escopo dos desenvolvimentos estado-unidenses, é, além do tema e período, o autor que mais frequentemente se pronuncia acerca da questão. Marx foi quem mais refletiu acerca do que lá se passava durante e por causa da guerra civil, Engels, que viveu mais doze anos depois da morte de Marx, é quem mais se vai pronunciar acerca do movimento dos trabalhadores estado-unidense.

Para que assim tivesse sido, terão contribuído diversos fatores, não apenas o facto de ter vivido mais, mas a tradução e publicação de uma das mais conhecidas obras de Engels para inglês nos EUA, mais precisamente, em Nova Iorque ., a fundação da II Internacional (1889) ., a sua visita ao país ., entre outras motivações.

Não obstante, Marx, ainda que com menor incidência, também contribui para esta discussão. Se Engels terá um papel determinante ao denunciar o sectarismo dos socialistas germano-americanos (assim chamados por se tratarem dos socialistas alemães que se radicaram, por diversas razões, nos EUA), o seu companheiro já o havia feito em momentos anteriores.

Sobre Marx, diria ainda um jornalista estado-unidense – que teve a oportunidade de o entrevistar pessoalmente em dezembro de 1878 para o Chicago Tribune –, ter ficado muito impressionado com a sua “familiaridade” com as questões americanas (cf. MARX, 1989 [1879]: 569).

Como veremos adiante, Engels vai encontrar como interlocutores privilegiados, para a troca de correspondência a propósito do que se passava nos EUA, Friedrich Adolph Sorge (1828-1906) e Florence Kelley-Wischnewetzky (1859-1925), apesar de a ter trocado com muitos outros correspondentes.

O primeiro, um alemão radicado em Hoboken, Nova Iorque, que veio a ser Secretário-geral da Associação Internacional dos Trabalhadores (I Internacional, 1864-1876) quando esta se transferiu para os EUA ., e, a segunda, uma socialista americana bastante ativa, casada com um socialista polaco-russo.

Sorge desempenhou um papel de maior relevo no movimento operário local e Kelley-Wischnewetzky, além de ter sido a tradutora da primeira obra de juventude de Engels (cf. nota 3), também participou no movimento abolicionista e sufragista. Interessando pouco, para aqui, os percursos de cada um destes interlocutores, e mais o feedback que faziam chegar a Engels e os comentários que lhe provocavam.

Posto isto, cremos estar em condições de proceder ao levantamento e análise das questões mais relevantes para e sobre o movimento dos trabalhadores nos EUA, na esteira dos dois revolucionários alemães.

Contexto histórico: da guerra civil ao limiar do século XX

Guerra civil e Reconstrução

Antes de mais, contextualizemos, ainda que a breve trecho, o período histórico em questão.

A Guerra Civil Americana não terá servido apenas para libertar os escravos dos Estados do Sul dos EUA, ou seja, tornar os EUA livres de escravatura. Com a libertação dos escravos libertava-se igualmente o movimento dos trabalhadores, pelo menos o sucedido obrigava ao abandono da ilusão mantida pela generalidade dos trabalhadores de que havia uma classe destes em piores condições e do sentimento de que podiam estar um pouco melhor enquanto tal existisse.

Não era por acaso que Marx declarava em janeiro de 1860, ainda antes da guerra, que «[…] a maior coisa que está[va] a acontecer no mundo é o movimento dos escravos americano, de um lado […] e, do outro, o movimento escravo [dos servos] na Rússia.» (MARX, 1974 [1860]: 6 .).

A libertação dos escravos, por um lado, e dos servos, por outro, augurava novos avanços no movimento internacional dos trabalhadores, entenda-se, em favor do socialismo.

A propósito do fim da escravatura e da guerra civil, Marx e Engels depositaram enormes esperanças na “Era da Reconstrução” (Reconstruction Era), expressão pela qual ficou conhecido o período que se seguiu à guerra civil até 1877, um período marcado pela permanência das tropas do Norte nos Estados do Sul e pela reconstrução destes num sentido pós-escravista e pós-guerra.

No entanto, os dois autores foram logo levados a perceber que o curso da “reconstrução” não era mais revolucionário como o ato de libertação dos escravos – assinado por Abraham Lincoln (1809-1865) – teria dado a entender .. Depois do assassinato do Presidente dos EUA, Lincoln, o rumo fora invertido.

Aliás, mais tarde, logo após o desinteresse dos Estados do Norte na reconstrução do Sul, social e política principalmente, os sulistas trataram de confirmar institucionalmente o que na prática já era a segregação dos negros nos seus Estados, a liberdade era mais formal do que outra coisa. Mesmo no Norte existiu segregação 10.

Ora, o que se sucedeu à guerra foi de facto a expansão das relações capitalistas de produção, estas encontraram novo espaço após a derrota dos Estados escravistas do Sul, mais precisamente, após a derrota das relações escravistas de produção.

Com este novo ascenso capitalista nos EUA, estes passaram a competir diretamente no mercado mundial. Se até então não eram mais do que uma espécie de colónia (no que às relações económicas dizia respeito) dos ingleses, que mantinham os EUA como seus produtores de algodão, até ao ponto de quase total exaustão do seu próprio solo, agora, competiam diretamente com a Inglaterra e as restantes nações emergentes (França e Alemanha) 11.

