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Os trabalhadores das fábricas de chocolates e caramelos em 3x4: história do trabalho e fotografia a partir da Delegacia Regional do Trabalho do Rio Grande do Sul, 1933-1943
Workers in the chocolate and caramel factories in 3x4: History of work and photography according to the Regional Labor Office in Rio Grande do Sul, 1933-1943
Os trabalhadores das fábricas de chocolates e caramelos em 3x4: história do trabalho e fotografia a partir da Delegacia Regional do Trabalho do Rio Grande do Sul, 1933-1943
História Unisinos, vol. 24, núm. 1, pp. 109-124, 2020
Universidade do Vale do Rio dos Sinos

Recepção: 29 Maio 2018
Aprovação: 01 Novembro 2018
Resumo: A primeira fábrica de chocolates e caramelos do Brasil foi instalada em Porto Alegre, em 1891, por iniciativa dos imigrantes alemães, e irmãos, Franz e Max Neugebauer e pelo também imigrante alemão Fritz Gerhardt. Assim começava a história dos doces fabricados pela família Neugebauer. As atividades direcionadas à produção se mantêm até a atualidade, embora tenha mudado de proprietários a partir dos anos 1980. Além da fábrica da família Neugebauer, no Rio Grande do Sul surgiram outras indústrias do mesmo seguimento de alimentação, como a Fábrica de Caramelos Ernestides Lopes. Este artigo tem por principal objetivo analisar um grupo de trabalhadores vinculados às fábricas de chocolates e caramelos do estado e que solicitaram carteira profissional, entre os anos de 1933 e 1943. A proposta pretende averiguar um conjunto de dados e as fotografias 3x4 desses trabalhadores presentes em suas fichas de qualificação profissional – documento no qual eram preenchidas as informações necessárias à solicitação da carteira profissional. A pesquisa realizada no acervo da Delegacia Regional do Trabalho, salvaguardado no Núcleo de Documentação Histórica da Universidade Federal de Pelotas, verificou um número significativo de trabalhadores neste tipo de fábrica. Entre eles estavam alguns estrangeiros especializados, mulheres e jovens trabalhadoras.
Palavras-chave: trabalhadores, carteira profissional, Rio Grande do Sul, chocolate.
Abstract: The first Brazilian chocolate and caramel factory was established in Porto Alegre, in 1891, on the initiative of the German immigrants, and also brothers, Franz and Max Neugebauer and also the German immigrant Fritz Gerhardt.This is how the history of the sweets made by the Neugebauer family began. Production-oriented activities have remained to this day, although the factory it has changed owners since the 1980s.Besides the Neugebauer family factory, in Rio Grande do Sul other plantsmanufacturing the same product emerged, such as the Ernestides Lopes Caramel Factory. This article analyzes a group of workers who were connected to the chocolate and caramelfactories in this state and requested a professional card from 1933 to 1943. It intends to investigate a set of data and the 3x4 photographs of these workers present in their professional qualification cards – a document that contained all necessary information to request the professional card.The research,carried out in the collection of the Regional Labor Department, safeguarded in the Center of Historical Documentation of the Federal University of Pelotas, included a significant number of workers in this type of factory. Among them were some specialized foreigners, women and young female workers.
Keywords: workers, professional portfolio, Rio Grande do Sul, chocolate.
Considerações iniciais
No ano de 1913 foi publicada a obra Impressões doBrazil no Seculo Vinte, pela empresa britânica Lloyd’sGreater Britain Publishing Company Ltd. A edição apresentava a natureza, o clima, a história, a população, a literatura, a música, os esportes, entre outros aspectos do Brasil. Uma parte considerável da obra era dedicada aos estados e suas principais cidades, com destaque às indústrias instaladas em seus territórios. A Fábrica de Chocolates Ernesto Neugebauer[2] aparecia nas páginas referentes a Porto Alegre e era assim apresentada:
A firma Ernesto Neugebauer foi fundada em 1891 pelos senhores Neugebauer Irmãos. Tendo falecido um dos sócios, passou a fábrica a pertencer ao Sr. Ernesto Neugebauer, que nestes últimos anos lhe tem dado grande desenvolvimento, girando ela atualmente com o capital de Rs. 400:000$000. Tornando-se já acanhadas as suas dependências, dentro em breve será construído mais um edifício junto à fábrica de hoje, fim para o qual se compraram já os necessários terrenos (Lloyd, 1913, s/p).
Acompanhada de quatro fotografias que destacavam o prédio, os trabalhadores e o maquinário da fábrica, os editores continuavam relatando a sua capacidade produtiva, os equipamentos, os variados tipos de doces, chocolates e balas produzidos. Ainda destacavam que, naquele ano, as linhas de produção contavam com 150 operários.
Passados 20 anos da publicação de Impressões, o número de operários nos anos 1930 mais do que duplicara. A fábrica teria, entre os anos de 1933 e 1943, 444 trabalhadores. Pelo menos esse é o total de Fichas de Qualificação Profissional que foram localizadas no acervo da Delegacia Regional do Trabalho do Rio Grande do Sul salvaguardado no Núcleo de Documentação Histórica da Universidade Federal de Pelotas (Gill e Lopes, 2018, p.275-294)[3]. A ficha era o documento necessário à solicitação da carteira profissional, a qual foi criada a partir do Decreto-Lei 21.175 de 21 de março de 1932, instituído pelo governo provisório de Getúlio Vargas (Brasil, 1932). O novo documento fazia parte das políticas para os trabalhadores que seriam implementadas nos anos 1930 e, na sequência, culminariam na Consolidação das Leis do Trabalho, em 1943 (Gomes, 1988; French, 2001).
As discussões sobre a criação de uma legislação específica para os trabalhadores já estavam presentes no cenário político brasileiro antes da ascensão de Vargas ao poder: “[...] em fins da década de 1920, estava montada uma estrutura institucional para o tratamento das questões do trabalho, da indústria e do comércio, com vinculação direta ao Poder Executivo” (Gomes e Silva, 2013, p.17). A inovação, segundo os autores, estava na forma como Vargas abordou o tema, reconhecendo-o e acusando os governos anteriores de não enfrentá-lo (Gomes e Silva, 2013, p.18).
Os trabalhadores da Fábrica Ernesto Neugebauer, ao lado de outros empregados nas demais indústrias e nos mais diversificados ramos de trabalho do Rio Grande do Sul, entraram com pedidos de carteira profissional a partir de 1933, ano da instalação da Inspetoria Regional do Trabalho, que logo seria renomeada para Delegacia Regional do Trabalho. A proposta deste artigo é analisar um conjunto de trabalhadores que desenvolviam suas atividades nas fábricas de chocolates e de caramelos instaladas no Rio Grande do Sul. Além da Fábrica Ernesto Neugebauer, a primeira desse ramo de alimentação, outras já estavam em funcionamento no estado, nos anos 1930, embora com linhas de produção bastante tímidas, se comparadas com aquelas da Neugebauer. O texto tratará desse conjunto de fábricas e, posteriormente, analisará um conjunto de trabalhadores de dois desses estabelecimentos: a Fábrica Ernesto Neugebauer e a Fábrica de Caramelos Ernestides Lopes, ambas de Porto Alegre.
