Resumo: Diferentemente do pensamento tradicional acerca das Cruzadas, entre fins do século XI e a primeira metade do século XIII, houve grande envolvimento de cruzados oriundos do Sacro Império Romano, particularmente do reino da Germânia. Este processo gerou consideráveis implicações na vida política e cultural germânica do período. Podemos constatar tal fato na produção lírica em médio-alto-alemão, que abrange duas grandes categorias: o Minnesang – o canto da minne (amor) – e a Spruchdichtung (poesia sentenciosa). Estas podem, por sua vez, ser subdivididas em outras tantas, sendo uma delas a Kreuzlied, na qual os poemas têm seu eu lírico tematizando o movimento das Cruzadas. Walther von der Vogelweide, Hartmann von Aue, Friedrich von Hausen, Albrecht von Johansdorf, Otto von Botenlouben e Heinrich von Rugge são exemplos de Minnesänger que apresentaram em suas canções temas como a participação nas expedições cruzadas, o contato com o outro (no caso os islâmicos), o discurso da minne, a despedida e os embates religiosos e laicos. Esse artigo pretende, desta forma, analisar alguns exemplos dessa lírica com a finalidade de compreender de que forma o movimento cruzado é representado pelos Minnesänger da época, assim como discutir a inserção dos germânicos na história das Cruzadas.
Palavras-chave:Idade Média CentralIdade Média Central,Sacro Império RomanoSacro Império Romano,dinastia dos Stauferdinastia dos Staufer,lírica de Cruzadaslírica de Cruzadas,médio-alto-alemãomédio-alto-alemão.
Abstract: Contrary to the traditional thinking about the Crusades, between the end of the eleventh century and the first half of the thirteenth century there was great involvement of crusaders from the Holy Roman Empire, particularly from the kingdom of Germany. This process had considerable implications for the German political and cultural life of the period. We can see this fact in lyric production in medium-high-German, which covers two broad categories: the Minnesang, the song of the minne (love), and the Spruchdichtung (sententious poetry). These can, in turn, be subdivided into many categories, including the Kreuzlied, a poem in which the lyrical self thematizes the Crusader movement. Walther von der Vogelweide, Hartmann von Aue, Friedrich von Hausen, Albrecht von Johansdor, Otto von Botenlouben and Heinrich von Rugge are examples of Minnesänger who presented in their songs themes such as the participation in the Crusades, contact with the other (in this case Islamists), the minne’s speech, the farewell, and religious and secular struggles. This article intends to analyze some examples of this lyric in order to understand how the Crusader movement is represented by the Minnesänger of that time, as well as to discuss the insertion of Germans in the history of the Crusades.
Keywords: High Middle Ages, Holy Roman Empire, Staufer dynasty, Crusader lyric, medium high German.
Artigos
Kreuzlieder: encontros entre a Poesia e a História acerca das expedições germânicas às Cruzadas (1188-1228)
Kreuzlieder: Encounters between Poetry and History about the German expeditions to the Crusades (1188-1228)

Recepção: 14 Novembro 2017
Aprovação: 03 Maio 2018
Entre 1305 e 1340 foi compilado o assim chamado Codex Manesse (Codex Palatinus Germanicus, 848), ou Große Heidelberger Liederhandschrift, por encomenda de um rico burguês de Zurique, Rüdiger Manesse. Esse manuscrito concentra em si a maior antologia da lírica trovadoresca germânica, o Minnesang, reunindo canções de nada menos do que 137 autores, em uma abrangência cronológica que pode ser datada de por volta de 1170 até cerca de 1300 (Walther e Siebert, 1988, p. IX-XVII). Guardadas as devidas diferenças, poder-se-ia dizer que o Codex Manesse seria um análogo germânico do conhecido Cancioneiro d’Ajuda português. Um dos maiores diferenciais do manuscrito germânico está em seu conteúdo imagético: cada Minnesänger[3] tem, no início de sua coletânea, uma iluminura de página completa a representá-lo, segundo a imaginação do século XIV a seu respeito.
Assim sendo, o fólio 116v do manuscrito apresenta uma iluminura que busca representar o Minnesänger Friedrich von Hausen (c. 1155-1190), como veremos a seguir:

Figure 1. Friedrich von Hausen, as represented in the Codex Manesse (Cod. Pal. germ. 848, f. 116v).
(Cod. Pal. germ. 848, f. 116v).Posicionado no centro da imagem, coberto por um rico manto escarlate com debruns dourados, o Minnesänger se encontra em um navio com dois mastros, um vermelho (à sua esquerda) e um negro (à sua direita). Ambos são interessantes por portarem artifícios característicos da “gramática” das representações no Codex Manesse, a dizer: no mastro vermelho, a vela em muito se assemelha à presença de uma longa tira de pergaminho (dispositivo adotado no manuscrito para representar o ato de criação poética), e o cesto de gávea presente no mastro negro foi composto a partir dos elementos que o século XIV atribuiu ao brasão de Friedrich von Hausen[4].
Até onde se sabe, os compiladores do manuscrito não possuíam informações biográficas de monta acerca de Friedrich von Hausen. Mas, evidentemente, conheciam suas canções e, de forma incomum, também sabiam sobre sua morte. Ambos os indícios apontavam para um único evento: sua participação na expedição germânica comandada pelo imperador Frederico I Barbarossa[5] ao Oriente durante a Terceira Cruzada[6].
Entretanto, suas canções ligadas à Cruzada não são únicas nem incomuns. Na verdade, fazem parte de um subgênero do Minnesang denominado Kreuzlieder (Kreuzzugslieder), as canções de Cruzada. Desta forma, selecionamos as principais canções daqueles poetas cuja participação em alguma das expedições cruzadas germânicas, recorrentes entre 1187 e 1225, fosse comprovada ou presumida, sendo eles: o já mencionado Friedrich von Hausen, Hartmann von Aue, Albrecht von Johansdorf, Heinrich von Rugge, Otto von Botenlouben e Walther von der Vogelweide[7], todos elencados no Codex Manesse. Pensar uma poética das Cruzadas é, portanto, pensar que, para falar sobre Cruzadas, os poetas utilizam-se de figuras de linguagem e termos reiterados em cada um dos seus versos; elementos que são retomados ou negados por uma tradição literária que vai se estabelecer ao longo do século XII.
A partir desse critério, dedicamo-nos a analisar, além de suas canções, o contexto maior do envolvimento germânico com as Cruzadas, algo pouco discutido em nossa historiografia, e as relações entre esse processo e essas obras, buscando compreender a retroalimentação entre texto e contexto.
Por volta de 1170, um clérigo da catedral de Würzburg chamado Johann escreveu a seu colega na mesma diocese, Dietrich, para relatar-lhe sua visita à Terra Santa. Em meio a esta missiva, Johann nos expõe um argumento diferente do senso comum acerca das Cruzadas, visível na historiografia nela focada[8], que nos induz a considerar o movimento cruzadístico como um empreendimento quase que exclusivamente ligado aos reinos de França ou da Inglaterra (este em menor escala):
Três dias depois, é comemorado o aniversário do nobre Duque Godofredo [de Bouillon], de feliz memória, chefe e líder dessa sagrada expedição, nascido de uma família germânica. Seu aniversário é solenemente observado pela cidade, com abundante entrega de esmolas na grande igreja, conforme ele próprio havia determinado ainda em vida.
Mas, embora ele seja homenageado dessa maneira por seus feitos, a tomada da cidade não lhe é creditada com seus [guerreiros] alemães, que suportaram parte considerável dos labores dessa expedição, mas, ainda assim, atribuída apenas aos franceses.
