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A língua grega como elemento da ordem romana e de integração com povos de fora da administração imperial na obra de Flávio Filóstrato

The Greek language as an element of the Roman order and integration with peoples outside the imperial administration in Flavius Philostratus’s work

Semíramis Corsi Silva
UFSM, Brasil

A língua grega como elemento da ordem romana e de integração com povos de fora da administração imperial na obra de Flávio Filóstrato

História Unisinos, vol. 23, núm. 1, pp. 13-24, 2019

Universidade do Vale do Rio dos Sinos

Concedo a Revista História Unisinos o direito de primeira publicação da versão revisada do meu artigo, licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution (que permite o compartilhamento do trabalho com reconhecimento da autoria e publicação inicial nesta revista). Afirmo ainda que meu artigo não está sendo submetido a outra publicação e não foi publicado na íntegra em outro periódico e assumo total responsabilidade por sua originalidade, podendo incidir sobre mim eventuais encargos decorrentes de reivindicação, por parte de terceiros, em relação à autoria do mesmo. Também aceito submeter o trabalho às normas de publicação da Revista História Unisinos acima explicitadas.

Recepção: 03 Abril 2018

Aprovação: 07 Dezembro 2018

Resumo: Este artigo objetiva mostrar a importância da cultura grega, especialmente da língua grega, como elemento de ordem e de integração dentro e fora das fronteiras administrativas do Império Romano. Utilizaremos, para isso, as obras Vida de Apolônio de Tiana e Vidas dos sofistas, escritas em meados do século III EC pelo sofista grego Flávio Filóstrato. Visamos perceber as razões para Filóstrato apresentar sua visão, ligadas ao grupo de que ele fez parte, os sofistas gregos, e ao contexto em que ele viveu, o período da dinastia dos Severos (193-235), primeira dinastia oriental a governar o Império Romano, e momento de intensos conflitos com os povos partos e persas. Nossa pesquisa foi realizada utilizando métodos e conceitos da Nova História Cultural, que nos permite pensar as relações de poder ligadas a elementos da cultura.

Palavras-chave: língua grega, ordem imperial romana, Flávio Filóstrato, século III EC.

Abstract: This article aims to show the importance of the Greek language as an element of order and integration within and outside the administrative boundaries of the Roman Empire. To illustrate this we will show Flavius Philostratus’s view in his works Life of Apollonius of Tiana and Lives of the Sophists, written by the Greek sophist in the middle of the 3rd century CE. We also seek to understand the reasons for Philostratus’s view, linked to the group he was part of, the Greek sophists, and also related with the context in which he lived, the period of the Severan dynasty (193-235), the first Eastern dynasty to rule the Roman Empire, and a moment of intense conflicts with the Parthian and Persian peoples. Our research was developed using methods and concepts of the New Cultural History, which allow us to think about the relations of power linked to elements of culture.

Keywords: Greek language, Roman imperial order, Flavius Philostratus, 3rd century CE.

Introdução

Pelo que pudemos perceber ainda, mesmo Filóstrato afirmando a cultura grega e mais especificamente a língua e a paideia, que ele e os sofistas receberam, entendemos sua identificação como marcada por fronteiras que o colocam como grego, mas um grego dentro do Império Romano, parte da aristocracia greco-romana. Assim, não estamos lendo a identificação de Filóstrato como grego no século III EC igual à identificação de um grego na época clássica das póleis, pois, como nos mostra Woolf (1998, p. 55), a própria paideia grega havia sido totalmente reformulada sob o Principado pelo pensamento romano. A paideia grega havia, assim, incorporado marcas de conduta vistas pela aristocracia como traços de sua distinção, o que pode ser percebido até mesmo na origem latina e grega do nome de nosso sofista: Lúcio Flávio Filóstrato.

Durante muito tempo, grande parte da historiografia sobre o Império Romano, altamente influenciada pela obra clássica Declínio e queda do Império Romano, do historiador iluminista Edward Gibbon, voltou especial atenção para um tema: o chamado “fim” ou “queda” do Império Romano e as invasões “bárbaras”.[1] No entanto, nas últimas décadas, possivelmente com as influências da História Cultural, dos estudos sobre identidades e do próprio contexto globalizado em que vivemos, uma nova pergunta tem inquietado os historiadores que estudam a antiga cidade de Roma e seu Império: “Como o Império Romano se manteve por tanto tempo?”

Diversas obras historiográficas têm sido escritas buscando compreender os mecanismos de criação de uma ordem imperial romana que teria contribuído para a manutenção do Império. Das últimas décadas destacamos alguns trabalhos que, a partir de diferentes abordagens, seguem uma tendência em não ver a força militar como único fator de manutenção imperialista, pensando na dialética existente entre conquistador e conquistado e na importância de aspectos simbólicos e culturais no processo imperialista romano. Entre estes trabalhos podemos citar: Empire of the Honour. The Art of Government in the Roman World (1997), de Jon Lendon, Becoming Roman. The Origins of Provincial Civilization in Gaul (1998), de Greg Woolf, Imperial Ideology and Provincial Loyalty in the Roman Empire (2000), de Clifford Ando, a coletânea Experience Rome: Culture, Identity and Power in the Roman Empire (2000), organizada por Janet Huskinson, Globalizing Roman Culture. Unity, Diversity and Empire (2005), de Richard Hingley, Rome’s Cultural Revolution (2008), de Andrew Wallace-Hadrill, Roman Imperialism and Local Identities (2009), de Louise Revell, entre outros.

Lendon (1997), por exemplo, estuda a honra para explicar a relação entre imperador e aristocracias locais, sendo esse o elemento de força para a manutenção imperialista, segundo o historiador. Assim, os cargos imperiais tinham expectativas de honra, sendo uma espécie de moeda de troca na relação imperador/aristocratas provinciais que garantia o bom funcionamento da política imperial. Clifford Ando (2000), por sua vez, visa compreender o que levou à obediência dos sujeitos ao poder romano, percebendo a ordem imperial estabelecida a partir da criação de um consenso (consensus) entre Roma e as elites provinciais, fundado no carisma do imperador, em uma construção ideológica, em grande parte amparada na religiosidade, e na unidade de comunicação. Tal consenso, no entanto, não era a concordância com todas as ideias vindas de Roma, mas a criação de um espaço discursivo reconhecido por todos, onde as divergências podiam ser negociadas. No entanto, como vemos, o foco do trabalho de Ando, assim como o de Lendon, é nas elites do Império.

