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A Guerra da Tríplice Aliança como conhecimento escolar no Paraguai: Narrativas históricas centradas em personagens (1897-2009)

The Triple Alliance War as school knowledge in Paraguay: historical narratives centered on characters (1897-2009)

André Mendes Salles
UFRN, Brasil

A Guerra da Tríplice Aliança como conhecimento escolar no Paraguai: Narrativas históricas centradas em personagens (1897-2009)

História Unisinos, vol. 23, núm. 3, pp. 332-344, 2019

Universidade do Vale do Rio dos Sinos

Concedo a Revista História Unisinos o direito de primeira publicação da versão revisada do meu artigo, licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution (que permite o compartilhamento do trabalho com reconhecimento da autoria e publicação inicial nesta revista). Afirmo ainda que meu artigo não está sendo submetido a outra publicação e não foi publicado na íntegra em outro periódico e assumo total responsabilidade por sua originalidade, podendo incidir sobre mim eventuais encargos decorrentes de reivindicação, por parte de terceiros, em relação à autoria do mesmo. Também aceito submeter o trabalho às normas de publicação da Revista História Unisinos acima explicitadas.

Recepción: 07 Mayo 2019

Aprobación: 17 Agosto 2019

Resumo: A investigação em tela define como corpus documental obras didáticas de História concebidas e adotadas em escolas da educação básica no Paraguai. Analisamos doze livros didáticos paraguaios de História com a finalidade de observar a tradução da Guerra da Tríplice Aliança em conhecimento escolar, especificamente no que diz respeito a narrativas históricas centradas em personagens. As obras selecionadas cobrem um recorte temporal cujo marco inicial se situa no final do conflito, portanto, na segunda metade do século XIX, até o ano de 2009. Partimos do pressuposto de que, no Paraguai, o evento Guerra da Tríplice Aliança marcou a memória coletiva daquele país e teve/tem um importante papel em torno de construções voltadas para identidades nacionais. Em relação às narrativas nos livros didáticos paraguaios prevaleceu – na maioria deles – uma perspectiva descritiva, baseada em campanhas militares e ações individuais de comandantes militares, não raro associados a atos de heroísmo. Importante mencionar que, no Paraguai, ao longo de todo o século XX, as discussões políticas e historiográficas desembocaram, praticamente, na dicotomização entre lopistas e antilopistas, o que acabou por se transpor para os livros escolares desse país.

Palavras-chave: Guerra da Tríplice Aliança, conhecimentos escolares, historiografia paraguaia.

Abstract: : The present research defines didactic works of History conceived and adopted in schools of basic education in Paraguay, as a documental corpus for this study. Twelve didactic Paraguayan books of History were analyzed with the purpose of observing the translation of the War of the Triple Alliance into the school knowledge environment, specifically about historical narratives centered on characters. The selected works cover a timeline, which initial mark is at the end of the conflict. It is thus, from the second half of the nineteenth century until the year 2009. It was assumed that in Paraguay, the War of the Triple Alliance event, marked the collective memory of that country, and had / still has an important role on national identities development. Regarding the narratives of Paraguayan textbooks, it was predominant in most of the, a descriptive perspective based on military campaigns and individual actions of army commanders, and they were non-rare associated with acts of heroism. It is important to mention that in Paraguay, during the whole XX Century, the political and historical discussions practically led to the dichotomization between the ones who were in favor of Solano López and the ones who were against him (“lopists” and “non-lopists”), which were eventually transposed to the school books of that country.

Keywords: Triple Alliance War, school knowledge, Paraguayan historiography.

No Paraguai, ao longo de todo o século XX, as discussões políticas e historiográficas tiveram como centro a dicotomização entre lopistas e antilopistas[3] e a Guerra da Tríplice Aliança e seus principais atores, tiveram espaço de destaque na memória coletiva da nação. Segundo Doratioto, o “nacionalismo paraguayo, predominante durante el siglo XX, se confunde con la exaltación de la figura de Francisco Solano López” (Doratioto, 2002, p. 18). O próprio nacionalismo lopista alimentou sucessivos golpes de Estado no país guarani. Segundo assinala Capdevila,

(Capdevila, 2010, p. 175).

(Moreira, 2010, p. 2)

Na visão de Brezzo (2009), as produções de Blas Garay tiveram um papel inaugural nesta historiografia, não apenas por ser uma história escrita em modelo erudito, talvez a primeira, baseada em amplas e diversificadas fontes documentais e bibliográficas, mas também por criar leituras do passado – que seriam seguidas por historiadores futuros –, como o mito da idade de ouro, que passou a situar o governo de Carlos Antônio López como o ápice de desenvolvimento e bem-estar social, interrompido pela guerra.

Blas Garay fazia parte do grupo de intelectuais paraguaios do pós-guerra que ficou conhecido como Generación del 900. Além de Garay, nomes como Juan O’Leary, Manuel Domínguez, Fulgencio Moreno, Arsenio López Decoud, Ignacio Pane, Eligio Ayala e Manuel Gondra são associados a este grupo de intelectuais (Brezzo, 2009). Como assinala Moreira, na “vida cultural de este período fue fundamental la creación del Instituto Paraguayo, en 1896, que se transformó en el núcleo intelectual de Asunción y contó con la publicación de una revista del mismo nombre” (Moreira, 2010, p. 2).

O segundo momento historiográfico destacado por Brezzo (2009) se relaciona às altercações na imprensa entre Cecilio Báez e Juan O’Leary nos primeiros anos do século XX. Como nos indica Capdevila, “la postguerra se desarrolló para el Paraguay bajo la ocupación aliada y bajo la dirección de instancias políticas nacionales resultantes de la relación de fuerzas brasileiro-argentinas” (Capdevila, 2010, p. 177). Assim, segundo o mesmo autor, “los primeiros actos realizados por los gobiernos de postguerra condenaban explícitamente a la persona del mariscal López, deshaciendo el aparato conmemorativo del antiguo régimen y organizando otro dispositivo de memoria” (Capdevila, 2010, p. 178).

Assim, nos primeiros anos do século XX começava-se, sobretudo através do jovem intelectual O’Leary, a se questionar o pensamento antilopista do pós-guerra, que havia dominado o pensamento intelectual e político da época. Para Capdevila, “la primera denominación del revisionismo paraguayo fue el resultado de la polémica que opuso entre los años 1902 y 1903 a Cecilio Báez, portavoz del movimento liberal, y a Juan O’Leary, que puso su pluma al servicio del nacionalismo emergente” (Capdevila, 2010, p. 189).

O terceiro momento historiográfico paraguaio, destacado pela historiadora Liliana Brezzo (2009), é marcado pelas produções em torno das comemorações do centenário da independência paraguaia, em 1911, com destaque para a publicação comemorativa do Álbum Gráfico del Paraguay. Organizado por Arsenio López Decoud, o Álbum contou com a participação de importantes intelectuais paraguaios, dentre eles o próprio Juan O’Leary, Blas Garay, Enrique Solano López, Manuel Domínguez, Fulgencio R. Moreno e Cecilio Báez. Com exceção deste último autor, o Álbum Gráfico del Paraguay dava indícios de que ganhava força no Paraguai uma perspectiva nacionalista que buscava rechaçar a visão liberal do pós-guerra, que havia apontado para López como o grande culpado pelo conflito com a Tríplice Aliança e como o “assassino de sua própria pátria”. Repensava-se não apenas a figura de Solano López, mas também a própria Guerra do Paraguai, que passa a ser analisada como uma “epopeya nacional”, destacando-se a bravura, o sacrifício e o nacionalismo dos paraguaios, que resistiram heroicamente frente aos seus inimigos.