No entanto, o duque Godofredo e seu irmão Balduíno (que foi feito rei em Jerusalém sucedendo-o, título que o duque, por humildade, se recusara a ter) eram homens de nosso país, ainda que apenas alguns de nossos tenham lá permanecido, e muitos dos outros tenham, com grande pressa e saudade, voltado para a sua terra natal, toda a cidade veio a cair nas mãos de outras nações – franceses, lorenos, normandos, provençais, auvernos, italianos, espanhóis e burgúndios, que haviam participado na Cruzada; e também nenhuma parte da cidade, nem mesmo uma rua das menores, foi separada para os germânicos. Como eles próprios não se preocuparam com o assunto e não tinham intenção de lá permanecer, seus nomes nunca foram mencionados, e a glória de entregar a Cidade Santa foi atribuída apenas aos francos; e eles neste dia, juntamente com as outras nações acima mencionadas, dominaram a cidade citada e o país vizinho. De fato, esta província da cristandade ampliaria há muito tempo seus limites para além do Nilo no sul e para além de Damasco no norte, caso ali houvesse um grande número de alemães como dos outros (Johann of Würzburg, 1890, p. 40-41).
Johannes escreveu sua missiva no intervalo entre a Segunda e a Terceira Cruzadas (1149-1187), duas expedições com significativa participação germânica, como veremos.
As contribuições germânicas às Cruzadas, assim como suas implicações para as concepções e práticas do poder imperial, foram importantíssimas para os monarcas Staufer (1138-1250), Conrado III, Frederico I, Henrique VI, Felipe e Frederico II, além do Welf, Otto IV (1208-1215), como pode ser constatado com muita propriedade nos artigos da coletânea organizada por Jaspert e Tebruck (2016). Além das questões de poder e autoridade, seu impacto também pode ser constatado na lírica do Mittelhochdeutsch[9], como analisaremos neste artigo. Todavia, para contextualizarmos devidamente o subgênero poético da Kreuzlied, a canção de Cruzada, devemos realizar uma averiguação que nos aponte esse histórico prévio da ligação entre as Cruzadas levantinas e as terras germânicas.
Embora o reino da Germânia estivesse dividido pela guerra civil[10] intermitente e em desacordo com o Papa Urbano II, isso não impediu que contingentes militares de origem imperial tomassem parte da expedição oficial da Primeira Cruzada (assim como haviam participado da Cruzada Popular, sob Walter Sans-Avoir e do notório conde Emicho de Leiningen[11]), sob a bandeira do duque imperial da Baixa Lorena, Godofredo de Bouillon, como muito bem apontou Johannes de Würzburg.
A chamada “Cruzada de reforço” de 1101[12], liderada pelo duque Welf IV da Bavária e pela margravina Ida da Áustria (entre outros comandantes), contou com grandes contingentes germânicos, assim como peregrinações armadas de grupos independentes, como a levada a cabo por Conrado de Staufer (então duque da Francônia) entre 1124 e 1125 (Lock, 2006). Não por acaso, pode-se constatar o interesse por esta movimentação em textos exemplares e com considerável circulação no período, como a Historia Ierosolimitana (c. 1119) atribuída a Albert de Aachen[13] ou a Hierosolymita de Ekkehard de Aura[14] (c. 1116).
Conrado de Staufer, agora como Conrado III, rei da Germânia, retornou ao Oriente no comando da expedição germânica durante a Segunda Cruzada (1146-49). Aliás, sob esta denominação genérica foram agrupadas as expedições levantinas de Conrado III e Luís VII da França, a expedição dos aristocratas do nordeste germânico contra a região balto-eslava e a expedição anfíbia que auxiliou o rei Afonso Henriques a tomar Lisboa aos mouros, que contou com a presença de contingentes oriundos de Colônia e da Renânia (possivelmente burgueses e ministeriais), que se juntaram a contingentes ingleses (em sua maioria londrinos), normandos (em especial de Rouen) e flamengos[15].
A principal fonte documental para o estudo da campanha lisboeta é a conhecida De Expugnatione Lyxbonensi, de origem anglo-normanda. Entretanto, existem outros documentos procedentes da Germânia que documentam sua participação na expedição. São três cartas, coletivamente conhecidas como “a Carta de Lisboa” ou “Fonte Teutônica” (Martins, 2017, p. 12-13), devido ao fato de compartilharem das mesmas informações, indicando uma origem comum. A primeira carta foi enviada pelo clérigo Winand a Arnold I, arcebispo de Colônia (1137-1151); a segunda por Arnulf a Milon I, bispo de Thérouanne (1130-1159) e, finalmente, a carta do clérigo Duodechin de Lahnstein ao abade Cuno e aos monges de Disibodenberg (Edgington, 1996, p. 328).
Além destas, existe uma outra fonte, de origem portuguesa, que também trata da ação de cruzados germânicos em 1147. Trata-se da assim chamada Notícia da fundação do Mosteiro de São Vicente de Lisboa[16].
Retornando à expedição levantina, ela reuniu parte considerável da aristocracia imperial. Além do próprio rei Conrado III, ela contava com:
[...] o duque Frederico III (Barbarossa) da Suábia, o duque da Bavária Heinrich II Jasomirgott, o conde Welf VI de Memmingen, o duque Vladislav II da Boêmia e o marquês Guglielmo V de Montferrat (todos aparentados entre si). Além destes, estavam também presentes no grupo de comando o margrave Hermann III de Baden, o conde Berthold III de Andechs, o marquês de Verona Guido de Biandrate, os bispos Otto de Freising, Estevão de Metz, Henrique de Toul e o legado papal Theodwin (cardeal do Porto e Santa Rufina). Outros príncipes envolvidos na cruzada foram o margrave Ottokar III da Estíria, os condes palatinos do Reno e da Bavária Hermann de Stahleck e Otto de Wittelsbach (respectivamente) e os condes Bernhard da Caríntia, Friedrich de Bogen e Heinrich de Ratzeburg (Araujo, 2012, p. 106-107).
Finalmente, na expedição báltica, os príncipes do nordeste germânico criaram sua própria Cruzada (como uma contrapartida à expedição levantina liderada por seus inimigos), e nela
[...] estavam os dois pretendentes rivais à coroa dinamarquesa (Knut V e Sweyn III), sendo que cada um comandou uma frota própria, e dois exércitos. O primeiro comandado pelo duque da Saxônia Heinrich o Leão, seu sogro Konrad de Zähringen (inimigo jurado de Frederico Barbarossa e recentemente derrotado por este), pelo arcebispo Adalbero de Bremen e, a contragosto, pelo conde Adolf II de Holstein (veterano das campanhas eslavas de Lotário III). O segundo exército era liderado pelo legado papal Anselm de Havelberg, pelo arcebispo de Mainz, pelos bispos de Halberstadt, Münster, Merseburg, Brandenburg e Olmutz, além dos margraves Konrad de Wettin e Albrecht o Urso (inimigos de Heinrich o Leão) (Araujo, 2012, p. 107).
O fracasso geral da Segunda Cruzada (com exceção das realizações na Península Ibérica) causou um arrefecimento e mesmo contestações à ideia de Cruzada (Araujo, 2013, p. 23). Entretanto, a queda de Jerusalém, após a batalha de Hattin em 1187, viria a mudar este panorama e, mais uma vez, engajar a Germânia e a linhagem dos Staufer em novos empreendimentos cruzados, como a grande expedição liderada por Frederico I Barbarossa no decorrer da Terceira Cruzada, a Cruzada de 1197-98 (liderada por Henrique VI)[17], a movimentação iniciada por Felipe da Suábia que viria a culminar na Quarta Cruzada, na Quinta Cruzada em grande parte patrocinada por Frederico II (1213-21) e, finalmente, na Sexta Cruzada (1228-29), pessoalmente liderada por Frederico II, que recuperou Jerusalém e foi coroado como seu rei.
Como bem notou Nicholas Morton (2011, p. 33-66), o compromisso dos aristocratas germânicos com a Terra Santa entrou em declínio após a Quinta Cruzada, tendo alcançado seu nadir após 1235, mesmo com a questão de que Frederico II, desde a recuperação de Jerusalém, reinava sobre a Terra Santa na qualidade de regente em nome de seu filho Conrado (IV).
Alguns fatores contribuíram poderosamente para tal resultado: a renovação dos conflitos entre o Papado e os Staufer (que se estenderam até o final da linhagem em 1268), a gradual extinção de linhagens tradicionalmente ligadas às expedições levantinas, como a dos Babenberg em 1246, e, finalmente, o traslado da Ordem dos Cavaleiros Teutônicos da Terra Santa para a Europa Oriental.
