Resenhas

Recepção: 10 Março 2019
Aprovação: 12 Maio 2019
MAFFESOLI, Michel. Pactos emocionais: reflexões em torno da moral, da ética e da deontologia. Tradução de Eduardo Portanova Barros. Curadoria de Fabiano Incerti. Curitiba: PUCPRESS, 2018.
Este pequeno livro lançado pelo Instituto Ciência e Fé da PUCPR compõe uma de suas coleções que está sob a curadoria de Fabiano Incerti, Professor do curso de Filosofia na mesma Instituição e Diretor do mencionado Instituto. Cito isto, pois a obra que resenhamos é o coroamento de contatos que foram sendo estabelecidos desde 2016, quando se pensou uma conferência de Michel Maffesoli na PUCPR. À época, me lembro bem, ele tratou do tema ‘o retorno do trágico na pós-modernidade’, apresentando uma leitura muito peculiar sobre a noção de ‘trágico’. De seu encontro na PUCPR, em abril de 2017, resultou no interesse, manifesto a Maffesoli pelo curador da respectiva coleção, Professor Fabiano Incerti, de publicar alguns de seus escritos que ainda não estivessem traduzidos no Brasil. Foi quando Maffesoli nos sugeriu a presente obra Pactos emocionais: reflexões em torno da moral, da ética e da deontologia, com tradução de Eduardo Portanova Barros, amigo de Michel Maffesoli e profundo conhecedor de seu pensamento, que se dispôs em assumir, com entusiasmo, essa tarefa.
Michel Maffesoli é o autor de O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa. Nela o autor apresenta uma interpretação inovadora a respeito da sociedade contemporânea – a formação das tribos urbanas que revelam a nova lógica das relações sociais: não mais o movimento de construção/fortalecimento de identidades, mas a diluição do sujeito em grupos afins por um processo de identificação. Esse pensamento foi contra uma das correntes de pensamento contemporânea que defende a hiperindividualização, isto é, processos acentuados que levam o sujeito a constituir uma identidade e se fechar, cada vez mais, sobre si mesmo. Apesar da originalidade do autor, seu pensamento foi sendo assimilado muito lentamente, reflexo de observações e apontamentos comuns em seus textos: a crítica a um movimento vanguardista que busca, por todos os meios, conservar as interpretações modernas da sociedade. A obra O tempo das tribos é permeada de reflexões que tocam a discussão abordada em Pactos emocionais, a saber: apontamentos em torno da moral, da ética e da deontologia. E é sobre eles que passaremos a discutir.
No prefácio de Pactos emocionais, Maffesoli expõe a questão central do livro – a saturação da moral moderna, sua substituição pelas éticas comunitárias e a (re)abertura aos situacionismos. A pós-modernidade anuncia, por meio de suas novas justaposições, o fim do mito do progresso que fundamentou a lógica do dever-ser. Ao mesmo tempo em que essa noção de ‘progresso’ servia como fundamento para as teses moralistas, ela era retroalimentada pelo próprio moralismo que possibilitava. Um ciclo vicioso difícil de ser rompido e que demandava seu preço: abrir mão da concreticidade da vida “aqui e agora” (p. 4 e p. 51) em prol do sonho de uma sociedade futura perfeita. A modernidade, visando dar seus primeiros passos rumo à concretização dessa ‘Cidade do Sol’., excluiu e afastou a dimensão sensível da existência. Ela marginalizou, segundo Maffesoli, “todos os afetos: emoções, paixões, sentimentos” (p. 4). Estes, então, evacuados do contexto social encontraram apenas um espaço restrito para sua realização: a dimensão da vida privada. Para Maffesoli, o pensamento moderno constitui, por essa razão, uma forma de escatologia, de religião profana, pois: “todos ficam à espera de um mundo perfeito, um mundo por vir” (Cf. p. 3), mas que nunca chega. Essa é a base que fundamenta a reflexão moral da modernidade e que projeta a lógica do dever-ser, de caráter universal e determinista, como único caminho para realização dessa sociedade prometida. Mas, como sabemos a tempo, a perfeição é um estado ao qual nunca se alcança plenamente. Por conhecer bem esse pensamento, a pós-modernidade não abre mão de viver intensamente o presente e o que ele tem para oferecer. Esse é o primeiro ponto discrepante apresentado por Maffesoli, em Pactos emocionais, que nos demonstra dois modos de compreender a relação que se estabelece com o tempo e, a partir desta, a determinação para com o agir no presente.
