Dossie
Fontes literárias, o “Nunca Más” e a escrita da História ditatorial Paraguaia de Alfredo Stroessner (1954-1989)
Tales by Guido Rodríguez Alcalá: senses and representations of the military dictatorship of Paraguay (1954-1989)
Fontes literárias, o “Nunca Más” e a escrita da História ditatorial Paraguaia de Alfredo Stroessner (1954-1989)
História Unisinos, vol. 23, núm. 3, pp. 367-376, 2019
Universidade do Vale do Rio dos Sinos

Recepción: 30 Junio 2019
Aprobación: 15 Agosto 2019
Resumo: Resumo:Esse artigo traz considerações sobre uma pesquisa desenvolvida sobre o contexto ditatorial de Alfredo Stroessner no Paraguai (1954-1989), com base na análise de fontes literárias e documentais do jornalista Guido Pedro Rodríguez Alcalá.As fontes foram reunidas e organizadas entre os anos 2008 e 2014 e fazem parte do acervo do Laboratório de Estudos de Gênero e História (LEGH), da Universidade Federal de Santa Catarina, cujo objetivo é ampliar os estudos historiográficos sobre as ditaduras militares do Cone Sul, envolvendo diversos países (Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Bolívia e Paraguai). Os temas têm propiciado novos olhares, especialmente a respeito de feminismos, de resistências, de relações de gênero e sobre estudos comparativos/ou não entre os diversos países do Cone Sul. Com base nas fontes, a pesquisa em questão explora as relações entre as fontes literárias (contos) e as do Nunca Más no contexto paraguaio, buscando entender de que forma essas narrativasgeram sentidos e representações sobre os estudos paraguaios, para além do tema da Guerra do Paraguai ou mesmo de seu período colonial. Além disso, ao fazer a análise da literatura produzida no período,junto comum conjunto documental e teórico, os contos podem ser vistos como fontes testemunhais e, do mesmo modo, como uma memória a ser problematizada.
Palavras-chave: Palavras-chave:fontes, literatura paraguaia, memória, ditadura militar paraguaia.
Abstract: Abstract: This article discusses a research project on Alfredo Stroessner’s dictatorial context in Paraguay (1954-1989), based on the analysis of literary and documentary sources by journalist Guido Pedro Rodríguez Alcalá. The sources were gathered and organized from 2008 to 2014 and are part of the collection of the Laboratory of Gender and History Studies (LEGH), of the Federal University of Santa Catarina, whose objective is to expand the historiographical studies on the military dictatorships of the Southern Cone, involving several countries (Brazil, Argentina, Uruguay, Chile, Bolivia and Paraguay). Themes have provided new insights, especially regarding feminism, resistance, gender relations, and comparative / non-comparative studies among the various Southern Cone countries. Based on the sources, the research in question explores the relationships between literary (tales) and “NuncaMás” sources in the Paraguayan context, seeking to understand how these narratives generate meanings and representations about Paraguayan studies, beyond the theme of the Paraguayan War or even its colonial period. Besides that, when analyzing the literature produced in the period, together with a documental and theoretical set, the tales can be seen as testimonial sources and, likewise, as a memory to be problematized.
Keywords: Keywords:sources, Paraguayan literature, memory, Paraguayan military dictatorship.
O intuito de compreender a ditadura militar paraguaia, assim como as demais ocorridas no Cone Sul e temas permeados por esses processos históricos, tem motivado pesquisas ao longo das últimas décadas, com destaque aos projetos iniciados pelo Laboratório de Estudos de Gênero e História (LEGH)[2] da UFSC, sob a coordenação das professoras e historiadoras Joana Maria Pedro, Cristina Scheibe Wolff, RoselaneNeckel e Janine Gonçalvesdesde o ano de 2004. Desde então, com diversos projetos reconhecidos e financiados pela CAPES e pelo CNPq, o grupo de pesquisadoras possibilitou expressivos contatos com outros grupos de pesquisa, favorecendo diálogos mais complexos, o aprofundamento das investigações e múltiplas trocas de conhecimentos e publicações de todos os níveis acadêmicos.
As reflexões a respeito dos diversos temas, como feminismos, resistências e a literatura como fonte, incentivaram novas pesquisas e entre elas aquela em que se concentra este artigo: compreender como os sentidos da literatura produzida pelo jornalista paraguaio Guido Pedro Rodríguez Alcalá colaboram no entendimento sobre as diversas resistências, enfrentamentos, perseguições e manipulações políticas vividas pela população paraguaia no período ditatorial. Desse modo, esse artigo tem uma breve contextualização sobre o modo como as fontes analisadas foram organizadas e reunidas. Em um segundo momento, preocupo-me em trazer discussões sobre a ditadura paraguaia com base em três pontos: os contos como fonte, a relação destescom outros documentos e as perspectivas teóricas que corroboram representações e sentidos sobre a ditadura paraguaia.