Em 1936 houve um golpe militar que retirou do poder os liberais e levou à Presidência da República Rafael Franco, ex-combatente da Guerra do Chaco (1932-1935). Este governo anulou a Constituição de 1870, de corte liberal, e declarou, através de decreto, Francisco Solano López como “herói nacional”, estatuto conferido porque há, segundo aponta Brezzo, uma “reivindicación de la historia paraguaya” (Brezzo, 2009, p. 74). Para Doratioto, “o nacionalismo lopizta ampliou sua influência, nas primeiras décadas do século XX, constituindo-se em ideologia de Estado a partir de 1936” (Doratioto, 2005, p. 13). E continua: “o nacionalismo lopizta, dogmático, militarista e estatista, harmonizava-se com esta ditadura e as seguintes, dos generais Higinio Morínigo (1940-1948) e Alfredo Stroessner” (Doratioto, 2005, p. 13).

O contexto destacado no parágrafo anterior se constituiria no quarto momento relacionado pela historiadora argentina, que vai desde a tomada de poder por Rafael Franco, em 1936, até a queda de Stroessner, em 1989. No período em foco, Juan O’Leary se converteu, praticamente, em um historiador oficial do Estado. Para Moreira, o mesmo seria “el mejor ejemplo de un verdadero intelectual orgânico, en su concepción gramsciana” (Moreira, 2010, p. 3).

O quinto momento da historiografia paraguaia poderia ser apontado a partir de 1989 e 1991, que marcam, respectivamente, o fim da ditadura de Stroessner e a integração regional com o MERCOSUL. Para Brezzo, os dois eventos anteriores trouxeram “motivaciones suficientes para impulsar una nueva tendencia historiográfica” (Brezzo, 2009, p. 77). Nesse sentido, “en conexión con el proceso de integración y de redemocratización se han abierto perspectivas metodológicas, como la necesidad de utilizar fuentes más variadas y nueva documentación” (Brezzo, 2009, p. 77).

Tendo isto em vista, acreditamos ser de grande relevância analisar como o conhecimento escolar sobre a Guerra do Paraguai, materializado nos livros didáticos daquele país, tem abordado, ao longo de todo o recorte temporal estabelecido para esta pesquisa, a temática em foco, considerando a importância que o conhecimento sobre tais eventos e seus personagens tiveram na construção de uma memória coletiva na nação paraguaia.

A investigação em tela define como corpus documental obras didáticas de História concebidas e adotadas em escolas da educação básica no Paraguai. Analisamos doze manuais paraguaios de História com a finalidade de observar a tradução da Guerra do Paraguai em conhecimento escolar, especificamente no que diz respeito a narrativas históricas centradas em personagens. As obras selecionadas cobrem um recorte temporal cujo marco inicial se situa no final do conflito, portanto, na segunda metade do século XIX, até o ano de 2009. Daí a periodização estabelecida no título, em que a primeira data corresponde à edição do livro didático mais antigo analisado – o de Garay, enquanto a segunda diz respeito à edição mais recente analisada,a de Moreira e colaboradores. Dito isto, seguimos a caracterizar os manuais didáticos paraguaios selecionados para a pesquisa em tela.

Manuais didáticos paraguaios: autores, educação e cultura no Paraguai

O livro didático de História, além de reunir conteúdo dessa disciplina para situações de ensino e aprendizagens, cumpre, antes de qualquer coisa, uma função de materialização da disciplina histórica escolar. Para Munakata, o “livro didático é, em primeiro lugar, o portador dos saberes escolares, um dos componentes explícitos da cultura escolar” (Munakata, 2016, p. 123). Ocorre que, como adverte Forquin (1993), os saberes escolares constitutivos do currículo resultam de um processo de seleção no interior da cultura. O livro didático, artefato do currículo escolar, constitui-se por meio dessa mesma lógica, isto é, a partir de uma seleção de conhecimentos produzidos em cada área e em cada momento histórico. No entanto, a organização de uma obra didática não se faz por transposição direta dos centros produtores de conhecimentos. Ela materializa um vigoroso “trabalho de reorganização, de reestruturação ou de ‘transposição didática’” dos conhecimentos, para “torná-los efetivamente transmissíveis, efetivamente assimiláveis às jovens gerações” (Forquin, 1993, p. 16).

Tendo isto em vista, Munakata defende que, “de modo geral, o livro didático é a transcrição do que era ensinado, ou que deveria ser ensinado, em cada momento da história da escolarização” (Munakata, 2016, p. 123). Desse modo, ao ser selecionado para integrar o currículo escolar e figurar nos livros didáticos de História, o evento Guerra do Paraguai passa a se constituir enquanto conhecimento escolar. Nessa perspectiva, ao se investigar sobre o conhecimento escolar a respeito da Guerra do Paraguai em diferentes períodos, podemos vislumbrar como cada época construiu o conhecimento sobre esse evento histórico para a escola.

Não obstante, é preciso que se diga que, na seleção dos conteúdos que estarão presentes nos livros didáticos, não houve/há consenso. O livro didático, como elemento materializador da disciplina curricular História, se constitui em um “terreno de grande contestação, fragmentação e mudança” (Goodson, 1997, p. 27). Os conteúdos históricos, ao se constituírem em conhecimentos escolares, são frutos de seleções, inclusive no que diz respeito à forma segundo a qual os mesmos serão abordados, não apenas em termos historiográficos, mas pedagógicos – a reelaboração didática assinalada por Forquin (1993). Nessa linha de argumentação, Munakata (2016) assinala que o livro didático, além da função de ‘depositário de conteúdos escolares’, é também ‘depositário de métodos de ensino’.

Foi selecionado um total de 12 manuais didáticos paraguaios, dentre os quais alguns dos mais representativos do período no qual foram produzidos e publicados. Desde o início da pesquisa, interessava-nos analisar manuais que gozassem de boa aceitação no cenário editorial de didáticos no Paraguai e que, portanto, tivessem contribuído no processo de atribuição de sentido da consciência histórica de gerações de crianças e jovens paraguaios.

Para selecionar os livros que comporiam o corpus, observamos como primeiro critério: obras que tiveram inúmeras edições, o que representaria a sua relativa aceitação no cenário escolar e sua participação efetiva, por anos seguidos, na formação da consciência histórica de um grande número de estudantes e professores paraguaios. O segundo critério observado disse respeito ao lugar social-institucional dos autores. No caso paraguaio, como poderá ser constatado mais adiante, ganham destaque instituições que comporão os lugares sociais aos quais boa parte dos autores dos livros didáticos analisados esteve vinculada. No quadro a seguir é possível observar os livros selecionados, assim como uma breve biografia dos autores.