O artigo pretende averiguar determinadas informações presentes nas fichas dos trabalhadores, entre outros: estabelecimento, profissão, se estrangeiros, sexo, cor, ano de nascimento, município e país de nascimento. Uma parte importante da análise será dedicada às fotografias 3x4 apresentadas pelos solicitantes. A análise do conjunto fotográfico, representado no texto por uma seleção de fotografias, segue a percepção apontada por Ana Maria Mauad, que considera os registros fotográficos como imagem/documento; “considera-se a fotografia como índice, como marca de uma materialidade passada, na qual objetos, pessoas, lugares nos informam sobre determinados aspectos desse passado – condições de vida, moda, infraestrutura urbana ou rural, condições de trabalho etc.” (Mauad, 2008, p.37). A partir dessas considerações, as fotografias são tomadas como um índice que permite compreender aspectos do passado, em especial aqueles sobre o trabalho e os trabalhadores e as trabalhadoras das fábricas de chocolates e caramelos do Rio Grande do Sul.
As fábricas de chocolates e caramelosno Rio Grande do Sul nos anos 1930
O decreto que criou a carteira profissional em 1932 previa em seu artigo 22º que, “[a]pós doze meses de vigência do presente decreto, o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio só tomará conhecimento das queixas e reclamações dos empregados que possuírem carteiras profissionais” (Brasil, 1932). Dessa forma, a partir de 1933 – ano em que iniciou o processo de solicitação das carteiras no Rio Grande do Sul – trabalhadores dos mais variados segmentos solicitaram o documento. Os trabalhadores da Fábrica Ernesto Neugebauer constituíam um dos maiores grupos de solicitantes, ficando em terceiro lugar entre as cinco empresas com mais demandas. São elas: A. J. Renner, de Porto Alegre, com 584 trabalhadores, Frigorífico Armour of Brazil Corporation, de Santana do Livramento (575), Fábrica de Chocolates Ernesto Neugebauer, de Porto Alegre(444), Companhia Brasileira de Fumo de Folha, de Santa Cruz do Sul (439)e, em quinto, Livraria do Globo e Bertaso e Barcellos Cia, de Porto Alegre (327).
A Fábrica Ernesto Neugebauer mantinha um número significativo de trabalhadores pelo menos desde o ano de 1909. Conforme matéria publicada em A Federação, neste ano a fábrica já contava com 150 trabalhadores (A Federação, 1909). Juarez Fonsecaindica que, no ano de 1916, a Intendência de Porto Alegre realizou um recenseamento na região do Quarto Distrito[4], que envolvia o bairro de Navegantes, no qual estava situada a fábrica. Os resultados mostraram a presença de 3 mil operários, e “os recenseadores visitaram as fábricas do distrito. A Fábrica Ernesto Neugebauer, que completava, sem festas, 25 anos, aparecia em terceiro lugar, com 220 operários trabalhando oito horas e meia por dia” (Fonseca, 2009, p.82)[5].
Além dos trabalhadores da Fábrica Ernesto Neugebauer, outros operários, vinculados com fábricas de chocolates e caramelos de Porto Alegre e de outros municípios do interior, também solicitaram carteiras. Na capital, a Fábrica de Caramelos Ernestides Lopes contava com 88 empregados solicitantes. Sobre essa fábrica há poucas informações. No ano de 1922, no jornal A Federação, em uma publicação da Junta Comercial, surge uma informação importante. Trata-se de um requerimento com solicitação de arquivamento de seu contrato social: “Lopes &Canariu, nesta capital, [...] Sócios: Ernestides Lopes e Octavio Canariu. Capital 30.000$, para caramelos, rapaduras, etc” (A Federação, 1922).
Já no Almanack Laemmert: Administrativo, Mercantil e Industrial há referências sobre a fábrica, na parterelativa aos estabelecimentos de Porto Alegre. Na seção de Fábricas de doces, chocolates e balas é informado apenas o nome Ernestides Lopes, localizada na Rua Benjamin Constant, número 445. Não foram localizadas informações sobre o ano da fundação da fábrica; provavelmente, ela ocorreu logo após a solicitação do arquivamento do contrato social em 1922. Não obstante, ela já estava, de acordo com o almanaque, em funcionamento antes de 1924 (Almanack Laemmert, 1924). Também não foi encontrado o ano em que a sociedade com Octavio Canariu foi desfeita, uma vez que a fábrica possui apenas o nome de Ernestides Lopes.
No que se refere ao proprietário, foram encontrados alguns dados no acervo da DRT/RS, pois ele também solicitou carteira profissional. O pedido foi feito no ano de 1941 em Porto Alegre. Ernestides Lopes era filho de Clementino Lopes de Souza e Deolinda da Silva Lopes de Souza, nasceu em 19 de dezembro de 1895, em Porto Alegre, de cor branca. No momento da solicitação, era casado com Julieta Boeira Lopes e tinha 4 filhos: Eunice, Lydia, Marília e Lilia. A profissão registrada era químico prático, atuando na fábrica que levava seu nome, a qual, conforme a ficha, produzia balas e doces. No ano de 1934, A Federação publicou uma notícia sobre uma ação realizada pelo “comércio e elementos de destaque do 4º distrito” que objetivava angariar brinquedos e valores para serem distribuídos para as crianças do bairro na véspera do Natal daquele ano. Entre os contribuintes, além de Ernestides Lopes, estavam também Ernesto Neugebauer e vários outros comerciantes e industriais (A Federação, 1934).
Outras fábricas de Porto Alegre localizadas no acervo da DRT/RS são: Kurt Woltmann (9 trabalhadores), Gentil Quintela (5),Fábrica Priori (9), Giampaoli e Cia. (12), Casa Holandesa (3), Nestor Borges Lima (4), Columbia Cia. (1), Fábrica Romano (7), Fábrica Progresso (1), Jordani e Cia (3) e Walter Kreher (1). No interior do estado foram encontradas as fábricas: Neuhaus e Cia. (13), de Passo Fundo, J. Frederico Schaunn (3), de Lajeado, Bergel e Baumhardt (11) e Hennes&Söhnle e Cia (28), ambas de Santa Cruz do Sul, Writhöelter&Lautert (5), de Estrela, Krebes e Martins (1) e Waisermer e Filhos (1), ambas de Santa Maria, e Arnildo L. Fleck e Cia. (1), de Arroio do Meio.A maioria desses estabelecimentos foi identificada como fábrica de chocolates ou fábrica de caramelos; outras variações eram de balas ou de rapaduras. Apesar da pouca presença de trabalhadores em algumas delas – cinco com apenas um trabalhador –, a identificação na ficha as classificava como fábricas.
Para a maioria dessas fábricas, com exceção para Daquela de Ernesto Neugebauer, dispõe-se de poucas informações, e de outras não foram localizados dados para além daqueles registrados nas fichas dos trabalhadores. Assim, como verificado para a Fábrica Ernestides Lopes, o Almanack Laemmert apresenta pistas sobre o começo de funcionamento de algumas outras. A Kurt Woltmann aparece no almanaque pela primeira vez no ano de 1930, como Fábrica Woltmann & Cia, localizada na Rua Anita Garibaldi 4684 (Almanack Laemmert, 1930). Neste ano, a fábrica está na seção das fábricas de doces, chocolates e balas. Já na edição de 1931, além dessa seção, a empresa também é anunciada na seção de biscoitos e bolachas (Almanack Laemmert, 1931). Tal constatação demonstra que a fábrica possuía uma linha diversificada, que não estava restrita aos chocolates, mas também elaborava outros produtos alimentícios. Em 1935, a fábrica foi veiculada de uma forma diferente, ao contrário das outras edições, nas quais aparecia em uma lista com outras congêneres, como a Ernesto Neugebauer e a Ernestides Lopes; nesta, o anúncio traz apenas a fábrica, com um título em negrito “Chocolates”, acompanhado da seguinte descrição: “Fabrica Woltmann. Chocolates, bombons, biscoitos, confeitaria. Escritório: Rua dos Andradas, 1441 [correio] 828. Porto Alegre” (Almanack Laemmert, 1935).
