Dossie
O Panteón Nacional de los Heroes e a construção do mito de Solano López
The National Pantheon of Heroes and the construction of the myth of Solano López
O Panteón Nacional de los Heroes e a construção do mito de Solano López
História Unisinos, vol. 23, núm. 3, pp. 345-355, 2019
Universidade do Vale do Rio dos Sinos

Recepción: 29 Junio 2019
Aprobación: 09 Agosto 2019
Resumo: A formação da memória bem como da identidade nacional perpassa pela construção de símbolos e mitologias nacionais que agregam valor a um bem ou a um evento. Com os heróis a história é muito parecida: são criados como o exemplo daquilo que deve ser considerado como qualidades importantes de uma pessoa integrante daquela nação. A Guerra da Tríplice Aliança produziu esses imaginários de todos os lados do conflito, obviamente, com diferenças de graus em cada país envolvido. Este trabalho visa examinar uma dessas construções, o resgate dos restos mortais de Solano López e a construção do Panteón Nacional de losHéroes em Assunção e, a partir disso, sua elevação à categoria de herói nacional.
Palavras-chave: Guerra da Tríplice Aliança, História do Paraguai, mitologia política, memória, identidade nacional..
Abstract: The formation of memory as well as national identity runs through the construction of national symbols and mythologies that add value to a good or an event. In the case of heroes the story is very similar: they are created as the example of what should be considered as important qualities of a person who is part of that nation. The War of the Triple Alliance produced these images on all sides of the conflict. This work aims to examine one of these constructions, the rescue of the mortal remains of Solano López and the construction of the National Pantheon of the Heroes in Asuncion and, based on this, his elevation to the category of national hero.
Keywords: War of the Triple Alliance, History of Paraguay, political mythology, memory, national identity.
Quem passa pelo centro histórico de Assunção, no entroncamento das agitadas Calle Palma – a mais importante avenida da região – com Avenida Chile e Independência Nacional, encontra um bem cuidado quadrilátero que engloba quatro praças: Plaza de laLibertad, Plaza de la Democracia, Plaza Juan de O’Leary e a Plaza de losHéroes. Bem arborizadas, destacam-se no conjunto de prédios imponentes de bancos e bares tradicionais que, para um visitante da cidade, seria inconcebívelnão conhecer. Mas, um prédio em especial se destaca no espaço em frente àCalle Palma esquina com Av. Chile, mais precisamente na Plaza de losHéroes: o Oratorio de laVirgenNuestraSeñora Santa María de la Asunción, mais conhecido como o Panteón Nacional de losHéroes, que guarda, além da imagem sacra que denomina o local, os restos mortais daqueles considerados “mitos”, construtores e heróis da nacionalidade paraguaia. Mas qual a importância do Panteão para a construção da história paraguaia? Sua inauguração marca a coroação em mito de Francisco Solano López, que até aquele momento, e desde1869,era considerado traidor da pátria. Cabe-nos então questionar de que forma ocorreu essa mudança.
O mito
Todo processo de heroificação implica, em outras palavras, uma certa adequação entre a personalidade do salvador virtual e as necessidades de uma sociedade em um dado momento de sua história (Girardet, 1987, p. 82).
Como se construiu a ideia de “herói” e “heroísmo’? A fabricação desses dois termos remonta à Idade Média, mas ambos se relacionam com a noção de martírio religioso, cheio de virtudes e dotado de um caráter quase divino. Uma publicação francesa de 1999 nos abre caminho para a discussão sobre a formação do mito do herói, bem como suas nuances mais delicadas. La fabrique desherós, editado pela Maison dessciences de l’homme, traz em sua publicação uma série de artigos que, dentre outras coisas, se propõe a analisar como os heróis foram inventados na França;o enfoque é muito parecido com a abordagem relativa aos atos de rememoração individual relacionados à Guerra da Tríplice Aliança. A base da explicação sobre a necessidade da fabricação dos heróis advém da obra Le cultedeshéros et sesconditionssociales: saint Patrick, hérosnational de l'Irlande, escrita pelo sociólogo polonês Stefan Czarnowski[3].Para ele, nenhuma nação sem mito, sem heróis e sem liturgia pode fixar a consciência coletiva ou uma continuidade de uma história. No entanto, esse consenso não é espontâneo, mas é o produto de uma fabricação controversa. Como para a comunidade de “devotos”, isto é, “nós”, o imaginário leva a um território, onde ocorre uma espécie de gratidão ou reconhecimento, deixando clara aimpressão de uma evolução qualitativa dos chamados “grandes homens”. A partir dos valores universais, a grandeza desses homens pode ser calculada. Em consequência disso, para Fabre, “a memória dos grandes homens não sofre um fim”(1998,p. 235). A idealização desses “grandes homens” os associa a um novo critério de identificação: à sociedade a qual eles pertencem. Neste ponto, o “panteão de heróis” recebe indivíduos de diversos tipos, incluindo militares das grandes guerras onde o Paraguai participou, como o processo de Independência, Guerra da Tríplice Aliança, Guerra do Chaco, símbolos nacionais, como as cores da bandeira presentes em diferentes partes do Oratório, entre outros. Enfim, de um modo mais geral, a anexação à grande e à pequena pátria passa pela rememoração dos grandes espíritos e dos grandes artistas, onde os jovens pretenderiam igualar a sua glória (Fabre, 1998, p. 300).Pensando no que Fabre afirmou, para inserir as pessoas no contexto de criação das memórias, era necessário não somente criá-las, mas provocar uma forma de pertencimento onde essas memórias fizessem sentido. Ao pensarmos no contexto referente ao pós-guerra do Paraguai e à constituição de Estados a partir de um viés “revolucionário”, como preconizavam os movimentos da Revolução de Fevereiro, também conhecida como “Revolução Febrerista”,no Paraguai havia um pretenso rompimento com uma lógica política anterior e instauração de algo novo.Os heróis deveriam ser praticamente um misto de todos os modelos dessa tríade: além de um grande homem, os grandes feitos militares e a luta pelos “direitos” recolocariam o conflito da Tríplice Aliança em voga, retomando heróis e criando um panteão de símbolos nacionais de rápida identificação para todos os membros da nação.