Quadro 1:
Livros didáticos de História paraguaios e informações biográficas sobre autores
LIVROS DIDÁTICOS PARAGUAIOSAUTORES
1. TERÁN, L.G.; GAMBA, P.P. Compendio de Historia del Paraguay. Asunción, Tipografía Quell & Cía, 1920.LEOPOLDO GÓMEZ DE TERÁN Nasceu na Itália. Foi engenheiro e professor no Colégio Nacional, chegando a ocupar o cargo de Diretor deste Colégio. Fontes: Watzlawik (2012); Telesca (2014). PRÓSPERO PEREIRA GAMBA (1825-1896) Nasceu na Colômbia. Foi advogado, poeta e educador, tendo feito parte do primeiro corpo de professores do Colégio Nacional de Assunção. Fontes: Gómez (1952); Watzlawik (2012).
2. GARAY, Blas. Breve resumen de la historia del Paraguay. Madrid, Librería y Casa Editorial, A. de Uribe y Ca. 1897. BLAS GARAY (1873-1899) Nasceu em Assunção em 1873. Estudou no Colégio Nacional de Assunção e formou-se advogado pela Faculdade de Direito da Universidade Nacional. Apesar de sua morte prematura, aos 26 anos de idade, desenvolveu intensa atividade intelectual, destacando-se, sobretudo, como periodista e historiador. Compunha o grupo de intelectuais paraguaios que foi posteriormente intitulado de “Generación del 900”. Participou da criação do Instituto Histórico Nacional, que se caracterizava enquanto um espaço cultural, e da Revista del Instituto Paraguayo. Recebeu a incumbência do presidente Juan Bautista Egusquiza de localizar e copiar documentos relacionados à História do Paraguai em arquivos espanhóis. Fontes: Brezzo (2009); Benítez (1986).
3. TAVAROZZI, Antonio. Historia del Paraguay. 5ª edición. Asunción, s/d.ANTONIO TAVAROZZI Foi um sacerdote salesiano. Estudou no Colegio Monseñor Lasagna, em Assunção.
4. RIGUAL, Miguel. Apuntes de Historia del Paraguay y nociones de Historia General. Asunción, La Colmena S. A., 1935. MIGUEL RIGUAL (1904-1991) Foi um sacerdote espanhol. Atuou como professor no Colégio Apostólico San José, em Assunção, do qual foi fundador. Fonte: http://www.abc.com.py/edicion-impresa/locales/recordaron-centenario-de-nacimiento-del-padre-rigual-788519.html; acessado em 27 de maio de 2016.
5. RÍOS, Emiliano Gómez. El Paraguay y su historia. Asunción, Alcora, 1963, 3ª edição. EMILIANO GÓMEZ RÍOS (1898-1957) Segundo a contracapa da terceira edição do livro, que data do ano de 1963, Rios foi “Ex Inspector General de Escuelas – Ex Director General de Escuelas – Ex Director de la Escuela Normal de profesores N. 1 de la capital y Ex Catedrático de la materia en el Colegio Nacional, Colegio Militar, Colegio de Niñas y Colegios Secundarios de la capital”. Segundo o site da Academia Paraguaya de la Historia, o autor ingressou nesta instituição em 1956, quando ainda era denominada de Instituto Paraguaio de Investigações Históricas.
6. CHAVES, Julio César. Compendio de Historia paraguaya. Asunción, Carlos Schauman Editor, 1991. JULIO CÉSAR CHAVES (1907-1989) Nasceu em Assunção em 1907. Realizou estudos secundários no Colégio Nacional de Assunção, formou-se em advocacia e tornou-se doutor em Direito pela Faculdade de Direito e Ciências Sociais da Universidade Nacional. Participou da Guerra do Chaco como um dos redatores de comunicados do Comando em Chefe do Exército em Campanha. Ao finalizar o conflito com a Bolívia, exerceu atividade docente em centros de ensino secundário, lecionando as disciplinas de História da América e do Paraguai. Posteriormente, passou a ocupar a cátedra de Direito Internacional Público e História Diplomática do Paraguai na Universidade Nacional. Com o golpe de 1936, foi refugiar-se em Buenos Aires, onde continuou realizando pesquisa histórica. Ao voltar ao Paraguai, elegeu-se Deputado Nacional (1938), Ministro na Bolívia (1939) e embaixador no Peru (1940). Novamente exilou-se em Buenos Aires de 1941 a 1952. Foi presidente do Instituto Paraguaio de Investigações Históricas (que se passou a chamar, a partir de 1966, Academia Paraguaia de la Historia) em 1956, instituição em que ingressou como membro em 1938. Foi também membro da Academia da língua espanhola e membro correspondente da Academia Argentina de Letras, da Academia Nacional de la Historia Argentina, do Instituto Histórico y Geográfico del Uruguay, dentre diversas outras instituições. Exerceu intensa atividade como periodista. Fontes: Benítez (1986) / Chaves (1991) / Site da Academia Paraguaya de la Historia http://www.academiaparaguayadehistoria.org.py/, acessado em 25 de maio de 2016.
7. VASCONCELLOS, Victor Natalício. Lecciones de Historia paraguaya. Asunción, Edición del Autor, 1970. 6ª edición. VICTOR NATALÍCIO VASCONCELLOS Foi professor de História do Paraguai no colégio Nacional, onde se tornou diretor. Além de membro do “Consejo de Enseñanza Secundaria, Comercial, Normal y Profesional”, foi também membro da “Comisión de la Reforma de la Enseñanza Media”. Fontes: Silva (2013); Vasconcellos (1970).
8. BENÍTEZ, Luis G. Manual de Historia paraguaya. Asunción, Imprenta Comuneros S. R. L., s/d. LUIS GUILLERMO BENÍTEZ (1925-) Nasceu em Avaí, no Paraguai, em 1925. Realizou seus estudos secundários no Colégio Nacional de Assunção e licenciou-se em História pela Faculdade de Filosofia da Universidade Nacional de Assunção (UNA). Obteve o título de doutor em Direito e Ciências Sociais nesta mesma universidade. Exerceu docência em nível secundário e, na universidade, foi catedrático na Faculdade de Filosofia da UNA e na Academia Diplomática e Consular da chancelaria. Ingressou como membro da Academia Paraguaia da História em 1999. Fontes: Verón (2009); Amaral (2000).
9. CARDOZO, Efraim. Breve Historia del Paraguay. Buenos Aires, EUDEBA Editorial Universitária, 1965. EFRAIM CARDOZO (1906-1973) Nasceu em 1906, em Villarica, Paraguai. Estudou no Colégio Nacional de Assunção. Formou-se em Direito pela Universidade Nacional, onde exerceu também atividade docente. Ingressou no Instituto Paraguaio de Investigações Históricas em 1938. É reconhecido no Paraguai como um dos principais historiadores do país.
10. LEZCANO, Irmina. Estudios Sociales, 2. Asunción, Comuneros, s/d. IRMINA LEZCANO Realizou seus estudos na Escuela Normal de professores n. 1, Presidente Franco, em Assunção. Foi professora nas Escolas Normais n. 1, 2 e 4 e no Colegio Nacional de Niñas. Atuou ainda como professora na Universidade Católica Nossa Senhora de Assunção. Fonte: Boettner (1989).
11. SACCAGGIO, Pedro et al. Paraguay Ñane retá. Estudios Sociales para el 3er. ciclo de la Educación. Asunción, 2004. (3º edição).PEDRO SACCAGGIO Formado em História pela Universidad del Salvador, na Argentina. Especializou-se, profissionalmente, como editor, tendo atuado em diversos editoriais na América Latina, como Santillana e Alianza, dentre outros.
12. MOREIRA, Mary Monte de López. Historia y Geografía. 8º grado. Asunción, Editorial Don Bosco, 2009. MARY MONTE DE LÓPEZ MOREIRA (1946-) É doutora em História pela Universidade Nacional de Assunção (UNA). É professora da UNA. Ingressou, em 2001, como membro da Academia Paraguaya de la Historia. É uma das mais reconhecidas historiadoras paraguaias.

Chart 1: Paraguayan History textbooks and biographical information on authors

Ao observar a biografia dos autores paraguaios, constante do quadro acima, pode-se perceber que se destacam três instituições que exerceram inegável e inestimável contribuição cultural durante todo o século XX no Paraguai: Colégio Nacional de la Capital, Universidad Nacional de Asunción e Instituto Histórico Nacional, que posteriormente passou-se a chamar Academia Paraguaya de la Historia.

Dos treze autores paraguaios, pelo menos oito deles tiveram vínculos com o Colégio Nacional, seja como aluno ou como professor. Garay, Chaves, Cardozo e Benítez figuram como egressos do Colégio Nacional, enquanto Terán, Gamba, Ríos e Vasconcellos tiveram vínculos como professores da instituição. Tal proporção vem demonstrar a relevância cultural e educacional do Colégio Nacional como formador de uma elite intelectual e política no Paraguai do pós-guerra. Segundo Sckell, o Colégio Nacional “se consolidó y desarrolló durante todo el siglo XX como una de las instituciones de educación pública más fructíferas de donde procedió toda la generación ilustrada de la postguerra de la Triple Alianza y la reconstrucción del Estado paraguayo” (Sckell, 2015, p. 1)[4].