Já o importante pesquisador do imperialismo romano, o historiador e arqueólogo inglês Richard Hingley (2005), de maneira geral, percebe que, mesmo havendo uma grande complexidade na definição de uma cultura romana e variações locais na identidade romana em interação com as culturas provinciais, desenvolveram-se no Império variadas formas pelas quais a identidade romana foi projetada através de adaptações nos elementos da cultura material, na adoção do latim por membros do exército, em formas de se vestir, etc. Tais elementos teriam sido fundamentais para a unidade imperial em meio às diversidades.

Na mesma linha de ideias propostas por Hingley para pensar mudanças nos conceitos de identidade romana, criticando o conceito de romanização, a também arqueóloga e historiadora Louise Revell (2009) analisa as cidades romanas e os edifícios públicos das mesmas como locais para a reconstrução e divulgação das ideias imperialistas, ampliando o foco marcado dos trabalhos anteriores nas elites.[2] Revell estuda, para isso, a cultura material encontrada em escavações arqueológicas de diversas cidades do Império Romano e a arquitetura urbana, percebendo as cidades romanas como o local de compartilhamento de valores, bem como espaço, por excelência, de divulgação de um modo de vida romano que se opunha ao modo de vida construído como típico de bárbaros, a selvageria.

Entretanto, mesmo pensando em elementos de ordenamento e unidade, estes estudos não deixaram de perceber o Império Romano como um mosaico de povos e sociedades no qual nunca houve uma uniformidade étnica ou cultural. Como bem mostrou Norberto Guarinello (2009, p. 151):

O Império estendia-se por dezenas de povos e comunidades que preservavam suas tradições culturais, alimentares, familiares, suas roupas e suas moradias, seus modos de enterrar os mortos, suas crenças religiosas, em suma, suas culturas particulares.

Diante disso, tais estudos também têm buscado compreender a organização e multiplicidade cultural do Império Romano em diversos tipos de fontes, analisando-as, principalmente, com métodos e conceitos propostos pela História Cultural e percebendo como houve uma rearticulação de elementos étnico-culturais provinciais com elementos da identidade político-cultural greco-romana.[3]

O historiador Woolf (1998), por exemplo, ao interpretar o processo de formação do que ele chama de civilização galo-romana, percebe a existência de processos dinâmicos de trocas culturais entre gauleses e Império Romano. Tais processos podem se caracterizar como uma forma de hibridismo cultural (Morales, 2013). Nas interpretações dos processos de hibridismo, que podem, entretanto, se desenvolver de formas diferentes, temos as interações culturais não como imposições em termos de dominação, mas como trocas, diálogos e intercâmbios realizados por meio de diferentes suportes culturais, como a iconografia, a língua, a arquitetura, a literatura, o vestuário, a religiosidade e as mais diferentes manifestações culturais (Burke, 2007). Assim faz Woolf (1998, p. 16), que trabalha com a compreensão das trocas culturais entre romanos e gauleses, embora apenas analise as elites nestes processos.

Em relação ao Oriente romano, em outro trabalho, Woolf (1994) trata da presença controversa da cultura romana no Oriente já fortemente marcado pela cultura helênica e conclui que os gregos adotaram muitas práticas culturais romanas, tornando-se romanos, na observação do historiador, sem, no entanto, deixarem de ser gregos. Ambas as identificações coexistiam. Portanto, a diferença é que no Ocidente, especialmente no caso da Gália, analisado pelo autor, houve a criação de uma nova identidade híbrida. Os gregos, entretanto, parecem ter sido mais seletivos na adoção de estilos e inovações de origens romanas; houve uma hibridização, como podemos apreender da leitura de Woolf (1994), sem a criação de algo novo propriamente.

Huskinson (2000), por sua vez, concorda com a ideia de mais de uma forma de identificação convivendo em um mesmo indivíduo, mas também analisa a existência de uma cultura das elites no Império Romano, formada por elementos gregos e romanos em interação. Desta forma, para a estudiosa, constrói-se uma identificação greco-romana entre estes grupos privilegiados que é um fator de coesão no Império Romano, embora as culturas dentro do Império fossem muito mais que isso. Sua proposta é perceber como se operacionaliza uma unidade no Império Romano sem destruir as diversidades. Sendo assim, a estudiosa se utiliza dos termos grego e romano para definir as identidades em questão, mas reconhece uma cultura greco-romana das elites. No entanto, para a autora, a diversidade de outras identidades e a forte presença de tradições culturais por todo o Império criam variações locais, o que, porém, ela não objetiva analisar. Embora a proposta da autora seja interessante em muitos aspectos, Huskinson (2000), nos dois textos de sua autoria que compõem o livro que ela própria organiza, trabalha com a ideia de que apenas Roma emana cultura, incorporando tradições gregas.

Assim como Huskinson (2000), Wallace-Hadrill (2008) acredita em uma espécie de identificação das elites, algo não natural ou étnico, mas construído em uma relação dinâmica da cultura romana com a cultura grega, especialmente, e também com as demais culturas imperiais. Criticando a ideia da criação de uma nova entidade cultural, nascida da hibridização, mas também percebendo a coexistência identitária em um mesmo indivíduo, Wallace-Hadrill (2008), ao analisar as transformações da cultura romana na Península Itálica, defende que há a convivência de diferentes culturas dentro do Império Romano em uma pluralidade, certas vezes com identidades conflituosas, certas vezes com identidades paralelas. Ademais, o autor questiona os próprios sentidos do que era ser romano, o que ele vê como uma identificação que muda com o tempo.

Também realizamos as reflexões desse texto no âmbito da História Cultural, mais especificamente da Nova História Cultural. Apoiaremos nosso estudo em ideias das obras citadas principalmente nos textos de Huskinson (2000), Hingley (2005) e na proposta de Guarinello em Império Romano e identidade grega (2009). Nesse texto, Guarinello observa que, sobrepondo-se ao mosaico cultural que foi o Império Romano, houve também a criação, legitimada e apoiada pelos grupos das elites e pela administração e política imperial, de duas grandes áreas linguístico-culturais dentro do Império Romano, a área de predomínio do latim no Ocidente (pars occidentalis) e a área de predomínio grego no Oriente (pars orientalis). Estes dois espaços discursivos comuns entre os grupos das elites eram também espaços “de prestígio social e eficácia político-administrativa” (Guarinello, 2009, p. 153), além de espaços de consenso reconhecidos por todos, onde as divergências podiam ser negociadas.

Dessa forma, percebemos como a existência destas áreas linguísticas e de poder foi de grande importância para a própria manutenção da ordem imperial romana e, a nosso ver, ela é um dos pontos que nos ajuda a refletir sobre a questão levantada nas primeiras linhas deste texto, uma vez que, para nós, seguindo novamente Guarinello (2009, p. 152), a afirmação de identidades em um Império multifacetado e com as comunicações precárias era fundamental para a criação de uma identidade política e para o ordenamento político-administrativo e, consequentemente, para a manutenção do Império Romano.