[4] Nesse sentido, retomar Raoul Girardet parece ser interessante no intuito de pensar acerca desses “heróis”. A ideia de construção de um mito possibilita a consolidação de um sistema de crenças que trazem em si coerência; afinal, as pessoas precisam acreditar nessa mitologiapor reconstruir signos e possivelmente toda uma história coletiva.“Ele já não invoca, nessas condições, nenhuma outra legitimidade que não a de sua simples formação, nenhuma outra lógica que não a de seu livre desenvolvimento”(Girardet, 1987, p. 11-12). E continua: As manifestações do imaginário mitológico apresentam, com efeito, certo número de traços comuns. Elas pertencem, em outros termos, a um sistema particular de discurso. [...] são as relações de analogia que parecem poder ser legitimamente estabelecidas entre o procedimento mítico e o do próprio sonho que convém lembrar em primeiro lugar. Como o sonho, o mito se organiza em uma sucessão, seria melhor dizer, em uma dinâmica de imagens(Girardet, 1987,p.13-14). Ainda nessa perspectiva, o mito político seria uma fabulação, deformação ou interpretação do real, mas a narrativa legendária daria uma chave explicativa para o presente, exercendo uma função explicativa e mobilizadora. O mito aparece essencialmente polimorfo, onde uma mesma série de imagens pode veicular-se por mitos aparentemente diversos, oferecendo múltiplas ressonâncias e significações. Com os episódios da guerra da Tríplice Aliança não seria diferente. A apropriação de alguns símbolos resulta na construção política daquela determinada época. Desta mesma forma, o mito pode ser venerado ou execrado. Todo mito, para ser realmente apreendido, necessita de uma base concreta. Os dados factuais necessitam ser precisos e, mesmo assim, para uma “perfeita construção”, o “contexto cronológico é abolido, a relatividade das situações e dos acontecimentos, esquecida; do substrato histórico não restam mais que alguns fragmentos de lembranças vividas, diluídas e transcendidas pelo sonho”(Girardet, 1987, p. 52-53).Nesse sentido, a reconstrução dos itinerários e biografias referentes ao conflito da Tríplice Aliança, notadamente no caso de SolanoLópez, perfaz a ideia do mito e da mitologia, visando à formatação de um cenário político e de construção de novos ideais heroicos que podem constituir a forma de condução recém-instalada. A lembrança de um período de ouro, de um herói salvador, o surgimento de uma conspiração ou ainda, a ideia de uma coletividade, de uma nação, fez com que essa mitologia referente à Guerra da Tríplice Aliança retornasse em meados dos anos de 1930, em formato de homenagens aos mortos em algum evento significativo que pudesse apelar para o sentimento coletivo e para a construção de uma memória também coletiva que representasse as questões mais profundas defendidas pelos regimes e que seriam, em parte, contrárias ao ideário anterior, que pensa em um Paraguai atrasado, de governos autoritários que estariam preocupados com o aumento de sua riqueza e não a modernização do país, bem como as questões raciais que colocam os indígenas como parte do atraso do país. Os monumentos fúnebres passam a contar a história daquilo de que a nação se orgulharia e dos heróis como modelos a serem seguidos.Os lugares de memória seriam então feitos pela experiência, restos daqueles que vivem o lugar e pela preocupação em perpetuar uma memória que é viva, mas que pode desaparecer. O historiador alemão ReinhartKoselleck, pensando comparativamente nos monumentos fúnebres da Alemanha, Itália e França, percebeu que nesses locais ocorreu a tentativa de se construir uma lição de moral e civismo dada pelos mortos, problematizando, desta forma, que os monumentos aos mortos servem, na verdade, mais como meio de atender aos interesses dos vivos do que propriamente prestar a efetiva homenagem aos falecidos” (Koselleck, 1992, p. 134).
Para Edgar Morin, o fato de um povo não abandonar seus mortos sem algum tipo de ritual garante a sobrevivência dos mesmos na sociedade (Morin,1988, p. 25). Quando essa sobrevivência passa a representar um culto cívico, essa memória passa a ter um significado coletivo e de disputa, a fim de se tornar uma memória oficial. A ligação entre o culto da memória e os mortos pode ser compreendida através das palavras do antropólogo Gaston Bachelard, para quem a morte se torna “primeiramente uma imagem” (Bachelard, 1982, p. 312). “Perante a incompreensibilidade do morrer, a memória emerge como protesto compensatório” (Catroga, 2010, p. 167). Nesse sentido, “o túmulo deve ser lido como uma totalidade significante que articula dois níveis bem diferenciados: o invisível (situado debaixo da terra) e o visível, o que faz com que, [...] ele seja um monumento colocado entre os limites de dois mundos” (Catroga, 2010, p. 168).