A Fábrica Romano também está anunciada no ano de 1930 como Francisco Romano e Cia, localizada na Rua Garibaldi, 132(Almanack Laemmert, 1930). No ano de 1935, a Gentil Quintela aparece como fábrica de caramelos, localizada na Rua São Pedro, 949. Também nesta edição consta a Giampaoli Alberton & Cia, na Rua São Manoel, 198 e 219, a Casa Holandesa como A Holandeza, na Rua Garibaldi, 621, e a Fábrica Priori, que foi publicada como Priori& Irmão, na Rua Ramiro Barcelos, 304. Todas as informações constavam na seção Fábricas de caramelos (Almanack Laemmert, 1935). Alexandre Fortes, que pesquisou as empresas do Quarto Distrito, informa que no ano de 1953 a Fábrica Priori possuía 70 funcionários (Fortes, 2004, p.44).
A Nestor Borges Lima apareceu, no ano de 1935, em outra seção do Almanack Laemmert, naquela dedicada às rapaduras. A fábrica estava localizada na Rua Passo da Areia, 926. O que chamou atenção nesta seção é que a Ernestides Lopes também aparece como produtora de rapaduras. Demonstra, assim, uma diversificação da sua linha de produção de alimentos que não estava restrita à produção de caramelos.
Em relação às fábricas do interior do estado, também foram localizadas poucas informações. Sobre a Neuhaus e Cia., de Passo Fundo, ela foi publicada no Almanack Laemmert como Augusto Neuhaus e Filhos na seção de caramelos e balas no ano de 1935 (Almanack Laemmert, 1935)[6].
Já sobre as fábricas Bergel e Baumhardt e Hennes & Soehnle e Cia, ambas de Santa Cruz do Sul, foram localizadas algumas informações na tese de doutorado em História de Andrius Estevam Noronha, na qual consta uma lista de empresas, organizada pelo jornal Gazeta de Santa Cruz e publicada, em razão do centenário da cidade, em 09 de maio de 1947. A Bergel e Baumhardt aparece como Bergel & Baumhardt Ltda., indústria de balas e chocolate em pó, fundada em 1939. Já a Hennes & Soehnlee Cia. está identificada como fábrica de balas, fundada em 1905 (Noronha, 2012, p.362).
Investigar as fábricas de chocolates e caramelos é uma forma de compreender não apenas uma parte da história da industrialização do Rio Grande do Sul, mas, sobretudo, compreender a história dos trabalhadores e trabalhadoras que desenvolviam suas atividades nesses estabelecimentos. A maioria desses trabalhadores são homens e mulheres comuns que desempenhavam funções árduas e repetitivas no processo de transformação das matérias-primas nos doces, os quais, depois de prontos, precisavam ser embrulhados cuidadosamente. As fichas de qualificação profissional são consideradas, dessa forma, um importante meio para traçar um perfil desses trabalhadores, o que será desenvolvido no tópico seguinte a partir dos trabalhadores de duas das fábricas apresentadas acima: Ernesto Neugebauer e Ernestides Lopes.
Os trabalhadores doschocolates e dos caramelosem 3x4
A carteira profissional foi criada com o objetivo de ser um documento para o registro da vida profissional do trabalhador brasileiro. Nela havia – e ainda há – espaço para o empregador anotar informações sobre o empregado. Conforme o artigo 10º, “[a]s anotações sobre a admissão, natureza de trabalho, salário e retirada de portador da carteira, relativamente a cada estabelecimento em que trabalhar, serão feitas pelos empregadores ou seus prepostos autorizados, não podendo ser negadas” (Brasil, 1932).
A carteira, portanto, se tornou parte importante da vida dos trabalhadores brasileiros e um documento necessário para aqueles que procuram um emprego. Dessa forma, é contraditório que alguns dos trabalhadores encontrados nas fichas que constituem o acervo da DRT/RS, em especial daqueles das fábricas de chocolates e caramelos, não necessariamente podem ser considerados como trabalhadores, e sim como patrões. O primeiro caso, já apontado acima, é de Ernestides Lopes, que era o dono da fábrica que levava seu nome e solicitou carteira profissional (Figura 1, fotografia 1).O ano do seu pedido foi 1941, enquanto a maioria dos seus funcionários solicitou em 1936. Neste ano, foram preenchidas 47 fichas da fábrica do total de 88 localizadas no acervo.

Figure 1.1. Ernestides Lopes, 2. João Neugebauer, 3. Alberto Albertiny, 4. Guido Albertini (1939) e 5. Guido Albertini (1940).
DRT/RS-NDH-UFPel.Membros da família Neugebauer também solicitaram suas carteiras. João Neugebauer, filho de Ernesto e Frida Neugebauer, nascido em Porto Alegre em 05 de agosto de 1904, de cor branca, solicitou sua carteira em 1939[7] (Figura 1, fotografia 2). A profissão declarada foi químico, embora também conste que ele tinha somente o ensino secundário. O estabelecimento de trabalho era a Fábrica Ernesto Neugebauer localizada na Avenida Germania, 230. Na ficha ainda consta a informação de que ele era casado e tinha um filho, declarado como seu dependente, assim como a esposa. Os dados antropométricos revelam um homem de 1,80 de altura, com cabelos castanhos, olhos verdes e sem barba e/ou bigode.
No mesmo livro em que consta esta ficha está outra de Alberto Albertiny Filho (Figura 1, fotografia3), casado com Elfride Neugebauer Albertini, primogênita de Ernesto e Frida Neugebauer, nascida em 1896 (Fonseca, 2009, p. 44). Alberto nasceu em Alexandria, no Egito, no dia 24 de setembro de 1887, filho de Alberto Albertiny e Emma Albertiny, de cor branca. Conforme a ficha, sua chegada ao Brasil foi em 15 de novembro de 1911, com 24 anos. Sua profissão era químico e seu grau de instrução era superior. No ano da solicitação, 1939, ele já tinha dois filhos com Elfride, Guido e Wanda, sendo que tanto a esposa como os filhos são registrados como seus dependentes. Ele era um homem de 1,78 de altura, com cabelos e olhos castanhos e sem barba e/ou bigode. Conforme Juarez Fonseca (2009, p. 74), Alberto Albertiny, logo após chegar ao Brasil, foi contratado para trabalhar no laboratório da Diretoria de Higiene do Estado do Rio Grande do Sul. Em seguida, conheceu Ernesto Neugebauer e passou a frequentar sua casa em Porto Alegre. O noivado com Elfride aconteceu em 1914 e o casamento ocorreu em Berna, Suíça, no ano de 1919 (Fonseca, 2009, p. 87).