Lembremos, no entanto, que a cultura grega e, especialmente, a língua grega já eram reconhecidas como elementos de poder e de integração em regiões orientais desde o período helenístico,[4] sendo, portanto, tão importantes para a manutenção do Império Romano quanto o próprio latim. Portanto, nossa visão neste texto, parte da ideia de que elementos culturais foram tão importantes para a manutenção do poder imperial romano como elementos militares.

Um dos escritores do período imperial romano que nos legou obras interessantes para o estudo do tema tratado foi Lúcio Flávio Filóstrato, um autor grego[5] que fez parte da corte imperial da dinastia dos Severos (193-235), estando, portanto, bem próximo da alta esfera do poder político-administrativo romano e dela fazendo parte.[6] É a partir de obras de Filóstrato e de seu olhar, em especial do texto de natureza biográfica Vida de Apolônio de Tiana, que abreviaremos como VA, conforme regras do Oxford Classical Dictionary, que analisaremos o objeto deste artigo, a língua grega como elemento da ordem imperial romana e também de integração do Império Romano com povos que não faziam parte da administração imperial, como partos, indianos e etíopes, por exemplo.

Antes de apresentar melhor nosso autor, cumpre destacar o que estamos compreendendo como ordem romana.

Pela leitura de Ramsay MacMullen (1966) sobre quem eram os inimigos da ordem romana, reconhecemos que a ordem é a estabilidade político-administrativa do Império. Complementamos a ideia de ordem também com a percepção sobre um reconhecimento e uma aceitação de “significados compartilhados” (Huskinson, 2000, p. 07) no âmbito das relações político-culturais em meio à diversidade cultural, como apresentamos nos autores chamados para diálogo neste artigo. Neste sentido, mecanismos e estratégias variadas foram criados, recriados, incorporados e negociados para o controle das inquietações de diversas naturezas, para o desenvolvimento de elementos culturais e discursos compartilhados entre grupos e, consequentemente, para a manutenção da ordem. Destacamos o papel de intelectuais como Flávio Filóstrato, que em suas obras mostravam suas percepções de conflitos e pluralidades, propondo, ainda que metaforicamente, formas de estabilidade entre a diversidade e as proporções grandiosas, geográfica e culturalmente, que tinha o Império Romano.

O próprio Filóstrato nos fornece sua ideia sobre o que é ordem – κόσμος, kosmos, nas palavras de seu biografado Apolônio de Tiana ao imperador Domiciano (81-96):

Nós devemos compreender a ordem que é dependente da criação divina sobre tudo que há no céu, na terra e no mar, em tudo que os humanos participam igualmente, exceto pelo infortúnio. No entanto, também existe a ordem dependente do homem de bem, que não excede os limites de sua sabedoria e que, certamente também você, imperador, reconhece que requer um homem feito à imagem e semelhança divina.

E qual a forma dessa ordem? As almas indisciplinadas se voltam enlouquecidas contra toda forma de organização. As leis são obsoletas para elas, não há nenhum tipo de moderação, os deuses se veem desonrados. Elas amam a maledicência e a extravagância, das quais provém indolência, má conselheira de qualquer ação [...]. Assim, necessita-se de um homem que coloque ordem nas almas, um homem que se apresente como um deus por sua sabedoria (Filóstrato, VA, VIII, 7, 7).

Dessa maneira, a ordem, para Filóstrato, é a harmonia, que é viabilizada por meio de leis e de um bom e moderado administrador, o imperador romano no caso. Esse administrador deve ser auxiliado por um homem sábio, que por sua sabedoria e formação cultural, sua paideia, eleva a si e ao imperador, transformado também em sábio e em algo próximo ao divino.[7] Concluindo, para que a ordem romana seja estabelecida em seus múltiplos aspectos, Filóstrato defende que é preciso, ao lado do imperador de Roma, a participação de sábios como Apolônio, em nossa leitura, uma espécie de projeção do biógrafo Filóstrato e do grupo de que ele fazia parte, os sofistas gregos, em diferentes funções, o que desenvolveremos melhor no decorrer do artigo. Para nós, a partir dessa colocação, Filóstrato está mostrando que os imperadores romanos devem ter ao seu lado homens de cultura grega como ele e os sofistas, está defendendo sua formação, cultura e grupo. Assim sendo, o que dá unidade e ordenamento é, em Filóstrato, o imperador romano e a cultura grega que pode ser transmitida por meio do sábio. Acreditamos que Filóstrato esteja aqui defendendo seu ponto de vista e sua posição. No entanto, ele está também marcando sua defesa da importância da cultura grega como elemento compartilhado no Império Romano, o que pretendemos desenvolver na análise de sua obra.

Portanto, é partindo destas ideias que analisaremos o objeto deste artigo. Comecemos apresentando Flávio Filóstrato, seu contexto e suas principais produções escritas.

HUSKINSON, J. 2000. Elite Culture and the Identity of Empire. In: J. HUSKINSON (ed.), Experience Rome: Culture, Identity and Power in the Roman Empire. New York, Routledge, p. 95-123.

Em torno de Filóstrato, seu contexto e suas produções escritas

Flávio Filóstrato foi um sofista grego que viveu no Império Romano durante o governo da dinastia dos Severos (193-235), primeira dinastia oriental do Império Romano.[8] Filóstrato fez parte de uma rica família da ordem senatorial municipal, originária de Lemnos, ilha do território ateniense, sendo seus moradores cidadãos atenienses por direito (Flinterman, 1995, p. 17).[9] Tal família estava entre as mais nobres de Atenas por volta dos séculos II e III da Era Comum, ocupando, segundo a epigrafia, posições importantes em Lemnos e Eritrai.[10]

Sabemos que Filóstrato foi um destacado escritor, esteve próximo da corte de Septímio Severo e Caracala e, possivelmente, chegou a viajar junto com o cortejo imperial por manter relações intelectuais com a imperatriz de origens sírias Júlia Domna, esposa de Septímio Severo (193-211) e mãe de Caracala (211-217). Em relação a Júlia Domna, Filóstrato nos diz que foi ela que lhe pediu que escrevesse a obra de natureza biográfica Vida de Apolônio de Tiana (VA, I, 3) e, também, que ele fazia parte do círculo (κύκλος – kiklos) de escritores que eram próximos da imperatriz (VA, I, 3), mostrando-nos sua proximidade com a alta esfera do poder romano. Filóstrato também ocupou cargos públicos em Atenas[11] e é autor da conhecida obra Vidas dos Sofistas, um importante conjunto de pequenos comentários biográficos de oradores selecionados pelo autor e classificados como sofistas, alguns da chamada Sofística Antiga e outros da Segunda Sofística, denominações que parecem ter sido dadas por Filóstrato para agrupar seus biografados.