A campanha lopizta O lopizmo foi um movimento para recuperar a figura histórica de Francisco Solano López, declarado “traidor da pátria” em 1869, quando ainda era vivo e reconhecido como presidente do país. Doratioto acredita que López não era bem um traidor, mas sim um tirano, título esse que vai acompanhá-lo por pelo menos 50 anos (Doratioto, 2012, p. 74). Ao final do século XIX, sua imagem era tão desgastada que nem os generais Caballero e Escobar, que lutaram e estiveram com ele durante praticamente todo oseu governo, ousariam contestaro fato. As críticas a Solano López partiam inclusive de sua família(Doratioto, 2007, p. 200). Seu maior crítico na virada do século XIX para o século XX foi Juan Crisóstomo Centurión, que publicou, entre 1894 e 1904, Memorias o reminiscencias históricas sobre la guerra del Paraguay, um retrato devastador de López. Mesmo sendo considerado antilopista, Centurión afirmou que, apesar de todas as suas falhas, López era um grande homem, superior aos seus críticos. Ele condenava ainda sua covardia, evitando a responsabilidade quando a ação falhou, culpando subalternos e denunciando as deserções que ocorreram no exército paraguaio no início do conflito, fato que desmentia as afirmações dos defensores de López sobre o nacionalismo e patriotismo da população, e não se esqueceu de mencionar a atuação do ministro americano Charles Ames Washburn, que propôs uma retirada de López para a Europa, como forma de terminar a guerra. Ao mesmo tempo, surgia um grupo muito forte de apoiadores de Solano López, incumbidos de ressaltar sua memória. O nascimento dessa corrente – o lopizmo – atendeu a um vazio ideológico, contudo a escolha da figura de López poderia ter um motivo menos honroso. O movimento lopizta era regular, adquirindo adeptos em todos os níveis e grandes proporções no Paraguai. Itiberê da Cunha chegou a ressaltar que o jornal paraguaio La Patria, que defendia Lopéz e invocava o espírito belicoso, pertencia a herdeiros de López (Doratioto, 2012, p. 87). Em 1904, inicia uma revolta do Partido Liberal que obriga diversos políticos antigos a se exilarem do Paraguai. O retorno desses homens aumentou a propaganda lopizta e mudou os rumos da história paraguaia. Os intelectuais e a disputa pela memória A partir de 1902, os intelectuais paraguaios defenderam suas posições contra e a favor de Solano López, mas sempre como uma base de disputa entre Liberais e Colorados. Alguns, como Juan de O’Leary, iniciaram criticando, mas devido a interesses econômicos e políticos acabaram se tornando os maiores propagandistas de López. Esses homens faziam parte da chamada “Geração dos Novecentos” (ou “dos 900”), como eles mesmos se intitulavam, nascidos entre 1870 e 1880[5]. O autor paraguaio Raúl Amaral diz que o Novecentismo queria ser ou dizer, no Paraguai, renovação dos modos de vida, sistemas de orientação intelectual e, acima de tudo, um método diferente para concentrar os equívocos da história, até mesmo após 30 anos do final da guerra da Tríplice Aliança. Temos como intelectuais Novecentistas clássicosCecilio Báez, jurista acadêmico, autor de obras históricas e sociológicas, reitor da Universidade Nacional de Assunção e diplomata; Arsenio López Decoud (um dos irmãos do Decoud político), autor do monumental Álbum gráfico do centenário da independêencia da República do Paraguai; Manuel Domínguez, proeminente jornalista e professor político; Manuel Gondra, o estadista cujo nome é uma Convenção Interamericana sobre Direito Internacional, professor e político; Fulgencio R. Moreno, escritor e político; Blas Garay, primeiro historiador paraguaio que vai às fontes do Arquivo das Índias por causa de seus estudos sobre o Paraguai; Eligio Ayala, o grande estadista e propulsor de uma economia florescente, enquanto o resto do mundo lutava em uma grande depressão; Ignacio A. Pane, escritor, professor e sociólogo; Juan E. O’Leary, historiador, jornalista e professor; o poeta Eloy Fariña Núñez e alguns estrangeiros como Rafael Barrett, Guido Boggiani, Viriato Díaz Pérez. Eles foram os resultados concretos das políticas educacionais dos primeiros governos através do Colégio Nacional (1877) e da Universidad Nacional (1889) (Amaral, 2006). Nesse sentido, para explicar a ocorrência dessa geração podemos recorrer a Karl Mannheim quando ele esclarece que a relação entre os que pertencem a uma geração - por que ele entende como conexão geracional. É uma simples relação, ao contrário da formação de grupos determinados. Os indivíduos interligados por uma geração compartilham um determinado posicionamento, parecido com o posicionamento de classe, que pode ser percebido pela pressão social da sociedade, mas que não pode ser abandonado simplesmente por um ato de vontade. Nem é necessário que os indivíduos de uma geração estejam conscientes deste posicionamento. Não significa dizer que havia uniformidade de pensamento dos membros da mesma geração, mas implica pensar a existência de uma referência que se coloca como realidade objetiva para os indivíduos. O conceito de “posicionamento” da perspectiva sociológica de Mannheim permite uma análise muito interessante das condições de ação do indivíduo, pois, ao mesmo tempo, restringe e orienta. Por um lado, o posicionamento elimina um grande número de possíveis formas e maneiras de vivência, pensamento e percepção, limitando o espaço de ação de cada pessoa ao que é possível e “pensável” no contexto da sua geração. Por outro lado, este posicionamento não só limita, mas também estrutura o campo de ação no sentido de tendências existentes para determinadas maneiras de comportamento, pensamento e sensação. Se o posicionamento pela geração aponta para chances e limites em uma perspectiva temporal, o posicionamento pela classe significa os diferentes espaços de ação em um determinado momento histórico (Weller, 2010). Esses intelectuais da “geração dos 900” se enquadram muito bem nas perspectivas de Mannheim, pois, mesmo vivendo o mesmo contexto e base histórica, em determinados momentos os interesses os fazem escolher o caminho mais interessante para percorrer. A Guerra do Chaco Não pretendemos examinar as causas e o conflito, mas é importante mencionar pontos importantes para a construção da narrativa que se relacionará diretamente com a Guerra do Chaco. A Guerra do Chaco foi um grave conflito que envolveu a Bolívia e o Paraguai, oficialmente, entre os anos de 1932 a 1935, chegando-se a um acordo de paz somente em 1938. A causa da contenda foi a disputa pela posse do território do Chaco Boreal, porção que é delimitada pelos rios Paraguai, a leste, Pilcomaio, a oeste, e Parapetí, no sudeste boliviano (Doratioto, 2000, p. 1)[6]. A querela em torno dessaregião já era antiga devido à posse de territórios, mas foi enfatizada com a descoberta do petróleo. No início do conflito, o Brasil se manteve neutro, mesmo com o pedido da Bolívia, e a Argentina tentou intermediar a situação, tendo grande destaque no cenário das relações exteriores nesse contexto. Além das questões territoriais, outro ingrediente animou a disputa pela região: a confirmação pela Standard Oil, truste petrolífero norte-americano, da existência de petróleo na região. Para acender ainda mais o pavio, a StandardOil passa a explorar a região como concessionária, fazendo o escoamento através do Rio da Prata. Logo isso se torna um problema, pois o escoamento lógico seria pelo interior da Argentina, que nesse momento, a partir de uma onda nacionalista da Unión Cívica Radical, cria em 1922 a estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales, entrando logicamente em conflito de interesses coma Standard no país. Em 1925, a empresa norte-americana busca a concessão, por parte do governo argentino, para a construção de um oleoduto até o rio Paraná; em 1927, a Argentina recusa a concessão e eleva a taxa de importação para o petróleo boliviano, proibindo-o de atravessar o país. Então, devido a esse impasse, a alternativa era a saída pelo rio Paraguai, no questionado Chaco Boreal. Enquanto Paraguai e Argentina denunciavam e tentavam impedir a concretização de tal intento, a Bolívia conseguia vultosos empréstimos internacionais para a compra de materiais bélicos, sendo inclusive denunciada no Congresso americano a intermediação da StandardOil nessas concessões. Estão colocadas as posições que levaram ao conflito.
