Resenhas

| VIEIRA Francisco Eduardo, FARACO Carlos Alberto. 2019. São Paulo. Parábola. 128 ppp. |
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Recepção: 13 Agosto 2019
Aprovação: 15 Setembro 2019
Thomas Mann dizia que o escritor é um homem que, mais do que qualquer outro, tem dificuldade para escrever. Se o Nobel de Literatura alemão considerado um dos maiores romancistas do século XX definia dessa forma o ato da escrita, o que esperar dos estudantes universitários que, para sair das escolas com o tão almejado diploma, precisam se embrenhar pela linguagem acadêmica e, nela, enfrentar o árduo desafio de redigir? É especialmente para esse público que Francisco Eduardo Vieira e Carlos Alberto Faraco se dirigem no livro Fundamentos, primeiro volume da série Escrever na Universidade lançada pela editora Parábola.
O conjunto da obra nasceu da experiência dos autores como docentes de produção de texto e de suas próprias dificuldades na prática de ajudar os alunos no desenvolvimento do letramento acadêmico. Tarefa essa tanto complexa quanto instigante quando trata de inserir nas práticas de linguagem universitárias estudantes que, não raramente, trazem do ensino básico lacunas abissais para o domínio da escrita. Na sequência de Fundamentos, a compilação é composta também por Texto e discurso (segundo volume da coletânea) e Gramática (terceiro título da série). Aqui, porém, o enfoque será dado apenas ao primeiro livro da coleção.
Assim, pode-se afirmar que Fundamentos é, claramente, um livro de motivações pedagógicas. Seu propósito essencial parece ser o de oferecer um suporte para a redação de textos do domínio acadêmico-científico, em seus mais variados gêneros. Em outras palavras, contribuir para o estudante escrever melhor.
Nessa interlocução, utiliza uma linguagem simples e didática e recheia sem parcimônia as teorias que aborda, em quatro capítulos, com exemplos e atividades práticas, apostando na técnica do aprender fazendo. A Unidade 1 apresenta um breve panorama da evolução da escrita e introduz as bases para a elaboração de um texto. De forma bastante leve e acessível, ressalta aspectos relevantes como o planejamento prévio daquilo que se pretende escrever e o controle da escrita para garantir que o texto esteja ficando claro, que tenha unidade temática, sequência lógica e coesão. Ponto chave para qualquer escritor, o capítulo reforça a ideia do leitor presumido e da importância de adequar o estilo do texto a esse leitor. “Escrevemos, então, para alguém ler, mesmo não sabendo de quem se trata concretamente. Esse alguém imaginário participa da programação e construção do nosso texto, orientando todas as nossas escolhas.” (p. 27). Já nessa unidade são propostos os primeiros exercícios de produção escrita.
A Unidade 2 alarga o espectro de pontos as serem considerados no desenvolvimento de um texto, orientando o leitor sobre como fazer. Aqui, o foco é a leitura. Os autores reforçam que é, principalmente, pelo ato de ler, observar e analisar textos alheios que se aprende a organizar o próprio texto e a selecionar os recursos linguísticos mais adequados. Ou seja, é lendo e familiarizando-se com as características mais comuns de cada gênero que se pode aprimorar a própria escrita. Ainda sobre a ação de ler, reforça-se na obra, em consonância com outros autores: “Quando lemos, não apenas decodificamos passivamente o conteúdo do que está escrito, mas ativamos uma rede de conhecimentos prévios para estabelecer relações entre as informações que constam do texto e para inferir as informações não explicitadas nele.” (p. 115).
Considerando a importância da leitura para aprimoramento da escrita, cabe nessa Unidade, ainda, um espaço para atualizar o debate na perspectiva da circulação de informações na internet, das características dos textos digitais e de como essas especificidades afetam o próprio ato de ler. Uma interessante e pertinente discussão sobre fake news aborda a questão do compartilhamento fácil de informações e da necessidade (e impossibilidade) de checar a veracidade do que se lê. Ainda no contexto das práticas digitais, destaca também o conceito de pós-verdade – em que mais importante do que relatar fatos é ser convincente – e as consequências do compartilhamento de inverdades.
Na sequência, a Unidade 3 é dedicada a uma breve discussão sobre a variação linguística na escrita. Nela evidencia-se a presença irrefutável da variação nas práticas orais e o preconceito em relação aos modos de falar das classes socialmente menos favorecidas. Sua principal contribuição, no entanto, está na conversa que estabelece com o leitor em relação ao conceito de gênero textual. Apreende-se, assim, que ao escrever o aluno (público-alvo do livro) deve, necessariamente, considerar as convenções composicionais de cada gênero, ou os padrões estruturais que são recorrentes no tipo de texto que se propõe a redigir.
Por fim, a última Unidade contextualiza a escrita na universidade, focalizando os gêneros discursivos que fazem parte desse espaço. Nem de longe exaustiva, é dada uma lista dos principais gêneros presentes no campo acadêmico, entre eles o artigo científico, a monografia, a dissertação, o fichamento, o resumo, a resenha – atendo-se especialmente nesses três últimos, que são ilustrados com exemplos. Interessante ressaltar que a alta especialização da escrita acadêmica e o papel que ela desempenha na formação do docente e na comunicação e circulação do conhecimento é algo reforçado não apenas na voz dos autores de Fundamentos, mas também em textos que aparecem como suporte para as atividades práticas propostas. Vieira e Faraco fazem esse jogo ao longo de todo o livro. Utilizam, como corpo para os exemplos e os exercícios, textos cujos temas circundam justamente os conteúdos ora tratados, o que constitui mais uma estratégia pedagógica da obra.
Embora tenha um caráter eminentemente prático, o livro Fundamentos está baseado em sólidas teorias linguísticas do texto e do discurso, que constituem um campo farto de pesquisa sobre a escrita escolar. Numa abordagem atual e metalinguística, traz discussões pertinentes sobre assuntos tangentes à escrita acadêmica, como a questão das fake news e das formas como as práticas de leitura em meios digitais afetam o próprio ato de ler e, consequentemente, a escrita.
Trata-se de uma obra sucinta, mas nem por isso rasa ou desnecessária. Pela perspectiva dos novos estudos, todo letramento está situado em práticas sociais específicas, inseparáveis dos contextos em que se desenvolvem. Pensando na esfera universitária, “ser academicamente letrado significa que um aprendiz tem um repertório de estratégias efetivas para compreender e usar as diferentes linguagens, especializadas e contextualizadas, no domínio acadêmico.” (FISCHER, 2008, p. 181). Entretanto, é possível que muitos alunos, ao ingressar nesse espaço, sintam-se distantes das práticas de letramento que ali circulam. Para estes, principalmente, a leitura de Fundamentos pode ser um bom começo.
Referências
FISCHER, A. Letramento acadêmico: uma perspectiva portuguesa. Revista Acta Scientiarum. Language and Culture, Maringá, v. 30, n. 2, p. 177-187, jul.-dez. 2008.
Ligação alternative
https://periodicos.ufmg.br/index.php/textolivre/article/view/16865 (html)