Na VS, como abreviaremos o título da obra Vidas dos Sofistas, Filóstrato nos mostra que seus sofistas gregos são hábeis oradores públicos e também homens que ocupam diversas funções na política e na administração das cidades do Império Romano. Além disso, os sofistas, para Filóstrato, são também professores de retórica na maior parte do tempo (VS, II, 558, 614).

Cumpre, no entanto, ressaltar que estes sofistas eram considerados gregos por nosso autor, sendo a identidade grega característica essencial dos sofistas filostratianos, mas essa identidade grega era político-cultural e construída em fronteiras identitárias, não sendo um fenômeno propriamente étnico. De fato, na VS a cultura grega e, essencialmente, a língua grega, a arte de escrever e falar em grego são elementos fundamentais de identificação entre estes homens que, no entanto, descendem, em grande maioria, mas não apenas, das regiões do Oriente do Império Romano com forte presença de elementos da cultura helênica hibridizada e de culturas locais. Na VS temos sofistas de Atenas, Náucratis, Esmirna, Éfeso, Bizâncio, Prusa, Mileto, Tarso, Cilícia, Pérgamo, Tessália, Lícia, Nicomédia, Arábia, Ravena, Roma, Gália, Síria, entre outras cidades e regiões do Império. Portanto, estes homens tinham várias identidades em si, embora Filóstrato frise a cultura grega ao apresentá-los.

Em uma passagem significativa para compreender tal fato, Filóstrato nos mostra Apolônio ensinando a seu discípulo sírio Damis que, onde quer que o sábio esteja, ele deve se sentir como na Grécia, pois deve se manter como um grego, conservando a virtude.

Você talvez pense que errar na Babilônia seja menos grave que errar em Atenas, Olímpia ou Pito, e não considera que para um homem sábio a Grécia está em todo lugar, e que ele não considerará ou confiará em nenhuma região, nem deserto, nem bárbaro, vivendo sob os olhos da virtude (VA, I, 35).

Portanto, na visão de Apolônio/Filóstrato, a Grécia está no homem instruído, no recebimento da paideia, e não no lugar em si em que este homem está. Dessa forma, podemos concluir que os sofistas são típicos representantes destes homens instruídos (πεπαιδευμένοι – pepaideumenoi) que para nosso autor, simbolizam a Grécia em uma espécie de metáfora, em nossa leitura. A partir disso, acreditamos que Filóstrato mostre que não importa o local de nascimento de uma pessoa, mas sua educação, sendo ela passível de ser recebida. Sabendo que Filóstrato atuou em Roma durante o governo da dinastia síria dos Severos, para nós, seu posicionamento reforça a importância desses governantes em terem ao seu lado homens como ele e os sofistas, que lhes podiam proporcionar uma educação grega.

A preocupação com o seu grupo, os sofistas gregos, parece ter sido algo tão forte para Filóstrato que, além de ele escrever uma obra dedicada aos sofistas, foi quem parece ter cunhado a famosa expressão Segunda Sofística para referir-se ao momento e produção escrita de seu grupo. Sua coleção de biografias de sofistas é o documento mais antigo, que chegou até nós, no qual o termo Segunda Sofística (Δευτέρα σοφιστική – deutera sophistike) aparece pela primeira vez (Anderson, 1993, p. 13; Trapp, 2004, p. 113; Abraham, 2014, p. 478), como lemos nestas passagens:

A que sucedeu a ela, que não deve ser chamada de nova, pois é antiga, mas sim de Segunda Sofística, expõe discursos nos quais o orador personificava os tipos do pobre, e do rico, do nobre e do tirano, e questões em que encarnava personagens concretos, para os quais a história é guia adequada (VS, I, 481).

A respeito de Esquines, filho de Atrometo, que afirmamos ser o iniciador da Segunda Sofística, há que prestarmos atenção no que segue (VS, I, 507).

A marca fundamental da Segunda Sofística de Filóstrato é a afirmação da identidade grega. Tim Whitmarsh (2001) se propõe a não tratar a Segunda Sofística como um movimento, como alguns autores chegaram a fazer, mas como um fenômeno identitário de escritores em torno da cultura grega no Império Romano.[12] Ou seja, para o pesquisador, a Segunda Sofística foi uma prática retórica destes autores em torno da cultura e, em especial, a língua grega. Barbara Borg (2004, p. 02) indica que, nos últimos anos, os estudos sobre os sofistas no Império Romano têm observado que a Segunda Sofística não envolveu um movimento literário propriamente, mas um sistema de valores, um modo de pensar e a afirmação de uma identidade grega, que poderiam ser expressos de variadas formas conforme os diferentes sofistas.

Percebemos a existência da Segunda Sofística, mas corroboramos a concepção expressa acima por Whitmarsh (2001) e Borg (2004) de que ela não foi um movimento, mas uma afirmação identitária em torno da cultura grega. Notamos que o grupo de autores que concorda com essa ideia, em geral, analisa as motivações dos sofistas em afirmar esta cultura grega contextualizando-os em face do Império Romano. É dessa forma que nos propomos ler a obra de Filóstrato, percebendo o diálogo estabelecido por ele entre a afirmação da cultura grega e dos papéis dos sofistas e a dinâmica imperial em que viviam, de acordo com especificidades de suas trajetórias. Ao fazer uma leitura crítica da VS de Filóstrato, percebemos que seu autor teve o intuito, consciente ou não, de estruturar um movimento em torno dos sofistas e da sua cultura no Império Romano, mas que esse movimento de fato não existiu de maneira estruturada e tal elaboração do autor certamente estava relacionada com sua defesa de sua própria categoria enquanto sofista.

Da mesma forma que Filóstrato escreveu a VS a fim de exaltar os sofistas e a cultura grega, nosso autor deixou marcas dessa exaltação em todo corpus documental que pode ser considerado de sua autoria, que são as obras: VA, VS, Heroicos, Imagens, Cartas, Ginástico, Nero e um discurso retórico conhecido como Dialexis 2.