Simultaneamente desenvolviam-se os movimentos sufragistas, as mulheres exigiam o direito de voto; os trabalhadores começavam-se a organizar, a formar os seus principais sindicatos; pululavam milionários como nunca se tinha visto; as contradições agudizavam-se; etc., etc. 12.

I e II Internacional

A Associação Internacional dos Trabalhadores fundava-se na Europa perto do final da Guerra Civil Americana. É conhecida a troca de correspondência entre esta Associação, assinada por Marx, e o gabinete da Presidência dos EUA, a propósito da guerra e da escravatura (cf. por exemplo, MARX, 1985a [1865]).

Após a derrota da Comuna de Paris (1871) – primeira experiência histórica de tomada do poder político por parte da classe trabalhadora – a Internacional vê-se perseguida em todo o lado, mormente no centro do velho continente 13. A Internacional fora, por muitos, responsabilizada pelo sucedido e o poder dominante de então não poderia perdoar tamanha petulância aos trabalhadores, por assim dizer.

Por isso, entre outros fatores 14, é tomada a decisão em Congresso de se transferir o centro da Internacional para os EUA. Aqui veio a ficar desde 1872 até à sua extinção em 1876.

Naquela ocasião, aproveitava-se o enorme desenvolvimento que se dava económica e politicamente nos EUA para se sediar lá o centro do movimento internacional dos trabalhadores.

Apesar dos esforços envidados em contrário, o Conselho Geral passou a encontrar-se votado quase que exclusivamente às questões estado-unidenses e não foi capaz de mobilizar o que seria necessário para o efeito esperado. Em consequência, em Filadélfia reuniram mais de 600 delegados em Congresso e decidiram pela sua dissolução.

Mas a história lá terá as suas ironias, e em 1889, apenas 13 anos mais tarde, Marx já tinha falecido fazia 6 anos, fundar-se-ia a II Internacional, novamente a partir do movimento europeu, mas a partir do impulso dado pelas convulsões estado-unidenses da época, nomeadamente o grande movimento grevista de Chicago ocorrido em 1886 que veio a inspirar e a marcar o dia 1 de maio como o dia internacional do trabalhador (nos EUA o Labor Day é celebrado na primeira segunda-feira de setembro) 15.

Com este passo o movimento socialista internacional procurava conferir unidade à luta dos trabalhadores de cada nação, uma vez que desde o fim da I Internacional que a luta dos trabalhadores se desenvolvia de maneira independente em cada nação, o que sem ser necessariamente prejudicial ao movimento, atrasava questões de consciência mais global e de enquadramento da luta particular, entre outros aspetos.

A fundação (ou refundação) de mais uma Internacional, ainda patrocinada em vida por Engels, era como um sinal de que alguma coisa estava a mudar, mormente se se tiver em conta que as ideias mais difundidas apregoavam que a sociedade moderna já havia ultrapassado a luta de classes.

Marx: notas epistolares e uma entrevista

Para um apanhado epistolar

Posta uma breve contextualização daquele período, devido ao espaço, e à pertinência, sempre amputada nos seus mais diversos pormenores, compete avançar para as reflexões dos dois revolucionários alemães.

Comecemos por Marx.

Como mencionado acima, os EUA experimentavam um período de grande avanço no modo de produção capitalista, ao ponto de competir diretamente pelas melhores posições no mercado mundial. O que trazia para cima da mesa o direto confronto com o, até então, todo-poderoso Império Britânico.

O que hoje pode parecer impensável, na altura estava bem vívido nas mentes de quase todos, a possibilidade de uma guerra entre estas duas nações 16.

É, nesse sentido, que Marx vem apelar em carta enviada ao National Labour Union of the United States (União Nacional do Trabalho dos Estados Unidos, 1866-1873) a que os trabalhadores estado-unidenses se inteirem da sua responsabilidade para evitar o deflagrar de uma tamanha guerra 17.

O autor lembrava, a propósito, o papel determinante que os trabalhadores ingleses tiveram no passado ao colocar-se do lado dos Estados do Norte e contra a escravatura para impedir uma intervenção britânica a favor dos Estados do Sul (cf. MARX, 1985b [1869]: 53), o que veio a impedir igualmente, a par com os trabalhadores franceses (apesar da sua resposta mais tímida), uma intervenção francesa no mesmo sentido.

Segundo Marx, era o tempo de os trabalhadores daquela imensa nação tomarem uma atitude semelhante. Para Marx estava dado o tempo, ali, como já fora dado na Europa, de os trabalhadores provarem estar na cena da história (scene of history) como atores, conscientes do seu papel e responsabilidade, e não servilmente; deviam, portanto, provar estar aptos a comandar a paz onde os outros pretendiam comandar a guerra (cf. MARX, 1985b [1869]: 54).

Aos membros da Internacional dos EUA competia contribuir para estas questões, e, claro, para outras também. Por exemplo, «Por estatuto, o Conselho Geral na terra dos Yankees .Yankeeland] teve de se relacionar com os yankees em primeiro lugar. […] [Os socialistas nos EUA] devem procurar ganhar o apoio dos sindicatos a todo o custo.» (MARX, 1976a [1871]: 317-318 18).

O que se veio a revelar um problema mais difícil de se resolver do que à primeira vista poderia parecer, visto que aqueles que se encontravam nos EUA deviam ser os primeiros a atender à transformação da sociedade em que viviam com as peculiaridades desta como pano de fundo, todavia, nem sempre tal foi possível por parte dos socialistas que naquele país se encontravam radicados. Daí as repetidas advertências de Marx e Engels.