Outra instituição de grande relevância cultural e educacional no século XX no Paraguai foi a Universidad Nacional de Asunción (UNA), responsável por formar não apenas uma elite intelectual, mas também política do Paraguai do pós-guerra. Diversos egressos da referida instituição figuraram não apenas como os principais intelectuais da nação guarani ao longo do século, mas também assumiram diversas funções políticas, como ministérios, chancelarias, cargos no legislativo e, até mesmo, a presidência da república, como é o caso de Cecilio Báez.[5]

É importante que se destaque que a maioria dos estudantes da Universidade Nacional foi de egressos do Colégio Nacional. Para Liliana Brezzo (2009), estas duas instituições assumiram um papel de protagonismo no desenvolvimento da cultura paraguaia num momento de reconstrução do país no pós-guerra.

Outra importante instituição cultural da época foi o Instituto Histórico Nacional (IHN), fundado em 1895. Blas Garay e Cecilio Báez figuram na lista dos fundadores. Não houve uma regularidade nos trabalhos desenvolvidos pelo referido Instituto, devido, talvez, à própria instabilidade política da época, e, em 1937, foi estabelecido o Instituto Paraguaio de Investigações Históricas (IPIH), considerado o herdeiro do primeiro. Assim como o IHN, o IPIH não pôde desenvolver atividades regulares devido à situação política do país. Em 1947, com a guerra civil, a maioria dos membros do Instituto foi para o exílio. Apenas em 1956, quando Julio César Chaves assumiu a presidência da instituição, é que a mesma pôde manter uma regularidade em seus trabalhos, inclusive com a publicação de um anuário intitulado Historia Paraguaya. Em 1966, o Instituto se transformou na Academia Paraguaya de la Historia[6].

Entre o final do século XIX e, sobretudo, as três primeiras décadas do século XX, o periodismo ocupou, no Paraguai, um espaço central, não apenas como locus de divulgações e altercações de ideais políticos e ideológicos, mas também de disputas em torno das narrativas do passado. Não podemos olvidar que um dos principais embates –senão o principal – em torno das narrativas de uma História nacional, protagonizados por Cecilio Báez e Juan O’´Leary, se deu pela imprensa. Para Brezzo, os periódicos, no referido momento histórico, “se convirtieron en foros principales de los intelectuales [...] y escaparates de los disensos políticos” (Brezzo, 2011, p. 116). Boa parte dos autores dos livros didáticos selecionados para pesquisa atuou como jornalista, destacando-se, neste ofício, Blas Garay, Julio César Chaves e Efraim Cardozo[7].

Apesar de todas as instabilidades políticas, econômicas e sociais que marcaram o contexto do Paraguai no pós-guerra, a historiadora Liliana Brezzo destaca a efervescência cultural que se desenvolveu no país, sobretudo nas três primeiras décadas do século XX.

É muito provável que o evento Guerra do Paraguai tenha sido traduzido e materializado enquanto conhecimento escolar, pela primeira vez no Paraguai, com os manuais de Terán e Gamba. A obra em questão intitula-se Compendio de Historia del Paraguay e, segundo o pesquisador brasileiro Eurico Fernandes (2006), foi escrita em 1882. Contudo, encontramos registros em Watzlawik (2012) e em Telesca (2012) de que Terán e Gamba teriam escrito um manual anterior ao analisado neste trabalho, intitulado Compendio de Geografía e Historia del Paraguay, de 1879. As informações que reunimos não nos permitem dizer se, tanto no compêndio de 1879 como no de 1882, ambos em suas primeiras edições, a Guerra do Paraguai havia se constituído enquanto temática a ser estudada.

A edição da obra de Terán e Gamba analisada neste trabalho é a décima sexta, e data de 1920[8]. Na contracapa há as seguintes informações: “corregida y aumentada por Héctor F. Decoud”[9] e “texto adoptado en todos los establecimientos del país”. As informações contidas na contracapa nos fazem realizar duas reflexões: a primeira gira em torno da importância do livro escolar para a época, que foi “adotado em todos os estabelecimentos [educacionais] do país”; a segunda reflexão se converte, na verdade, em uma dúvida: se a edição de 1920 foi “corrigida e aumentada” por Decoud, será que o conteúdo relacionado à Guerra do Paraguai foi escrito pelos próprios Terán e Gamba ou foi, posteriormente, incluído e/ou modificado por Decoud? Apenas o acesso à primeira edição da obra poderia sanar essa dúvida[10].

Segundo Brezzo (2009, p. 66), a obra Breve resumen de la historia del Paraguay (1897), de Blas Garay, se constitui numa síntese e numa versão melhorada do Compêndio elemental de la historia del Paraguay (1896), do mesmo autor[11]. A edição analisada do livro de Garay foi a de 1897, ano da primeira edição, escrita ainda enquanto o autor estava na Espanha, aonde foi como secretário da legação paraguaia[12].

Como visto, as produções de Blas Garay, inclusive a obra que estamos analisando, tiveram fundamental importância para a historiografia paraguaia. Na visão de Brezzo (2009), tiveram um papel inaugural nessa historiografia. Dito isso, é importante enfatizar que o livro de Garay se configura mais como um livro de síntese da História do país do que como um manual escolar, projetado para ser usado em sala de aula. Apesar de a obra de Garay não ter sido escrita com o objetivo de se tornar um manual, os usos que foram feitos dela fazem com que a mesma seja, ou se torne, uma obra que passa a fazer parte de uma cultura escolar. Moreira (2010) afirma que pelo menos até a década de 1930 circularam, nas escolas paraguaias, com destaque, os manuais de Terán e Gamba e o de Blas Garay.

Tavarozzi, na “Introducción” de sua Historia de la Patria, lecciones e lecturas, destaca que o livro foi “acomodado a las inteligencias de los niños” para que “pueda servir de texto escolar en las clases”. Nesse sentido, percebemos um movimento do autor em expressar a intenção de escrever um livro voltado para a juventude, em um processo de ensino e aprendizagem em sala de aula.

Como em outros prólogos de livros selecionados para pesquisa, a questão da exaltação do patriotismo ganha destaque. Nesse sentido, afirma: “LA HISTORIA PATRIA debe ser estudiada no sólo con gusto, sino tambiém con entusiasmo y con provecho por todo buen patriota”. E, exaltando figuras consideradas exemplos de patriotismo e amor à pátria, Tavarozzi conclui: “Las figuras de Hernandarias, Fulgencio Yegros y José Díaz, por ejemplo, deben ser amadas y también imitadas, para que nuestra Patria siga teniendo siempre varones fuertes y perfectos que la llenen de gloria y grandeza”.[13]

A edição analisada do livro de Miguel Rigual é a de 1935. É muito provável que estejamos trabalhando com a primeira edição da obra. Na contracapa da mesma consta a seguinte informação: “Adaptados estrictamente al programa de las escuelas Superiores [...] Vº Grado”.

As obras de Vasconcellos[14] e Chaves têm sua primeira edição no ano de 1958. É muito provável que a primeira edição da obra de Ríos[15] também date de 1958. Acreditamos que ter três importantes livros escolares de História do Paraguai publicados no mesmo ano não deva ser coincidência. Em 1954, assume o poder o general Alfredo Stroessner, que permanecerá até 1989. Segundo Paulo Renato da Silva (2013), o livro de Vasconcellos “é fruto da reforma educacional empreendida por Stroessner já em seu primeiro mandato (1954-1959).” Nesse sentido, supomos que as obras de Chaves e de Ríos devem também estar inseridas no contexto da reforma educacional empreendida por Stroessner.

Na contracapa do livro de Vasconcellos há a seguinte informação: “Responde al Programa del Primer Curso del Ciclo Básico. Texto aprobado por el Ministerio de Educación y Culto por Resolución nº 250 del 26 de diciembre de 1958”. Tal indicação nos informa que já havia, no período em foco, um processo de avaliação pelo Ministério de Educação e Cultura do Paraguai dos livros que seriam utilizados nas escolas.