1. Redes de informações e as fontes
O pressuposto de pesquisa, a partir dos diálogos ocorridos entre os membros do LEGH, partiu de uma reação também à história mais tradicional do Paraguai, muitas vezes concentrada nos estudos sobre a Guerra da Tríplice Aliança[3]. Nesse sentido, o LEGH visou ampliar a compreensão no que diz respeito ao século XX, que está em processo de elaboração e em vários aspectos sendo debatido pela primeira vez. Nesse contexto, com o propósito de compreender a ditadura militar de Alfredo Stroessner em conjunto com os interesses de suas pesquisas, no ano de 2010, as historiadoras Cristina Scheibe Wolff e Joana Maria Pedro viajaram para o Paraguai em busca de mais fontes que pudessem contribuircom os estudos sobre o Cone Sul.
A partir da coleção de obras trazida pelas professoras, escolhi alguns livros de Guido Alcalá – Cuentos Decentes (1987) e Narradoras Paraguayas(1999). Além desses, encontrei outros trazidos anteriormente, como o Curuzú Cadete: Cuentos de Ayer y de Hoy (1990a). No livro de contos que estabelece relações entre a Guerra da Tríplice Aliança e a ditadura militar de Alfredo Stroessner, sendo este o mais analisado nesse artigo. Foi a partir da análise desses materiais que considerei relevante problematizar a relação entre a escrita de Guido Alcalá – a qual não se restringe à literatura – e a história sobre a ditadura militar paraguaia.
Com essas viagens foram paulatinamente sendo organizadas e reunidas fontes que compartilham memórias e opiniões, desempenhando um papel fundamental na forma como os acontecimentos foram apropriados, narrados e trazidos para a historiografia (Pedro,Scheibe e Veiga,2008, p.28). A percepção desses elos é crucial quando se trata dos caminhos da memória, de uma história nacional ou mesmo do ato de narrar em si mesmo; contar algo implica se expore se posicionar e, também, trata-se de interpretar os acontecimentos conforme uma agenda própria, nem sempre de forma intencional. Diante disso, a escrita da história suscita muitas vozes e, ao mesmo tempo, demanda um processo de seleção por parte do historiador, considerando os trilhos que cada pesquisa explora.
Nessas incursões, portanto, o nome de Guido Alcalá passou a ser conhecido. É importante observar que as publicações de Guido Alcalá têm destaque não apenas no Paraguai. Há uma tese escrita com base em sua obra – Guido Rodríguez Alcalá enel contexto de la narrativa histórica paraguaya (Langa Pizarro, 2001); além de livrossobre a Guerra da Tríplice Aliança, que são objeto de estudos de pesquisadores da Espanha, do Uruguai, da Argentina e dos Estados Unidos[4]. No Paraguai, além de ser uma referência no que diz respeito à independência do país, à formação política e à ditadura militar de Stroessner, o escritor é respeitado também em relação à história geral paraguaia, sobre a qual escreveu e publicou diversos ensaios e compilações. Desse modo, esses livros de Alcalá, acompanhados por um conjunto de entrevistas, panfletos, processos e jornais, oferecem um leque de oportunidades às investigações sobre o país: em tempos de escrita da história, em que a memória é a fonte e o objeto de disputa entre grupos políticos e/ou entre vítimas e opressores, tal coleção ganha relevância ao possibilitar o estudo dos acontecimentos e de suas versões.
2. Contos como fonte, outras publicações e perspectivas teóricas
Para o historiador Michel de Certeau, a escrita da história é uma operação que reúne ao menos três elementos: práticas científicas, o exercício da escrita e um lugar social (Certeau, 2002, p.47). Desse modo, o lugar em que uma fonte é produzida deve ser considerado a fim de compreender de que maneira esse lugar afeta a sua materialidade e o seu sentido, conforme já apontado. Para Michel de Certeau, é impossível analisar um discurso histórico sem compreendê-lo dentro de seu espaço de atuação, de sua instituição, já que o texto produzido tem sua forma delineada pelo espaço onde se produz (Certeau, 2002, p.47-62).
Em uma fonte estão presentes o discurso de autoridade e diversos sentidos, que são compreendidos, portanto, a partir da relação entre uma linguagem e o corpo social que comanda esse discurso. Nesse sentido, a História faz parte da realidade à qual ela se dedica, está envolvida pelos interesses, pelos cheiros dos arquivos e pelos aspectos presentes em seu tema de análise (Certeau, 2002, p.54).
A partir desses apontamentos, considero que a escolha de escrever contos literários a partir dos anos de 1970 de Guido Alcalá demonstra uma opção por um gênero e uma estética daquele período, mas também de resistência nos tempos da ditadura stronista.A compreensão tanto de quem escreve quanto do leitor é organizada a partir das expectativas e do conhecimento que se tem sobre determinados assuntos (Lima, 1986, p.361). Por essa lógica, se Alcalá almejou explorar cenários que envolvessem o período da ditadura militar de Stroessner, ele criou para tanto um enredo, assim como elaborou personagens e selecionou temas comuns ou conhecidos, a fim de que cada leitor pudesse encontrar elementos de justificação e reconhecimento por/de tais escolhas. Mais que isso, escrever ficcionalmente é registrar a memória do que se passou, com o objetivo de não permitir que ocorram situações semelhantes novamente, como também, no caso da literatura de Alcalá, promover a formação e a consolidação de uma escrita literária paraguaia.