Desde o remanejamento das principais atividades da Ordem dos Cavaleiros Teutônicos (entre 1211 e 1230) (Militzer, 2005), houve uma importante transferência do empenho cruzadista da nobreza germânica seguindo a mesma tendência, ampliando os domínios territoriais conquistados pelos Teutônicos e pela Ordem dos Cavaleiros Porta-Gládio (espatários), consolidados no assim chamado Ordensstaat (Urban, 2003). O já mencionado artigo de Morton apresenta grande riqueza em dados quantitativos acerca do envolvimento da aristocracia germânica em expedições cruzadas ao Oriente entre 1187 e 1235, e o autor organizou-os graficamente, sendo que recomendamos sua leitura, já que demonstra claramente este processo de esvaziamento da participação teutônica.
Assim, levando em consideração o breve histórico aqui apresentado do processo de envolvimento germânico com as Cruzadas, não causa estranhamento o fato de que veio a se desenvolver na lírica germânica um subgênero específico de canções de Cruzada.
Um dos mais respeitados historiadores contemporâneos sobre as Cruzadas, Alan V. Murray, estabelece, em um artigo recente, uma interessante conjectura acerca das canções de Cruzada:
Uma das novas formas de propaganda cruzadista que emergiu no decorrer do século XII foi a canção vernacular de Cruzada, isto é, uma forma de lírica poética que clamava pela participação em uma Cruzada ou, de outro modo, encorajava o apoio a ela. Embora os primeiros exemplos, escritos em provençal, datem da época da Segunda Cruzada, o grande florescimento da lírica cruzadista ocorreu entre a queda de Jerusalém perante Saladino em 1187 e a conclusão da Cruzada do imperador Frederico II em 1229, um período de intensa atividade cruzadista que produziu numerosas canções em provençal, francês antigo e médio-alto-alemão (Murray, 2014, p. 119).
Já para Peter Nusser, a Kreuzlied, a lírica cruzadista alemã, sustenta-se como um gênero próprio dentro do Minnelyrik. Sua temática trata “de diferentes aspectos e soluções de um conflito que resultava de diversas relações de lealdade no qual um cavaleiro se encontrava” (Nusser, 1992, p. 254, tradução livre). O serviço à dama e a Deus são temáticas constantes nesse gênero. Em muitos dos casos analisados a seguir tratar-se-á de uma estreita relação entre a canção, como fenômeno literário, e a presença massiva de diálogos com o contexto histórico, ou seja, menção direta ou indireta a atores sociais (figuras históricas) e eventos referentes ao período das Cruzadas.
Desta forma, esse artigo discutirá duas gerações da lírica germânica: no período entre 1188 e 1198, no qual analisaremos alguns excertos dos seguintes autores: Friedrich von Hausen, Hartmann von Aue, Albrecht von Johansdorf e Heinrich von Rugge, e o intervalo entre 1198 e 1228, no qual apresentaremos análises da lírica de Walther von der Vogelweide. Ressaltamos, contudo, que nosso recorte não segue a clássica divisão do Minnesang[18], de Günther Schweikle (1995), em seis partes. De acordo com essa classificação, os autores aqui selecionados pertenceriam à segunda fase (1170-1190/1200, rheinischer Minnesang), terceira fase (1190-1210/20) e quarta fase (1190-1230). Apresentaremos e analisaremos as canções dos Minnesänger selecionados de acordo com outro recorte, o do envolvimento com as expedições cruzadísticas: o primeiro, entre 1188 e 1198, abarca as expedições de Frederico I e Henrique VI; o segundo, entre 1198 e 1228, inclui em si as expedições ligadas, direta ou indiretamente, a Frederico II.
O nosso primeiro recorte temporal engloba a 3ª Cruzada e o período dos reinados de Frederico I Barbarossa e, após sua morte, de Henrique VI: aqui, encena-se principalmente a participação desses Minnesänger nas Cruzadas, pois há uma vinculação direta desses com as cortes, principalmente dos Staufer.
Devemos considerar que as duas expedições (1188-91 e 1197-98) foram empreendimentos de larga escala. Embora as fontes do período não nos permitam discutir números absolutos, atribuem à expedição do Barbarossa (1188-91) contingentes que chegam a 100.000 homens (20.000 cavaleiros e 80.000 infantes) (Tyerman, 2010, p. 483). Trata-se de evidente exagero; no entanto, ela foi considerada como a maior das expedições cruzadas ao Oriente. Números mais realistas (mas, possivelmente, ainda muito elásticos) podem ser encontrados na Chronica regia Coloniensis: 30.000 homens, dentre os quais 15.000 cavaleiros (Waitz, 1880, p.144). Graham A. Loud, especialista nas expedições germânicas do século XII, propõe, baseado nas necessidades de financiamento dos participantes, uma força entre 12.000 e 15.000 homens, incluindo cerca de 3.000 cavaleiros (Loud, 2010, p. 19). Vale ressaltar que Loud considera que a cruzada de Henrique VI (1197-98) tinha potencial para se tornar tão grande quanto a de seu pai (Loud, 2014).
Henrique VI enviou o primeiro escalão de suas tropas, sob o comando do chanceler imperial, Konrad de Querfurt, arcebispo de Mainz e do ministerial Heinrich von Kalden, marechal do Império. Estas forças iniciaram uma campanha na costa libanesa com o intuito de liberá-la dos islâmicos e conectar por terra Acre e Tiro. De fato, os germânicos ocuparam Biblos e Beirute, restabelecendo a conexão terrestre entre os remanescentes do Reino de Jerusalém e os do Condado de Trípoli. Quando do anúncio da morte do imperador Henrique (ocorrida a 28 de setembro de 1197), enquanto organizava o envio do contingente principal que por ele seria comandado, o primeiro escalão assediava a importante fortaleza de Toron, ponto de entrada para os domínios de Damasco (Loud, 2014).
Justamente a conexão entre a corte imperial e a Cruzada, segundo a crítica, viria a ser materializada na figura de Fridericus de Husen, mencionada em crônicas e documentos entre 1171 e 1190, considerada como a do poeta Friedrich von Hausen, o qual nos seus últimos anos de vida teria servido como ministerial[20] na corte dos Staufer[21], teria participado da Terceira Cruzada e falecido poucas semanas antes da morte do imperador. Trata-se do único dos Minnesänger aqui tratados cujo registro de participação em Cruzada foi efetivamente comprovado, tendo tomado parte na expedição de Frederico Barbarossa (como brevemente mencionado em nossa introdução) e dela não retornado.
Segundo a Historia de Expeditione Friderici Imperatoris, Friedrich von Hausen veio a falecer durante a batalha de Filomelium na Ásia Menor no dia 6 maio de 1190, ao cair do cavalo e quebrar o pescoço:
A 6 de maio, que era o dia da festa de São João “perante a Porta Latina”, nossos homens foram novamente atacados na retaguarda pelos turcos, dos quais mais de 20 foram mortos. Desafortunadamente, na perseguição destes turcos, um distinto cavaleiro, Friedrich von Hausen, acidentalmente caiu de seu cavalo e morreu. Ele foi sepultado sob uma grande macieira. Toda a hoste lamentou-o como a uma figura importante no exército (Loud, 2010, p. 103).