No Prólogo do livro de Vasconcellos, escrito por Emilio Uzcategui, aquele é apontado como um dos homens da reforma. Interessante perceber que, sendo um dos homens da reforma educacional, seria muito difícil, diríamos improvável, que tivesse sua obra reprovada pelo MEC. Apontar tais questões não significa desmerecer as possíveis qualidades que a obra possa apresentar[16], nem indicar que a mesma não estivesse amplamente adaptada “al Programa Oficial”, como apontou Uzcategui[17].

Julio César Chaves (1991) afirma que produziu seu Compendio de Historia Paraguaya “con el pensamiento puesto en la niñez y la juventud de la patria” (p. 5) e que o livro corresponde a uma síntese de 30 anos de pesquisas históricas realizadas por ele. A obra de Chaves, enquanto livro de síntese da História paraguaia, apesar de ter sido escrito para “niñez y la juventud”, voltado, portanto, para um processo de escolarização, ultrapassa suas intenções iniciais e passa a atingir um público maior, tanto de não especialistas na área histórica – mas que possuem curiosidade em saber mais sobre a História de seu país – como dos próprios especialistas da área – professores, mas sobretudo estudantes de História[18].

Julio César Chaves deixa claro, tanto na “Introducción”, nas páginas 5 e 6, quanto nas “Notas”, das páginas 7 e 8, que seu compêndio está de acordo com o Programa Oficial de ensino. Na Introdução, diferencia um ‘livro’ de um ‘texto’, afirmando que o primeiro pode ser escrito livremente, enquanto que o segundo deve seguir a um programa. Caracteriza o seu trabalho como um texto. Nas Notas, o autor demonstra como está organizado o seu compêndio, apontando os elementos didáticos que o mesmo possui e associando a organização de tais elementos ao Programa Oficial[19].

Na capa da terceira edição do livro de Ríos, de 1963, há a informação de que a “Obra [está] ajustada a los programas oficiales del Bachillerato y Ciclo Básico”. O manual de Ríos, assim como o de outros autores analisados, também está inscrito nas reformas educacionais do longo período de governo do general Stroessner (1954-1989). No Prólogo, o autor destaca a necessidade de obras didáticas de História Pátria escritas por autores paraguaios. Para o mesmo, a inexistência desse material didático revela uma situação que é “la negación misma de nuestra nacionalidad”[20].

Não sabemos precisar a data da primeira edição do Manual de Historia Paraguaya, de Luis G. Benítez, mas sua produção está inscrita, segundo D’Alessandro Valdez, no período da ditadura de Stroessner. Segundo a referida autora, o manual de Benítez é um “texto que figura en numerosas bibliotecas escolares hasta el día de hoy” (Valdez, 2014, p. 42). Nas “Palabras previas”, Benítez destaca que escreveu o seu manual “con el pensamiento puesto en la capacidad de captación y asimilación del niño de la edad mínima en que puede ingresar en el Ciclo Básico” (p. 8).

O livro de Moreira e colaboradores foi usado em escolas básicas de educação pública no Paraguai como livro oficial da disciplina de História e Geografia. Na contracapa do referido livro há a seguinte informação:

Este texto ha sido evaluado por un Comité Técnico conformado por especialistas de la Dirección General de Desarrollo Educativo, asesores del Ministerio de Educación y Cultura y consultores del Programa MECES[21], de acuerdo con las especificaciones técnico-pedagógicas y técnico-gráficas del Pliego de Bases y Condiciones de la Licitación Pública Nacional MEC 05/2000 y la propuesta pedagógica de la Reforma Educativa Paraguaya.

As reflexões tecidas até aqui nos permitem ter uma maior clareza em relação aos livros didáticos paraguaios selecionados para a pesquisa e seus autores, possibilitando-nos realizar o devido processo de contextualização. O movimento realizado abre o caminho para que se possam analisar, na seção seguinte, as abordagens dos livros didáticos paraguaios selecionados para esta pesquisa no que se refere à categoria “narrativas históricas centradas em personagens”.

Narrativas históricas centradas em personagens em relação ao conteúdo curricular Guerra do Paraguai em livros didáticos paraguaios

Todos os livros didáticos paraguaios analisados – com exceção de Saccaggio e colaboradores (2004), estruturaram suas narrativas em torno da Guerra do Paraguai através de campanhas militares, em que a perspectiva descritiva e as ações individuais adquiriram uma forte conotação. Muitos desses autores analisados descreveram batalhas da guerra de forma relativamente ponderada, deixando entrever, entretanto, passagens – implícitas ou explícitas, de uma perspectiva mais nacionalista, sobretudo ao associar características heroicas a personagens que participaram do evento. Em Terán e Gamba, afirma-se que

El 6 de agosto de 1865, Estigarribia entró en la Uruguayana y Duarte acampó en un lugar llamado Yataí, del otro lado del Río (p. 123).

Y el 6 de diciembre atacó el paso del Itororó, que fué heróicamente defendido por el general Caballero (Terán e Gamba, 1920, p. 126).

Tavarozzi (s/d) destacou o general Díaz como a figura mais brilhante da História do Paraguai, ultrapassando, portanto, a figura de Solano López. Contudo, é preciso perceber que a época de produção da obra de Tavarozzi é, provavelmente, anterior ao movimento de releitura da imagem e do papel histórico exercido por Solano López. Assim, o autor relata que “el nombre de nuestro querido general lo tenemos escrito con caracteres indelebles en lo más íntimo de nuestros corazones de paraguayos. A Díaz lo admiramos y amamos con entusiasmo porque es la figura más brillante de nuestra Historia” (Tavarozzi, s/d, p. 132).

Tavarozzi (s/d) ainda apontou que “el General Bernardino Caballero sostuvo los combates de Ytororó y Avahí” (p. 120). Rigual (1935) afirmou que “[...] El major Martínez [José] ocupó nuevamente la plaza abandonada por el enemigo” (Tavarozzi, s/d, p. 41). É interessante perceber, nesses casos, como a estrutura narrativa está baseada não apenas nas campanhas militares, como também nas ações individuais.

Além das ações dos comandantes militares, as ações e/ou personalidade de Solano López foram, com frequência, enfatizadas nos livros didáticos paraguaios. Contudo, é importante que se diga, não houve consenso sobre a personalidade e o papel histórico que teria sido desempenhado por Solano López. Assim, as visões de Tavarozzi (s/d) e Benítez (s/d) sobre o personagem mencionado foram, em certo sentido, ambíguas, enquanto as de Terán y Gamba (1920), Garay (1897) e Cardozo (1965) apresentaram uma perspectiva crítica. Em Rigual (1935), Ríos (1963) e Vasconcellos (1970), é apresentada uma visão positiva de Solano López, enquanto Chaves (1991), Lezcano (s/d), Saccaggio e colaboradores (2004) e Moreira e colaboradores (2009) evitaram atribuir virtudes e/ou defeitos aos personagens narrados. Os três últimos autores mencionados evitaram realizar juízo de valor sobre a figura de Solano López, e praticamente evitaram abordar questões que pudessem tratar de maneira mais direta da personalidade e do papel histórico exercido pelo governante paraguaio.

Moreira e colaboradores (2009), apesar de abordarem questões que poderiam ser polêmicas, tendo em vista a construção da personalidade e do papel histórico exercido por Francisco Solano López, como, por exemplo, os episódios de San Fernando – em que diversos paraguaios importantes foram acusados de traição, julgados, presos e/ou mortos por ordem do presidente paraguaio –, buscaram não realizar afirmações enfáticas em relação à figura de Solano López, tanto no sentido positivo – de atribuir-lhe virtudes, quanto no sentido negativo – de atribuir-lhe defeitos. Contudo, Moreira e colaboradores (2009) reconhecem que houve, no episódio mencionado, repressão e torturas.