Sobre o gênero conto, Carlos Pacheco e LuisLinares afirmam que aquilo que o torna importante é sua brevidade (simples e que desperte interesse), sua intensidade (intrigas desencadeadas no enredo) e sua condensação, aspectos que fazem com que o leitor o leia de uma só vez e se sinta envolvido e surpreendido com o desenrolar da história (Linares e Pacheco, 1993, p.21). Essas são as características gerais de um conto, mas quando analisado em um contexto ditatorial, como o de Alcalá, torna-se também espaço de denúncia e um modo de lidar com o que estava acontecendo. Reitero que os contos de Alcalá passaram a ser escritos ao fim da década de 1970, porém só foram publicados a partir do fim de 1980. O que se pode compreender desse espaço-tempo é que Alcalá, dentro de um projeto literário preocupado em promover a literatura paraguaia, ao mesmo tempo que denunciava a ditadura militar de Stroessner, tinha no conto uma estratégia para a sua escrita e um modo de lutar contra a ditadura.
Não obstante, a literatura de Alcalá nos anos de 1970 seguia a tendência da literatura paraguaia de focalizar acontecimentos traumáticos, como a Guerra da Tríplice Aliança, a Guerra Civil de 1947 ou a Guerra do Chaco, eventos que já inspiravam a escrita de contos desde os anos de 1950, de acordo com José Vicente Peiró Barco (Barco, 2001, p.77-82). Para este, o realismo mágico também estava presente no Paraguai devido à literatura de Josefina Pla, de RúbenBareiroSaguier, de Augusto Roa Bastos e outros, tendo também motivado autobiografias baseadas nas vivências da Guerra do Chaco. Nos anos de 1970, Yoel supremo (2005), de Roa Bastos, seria visto como um dos ápices da literatura (Barco, 2001, p.77-82), porque nesse livro ele teria tornado a literatura paraguaia reconhecida na América Latina, com contos questionando justamente a supremacia de Stroessner.
Um dos últimos livros de contos lançados por Guido Alcalá foi Curuzú Cadete: cuentos de ayer y de hoy (Editora Criterio, 1990), publicado no período após a queda de Stroessner. Já na contracapa existem informações especialmente significativasno que diz respeito ao
[..] assassinato do cadete Benítez e o martírio de JulinaYnsfrán, o levante de Alfonso Loma e a peregrinação das residentes, nos oferecem os contos históricos deste livro, onde aparecem, transfigurados pela ficção, o Pastor Coronel, Policarpo Patiño, Gaspar Rodríguez de Francia e as vítimas da repressão de Stroessner [tradução minha][5].
Mais que simples verossimilhança, o autor tece nesta obra uma série de denúncias, transfiguradas em ficção. Os/as diversos/as personagens apresentados/as seriam representações de políticos e outros sujeitos sociais do contexto de Stroessner. Abaixo, a imagem refere-se à capa:

A ilustração da capa traz a figura de um oficial do exército junto a uma árvore, da qual pende uma forca – símbolo da morte, constituindo uma alusão à prática repressora e à cultura política ditatorial, visto que o livro traz contos do tempo dos López(séculoXIX) e de Stroessner.Um dos contos, “Curuzú Cadete”, homônimo ao livro, trata sobre um cadete do Liceu Militar Acosta Ñu, chamado Alberto AnastasioBenítez, assassinado nos anos de 1960. O mesmo tema aparece em um dos volumes da Série Nunca Más, no qual o escritor narra detalhes desse acontecimento. O conto, por sua vez, traz a história de outros envolvidos e elementos, dentre os quais a organização das palavras e os diálogos entre os personagens (a fim de dar vivacidade à narrativa), aspectos que não podem ser julgados apenas com base na dicotomia realidade versus ficção. Em relação ao episódio de Curuzú Cadete, para Alcalá, no volume da Série Nunca Más,
Em janeiro de 1963, o Governo paraguaio informou sobre a descoberta de uma conspiração para derrubar o Governo e assassinar vários funcionários públicos. A conspiração, de acordo com a informação oficial, tinha suas ramificações no Exército – sendo principal conspirador o capitão de cavalaria Modesto NapoleónOrtigoza – e contava com o apoio do líder colorado no exílio, EpifanioMéndezFleitas, do líder liberal no exílio, Carlos Pastore, e do comunismo internacional. Parte da conspiração foi o assassinato de um cadete [...], supostamente morto por Ortigoza para ocultar o complô [tradução minha][6].