Na VA, em especial, percebemos como Filóstrato parece ter se projetado em seu biografado. O Apolônio de Tiana representado por Filóstrato nos parece, então, como modelo de um sofista ideal. É assim que podemos ver como os sofistas da VS possuem funções muito semelhantes às funções do Apolônio filostratiano; são elas: a prática de discursar em público, a tradição de serem intelectuais viajantes, a busca pela concórdia nas cidades, a proximidade com imperadores, a exaltação exagerada das tradições gregas, a função de negociador e de intermediador cultural, entre outras. As semelhanças entre Apolônio e os sofistas podem ser vistas se compararmos a biografia de Apolônio da VA, principalmente, com a biografia do filósofo e sofista Dião de Prusa, uma espécie de intelectual perfeito para Filóstrato na VS (I, 487) e no qual nosso autor se inspirou muito na construção de seu tianeu, trazendo-nos temas de discursos de Dião de Prusa para as falas de Apolônio de Tiana, como o caso da defesa do cabelo comprido (VA, VIII, 7, 6) e das críticas às práticas de lazer na cidade de Alexandria (VA, V, 26), que estava afastada dos costumes helênicos que marcaram sua fundação no século IV AEC.

A exaltação exagerada da cultura grega e, principalmente, da língua grega fica ainda mais interessante se percebermos Filóstrato em seu contexto, o período da dinastia dos Severos, quando o autor escreveu suas obras.

Sabemos que a época dos Severos foi um importante momento de expansão dos contatos político-culturais no Império Romano.[13] Estes contatos podem ser percebidos na própria origem do primeiro imperador da dinastia, Septímio Severo, que era da província da África Proconsular, na origem síria da primeira imperatriz, Júlia Domna, e também dos imperadores Heliogábalo e Severo Alexandre, além da introdução de práticas orientais, principalmente sírias, nos rituais religiosos da corte.

Além disso, durante a dinastia dos Severos é elaborada a Constitutio Antoniniana, pela qual o imperador Caracala concedeu, no ano de 212, cidadania romana a todos os membros livres do Império. Segundo Alejandro Bancalari Molina (2000, p. 24), ao ditar a Constitutio, Caracala criava um novo mundo, um império novo, único política e juridicamente através de uma cidadania universal.

Jean-Michel Carrié (2011, p. 12) propõe que o governo do Império Romano transcendeu as identidades étnicas com a ascensão ao poder da dinastia dos Severos, pois desta dinastia temos imperadores não romanos, mas naturalizados romanos, que realizaram a abertura da cidadania. Embora saibamos hoje que os resultados da extensão da cidadania por Caracala não provocaram mudanças em relação à divisão dos grupos sociais, pois novas fronteiras foram criadas no interior da cidadania, acreditamos que intelectuais como Filóstrato, que viviam e escreviam justamente neste momento, refletiram e afirmaram em suas obras marcas de distinção enquanto membros da elite greco-romana.

Além destas questões de ordenamento interno, em relação às fronteiras geográficas do Império, sabemos que no início do período dos Severos há a incorporação de parte da Mesopotâmia ao Império como reino cliente (Griffith, 2004, p. 317) e guerra entre romanos e partos. Em 211/212 os persas, sob a dinastia sassânida, iniciam várias tentativas de conquistar partes do Império Romano. Em 220 os persas ocupam o reino dos partos, centralizado na Babilônia, e se tornam uma das maiores preocupações do Império Romano no momento (Millar, 1988, p. 345).

Portanto, podemos notar um pouco do contexto e das inquietações que rondavam o momento em que nosso autor escrevia suas obras: momento de extensão da cidadania e de reflexões, negociações e construções ideológicas de membros dos grupos privilegiados sobre sua participação no poder imperial, além de preocupações em relação às fronteiras geográficas propriamente. Visando analisar a exaltação e a funcionalidade da língua grega conforme a apresentação de Filóstrato na VA e na VS dentro de seu contexto de produção e inserção do autor, interpretaremos, a seguir, algumas passagens das obras.

A língua grega como elemento da ordem imperial romana e de integração com povos de fora da administração imperial

Partindo da ideia de Guarinello (2009, p. 154) de que o caráter elitista da cultura grega “a tornou eficiente e instrumental para o processo de manutenção da ordem imperial e por isso foi conscientemente apoiado e incentivado pelos imperadores, sobretudo a partir do século II d.C”, percebemos como Filóstrato apresenta a língua grega falada na época clássica de Atenas, o ático, como um elemento extremamente valorizado da identidade da elite grega no Império Romano. O grego ático era o grego das elites intelectualizadas, baseado no grego da época clássica da pólis de Atenas (séculos V e IV AEC), almejado pelos intelectuais da Segunda Sofística em oposição ao demótico, falado pelas camadas populares (Whitmarsh, 2001, p. 272).

Vemos, por exemplo, a seguinte passagem da VS referente ao sofista Arístocles de Pérgamo:

O estilo de seus discursos, brilhante e aticista, mais apto para a eloquência de aparato do que para o discurso forense, já que faltavam em sua linguagem a expressão insuflada e os ânimos momentâneos. Seu aticismo à prova era comparado com a língua de Herodes, e mostrava-se em sutilezas mínimas, mais do que em um verbo grandioso e sonoro (VS, II, 568).

O sofista Eliano, mesmo sendo romano de nascimento e não tendo o grego como língua natural, é admirado por Filóstrato por se expressar em puro ático como os atenienses do interior. Portanto, Eliano é admirado por ter adquirido um bom vocabulário grego e sotaque ático:

Eliano era de Roma, mas se expressava com o ático dos atenienses do interior. Acredito que este homem é digno de elogio, primeiro, por ter se esforçado para conseguir um grego puro, quando habitava uma cidade que usava outra língua [...] (VS, II, 624).

Cumpre ainda perceber que também Apolônio de Tiana na VA, mesmo sendo da Capadócia, região pouco helenizada de acordo com informações de Maurice Sartre (1994, p. 64), é representado como um legítimo grego ático com fluência na língua da antiga Atenas do período das póleis. A língua de Apolônio é puramente ática, sem sotaque, conforme mostra Filóstrato: “Sua língua era o ático e isso não se alterava devido a um sotaque por causa de sua região de origem” (VA, I, 7). Maud Gleason (2006, p. 244) informa que o ponto-chave da educação da elite grega do período romano era a eloquência no dialeto arcaizante ático grego. Portanto, o Apolônio de Filóstrato é mostrado como aquele que fala a linguagem ideal para Filóstrato e os sofistas da Segunda Sofística; é a projeção do modelo perfeito do escritor.

É também na VA que a língua grega é de fato operacionalizada como elemento da ordem e de integração com povos dentro e fora da administração do Império Romano.

A biografia VA é a narração em oito livros de uma longa viagem do biografado Apolônio de Tiana por regiões dentro da fronteira administrativa do Império Romano e também fora dela, como as terras dos partos, indianos e etíopes. Nestas longas viagens, que duraram toda a vida adulta do protagonista, Apolônio mantém contatos e dialoga com diferentes povos, sempre tendo a língua grega e a cultura grega como mediadoras destes contatos.