Na lírica de Friedrich, encontramos a experiência cruzada retratada de forma interiorizada: um conflito entre o dever e os anseios mais íntimos, aqui representados pelo par mîn lîp e herze, como se pode ver a seguir. Neste primeiro verso, percebemos que o lîp está para o plano do objetivo e o herze, para a subjetivação. A personificação do coração lhe atribui um caráter nocivo, visto que, ao desejar, ele não se importa com as consequências mais imediatas desse ato impensado. O eu, também fazendo uma menção ao corpo, possui o controle sobre suas ações, enquanto que o coração atende aos chamados da carne. Vemos, assim, que para o eu da canção o Gottesdienst (o serviço a Deus) está acima de tudo, embora haja um nítido embate com a Fraueminne (o amor pela mulher). Em outras palavras, lîp é controlado pelo Gottesdienst e, portanto, parte para a Cruzada; já o herze é controlado pela Frauenminne, e não partiria com o cavaleiro em sua viagem:
Mîn herze und mîn lîp die wellent scheiden, […] Ich wânde ledic sîn von solher swære, dô ich daz kriuze in gotes êre nam. ez wære ouch reht deiz herze als ê dâ wære, wan daz sîn stætekeit im sîn verban. ich solte sîn ze rehte ein lebendic man, ob ez den tumben willen sîn verbære. nu sihe ich wol daz im ist gar unmære wie ez mir an dem ende süle ergân. (MF 47, 9 e 17-24).
Meu coração e eu[22] queremos nos separar […] Eu pensei estar livre dessas aflições Quando tomei a cruz em honra a Deus. Teria sido correto, se o coração se portasse devidamente, Se sua constância não o impedisse. Eu poderia ser um homem completo Se ele renunciasse a seu tolo desejo. Agora vejo com clareza que ele não se importa Com o que pode me acontecer no fim. (Araujo, 2013, p. 12).
Em outra canção, a persona lírica do poeta critica aqueles que se declaram cristãos, aceitaram a cruz, mas que nunca empreenderam a viagem, uma vez que esses serão condenados no dia do juízo final. Deus é aqui o guardião dos portões que se abrirão no momento final, tendo a prerrogativa de abri-los ou não. É através da participação na Cruzada que o cavaleiro presta seu maior serviço ao maior de todos os senhores; há aqui a fusão entre a cavalaria cortês e a cristã. Nesses versos, não há qualquer conexão com temas referentes ao Minnesang clássico; aqui trata-se de um tema puramente moral e religioso: o dever dos cavaleiros cristãos para com as Cruzadas, o que aproximaria essa canção mais ao gênero da Sangspruchdichtung[23]:
Si waenent dem tôde entrunnen sîn, die gote erliegent sîne vart. dêswar êst der geloube mîn, daz si sich übel hânt bewart. Swerz daz kríuze nam und niender vert, dem wirt <er> doch ze jungeste schîn, swanne im diu porte ist vor verspert, die er tuot ûf den liuten sîn. (MF 53, 31-38).
Eles imaginam ter escapado da morte, aqueles que abandonam a viagem. Essa é minha crença, que eles se protegem muito mal. Quem aceita a cruz e nunca viaja a ele surgirá Deus no Juízo Final, então, o portão está cerrado, aquele que Ele abre para seus fiéis.[24]
Outros exemplos valiosos para que possamos delimitar o que seria a poética das Cruzadas são oriundos da produção literária de Hartmann von Aue. Diferentemente da variedade documental que atesta a existência de Friedrich von Hausen, os dados acerca da figura de Hartmann são em sua maioria retirados de suas obras ou de menções de seus contemporâneos em fontes diversas. Desta maneira, especula-se que teria circulado pelas cortes dos Staufer, Zähringer e Welfen e seria um ministerial de Ouwe, região que se localizaria na Suábia. Até a participação do Minnesänger em uma Cruzada é fruto de sua produção lírica. Embora seja incerta sua biografia, suas Kreuzlieder atestam a adesão ao grande movimento de seu tempo (Jackson, 1994, p. 30-36).
Na canção “ich var mit iuweren hulden” (MF 218, 5), vemos a construção do ideal da Gottesminne baseado no ataque à Frauenminne, visto que somente essa dedicação ao Senhor pode movê-lo de sua pátria. No centro de sua lírica de Cruzada encontramos, portanto, a interdependência do binômio serviço-recompensa:
Sich rüemet maniger, waz er dur die minne taete. â sint diu werc? die rede hoere ich wol. doch saehe ich gern, daz sî ir eteslîchen baete, daz er ir diente, als ich ir dienen sol. Ez ist geminnet, der sich durch die minne ellenden muoz. nu seht, wie sî mich ûz mîner zungen über mer. und lebte mîn her Salatîn und al sîn her dien braehten mich von Vranken niemer einen vuoz. (MF 218, 13-20).
Muitos se vangloriam sobre aquilo tudo que fariam por amor. Mas onde estão os feitos? As palavras ouço com clareza. Mas gostaria de ver como ele pedisse a muitos deles que o servissem, assim como eu vou servi-lo. É amor quando alguém por amor parte para terras estranhas. Agora vejam como ele me conduz da minha terra para além-mar. Se meu senhor vivesse, Saladino e todo seu Exército não seriam capazes de mover-me da Francônia/Terra Santa. (Araujo, 2013, p. 17).
Os últimos dois versos da estrofe selecionada são de extrema complexidade e já suscitaram inúmeras análises. Hilkert Weddige (2003, p. 265) e Jürgen Wolf (2007, p. 35) apontam duas traduções possíveis. Na primeira delas, o verbo em condicional atestaria a morte de Saladino (1193): “e mesmo que monsieur Saladino ainda vivesse, ele e todo seu exército…”. Para aqueles que buscam a figura histórica de Hartmann von Aue à luz de suas produções, isso colocaria a participação do Minnesänger na Cruzada planejada por Henrique VI. Como já mencionado, a Cruzada não se completou dada a morte inesperada do monarca.
Na segunda tradução possível, o verbo em condicional apontaria para a morte do senhor do eu lírico e Saladino ainda viveria. Fica, entretanto, a dúvida acerca de quem seria o “mîn her” evocado na canção. Saladino estaria vivo (1193) e alguma grande autoridade morrera antes dele: juntadas as duas informações, o verso apontaria para a morte de Frederico I Barbarossa em 1190. Desta tradução resultaria a interpretação de que a morte de seu senhor e as mudanças sofridas pelo eu lírico (ou seja, voltar-se contra o ideário cortês do Frauendienst – o serviço à dama), e não a ameaça à Terra Santa, impulsionariam a partida para a Cruzada. Ainda nos resta um problema a solucionar: a tradução do termo “vranken”. Marjatta Wis, ao analisar a terminologia cruzada utilizada em outras obras do período, aponta para o fato de que “vranken” representaria Phrangía – regnum Francorum, que se estenderia ao Ocidente. Neste contexto, a tradução seria: “se meu senhor vivesse, Saladino e todo seu Exército/ não seriam capazes de mover-me da Terra Santa”, o que facilitaria a interpretação desses versos, mas não mudaria a ideologia de que o serviço a Deus, prestado através das Cruzadas, está acima do Frauendienst. O ideal aqui seria que “vranken” se referisse ao status de cruzado, ou seja, que o eu lírico não moveria um pé em direção contrária ao grupo dos cruzados, visto que, em muitas fontes oriundas do Oriente, os cruzados são assim chamados (Wis, 1990, p. 408).
Se na canção analisada anteriormente há uma dubiedade nos últimos dois versos, que não nos permite definir por completo quem estaria morto – Saladino ou o senhor de Hartmann –, nesses próximos versos, o Minnesänger atesta a morte de seu senhor. Juntando-se essa canção à anterior (aceitando assim a segunda tradução como base), aponta-se para a morte de Frederico I Barbarossa. Aqui o eu lírico intenta com sua viagem pagar uma dívida, alegando que metade dos lucros seria de seu senhor, uma vez que seria graças a ele que a viagem se torna possível. O fato é que o eu lírico parte para a Cruzada em nome de Deus e de seu senhor, como resultado de sua lealdade para com os dois:
Sît mich der tôt beroubet hât des herren mîn, swie nû diu werlt nâch im gestât, daz lâze ich sîn. der fröide mîn den besten teil hât er dâ hin, und schüefe ich nû der sêle heil, daz, wær ein sin. mac ich íme ze helfe komen, mîn vart, die ich hân genomen, ich wíl ime ir hâlber jehen. vor gote müeze ich in gesehen. (MF 210, 23-34)
Depois que a morte me tomou meu Senhor, o que agora, após sua morte, acontece no mundo não me importa mais. Toda a alegria, a melhor parte, com ele foi-se. Se eu alcançasse agora a salvação da minha alma, seria sensato. Pudesse auxiliá-lo, minha viagem, empreendida, dele seria metade dos lucros. Deus permita que eu possa revê-lo.