No livro Nunca Más, Guido Alcalá aponta que o governo seria o causador de todo o problema que acabou por desencadear a morte do cabo Benítez. A morte desteacabou se tornando símbolo de luta, e ele até mesmo foi visto como um santo milagreiro popular. Do mesmo modo, o escritor analisa todo o processo jurídico transcorrido no ano seguinte, pois o governo havia plantado tal notícia − a de que uma conspiração pairava nos ares de Assunção − a fim de calar alguns dos componentes do corpo do Exército, dos quais já tinha desconfiança. Ou seja, não houve conspiração de acordo com a leitura do jornalista. O que ocorreu foi uma arbitrariedade de Stroessner, que teria, por meio de subordinados, assassinado o cabo, ao mesmo tempo que culpava os três citados, uma oposição política. A partir dessa ação, Stroessner teria conseguido manter certa “paz” no andamento de suas políticas governamentais, já que, além de ter calado possíveis resistentes, também coagiu outros que poderiam vir a combater seu governo nas décadas seguintes.
Alcalá chama de laoficialidaddisconforme de 1962 para se referir aos oficiais responsabilizados pelo assassinato do cadete Benítez, que teria sido raptado pelos três oficiais supracitados em um ponto de ônibus e morto no quartel mais tarde. Guido Alcalá, no Nunca Más, afirma que despachos e pedidos de investigação foram realizados fora das regularidades. Sobre a conspiração não houve a apresentação de prova alguma, embora Ortigoza tenha sido condenado por issopassado 26 anos preso. No que diz respeito ainda às provas, as únicas foram os depoimentos de soldados, conhecidos dos réus, porém, de acordo com Alcalá, foram resultado da ação da:
Polícia paraguaia, com sua habitual brutalidade, começou a investigar a existência de uma possível conspiração, e para isso os suspeitos foram detidos e interrogados sob tortura. As torturas provocaram “confissões” de crimes, e estas confissões serviram de base a processos judiciais – se é que podem ser chamados assim [tradução minha][7].
Considerando as torturas, é difícil analisar se ao menos havia uma movimentação ou resistência em relação ao governo de Stroessner, visto que a literatura ditatorial do Cone Sul demonstra o quão comum era tal prática, e é a partir dessa ideia que a participação dos oficiais bem como a morte do cadete ficaram sem respostas. Quanto ao porquê dessa atitude e da arbitrariedade nesse caso, especialmente por Ortigoza ter passado 26 anos privado de liberdade sem provas e pelo adolescente inocente morto, Alcalá afirma o seguinte:
A explicação é que – conspiração à parte – o affairOrtigoza foi um acerto de contas com a oficialidade mais ou menos relutante a aceitar o despotismo de Stroessner. Ele tinha uma lista negra de oficiais duvidosos, não cempor cento leais à sua pessoa, e estava decidido a puni-los, independentemente de qualquer investigação. Nesse sentido, pode se dizer que teve sucesso: a perseguição de Ortigoza e os outros acusados foi uma forma de manter submetido o exército por muitos anos [tradução minha][8].
As menções à violência do governo ditatorial são marcantes na escrita de Guido Alcalá, seja no Nunca Más ou no conto “Curuzú Cadete”, a começar pela citação acima. O que entendo é que, a fim de reprimir possíveis resistências dentro do próprio sistema militar, Stroessner forjouo assassinato do cadete para com isso justificar as prisões e os depoimentos nos dias posteriores. No volume da Série Nunca Más, Guido Alcalá reitera o envolvimento de determinados meios midiáticos que frisaram a culpa de Ortigoza, como também de grupos ligados à política. Já no conto, o narrador aponta a existência do apoio dado a Ortigoza, sendo evidenciada no seguinte trecho:
Nem sequer quando falou o padre Arketa na rádio. Te falei!, disse meu marido, eu sabia bem que não era o capitão! Mas nós, na verdade, achávamos o chofer Ovando inocente; todos pensamos isso porque era um homem ignorante e trabalhava para o capitão Ortigoza. Ele continuou com sua má fama, e sua família também com sua má fama dele, e sem emprego, e sem dinheiro, e essas pobres crianças cresceram sozinhas [...]. E agora vejo que meu finado esposo tinha razão: o cadete foi morto na polícia e para se desculpar culparam o capitão Ortigoza! E pensar que a gente ficou tão contente quando pegaram o pobre homem com seu motorista e os outros! Vai saber o que lhes fizeram na polícia! Por isso, agora que se sabe a verdade, o povo começa a perder a fé e muitos não vão mais visitá-lono oratório do curuzú cadete [tradução minha][9].
Percebe-se nesse excerto a certeza de uma senhora sobre a culpabilidade de Ortigoza, ao conversar com seu marido em um ambiente privado logo após o crime. Entretanto, é uma certeza que muda conforme o tempo passa, visto que o narrador aponta as conversas dela com o falecido esposo, nas quais este já afirmava a inocência daqueles que eram ulgados culpados, ou seja, parte da população acreditava na inocência do capitão e de seu motorista no sequestro e morte do cadete Benítez já à época do acontecimento (1962), mesmo com notícias veiculadas e manipuladascontinuamente dizendo o contrário. Na Série Nunca Más, ao mesmo tempo, pontua-se que as práticas arbitrárias cometidas pelo governo de Stroessner foram percebidas décadas depois.