A imagem de Francisco Solano López como um governante ilustrado é abordado por Terán y Gamba (1920), Garay (1897) e Ríos (1963). Para os primeiros autores mencionados, López tinha uma reputação de homem “culto e amante do progresso” (Terán y Gamba, 1920, p. 119). Tanto para Garay (1897) quanto para Terán y Gamba (1920), esse reconhecimento de homem versado, com vasta cultura, teria gerado grandes esperanças na população paraguaia da época. Contudo, o primeiro apontou que as esperanças foram “desgraciadamente desmentidas después por los hechos” (Garay, 1897, p. 130), e os segundos que, apesar da esperança depositada, os primeiros atos de Solano López teriam sido perseguir membros do Congresso que teriam se oposto à sua nomeação como sucessor de seu pai.

Assim como Terán e Gamba (1920) e Garay (1897), Tavarozzi (s/d), Cardozo (1965), Saccaggio e colaboradores (2004) e Moreira e colaboradores (2009) também apontaram as perseguições que López teria infligido aos seus inimigos, com destaque aos chamados “tribunais de sangue”, em que teria julgado e condenado diversos de seus compatriotas, amigos e familiares acusados de traição. A imagem que Terán e Gamba (1920) constroem de López é de um tirano “ensanguentando suas mãos”. Para os autores mencionados,

Con este mismo pretexto de conjuración contra su persona, que él había identificado con la patria, y por cuyo motivo no dejaba el poder, ni transigía con amigos ni enemigos que le demandaran la paz, hizo fusilar en el curso de la guerra millares de personas, de las primeras hasta las últimas categorías sociales, sin distinción de sexo ni edad, entre nacionales e extranjeros: por lo cual mereció, con justicia, el título de ‘tirano’. [...]. Este exceso de crueldad sirvió más bien para empeorar la suerte del Paraguay que para levantarla de un próximo hundimiento, pues poniendo en contra del mariscal López la opinión del país y la mayor odiosidad de sus adversarios [...] (Terán y Gamba, 1920, p. 127).

Tavarozzi, seguindo uma linha de raciocínio parecida com os autores acima, defendeu que López teria “manchado sua glória” com os eventos dos “tribunais de sangue”. Para ele, em “San Fernando y Lomas Valentinas nuestro Mariscal empañó su gloria mandando ajusticiar y fusilar a distinguidos compatriotas, comprometidos, según se cree, en un complot” (Tavarozzi, s/d, p. 128). Cardozo, que dentre os autores analisados é o que apresenta uma visão mais negativa da figura e do papel histórico exercido por López, afirmou que o governante paraguaio “creyó descubrir los hilos de una vasta conspiración encaminada a deponerle y a negociar la paz con los aliados” (Cardozo, 1965, p. 104).

Cardozo, em sua narrativa, desenhou López como aquele que, mesmo sem provas, realizou julgamentos, torturas e mortes. A esse respeito o autor afirmou que “San Fernando fue centro de dantescas escenas. Los más crueles procedimientos inquisitoriales fueron aplicados por implacabes fiscales, bajo la dirección de López, para arrancar las confesiones. No se permitió la defensa” (Cardozo, 1965, p. 104). López é visto por Cardozo (1965) como um homem de “instintos sanguinarios”, fato que fica muito claro na citação a seguir:

[...] Y así como los brasileños ponían inaudita ferocidad en sus acciones militares, así también López, enloquecido por la derrota, ya no refrenó sus instintos sanguinários. Le bastaba la menor delación para ajusticiar a sus más fieles y heroicos jefes. Su própria madre fue objeto de monstruosos maltratos. Su hermano Venancio murió a palos [...] (Cardozo, 1965, p. 107).

Moreira e colaboradores (2009), apesar de não expressarem explicitamente se as desconfianças do presidente paraguaio correspondiam à realidade dos fatos, destacam que os julgados nos tribunais de San Fernando “confesaron bajo tortura los proyectos de una gran conspiración” (Moreira et al., 2009, p. 284). Nesse sentido, os referidos autores não confirmam nem desmentem se de fato existiu um grande projeto de conspiração ou se este não passou de uma convicção de Solano López.

Cardozo (1965), em contrapartida, ao mesmo tempo que apresentou em seu texto uma visão de López como um homem que possuía “instintos sanguinarios”, não deixou de enfatizar a última frase que teria proferido o governante paraguaio antes de morrer: “muero con mi patria”. Contudo, o autor reproduziu a frase que tanto serviu aos discursos nacionalistas no Paraguai no século XX sem arroubos de nacionalidade. O mesmo não fizeram Rigual (1935) e Ríos (1963), que, ao terem destacado a última frase de López, enfatizaram seu heroísmo ao morrer por sua pátria. Segundo este último, López havia feito um juramento ao receber a espada de general, garantindo que “jamás caerá de mis manos esta insignia sagrada de mi patria” (Ríos, 1963, p. 206). O autor viu tal juramento como “profético”, uma vez que López havia cumprido a promessa “al morir con el último resto de su ejército con la espada en la mano y el nombre de la patria entre los labios” (Ríos, 1963, p. 206).

Apesar de a narrativa de Ríos (1963) destacar o heroísmo de López, o autor apontou que o presidente paraguaio teria sido convencido, incitado e/ou pressionado a participar da guerra por influência da diplomacia blanca, do Uruguai. López termina sendo apresentado pelo autor como um governante sem autonomia de decisão, tendo em vista que por trás de suas ações estaria a diplomacia blanca uruguaia. Cardozo (1965), em contrapartida, apontou o orgulho, o amor próprio e a vaidade de López como sendo elementos essenciais para o desenrolar do conflito. A diplomacia blanca teria apenas explorado, na visão de Cardozo (1965), o orgulho e a vaidade de López. Ao contrário de Ríos (1963), Cardozo (1965) centralizou as responsabilidades do governo paraguaio na figura de Francisco Solano López.

Apesar de Ríos (1963) em alguns momentos de sua narrativa ter praticamente destituído Solano López de ação própria, apontando as influências que a diplomacia blanca teria exercido nas decisões do governante paraguaio, não deixou de enfatizar virtudes de sua personalidade:

Personalidad robusta y múltiple. Hombre de buen linaje, fina educación y distinguido Caballero. En la paz, un cariñoso padre, ciudadano activo, laborioso y enamorado del destino de su patria. En la guerra, un buen soldado y un jefe singular. Sin embargo, fue um vanidoso, mal calculador y poco previsor. Careció de la prudencia y la serenidad del padre. Enérgico y impulsivo, pero poco afortunado. [...]. A pesar de fracaso en la conducción de la guerra, su personalidad y su conducta postrera hacen de él todo un compendio de las grandes virtudes de la raza, título bien ganado como para habérsele consagrado al través del tiempo, en el corazón de su pueblo, como el héroe máximo de nuestra historia. Con su heroica muerte dejó a salvo la dignidad nacional (Ríos, 1963, p. 228-229).

Apesar de destacar virtudes da figura de López e do papel desempenhado pelo mesmo, reconhecendo inclusive seu heroísmo, Ríos (1963) não deixou de apontar marcas negativas da personalidade do governante guarani, como: vaidoso, mau calculador e imprudente nas decisões relacionadas ao destino da pátria. Vasconcellos (1970), apesar de ter realizado uma descrição da guerra de forma relativamente ponderada, também enfatizou, assim como Ríos (1963), o heroísmo de Solano López. Para o mesmo, López é tido como “héroe máximo de la Guerra de la Triple Alianza” (Vasconcellos, 1970, p. 181).

Para Garay (1897), que escreveu no final do século XIX, López teria apresentado não um ato de heroísmo, como alguns autores ao longo do século XX iriam indicar, mas um ato de atrevimento. Nesse sentido, apontou o seguinte: “[...], López se atrevió con sus 25.000 hombres armados de fusiles de chispa a presentar batalla al aliado, fuerte de 45.000, provisto de fusiles de repetición y de 150 piezas de artillería moderna” (Garay, 1897, p. 132).