Algumas menções atestam a existência de Albrecht von Johansdorf. Entretanto, sua participação na Cruzada de Frederico I Barbarossa (1188-91) não é consenso entre os críticos, permanecendo a dúvida se não teria participado da expedição de 1197-98, já que neste período se encontrava a serviço de Wolfger von Erla, bispo de Passau e partícipe da Cruzada de Henrique VI (aliás, em seu retorno da Terra Santa, Wolfger peticionou a Inocêncio III para que este aprovasse formalmente a constituição dos Cavaleiros Teutônicos, conforme Ranawake, 1994, p. 249-280). Sua lírica cruzadista traz nuances diferentes das tematizadas nos versos de Friedrich von Hausen e Hartmann von Aue. Resta-nos pensar a seguir o que diferencia a poética cruzada de Albrecht das demais anteriormente analisadas. As Cruzadas são nos versos de Albrecht um empreendimento cristão para a salvação da Terra Santa que se encontra em perigo. Fica clara em seus versos a noção de reciprocidade, pois se houve um sacrifício pela humanidade, esta, como contrapartida, deve se sacrificar também. A repetição de “erbarmen” aponta para a noção de caritas (caridade), conceito que não abarca somente o campo religioso, visto que, dentro das virtudes corteses, um cavaleiro também deve se compadecer daqueles que estão em apuros:
Die hinnen varnt, die sagent dur got, daz Ierusalem der reinen stat und ouch dem lande helfe noch nie noeter wart. diu klage wirt der tumben spot. die sprechent alle, waer ez unserm herren ande, er raeche ez ân ir aller vart. Nu mugent si denken, daz er leit den grimmen tôt! der grôzen marter was im ouch vil gar unnôt, wan daz in erbarmet unser val. swen nû sîn criuze und sîn grap niht wil erbarmen, daz sint von im die saelden armen. (MF 89, 21-31).
Os que daqui partem, dizem em Deus, que Jerusalém, a Terra Santa, e também o reino nunca precisaram tanto de auxílio. Essa lamentação é escárnio insensato Todos dizem que se fosse para o nosso Senhor um insulto, ele se vingaria até mesmo sem sua cruzada! Agora lembrem-se que ele sofreu uma morte amarga. Este grande martírio não é em vão, pois ele se compadeceu de nossa perdição. Quem agora com a sua cruz e seu túmulo não tiver misericórdia, Estes são dele os pobres condenados. (Araujo, 2013, p. 19-20).
Nos próximos versos, percebemos que o ímpeto cruzado não se choca com a Frauenminne. O eu lírico está ciente de suas obrigações para com Deus (Gottesdienst), o que não o impede, contudo, de amar sua dama, uma vez que ambos irão ao encontro da misericórdia divina juntos. Entretanto, há o reconhecimento de que sua dedicação à dama é uma fraqueza, um pecado, que pode ser visto com bons olhos por Deus:
Mich habent die sorge ûf daz brâht, daz ich vil gerne kranken muot von mirvertrîbe. des was mîn herze her niht frî. ich gedenke alsô vil manige naht: "waz sol ich wider got nu tuon, ob ich belîbe, daz er mir genaedic sî?" sô weiz ich niht vil grôze schulde; die ich habe, niuwan éinè der kume ich niemer abe. alle sünde liez ich wol wan die: Ich minne ein wîp vor al der welte in mînem muote. got herre, daz vervâch ze guote! (MF 90, 5-15).
Essas ameaças trouxeram-me aqui, isso me impele a superar minha fraqueza. Disso meu coração não está livre. Muitas noites eu penso: “O que eu posso fazer agora diante de Deus, se eu cair, para que ele me seja misericordioso?” Então eu não sei de grandes pecados que me pesam, a não ser um, do qual eu nunca fugirei. De todos os pecados eu me absteria exceto de um: acima de tudo no mundo, eu amo por completo uma mulher. Deus, meu Senhor, desconta-me essa positivamente! (Araujo, 2013, p. 19-20).
Sobre a existência de Heinrich von Rugge há somente uma menção documental (com data incerta, 1175 ou 1178) (Jackson, 2003, p. 95), e esta figura seria um ministerial dos condes palatinos de Tübingen. Por conta de sua canção de Cruzada lamentando a morte de Frederico I Barbarossa, alguns autores acreditam que o Minnesänger teria empreendido uma Cruzada (Terceira Cruzada, 1191) sob o duque Leopold V da Áustria.
Na canção a seguir, o eu lírico de Heinrich von Rugge lamenta a morte de Frederico I Barbarossa e, ao mesmo, tempo atesta a grandeza do monarca, uma vez que se refere à sua alma como reluzente e digna da estar na presença de Deus. A morte de Barbarossa e a segurança na salvação de sua alma, visto que falece ao empreender uma cruzada, tornam-se, assim, a ratificação necessária ao chamamento para que outros cavaleiros se apresentem em nome de Deus:
Daz wir geniezen müezen sîn, des er gedienet hât unde ander manege bilgerlîn, der dinc vil schône stât. der sêle, diu ist vor got schîn, der niemer sî verlât. der selbe sedel ist uns allen veile. swer in nu koufet an der zît, daz ist ein saelekeit, sît got süeze marke gît. jâ vinden wir gereit lediclîchen âne strît grôz liep allez leit. nu werbent nâch dem wunneclîcheme heile! (MF 97, 13-26).
Para que possamos participar naquilo que ele ganhou através do seu serviço, e muitos outros peregrinos, que lá se encontram tão fiéis. A sua alma, que reluz perante Deus, O qual nunca mais a deixará. O mesmo lugar está disponível para todos nós. Se alguém compra-lhe a tempo, Então, é uma graça, Um presente tão precioso de Deus Lá nós encontramos gratuitamente sem contestação grande alegria sem todo o sofrimento. Agora, pois, adiante, à salvação milagrosa!
O período após 1190 foi palco de uma crescente instabilidade na Germânia, que encontrou sua principal expressão nas disputas entre a linhagem imperial dos Staufer e seus parentes próximos, os Welf. Particularmente, após o falecimento de Henrique VI, com Frederico II como infante (apenas 3 anos de idade), a disputa coalesceu ao redor das figuras de Felipe da Suábia e de Otto de Braunschweig, respectivamente filhos de Frederico I Barbarossa e de Henrique, o Leão. Otto, além de arregimentar os fiéis da casa dos Welf, contava também com o poderoso apoio de seus tios maternos: Ricardo I e João I da Inglaterra, o que conferia aos Staufer o apoio da casa real francesa.
Em 1208, as fortunas dos Staufer, em alta com Felipe da Suábia, foram revertidas com o assassinato deste em plena catedral de Bamberg, por um partidário descontente, o conde palatino da Bavária, Otto de Wittelsbach. A partir deste momento os partidários dos Staufer haviam perdido seu candidato viável ao trono, sendo este concedido ainda no mesmo ano ao pretendente rival, a partir de então, Otto IV. Outro fato digno de nota no mesmo ano foi a maioridade de Frederico II, uma sombra sobre a coroa de Otto.
No ano seguinte, após receber a sagração imperial em Roma, Otto IV rompeu seu pacto com Inocêncio III (que estabelecia que o Welf não tentaria obter a coroa do Reino da Sicília, posto que esta só havia pertencido a Henrique VI por direito de casamento, e assim não cercaria por norte e sul os domínios papais na Itália central), avançando pelo sul da Itália. Em 1211, Frederico estava isolado na Sicília enquanto Otto aguardava a armada de seus aliados pisanos que levariam seu exército ao outro lado do estreito de Messina (Haverkamp, 1992, p. 243-248).