A pós-modernidade apresenta-se como um campo fértil para o renascer e florescer do hedonismo, de um epicurismo cotidiano, do carpe diem, da felicidade de viver e de curtir o presente sempre na dimensão do “aqui e agora” (p. 4). Como ele afirma em outra obra., cada época histórica escolhe e privilegia uma dimensão temporal. A modernidade, a partir do racionalismo progressista, destacou a valorização do futuro e a crença nas promessas de tempos vindouros melhores. A pós-modernidade, por sua vez, traduz a escolha pelo presente e, neste, pelas coisas do quotidiano, pelo comum, pelo vivencial concreto. Desprende-se, assim, dessas atitudes o que o pensador chama de presenteísmo. Apesar de mudanças significativas que caracterizariam uma nova ontologia do ser na pós-modernidade, há, ainda, um ‘conformismo intelectual’(p. 6), por parte de certos pesquisadores, que os indispõe frente esse novo cenário que se configura e torna seus discursos algo como o que a expressão francesa busca expressar “langue de boi” (p. 10), isto é, discursos demagógicos que nada mais fazem que propagar um ambiente dogmático em prol de saberes instituídos. Segundo Maffesoli é só quando retomarmos a clareza de que “as coisas são o que elas são” (p. 15), que superaremos a “ingenuidade de acreditarmos que somos nós que as criamos” (Cf. p. 15). Talvez, segundo Maffesoli, seja preciso utilizar os mesmos termos, mas ressignificados, isto é, com novos contornos que nos auxiliem a delinear a pós-modernidade. Esse é caso, por exemplo, quando ele se apropria do termo ‘estética’, tomando um significado bem distante do que comumente se tem dado.
Por isso, resgatando o real significado dos termos ‘moral’, ‘ética’ e ‘deontologia’, Maffesoli demonstra neste livro como, muitas vezes, eles são utilizados como sinônimos ou mesmo empregados de maneira equivocada. Se a modernidade, pela valorização de projetos futuros, estabeleceu parâmetros universais para a realização dos mesmos, a pós-modernidade, pela valorização dos momentos presentes, compreende que hajam aspectos particulares, restritos, muitas vezes, a pequenos grupos/tribos. Buscaremos apresentar, nas linhas que se seguem, o que diferencia a ética da moral, segundo Maffesoli, para que não pensemos como “alguns pensam que o termo ‘ética’ é um nome chique para ‘moral’ (Cf. p. 40). É preciso fazer, segundo o pensador, os “ajustamentos semânticos” destes termos (cf. p. 23). Nas linhas que se seguem, falaremos da deontologia.
Conforme Maffesoli, se observamos o quotidiano com o devido cuidado e acuidade, verificaremos um vitalismo dinâmico que se apresenta claramente nas tribos contemporâneas. Além disso, tal vitalismo denuncia o que comentamos acima, mas vale ressaltarmos: a inversão dos valores estabelecidos pela tradição moderna. Assim sendo, a passagem do “cogito ergo sum cartesiano para o delinquente odium ergo sum (odeio, logo sou)” (cf. p. 17), faz todo o sentido. Não é mais a razão que define o Homem na pós-modernidade; mas é o emocional que traduz uma lógica societal fluída, inconstante e efervescente. Essa revanche do afetivo sobre o racional demonstra os novos laços que se estabelecem nos relacionamentos interpessoais: não mais a ideia de contrato, mas de pactos emocionais. Isso permite compreendermos a pluralidade de tribos pós-modernas, a efervescência destas tribos e concluirmos que este é um período policultural, onde não há mais espaço para moralismos. Desta forma, a questão que se clarifica é que “após o ciclo do universalismo moral, retorna o particularismo ético” (p. 39). Ao contrário da moral, a ética é imanente e está focada no presente. Ela ajusta-se a realidade dos mundos vividos tal como eles são. É por essa razão que podemos dizer que ela é imoral, na medida em que vai contra universalismos e valoriza os situacionismos. É perceptível, nesse novo contexto, o fim da noção de indivíduo e o surgimento de grupos de identificação, sejam eles em relação ao gosto musical ou a alguma Estrela da música, à culinária, à estética corporal ou a alguma Estrela de cinema, etc. Isso nos revela que não constituímos mais identidades; apenas nos identificamos temporariamente com algo ou algum grupo, mas todas essas identificações são intercambiáveis.