Em junho de 1932, o Paraguai entrou em conflito com a Bolívia, dando início à Guerra do Chaco. De acordo com Ceres Moraes, “a Guerra do Chaco e seu desenlace criaram, no Paraguai, uma situação revolucionária, que serviu para unir, num mesmo movimento, todas as correntes antiliberais” (Moraes, 2000, p. 27). Lorena Soler (2007) argumenta que a Guerra do Chaco fomentou um nacionalismo na sociedade paraguaia, com diversas correntes, desde as fascistas até aquelas que reivindicavam direitos sociais e políticos (Soler, 2007, p. 1-2). Nesse contexto, os militares tornaram-se os atores políticos que poderiam melhor representar a nação. Assim, na década de 1930, surgiu o Movimento Febrerista encabeçado por militares nacionalistas e que haviam saído vitoriosos da guerra. A vitória paraguaia na Guerra do Chaco abriu caminho para olhares heroicos para o passado militar, e os manuais de história voltaram a ser reescritos para contar que foram declarados próceres beneméritos José Gaspar de Francia, Carlos López e Francisco Solano López (Afonso, 2017, p. 94).
Foi nesse renascimento patriótico que o presidente Rafael Franco criou em 1936 uma expedição a Cerro Corá a fim de resgatar os restos mortais de Solano López, utilizando os relatos dos expedicionários. Segundo a história contada, os soldados paraguaios, durante a batalha, sinalizaram o caminho, escrevendo em guarani, nas cascas das árvores, o caminho que levaria ao local do enterramento[7].
A expedição a Cerro Corá
Em um livro intitulado La restauración histórica delParaguay, é descrita toda a operação de retirada dos restos mortais de Solano López e seu filho Panchito. Interessante ressaltar que a obra é um verdadeiro panfleto de exaltação patriótica e celebração da Revolução Febrerista. Inicia criticando o Brasil, chamado de “monarquia exótica”, e afirmar ser o dever da obra “limpiar de agravios y errores la historia nacional [… ]y se hace perentorio en los agitados tempos actuales en que, junto a la deformación de los grandes sucesos del pasado, se mezcla la deformación de los grandes sucesos del presente” (Stefanich, 1945, p. 13)[8].
O livro segue falando das grandes “obras” de Solano López, bem como de todo o procedimento de retirada e solenidades de translado e deposição dos restos mortais.“Tais relatos permitiram fundir dois símbolos da paraguaidade, a língua guarani – que passa a figurar como elemento originário do país – e Solano López, o herói da pátria” (Soler, 2007, p. 1-2).
La restauración de un Pueblo, una raza o una nación no se logra restaurando únicamente sus valores materiales, su bienestar utilitario y su economía. Una nación tiene su moral, su dignidad y su espíritu, sus antecedentes y sus tradiciones históricas, su patrimonio ideal y sentimental, valores todos que integran su fisionomía y su personalidad en el concierto internacional. Tiene su responsabilidad y sus deberes ante sí misma, ante sus hijos y ante el mundo y es de primordial transcendencia para ella el poseer una perfecta noción de su historia, de su política y de sus destinos a fin de fijar su posición en la comunidad de las naciones y en el cuadro universal de la civilización humana(Stefanich, 1945, p. 5).
A percepção de Stefanich sobre o momento foi interessante. Parecia ter a consciência específica da necessidade de se criar toda uma mitologia e, ainda sim, devido ao encaminhamento político, criar bases convincentes de fundamentação do regime que se instaurou com a Revolução de Fevereiro, que, pelo autor, seria a terceira revolução que determinaria e fixaria os destinos da nacionalidade e democracia paraguaias, além de ser a única que forneceu à História do Paraguai a atenção especial que ela merecia. É interessante pensar que neste momento a ideia de uma fundação guarani retorne com grande força. Talvez, nesse sentido, a imagem de Solano López como um líder que dominava a língua e falava com suas tropas nesse idioma tenha alcançado tanta força.
Sobre a guerra da Tríplice Aliança,Stefanich afirma que o Brasil, “aquellamonarquía exótica enquistada en América, era enemiga natural de las repúblicas e de la democracia” e que o Paraguai, “como lanaciónmejor organizada entre las repúblicas delRío de la Prata y como Pueblo amigo y solidário enlos assuntoscomunes que afectaban a lastres repúblicas hermanas y vecinas, asumióla defensa del sistema republicano.[9]; ou seja, retoma a ideia de O’Leary de que a guerra fora motivada pelo Brasil, que era contrário ao poderio paraguaio, bem como de que o Paraguai só invadiu a Argentina para proteção da mesma e do Uruguai, devido ao avanço imperial. Conclui seus argumentos afirmando que a guerra levou ao extermínio do povo paraguaio(Stefanich, 1945, p. 9). A própria história do Paraguai no pós-guerra é revista de forma a valorizar o Movimento Febrerista. Segundo o autor, o novo governo paraguaio que se formou durante a ocupação estava a serviço da Tríplice Aliança, que perseguiu a memória de quem lutou até o fim em defesa da pátria(Stefanich, 1945, p. 9). O autor abria o caminho para iniciar a narrativa apologética sobre López. Stefanichainda completa:
Sesenta y seis años después de aquel terrible holocausto la Revolución de Febrero halló vigente en la nación una ley de proscripción y deinfamia dictada por aquel pseudo gobierno paraguayo contra el preclaro gobernante que, después de batirse en campañas inverosímiles en defensa de la república y de la independenciade su patria, sucumbió con bravura al frente de sus últimos soldados en Cerro Corá(Stefanich, 1945, p. 9).[10]
Em 1º de março de 1936, data simbólica relativa à morte de Solano López em Cerro Corá, chamada de épica, o governo revolucionário restabelece López com o decreto-lei que cancela todos os documentos referentes à indisposição de López para com o Paraguai, bem como o declara herói nacional e ainda determina a glorificação de sua memória em um grande monumento comemorativa na mais alta colina, às margens do Rio Paraguai na entrada da cidade de Assunção. A partir de então, Stefanich passa a exaltar os feitos e a figura de Solano López.