Autores como Terán e Gamba (1920),Tavarozzi (s/d), Ríos (1963), Benítez (s/d) e Lezcano (s/d) tentaram enfatizar a figura do marechal como um diplomata, um mediador, um conciliador, apontando os serviços prestados na época em que auxiliara no governo de seu pai, Carlos López. A imagem de conciliador serviria, talvez, para contrastar com a imagem de intempestividade pela qual ficou conhecida a sua personalidade em vários relatos.

Cardozo (1965), intelectual de concepção liberal[22], dentre todos os autores, é o mais crítico em relação a Solano López. Apontou o absolutismo de seu regime, além de ter assinalado que a vaidade e o amor próprio do governante paraguaio o teriam levado a tomar as decisões políticas que tomou, quer dizer, suas atitudes teriam sido baseadas em uma perspectiva egoísta e não no bem comum do povo paraguaio. É interessante perceber que Cardozo escreveu na década de 1960, em que predominava uma ideologia colorada, centralizada em um governo forte, autoritário e centralizador como o de Stroessner. As obras de Ríos (1963), Vasconcellos (1970) e Benítez (s/d) foram produzidas em um período muito próximo ao da obra de Cardozo (1965). As três obras citadas apresentaram uma perspectiva bem mais positiva da figura e das ações de López do que Cardozo (1965).

Em relação a personagens brasileiros, apenas Garay (1897) e Cardozo (1965) teceram alguns comentários e opiniões. O primeiro assinalou a valentia de Osório (p. 136), enquanto o segundo sugeriu que a atitude brasileira de negar qualquer negociação com o governo paraguaio teria sido oriunda da “vingança, satisfação de ódio e orgulho” (Cardozo, 1965, p. 102) de D. Pedro II. Nesse último caso, Cardozo (1965) não fez alusão direta a D. Pedro II, mas podemos inferir a referência ao mesmo, uma vez que vingança, ódio e orgulho são sentimentos que só podem ser vivenciados e experienciados por pessoas. A referência ao Estado brasileiro, neste caso, é uma referência a D. Pedro II[23]. O autor apontou ainda um mal-estar que se teria gerado entre Caxias e o imperador brasileiro em relação à prolongação da guerra.

O livro paraguaio mais recente analisado, de Moreira e colaboradores (2009), apesar de estar, como todos os outros, estruturado em uma perspectiva mais descritiva de campanhas militares e ações de comandantes, abordou, brevemente, a participação das mulheres na Guerra do Paraguai. Em relação à Batalha de Piribebuy, acontecida em 1869, Moreira e colaboradores (2009) destacam: “Las mujeres también se enfrentaron al enemigo armadas de sables, fuziles, piedras y vidrios” (Moreira et al., 2009, p. 285)[24]. Entretanto, torna-se importante mencionar que a questão da participação das mulheres na guerra e no pós-guerra se constitui em uma temática frequentemente abordada e discutida na historiografia paraguaia, se comparada à historiografia brasileira, por exemplo. Nesse sentido, não é raro encontrar autores de livros didáticos paraguaios fazendo, ao menos, uma referência à participação feminina na guerra. Não obstante, em relação aos livros paraguaios analisados, os referidos autores não conseguiram se descolar de uma escrita da História de viés marcadamente descritivo e caminhar em direção a uma História mais social ou cultural.

Considerações finais

Em relação às narrativas nos livros didáticos paraguaios prevaleceu – na maioria deles – uma perspectiva descritiva, baseada em campanhas militares e ações individuais de comandantes militares, não raro associados a atos de heroísmo. Nesse sentido, analisando as narrativas dos livros paraguaios selecionados, percebemos autores que se posicionaram mais claramente através de uma perspectiva mais positiva em relação à figura histórica e ao papel histórico exercido pelo presidente paraguaio, Francisco Solano López, como Rigual (1935) e Vasconcellos (1970), por exemplo, enquanto outros, como Terán y Gamba (1920) e Cardozo (1965), apresentaram uma visão mais crítica em relação ao presidente paraguaio. Assim, as perspectivas do lopismo e do antilopismo, presentes no pensamento historiográfico e político paraguaio, transpassaram, como era de se esperar, para a produção de livros didáticos daquele país.

Em contrapartida, torna-se importante mencionar que certos autores, como Chaves (1991) e Lezcano (s/d), evitaram polemizar sobre figuras históricas importantes, como o próprio Solano López. Contudo, mesmo nesses, a perspectiva descritiva de campanhas e ações militares prevaleceu. Nesse sentido, à luz do corpus documental selecionado por esta pesquisa, podemos afirmar que a perspectiva historiográfica de cunho mais social ou cultural não marcou a escrita didática da História no Paraguai.

Outra característica presente nos livros didáticos analisados foi a perspectiva que apontava para um ensino voltado à formação de um sentimento patriótico nacional e da cultura cívica de seu povo. Nesse caso particular, temos que ponderar que estas são algumas das funções sociais básicas do ensino da disciplina de História na educação básica, sobretudo nos séculos XIX e primeira metade do XX. Destarte, não é raro encontrarmos, em livros escolares do período mencionado, uma perspectiva de valorização do sentimento patriótico e o estímulo à cultura cívica de seu povo. Nos livros didáticos selecionados para esta pesquisa, identificamos autores que explicitaram essa relação, como Tavarozzi, que destacou a figura do “bom patriota”, citando exemplos de personagens paraguaios que deveriam ser seguidos como exemplos de patriotismo e amor à pátria. Ríos, por sua vez, assinalou que no Paraguai de sua época faltava “texto de enseñanza, donde pueda ordenar y orientar la inmensa y sagrada obra de formación del sentimiento patriótico nacional y la cultura cívica de su Pueblo”.