Com o foco no presente e nesse movimento de identificação que gera tribos, o que a pós-modernidade tem nos demonstrado é um intenso movimento de religação que demonstra, pelo menos, se não a integração da dimensão racional e emocional do humano, nos alerta para o sobressalto do emocional em relação ao racional. Após o processo de desencantamento do mundo proporcionado pelo racionalismo exacerbado da modernidade, a pós-modernidade está retomando indiretamente este reencantamento do mundo com essa sede expressa de religação com o outro que, segundo Maffesoli, poderíamos chamar de ‘religiosidade’ em seu sentido mais amplo, ou seja, aquilo que liga/reúne/agrupa as pessoas em torno de algo que as toca emocionalmente. Desta forma, se a razão serviu como instrumento para desencantar o mundo, a poesia e as artes, relegadas por tanto tempo na história do pensamento, tratarão de reencantá-lo novamente. Desta forma, a pós-modernidade rompe com o esquizofrenismo da supervalorização de uma dimensão do humano, estabelecendo a “‘inteireza’ do ser” (p. 8) e expressando a “complexidade do ser humano” (p. 44). Em suma, segundo Maffesoli, vemos o advento de um homo festivos que “manifesta um emocional cada vez mais indiscreto” (p. 43) e que substituiu o homo economicus e o homo politicus, duas figuras tipicamente modernas.
Diante de um cenário de catástrofes naturais e em que problemas ambientais vem se agravando, fruto da ação humana exploratória e utilitarista, Maffesoli não deixa de apresentar, de modo conciso em Pactos emocionais., sua posição a respeito desse comportamento. De maneira positiva, afirma que a pós-modernidade tem desenvolvido um pensamento ecosófico, ou uma ecosofia, que nada mais é do que “a sabedoria coletiva no que diz respeito à casa comum que se tem de cuidar, não devastando-a a nosso bel-prazer” (p. 46). Sabedoria, muitas vezes, não consciente, mas que “sabe limitar sua atitude predatória” (p. 46). Diante de cenários tão complexos em relação ao meio ambiente, somente essa ‘sabedoria coletiva’ mencionada pelo autor, que se apresenta pelas estruturas antropológicas do imaginário comum, poderá limitar a ação humana nociva. Como afirma, é preciso “não se ter a pretensão de controlar e dominar o mundo, mas, pelo contrário, a humildade, para a qual não deveria faltar grandeza, de se adaptar a ele como seu guardião atento e atencioso” (p. 47). A ética está retomando essa familiariadade com o mundo, com o lugar (site) em que nos encontramos, no qual estamos enraizados, e que nos destaca a importância do cuidado com a casa comum.
Em resumo, dizer que a ética se refere ao particular, consiste em afirmar outras coisas nesse conjunto. Dois pontos primordiais que advém desta afirmação são: “ela é a expressão de uma sociedade aberta, policultural e relativista” (cf. p. 45); e, “significa dizer que o ethos consiste em aceitar, sem ilusão, as coisas do jeito que elas são” (p. 47). Superando a langue de bois, é preciso reconhecermos, em cada momento histórico, a riqueza de seus detalhes. Antes do pensamento filosófico que propõe interpretações críticas a respeito da realidade, é preciso reconhecer que realidade é essa que está se expressando. É por isso que Maffesoli fala da necessidade de uma sociologia compreensiva que, sem emitir juízos, sem os a priori, se limita a fazer ver o que a realidade social é tal e qual.