Sobre Cerro Corá, inicia o relato dizendo que o presidente “coronel Dom Rafael Franco” instituiu uma comissão especial na cidade de Concepción, tomando para si a tarefa patriótica e piedosa de ir a Cerro Corá em busca dos restos mortais do marechal Solano López. O grupo não tinha dúvidas de onde os corpos de López e seu filho Panchito estariam sepultados. Essa certeza viria dos testemunhos do veterano dom Bonifácio Obando, que se baseou em relatos de conhecidos, principalmente do tenente Benigno Frutos, que era encarregado da cavalaria de López, e de Victoriano, que serviu madame Lynch. Ou seja, Obando, que ao terminar a guerra tinha 18 anos de idade,nunca esteve em Cerro Corá.
Segundo ele, os amigos informaram que nos primeiros tempos após a guerra, na margem esquerda do rio Aquidabán, a uma distância de 100 metros aproximadamente e por ordem de madame Lynch, que pediu permissão aos chefes brasileiros, foram sepultados os restos mortais do marechal e de seu filho, em duas covas paralelas ao rio; além disso, construíram duas cruzes de madeira que foram colocadas sobre as sepulturas. Em 1880, ele viajou aos ervais, quando acabou passando acidentalmente por Cerro Corá, em companhia de um amigo já falecido, Gabriel Marín, e nessa “coincidência” encontraram as duas cruzes, sendo que uma delas estava sem braços e a outra quase destruída por viajantes que a quebraram para levar como relíquia.
Então,Obando se dedicou a localizar o ponto exato das tumbas e, desta forma, tomou como ponto de referência “recifes”, e, ao descer em algumas pedras no curso do rio, conseguiu avistar as cruzes e notou uma árvore situadaa cerca de 40 metros das sepulturas, chegando perto dela e desenhando o local onde estavam os corpos em sua casca. Em 1897, Obando disse que foi novamente ao local, sendo agora acompanhado por Genaro Jiménez; não encontrou as cruzes, mas a árvore marcada ainda estava por lá. O interessante nesse relato é a reafirmação daquilo que madame Lynch havia dito sobre Cerro Corá e a necessidade de confirmação de tudo que Obando relatava, informando que em todos os momentos não estaria jamais sozinho, dando veracidade aos dados. De posse desses dados, inicia-se então a exumação dos restos mortais.
Em 28 de agosto de 1936, seguiu até Cerro Corá uma expedição da Comissão ora instaurada pelo coronel Franco. Ela era composta por Romualdo Irigoyen, rico fazendeiro de Concepción; coronel Dom HiginioMorínigo, futuro “presidente” paraguaio que, nesse contexto, era chefe de divisão do exército de Concepción, e Dom Marcial Roig Bernal, médico que possivelmente fora convocado a fim de fornecer veracidade ao material que fosse resgatado. Além deles, os dois veteranos, já idosos, Bonifácio Obando e Genaro Jiménez também foram para Cerro Corá. Às 9 da manhã do dia 30 de agosto, a Comissão acampou em Cerro Corá, às margens do rio Aquidabán, e, usando as informações dos veteranos, partiu para a exploração em busca das tumbas. Pelo relato, o lugar havia mudado completamente: o que antes era um campo agora estava coberto de selva espessa, o que dificultou o trabalho. Como nada foi encontrado, trocaram a posição do acampamento para o lugar denominado “Passo Tuyá”, outro ponto do rio Aquidabán.
No dia 2 de setembro foram encontrados “recifes” no curso do rio e um local parecido com aquele que havia sido descrito por Obando. Examinando cuidadosamente o local, perceberam que havia, a cerca de 80 metros da margem do rio, e à distância de 1 metro uma da outra, formas retangulares que pareciam sepulturas antigas. Em seguida chamaram autoridades e moradores da região de Pedro Juan Caballero para acompanhar as buscas. Passaram então a cavar as tumbas, onde encontraram restos de madeira, pedras mescladas de terra negra e vermelha. Na profundidade de 1 metro encontraram alguns poucos e pequenos fragmentos de ossos humanos, que foram cuidadosamente recolhidos. E isso era tudo que restava das tumbas.
Em uma urna de madeira foi colocada terra extraída da tumba e, em um pedaço de tecido branco, reuniram-se os pequenos fragmentos ósseos que foram depositados na caixa. Segundo Stefanich, que não estava no local da exumação, a multidão agrupou-se em torno da caixa e “se rendeu” em orações pelos “mortos pela pátria”. Uma cruz de ferro foi erguida naquele espaço “santificado pelo sacrifício” assinalando o local das tumbas para lembrança da posteridade(Stefanich, 1945, p. 26).
“Asunción, en efecto, vivió momentos inolvidables de fervor nacionalista, de entusiasmo patriótico, de esperanza en los destinos del país”(Stefanich, 1945, p. 27)[11]. Dessa forma Stefanichinicia seu relato sobre o translado dos restos mortais de López. No domingo, dia 11 de outubro, por volta das 10 horas, entrou na baía de Assunção a canhoneira “Humaitá”, que trazia a bordo os restos mortais de Solano López e do soldado paraguaio desconhecido morto na guerra do Chaco. Stefanich, obviamente levado pela necessidade de passar a “emoção” do momento para aqueles que liam sua obra, ainda descreveu que desde as 7 horas da manhã era fácil de notar a afluência de público no centro de Assunção à espera do cortejo. Segundo ele, os meios de transporte público chegavam lotados oriundos não só dos bairros próximos, mas também do subúrbio e cidades vizinhas; os edifícios públicos, casas de particulares, comércio, todos eles estavam embandeirados com tecidos coloridos. Às 8 horas as forças armadas entraram em forma em diversos pontos do centro da cidade para a revista presidencial que se iniciou às 9 da manhã.
Um detalhe interessante em toda essa descrição foi o destaque dado à presença dos ex-combatentes da guerra da Tríplice Aliança;Stefanich afirma que são poucos, mas que formaram a guarda de honra; são
viejos encorvados por los años, uniformados algunos con el verde olivo, largas y blancas las barbas, no abandonaron el recinto, como si junto a los restos del Mariscal cumplieran todavía la consigna que de él recibieran en los días de lucha, de ser inflexibles en el cumplimiento del deber (Stefanich, 1945, p. 28-30).
Os ex-combatentes desfilaram no final de uniforme característico debaixo dos aplausos do público que assistia; havia também a presença de um grupo de inválidos; ao todo eram 15 mil homens, sendo 4 mil das forças armadas e 11 mil ex-combatentes. O desfile iniciou às 10:30 e só terminou por volta das 13:30(Stefanich, 1945, p. 35-36).