Um dos argumentos para tal afirmação seria o fato de ver pela janela a família do motorista convivendo com a imputação da culpa e, principalmente, em situação financeira precária, já que o responsável pelo “sustento” da casa ficou sem emprego, o que não teria ocorrido se tivessem o apoio do governo de Stroessner ou se Ortigoza tivesse confabulado com este. Sendo assim, o narrador indica a ideia de impunidade e de uma justiça manipulada pelo então presidente. No mais, a noção de tortura também é evidente quando a personagem da viúva menciona “¡vaya a saber quéleshicieronenlapolicía!”, sendo possível pensar em duas possibilidades: a primeira é que a prática da tortura era conhecida ou suspeitada por alguns e a outra é o fato de terem passado mais de 26 anos e, diante da abertura política sentida nos anos de 1980, isso ter permitido o conhecimento de mais peculiaridades sobre ações do governo de Stroessner por parte da população.
No que diz respeito ao conto, Julio Cortázar afirma que este ganha mais sentido quando suas histórias se passam em pequeño ambiente(Cortázar, 2006), pois dessa forma o narrador constrói intrigas e atritos, como em uma esfera em que os personagens − em uma extrema tensão − representam a ideia que levou o escritor a escrever tal conto, uma preparação precedente à escrita do conto propriamente dita. Esse preparo, do interior para o exterior, conforme o exposto por Cortázar (2006), é perceptível em tal conto, visto que o narrador parece estar presente dentro de uma discussão entre um casal em seu ambiente familiar, e os outros cenários vão sendo envolvidos no decorrer da escrita. Mesmo quando outros ambientes surgem no enredo, como o oratório, a prisão, é também do interior para o exterior que a trama se desenvolve.
O que se destaca na análise deste artigo é que, ao escrever seus contos, Alcalá faz uso de vários documentos, construindo uma base criteriosa e histórica para a maioria deles, a partir de documentos encontrados no Arquivo Nacional, relatos de conhecidos e amigos, além de outras pesquisas de escritores, historiadores e jornalistas. Assim, embora o objetivo não seja dizer que há verdade (porque a verdade é sempre questionável), tampouco buscar traços de verossimilhança[10], o que afirmo diante disso é que a literatura de Alcalá produzida durante e sobre a ditadura militar paraguaia de Stroessner também é testemunho dele, de outros, de conhecidos, de (outros) livros. Isso não anula a imaginação, a ficção, os traços, os enredos e os conflitos, pois estão permeados pelo processo criativo próprio da ficção de acontecimentos contemporâneos ao escritor.
Para Jaime Ginzburg, o testemunho diz respeito a uma opinião divergente da maioria e se opõe ao autoritarismo (Ginzburg, 2008). No caso paraguaio seria contra o governo, representado por Stroessner. Ao escrever os contos, analisando o contexto paraguaio e apresentando parte do que foi aquele cotidiano, com suas intrigas e suas resistências a partir de fontes e da narrativa, a escrita de Guido Alcalá gera uma memória sobre aquela conjuntura histórica, a qual se converte em uma fonte possível sobre a história paraguaia, passível de contribuir para a promoção/consolidação da consciência histórica, especialmente significativa em um país de/com pouca tradição historiográfica.
No contexto da América Latina, o retorno da escrita testemunhal foi bastante influenciado pela Revolução Cubana, visto que foi uma das principais revoluções do século XX na América, em especial envolvendo pessoas e grupos mais populares, representantes das minorias e, na maioria das vezes, silenciados. Além disso, logo após a referida sublevação, outros países sofreram golpes militares, motivando a escrita e a retomada do conto como testemunho. Para Ginzburg, isso geralmente envolve a experiência desses grupos, tendo no agente que escreve seu articulador (Ginzburg, 2008).
É importante ressaltar que esse processo se refere ao contexto de 1960 e de 1970, em que houve um incentivo a uma escrita latino-americana, não somente pela necessidade de haver um gênero que lhe fosse próprio, no caso o conto, mas algo representante de seus contextos e dos processos neles ocorridos. Nesse sentido, a escrita torna-se uma forma de contestação da realidade vivida, ao passo que representa uma voz latino-americana, nesse caso, um testemunho. Márcio Seligmann-Silva aponta que existem dois significados da palavra testemunha no latim: testise superstes, sendo a primeira uma referência ao sujeito que presenciou o crime, mas não é a vítima, e a segunda relacionada àquele que é a vítima, mas sobreviveu (Seligmann-Silva, 2003, p. 373-374).