Entretanto, como em um romance de aventuras, uma nova reviravolta se deu e os partidários dos Staufer na Germânia, em conluio com descontentes e com o apoio tácito de Inocêncio III, elegeram o puer Apuliae[25] como rei em 1211. Então, Frederico partiu por mar até Gênova e por terra prosseguiu para as terras ancestrais dos Staufer na Suábia e outras regiões, onde recrutou apoio e tropas para uma guerra civil que pairava no horizonte enquanto Otto recuava da Itália o mais rápido que podia.
O desenvolvimento deste grande jogo entre as famílias imperiais e as dinastias anglo-francesas atingiu seu apogeu com a vitória de Felipe II Augusto sobre os exércitos imperiais de Otto IV na Batalha de Bouvines (1214), que permitiu o fim do impasse na Germânia e a subsequente coroação de Frederico II como rei em Aachen (1215)[26].
Justamente em sua coroação, Frederico II tomou a cruz, prometendo participar da expedição que Inocêncio III preparava cuidadosamente desde 1213, para corrigir o fiasco da 4ª Cruzada[27] e concentrar os esforços na retomada de Jerusalém. O recrutamento entre os germânicos foi confiado pelo papa a Oliver de Paderborn, escolástico de Colônia que já havia realizado pregações contra os albigenses em 1208 (Powell, 1986, p. 75).
O amplo envolvimento germânico nesta Cruzada (a primeira a ser encaminhada para o Egito, prova da mudança do centro de gravidade do aiúbida de Damasco para o Cairo) foi primorosamente documentado por James M. Powell em sua obra The Anatomy of a Crusade 1213-1221, sendo que em seus apêndices, nos quais lista participantes confirmados da Cruzada e participantes de participação duvidosa, reuniu centenas de nomes oriundos da Germânia Imperial (Powell, 1986, p. 209-258). Os dois principais contingentes desta expedição foram os liderados pelo rei André II da Hungria e pelo duque Leopoldo VI da Áustria.
Frederico II, embora tenha jurado participar desta expedição (e o papa Honório III protelado a partida da mesma até 1217 para que o monarca cumprisse seu voto), não o fez; entretanto, contribuiu com financiamento, apoio logístico e homens de armas. Ele precisava lidar com a reorganização do poder na Germânia, Itália setentrional e no reino siciliano. Finalmente pôde partir em 1228, mesmo sob proibição papal.
Ao chegar ao Egito, entabulou negociações com o sultão aiúbida Al-Kamil e conseguiu por esse meio recuperar Jerusalém, onde, graças a seu matrimônio com a herdeira putativa do trono, Isabelle de Brienne, foi coroado no ano seguinte como rei, em nome de seu filho, o futuro Conrado IV (Abulafia, 1992, p. 164-201).
Otto von Botenlouben (c. 1175-1244) foi identificado pela primeira vez como testemunha de diplomas do imperador Henrique VI entre 1196 e 1197, justamente durante a movimentação deste último em direção à Terra Santa, percorrendo a Itália até Messina, onde encontrou sua desdita. No entanto, embora a Cruzada de Henrique tenha se desfeito, Otto seguiu em direção ao Oriente e lá veio a se estabelecer, retornando à Germânia por volta de 1220, durante a preparação para a expedição de Frederico II.
A biografia deste Minnesänger é uma das mais interessantes (e movimentadas) dos poetas por nós selecionados. Pertencia à linhagem dos condes de Henneberg, sendo seu pai, Poppo VI, burgrave de Würzburg e participante da expedição cruzada de Frederico I, na qual faleceu (Heinrich, 1994, p. 401-469), estabelecendo assim um padrão de envolvimento dos Henneberger nas cruzadas levantinas. Otto, como já mencionado, fez parte do contingente da expedição de Henrique VI que chegou ao Levante. Após a dissolução da expedição, Otto permaneceu na Terra Santa, especificamente na corte real de Jerusalém em Acre, na qual, em 1208, contraiu matrimônio com Beatriz de Courtenay, única herdeira do rico senescal Joscelin III de Courtenay (Bünz, 1994, p. 71-88). Por volta de 1220, o casal liquidou suas posses no Oriente, vendendo-as à Ordem Teutônica, e retornou à Germânia. Otto manteve-se ativo na corte régia (tanto com Frederico II quanto com seu filho Henrique [VII], rei da Germânia) até 1234. Seus últimos dez anos foram dedicados à vida religiosa, na abadia beneditina de Frauenroth, fundada pelo casal condal em 1231 (Bünz, 1994, p. 117-151).
Waere Kristes lôn niht alsô süeze, so enlieze ich niht der lieben frouwen mîn, diech in mînem herzen dicke grüeze: sie mac vil wol mîn himelrîche sîn, swâ diu guote wone al umbe den Rîn. herre got, nu tuo mir helfe schîn, daz ich mir und ir erwerbe noch die hulde dîn!
Sît er giht ich sîn himelrîche, sô habe ich in zuo gote mir erkorn, daz er niemer fuoz von mir entwîche. herre got, lâ dirz niht wesen zorn. erst mir in den ougen niht ein dorn, der mir hie ze fröiden ist geborn. kumt er mir niht wider, mîn spilnde fröide ist gar verlorn. (KLD 12).
Não fosse a recompensa de Cristo tão doce, eu não deixaria, pois, a amada dama, a qual eu tanto louvo em meu coração: ela pode ser meu reino dos céus onde quer que a bela esteja também sobre o Reno. Senhor Deus, mostra-me, então, tua ajuda que eu obtenha para mim e para ela ao mesmo tempo tua graça!
Desde que ele disse que sou seu reino dos céus, eu o escolhi para mim como Deus para que ele não se afaste de mim. Senhor Deus, não te ires comigo. porque ele não me é, de forma alguma, um espinho nos olhos, que aqui me nasceu de alegria. caso ele não volte, então, minha gloriosa alegria estará completamente destruída.
A presença, na canção de Botenlouben, do ponto de vista de sua dama, é uma construção interessante que vem a legitimar o ponto de vista do cruzado-poeta. Sua declaração com ares blasfemos (de que o poeta é seu Deus por escolha) também é digna do perdão divino, posto que feita em nome do amor, e este é a chave da salvação para ambos: tanto o cruzado quanto a dama. No entanto, considerando a biografia do poeta em questão, a “recompensa de Cristo” não pode ser desconsiderada como algo de natureza bem material...
Embora seja um dos mais famosos Minnesänger, Walther von der Vogelweide possui apenas uma única menção documental (na lista de despesas do já mencionado bispo Wolfger von Erla, sem data definida) independentemente de suas canções ou de menções presentes nas obras de outros poetas. Entretanto, seu presumido período de atividade (circa 1190-1230) abrange o apogeu da atividade cruzadística germânica (Terceira Cruzada, Cruzada de 1197-98, elaboração da Quarta Cruzada, Quinta Cruzada e Sexta Cruzada); embora não se possa afirmar claramente que Walther tenha participado de qualquer um desses movimentos, pode-se considerá-lo como um entusiasmado propagandista do ethos cruzado na Germânia Imperial.
alther foi um atento espectador de seu conturbado contexto sociopolítico e nos revela em sua poesia política uma visão das galerias acerca dos desenvolvimentos no palco principal dos jogos de poder. Como ministerial, e não dos mais abastados (como Werner II von Bolanden, conviva da corte imperial, testemunha de diversos diplomas imperiais, detentor de benefícios de cerca de 80 senhores diferentes [Arnold, 1985, p. 172] e que poderia mesmo reunir um contingente militar de 1.100 cavaleiros [Schutz, 2010, p. 131], o que o colocaria a par com alguns dos mais poderosos senhores do reino, como o arcebispo de Colônia, por exemplo), Walther teve que optar por muitos lados no conflito até alinhar-se com Frederico II e, finalmente, alcançar sua recompensa. Cybele C. Almeida e Daniele G. Silva exploraram com profundidade as relações entre a biografia e a poesia de Walther em artigo de 2016.