Passando ao tema da deontologia, ou deontologias, segundo Maffesoli: “elas são expressão de um impulso vital cuja evanescência é sua característica primeira” (Cf. p. 51). Essa efemeridade caracteriza-as como “trágicas” (p. 52), pois é na própria ação que se tem o desfecho da situação, isto é, é no próprio instante que se pode ser feliz ou infeliz, não havendo projeção futura, pois é no instante que a coisa acontece. Isso decorre de um cenário onde não há mais noções substanciais como outrora - Deus, Estado, Nação, Contrato, etc. -, que eram os parâmetros para a ação humana. Sem elas, o sujeito precisar tomar suas decisões e agir a partir do que a lógica situacional lhe proporciona. Não há mais imperativos a priori. O que há, ao contrário, são “sucessões de momentos únicos, que implicam uma série de decisões” (Cf. p. 52). A noção de trágico, presente nas deontologias, nos lembra ainda da facticidade da vida e acentua, conforme Maffesoli, “a grandeza da situação, as situações concretas, que induzem a uma criatividade real” (p. 52). Nesse sentido, as deontologias podem ser denominadas também como “situacionismos” (p. 52) ou lógicas situacionais. Emerge delas uma intensidade das relações que é característica da pós-modernidade. Intensidade, esta, afetual onde “o emocional é mais que o racional” (p. 53). Em resumo, “as deontologias reconhecem que é inútil procurar um sentido (finalidade) para as coisas e para a vida” (p. 54). A atitude sábia é aquela que desprovida do a priori consegue viver o trágico da facticidade da vida. Completando o quadro das considerações a respeito da deontologia, Maffesoli afirma que o caráter adaptativo que a deontologia carrega, está atrelado a dimensão da presença do outro. Ela engendra, nas situações concretas, a presença física do outro onde este limita o que é pensado e a maneira como agimos. “Existimos apenas pelo . sob o olhar do outro” (p. 57). Desta forma, podemos dizer que a deontologia também é uma forma de engajar-se com o outro, pelo outro e para o outro. Mais um elemento que demonstra o declínio do individualismo moderno. Preocupar-me com esse olhar do outro sobre mim – e vice-versa – é, de alguma maneira, engajar-me com ele.
Em suma, e direcionando-nos ao final do livro, Maffesoli faz uma ligação da moral, da ética e da deontologia com as expressões “dever-ser”, “poder-ser” e “querer-ser”, respectivamente. Para ele, “estas são as modalidades do laço cívico. É preciso saber encontrar aquela que é congruente com o nosso tempo, encontrar as palavras que nos permitem remediar os males do momento” (p. 62). Enfim, é preciso retomar a velha máxima lógica aristotélica: dizer o que é, do que é, eis a verdade.
Na sequência do texto de Maffesoli, o leitor tem acesso a uma entrevista que o autor concedeu a Eduardo Portanova Barros, tradutor deste texto, relacionada ao tema deste livro.
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Autor(a) para correspondência: Douglas Borges Candido, Pontifícia Universidade Católica do Paraná, PUCPR, Rua Imaculada Conceição, 1155 – 80215-901, Curitiba-Paraná-Brasil. douglas.candido@pucpr.br
Notes
[←1]
Doutorando em Filosofia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Curitiba – PR, Brasil.
[←2]
Fazemos menção parcial ao título da obra do filósofo renascentista Tommaso Campanella, A cidade do Sol, onde postula um projeto ideal/perfeito de cidade. Mas, para isso, é preciso algumas mudanças significativas na ordem do pensamento. De certa maneira, a obra Nova Atlântida, de Francis Bacon, reflete a ambiência ilumunista de projetar realidades futuras com certas observâncias no presente. Seguindo esse pensamento geral, identificamos na modernidade uma proposta geral que se caracteriza pelos ditames racionalistas de um futuro promissor em prol de um presente de sacrifícios. Maffesoli, para referir-se a esse modelo perfeito de sociedade prometido pela modernidade, refere-se a um termo utilizado por Santo Agostinho, a chegada da “Cidade de Deus” (p. 42).
[←3]
MAFFESOLI, Michel. O ritmo da vida: variações sobre o imaginário pós-moderno. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2007, p. 186.
[←4]
Ao interessado nesta discussão, faço referência ao estudo pormenorizado de Maffesoli na obra Ecosofia: Un’ecologia per il nostro tempo. Itália: Diana Edizioni: 2018.