O outro membro da família que solicitou carteira profissional foi o primeiro filho de Alberto Albertiny Filho e Elfride Neugebauer Albertini, Guido Albertini[8]. A sua solicitação tem uma peculiaridade em relação aos demais trabalhadores: ele fez dois pedidos de carteira. O primeiro em 1939, e o segundo no ano seguinte (Figura 1, fotografias 4 e 5). Em ambas as fichas, estão o local e a data de nascimento: Porto Alegre, 20 de fevereiro de 1921. Os dados antropométricos revelavam um rapaz de 1,78 de altura, de cabelo e olhos castanhos, cor branca e sem bigode ou barba. Também, nas duas fichas, consta que ele era solteiro e possuía o ensino secundário.
Outras informações são diferentes, e três delas indicam a possibilidade do porquê de uma nova carteira profissional. A primeira é a profissão. Na ficha de 1939 consta que ele era auxiliar de comércio, enquanto naquela de 1940 a profissão era químico industrial. A segunda informação divergente era o nome da mãe. Na primeira, no campo filiação materna consta Elly Albertini, ou seja, o apelido dado a ela pelos pais, logo após o nascimento (Fonseca, 2009, p. 44). Já na segunda está o nome correto da mãe. A terceira informação é a sua fotografia 3x4. Na primeira ficha, a fotografia de Guido o apresenta com uma roupa simples e, de acordo com a data da etiqueta – 9 de julho de 1939 –, ele foi fotografado ao lado de outros trabalhadores da fábrica. No mesmo dia, foram fotografados outros 4 trabalhadores, e no intervalo entre os dias 07 e 13 de julho outros 21 trabalhadores. A maioria eram mulheres e serventes. Os 26 trabalhadores foram fotografados no mesmo ambiente, o que fica claro pelo modelo da etiqueta, que é igual em todos eles, e pelo mesmo fundo.
Já naquela que foi afixada na segunda ficha, é possível visualizar outro Guido. Nesta, ele está de casaco, gravata, usa óculos e os cabelos estão mais alinhados, ou seja, uma apresentação mais condizente com o cargo que agora ocupa, de químico industrial. As fotografias, apesar da diferença de pouco mais de cinco meses –, a data desta fotografia é 14 de janeiro de 1940 – revelam um jovem ainda com a mesma idade de 18 anos, mas o tom de seriedade que transparece na nova fotografia parece indicar uma pessoa que ocupava grandes responsabilidades, apesar da pouca idade.
As duas fotografias de Guido possibilitam apontar para a construção de uma identidade retórica, conforme observado por Annateresa Fabris. Para a autora, o retrato fotográfico do século XIX, com seus imperativos técnicos e as poses, faz com que o modelo “deixa-se captar como uma forma entre outras, ao interagir com o cenário que lhe confere uma identidade retórica quando não fictícia, fruto de uma composição plástica e social a um só tempo” (Fabris, 2004, p. 58). As fotografias de Guido foram registradas no século XX, mas, de modo semelhante àquelas do século anterior, há uma construção de uma identidade retórica, ou seja, enquanto a primeira o apresenta mais próximo de um trabalhador da fábrica, fotografado com e em iguais condições a outros trabalhadores, a segunda fotografia o coloca como o patrão: sério, bem vestido, penteado correto, fotografado em estúdio. Qual delas o aproxima mais de sua identidade: o Guido trabalhador? O Guido patrão? Qual é a ficcional e qual a mais “real”? É possível apontar que, apesar da mudança de profissão, ele atuava, como químico, no chão da fábrica – ou, pelo menos, colaborava na supervisão da produção. Assim, se entende a segunda fotografia como mais retórica do que a primeira.
Contribui para essa discussão a profissão declarada por todos eles. Ernestides Lopes, João Neugebauer, Alberto Albertiny e Guido Albertini eram químicos, trabalhavam diretamente com a linha de produção das suas fábricas. No caso específico do chocolate, o seu sabor depende dos processos químicos realizados, da execução correta da temperagem do produto, da mistura dos ingredientes e suas quantidades, entre outros fatores (Lannes e Richter, 2007). Dessa forma, a profissão deles estava intimamente relacionada com a atividade de seus empreendimentos. E, nos casos de João Neugebauer e Guido Albertini, a escolha por seguir essa carreira estava relacionada com a continuação do negócio familiar, que incluía também o genro de Ernesto Neugebauer. Dessa forma, um documento com uma fotografia com um visual apresentável condizia com o herdeiro de uma das mais importantes fábricas do Brasil, o que não correspondia àquele registro como auxiliar de comércio, quando aproveitou a oportunidade com os demais trabalhadores para fazer a sua fotografia e sua solicitação de carteira.
Alberto Albertini e João Neugebauer se tornaram sócios de Ernesto em 1932, quando a empresa passou a se chamar Fábrica Ernesto Neugebauer e Companhia. O patriarca continuaria como diretor (Diário de Notícias, 1968). Dessa forma, em 1939, quando das solicitações das suas carteiras, ambos eram tão patrões quanto Ernesto. É possível que os dois tenham solicitado a carteira como uma forma de aproximar-se de seus mais de 400 empregados. Juarez Fonseca coloca João como uma pessoa muito integrada à fábrica que conhecia “cada funcionário, cada máquina, cada produto. E era mais comunicativo. Chegava às 7 da manhã, saía às 7 da noite” (Fonseca, 2009, p.107). Em outras palavras, João se fazia presente nas linhas de produção e, apesar de não ser um homem comum, visto que era um dos patrões, se apresentava ao trabalho e o desenvolvia de modo semelhante aos demais trabalhadores.
As fichas e as fotografias 3x4, de Ernestides Lopes e também dos membros da família Neugebauer, são meios importantes para compreender a história de suas fábricas, mas as informações sobre os seus trabalhadores possibilitam uma visão mais completa sobre o funcionamento da linha de produção, do chão de fábrica de cada uma delas. As fichas dos trabalhadores são importantes meios para acessar a história desses homens e mulheres comuns, trabalhadores e trabalhadoras que se dedicavam à produção dos doces. Associadas a essa questão, estão as fotografias 3x4, as quais mostram esses trabalhadores que, até então, estavam esquecidos e anônimos na construção dessa história social do trabalho. Ernesto Neugebauer foi um empresário importante, recebeu homenagens, como uma avenida em Porto Alegre, e a marca de seus chocolates, com seu sobrenome, está presente até a atualidade. Os seus trabalhadores, aqueles que ajudaram a transformar sua fábrica em uma das mais importantes do Brasil, pouco são referidos ou lembrados nessa trajetória. Em outras palavras, a proposta segue os dados e as fotografias das fichas concedendo, dessa forma, visibilidade para alguns desses trabalhadores[9].
No acervo, as únicas referências às mulheres da família Neugebauer aparecem. nas fichas analisadas acima, como mães. Nenhuma delas trabalhava na fábrica e suas presenças ocorriam apenas em momentos especiais, como no Primeiro de Maio ou no Natal (Fonseca, 2009, p.113). No entanto, o trabalho masculino – que era exclusivo ao universo dos homens da família – não correspondia ao conjunto dos trabalhadores, já que a maioria das solicitações das carteiras profissionais foi feita por mulheres. Nas informações sobre a Fábrica Ernesto Neugebauer, entre os 444 trabalhadores, 348 eram mulheres, ou seja, 78,3%.A mão de obra feminina já estava presente nos primeiros anos das atividades; o livro Impressões do Brazil no Seculo Vinte destacava que, entre os 150 trabalhadores, a grande maioria era de mulheres (Lloyd, 1913, s/p)[10]. A presença feminina também é notada na fábrica Ernestides Lopes, mas nesta a presença é maciça: dos 88 trabalhadores, 82 são mulheres, o que corresponde a 95,3%.