Entretanto, por mais interessante que seja sua lírica política, nosso foco se encontra na análise de sua importantíssima lírica cruzadista:
Hêr keiser, swenne ir Tiuschen fride gemachet stæte bî der wide, sô bietent iu die fremeden zungen êre. die sult ir nemen ân arebeit und süenent al die kristenheit: daz tiuret iuch, und müet die heiden sêre. ir tragt zwei keisers ellen, des aren tugent, des lewen kraft: die sint des hêrren zeichen an dem schilte, die zwêne hergesellen: wan woltens an die heidenschaft! waz widerstüende ir manheit und ihr milte? (L 12, 18-29).
Senhor Imperador, quando paz aos alemães estabelecereis sob pena, então vos prestarão homenagem os povos estrangeiros. isso alcançareis facilmente e concedereis a toda a cristandade: isso vos eleva e fere muito os infiéis. Vós carregais duas forças imperiais, a virtude da águia, a força do leão: estas são o símbolo do Senhor no brasão, ambos companheiros. Oh, que os liberteis sobre os infiéis! O que resistiria a vossa bravura e bondade?
O eu lírico dessa canção se apresenta como um exortador das políticas imperiais em detrimento da prerrogativa papal de conclamar às Cruzadas, uma vez que, como governante, Otto IV carrega em si uma dupla força: ser a cabeça do império (a águia) e ter ligações sanguíneas e políticas com a dinastia Plantageneta (o leão): Otto havia crescido na corte anglo-angevina de seu avô, Henrique II Plantageneta, e manteve proximidade com seus tios e reis da Inglaterra Ricardo I e João, a ponto de colaborar com a pressão deste último contra a França de Felipe II Augusto na Batalha de Bouvines em 1214 (Duby, 1993).
A derrota de Otto nesta batalha foi essencial para que este perdesse apoio entre a aristocracia germânica e assim garantisse a, até então, improvável ascensão ao trono de seu rival, Frederico II.
Ao exortar a “bravura e bondade” de Otto, o eu lírico espera que este lidere uma Cruzada com a finalidade de restabelecer a ordem e colocar sobre sua proteção a Terra Santa.
Na canção a seguir, o eu lírico coloca-se na posição de um “mensageiro do Senhor” e, assim como nos versos anteriormente analisados, demanda que o imperador se posicione e leve a cabo uma Cruzada para retomar a Terra Santa dos infiéis, pois se nos céus quem governa é Deus, na terra cabe ao imperador a manutenção da ordem. Parte dessa ordem é fazer justiça e retomar a terra de Cristo. Disso dependerá a salvação da alma do governante, até mesmo se houver uma querela com o diabo:
Hêr keiser, ich bin frônebote und bring iu boteschaft von gote. ir habt die erde, er hât daz himelrîche. er hiez iu klagen (ir sît sîn voget), in sînes sunes lande broget diu heidenschaft iu beiden lasterlîche.
Senhor Imperador, eu sou um mensageiro do Senhor E trago-vos Sua mensagem. A terra é vossa; o reino dos céus é d’Ele. Ele manda perante vós demandar (vós sois Seu patrono) na terra de Seu filho vangloriam-se os infiéis de vós ambos.
ir muget im gerne rihten: sîn sun der ist geheizen Krist, er hiez iu sagen wie erz verschulden welle: nû lât in zuo iu pflihten. er rihtet iu da er voget ist, klagt ir joch über den tievel ûz der helle. (L 12, 6-17).
Vós deveis-lhe fazer justiça: Seu Filho, que se chama Jesus Cristo, manda dizer-vos como vos recompensará: então, selai um acordo com ele Lá onde ele é patrono, ele julga Ainda que vós demandeis contra o diabo no inferno.
Em relação à participação de Frederico II nas Cruzadas, a canção é construída em tom de ironia, o que faz sentido, já que, no momento de sua coroação como rei da Germânia em Aachen (1215), Frederico II havia proferido seu voto como cruzado. Entretanto, assuntos internos já mencionados, como a pacificação de seus vastos domínios (que se estendiam da costa do Báltico à Sicília), mantiveram-no efetivamente afastado da realização da Quinta Cruzada, embora a apoiasse com homens e recursos.
O eu lírico nesta canção demanda a um emissário que noticie ao imperador que este deve, o mais rápido possível, empreender uma Cruzada. Nesses versos, a Cruzada é transformada em uma necessidade para assegurar o domínio e a soberania da dinastia Staufer, tendo em vista as anteriores disputas com o papado:
Bot, sage dem keiser sînes armen mannes rât, daz ich deheinen bezzern weiz als ez nû stât. ob in guotes unde liute ieman erbeiten lât, sô var er balde und kome uns schiere, lâze sich niht tœren; irre etelîchen ouch der got und in geirret hât; die rehten pfaffen warne, daz si niht gehœren den unrehten die daz rîche wænent stœren; scheides von in, oder scheides alle von den kœren. (L 10, 17-24).
Emissário, informe ao Imperador o conselho de seu servo devotado: que não sei melhor do que agora está. Se alguém lhe solicita bens e homens, então, que ele parta logo e retorne rápido a nós, e não se deixe passar por tolo. Aquele que também a Deus importuna, a ele importunará. O verdadeiro clérigo o advirta a não prestar atenção aos falsos, que desejam colocar o império em confusão. Que desses ele se aparte, ou que os remova do coro.
De todas as canções de Walther que possuem alguma relação com as Cruzadas, a Palästinalied é, sem dúvida, a mais citada e a que tem em si a representação do ideário cristão. Nela encena-se a chegada de um cavaleiro cruzado à Terra Santa, a qual é descrita como pura e honrada por ser o cenário da encarnação do filho de Deus. Os versos que se seguem (re)apresentam a história de Cristo, de seu nascimento à sua morte. A terra na qual toda a história da salvação se passou assiste agora à tão injusta luta entre cristãos, judeus e pagãos, pois todos se dizem seus donos. Todavia, cabe a Deus a decisão final, sendo que ao eu lírico parece justo que seja dos cristãos a prerrogativa da concessão:
Allerêrst lebe ich mir werde, sît mîn sündic ouge siht daz reine lant und ouch die erde der man sô vil êren giht. mirst geschehen des ich ie bat, ich bin komen an die stat dâ got mennischlîchen trat. (L 14, 38-39 - 15, 1-5).
Só agora eu vivo dignamente, desde que meu olho pecaminoso vê a terra pura e também a terra a qual tanto se honra. Aconteceu-me o que eu sempre pedia, eu vim para o lugar no qual Deus encarnou.
Kristen juden und die heiden jehent daz diz ir erbe sî: got müez ez ze rehte scheiden durch die sîne namen drî. al diu welt diu strîtet her: wir sîn an der rehten ger: reht ist daz er uns gewer. (L 16, 29-35).
Cristãos, judeus e os pagãos alegam que esta seria sua herança. Deus deve decidir com justiça por sua trindade. O mundo inteiro, que aqui luta: nós estamos do lado certo. certo é que ele nos conceda!
Os versos que se seguem figuram como uma forma de exortação e oração. Neles, o eu lírico evoca o “dulcíssimo verdadeiro amor” e solicita que este sirva de guia na empreitada. Ao mesmo tempo os cavaleiros são conclamados a libertar a Terra Santa, devendo ofertar suas vidas e propriedades em prol de um bem maior:
Vil süeze wære minne, berihte kranke sinne. got, dur dîn anbeginne bewar die kristenheit. dîn kunft ist frônebære übr al der welte swære. der weisen barmenære, hilf rechen disiu leit. (L 76, 22-29).
Dulcíssimo verdadeiro amor, guia meu fraco espírito. Deus, por meio da palavra primeva, protege a cristandade. Tua vinda é santa sobre toda as aflições do mundo. Apieda-te dos órfãos, ajuda-nos a curar esse sofrimento!
nû lœset unverdrozzen daz hêrebernde lant. verzinset lîp und eigen. (L 76, 36-38).
Agora libertai, incansavelmente, a Terra Santa. empenhai vida e propriedade.