Em Gades, chamada na VA de Gadira, na província romana da Hispânia Bética, assim como em todo lugar por que Apolônio passa, ele encontra a cultura grega, mais especificamente a honra aos costumes e tradições dos atenienses como Filóstrato, presente entre os habitantes da cidade:

Dizem que a população de Gadira é muito helenizada e que educam como em nossa cultura. Apreciam os atenienses de modo muito especial entre os gregos e celebram sacrifícios em honra a Menesteu, o ateniense. Além do mais, são admiradores de Temístocles, o almirante, e por sua sabedoria e valor lhe ergueram uma estátua de bronze em posição de um pensador, como se estivesse ponderando sobre a resposta de um oráculo (VA, V, 4).

A região da Bética é identificada com a Ática em outra passagem do texto filostratiano:

A região da Bética, da qual é homônimo o rio, dizem que é a melhor das regiões, pois está cheia de cidades e pastagens e porque o rio está canalizado por todas as cidades e, depois, porque está cheia de todos os tipos de cultivos e frutos da estação, como a Ática no outono e na época dos Mistérios (VA, V, 6).

Na citação acima, observamos o esforço de Filóstrato em tratar a presença da cultura grega pelo Império Romano mesmo nas partes do Ocidente latino.

Já fora das fronteiras administrativas romanas, descendo a região da Mesopotâmia, Apolônio se encontra na Císsia, onde viviam povos gregos erétrios deportados da ilha da Eubeia pelo rei persa Dario I (522-486 AEC) há 500 anos (VA, I, 23). Ali, Apolônio encontra templos em estilo grego e túmulos com epitáfios escritos em grego; muitos destes sepulcros estavam destruídos, e Apolônio os reergueu em honra aos gregos (VA, I, 24).

Depois disso, Apolônio chega à cidade da Babilônia (VA, I, 25-40), sua primeira parada. Na Babilônia, o tianeu também encontra vestígios da cultura grega presente em adornos de casas com pinturas de cenas mitológicas. Ali o rei parto Vardanes conversa com Apolônio em grego e diz conhecer bem a língua grega. Achamos esse fato possível, lembrando que as origens da Pártia remontam a uma satrapia do Império Selêucida, herdeiro das conquistas de Alexandre. O uso do grego, especialmente como língua de diplomacia e administração, se estendeu imensamente com as conquistas de Alexandre no século IV AEC e depois com o Império Selêucida.[14] No entanto, parece-nos um exagero de Filóstrato mostrar que o rei parto fala a língua de Apolônio, o grego ático, tão bem quanto sua própria língua de origem.[15] Tomemos como exemplo o diálogo entre Apolônio e o rei Vardanes:

Apolônio: – Rei, conhece toda a língua grega ou apenas um pouco dela para compreender [se fazer entender?] mais ou menos e não parecer descortês com algum grego?

Rei: – Conheço toda a língua grega, respondeu, igual à do meu povo. Fale sobre o que quiser, pois seguramente por isso pergunta (VA, I, 32).

E o rei Vardanes é citado como possuindo vestimentas genuinamente áticas:

Apolônio disse que tinha bastante ouro, uma vez que Vardanes havia dado escondido ao guia, mas que pegava só os vestidos de linho, pois pareciam o manto de filósofo dos antigos e genuinamente áticos (VA, II, 40, 3).

Apolônio também dialoga com um rei e os sábios indianos em língua grega. Apolônio chega a se admirar com o conhecimento que os indianos tinham do grego (VA, III, 12). Tomemos como exemplo a autodescrição do rei indiano Fraotes para Apolônio:

– Temia parecer atrevido quando ainda não me conhecia por mim mesmo, e que era um bárbaro não por decisão da sorte. Mas, após tê-lo ganhado, porque vejo que me aprecia, não posso me ocultar, assim lhe demonstrarei em vários aspectos que estou bem preparado na língua grega (VA, II, 27).

Apolônio conversa em grego com um mensageiro dos sábios que encontra ao chegar à cidade dos brâmanes:[16] “Dizem que após chegar correndo até Apolônio, dirigiu-lhe a palavra em língua grega e que isso lhes pareceu extremamente estranho porque todos da aldeia falavam grego” (VA, III, 12).

E temos os diálogos entre o sábio brâmane Iarcas com o tianeu. No primeiro, lemos que o sábio, além de falar em grego, está atento a essa língua, percebendo um erro na carta de recomendação que lhe enviou o rei Fraotes sobre Apolônio, e no segundo diálogo lemos sobre a admiração de Damis, o discípulo de Apolônio, ao ver que o indiano falava grego muito bem:

Ao ver Apolônio, o cumprimentou em língua grega e lhe pediu a carta do indiano. Apolônio estranhou essa sua clarividência e Iarcas lhe disse que faltava uma letra na carta, um delta, seguramente, pois havia escapado quem a escreveu (VA, III, 16).

Enquanto o indiano discursava, Damis afirma que sentiu grande admiração e que ele proferiu grandes palavras. Ele nunca pensou que um indiano tivesse tal domínio da língua grega, nem que, mesmo que conhecesse a língua, dissertasse com tal facilidade e oportunidade (VA, III, 36).

Mas, diferentemente de Filóstrato, que vê a possibilidade de comunicação entre falantes de grego e bárbaros, por mostrar que muitos bárbaros orientais falavam grego, seu contemporâneo Herodiano parece não ter a mesma ideia. Em sua obra (História do Império Romano, IV, 10, 5), Herodiano ressalta a fala do rei parto Artabano de que não poderia haver harmonia entre o casamento de sua filha e o imperador Caracala, que faz a proposta de casamento. O motivo alegado pelo rei, conforme Herodiano, é, justamente, por Caracala e a filha não falarem a mesma língua, com o que Herodiano parece concordar.

Desta maneira, embora existisse de fato uma comunicação em grego no Oriente romano e não romano, especialmente para fins diplomáticos, percebemos que Filóstrato exagera em sua apresentação como forma, acreditamos, de afirmação identitária e de afirmação de posição. Tal afirmação, em nossa leitura, não deve ser descontextualizada do momento em que ele vivia e das relações estabelecidas por ele com os homens e mulheres poderosos do Império Romano dos Severos, uma dinastia siríaca em um momento de expansão dos contatos e das guerras nas regiões orientais do Império.

Da mesma forma que Apolônio fala em grego e encontra elementos da cultura grega na Índia e na cidade da Babilônia, ele também encontra tais elementos no Egito, na Etiópia, na Hispânia Bética, na cidade de Roma e, por suposto, nas cidades gregas da Província de Acaia, da Província da Ásia e das demais províncias próximas da cultura helênica do Oriente imperial romano.