Vejamos, Marx, numa carta das mais conhecidas, apesar de apenas publicada já no século XX, veio esclarecer um dos equívocos da secção socialista germânica nos EUA 19. Esta secção entendia que o Conselho Geral da Internacional mostrava preferência pela burguesia filantropa, pelos sectários e grupos amadores.

O autor esclarecia: a Internacional tinha sido fundada com vista a organizar para a luta os pequenos grupos de socialistas e semi-socialistas. E enquanto a maturidade do movimento não fosse atingida era natural que alguns sectários persistissem (cf. MARX, 1976b [1871]: 328-329).

Na mesma carta o autor frisava que o Conselho Geral não aceitava nos EUA o que combatia na Europa, e nas resoluções do Conselho poderiam ser encontradas todas as armas para combater aqueles. A secção de Nova Iorque tinha as armas legais para o efeito (cf. MARX, 1976b [1871]: 330).

Assaz sintomático do que lá se passava – isto é, nas cabeças dos socialistas germano-americanos –, é a maneira como Marx termina a sua correspondência, o revolucionário alemão sente a necessidade de explicar o que é um movimento político (political movement), a quem alegadamente já deveria estar farto de saber o que era um (cf. MARX, 1976b [1871]: 332-333 20). A palavra de ordem estava lançada: a classe trabalhadora tinha de se organizar.

Dadas estas condições, uns anos mais tarde, Marx destacava em carta enviada a Engels a necessidade de – após os primeiros levantamentos populares e dos trabalhadores contra a oligarquia do capital associado (associated capital Oligarchie) nos EUA desde a guerra civil –, ter de se formar um partido, na verdade, com isto se dava a possibilidade de constituir um sério partido da classe trabalhadora, a possibilidade de superar a fragmentação do movimento, sobretudo a que existia nos sindicatos (cf. MARX 1966a [1877]: 59) 21.

Marx manteve-se até perto do fim da sua vida interessado em aprender mais sobre os EUA 22, em 1880 pedia a Sorge que lhe enviasse a máxima documentação possível sobre as condições económicas na Califórnia, que, segundo ele, mostrava a uma grande velocidade o processo de centralização capitalista (kapitalistische Zentralisation) como em nenhum outro lado (cf. MARX, 1966b [1880]: 478; e, por exemplo, 1962 [1867]: 712 ss.) 23.

Entrevista ao Chicago Tribune

A 5 de janeiro de 1879, é publicada no periódico Chicago Tribune uma entrevista de Marx. Esta fora realizada pouco antes, no dia 18 de dezembro, em Londres, na casa deste.

No seu contexto, esta entrevista situou-se pouco tempo depois da dissolução da I Internacional, ainda no rescaldo dos acontecimentos revolucionários de Paris (tema que será abordado na entrevista) e poucos anos antes do falecimento de Marx, contava então 60 anos.

No que ao nosso tema diz respeito, registamos a enfâse dada pelo autor às plataformas nacionais, inclusive à estado-unidense, que se focavam nas peculiaridades do seu escopo de ação (cf. MARX, 1989 [1879]: 572).

Não havia, por conseguinte, nenhuma instituição extranacional que comandasse o movimento de qualquer nação. Aliás, Marx relembrava que a Internacional também não o havia feito no seu tempo, exceto quando os respetivos movimentos socialistas ainda se encontravam demasiado fracos para andar pelos seus próprios pés (cf. MARX, 1989 [1879]: 575).

À questão muito levantada na altura – sobre se o socialismo teria sido uma importação da Europa para os EUA, dado que se entendia em vários círculos de que não existia naquelas terras condições capitalistas como as do velho continente –, Marx responde:

Na América, somente a partir de 1857 é que o movimento dos trabalhadores se torna visível. Então os sindicatos começaram a florescer; então formaram-se as assembleias de sindicatos, nas quais os trabalhadores de diferentes indústrias se uniram; e depois vieram os sindicatos nacionais. Se considerar [dirige-se ao entrevistador] esse progresso cronológico, verá que o socialismo surgiu naquele país sem a ajuda de estrangeiros, e foi causado apenas pela concentração de capital [concentration of capital] e pelas relações alteradas entre os trabalhadores e os seus empregadores. (MARX, 1989 [1879]: 573) 24.

Marx não podia ser mais veemente, o socialismo não era uma ideia que se exportasse, mas uma condição real dado um determinado desenvolvimento propiciado pelas relações capitalistas de produção 25. Se nos EUA a roda da história girava no sentido de um sistema capitalista cada vez mais desenvolvido, cada vez mais semelhante à/e competidor da Europa, então não havia como o socialismo não se apresentar enquanto possibilidade naquela nação.

Sem deixar de reconhecer as suas peculiaridades, é como se Marx desferisse uma violenta estocada no “mito do excecionalismo americano” – a ideia de que os EUA seriam uma nação em qualitativamente diferente de todas as outras 26.

Engels: a origem e as condições do movimento

Origem e condições

Após o falecimento do seu companheiro, coube a Engels organizar os manuscritos e esboços de Marx que tinham na mira a publicação, desde os Livros II e III de Das Kapital a uma série de outros textos, inclusive reedições 27.

Coube ainda a Engels o grosso da correspondência e das solicitações para aconselhamento sobre e para o movimento socialista internacional.