As urnas foram então colocadas em “carros de armas” puxados por dez soldados e escoltados pela tropa e pelo povo que, segundo Stefanich, estava em profundo silêncio, e conduzidas até o Palácio Nacional, em cujo salão principal se ergueu uma capela e onde foi colocada a guarda de honra para fazer a “guarda” dos restos mortais. Logo que as portas foram abertas para o público, ele encheu a capela, visitando os restos mortais durante toda a tarde de sábado e noite de domingo.
Em 1º de março de 1944, Juan Stefanich participou em Buenos Aires de uma comemoração promovida por aquele governo pelo aniversário da batalha de Cerro Corá. Neste mesmo evento, foi presenteado com um quadro de Solano López e ocorreu a devolução de alguns documentos apreendidos durante a guerra.Naconferência,Stefanich retoma todo o evento de busca dos restos mortais em Cerro Corá e acrescenta detalhes muito significativos. Em determinado momento ressalta que uma nação inteira ficou prostrada diante das cinzas póstumas do indomável caudilho que havia movido o coração da América em defesa de sua pátria na Grande Guerra. Relata em seguida uma verdadeira epopeia, que até então não fora narradaem nenhum lugar, para o translado dos restos mortais, que quase culminou em um acidente de avião, mas que, segundo o autor, graças às manobras quase heroicas do piloto, permitiram a chegada dos restos mortais e ao seu destino(Stefanich, 1945, p. 40-41).
Cabe ressaltar que a forma como todo o evento é descrito pareceu uma construção a fim de valorizar a “aventura” e os efeitos dela. A partir de então, Stefanich passa a chamar López de “o grande senhor da guerra”. Para o autor, “todos os entraves estavam relacionados com o próprio López, que estaria fazendo isso [a guerra] para testar a lealdade e o amor do povo para com ele. Passou então a relatar como os restos mortais foram encontrados, prestando quase um culto ao lugar, sacralizando o espaço. Cerro Corá seria então um local de recordação de tantos sucessos, sendo que, naquele momento, a selva teria coberto aqueles lugares de sacrifício e, mesmo assim, aqueles “emissários incumbidos da missão da pátria renascente” fizeram a peregrinação à terra santa dos paraguaios em busca da relíquia dos seus últimos heróis. O mais interessante pode ser lido na sequência: Stefanich afirma que os poucos fragmentos ósseos encontrados seriam levados para a veneração da posteridade, sob caracteres de espetáculo nacional, quando a comitiva se retirou daquele lugar de santidade(Stefanich, 1945, p. 44-45)[12].
É interessante pensar que, nesse relato de Stefanich, a terra de Cerro Corá se torna mais importante que os ossos, ou possíveis fragmentos ósseos, de Solano López e Panchito. Ela se torna símbolo de resistência e heroísmo paraguaio, personificado na figura de López, e reconta uma história que fora apropriada no contexto de formação de um governo ditatorial devido ao golpe. Solano López seria um exemplo a ser seguido pela sua coragem, que fora difundida, bem comoum exemplo de governanteque as ditaduras paraguaias implantariam com a desculpa de libertar o país do domínio estrangeiro.
Ele (os grandes homens) pertence à pátria, à posteridade e à história, e a Nação Paraguaia deve sua independência, seu hino, sua bandeira e sua forma republicana de governo aos três governantes que comandaram seus destinos durante os 60 anos que se seguiram ao pronunciamento do libertadorJosé Gaspar Rodríguez de Francia de maio de 1811(Stefanich, 1945, p. 46). Com essa fala podemos perceber que não existe somente a reabilitação de Solano López, mas de seu pai Carlos Antônio López e de Gaspar de Francia. Stefanich retoma o decreto, que ele chama de histórico, que reabilitou López, e os detalhes nos fazem pensar no apagamento efetivo da memória.
Dice el artículo 1º deese decreto: “Quedan cancelados para siempre de los archivos nacionales, reputándoselos como no existentes, todos los decretos-libelos dictados contra el Mariscal Presidente de la República del Paraguay, don Francisco Solano López. Dice el artículo 2º: “Declárese Héroe nacional sin ejemplar al Mariscal Presidente don Francisco Solano López, inmolado em representación del idealismo paraguayo, con sus últimos soldados, en la batalla de Cerro Corá el 1 de marzo de 1870”. Dispone y ordena el artículo 3º: “Eríjase em glorificación de la memoria del Héroe Nacional Mariscal Presidente de la República, don Francisco Solano López, ungran monumento conmemorativo sobre la más alta colina sita a orilla del rio Paraguay, a la entrada da ciudad de la Asunción(Stefanich, 1945, p. 47-48).
A partir de 1973, o espaço se tornou o Parque Nacional Cerro Corá, local de turismo e camping, mas que guarda os resquícios dessa história de formação mítica patriótica.
O Panteão
VoltemosaPlaza de los Héroes. Ao assumir a presidência, Solano López manda destruir a casa onde Francia morou e em seu lugar construiu um oratório para a Virgem de Assunção, contratando para essa tarefa, financiado pelo Estado, o arquiteto italiano Alexander Ravizza, a fim de modelá-lo tal como a tumba de Napoleão em Paris, na Igreja dos Inválidos.Dois soldados uniformizados como guarda de honra tomam conta do local. Ao entrar no prédio (que atualmente se encontra em reforma), a pessoa se aproxima de uma balaustrada circular para espiar um porão onde, do alto, é possível ver trêscaixões cobertos com bandeiras paraguaias, cercados por outros caixões de “soldados honrados”. Estão nesses caixões um soldado desconhecido, o doutor Eusebio Ayala e Bernardino Caballero. Circundando esses caixões estão as urnas contendo os restos mortais de Carlos Antônio López, o capitão Antônio Yegros (heróis da Independência paraguaia) e o menino mártir de Acosta Ñu, representando as crianças que lutaram e morreram ao final da Tríplice Aliança.
Numa plataforma retangular sem urna podemos ler o nome de Gaspar de Francia, mas ali não repousam seus restos mortais, pois desapareceram misteriosamente logo após a sua morte. Escondida da visão inicial de quem entra no edifício, encontra-se a urna em bronze contendo os restos de Francisco Solano López. No mezanino do primeiro andar, apresentam-se várias estátuas de heróis da pátria; ao adentrar no Panteão, logo à esquerda, vê-se a estátua de Carlos Antônio López; seguindo em sentido horário, a próxima estátua de bronze é uma representação de José Félix Estigarribia, herói da Guerra do Chaco; mais adiante está o beato Roque Gonzáles de Santa Cruz (1576-1628),jesuíta fundador das reduções guaraníticas (missões). Nos fundos da sala está um altar em mármore com a imagem da Virgem Maria, que usa, patrioticamente, uma faixa nas cores da bandeira paraguaia; em seguida existe uma estátua em argila do monsenhor SinforianoBogarín, bispo do Paraguai entre 1894 e 1930 e arcebispo de Assunção de 1930 até 1949.
No entorno da sala, chegamos à estátua em bronze de Francisco Solano López; ele está barbudo (como era em vida de acordo com as várias fotografias), mas o escultor o torna um homem de destaque; sob seus pés aparece a legenda “Penúrias e fadiga vencidas”. Até a reinauguração em agosto de 2018, diversas homenagens em forma de placa rodeavam a uma estátua doada por militares ex-combatentes diz: “Ao presidente Marechal Dom Francisco Solano López. Morreu em Cerro Corá em 1º de março de 1870 com sua espada na mão e o país em seus lábios, na frente de seus últimos soldados eem seu último campo de batalha”. Nas paredes em torno da estátua de López ficavam placas de bronze de diversas autoridades paraguaias e “historiadores públicos” queforam colocadas lá para lhe render homenagens. Países como Israel, Peru, Chile e Equador também doaram algumas. Curiosamente dois memoriais foram doados pelas forças armadas de Brasil e Argentina. Apenas algumas dessas homenagens especificam a figura de López – das 24 placas que existiam apenas quatro, incluindo a que fica logo abaixo da estátua, referem-se a López pelo nome.
É interessante ressaltar que no seu frontispício está escrita a expressão em latim Fides et patria, que podemos traduzir como “Fé e Pátria”. O Panteão serviu, desta forma, ao intento político de se reconstruir um sentimento patriótico e da memória coletiva, que será aprofundado durante o governo de Alfredo Stroessner (1954-1989). De acordo com a página incentivadora do turismo no Paraguai, bienvenidoaparaguay.com, o Panteão seria
uno de los tesoros del Patrimonio Cultural Material de Asunción se comenzó a construir en 1863 y se terminó 73 años después. Inspirada en el Palacio de los Inválidos de Francia (Les Inválides), hoy en día la última morada de las personas más importantes de la historia paraguaya. Abre sus puertas todos los días desde las 05:45 con el toque de diana e izamiento de bandera. Existe un servicio de guía que funciona desde las 08:00 hasta las 12:00 de lunes a sábados. El horario de bajada de bandera es a las 17:00 todos los días con un toque de corneta y un pequeño acto, excepto los domingos cuyo horario de cierre es al medio día. Los domingos se realiza la misa a las 10:30 en el Oratorio.
O Oratório era considerado um monumento de “resistência/sobrevivência” da época anterior ao conflito. Passaram-se 65 anos para que ele fosse novamente exaltado, visto que estava em ruínas, e, pelo que Stefanich descreveu, os jornais da capital paraguaia cobravam do governo a reforma do prédio, que apesar de iniciativas não saía do estágio de colocação de andaimes(Stefanich, 1945, p. 12-13). Foi então que a “Revolução de Fevereiro” resolveu tomar para si a memória do lugar, ordenando a finalização das obras do Oratório, terminando a obra em seis meses. Foi então que o governo consagrou o Oratório como Panteão Nacional, templo da Pátria onde se encontram “o Paraguai do passado e do presente, como uma reafirmação dos nossos destinos e de nossa soberania a fim de prosseguir a difícil obra de nossa evolução e de nosso progresso”(Stefanich, 1945, p. 15). Em um dos muros laterais do prédio está uma placa em bronze onde podemos ver a seguinte inscrição
1862-1936
Construcción iniciada por el gobierno del Mariscal Francisco Solano López, bajo la dirección del Ing. Alejandro Ravizza, em 1862. Terminada por el Primer gobierno de la Revolución de Febrero, presidido por el Coronel Rafael Franco, bajo la dirección del Ing. Bruno Paproski, em 1936(Stefanich, 1945, p. 14).
Em 14 de setembro de 1936, o Panteão foi finalizado e o governo baixou um decreto que regulava seu funcionamento e ordenava quem poderia ser homenageado. Os chamados “Próceres beneméritos de lapatria” que “contribuíram com seus sacrifícios e seus esforços para a conquista da liberdade política da nação e para dar a fisionomia destacada no cenário internacional” seriam homenageados e escolhidos, de acordo com o seu significado histórico para o Paraguai(Stefanich, 1945, p. 16).Para tanto, o decreto fora baixado. Em seu primeiro artigo dá o nome de “Panteão Nacional” ao monumento e determina que ele se destina a conservar os restos dos Próceres beneméritos de la Nación, que seriam escolhidos de acordo com suas virtudes excepcionais ao serviço da pátria. No segundo artigo, declara que são Próceres beneméritos de la Nación o doutor Gaspar Rodriguez de Francia, don Carlos Antônio López e o Mariscal Francisco Solano López. Nos três próximos artigos determina a colocação dos restos mortais no Panteão: os de Solano López no recinto central do Panteão; os de três chefes militares que atuaram na guerra da Tríplice Aliança e tiveram ação excelente na defesa do território; e, por último, os restos de um soldado paraguaio morto em defesa da soberania e da integridade nacional na guerra do Chaco(1932-1935). Por último determinou a colocação de um altar com a imagem de Cristo, justificando ser em homenagem ao sentimento religioso do povo paraguaio, e de bandeiras nacionais que pertenceram ao exército paraguaio durante a Guerra da Tríplice Aliança e Guerra do Chaco, que deveriam ser depositadas no Panteão[13].
O último artigo do decreto pode ser considerado o mais simbólico de todos; ele marca a inauguração para 12 de outubro, “dia da raça e aniversário do descobrimento da América”, com toda pompa e solenidade necessárias para a ocasião (Brezzo, 2009, p.17-18). Podemos perceber então que a memória relativa à guerra está mais do que presente no imaginário paraguaio e a construção dos heróis serviu de forma efetiva para a construção do nacionalismo e na disputa pela memória relativa à guerra.