Glaucia Fraccaro aponta que, no período da greve de 1917, em São Paulo, a presença das mulheres era maior no setor da produção têxtil: “Naquele momento, as mulheres ocupavam quase 34% da força de trabalho, e no setor têxtil, o número de empregadas superava o de homens” (Fraccaro, 2016, p. 39)[11]. No universo dos trabalhadores que solicitaram carteira profissional, entre os anos de 1933 e 1943, e que constam nos dados da DRT/RS até o momento, as mulheres correspondem a 21,74% (9.911) e os homens a 78,26% (35.688).
Os dois dados apresentados – de São Paulo e do total da DRT/RS – demonstram o quão significativa é a participação das mulheres nas fábricas de chocolates e caramelos. A mão de obra feminina sempre esteve presente no mercado de trabalho. Contudo, essa presença nem sempre foi notada pela historiografia dedicada à história do trabalho, por exemplo, às vezes pelo domínio dos homens nas fontes que restaram, às vezes por analisar determinados setores, marcados pela mão de obra masculina. De uma forma geral, a história foi marcada por uma abordagem do masculino, que excluía a mulher de suas análises (Tedeschi, 2012, p. 24). Dessa forma, ao valorizar essas mulheres da indústria dos doces, também se marcam suas ações, de uma forma contundente, na história dos mundos do trabalho.
As mulheres ocupavam profissões variadas. Se Ernestides, Alberto, João e Guido se declararam como químicos, as mulheres eram as grandes responsáveis pela fabricação da maioria dos produtos. Entre as profissões especializadas havia mulheres caramelistas (16), chocolateiras (7), bomboneiras (9), cortadoras de cristal (5), fundidoras de cristal (3) confeiteiras (1), doceiras (7), misturadoras de chocolate (1), batedoras de chocolate (1), enlatadoras de bolo, entre outras profissões (Figura 2).Além destas, havia várias outras profissões desempenhadas pelas mulheres; entre elas, se destacam também aquelas que demandavam certa paciência e delicadeza para serem realizadas. Trata-se das embrulhadeiras (ou embrulhadoras), que eram 107 no total (Figura 3).

Figure 2. Specialist Workers at Ernesto Neugebauer Factory:
DRT/RS-NDH-UFPel.A embrulhadeira era a responsável por embalar a produção, que era muito variada, desde 1913, quando se produzia, conforme Impressões do Brazil no Seculo Vinte, “cerca de 2.000 tipos de dragées, caramelos, pastilhas, bombons finos, chocolate e biscoitos, diversamente coloridos” (Lloyd, 1913, s/p). Entre os homens, nenhum declarou sua profissão como embrulhador. As mulheres, da figura 3, foram registradas em datas variadas, conforme indicam as etiquetas, no ano de 1936. Elas apresentam alguns acessórios como grampos ou laços nos cabelos, e duas estão com correntes (segunda e sétima trabalhadoras). A quinta trabalhadora deixou escapar um leve sorriso ao ser registrada, a sexta possui uma expressão desconfiada ao encarar a câmera, a nona desviou o olhar, enquanto a décima foi fotografada com os olhos fechados.
Já na Ernestides Lopes, do total de 82 mulheres que solicitaram carteira, 67 declaravam sua ocupação como embrulhadeiras (entre as quais, 41 especificaram a profissão com um “de balas”) (Figura 4). As demais, 15 mulheres, declaravam servente como a profissão (Figura 5). As mulheres da figura 5, ao contrário de algumas da figura 3, encaram o fotógrafo e todas estão sérias. Outro detalhe importante é que as últimas três trabalhadoras são irmãs. Já a figura 4, com as embrulhadeiras, apresenta uma característica relevante. Todas foram fotografadas no formato 3x4, conforme exigência do decreto que criou a carteira. Entretanto, ao contrário da última trabalhadora, as demais foram registradas em um mesmo ambiente. As primeiras seis trabalhadoras fizeram sua fotografia no dia 09 de julho de 1940, a sétima e a oitava no dia 5 de setembro de 1933, a nona em 12 de outubro de 1936 e a última no dia 06 de julho de 1940.
O fundo das seis primeiras é semelhante. Nele, é possível notar um pano preto, que esconde a parede e o que estava nela e tenta dar um tom harmônico ao registro. No entanto, o pano não é suficiente, e detalhes que não deveriam aparecer acabam também sendo registrados. Nota-se em todas as fotografias um casaco masculino pendurado, o que está mais evidente na segunda e na quinta fotografia, que permite ver a manga e os botões. Fica nítida a diferença em relação à fotografia da última trabalhadora, feita em estúdio. As demais, provavelmente, não foram realizadas em estúdio, como sugere o pano improvisado.
Uma possibilidade é a realização dos registros nas próprias fábricas, o que estava previsto no próprio decreto no parágrafo segundo do artigo 4º: “Além do próprio interessado, os empregadores, ou os sindicatos oficialmente reconhecidos, poderão promover o andamento do pedido das carteiras”(Brasil, 1932).Isso poderia justificar a produção das fotografias em série, feitas fora do estúdio – talvez na própria fábrica.
Outro detalhe, dessa figura, está nas trabalhadoras sétima e oitava. Nota-se uma semelhança física entre as duas, sobretudo em relação ao corte do cabelo. Já as blusas têm o mesmo modelo e os colares são iguais. Elas não são irmãs: a primeira se chamava Izalina Gonçalves e a segunda Eva Dias, ambas solteiras e com pais diferentes. Uma possibilidade é o empréstimo do colar de uma para a outra, e uma segunda hipótese é que ambas tinham a mesma joia. Já a nona trabalhadora, assim como a embrulhadora da figura 3, também foi fotografada com os olhos fechados.

Figure 3. Wrapping Workers at Ernesto Neugebauer Factory:
DRT/RS-NDH-UFPel.

Figure 4. Wrapping Workers at Ernestides Lopes Factory:
DRT/RS-NDH-UFPel.

Figure 5. Servant Workers at Ernestides Lopes Factory:
DRT/RS-NDH-UFPel.Os detalhes em relação a essas trabalhadoras só podem ser apresentados devido à presença de suas fotografias nas fichas. Em outras palavras, elas permitem compreender outros detalhes dessas trabalhadoras, como alguns dos registros fotográficos realizados fora do estúdio e a presença de objetos semelhantes e iguais usados por elas ao se deixarem fotografar. No conjunto das fotografias que estão nas figuras do artigo, e em especial nestas da figura 4, torna-se nítido o que foi apontado por Ana Mauad quando ela afirma que as imagens são como índices, já que permitem verificar aspectos do passado.
Uma característica já notada no desenvolvimento do texto é a diferença entre as duas empresas, ou seja, a fábrica de caramelos de Ernestides Lopes era pouco diversificada em sua produção e menor no número de funcionários, se comparada com a fábrica de Ernesto Neugebauer. Contudo, a presença das mulheres evidencia ainda mais tal discrepância. Enquanto aquelas da Ernesto Neugebauer possuíam uma maior diversidade de profissões, as da ErnestidesLopes têm apenas duas profissões declaradas. Tal constatação aponta para uma mão de obra mais qualificada na primeira fábrica, com a presença de chocolateiras, bomboneiras, confeiteiras, doceiras, entre outras profissões declaradas. Na segunda, a mão de obra se concentrava em atividades menos qualificadas,apenas em embrulhadeiras e serventes.