Considerando a importância das histórias oficiais, os mais variados testemunhose tantas outras textualidades são cruciais para essa confrontação com o discurso histórico vigente muitas vezes colocado como história oficial. Literaturas como as de Guido Alcalápodem trazer elementos de processos históricos e demonstram a importância dessas obras que, para além do estético, expõem problemas e memórias. Márcio Seligmann-Silva aponta o seguinte sobre isso:
Os primeiros documentários realizados no imediato pós-guerra, extremamente realistas, geravam esse efeito perverso: as imagens eram “reais demais” para serem verdadeiras, elas criavam a sensação de descrédito nos espectadores. A saída para esse problema foi a passagem para o estético: a busca da vozcorreta [...] a literatura de testemunho de um modo geral – desconstrói a historiografia tradicional (e também os tradicionais gêneros literários) ao incorporar elementos antes reservados à “ficção” (Seligmann-Silva, 2003, p. 46).
É compreensível que as cenas vistas a partir de vídeos sobre os traumas sejam difíceis de aceitar, visto que situações-limite (Cautela, 2001) de forma alguma tendem a ser agradáveis. Entretanto, ao citar a possibilidade de ser ter o testemunho na forma literária, Márcio Seligmann-Silva afirma que a narrativa é insuficiente na linguagem para trazer os fatos inenarráveis(Seligmann-Silva, 2003, p. 57). Dessa forma, aponto que os textos de testemunho, embora tenham sua credibilidade, devem ser analisados junto com outros elementos, tais como o contexto histórico, a fim de contribuir para o conhecimento historiográfico. Como aponta Ginzburg: a escrita de um conto é uma ação que utiliza recursos estéticos para cumprir um papel ético, contestando versões mais oficiais e excludentes (Ginzburg, 2007). É o que faz a partir de seu lugar social Guido Alcalá, a fim de debater a história de seu país, buscar fontes, utilizar recursos da linguagem e, desse modo, intentar reescrever parte da história de seu país, a partir de sua memória, de outros de seu tempo e dos fantasmas de períodos anteriores, com um objetivo maior – o de compreender e de dar sentido(s) ao seu presente.
Ao argumentar sobre o “fim das grandes narrativas” (Gagnebin, 2009, p.49-57), aquelas voltadas a uma história mais institucionalizada e menos direcionadas às perspectivas da virada linguística e cultural dos anos de 1970, Jeanne Marie Gagnebin afirma que narrativas nascidas das ruínas, daquilo que está se perdendo, representam posturas éticas e políticas frente à necessidade de o passado não cair no esquecimento. Para a filósofa, persiste nos dias atuais a exigência de que a memória deve considerar as dificuldades que a cercam, como a possibilidade de serem encontradas experiências comuns, além das dificuldades de narração e de transmissão.
Nesse sentido, Alcalá, considerando as palavras de Gagnebin, não é herdeiro de várias das ocasiões sobre as quais escreve (Gagnebin, 2009, p.49-57), embora tenha as marcas da ditadura militar paraguaia. Porém, se considero a história de Primo Levi sobre o “sonho” mais comum que se tinha nos barracões de campos de concentração no período da Segunda Guerra Mundial, o de que se voltava para a casa após o fim da guerra e cada um narrava o que lhe havia acontecido, com suas impressões e suas experiências, mas que muitos não davam atenção por não perceberem a profundidade dos traumas narrados, é possível afirmar que existem diversos modos de se tratar o/as luto/memórias de uma ditadura, e escrever sobre elas é um deles.
O que evidencio é que a problematização histórica deve ter a preocupação de pensar as diferentes perspectivas de análise de um processo, considerando, por exemplo, a ideia – e o cuidado – como sugere Primo Levi (Gagnebin, 2009, p.49-57). Aquele que não é de forma alguma um herdeiro – o que não é o caso absoluto de Guido Alcalá, por não estar ligado diretamente a muitas histórias narradas – mas tem a palavra: “[...] então, nossa tarefa consistiria, talvez, muito mais em restabelecer o espaço simbólico onde se possa articular [...] aquele que não faz parte do círculo infernal do torturador e do torturado, do assassino e do assassinado” (Gagnebin, 2009, p.56).
Em sentido próximo, Jeanne Gagnebin afirma que a palavra se torna um espaço crucial para o registro de acontecimentos traumáticos. Entretanto, aquele que não é herdeiro direto ou indireto daquilo que narra não deve ser visto como obrigado a rememorar; uma possibilidade é oferecer ou, como diz Levi, articular o espaço que traz à tona os traumas com o presente (Gagnebin, 2009, p.49-57), sem desconsiderar as expectativas de futuro, ao passo que dá lugar à vítima na historiografia. Nessa incumbência, é possível estabelecer uma relação com Walter Benjamim, segundo o qual, as melhores narrativas escritas são aquelas que muito se parecem com a das histórias orais (Benjamim, 1994, p.198), narradas por sujeitos simples que tenham vivido acontecimentos diversos. Porém, o ensaísta alemão aponta que o escritor é a junção daquele que circula viajando por outros lugares, saindo de seu contexto e conhecendo situações diversas, com aquele que permanece e se estabelece em um local, também reconhecendo e analisando seu tempo. Benjamim afirma que o narrador é como o marinheiro que viaja e também é como o lavrador, esperando e observando o tempo, transformando suas peculiaridades em histórias de suas tradições individuais (Gagnebin, 2009, p.199-200). O marinheiro traz suas histórias, narra sobre o espaço vivenciado, sobre suas andanças, e, dessa maneira, quem o ouve torna essas narrativas também suas, isto é, passam a ser coletivas. Desse modo, de acordo com Jair Zandoná, quando um narrador acumula andanças fora e dentro de seu local, podemos chamá-lo de artífice (Zandoná, 2013, p.93). A narrativa, portanto, traz a experiência de um ou outro e permite que seja um modelo de vida(Zandoná, 2013, p.94), o qual afeta o modo como cada um percebe os sujeitos e a si mesmo.
Nesse sentido, retomo a ideia da filósofa Jeanne Gagnebin sobre Primo Levi:
[...] no sonho de Primo Levi, deveria ser a função dos ouvintes, que, em vez disso e para desespero do sonhador, vão embora, não querem saber, não querem permitir que esta história, ofegante e sempre ameaçada por sua própria impossibilidade, os alcance, ameace também sua linguagem ainda tranquila; mas somente assim poderia essa história ser retomada e transmitida em palavras diferentes (Gagnebin, 2009, p.49-57).
A história mais crítica só é impossível se não é vista como algo que abala o presente sem lhe ser necessário; só não tem sentido quando há o excesso de “dever de memória” sem relação com o presente ou não sendo historicizada. Essa ideia é corroborada pelo historiador Jacques Revel, segundo o qual estamos vivendo desde os anos de 1970 um retorno forte da memória. O trabalho de Pierre Nora “Lugares de memória”(Revel, 2010, p.249-264), ao debater durante mais de uma década como escreveria a história da nação francesa, permitiu que Revel questionasse a importância da memória sem o crivo da história que, para ele, não é o suficiente para definir as histórias. Nesse caso, ele afirma que pode haver um excesso de memória, além de disputas para a formação de histórias nacionais e, a fim de dar uma direção a esse conflito, frisa: “[...] em um momento em que se evoca tão voluntariamente – e às vezes justamente – o dever de memória, talvez não seja inútil lembrar que existe também um dever de história” (Revel, 2010, p. 264).
Considerando a efervescência memorialista dos anos 1970, das diferentes fontes e, consequentemente, das posturas diversas que a História deve considerar, amplia-se também a ideia de testemunho. Nesse aspecto é que Jeanne Marie Gagnebin afirma que testemunha:
Não seria somente aquele que viu com os seus próprios olhos, o historde Heródoto, a testemunha direta. Testemunha também seria aquele que não vai embora, que consegue ouvir a narração insuportável do outro e que aceita que suas palavras levem adiante, como num revezamento, a história do outro: não por culpabilidade ou por compaixão, mas porque somente a transmissão simbólica, assumida apesar e por causa do sofrimento indizível, somente esta tomada reflexiva do passado pode nos ajudar a não repeti-lo infinitamente, mas a ousar esboçar uma outra história, a inventar o presente (Gagnebin, 2009, p.57).
Jeanne Marie Gagnebin propõe com essa citação a ampliação do conceito de testemunha; o termo diz respeito não apenas àquele que viu e voltou para contar aos outros, mas é também próprio àqueles que escutam e colaboram com os processos para evitar situações semelhantes no futuro. Portanto, aquele que não vai embora, que faz uso da voz, de seu tempo/espaço para inserir a palavra como um acontecimento a fim de narrar a própria história, a de outros e a de muitos. É nesse sentido que os contos de Alcalá ganham uma dimensão significativa para a escrita da história paraguaia, em que a memória da ditadura passa a ser mais analisada, mais problematizada, não apenas pelas vítimas que estão representadas nas narrativas, mas pelo caráter político que tal memória tem em relação à historiografia do país e à situação atual.
Nesse sentido, as fontes analisadas ou envolvidas no artigo, como depoimentos e testemunhos, estão ligadas ao estado político de países do Cone Sul, e é por tal razão que os contos oferecem detalhes a preencherem algumas lacunas, colaborando com a compreensão de diversas histórias. Para finalizar, trago a continuidade da análise do conto Curuzú Cadete, no qual Guido Alcalá afirma o seguinte:
Significa cruz do cadete, era um oratório onde a alma do cadete assassinado do colégio militar Benítez fazia milagres. Nesse lugar, pendurado em uma árvore, apareceu o corpo do cadete em dezembro de 1962; a autópsia declarou que foi suicídio. Semanas depois, desenterrou-se o corpo, e uma nova inspeção decidiu que o capitão NapoleónOrtigoza e seus cúmplices o haviam assassinado. Ortigoza foi condenado à morte, sua pena foi comutada depois que o padre JosueArketa, que tinha um programa de rádio, anunciou que revelaria o nome do assassino se fuzilassem o réu, que passou para a prisão e ficou encarcerado até converter-se no preso político mais antigo da América. Era inocente, mas Stroessner inventou a história para reprimir os oficiais que resistiam a ele na Cavalaria [tradução minha][11].