Por fim, uma das passagens mais significativas da VA em relação ao tema deste texto é quando Apolônio de Tiana aconselha o imperador romano Vespasiano (69-79) a colocar nos cargos de governadores de províncias das regiões de língua grega (Oriente do Império) homens que falem grego e, nas regiões de língua latina (Ocidente do Império), homens que falem latim:

Sustento que se devem enviar pessoas adequadas às províncias que correspondem por sorteio, na medida em que a sorte o permita. Os que falam grego devem mandar sobre os gregos e os que falam latim, sobre os de sua mesma língua ou afins: na época que passei pelo Peloponeso, a Grécia era governada por um homem que não conhecia os costumes gregos, e os gregos não o compreendiam em nada. Por essa razão, ele fracassou e seus empreendimentos fracassaram?], pois seus conselheiros e assessores nas decisões dos tribunais comercializavam as sentenças, tratando o governador como a um escravo (VA, V, 36).

Nesta citação há a afirmação da existência das duas grandes áreas culturais, o Ocidente que tinha o latim como língua de diplomacia e trocas e o Oriente que tinha o grego como elemento de unidade, na visão do autor. O que Filóstrato faz nessa passagem da VA, para nós, vai ao encontro do que afirma Guarinello (2009, p. 153), de que a afirmação destas duas grandes áreas demonstra que havia uma preocupação de grupos privilegiados em “criar um instrumento para construir e gerenciar uma identidade imperial que legitimasse a posição do imperador e a supremacia das elites nas cidades do Império”. Também corrobora as ideias de Huskinson (2000) e Wallace-Hadrill (2008) sobre a existência de uma identidade político-cultural greco-romana das elites que abria um espaço de comunicação e interação, visando a organização e o ordenamento.

Entretanto, o bilinguismo jamais erradicou o uso das línguas locais (Molin, 2011, p. 60), o que podemos ver, inclusive, nos exemplos trazidos pela documentação sobre a própria família severiana A História Augusta mostra o fundador da dinastia severiana, Septímio, tendo uma irmã que possuía dificuldades para falar latim e ele também tendo um forte sotaque regional (Kemezis, 2006, p. 38).

Assim sendo, acreditamos que Filóstrato como um intelectual e membro das elites neste império sabia que a língua grega não era totalmente conhecida e usada de forma tão comum nas regiões de dentro e fora do Império Romano nas partes orientais, mas ele usa do exagero dessa representação para afirmar a superioridade de sua posição e a necessidade de homens como ele ao lado dos governantes romanos.[17]

Considerações finais

Diante do que foi apresentado, acreditamos que, na VS, Filóstrato buscou defender que existia um grupo social homogêneo, identificado a partir de sua formação e inserção político-social, especialmente no que tange às estruturas político-administrativas do Império Romano, os sofistas de cultura grega. Não obstante, pensamos que esse grupo podia não ser homogêneo e que nem todos os sofistas tinham o mesmo grau de influência que Filóstrato teve e defendeu para o grupo. É em busca dessa defesa que lemos o uso do termo Segunda Sofística por Filóstrato para definir o momento e esses intelectuais, ligando-os ao prestigiado passado grego. É em busca dessa defesa que também acreditamos que Filóstrato tenha exaltado de forma tão enfática a cultura grega e os que a possuíam por meio da paideia. Filóstrato exalta, de maneira especial, o fato deste grupo falar bem o grego ático.

Afirmando e posicionando a cultura grega como um elemento identitário das elites, Filóstrato mostra aos seus leitores como tal cultura e, logo, ele e seus sofistas possuidores da mesma poderiam ser úteis à manutenção do poder imperial romano. Filóstrato desenvolve um discurso de unidade, buscando contribuir para a manutenção de uma ordem simbólica, especialmente em um momento de expansão dos contatos político-culturais e guerras com formações imperialistas orientais como é o momento da dinastia severiana que ele vivia. Esta ideia filostratiana também nos faz refletir sobre a visão de Filóstrato sobre a corte imperial severiana e como sua percepção de bárbaros na VA dialoga com sua compreensão sobre estes imperadores considerados bárbaros quando não se utilizavam de elementos da cultura greco-romana, como era o caso da maneira de falar de Septímio Severo, por exemplo. Parece-nos, novamente, que Filóstrato afirma papéis para sua cultura grega diante dos Severos, e um deles era a capacidade de melhorá-los ao torná-los sábios, ao educá-los aos moldes da paideia.

Da mesma forma, a cultura grega pode ser um elemento de integração e comunicação com povos de fora da administração romana de regiões orientais, que, por sua vez, já possuem o grego como língua de diplomacia desde o período helenístico. Diante disso, a cultura grega se torna algo essencial para a criação de identidades comuns entre as elites e para a ordem e manutenção do Império Romano, o que a nosso ver ajuda a pensar sobre elementos da questão proposta no começo deste texto: “Como o Império Romano se manteve por tanto tempo?” Ainda que seja uma questão bastante complexa, acreditamos que um elemento de ordem como a língua grega foi importante para a coesão, unidade em meio à diversidade e manutenção das estruturas de poder imperiais. Neste sentido, a defesa feita por Filóstrato da integração cultural pela cultura grega, em especial pela língua, faz bastante sentido para nós.

Na VA, por sua vez, Filóstrato buscou, através das relações de Apolônio de Tiana em suas viagens, apresentar um espaço discursivo no qual a língua e a cultura grega como um todo eram os elementos que identificavam e integravam variados povos dentro do Império Romano. Em todos os contatos de Apolônio, a cultura e a língua grega aparecem como mediadoras. A cultura grega ainda facilita, para o autor, os contatos político-culturais com povos de fora da administração romana no Oriente. Portanto, na VA o Império Romano comporta confluências e diversas culturas, mas a cultura grega é um elemento fundamental de ordenamento.

Pelo que pudemos perceber ainda, mesmo Filóstrato afirmando a cultura grega e mais especificamente a língua e a paideia, que ele e os sofistas receberam, entendemos sua identificação como marcada por fronteiras que o colocam como grego, mas um grego dentro do Império Romano, parte da aristocracia greco-romana. Assim, não estamos lendo a identificação de Filóstrato como grego no século III EC igual à identificação de um grego na época clássica das póleis, pois, como nos mostra Woolf (1998, p. 55), a própria paideia grega havia sido totalmente reformulada sob o Principado pelo pensamento romano. A paideia grega havia, assim, incorporado marcas de conduta vistas pela aristocracia como traços de sua distinção, o que pode ser percebido até mesmo na origem latina e grega do nome de nosso sofista: Lúcio Flávio Filóstrato.