A maior parte das suas reflexões (a maior parte das vezes comentários) sobre os EUA surgem após a morte de Marx. Não obstante, com este ainda vivo, Engels lança um artigo no periódico italiano La Plebe, a 22 de janeiro de 1879, intitulado: Sul movimento socialista in Germania, Francia, Stati Uniti e Russia. Neste, o autor destacava, inter alia, a greve dos trabalhadores dos caminhos de ferro nos EUA – que havia sido dispersa de maneira sangrenta – como um evento marcante, um evento que faria época (un evento che farà epoca, cf. ENGELS, 1985 [1879]: 120).

Este foi um acontecimento debatido com o seu companheiro e, na esteira de Marx, competiu a Engels destacar publicamente a necessidade e a possibilidade da formação de um partido da classe trabalhadora nos EUA.

Embora não se encontrasse neste acontecimento a origem do movimento dos trabalhadores estado-unidense, e ainda menos as causas que os levaram a ter de se organizar, agora se gizava mais claramente a necessidade de uma organização e da insistência na luta, quer fosse pelas greves ou por outros métodos.

No entanto, o caminho não era fácil, pois os estado-unidenses estavam imbuídos de um sentimento “puramente” (rein) burguês, eram “ultraconservadores” (urkonservativ) como Engels lembrava; bem como estes não haviam passado por um período feudal, a colonização do território já fora realizada pela burguesia, e assim terá ficado (não permanentemente, mas assaz arreigada) a ideia de que todos o s indivíduos podiam possuir um pedaço de terra para si, tal como os primeiros colonos (cf. ENGELS, 1967d [1890]: 353). A fluidez de classe, por vezes menos real do que seria de esperar ou do que era propagandeada naquela nação, tornara-se uma espécie de credo.

Do mesmo modo não ajudava o facto de o país ser maioritariamente constituído por imigrantes e, além disso, já ter uma classe de trabalhadores ditos nativos (native), isto é, imigração, pelo menos, de segunda e terceira geração em diante. Pois estes, que aqui e ali já haviam passado pelo pior, mas que se encontravam agora mais estáveis, apresentavam uma espécie de “atitude aristocrática” (aristokratische Stellung), não facilitando para a nova imigração a entrada nos sindicatos; somente uma porção reduzida desta entrava nestes sindicatos ditos “aristocratas” (cf. ENGELS, 1979h [1892]: 313-314). Existia uma evidente estratificação da classe.

Ademais, para Engels, como na Europa, nos EUA a política já se tinha provado como um negócio de comércio (Handelsgeschäft), porquanto uma república burguesa não seria mais do que uma república dos homens de negócios capitalistas (um dos exemplos que o autor dá é o do “escândalo do Panamá”, cf. ENGELS, 1979i [1892]: 563; curiosa semelhança com factos mais recentes; e, embora a coincidência seja mais especificamente com o país em causa, o caráter corrupto mantém-se), o que não contribuía para o maior envolvimento das massas.

Conquanto, havia lugar a otimismo. No apêndice à sua obra – então traduzida para The Condition of the Working Class in England in 1844 –, Engels vai afirmar que a tendência do sistema capitalista para dividir a sociedade em duas classes distintas, de um lado alguns milionários, e, do outro, uma vasta maioria de trabalhadores assalariados, permitia maior vigor e consciência da parte destes (cf. ENGELS, 1990a [1887]: 403), a crescente divisão devia clarificar as relações vigentes.

Para todos os efeitos, de acordo com o autor alemão, existia uma grande semelhança, mutatis mutandis, entre os EUA já perfeitamente capitalistas e a Europa de 1848, inclusive com a Alemanha coetânea, só que nos EUA as coisas deveriam andar mais depressa, dadas as circunstâncias particulares daquela nação (cf. ENGELS, 1979 [1886]: 579) 28.

Práticos, não teóricos

Engels vê-se muitas vezes obrigado a realçar o lado prático dos estado-unidenses, como estes eram a maior parte das vezes avessos a questões mais teóricas 29. O que se refletia no movimento dos trabalhadores, logo no próprio movimento socialista, pois que «[…] é precisamente do caráter do movimento americano que todos os erros tenham de ser sofridos praticamente.» (ENGELS, 1979a [1883]: 47 30).

Engels lamentava, por conseguinte, que nos EUA faltasse a clareza teórica já atingida na Europa, no que ao movimento dos trabalhadores dizia respeito, mas reconhecia outrossim que tal não era possível por motivos óbvios, ou melhor, era historicamente impossível (historisch unmöglich, cf. ENGELS, 1979a [1883]: 47), visto que os EUA apenas então chegavam às relações capitalistas avançadas e à atividade política (e revolucionária) concernente.

Em 1886, o autor destacava como um dos grandes eventos do ano a entrada das massas trabalhadoras nativas nas greves pelas 8 horas de trabalho diário, mas reconhecia novamente que este grande movimento havia de ter de aprender com os seus próprios erros (cf. ENGELS, 1979b [1886]: 477-478).