Portanto, o título se refere ao local da morte de Benítez, a qual, segundo Guido Alcalá, foi manipulada de acordo com interesses de Stroessner, que responsabilizou um capitão pelo suposto assassinato, utilizando-o como exemplo àqueles que não acatassem suas ordens. O conto apresenta tal acontecimentoda seguinte forma por Alcalá, depois de sua morte e tortura: “O mesmo era um santo o pobrezinho, o melhor da sua turma, e o mataram com 17 anos [tradução minha]”[12]. No conto, a situação é narrada como inacabada, em virtude das dúvidas em torno da morte de Benítez; ainda assim, o tom de desfecho é de esperança, motivada pelo desejo de que a verdade pudesse ser revelada, eventualmente, e o assassino devidamente punido.
A questão principal é perceber as estratégias políticas e ditatoriais do contexto paraguaio, por trás desses eventos. Como visto, Stroessner não foi o único ditador no Paraguai; Alcalá traz nesse livro também histórias do governo de Solano López. Com essa estratégia, o escritor apresenta temas como o autoritarismo e a falta de direitos políticos e sociais recorrentes em ambos os governos, buscando demonstrar a presença de administrações arbitrárias em diferentes momentos da história do país. Vários contos são narrados por Alcalá com tal propósito, seja partindo de sua imaginação, seja recorrendo a outras fontes, como processos e documentos compilados. Um desses contos, intitulado “Fiesta Azul”, ao fazer referência a um ato que teria ocorrido contra Stroessner em Alfonso Loma, localidade tema do texto, “[...] se baseia em um acontecimento real, uma manifestação contra o governo [tradução minha]”[13]. Sobre tal acontecimento, Guido Alcalá afirma ter conhecido o relato de Rafael Saguier e Felino Amarilla (ABCColor), os quais deram sua versão em uma reportagem do ABC Color.
Os opositores reclamaram no motim a reabertura do nosso jornal, fechado no dia 22 de março de 1984, e depois dos primeiros discursos, os policiais se lançaram sobre os manifestantes e organizadores, os irmãos Hermes Rafael e Miguel AbdónSaguir, entre outros, desembocando os incidentes numa feroz batalha campal. Pela primeira vez na história da longa ditadura, um sem-número de uniformizados e torturadores de civis terminaram com contusões diversas. Acostumados a controlar as massas com o medo, naquela ocasião lhes foi impossível controlar a reação dos numerosos presentes [tradução minha][14].
O jornal afirma que o motim ganhou uma dimensão maior que a esperada pelas tropas policiais, marcando esse momento como uma das maiores ofensivas populares à ditadura militar paraguaia. Em vez de cederem à pressão, os presentes teriam enfrentado a polícia, mesmo resultando em agressões e prisões. O ato ainda chamou a atenção de uma delegação de Direitos Humanos que passava pelo Paraguai, o que também colaborou para o início da queda de Stroessner. Friso ainda que o trecho “Acostumados a controlar as massas com o medo, naquela ocasião lhes foi impossível controlar a reação dos numerosos presentes” demonstra o quanto os entrevistados – fontes de Alcalá – enfatizam a força do Partido Liberal, pois, simbolicamente, a cor azul mencionada no título do conto faz referência ao Partido Liberal, de oposição a Stroessner. Tal ideia sugere a postura daquele que narra e tece as intrigas em sua escrita.
Com bases nas análises expostas, a literatura é pensada enquanto um recurso que possibilita (ou permite) que o passado intervenha no presente ao construir enredos sobre os abusos de autoridade verificados em parte do período ditatorial paraguaio, ainda que isso se desenvolva sem desconsiderar o (in)fluxo da memória, em conformidade com os interesses do presente.
Considerações finais
O aumento de discussão sobre fontes, cujo último suporte é a memória, está relacionado aos acontecimentos posteriores à Segunda Guerra Mundial, visto que os diversos depoimentos trouxeram a experiência e a sobrevivência (ou não) de muitos. Ao mesmo tempo, o Cone Sul começava a viver suas ditaduras militares traumáticas – longas – e com diversas vozes silenciadas. Foi apenas a partir dos anos de 1990, com o início da redemocratização, que tivemos oportunidade de buscar e ouvir mais narrativas de testemunhas sobreviventes. Pessoas que foram perseguidas e torturadas deram novos impulsos às perspectivas teóricas, assim como metodológicas, a fim de não banalizar o trauma e dar lugar aos sujeitos oprimidos e resistentes. Nesse tempo, a “virada cultural e linguística” fez com que a História passasse a ser questionada no que concerne à sua narrativa, permitindo aproximações e diálogos maiores com a Literatura. É, portanto, nesse contexto que se desdobram os estudos sobre a memória, um aprofundamento de sua relação com a História e, ainda, novos tipos de fontes descobertas, como as fontes literárias de autoria de Guido Alcalá, que ampliam o olhar sobre os sentidos e a representação das resistências à ditadura militar paraguaia.
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Notas