Considerações finais
A reabilitação de Solano López para a história paraguaia representou a reconstrução da mesma a partir da idealização de toda uma mitologia de heróis e símbolos que não eram referência para a sociedade e que, a partir de 1936, se tornaram a base dos governos autoritários que se seguiram. Nas ruas da capital Assunção são diversas as referências a Solano López, seja nome de rua ou praça, seja a enorme estátua equestre posicionada em frente ao Rio da Prata, entre os prédios governamentais e uma gigantesca comunidade. Esse feito faz parte do grande conjunto de “rememorações” e “esquecimentos” do chamado revisionismo paraguaio. Junta-se aos intelectuais a figura de Enrique Solano López, filho de Solano López, interessado em sua reabilitação devido a questões financeiras. A “ideologia lopizta” não somente defendeu e reconstruiu Solano López, mas também ganharam relevância José Gaspar Rodriguez de Francia (presidente paraguaio entre 1814 e 1840) e Carlos Antônio López, pai de Solano e presidente de 1842 até 1862, quando da sua morte. Eles figuram como “fundadores da pátria paraguaia”.
O revisionismo paraguaio ganhou força na primeira metade do século XX, com o fortalecimento do Partido Colorado e a ascensão ao poder de pessoas ligados ao movimento nacionalista como Rafael Franco Ojeda (1896-1973) e o escritor Juan Natalício González (1897-1966), com seus mandatos entre, respectivamente, 1936-1937 e 1948-1949. Com a chegada ao poder de Alfredo Stroessner, o revisionismo histórico paraguaio ultrapassou as fronteiras do país, disseminando a corrente historiográfica mais conhecida acerca da Guerra da Tríplice Aliança, que enfatiza a participação inglesa no conflito devido à autonomia paraguaia na região.
A partir de 1960, o revisionismo chega aos países envolvidos no conflito, agregando a ideia de defesa dos interesses nacionais diante do imperialismo, ficando clara a oposição entre o Paraguai – considerado autônomo – e o Brasil e a Argentina, influenciados pela Inglaterra, e Solano López como um grande líder anti-imperialista.Essa tese se difundiu e atualmente, mesmo com novas pesquisas mostrando o contrário, ela ainda é muito utilizada para explicar as motivações do conflito e as suas consequências devastadoras para o Paraguai. Próximo ao Sesquicentenário do final do conflito, a figura de Solano López está mais viva do nunca, o que mostra a importância dessa construção e a efetividade da mesma para o imaginário e a memória paraguaia.
Referências
AFONSO, B.R. 2017. Representações da História da Guerra de la Triple Alianzano regime de Stroessner.Revista Latino-Americana de História,6(18):90-11
AMARAL, R. 2006. El Novecentismo Paraguayo: Hombres e ideas de una generación fundamental del Paraguay.Asunción,Servilibro, 563 p.
ARCE, E.Q. 1974.Documentos para una historia de la guerra del Chaco: seleccionados del archivo de Daniel Salamanca. Editorial Dom Bosco,vol. 2, p. 23-71
BACHELARD, G. 1982.La terreet les rêveries du repos. 12e réimpression. Paris, Librairie José Corti, 284 p.
BREZZO, L.M. 2009. El Paraguay en cinco momentos historiográficos: retos y perspectivas.In:J. CASAL; T. WHIGHAM (org.),Paraguay: El nacionalismo y la Guerra – Actas de las primeras jornadas de Historia del Paraguay en la Universidad de Montevideo. Asunción,Servilibro, 179 p., p. 61-78.
CARVALHO, E.L. de. 1958. A paz do Chaco: como foi efetuada no campo de batalha. Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército, 500 p.
CATROGA, F. 2010. O culto dos mortos como una poética da ausência. Artcultura, Uberlândia, 12:163-82.
CONTAMINE, P.1997. Mourir pour la patrie, Xe-XXe siècle. Les lieux de mémoire.La Nation, dir. Pierre Nora, Paris, (2):1695-1696.
DORATIOTO, F. 2000. A política platina do barão do Rio Branco.Revista Brasileira de Política Internacional,43(2):130-149.
DORATIOTO, F. 2007.Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo, Cia. das Letras, 656 p.
DORATIOTO, F.2012. Relações Brasil-Paraguai: afastamentos, tensões e reaproximação (1889-1954). Brasília, FUNAG, 552 p.
FABRE, D. 1998. L’Attelier des héros. In:P. CENTLIVRES; D. FABRE; F. ZONABEND (dir.),La fabrique des héros. Paris,Maison des sciences de l’homme,XI-319-[24] p.
GIRARDET, R.1987.Mitos e mitologias políticas. São Paulo,Cia das Letras, 205 p.
GOIRIS, F.A. 1996. Transição político-democrática no Paraguai:A trajetória oposicionista do Partido Liberal Radical Autêntico – PLRA (1989-1993). Porto Alegre, RS. Dissertação de Mestrado, UFRGS, 247 p.
KOSELLECK, R. 1992.Uma história dos conceitos: problemas teóricos e práticos. Estudos Históricos, .(10):134-146.
MORAES, C. 2000.Paraguai: a consolidação da ditadura Stroessner (1954-1963). Porto Alegre, EDIPUCRS,115 p.
MORIN, E. 1988.O homem e a morte.Lisboa,Publicações Europa/América, 327 p.
QUEREJAZU, R.C. 1998.Historia de la guerra del Chaco. La Paz, Librería Editorial Juventud, 100 p.
SILVEIRA, H.G. da. 2009. A visão militar brasileira da Guerra do Chaco: projeção geopolítica e rivalidade internacional na América do Sul.Antíteses, .(4):649-65.
SOLER, L. 2007. Claves históricas delrégimen político en Paraguay: López yStroessner. Diálogos - Revista do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduaçãoem História,11(1/2):19-54.
STEFANICH, J. 1945.La restauración histórica del Paraguay. Buenos Aires, Editorial El Nuevo Mundo, 80 p.
TELESCA, I. 2015.La guerra en la escuela: Textos de lectura y celebraciones escolares en el Paraguay de fines del XIX e inicios del XX.Folia Histórica del Nordeste, Resistencia,Chaco,Rca. Argentina, 131-150.
WELLER, W.2010. A atualidade do conceito de gerações de Karl Mannheim. Sociedade e Estado, 25:205-224.
Notas