Figure 6. Underage WorkersWrapping Sweets at Ernestides Lopes Factory:
DRT/RS-NDH-UFPel.Outro aspecto importante referente a essas mulheres é a idade jovem das trabalhadoras. Entre aquelas que estão vinculadas à Fábrica Ernestides Lopes, os anos de nascimento se delimitam entre 1910 e 1925. A trabalhadora nascida em 1910 solicitou sua carteira em 1933, quando tinha 23 anos. Já a trabalhadora de 1925 a pediu em 1940, com a idade de 15 anos. A mão de obra jovem era muito presente na fábrica: com 14 anos: 22 trabalhadoras, com 15 havia outras 21 e, fechando o quadro, com 16 anos, 8 trabalhadoras, totalizando 51 adolescentes. A figura 6 apresenta 10 trabalhadoras, todas embrulhadeiras de balas, com 14 anos. As quatro primeiras foram fotografadas quando ainda tinham 13 anos, mas a carteira foi solicitada no ano em que elas completariam 14 anos.
A situação não é muito diferente no caso da Fábrica Ernesto Neugebauer em relação à juventude de muitas das 348 trabalhadoras. No entanto, nesta verificou-se a presença de mulheres com mais idade. A trabalhadora mais velha nasceu em 1883 e solicitou sua carteira em 1933, com 50 anos. Ainda havia outras 13 mulheres nascidas no século XIX. Já a mais nova nasceu em1927 e solicitou a carteira no ano de 1941 com 14 anos. Da mesma forma, como se viu no caso da Ernestides Lopes, a pesquisa com as idades das mais jovens trabalhadoras apontou 129 adolescentes, entre 14 e 16 anos, as quais estavam assim distribuídas: 14 anos (38), 15 anos (43) e 16 anos (48) (Figura 7).
A presença dessas meninas nas duas fábricas não era uma situação incomum, ou seja, menores estavam presentes nesse período na indústria e no comércio do Rio Grande do Sul, conforme apontam os dados da DRT/RS. O artigo 1º do decreto que criou a carteira assegurava: “Fica instituída, no território nacional, a carteira profissional para as pessoas maiores de 16 anos de idade, sem distinção de sexo, que exerçam emprego ou prestem serviços remunerados no comércio ou na indústria” (Brasil, 1932)[12].
Entretanto, apesar de apontar somente para os maiores de 16 anos, em seu artigo 5º, constava: “As informações do declarante, ou, caso de menores, dos seus pais ou tutores, deverão ser apoiados por documentos idôneos ou confirmadas por duas testemunhas as quais assinarão com o interessado.” Um outro decreto, publicado cinco dias depois, estabelecia “as condições do trabalho dos menores na indústria” (Brasil, 1932). A legislação anterior, o Código de Menores de 1927, estabelecia a idade mínima de 12 anos (Bercito, 2011, p. 400). Já o decreto de 1932 estipulou 14 anos como idade mínima para admissão e os empregadores teriam um prazo de 12 meses para regularizar a situação dos menores; ou seja, a partir de 1933, os menores de 14 anos deveriam ser desvinculados dos estabelecimentos.

Figure 7. Underage WorkersatErnesto NeugebauerFactory: (14 years):
DRT/RS-NDH-UFPel.O documento deixava claro que os estabelecimentos industriais não poderiam contratar menores de 14 anos e aqueles entre 14 e 18 anos deveriam apresentar a certidão de nascimento, a autorização dos pais, responsáveis ou autoridade judicial, o atestado médico de capacidade física e mental e vacinação e prova de saber ler, escrever e contar.
As quatro trabalhadoras da Ernestides Lopes, da figura 4, estavam trabalhando de forma irregular, uma vez que suas solicitações de carteira foram feitas em 1936, quando o prazo para regularizar a situação dos menores já havia encerrado. Não é possível saber quantas meninas, tanto da Ernestides Lopes como da Ernesto Neugebauer, apresentaram os documentos conforme exigia o decreto; contudo, havia uma legislação que as autorizava a trabalhar nas fábricas somente a partir dos 14 anos[13]. Tal liberação parece ter sido muito útil aos dois empresários, uma vez que o número de trabalhadoras é muito significativo e, nesse grupo, a presença das juvenis é muito marcante nas solicitações. Cássia Carloto, ao analisar relações de gênero e a organização do mercado de trabalho, aponta como as mulheres eram vistas: “As condições ótimas de produtividade são socialmente recriadas através da hierarquia de gêneros, que faz das mulheres trabalhadoras ‘dóceis’, ‘baratas’, ‘disciplinadas’”(Carloto, 2002, p.05).
Essas considerações em relação às mulheres trabalhadoras já estavam presentes desde o século XIX, momento da entrada da mão obra feminina em vários setores de atividades. Conforme Ana Maria Colling, a partir deste período, as mulheres
são apresentadas como morais, frágeis, dóceis, emotivas, amantes da paz, da estabilidade e da comodidade do lar, incapazes de tomar decisão, desprovidas da capacidade de abstração, intuitivas, crédulas, sensíveis, ternas e pudicas. Necessitam por natureza serem submissas, dirigidas e controladas por um homem (Colling, 2004, p.35).
Tal perspectiva somente começaria a ser modificada, ainda segundo a autora, com a participação das mulheres na atividade fabril durante a Primeira Guerra Mundial, e, sobretudo, na Segunda Guerra Mundial (Colling, 2004, p. 41-42). Eric Hobsbawm coloca que os conflitos “produziram uma revolução no emprego de mulheres fora do lar: temporariamente na Primeira Guerra Mundial, permanentemente na Segunda” (Hobsbawm, 1995, p. 51).
Se, em um contexto internacional, as mulheres ainda constituíam uma força de trabalho em formação, no cenário brasileiro a situação era semelhante. Exemplificam essa situação os dados acima apresentados sobre a participação das mulheres nas solicitações de carteira profissional no Rio Grande do Sul, representando pouco mais de 21%. Contudo, o que ficou claro, em relação às fábricas de chocolates e caramelos, é que foi também com elas que as mulheres deixaram seus lares e se tornaram trabalhadoras, formando a maioria da mão de obra desse tipo de indústria.
Ainda sobre as mulheres nas fábricas de doces, é possível apontar que o fato delas serem ou não dóceis não era o mais importante para os seus patrões. O mais importante era que elas fossem cuidadosas e pacientes, já que a tarefa das embrulhadeiras, sobretudo, dependia dessas condições para uma execução que não comprometesse os produtos. Em outras palavras, ter mãos leves e pequenas parece ser um requisito importante para a contratação das trabalhadoras que seriam responsáveis por embrulhar os doces, o que pode justificar a pouca idade da maioria delas.