O autor havia de o repetir várias vezes, tanto a aprendizagem pelos próprios erros, como a deficiência teórica em detrimento de uma determinada prática (cf., mais uma vez, por exemplo, ENGELS, 1995b [1886]: 541; e, 1979e [1887]: 704, respetivamente):

Isso também não será poupado aos trabalhadores; a confusão das Trades Unions [sindicatos], dos socialistas, dos Knights of Labor, etc., persistirá por algum tempo, e somente através dos seus próprios infortúnios eles tornar-se-ão mais sábios. Mas o principal é que eles estão agora em movimento [daß sie in Bewegung], que estão realmente a progredir e que o feitiço foi quebrado; as coisas vão-se mover rapidamente, mais rápido do que em qualquer outro lugar, mesmo que o rumo que adotem possa parecer quase louco do ponto de vista teórico. (ENGELS, 1979c [1886], 533) 31.

Todavia, no fim de contas, como já referido, não deixa de sobressair um otimismo no papel da classe trabalhadora estado-unidense, pois o mais importante era o facto de se mover, o resto havia de vir com a experiência 32.

Porventura, o desprezo pela teoria, em particular pela teoria revolucionária, proviesse de esta ter sido vista como exclusivamente ligada às condições europeias (a isto subjazia a ideia de uma aplicação formal de uma determinada experiência a uma realidade distinta, já vamos ver melhor de onde proveio), mas, por ironia, também pode ser devido a terem levado demasiado à letra a questão da importância do movimento, esquecendo a teoria que o deve acompanhar.

Engels: da necessidade de um partido à dificuldade da sua implementação

Do movimento ao partido…

Vejamos, agora com maior detalhe, como é realçada a necessidade de um partido da classe trabalhadora. O que pode soar a ladainha ou a justificação da própria existência pela parte de um partido ou movimento do tipo, ao invés, trata-se de uma questão fundamental para a conceção materialista da história: a revolução proletária não pode ser realizada senão por proletários e a sua organização não pode ser espontânea.

A 29 de novembro de 1886, Engels escrevia a Sorge o seguinte:

Num país que entrou recentemente no movimento, o primeiro passo realmente crucial é a constituição dos trabalhadores como partido político independente [selbständige politische Partei], não importa como, desde que seja distinguível como um partido do trabalho [Arbeiterpartei]. (ENGELS, 1979d [1886]: 579 33).

Na altura, o principal problema não era haver falta de movimento, de agitação entre os trabalhadores e maior consciencialização, em vez disso o problema parecia residir na grande dispersão que a sua atividade reivindicativa, mas também revolucionária, parecia registar.

Os trabalhadores estado-unidenses encontravam-se organizados em vários sindicatos – aliás, o movimento assemelhava-se mais propriamente ao movimento de um sindicato (cf., por exemplo, ENGELS, 1967c [1889]: 320) –, uns de maior e outros de menor expressão, sem grande ligação uns aos outros; organizavam-se em diversas secções socialistas a maior parte das vezes interpretando a realidade nacional cada uma à sua maneira; bem como tudo o que se apresentava como partido não era mais do que uma pequena fação aqui ou ali ou algo que formal e praticamente não era bem um partido.

Estas eram questões que já haviam preocupado Marx e agora perseguiam o seu companheiro. Um mês depois Engels voltava a repetir, mas desta feita a Kelley-Wischnewetzky:

Um milhão ou dois de votos dos trabalhadores em novembro próximo, para um autêntico [bona fide] partido operário, vale infinitamente mais do que cem mil votos numa plataforma doutrinalmente perfeita. […] Mas qualquer coisa que possa atrasar ou impedir a consolidação nacional do partido dos trabalhadores – seja qual for a plataforma, devo considerar um grande erro, […]. (ENGELS, 1995b [1886]: 541-542 34).

Todos os atrasos e contratempos que se opusessem à formação de um partido que unisse os trabalhadores estado-unidenses apenas podiam encontrar as maiores críticas da parte do autor 35.

Não obstante o pendor crítico que já anunciámos vir a cair sobre os socialistas germano-americanos (a desenvolver no próximo subponto), Engels não deixou de ver neles, isto é, na sua organização – no Socialist Labor Party, mais conhecido por German-American Socialist Labor Party (Partido Socialista do Trabalho Germano-americano) – a possibilidade, devido à sua experiência revolucionária na Europa, de servirem de alavanca para a organização de um partido nacional nos EUA 36.

Mas ainda só tinha passado um ano e Engels é o mesmo que vai dizer que o “partido germânico” devia acabar, pois havia-se tornado o pior obstáculo (schlimmste Hindernis) para a concretização do tal partido nacional tão necessário aos trabalhadores estado-unidenses 37.

O papel dos socialistas germano-americanos

Vejamos, finalmente, com maior detalhe o papel dos socialistas germano-americanos, como o acabaram por desempenhar naquele período histórico nos EUA.

Engels, já em 1882 – com o seu companheiro ainda vivo –, começara a vangloriar-se do desaparecimento dos lassalleanos na Alemanha, dada a imigração destes para os EUA. Por sinal, o autor não se mostrava preocupado com o enxameamento do movimento socialista daquele lado do Atlântico por parte dos lassalleanos, pois estava convicto de que estes deveriam “desaparecer depressa”, como tem sido dito, uma vez que lá tudo era mais rápido (cf. ENGELS, 1967a [1882]: 332-333).

Apesar disso, a verdadeira felicidade (wahres Glück) pela sua decadência parece ter vindo apenas aproximadamente uma década mais tarde (cf. ENGELS, 1967d [1890]: 553). Registe-se ainda que sua decadência do grupo germânico não advinha apenas pelo seu lassalleanismo, mas também pela sua arrogância (intelectual, entre outras coisas) que até então os caraterizava.

No entanto, o problema não havia de residir somente no que de Ferdinand Lassalle (1825-1864) aqueles germano-americanos haviam herdado 38. Os problemas seriam bem mais profundos. Daí que Engels se questionasse a dada altura pela atitude acrítica tomada pelas associações germânicas em relação ao movimento dos trabalhadores estado-unidense (cf. ENGELS, 1967b [1882]: 388) 39.

O principal problema dos germano-americanos parece ter sido a maneira como interiorizaram a teoria, pois eles não a haviam interpretado como um guia para a ação (Anleitung zum Handeln), mas como um credo 40. O que os levava a uma espécie de aplicação mecânica dos ensinamentos do movimento europeu.

A isto os estado-unidenses deverão ter respondido com a máxima aversão, pelo menos no que à teoria dirá respeito, uma vez que parecia que os socialistas vindos da Europa queriam aplicar, sem mais, a teoria que traziam do velho continente ao novo. “Dogmatismo”, “espírito de seita” e “mecanicismo teórico”, tudo sintomas que aqueles socialistas revelaram e que Engels denunciou à saciedade (cf., por exemplo, ENGELS, 2001a [1887]: 8-9; e, 2001b [1887]: 15-16).

O autor estava, com efeito, cansado de advertir contra a solenidade dogmática (alleinseligmachendes Dogma) com que os germano-americanos brindavam os nativos e restante imigração nos EUA (cf. ENGELS, 1995b [1886]: 541). É, pois, com efeito, significativo que Engels chame a atenção para aqueles que teriam erigido o marxismo a uma ortodoxia, e que, desse modo, o fizessem ser aprendido de cor (como um roteiro), tornando-se uma pura seita (pure Sekte); e é ainda mais significativo que o aponte, em Inglaterra, aos ingleses que faziam parte do movimento local e, nos EUA, aos germano-americanos (cf. ENGELS, 1979f [1891]: 112).

Por isso, não surgirá por acaso a advertência de Engels, expressa em mais uma carta a Sorge, de que a propósito de uma eventual liquidação do partido socialista alemão nos EUA

[…] os doutrinários convencidos alemães [que] por lá [andam] certamente não ficarão ansiosos de desistir da sua posição como tutores autonomeados dos americanos “imaturos” [unreifen Amerikanern]. Caso contrário, eles seriam um nada [nichts] completo. (ENGELS, 1967c [1889]: 320 41).

Uma das últimas referências de Engels ao papel dos socialistas germano-americanos nos EUA data de 1893, sensivelmente dois anos antes de falecer, e aqui desabafava uma última vez: a qualidade dos germano-americanos por regra não era a melhor, todos aqueles que chegavam aos EUA pareciam querer destruir tudo o que havia sido conquistado e fazer com que tudo começasse a partir da sua chegada (cf. ENGELS, 1968 [1893]: 173). Enfim, estes socialistas alemães apresentavam-se, cada um deles, como o salvador da classe trabalhadora, vindo da Europa para guiar as massas trabalhadoras estado-unidenses até ao socialismo.

Apesar de tudo, Engels registava que independentemente dos erros e do borrão (Borrmrthdt) dos líderes do movimento, o que era certo é que os trabalhadores estado-unidenses encontravam-se em movimento (cf. ENGELS, 1995a [1886]: 452); convicção que o terá acompanhado até ao fim, ainda que soubesse e tivesse propugnado e procurado contribuir para que o movimento se constituísse em algo mais, em vez de apenas alguma coisa que se move 42.

Conclusão

Chegados em boa hora para concluir, passemos em revista os principais pontos destacados (e a destacar) deste cosimento meio avulso do que se deu conta passim nos escritos (sobretudo epistolares) de Marx e Engels.

Os dois revolucionários alemães foram prontos a notar, quiçá prematuramente, a rápida mudança a que os EUA estavam, de certa maneira, condenados, dadas as transformações sociais que vivenciavam. A lembrar: o fim da escravatura e a ascensão industrial, a par das relações capitalistas de produção.

Este período histórico de real entrada na cena histórica dos próprios EUA, circunscrito na segunda metade do século XIX, coincidiu com diversas ondas de repressão na Europa, a primeira ainda no final da primeira metade daquele século – com o seu ápice em 1848 –, exilando diversos socialistas do outro lado do Atlântico, e, a segunda vaga (ou pelo menos a mais significativa a seguir àquela), logo depois e a propósito da Comuna, exilando uma série de outros revolucionários.

Entre estes destacam-se sobretudo os alemães 43. Estes não apenas haviam experienciado as convulsões europeias da época, como haviam, em alguns casos, fundado um Partido na Alemanha 44 e sobrevivido à repressão de Bismarck. Como já referimos (cf. nota 6), não foi por acaso que, ao atravessar o oceano, a direção do Conselho Geral da Internacional ficara a cargo de um alemão – Sorge.

É com estas questões presentes que o contributo de Marx – e assim para e da conceção materialista da história – parece ficar um pouco esbatido.

Quer dizer, o autor não teve tempo para se debruçar com maior atenção sobre o que se passava nos EUA. Não obstante, o geral e mais relevante da sua obra parece ecoar naqueles territórios: quando Marx analisa o capitalismo, mesmo que a partir de uma experiência europeia, e destaca o facto de o socialismo não ser nenhuma importação dos socialistas estado-unidenses, ele acaba por estender a sua reflexão acerca das relações capitalistas de produção àquele lado do Atlântico.

Entenda-se, e como por vezes se alertou, que tal feito não constitui nenhuma colagem, ainda menos mecânica, de realidades distintas, como, por exemplo, chegou a ser apanágio dos socialistas germano-americanos. Sobre esta postura o autor teve uma palavra a dizer, embora o grosso da questão tenha ficado a cargo de Engels.

Foi este quem mais escreveu acerca destes assuntos, como se deu conta.

Engels denunciou a falta de tato teórico dos estado-unidenses e ao mesmo tempo elucidou como o dogmatismo doutrinário dos socialistas germano-americanos terá contribuído para o seu isolamento.

A questão de uma prática (num sentido empírico, mais do que outra coisa), em desfavor da teoria, como a que se dava conta nos EUA não deixava de ser, como o autor pretendia chamar a atenção, movimento. Porém, como ele e o seu companheiro fizeram questão de não deixar esquecer a propósito desta nação, mas das outras também, o movimento por si só não bastava, ainda que fosse algo a ter em conta (e pelo menos isso valia qualquer coisa).

O que nos leva a destacar um último aspeto: porventura este movimento da classe trabalhadora nos EUA – devidamente enquadrado por via das novas circunstâncias sociais e económicas vividas –, meio cego, mais espontâneo do que outra coisa, fosse propenso às tendências registadas pela maior parte dos alemães com responsabilidades políticas, o que podia contribuir para que estes (já de si não sendo “por regra os melhores”) se sentissem como “guias” naturais daquelas bandas (dada a sua experiência na Europa) 45.

Enfim, com vista a terminar, e porque se anunciou que a reflexão presente contribuía, de alguma maneira, para a compreensão da conceção materialista da história, podemos dizer que o faz na medida em que, no que diz respeito à sua perspetiva política, se destaca a questão da importância de um partido da classe trabalhadora.

O movimento realmente, na ótica de Marx e Engels, não pode ser tudo, era necessária uma organização que o conduzisse de certa maneira, que o instruísse dos objetivos, sem se constituir em “dono” daquele 46.

A reflexão destes dois autores pode ser, além de questões meramente teóricas, bastante atual – daí o enfoque nas questões de estratégia político-partidária –, pois que os partidos que se reclamam da classe trabalhadora hoje são, apesar de tudo, bem mais do que na segunda metade do século XIX, mas, por outro lado, bem menos expressivos do que na segunda metade do século XX.

Engels desabafava a Sorge, em 1891, que o movimento nos EUA ia muito abaixo nos períodos de refluxo, que, com esses trabalhadores, era uma longa sucessão de altos e baixos (ups and downs) das lutas; tratava-se pois de se perceber que cada novo momento “baixo” mantinha sempre um pouco mais do que havia de antes (cf. ENGELS, 1979g [1891]: 182), por conseguinte, não valia a pena quedar-se em desânimo.

Referências:

ANDERSON, Kevin B. Marx at the margins: on nationalism, ethnicity, and non-western societies. Chicago-London: The University of Chicago Press, 2010.

ENGELS, Friedrich. Die Lage der arbeitenden Klasse in England. Nach eigner Anschauung und authentischen Quellen. Marx-Engels Werke(doravante: MEW). Berlin: Dietz Verlag; 1962 [1845], vol. 2, pp. 225-506.

ENGELS, Friedrich. “Brief an Friedrich Adolph Sorge, 20. Juni”. MEW; 1967a [1882], vol. 35, pp. 332-333.

ENGELS, Friedrich. “Brief an Eduard Bernstein, 2/3. November”. MEW; 1967b [1882], vol. 35, pp. 386-390.

ENGELS, Friedrich. “Brief an Friedrich Adolph Sorge, 7. Dezember”. MEW; 1967c [1889], vol. 37, pp. 320-323.

ENGELS, Friedrich. “Brief an Friedrich Adolph Sorge, 8. Februar”. MEW; 1967d [1890], vol. 37, pp. 352-355.

ENGELS, Friedrich. “Brief an Hermann Schlüter, 11. Januar”. MEW; 1967e [1890], vol. 37, pp. 340-342.

ENGELS, Friedrich. “Brief an Friedrich Adolph Sorge, 2. Dezember”. MEW; 1968 [1893], vol. 39, pp. 172-174.

ENGELS, Friedrich. The Condition of the Working-Class in England. From Personal Observation and Authentic Sources. Translated by Florence Kelley-Wischnewetzky. Marx-Engels Collected Works (doravante: MECW). London-New York: Lawrence & Wishart-International Publishers; 1975 [1887], vol. 4, pp. 295-596.

ENGELS, Friedrich. “Brief an Friedrich Adolph Sorge, 29. Juni”. MEW; 1979a [1883], vol. 36, pp. 45-47.

ENGELS, Friedrich. “Brief an Friedrich Adolph Sorge, 29. April”. MEW; 1979b [1886], vol. 36, pp. 476-480.

ENGELS, Friedrich. “Brief an Friedrich Adolph Sorge, 16/17. September”. MEW; 1979c [1886], vol. 36, pp. 532-534.

ENGELS, Friedrich. “Brief an Friedrich Adolph Sorge, 29. November”. MEW; 1979d [1886], vol. 36, pp. 578-581.

ENGELS, Friedrich. “Brief an Friedrich Adolph Sorge, 16. September”. MEW; 1979e [1887], vol. 36, pp. 704-705.

ENGELS, Friedrich. “Brief an Friedrich Adolph Sorge, 10. Juni”. MEW; 1979f [1891], vol. 38, pp. 111-112.

ENGELS, Friedrich. “Brief an Friedrich Adolph Sorge, 24. Oktober”. MEW; 1979g [1891], vol. 38, pp. 182-184.

ENGELS, Friedrich. “Brief an Hermann Schlüter, 30. März”. MEW; 1979h [1892], vol. 38, pp. 313-315.

ENGELS, Friedrich. “Brief an Friedrich Adolph Sorge, 31. Dez.”. MEW; 1979i [1892], vol. 38, pp. 560-565.

ENGELS, Friedrich. “Sul movimento socialista in Germania, Francia, Stati Uniti e Russia”. Marx-Engels Gesamtausgabe (doravante: MEGA.). Berlin: Dietz Verlag; 1985 [1879], I, vol. 25, pp. 119-121.

ENGELS, Friedrich. Appendix [to the american edition of The Condition of the Working Class in England]. MECW; 1990a [1887], vol. 26, pp. 399-405.

ENGELS, Friedrich. The Labor Movement in America [Preface to the American Edition of The Condition of the Working Class in England]. MECW; 1990b [1887], vol. 26, pp. 434-442.

ENGELS, Friedrich. “Letter to Florence Kelley-Wischnewetzky, June 3”. MECW; 1995a [1886], vol. 47, pp. 451-452.

ENGELS, Friedrich. “Letter to Florence Kelley-Wischnewetzky, December 28”. MECW; 1995b [1886], vol. 47, pp. 540-542.

ENGELS, Friedrich. “Letter to Florence Kelley-Wischnewetzky, January 27”. MECW; 2001a [1887], vol. 48, pp. 8-9.

ENGELS, Friedrich. “Letter to Florence Kelley-Wischnewetzky, February 9”. MECW; 2001b [1887], vol. 48, pp. 15-20.

JOHNSON, Oakley C. Marxism in United States history before the Russian Revolution (1876-1917). New York: A.I.M.S. by Humanities Press, 1974.

MARX, Karl. Das Kapital. Kritik der politischen Ökonomie. MEW; 1962 [1867], vol. 23.

MARX, Karl. “Brief an Engels, Jul. 25”, MEW; 1966a [1877], vol. 34, pp. 59-62.

MARX, Karl. “Brief an Friedrich Adoph Sorge, 5. November”. MEW; 1966b [1877], vol. 34, pp. 474-478.

MARX, Karl. “Brief an Engels, 11. January”. MEW; 1974 [1860], vol. 30, pp. 5-7.

MARX, Karl. “Brief an Carl Speyer, 10. November, 1871”. MEW; 1976a [1871], vol. 33, pp. 317-318.

MARX, Karl. “Brief an Friedrich Bolte, 23. November, 1871”. MEW; 1976b [1871], vol. 33, pp. 327-333.

MARX, Karl. The civil war in France. Marx and Engels: On the Paris Commune. Moscou: Progress Publishers (third printing); 1980 [1871], pp. 48-101.

MARX, Karl. “To Abraham Lincoln, President of the United States of America”. MECW; 1985a [1865], vol. 20, pp. 19-21.

MARX, Karl. “Address to the National Labour Union of the United States [May 12]”. MECW; 1985b [1869], vol. 21, pp. 53-55.

MARX, Karl. “Record of Marx’s Interview with The World Correspondent [July 3]”. MECW; 1986 [1871], vol. 22, pp. 600-606.

MARX, Karl. “Account of Karl Marx’s Interview with the Chicago Tribune correspondent”. MECW; 1989 [1879], vol. 24, pp. 568-579.

MARX, Karl-ENGELS, Friedrich. “Revue [Januar-Februar 1850]”. MEW; 1960 [1850], vol. 7, pp. 213-225.

MORAIS, Herbert M. “Marx and Engels on America”. Science & Society, vol. 12, n.º 1, A Centenary of Marxism (Winter, 1948), 1948, pp. 3-21.

NEUMAN, Heinz. Marx and Engels on Revolution in America. Chicago: Daily Worker Pub. Co., 1925.

WALLING, William E. “Socialism and Pragmatism as seen in the Writings of Marx and Engels (Appendix A)”. The Larger Aspects of Socialism. New York: The MacMillan Company; 1913, pp. 373-385.

WOLFE, Bertram D. Marx and America. New York: John Day Company, 1934.

WOODS, Alan. Marxism And The U.S.A. Aakar Books, 2009.

_____________________________________________________________________________________

Autor(a) para correspondência: Paulo Fernando Rocha Antunes, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Alameda da Universidade, 1600-214, Portugal. pauloantunes@campus.ul.pt

_____________________________________________________________________________________ *Este texto retoma, reformula e desenvolve uma versão preliminar – “Marx, Engels e o american labor movement” – comunicação proferida no III Congresso Internacional Marx em Maio - No bicentenário do nascimento de Karl Marx, 3 a 5 de maio de 2018, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Org. Grupo de Estudos Marxistas (GEM).

HMTL gerado a partir de XML JATS4R por