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Notas

1 O primeiro volume de Declínio e queda do Império Romano foi publicado em 1776 e o último volume em 1788. A edição que costumeiramente utilizamos é a seguinte: GIBBON, E. 1989. Declínio e queda do Império Romano. São Paulo, Cia. das Letras.
2 Sobre o debate em torno do uso do conceito de romanização indicamos a leitura de Hingley, 2010.
3 Estamos compreendendo tanto identidade étnico-cultural quanto identidade político-cultural como processos de reconhecimento que surgem a partir de categorias desenvolvidas pelos grupos para se identificarem e identificarem seus outros. Entretanto, a identidade político-cultural greco-romana é compreendida aqui como um sistema de valores compartilhados, criado, recriado e articulado pelos grupos das elites do Império Romano a fim de se reconhecer como membros de um grupo maior dentro do Império Romano, visando a poder e ordem. Tal identidade político-cultural incluía modos de se vestir, falar, comer e se portar de maneira geral, reconhecendo a existência de uma paideia/humanitas formadora dos valores da romanitas que, por sua vez, variava nos contatos com as diferentes culturas dentro do Império e conforme os diferentes indivíduos e grupos dentro de uma mesma comunidade.
4 Lembremos também que há regiões do ocidente imperial romano, como parte da Hispânia, por exemplo, onde já havia contatos com os helenos desde o século IX a.C. No entanto, a continuidade do uso da língua grega nessas regiões é muito diferente do uso em outros territórios conquistados pelos romanos nas regiões orientais, outrora parte das conquistas de Alexandre e das monarquias helenísticas.
5 Estamos utilizando o termo grego para nos referir a Filóstrato, mas devemos mencionar que o próprio autor usa o termo heleno (Ἕλλην – Hellen), uma vez que graecus e graecia eram expressões da língua latina, criadas pelos romanos para designarem os gregos (Baroin e Worms, 2006, p. 04). Já sobre o nome de nosso autor, Lúcio Flávio Filóstrato, segundo a onomástica romana: Lúcio (prenome, nome individual), Flávio (gentilício, nome da gens), Filóstrato (particular, nome da família). Desta forma, os nomes dos homens romanos eram compostos de três partes: primeiramente vinha o prenome ou nome individual (praenomen), depois o nome da gens (nomen) e, por fim, o nome particular ou nome da família (cognomen). Portanto, Lucius Flavius Philostratus se refere ao indivíduo Lúcio, da gens Flávia e da família dos Filóstratos.
6 Quando afirmamos que Filóstrato fez parte da corte severiana, utilizamos a definição de Wallace-Hadrill (1996) sobre esta área de poder próxima aos imperadores. Assim, corroboramos sua ideia de corte como instituição social (não legal), local de influência, círculo de amizades, instituição privada em sua composição e pública em sua importância, diferenciando seus membros pela proximidade em relação ao imperador. Wallace-Hadrill (1996, p. 288) também define a que categoria pertenciam os membros destas cortes e respectivas funções: família imperial, libertos da casa imperial (domus ou familia Caesaris) e amigos do imperador (senadores e equestres). O mesmo historiador (1996, p. 292) acrescenta: “Um notável grupo que encontramos regularmente na corte de Augusto e seus sucessores é o dos intelectuais gregos e homens de conhecimento”, como Filóstrato, por exemplo. Entre as funções dos membros da corte estavam providenciar e controlar o acesso físico ao monarca, ditar valores estilísticos e morais, servir como secretário imperial, escritor de cartas, além de conselheiro do imperador.
7 Entendemos paideia como a educação pedagógica, política, filosófica e religiosa, recebida pelos cidadãos da elite greco-romana (Carvalho, 2010, p. 25).
8 Sobre elementos da identidade oriental síria da dinastia dos Severos, ver: SILVA, 2018.
9 Em 167/166 AEC, os romanos reconheceram o direito de Atenas sobre a Ilha de Lemnos, e os membros dessa comunidade passaram a receber o direito à cidadania ateniense. Lemnos, então, passou a aparecer como um demos ático (De Lannoy, 1997, p. 2384).
10 Eritrai foi uma antiga cidade grega da região da Jônia.
11 Informação obtida com base em estudos de material epigráfico encontrado em bases de estátuas atribuídas a Filóstrato. Sobre tal estudo sugerimos a leitura do capítulo 1 de nossa tese de doutoramento, citada nas referências.
12 Entre os autores que em seus textos consideraram a Segunda Sofística um movimento estão, por exemplo: Glen Bowersock (1969), Ewen Bowie (1981), Simon Swain (2003) e Andrew Wallace-Hadrill (2008).
13 Por contatos político-culturais estamos compreendendo aqui as relações políticas e administrativas entre povos de dentro e de fora do Império e o poder romano e as relações de trocas e interpenetrações culturais dos mais diversos tipos, simbólico/espiritual e material.
14 E, como é conhecido, Alexandre conquistou o Egito, a Síria, a Palestina e chegou ao Oriente até o norte da Índia ocidental, precisamente ao rio Hifasis – atual rio Beas, mais oriental dos afluentes do Punjab. Com sua morte, seus generais controlariam o Egito, a Ásia Menor, Fenícia, Síria, Palestina, Mesopotâmia, regiões do atual Irã e norte da Índia (Cassio, 1996, p. 991). Conforme Albio Cassio (1996), os testemunhos arqueológicos atestam que no Império Parto a língua grega era usada em documentos como contratos, cartas, base de estátuas e moedas, o que torna o testemunho de Filóstrato sob Vardanes e a língua grega coerente.
15 Como indica Cassio (1996), o grego que será difundido pelo Império de Alexandre e de seus generais, macedônios grecófonos, a koiné helenística (Κοινή ἑλληνική – koine hellenike), é criado a partir do ático clássico, reunindo elementos de diferentes dialetos gregos, sobretudo, o jônico, permanecendo substancialmente ático no sistema fonológico.
16 Membros da mais elevada casta sacerdotal indiana, “detentores do poder espiritual, era-lhes prescrito o cumprimento de seis atos – ensinar, estudar, sacrificar para si, sacrificar para outros, ofertar e receber ofertas” (Rosa, 2009, p. 120).
17 Devido à extensão de um artigo não pudemos tratar com mais detalhes essa ideia; para um aprofundamento do debate sugerimos a leitura da tese de doutoramento da qual as reflexões desse artigo fazem parte: SILVA, S.C. 2014. O Império Romano de Filóstrato nas viagens da Vida de Apolônio de Tiana. Franca, SP. Tese de Doutoramento em História, Universidade Estadual Paulista, 401 p.
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