Em forma de memento mori[29], o eu lírico assegura que a Cruzada é o caminho mais acertado para aquele que procura sua salvação e que, no momento da angústia, somente a fé é companheira. Jerusalém, aqui a cidade personificada, chora em pedido de auxílio por ter sido esquecida [pelos cristãos] e relegada aos gentios e assiste à sua queda em forma de escravidão. Esse recurso retórico cria a empatia necessária para ratificar uma Cruzada:
Diz kurze leben verswindet, der tôt uns sündic vindet: swer sich ze gote gesindet, der mac der helle engân. bî swære ist gnâde funden. nû heilent Kristes wunden, sîn lant wirt schiere enbunden: dêst sicher sunder wân. (L 77, 4-11).
Esta vida curta desaparece, a morte encontra a nós pecadores: mas aquele se une a Deus pode escapar do inferno. Na angústia encontra auxilio. Agora curai as feridas de Cristo, a sua terra estará logo livre, isto é certamente verdade.
erusalêm, nû weine: wie dîn vergezzen ist! der heiden überhêre hât dich verschelket sêre. (L 78, 14-17).
Jerusalém, agora chora: como é que te esqueceram! A arrogância dos gentios tem te escravizado duramente.
Na sequência, o eu lírico convoca o cavaleiro (aqui como um representante de toda essa camada social) a pensar, refletir sobre sua condição de miles christianus: se, por um lado, elmo, armadura e escudo podem fazer referência ao dever com o mundo – a corte –, por outro lado, a espada consagrada aponta para o dever cristão. Trata-se, pois, do cumprimento do ethos cavaleiresco, que, nos versos de Walther, é colocado em contraposição ao do mercenário, aquele que presta serviço mediante um soldo: ao cavaleiro cristão a “coroa da glória”, ao mercenário “posses e ouro”. Para o eu lírico, a grande alegria seria empreender a viagem além-mar, a qual o libertaria de todo o sofrimento: “cantaria com tudo e nunca mais: Ai!”.
dar an gedenkent, ritter: ez ist iuwer dinc. ir tragent die liehten helme und manegen herten rinc, dar zuo die vesten schilte und diu gewîhten swert. wolte got, wan wære ich der sigenünfte wert! sô wolte ich nôtic armman verdienen rîchen solt. joch meine ich niht die huoben noch der hêrren golt: ich wolte sælden krône êweclîchen tragen: die mohte ein soldenære mit sîme sper bejagen. möht ich die lieben reise gevaren über sê, sô wolte ich denne singen wol, und niemer mêr ouwê. (L 125, 1-10).
Refleti sobre isso, senhor cavaleiro: isso vos concerne! Vós portais elmos reluzentes e armadura pesada, além disso um escudo firme e espada consagrada. Quisera Deus eu fosse digno desse triunfo! Então, pudesse eu, pobre homem, merecer rico soldo. Com isso não me refiro às posses e ouro dos senhores: eu quero carregar eternamente a coroa da glória, isso poderia todo mercenário com sua lança alcançar. Pudesse eu empreender a cara viagem além-mar, cantaria com tudo e nunca mais: Ai!
O poeta se divide entre seu amor e fidelidade à sua dama e seu dever e lealdade a Deus. Partir, não mais apenas para a glória do divino Nome (motivação central nos relatos ligados à Primeira Cruzada), mas principalmente pelas demandas da honra e da vergonha, valores sociais extremamente presentes entre os cavaleiros de fins do século XII (Araujo, 2013). Esse dilema, embora construído por meio do denso formalismo destas canções, comprometidas com o emprego de topoi muito específicos desta “arte de trovar”, permite-nos ainda entrever elementos da variedade motivacional e algo da vivência dos cavaleiros germânicos envolvidos nas diversas variantes (expedições ao Levante, à Ibéria e contra populações pagãs eslavas) das expedições cruzadas nas quais o Sacro Império Romano veio a participar entre os séculos XII e XIII.
Ao retomarmos a imagem de abertura deste artigo, a iluminura representando Friedrich von Hausen no Codex Manesse, ao apontar para as criaturinhas belicosas abaixo da superfície do mar, o cruzado-poeta revela algo de suas apreensões: o lúgubre augúrio que marca seu futuro empreendimento. Embora possa temer o que o aguarda no Oriente, ele prossegue para cumprir sua missão. E esse compromisso, acima dos conflitos que porventura se apresentem em suas canções, veio a impulsionar os poetas aqui selecionados a ligarem-se, comprovada ou presumidamente, a expedições cruzadas.
Da mesma forma, todos os monarcas da linhagem Staufer também se viram impelidos a partir em Cruzada. No entanto, seu compromisso ideológico possuía outro teor: o do papel da monarquia imperial na ordem do mundo, como compreendido então, o papel do Império e dos imperadores na Heiligesgeschichte, na História da Salvação. A atuação escatológica que se esperava dos imperadores foi reforçada a partir da circulação de textos como o Ludus de Antichristo e a Carta do Preste João das Índias, que atribuíam enorme carga simbólica e profética à ida do imperador germânico e senhor do Ocidente à Terra Santa (Latowsky, 2013, p. 139-214). O maciço envolvimento destes monarcas a partir de Conrado III na Segunda Cruzada veio a posicionar o regnum Teutonicorum como um dos principais participantes das Cruzadas, e, assim, a experiência cruzadística teve profundo efeito sobre o imaginário social, o ideário e as práticas políticas, assim como sobre as manifestações culturais germânicas.
As Kreuzlieder corporificam a capilaridade da participação cruzadista germânica no fenômeno cultural da lírica dos Minnesänger. Elas nos proporcionam uma outra forma de aproximação para analisarmos o processo histórico da participação germânica nas Cruzadas, permitindo-nos questionar hipoteticamente, por exemplo, como, partindo-se do princípio da oralidade na performance e propagação destas canções, se poderia analisar a penetração da mensagem cruzadista em camadas sociais menos ligadas à estrutura eclesiástica ou desconhecedoras do latim das bulas papais, mas conhecedoras do Mittelhochdeutsch e dos valores e vivências corteses, que seriam participantes diretos destas expedições.
Por outro lado, também permitem que se possa reunir elementos que contribuam para a futura construção de uma poética das Cruzadas, sendo necessário que atentemos para as problemáticas que os Minnesänger desenvolvem em suas canções. Para Friedrich von Hausen, Deus e o ideal cruzado são maiores que a Frauenminne. Hartmann von Aue relaciona a minne diretamente à lealdade para com seu maior senhor (Deus), atribuindo, portanto, uma dimensão religiosa ao conceito de minne. Albrecht von Johansdorf, entretanto, apresenta em suas canções a harmonização entre o serviço cortês à dama e o serviço religioso a Deus quando se trata do tema da Cruzada. Otto von Botenlouben e sua vivência como soldado da fortuna no Oriente nos fazem pensar na presença da materialidade do mundo e das relações humanas em sua concepção de Cruzada. Na lírica de Walther von der Vogelweide não há qualquer problemática no que tange ao serviço cortês, uma vez que rompera anteriormente em sua lírica amorosa com essa conceitualização. Encontramos, portanto, a união entre a crítica política, por vezes mordaz, e a idealização religiosa do movimento cruzado.
Desta maneira, falar de uma poética das Cruzadas é apresentar os desdobramentos temáticos da lírica dos Minnesänger que se dedicaram ao tema, seja por participação in loco ou por escolher apresentar em sua obra uma visão particular dos embates de sua época. É, acima de tudo, estar atento para as nuances do tema dentro de seu próprio tempo e reconhecer que a circulação, dentro do campo literário, de tal temática atribui a ela um caráter de relevância e de evento.
À guisa de fechamento, estas duas propostas de desdobramentos aqui presentes são apenas duas das possibilidades abertas pela frutífera integração entre estudos históricos e literários para o estudo do Sacro Império Romano, sua cultura, práticas político-ideológicas e seu envolvimento nas Cruzadas, um dos principais fenômenos gestados no decorrer da Idade Média Central (séculos XI-XIII).

Figure 1. Friedrich von Hausen, as represented in the Codex Manesse (Cod. Pal. germ. 848, f. 116v).
(Cod. Pal. germ. 848, f. 116v).