Retomando a diferença entre as duas empresas, ela é verificada também na profissão dos homens. Entre os trabalhadores da Ernestides Lopes, além dele, que era químico, como já visto, os demais eram 3 auxiliares de comércio, 1 caramelista e 1 servente. Já os homens que trabalhavam na Ernesto Neugebauer desempenhavam tarefas variadas. Assim como as mulheres, havia confeiteiros (9), caramelistas (8), chocolateiros (6), bomboneiros (5), moedores de cacau (1), prensadores de cacau (1), amassadores (1), padeiros (1), entre tantas outras ocupações(Figura 8).Ainda havia aqueles que estavam encarregados do maquinário: mecânicos, ajudante de mecânico, ajudante de maquinista, torneiro mecânico, foguista, ajudante de foguista, marceneiro, ajudante de marceneiro. Homens e mulheres eram encaixotadores, auxiliares de comércio, serventes, auxiliares de escritório, caixeiros, entre outras profissões.
A maioria das fotografias averiguadas no artigo é constituída por trabalhadores cujas fichas, no campo cor, foram preenchidas como cor branca. Essa questão não é aleatória, ao contrário, demonstra a presença significativa de trabalhadores brancos em ambas as fábricas. Na Ernestides Lopes, entre os 88 solicitantes, apenas duas fichas registraram cores não brancas de trabalhadoras. Uma delas, embrulhadeira, foi registrada com a informação de cor mista (figura 4, fotografia 7), enquanto a outra, servente, teve sua cor anotada como parda (figura 5, fotografia 9). Como apontado acima, as três últimas trabalhadoras da figura 5 eram irmãs, mas apenas a ficha de uma delas, a trabalhadora da fotografia 9, registrou a cor como parda, e as fichas das outras duas irmãs as registraram como de cor branca. A situação do registro diferente das cores de uma irmã em relação as outras duas aponta para a possível indefinição da cor, o que levou uma a ser registrada como parda e as outras duas como brancas.
A situação não é diferente entre os 444 trabalhadores da Fábrica Ernesto Neugebauer, que contava com apenas dois pardos e dois morenos. A significativa presença de fichas de homens e mulheres com registro da cor como branca estava de acordo com o que foi chamado por Sandra Pesavento de “preferência nítida pelo operário-imigrante” ao se referir à mão de obra das empresas industriais nas primeiras décadas do século XX: “Difundido em todo o país, a mão de obra imigrante era considerada superior, regeneradora, sem a mácula da escravidão e melhor habilitada para o desempenho das tarefas fabris” (Pesavento, 1989, p.71). A participação de imigrantes nas linhas de produção da Fábrica Ernesto Neugebauer também foi significativa. Juarez Fonseca destaca que parte do maquinário veio da Alemanha e, ao entrar o século XX, a maioria dos empregados era formada por “imigrantes ou filhos de imigrantes – tanto pela questão do idioma como porque, muitas vezes, tem alguma informação ou habilidade trazida de casa” (Fonseca, 2009, p. 49).
Os 88 trabalhadores da Ernestides Lopes eram todos brasileiros, e, entre os 444 solicitantes de carteira da Ernesto Neugebauer, 76 eram estrangeiros. Entre eles, estavam 42 alemães, 14 poloneses, 5 italianos, 5 russos, 3 portugueses, 2 austríacos, 2 estonianos, 1 romeno, 1 argentino e 1 egípcio (este era Alberto Albertiny, genro de Ernesto Neugebauer, conforme averiguado acima)[14]. Ao contrário do que Juarez Fonseca aponta para o começo do século XX, os imigrantes já não constituíam a maioria dos trabalhadores da fábrica entre os anos de 1933 e 1943, mas a sua presença ainda era significativa.
Entre os homens que trabalhavam na Fábrica Ernesto Neugebauer e tinham profissões relacionadas ao trabalho com o chocolate, alguns eram estrangeiros. Um deles, Paulo Julius (Figura 8, fotografia 8), era confeiteiro e nasceu em Hamburgo, Alemanha, em 1869. Conforme consta em sua ficha, ele chegou ao Brasil em 13 de maio de 1896, com 27 anos, quando a fábrica de Ernesto Neugebauer completava seu 5º aniversário. O ano da solicitação da carteira foi 1933, quando ele já tinha 64 anos. Não é possível saber quando ele foi contratado para trabalhar na fábrica, mas em 1901 já possuía vínculo com a empresa e é provável que tenha chegado com essa profissão ao Brasil. Nesse ano, ocorreu uma exposição de produtos do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, e um dos expositores foi a Fábrica Ernesto Neugebauer. Conforme explicava A Federação, uma grande vitrina com amostras de doces, 65 vidros de confeitos e esculturas de açúcar faziam parte da mostra e, nela, “o confeiteiro Paulo Julius expõe, numa vitrine, um castelo feito de açúcar” (A Federação, 1901).

Figure 8. Specialist Workers at Ernesto Neugebauer Factory:
DRT/RS-NDH-UFPel.Como Ernesto Neugebauer incentivava a vinda de profissionais da Europa, sobretudo da Alemanha, e dadaa ausência de escolas especializadas, na formação desse tipo de mão de obra no Brasil, é possível considerar que ele veio para trabalhar na fábrica. Essa constatação vai ao encontro do que é destacado por Juarez Fonseca, ao explicar o motivo da contração de imigrantes alemães: “Os povos germânicos são conhecidos pelo gosto e competência na criação de pequenas joias em açúcar” (Fonseca, 2009, p. 49). Outros alemães também estavam envolvidos na manufatura do chocolate. Ao lado de Paulo Julius, outros dois confeiteiros: Frederico Fluhrer, nascido em Crailsheim, em 07 de março de 1882, chegou ao Brasil em 1905, e sua carteira foi solicitada em 1933 (Figura 8, fotografia 9), e Jorge Geiser, nascido em Bochum, em 17 de junho de 1895, chegou ao Brasil em 1923, e o pedido da carteira também ocorreu em 1933 (Figura 8, fotografia 10). Ainda no grupo dos confeiteiros estavam o argentino e um dos italianos.
Entre os chocolateiros, havia 3 alemães e 1 italiano, com destaque para uma chocolateira, Margarete Kuban. Ela nasceu em 07 de maio de 1910 em Bremen, chegou ao Brasil em 1921 e realizou a solicitação da carteira em 1933 (Figura 2, fotografia 10). Ao contrário dos três trabalhadores alemães apontados acima, todos nascidos no século XIX, e que poderiam ter chegado com suas profissões, ela se tornou chocolateira no Brasil. É possível apontar que os estrangeiros da Fábrica Ernesto Neugebauer, os mais experientes, com o domínio do trabalho com o chocolate e das técnicas da confeitaria, podem ter contribuído na formação dos demais chocolateiros e confeiteiros, como exemplifica a trabalhadora Margarete Kuban, que chegou ainda criança ao país, e os demais 9 chocolateiros e 5 confeiteiros brasileiros.
Em relação aos trabalhadores brasileiros, a maioria, 166, eram porto-alegrenses. Outros nasceram em municípios da região metropolitana: São Leopoldo, Novo Hamburgo, Canoas, Viamão e Gravataí. Entre os municípios do interior, São Jerônimo, Rio Grande, São Sebastião do Caí, Taquara, Montenegro, Cachoeira do Sul, Candelária, Caxias do Sul, Bento Gonçalves, entre outros. O local de nascimento demonstra que Porto Alegre se tornou uma cidade formada por trabalhadores nascidos em diferentes regiões do estado, os quais foram atraídos pelas fábricas instaladas no Quarto Distrito, como a Neugebauer. Na Fábrica Ernestides Lopes, a situação é semelhante: dos 88 trabalhadores, 44 nasceram em Porto Alegre e os demais em municípios do interior.