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Notas

1 Pesquisa financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
2 Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Ensino Superior do Seridó, Departamento de História. Rua Joaquim Gregório S/N, Penedo, 59300000 - Caicó, RN - Brasil.
3 Os lopistas são assim designados porque visavam recuperar a imagem de Francisco Solano López como grande herói nacional, enquanto os antilopistas seguiam, a contracorrente, uma perspectiva, via de regra, liberal, em que associavam a figura de López ao autoritarismo e como responsável pela Guerra do Paraguai.
4 Fundado em 1877, o Colégio Nacional da Capital (CNC) foi, assim como o Colégio Pedro II no Brasil, um modelo educacional e curricular para outras instituições educativas do período no Paraguai.
5 A Universidade Nacional de Assunção foi fundada em 1889, no contexto de reconstrução do país no pós-guerra. Nela, a Faculdade de Direito e Ciências Sociais se destacou como o grande centro formador de uma elite intelectual assuncenha. Dos treze autores dos manuais didáticos analisados, pelo menos cinco deles estabeleceram vínculos com a Universidade Nacional, seja como egressos e/ou como professores: Garay, Chavez, Cardozo, Benítez e Mary López. Destes, apenas os dois últimos obtiveram o licenciamento em História, tendo o restante realizado a formação em Direito. É preciso levar em consideração que, tanto no Brasil quanto no Paraguai, a principal formação universitária que possibilitava reflexões em torno de questões relacionadas às Ciências Humanas e Sociais, sobretudo nas primeiras décadas do século XX, era o Direito. Nesse sentido, os principais intelectuais que atuaram nesse período, tanto na pesquisa histórica quanto no periodismo, foram, em sua grande maioria, intelectuais formados nas Ciências Jurídicas. Tendo em vista que a Faculdade de Filosofia da UNA, local onde acontece a formação do profissional da História na instituição, só seria fundada em 1948, é provável que, antes desse período, não houvesse ainda no Paraguai uma instituição educacional de nível superior que possibilitasse a formação na área. Nesse sentido, é razoável que, na primeira metade do século XX, os principais pesquisadores da História tenham sido intelectuais formados na área jurídica. Tal fato talvez explique o porquê de apenas Benítez e Mary López, dos cinco citados anteriormente, terem a formação na área de História.
6 Dos treze autores, basicamente a metade deles foram/são membros da Academia Paraguaya de la Historia: Garay, Chaves, Ríos, Cardozo, Benítez e Mary López. Isso demonstra a importância que esta instituição teve/tem na vida intelectual do país, relacionada, sobretudo, ao conhecimento histórico. A Academia Paraguaya de la Historia, assim como suas precedentes, representou, e ainda representa, um importante centro legitimador da produção do conhecimento histórico no Paraguai. No nosso entender, ao contrário do que aconteceu no Brasil, onde o IHGB foi perdendo legitimidade frente às universidades no que se refere à produção de conhecimento histórico, a Academia Paraguaya de la Historia manteve-se, junto com as universidades do país, como um dos principais lócus de produção do conhecimento histórico nacional. Sobre a História da Academia Paraguaya de la Historia, desde o Instituto Histórico Nacional, em 1895, ver: http://www.academiaparaguayadehistoria.org.py/nuestra-historia/; acessado em: 04 de junho de 2016.
7 É importante destacar que muitos dos autores dos manuais selecionados exerceram intensa atividade política, seja através de participação em debates e discussões de cunho político-partidário através dos Partidos Liberal ou Colorado, seja assumindo cargos políticos importantes, como no âmbito legislativo e/ou mesmo como ministros de Estado. Sobretudo no contexto da reconstrução do Paraguai no pós-guerra, os intelectuais paraguaios estavam, de uma maneira geral, envolvidos com as discussões políticas e, via de regra, assumiam posição no Partido Liberal ou no Partido Colorado. A nossa percepção do período em tela é que a atividade intelectual no Paraguai não se dava em separado da atuação política e, mesmo, partidária. Nesse sentido, a própria produção historiográfica, voltada para a escrita de uma História nacional, estaria fortemente permeada por embates e altercações de cunho político-ideológico, tendo a Guerra do Paraguai e seus principais protagonistas um espaço central nessa construção.
8 Tal perspectiva corrobora nossa intenção de analisar livros didáticos que possuíssem inúmeras edições e que, nesse sentido, tivessem contribuído no processo de atribuição de sentido da consciência histórica de gerações de alunos e professores paraguaios.
9 Assim como no caso brasileiro, também não era incomum no Paraguai do início do século XX que editoras continuassem utilizando livros de autores já falecidos, sobretudo se esses livros tinham tido grande aceitação e, portanto, tinham sido alvo de várias reedições. As editoras então contratavam intelectuais para complementar e atualizar a obra.
10 Segundo Eurico Fernandes (2006), foi apenas a partir de 1901 que a referida obra de Terán e Gamba passou a ser “corrigida e aumentada” por Decoud. A dúvida que prevalece é se, antes de 1901, os autores Terán e Gamba já teriam incluído a Guerra do Paraguai como conhecimento escolar e, em tendo incluído, se a mesma teria sido ou não alterada por Decoud, uma vez que a obra não foi apenas “aumentada”, mas também “corrigida”.
11 Em nossa pesquisa de campo no Paraguai, tivemos acesso às duas obras e, num primeiro momento, ficamos indecisos se incluiríamos ambas as obras ou apenas uma delas. Entretanto, a partir da leitura de Brezzo, decidimos apenas incluir a primeira obra citada, por ela representar, nas palavras da autora, uma versão melhorada da segunda.
12 Na Espanha recebeu a incumbência de localizar no Arquivo de Sevilla, principalmente, documentos que se referissem à História do Paraguai, em particular àqueles que diziam respeito a questões territoriais. Essa informação fortalece o argumento que avançamos do caráter político de que se reveste a História enquanto conhecimento, do fato de aqui ela aparecer como conhecimento capaz de fornecer os fundamentos de disputas territoriais entre nações.
13 Hernandaria (1561-1634), ou Hernando Arias de Saavedra, foi um político e militar criollo. Foi Governador da Província do Paraguai; Yegros (1780-1821) foi um dos principais personagens ligados ao processo de independência do Paraguai. Aqui não sabemos se o autor faz referência a José Díaz de Bedoya, que fez parte da Legión Paraguaya, que lutou na Guerra do Paraguai contra López, ou José Eduvigis Díaz, que também lutou na Guerra do Paraguai, mas ao lado de López. Pela perspectiva adotada pelo autor, é possível que o mesmo esteja se referindo ao primeiro.
14 Segundo Paulo Renato Silva (2013), a primeira edição do livro Lecciones de Historia paraguaya, de Victor Natalício Vasconcelos, data de 1958. A edição analisada neste trabalho é a 6ª, de 1970. Nela consta um “Prólogo a la primeira edición”, escrita por Emilio Uzcategui, escrito em novembro de 1958.
15 Encontramos no site da Hathi Trust, digital library, três registros de diferentes edições da obra de Ríos no catálogo da University of Texas, em Austin, Estados Unidos. A primeira delas é de 1958, a segunda de 1961 e a terceira, que é a edição analisada por nós neste trabalho, de 1963. Supomos que a data provável da primeira edição da obra tenha sido 1958 e a da segunda de 1961. Ver: https://catalog.hathitrust.org/Search/Home?lookfor=RIOS%2C%20Emiliano%20Gomez&searchtype=all&ft=&setft=false.; acessado em: 09/06/2016.
16 Uzcategui aponta como algumas das qualidades do manual de Vasconcellos: 1. superação do ‘memorismo’, 2. uso de documentos históricos e 3. objetivo de formar os alunos como “investigadores históricos’.
17 Primeiro porque seria difícil que, no período de Stroessner, um livro que estivesse fora dos padrões do Programa Oficial fosse aprovado para uso nas salas de aula; segundo porque, em sendo um dos homens da reforma educacional, seria improvável que a obra de Vasconcellos não estivesse estritamente de acordo e em consonância com este programa.
18 Não é raro ver programas da disciplina História do Paraguai, ministrada em nível superior, que utilizem, ou ao menos indiquem, o livro Compendio de Historia Paraguaya, de Julio César Chaves. A referida obra foi escrita em 1958 e ainda hoje tem seu espaço no mercado editorial paraguaio, não mais voltado ao público escolar, mas para o público em geral e especializado, que pretende ter em mãos uma obra síntese da História do Paraguai. Em 2013, a editora Intercontinental lançou uma nova edição da obra de Chaves, o que demonstra sua importância no cenário editorial não apenas voltado ao universo escolar, mas a um público mais amplo no Paraguai.
19 Nas “Notas” Chaves destaca: 1. “Trabajos sobre el mapa”; 2. “Temas para trabajos o disertaciones del alumno”; 3. “Lecturas comentadas”; 4. “Plan de visitas”; 5. “Bibliografía para el profesor”.
20 Através do Prólogo escrito por Ríos (1963), percebemos de forma mais enfática uma questão recorrente nos livros didáticos de História do Paraguai analisados neste primeiro momento: o realce à nacionalidade e a percepção do ensino de História como instrumento de formação do sentimento patriótico. Não é de se estranhar, contudo, tal perspectiva, tendo em vista que desde 1936 até 1989 o Paraguai viverá seguidos governos ditatoriais, em que o revisionismo, sobretudo aquele desenvolvido por Juan O’Leary, se converterá praticamente em versão oficial, numa História oficial do Estado.
21 MECES (Programa de Mejoramiento de la Calidad de la Educación Secundaria).
22 Os liberais no Paraguai eram contrários à perspectiva colorada de construir uma narrativa histórica heroicizante de Francisco Solano López.
23 Com isso não estamos desconhecendo a perspectiva de personificação do Estado, em que autores atribuem a este últimas características que correspondem a seres vivos, como os sentimentos, por exemplo. Mas nesse caso particular inferimos que a referência corresponda à figura do imperador brasileiro D. Pedro II.
1 Pesquisa financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)
24 Em um boxe na página 132, Saccaggio e colaboradores (2004) também não deixam de mencionar a participação das mulheres no conflito. O livro mencionado é o único dentre os livros didáticos paraguaios que intencionou escrever sobre a Guerra do Paraguai buscando escapar de uma perspectiva descritiva.
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