A partir da divisão do trabalho por profissões, é possível apontar que a produção da Ernestides Lopes era bem menor do que aquela da sua congênere, e parece que estava restrita à produção de caramelos e rapaduras. Enquanto o próprio Ernestides Lopes e o seu caramelista produziam os doces, uma parte das mulheres embalava e a outra limpava os utensílios e a fábrica. Em contrapartida, a Neugebauer tinha uma variedade maior de doces, com trabalhadores com profissões especializadas e diversificadas.
No entanto, essa análise é feita a partir dos dados constantes no acervo, ou seja, é possível que a fábrica de Ernestides Lopes contasse com mais trabalhadores, que poderiam ter solicitado carteira e cuja ficha tenha se perdido, e que ainda serão localizados no acervo, ou solicitaram o documento enquanto não estavam com vínculo nesse estabelecimento. Essa é a situação do operário Orlando Dias Guerreiro, que solicitou sua carteira no ano de 1934, declarou sua profissão como servente e seu local de trabalho como sendo o Cinema Rosário, localizado em Porto Alegre (Figura 9). Orlando, no ano seguinte, já estava trabalhando na fábrica de Ernestides Lopes, possivelmente também como servente. Seu nome foi parar na página 2 do jornal A Federação, do dia 12 de outubro de 1935, em uma matéria que narrava um acidente na fábrica. Intitulada “Queimou-se com caramelo fervendo”, noticiava o seguinte:
Orlando Guerreiro Dias[15]de cor branca, com 18 anos de idade, residente a Rua Benjamin Constant, quando trabalhava hoje pela manhã na Fábrica de caramelos Ernestides Lopes, onde exerce suas atividades, foi vitimado por um acidente, ocasionado por ter virado sobre ele uma vasilha de caramelos fervendo. Para socorrê-lo foi chamada uma ambulância que, comparecendo ao local, transportou-o para o Posto Central da Assistência Pública, onde foi convenientemente medicado. Constataram-se os seguintes ferimentos: queimaduras de 1º e 2º grau na cabeça, no pescoço, na face, na região anterior do tórax e nos membros superiores. Depois de convenientemente pensado, Orlando foi levado para a Santa Casa, onde se acha em estado grave (A Federação, 1935).

Nenhuma outra informação sobre o estado de saúde de Orlando foi encontrada nos números posteriores do jornal. A notícia do acidente com caramelo fervente demonstra que, apesar do trabalho nas fábricas resultar em um produto delicado e que satisfazia o paladar dos seus consumidores, o cotidiano dos trabalhadores estava envolto em uma série de perigos. Quantos outros e outras também não sofreram acidentes de trabalho semelhantes àquele que deixou a pele de Orlando marcada para o resto de sua vida? (Será que ele sobreviveu ao acidente?).
Informações sobre acidentes não constituem a proposta do presente artigo; no entanto, como o objetivo é dar visibilidade aos trabalhadores, a partir dos dados das suas fichas e das fotografias 3x4, retirando-os do anonimato, abordar o acidente acaba se transformando em parte da proposta. Concomitantemente, contribui para o entendimento de que o trabalho com a fabricação de doces não pode ser visto como algo que era fácil e isento de perigos em sua execução, nos anos 1930.
Considerações finais
O acervo da Delegacia Regional do Trabalho do Rio Grande do Sul permite traçar um perfil dos trabalhadores que solicitaram carteira profissional. É possível procurar informações específicas sobre determinados grupos de trabalhadores, agrupando-os por profissão, estabelecimento, sexo, entre outras variáveis possibilitadas pelos campos presentes nas fichas. Dessa forma, foi possível apontar as considerações realizadas no artigo sobre as fábricas de chocolates e caramelos do estado, destacando-se aquelas de Ernesto Neugebauer e Ernestides Lopes por serem as maiores desse setor.
Também foram encontradas informações sobre outros estabelecimentos que se dedicavam ao mesmo ramo de produtos alimentícios e não apenas em Porto Alegre, embora quase nenhuma informação sobre eles tenhaperdurado. E é justamente essa a contribuição do texto, ou seja, apresentar dados sobre uma determinada produção industrial a respeito da qual quase nada foi escrito pela historiografia dedicada aos mundos do trabalho. Com exceção da Fábrica Ernesto Neugebauer, conhecida nacional e internacionalmente, mesmo após ser vendida pela família em 1982 e mudar de proprietários em 1998, 2002 e 2010, as demais praticamente desapareceram sem deixar maiores evidências. Mesmo em relação à Fábrica Ernestides Lopes, que, ao que tudo indica nas fichas, também tinha uma produção relevante e um número significativo de trabalhadoras, as informações são muito poucas.
Se quase nada restou sobre elas, o que sobrou sobre os homens, as mulheres e as meninas que atuaram nas suas linhas de produção? Uma possibilidade para compreender esse universo do chocolate e do caramelo e, ao mesmo tempo, a história dessas trabalhadoras e trabalhadores é a partir dos dados das suas fichas de solicitação de carteira profissional. Com eles, foi verificada a presença significativa de jovens trabalhadoras nas linhas de produção, em ambas as fábricas. Na Fábrica Ernesto Neugebauer foi averiguada uma maior participação de imigrantes e uma diversificação das profissões, sobretudo as especializadas, como os confeiteiros, caramelistas e chocolateiros, e as embrulhadeiras, que realizam um trabalho fundamental com suas mãos delicadas ao manusear e embrulhar os produtos feitos pelos trabalhadores especializados.
Parte importante da história desses trabalhadores está em suas fotografias, as quais permitem verificar detalhes como o fundo, o ano em que foi realizada, as meninas com 14 anos e a forma como se apresentavam com suas roupas, adereços e penteados. Seus registros fotográficos mostram os rostos dos trabalhadores comuns, os quais limpavam as fábricas, operavam as máquinas, manipulavam o caramelo, temperavam o chocolate e embrulhavam os produtos, mas que permanecem anônimos como tantos outros que contribuíram com a indústria do Rio Grande do Sul nos anos 1930/1940, agora parcialmente apresentados a partir de suas fichas.
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BRASIL. 1932. Decreto nº 22.042, 03 nov. Disponível em: http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1930-1939/decreto-22042-3-novembro-1932-499365-publicacaooriginal-1-pe.html Acesso em: 24/10/2017.
DIÁRIO DE NOTÍCIAS. 1968. Neugebauer: Vitória do capital democratizado. Porto Alegre, 29 dez., p. 02.
O jornal DIÁRIO DE NOTÍCIAS pertence ao Acervo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Disponível em: http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/
FICHAS DE QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL. Acervo da Delegacia Regional do Trabalho do Rio Grande do Sul, Núcleo de Documentação Histórica da Universidade Federal de Pelotas.
LLOYD R. 1913. Impressões do Brazil no Seculo Vinte. Londres, Lloyd'sGreaterBritainPublishingCompany, Ltd., 1080 p. Acervo: Arquivo Histórico de Cubatão/SP. Disponível em: http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0300g41c.htmAcesso em: 20/01/2018.
Notas
Autor notes
Rua Alberto Rosa, n°154, Núcleo de Documentação Histórica Professora Beatriz Ana Loner, sala 145. Bairro Centro. 96.010-770 Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil.