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APROPRIAÇÕES, IMPROPRIEDADES EDITORIAIS E PRODUÇÕES CARTOGRÁFICAS RELATIVAS À REPRESENTAÇÃO DO RIO DE LA PLATA EM ATLAS NEERLANDESES DO SÉCULO XVII
APROPRIAÇÕES, IMPROPRIEDADES EDITORIAIS E PRODUÇÕES CARTOGRÁFICAS RELATIVAS À REPRESENTAÇÃO DO RIO DE LA PLATA EM ATLAS NEERLANDESES DO SÉCULO XVII
História Unisinos, vol. 24, núm. 3, pp. 458-472, 2020
Universidade do Vale do Rio dos Sinos

Recepción: 16 Septiembre 2018
Aprobación: 10 Febrero 2019
Resumo: Este artigo propõe analisar alguns aspectos de caráter editorial, comercial e intelectual concernentes à produção e à circulação de duas cartas geográficas do século XVII que representam o Paraguai, também conhecido como Rio de la Plata, quais sejam: 1) Paraguay, ó prov. de Rio de la Plata cum regionibus adiacentibus. Tucuman et S.ta Cruz de la Sierra; e 2) Paraquaria vulgo Paraguay. Cum adjacentibus. A produção cartográfica, o contexto da indústria gráfica editorial neerlandesa, as inconsistências entre os mapas (textos visuais) e os textos corográficos correlatos constituem uma das frentes do debate. Paralelamente, é analisada e criticada a atitude de apropriação pró-jesuítica, por parte da historiografia rio-platense – que se consolidou na esteira da produção intelectual de Guillermo Furlong S. J. na primeira metade do século XX – diante dos referidos mapas. As fontes são, primordialmente, os mapas e os livros, (principalmente os Atlas) em que as referidas cartas geográficas foram reiteradas vezes publicadas. A abordagem teórica dialoga com historiadores filiados à Nova História Cultural – com destaque para Roger Chartier – com historiadores da arte e da cartografia.
Palavras-chave: Rio de la Plata, Cartografia Neerlandesa e Jesuítica, aspectos visuais e editoriais.
Abstract: This article aims to analyze some aspects of the editorial, commercial and intellectual character concerning the production and circulation of two geographical charts in the 17th century, representing Paraguay, also known as Rio de la Plata, which are: 1) Paraguay, ó prov. de Rio de la Plata cum regionibus adiacentibus. Tucuman et S.ta Cruz de la Sierra; e 2) Paraquaria vulgo Paraguay. Cum adjacentibus. The cartographic production, the context of Dutch editorial graphic, the inconsistencies between the maps (visual texts) and the related chorographic texts constitute one of the faces of the debate. In parallel, the appropriation of a pro Jesuit attitude, on the part of some historians of the Rio de la Plata – which was consolidated based on the intellectual production of Guillermo Furlong S. J., in the first half of the 20th century – in presence of these maps, is analysed and criticized. The sources are, at first, maps and books (mainly the Atlas) in which these geographic charts were repeatedly published. The theoretical approach dialogues with historians affiliated on the New Cultural History – with Roger Chartier as the main point – and with Art and Cartography Historians too.
Keywords: Rio de la Plata, Dutch and Jesuit Cartography, visual and editorial aspects.
No presente estudo, propomos elucidar alguns aspectos históricos referentes a registros geográficos, isto é, à elaboração e à editoração de textos corográficos e de mapas publicados por firmas editoriais neerlandesas[2]. Nossas fontes primárias são as obras nas quais foram publicados textos sobre o Rio da Prata, acompanhados dos seguintes mapas: 1) Paraguay, ó prov. de Rio de la Plata cum regionibus adiacentibus. Tucuman et S.ta Cruz de la Sierra (de agora em diante Paraguay, ó prov. [...]) e; 2) Paraquaria vulgo Paraguay. Cum adjacentibus. (de agora em diante Paraquaria [...]). O foco da análise serão os processos de produção, editoração, circulação e apropriação das referidas cartas geográficas.
A pertinência em aprofundar o conhecimento acerca desses mapas justifica-se por constatarmos que, no âmbito das ciências humanas, os mesmos são reiteradamente apresentados como exemplares da cartografia jesuítica no Paraguai colonial. A origem dessa atribuição autoral está na obra do historiador jesuíta Guillermo Furlong que, na primeira metade do século XX, desenvolveu uma intensa atividade de pesquisa e publicação. Nas décadas seguintes, sua vasta obra se tornou o alicerce de uma escola historiográfica que percebia em Furlong uma referência segura. Todavia, uma análise mais pormenorizada indica que, por vezes, Furlong incorre em equívocos, outras vezes aventa hipóteses que, por diversas razões, adquirem status de tese. Além do mais, sua obra está profundamente marcada por uma postura pró-jesuítica, de exaltação de seus antigos confrades, supostamente protagonistas na produção dos mapas em questão. Qual terá sido a participação jesuítica numa e noutra carta geográfica? Quais as fontes (relatos de expedições, descrições geográficas, esboços topográficos etc.) que serviram de base para a elaboração dos mapas? Como e quando vieram à luz? Que outros agentes históricos, do século XVII, tiveram participação na produção desses mapas? Estas são algumas questões que pretendemos discutir no presente trabalho.


Preliminares teóricas e historiográficas
Primeiramente, é importante destacar que, entre 1625 e 1665, os dois mapas foram publicados diversas vezes, mas sempre por autores e editoras holandesas. Esse nos parece um paradoxo fundamental que a historiografia jesuítica e/ou rio-platense não enfrentou. Como e por que os jesuítas a serviço do rei da Espanha produziriam mapas para seus os arquiinimigos holandeses?
Os mapas em questão vieram à tona no Século de Ouro da República Unida dos Países Baixos (1584-1702), período marcado por extraordinário desenvolvimento artístico, cultural e científico, que corria lado a lado e se beneficiava de agressivas práticas e rivalidades mercantilistas, as quais, por sua vez, elevaram a República Unida dos Países Baixos ao status de potência comercial mundial. Em relação a esse tema, a historiadora da arte Svetlana Alpers (1999) evidencia como o desenvolvimento de uma cultura visual e as descobertas de Kepler, no campo da óptica, promoveram uma confluência entre a cartografia e a pintura, veementemente expressa na tela: A arte de pintar, de Johannes Vermeer.
Nesse contexto de avanço e congruência da arte e da ciência, de surgimento de modernas oficinas tipográficas, contando com exímios cartógrafos e gravuristas, a produção de atlas e cartas geográficas alcançou uma escala industrial até então desconhecida. Nesse sentido, Jerry Brotton (2014, p. 293) sugere que: “Os portugueses inventaram o ofício científico da cartografia moderna, mas os holandeses o transformaram em uma indústria”. As diferenças entre uma e outra escola cartográfica se manifestam não apenas na (re)produção de mapas em larga escala, mas também na visão de mundo que expressam/representam. A esse respeito, Brotton observa:
Nos novos mapas holandeses, os territórios mais longínquos não mais desapareciam simplesmente nas margens, nem as bordas do mundo eram lugares míticos temíveis, cheios de gente monstruosa que devia ser evitada sempre que possível. Em vez disso, nos mapas como o de Petrus Plancius das Molucas (1592) as fronteiras e as margens do mundo estavam claramente definidas e identificadas como lugares para a exploração financeira, com suas regiões rotuladas de acordo com mercados e matérias-primas, e seus habitantes eram muitas vezes identificados de acordo com seus interesses comerciais. Cada canto da terra era mapeado e suas possibilidades comerciais avaliadas (Brotton, 2014 p. 293).
Elizabeth Sutton (2015) percebeu que os mapas holandeses serviam como mídia para a difusão da geografia, da fauna e flora, da etnografia e da engenharia militar concernente à República Unida dos Países Baixos e suas colônias ultramarinas. Nesse sentido, a autora aponta para uma profunda conexão entre o desenvolvimento de uma “cultura visual”, relacionada ao registro cartográfico e ao crescente poderio político e mercantil que a República Unida dos Países Baixos constituiu e desfrutou no sistema mundial do século XVII. Até para o reconhecimento (por parte das nações modernas) e a consolidação da unidade do Estado, o registro visual/cartográfico do protagonismo político/econômico dos neerlandeses desempenhou um papel decisivo. Documentos geográficos, como mapas e relatos de viagem, eram fontes de informação, evidências legais que os holandeses e, mais tarde, outros Estados usaram como propaganda política para definirem a si e seu território, na Europa e no exterior (Sutton, 2013, p. 7)[3] .
Na obra Mapping for money, Kees Zandvliet (1998) observa que a riqueza cartográfica originada na Idade de Ouro Neerlandesa é uma versão em papel do poderio comercial que a República Unida dos Países Baixos construiu no século XVII. O valor econômico precípuo dos mapas é sua possibilidade de agilizar viagens por rotas náuticas mais seguras e menos dispendiosas. Reduzir custos e maximizar lucros das empresas ligadas ao comércio marítimo era, por certo, o sentido primordial dessa cartografia.
Os dois mapas, tema do presente artigo, foram produzidos e diversas vezes publicados nesse contexto. Três séculos mais tarde, na década de 1930, foram analisados pelo historiador jesuíta Guillermo Furlong, o qual declarou que os referidos mapas seriam artefatos genuinamente jesuítico-coloniais. Dada a reputação do pesquisador, essa declaração foi acolhida por instituições culturais (Bibliotecas e Arquivos) e por grande parte da historiografia que tematiza a ação missionária jesuítica no Paraguai colonial.
Elaboração, edições e circulação do Paraguay, ó prov. [...]
Antes de discorrermos sobre o processo de produção do Paraguay, ó prov. [...] e sobre o contexto editorial em que foi publicado, consideramos importante demonstrar como a obra Cartografia Jesuítica del Rio de la Plata (1936), do padre jesuíta Guillermo Furlong, impactou na cartografia histórica e na historiografia rio-platense. A argumentação de Furlong parte da premissa de que os jesuítas que atuavam no sul da América do Sul, na virada do século XVI para o XVII, teriam sido os melhores conhecedores da geografia da região; logo, seriam os únicos personagens coloniais – dotados de conhecimentos empíricos e recursos técnicos – capazes de produzir um mapa tão engenhoso. Somente os inacianos, que percorreram os quatro cantos da região platina e produziram relatos geográficos circunstanciados, poderiam ter elaborado esse importante artefato cartográfico. Em suma, o autor argumenta que as informações geográficas, consignadas de forma “científica” nas Cartas Ânuas (Litterae Annuae) dos Padres Juan de Romero (1605) e do Pe. Diego de Torres (1609), sugeririam que esses dois missionários seriam os verdadeiros autores do Paraguay, ó Prov. [...][4].
Pelo peso intelectual do autor, sua obra foi (re)citada inúmeras vezes, e suas proposições, claramente pró-jesuíticas e, por vezes, equivocadas, seguem deixando marcas na produção científico/cultural até os dias atuais. Para elucidar como os pressupostos de Furlong foram assumidos e disseminados como verdades indubitáveis, vale referir alguns exemplos.
Na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, por exemplo, na ficha catalográfica de Paraguay, ó prov. [...] consta que os assuntos relacionados a esse documento são: “Jesuítas - Missões - América do Sul - Mapas - Obras anteriores a 1800”[5]. Provavelmente, o registro catalográfico do mapa realizado pela Biblioteca teve por base a obra de Furlong, pois no mapa não figura qualquer estabelecimento fundado por jesuítas.
Similarmente, o catálogo de uma coletânea cartográfica intitulada “DOCUMENTA CHARTOGRAPHICA de las Indias Occidentales y la Región del Plata”, elaborado pela Pontificia Universidad Católica Argentina, segue a premissa de Furlong ao atribuir a autoria do Paraguay, ó prov. [...] ao padre Diego de Torres que, entre 1608 e 1614, foi o primeiro superior dos jesuítas da província do Paraguai[6].
Também na produção historiográfica referente ao sul da América do Sul, no período colonial, frequentemente, o Paraguay, ó prov. [...] é apresentado como um mapa jesuítico. Só para exemplificar, vale acompanhar o artigo Mapas, esquemas, indicios: Cartografia de la Quebrada de Humahuaca. Para historiar a origem do mapa em análise, o artigo reproduz a argumentação de Furlong afirmando que:
[...] En 1634 Johannes Blaeu publicaba un atlas que incluía la Carta del Paraguay que había elaborado el monje jesuita Diego de Torres en la Carta Anua de 1609” (FAVELUKES, Graciela, et al., 2010, p. 186). (…) El mapa más antiguo del Paraguay, probablemente de 1609, se relaciona con la creación de la Provincia Jesuítica del Paraguay en 1604 (FAVELUKES, Graciela, et al., 2010, p. 187).
Outro trabalho que ilustra o alto conceito da obra de Furlong acerca da cartografia colonial sobre o Rio da Prata é a tese de Newton Rocha Xavier. O autor confirma os argumentos do: “[...] importante historiador Guillermo Furlong SJ (1889-1974)” ao dizer que a descrição do primeiro provincial do Paraguay, Diego de Torres: “[...] foi determinante na configuração da cartografia europeia” (Xavier, 2012, p.53) e que as descrições corográficas e os mapas jesuíticos do início do século XVII deixaram marcas na cartografia holandesa[7]. Em suma, as colocações técnicas e a análise histórica que Xavier propõe dos mapas Paraguay, ó prov. [...] e Paraquaria [...] endossam as proposições de Furlong e, por esse motivo, seu texto tem as marcas e incongruências próprias de uma tradição historiográfica pró-jesuítica.
Com esses exemplos intentamos evidenciar que, desde sua publicação em 1936 até hoje, a obra de Furlong é a referência mais conhecida pela historiografia, em se tratando de cartografia rio-platense colonial. No entanto, em relação aos dois mapas em questão, sua obra representa uma armadilha capaz de induzir os pesquisadores a reproduzir uma série de imprecisões cronológico-autorais, assim como hipóteses pró-jesuíticas. Num trabalho recente (Langer, 2015), ficou demonstrado que a autoria do mapa Paraguay, ó Prov. [...] está diretamente ligada às atividades de Ioannes de Laet[8], que foi geógrafo[9] e um dos diretores da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais (West-Indische Compagnie ou WIC)[10]. Um cotejamento dos topônimos/etnônimos registrados no referido mapa com as crônicas quinhentistas da conquista do Rio da Prata indica que as fontes que serviram de base para o Paraguay, ó Prov. [...] são anteriores à ação jesuítica no Paraguai. Além do mais, a tão propalada Carta Annua, escrita por Diego de Torres em 1609, não contempla os grupos indígenas grafados no mapa. O resultado é que qualquer reivindicação de protagonismo, contribuição ou coadjuvação aos antigos jesuítas, na criação do Paraguay, ó Prov. [...] não resiste a um cruzamento das fontes históricas dos séculos XVI e XVII.
O mapa em questão aparece pela primeira vez na obra de De Laet, intitulada Nieuwe Wereldt ofte Beschrijvinghe van West-Indien, publicada em Leiden, no ano de 1625. No século XVII, o Nieuwe Wereldt ofte Beschrijvinghe [...] foi editado pelo menos quatro vezes: duas em holandês/flamengo (1625 e 1630), uma em latim (1633) e outra em francês (1640). Em todas essas edições – revisadas e ampliadas pelo próprio De Laet,– na abertura de cada livro[11], o autor inseriu um mapa correspondente à região em questão. No início do décimo segundo livro, relativo ao Río de la Plata, figura o Paraguay, ó Prov. [...].
A inserção de um mapa, paralela à descrição geográfica de cada região, tinha uma finalidade muito clara. De acordo com o próprio De Laet, a descrição dos países não pode ser bem compreendida sem cartas geográficas. Por esse motivo, texto descritivo e imagem cartográfica são, no entendimento do autor, componentes distintos, embora indissociáveis para um conhecimento profundo de cada país. Quanto à elaboração dos mapas, De Laet explica que seu trabalho baseou-se “[...] na localização e forma dos países, e também nas melhores e mais puras descrições, pesquisando cartas publicadas por outras [editoras] e tentando melhorá-las em muitas partes [...]”[12].
Vale destacar que outros personagens participaram desse empreendimento. O próprio De Laet anuncia que um dos seus colaboradores esteve diretamente envolvido na elaboração dos mapas, quando declara que “[...] nos ajudou muito o labor e a experiência de Hessel Gerritsz[13] que desenhou e fabricou (montou) as cartas”. Ou seja, em se tratando especificamente dos mapas, é adequado considerá-los uma produção em coautoria de Ioannes de Laet, fundador e um dos diretores da Companhia das Índias Ocidentais (WIC), e de Hessel Gerritsz, cartógrafo oficial da mesma Companhia.
Outro motivo (além do peso intelectual da obra de Furlong) pelo qual os dados relativos à autoria do Paraguay, ó prov. [...] passaram despercebidos para os pesquisadores do Rio da Prata, está diretamente relacionado à diminuta circulação da obra de De Laet, tanto nos países ibéricos como nos ibero-americanos. Marisa Vannini de Gerulewicz, que fez um estudo biográfico e que em 1988 traduziu, pela primeira vez, a Nieuwe Wereldt ofte Beschrijvinghe van West-Indien para o espanhol, a partir da edição francesa de 1640, sugere que o desconhecimento da obra de De Laet tenha, como pano de fundo, motivações ideológicas:
Por la severidad del pensamiento del Autor, que era muy crítico con respecto a la forma de colonización española, esta gran obra nunca fue traducida al castellano. Por el contrario, fue marginada, hasta hoy, en el mundo hispánico y americano. Tampoco se conocen ediciones completas en otros idiomas […].
Si bien el Novus Orbis ocupó en seguida alto rango entre las publicaciones de la época, recibió reconocimientos y elogios, fue citado frecuentemente por los contemporáneos y por la posteridad, quienes consideraron a De Laet como el autor por excelencia de Nuevo Mundo; (Vannini de Gerulewicz. Prefácio. De Laet, 1988, p.19).
Além de dezenas de títulos de livros impressos, arrolados na lista bibliográfica, e sempre bem anunciados ao longo do texto, De Laet foi servido de copiosas fontes inéditas – relatórios, roteiros, informações manuscritas e orais, esboços cartográficos – obtidas diretamente de navegadores quando regressavam da América à Europa. A produção de relatórios, entrevistas e esboços foi um expediente obrigatório implantado pelas Companhias das Índias Ocidentais (WIC) e Orientais (VOC) ao largo da sua atuação por terras e oceanos longínquos. Quanto às informações obtidas por essa via, De Laet faz uma menção especial aos:
[...] nuestros Belgas, quienes en estos últimos años han hollado diversas partes de una y otra América particularmente bajo los auspicios de la Compañía de las Indias Occidentales; las exactas observaciones de ellos las hemos estudiado y compartido, y rigiéndonos por lo que nos merecía mayor aprobación, hemos corregido muchas cosas, donde los españoles y otros se habían equivocado (De Laet, 1988, p. 45).
A diversidade de fontes e a proficuidade literária e cartográfica da obra de De Laet confirmam uma asserção de Harley de que dentro de um mapa podem estar vários textos “[…] que tienen que ser descubiertos en el proceso interpretativo” (Harley, 2005 p. 65). Para compor o Livro 12 - Rio de la Plata, e o mapa Paraguay, ó Prov. [...], que precede a abertura do referido livro, De Laet se serviu de um ecletismo textual. O próprio autor declara que lançou mão das seguintes obras impressas: 1) Descripción de las Indias Occidentales, e 2) Historia general de los hechos de los castellanos en las Islas y Tierra Firme del mar Océano que llaman Indias Occidentales (Décadas), ambas de Herrera y Tordesillas; 3) Argentina de Martin del Barco Centenera; 4). The principal navigations, voyages, traffiques & discoveries of the English nation […] de Richard Hakluyt.
As duas primeiras são obras extensas, tidas como crônicas oficiais da conquista e colonização da América pelos espanhóis. Para elas, eram transvasadas centenas de relatos e crônicas particulares relativas às experiências hispânicas nas Indias Occidentales. A obra de Martin del Barco Centenera é um poema épico que, além dos feitos coloniais espanhóis, relata, à sua maneira, os costumes dos povos nativos, a fauna, a flora e os acidentes geográficos da vasta bacia do Rio da Prata. De Laet estudou tanto os versos quanto as notas explicativas desse poema para compor seu mapa e texto corográfico. A obra The principal navigations, voyages, traffiques [...], por sua vez, consiste numa rica compilação de rotas náuticas e observações geográficas, efetuadas por navegadores ingleses, editada por Richard Hakluyt.
Além dessas obras, De Laet e seu cartógrafo Hessel Gerritsz serviram-se de descrições propiciadas por “nossos neerlandeses”, tal como o próprio autor anuncia em dois capítulos[14] do livro sobre o Rio de la Plata. Porém, em relação à atuação jesuítica no Paraguai, nas primeiras décadas do século XVII, não há qualquer menção na obra de De Laet.
Na posição de rico comerciante e diretor da WIC, seu intuito primordial era expor de maneira acessível e minuciosa o fabuloso continente americano e, desse modo, estimular e instruir o acesso às riquezas comerciáveis a ser exploradas, pelas empresas mercantis neerlandesas, nos múltiplos recantos do Mundo Novo. Esse intento fica evidente em sua obra Historia ou Annaes dos Feitos da Companhia [...] publicada dezenove anos depois da Nieuwe Wereldt ofte [...]. Em sua dedicatória, o autor enfatiza que se apossar das riquezas da América era a forma mais eficaz de enfraquecer e derrotar o rei da Espanha, que “[...] por tantos anos perturbou a paz de todo mundo [...] e hostilizou tão gravemente estas Províncias Unidas [...]” (De Laet, ([1644], 1916). Na avaliação do autor, esse intento estaria sendo alcançado pela WIC mediante:
[...] A conquista de tão vastas e ricas regiões tomadas ao rei da Hespanha, a perda de enormes thesouros, a captura e destruição de muitos navios, a occupação e arrazamento de muitas praças fortes [...]”(De Laet, [1644], 1916).
Ou seja, a obra de De Laet está diretamente implicada nos esforços bélicos travados contra a monarquia hispânica no além mar. Nesse sentido, descrever, mapear e capturar riquezas na América espanhola era a fórmula da WIC para o sucesso bélico e comercial das Províncias Unidas contra o poderio espanhol.
Além desse caráter combativo/comercial, a obra de De Laet foi essencial para que a novidade americana se tornasse inteligível e, assim, pudesse ser admitida no imaginário neerlandês (Wolff, 2015, p. 12). Nesse sentido, a descrição verbal e visual da Nieuwe Wereldt ofte Beschrijvinghe [...], ao cair na indústria gráfica da República dos Países Baixos Unidos, desempenhou um papel fundamental no processo de construir, mobilizar e dinamizar o imaginário para as riquezas mercantis do Novo Mundo. Nesse debate se situa a obra de Michiel van Groesen (2017), sobre o Brasil Holandês. O autor analisa a gestão do fluxo de informações e o controle da poderosa mídia impressa, exercido pela VOC e WIC, no sentido de gerar entusiasmo e participação popular em torno da conquista da rica colônia açucareira em Pernambuco. Segundo Jameson, a indústria editorial teria criado e incitado tamanho frenesi: “[...] que até crianças e lavadeiras discutiam as vantagens da conquista de colônias no Brasil” (JAMENSON, 1887, apud, WOLFF, 2015, p. 13).
A obra de De Laet nas mãos das firmas editoriais Hondius e Blaeu
Quando a Nieuwe Wereldt ofte Beschrijvinghe [...] surgiu, em 1625, a produção cartográfica dos países baixos (no sentido inclusivo para as províncias que permaneceram sob o domínio espanhol) estava bem estabelecida e atuava com um corpo de profissionais – impressores, gravadores e geógrafos – experientes em analisar, confrontar e incorporar as novidades geográficas aos mapas, globos e atlas. Além dos avanços técnico-científicos alcançados por geógrafos como Gerardus Mercator (1512-1594) e Abraham Ortelius (1527-1598), a cartografia havia se tornado um negócio lucrativo ao dispor de “[...] mapas confiáveis e lindos no mercado aberto a qualquer pessoa que pudesse pagar por eles” (Brotton, 2014, p. 292).
Na história da cartografia, a existência de famílias estreitamente ligadas ao ofício cartográfico, que de certo modo constituíam dinastias empresariais, rivalizando por postos no poder de instituições políticas, é um tema bastante conhecido. A reprodução (reedição) intensa do Paraguay, ó Prov.[...] está diretamente relacionada a um caso emblemático de concorrência entre duas empresas familiares tradicionais no ramo editorial cartográfico.
Uma delas surgiu quando Jodocus Hondius (pai) comprou parte do espólio da empresa de Ortelius. Dois filhos (Jodocus Hondius [filho], Henricus Hondius) e um genro (Ioannes Janssonius) deram continuidade à empresa, após o falecimento do pai/sogro, em 1612. Quando, por sua vez, Jodocus Hondius (filho) faleceu, em 1629, a viúva deste vendeu aproximadamente 40 mapas gravados em chapas de cobre (entre eles o Paraguay, ó Prov.[...]) para Willem Jansz Blaeu[15] (1571-1638). Este já era um editor experiente e bem-sucedido no mercado de livros. Com essa aquisição, Willem J. Blaeu, com o auxílio de seu filho Joan Blaeu, ingressou agressivamente no ramo editorial cartográfico e de imediato deflagrou “[...] uma das rivalidades mais encarniçadas da cartografia do século XVII” (Brotton, 2014, p.304)[16].
Para reparar o prejuízo, os continuadores da empresa Hondius (Henricus Hondius e Ioannes Janssonius) encomendaram novas chapas idênticas àquelas vendidas a Blaeu. Nas décadas seguintes, a competição entre as duas firmas cartográficas se acirrou, no concernente à editoração de atlas geográficos. Cada vez que a firma Hondius publicava um atlas, a firma Blaeu respondia publicando outro, maior, contendo mais cartas geográficas, e ostentando um acabamento cada vez mais luxuoso; e assim sucessivamente. Todavia, embora novos mapas tenham sido inseridos nos atlas cada vez maiores que ambicionavam descrever o mundo todo, no que tange à representação cartográfica da América, os mapas de De Laet/Gerritsz foram sucessivamente reeditados sem alteração e sem qualquer menção aos criadores do original. Somente em 1658, Blaeu substituiu o Paraguay, ó Prov.[...] pelo Paraquaria, [...].
Um processo similar à apropriação/reprodução dos mapas de De Laet ocorreu também em relação ao texto corográfico desse autor. Nos atlas das referidas firmas, o texto concernente à província do Rio da Prata é sempre um arremedo (que na atual linguagem digital seria qualificada de Ctrl C / Crtl V) do 12º livro da obra de De Laet. De cada um dos 14 capítulos que compõem o 12º livro, foi “recortado” e “colado”, ordenadamente, o primeiro parágrafo. Desse modo, as dezesseis páginas que constituem o 12º livro de De Laet, ao serem transladadas para os atlas produzidos pelas firmas Hondius e Blaeu, ficaram reduzidas a uma página e meia ou duas páginas, a depender da edição. Identificamos a edição mais antiga desse texto, surripiado fragmento após fragmento (o 1º. Parágrafo de cada capítulo), no atlas da firma Blaeu, do ano1631[17]. A partir de então, o mesmo texto, subtraído da obra de De Laet, foi recopiado também pela firma Hondius e publicado ipsis litteris, em 1633.
Em outras palavras, tudo indica que a firma Hondius reproduziu integralmente a cópia fragmentária feita por Blaeu. Nas décadas seguintes, o mesmo arremedo foi reeditado por uma e outra firma pelos menos seis vezes, em 4 idiomas[18]


No quadro acima, contrastamos a primeira página relativa à província do Rio da Prata do atlas de Blaeu, grafado em latim, de 1631, e do atlas da firma Hondius, em francês de 1633, para evidenciar que se trata do mesmo texto. Esse procedimento foi reprisado nas décadas seguintes pelas duas firmas. Nos fac-símiles a seguir, observa-se que, além do texto idêntico, as firmas concorrentes usavam um padrão editorial e tipográfico de tal modo similar que as diferenças de um em relação ao concorrente são quase imperceptíveis


erry Brotton observou circunstâncias em que Blaeu se apropriava de mapas
Jerry Brotton observou circunstâncias em que Blaeu se apropriava de mapas de outrem, sem qualquer alusão ao autor, ressaltando que: “Essa não seria a primeira nem a última vez que Blaeu e seus filhos se apropriariam de mapas para seu próprio lucro comercial, mas é um exemplo revelador de como os negócios da família prosperaram” (Brotton, 2014 p. 302). As imagens acima sugerem que a mesma declaração é válida para as duas firmas concorrentes, tanto no que concerne aos mapas quanto aos textos corográficos.
Uma peculiaridade que deve ser considerada na consolidação da supremacia editorial da firma Blaeu sobre seu concorrente, é a relação ambígua de J. Blaeu com as Companhias de Comércio (VOC e WIC). Por um lado, J. Blaeu era funcionário oficial da VOC e as cartas marítimas por ele produzidas pertenciam, supostamente, à Companhia; por outro, servia-se dos mapas para empreendimentos editoriais próprios. Como cartógrafo oficial, ele tinha o monopólio sobre todas as informações geo-cartográficas produzidas no âmbito das Companhias e, como editor comerciante, produzia e vendia seus mapas para particulares e para as próprias VOC e WIC (ZANDVLIET, 1998).
Sem margem de dúvida, o sucesso de vendas dos atlas de ambas as firmas estava, antes, relacionado à forma, ao material e à sofisticação visual do que propriamente ao conteúdo do texto. Os mapas e os fragmentos textuais “recortados” da Nieuwe Wereldt ofte Beschrijvinghe [...] e “colados” nos atlas passavam a constituir, à luz das reflexões de Chartier, “novos livros” e “novos textos”. Duas observações de Chartier, que se entrelaçam, conferem densidade à análise que aqui propomos: “[...] não há texto em si, separado de toda materialidade [...] e que não há compreensão de um escrito, qualquer que seja, que não dependa das formas pelas quais atinge o leitor (Chartier, 1991, p. 182)”. Evidenciar o âmbito da manipulação gráfica, dos recursos técnico-materiais e dos efeitos estético-visuais na produção e circulação de livros, representa uma contribuição notável para a análise em questão. Da mesma forma, analisar os processos de manipulação dos mapas e textos de De Laet por outras editoras possibilita
[...] compreender melhor como a passagem de um texto de uma forma editorial a outra pode transformar, separadamente ou ao mesmo tempo, a base social e cultural do público, os usos do texto e suas interpretações possíveis (Chartier 2002, p.251).
Em termos de organização e sistematização de notícias corográficas e produção de cartas geográficas sobre a América colonial, a obra de De Laet representa um marco fundamental. Em relação aos territórios ocupados pelos neerlandeses, como o nordeste brasileiro, a cada nova edição as informações iam sendo atualizadas e alargadas. Todavia, quanto ao Rio da Prata – uma área periférica em relação às ações da WIC – o próprio De Laet não promoveu significativas atualizações. O mesmo vale para as firmas editoriais que se apropriaram da sua obra. Ao longo de quatro décadas, o texto fragmentário sobre o Rio da Prata não foi atualizado nos atlas Blaeu e Hondius[19]. Contudo, a notória superficialidade e compendiosidade textual são compensadas pela sofisticação e adensamento visual dos mapas. Como bem observou Svetlana Alpers, na Holanda do Século XVII o empreendimento cartográfico era correlato à pintura, no sentido de que mapas e telas buscavam descrever: “[...] sobre uma superfície, uma grande quantidade de conhecimentos e informações sobre o mundo (Alpers, 1999, p. 247)”.
A inconsistência do Paraquaria, vulgo Paraguay cum adjacentibus no Atlas Blaeu.
Sobre esse mapa, Guillermo Furlong S.J. emitiu uma apreciação que poderia servir de epígrafe a uma hipotética obra sobre o estilo de historiar dos historiadores jesuítas, da primeira metade do século XX, acerca das missões dos seus antigos confrades no Paraguai colonial:
Ningún mapa del siglo XVII pude compararse con éste, en la riqueza de su contenido y en la exactitud de sus detalles. Sorprende a la verdad la perfección de esta magnífica pieza cartográfica, y cierto es que si los jesuitas no hubieran compuesto más que esa obra maestra serian por ella muy acreedores a nuestra gratitud” (FURLONG, 1936, Tomo I, p. 26).
Sem desdenhar o deslumbramento, e sem fazer coro a tais louvores, convém destacar que no âmbito da historiografia sobre o Rio da Prata do século XVII o mapa Paraquaria [...] é, certamente, um documento/monumento[20], de natureza visual, entre os mais conhecidos e referenciados pelos pesquisadores.
São inúmeros os estudos sobre o Paraguai do século XVII que recorrem a esse artefato cartográfico com diversas finalidades, sendo a mais recorrente a abordagem sobre as fundações, os ataques bandeirantes e as translações de povoados jesuítico-guarani do Guairá, Itatim e Tape (LEVINTON, N.; SNIHUR, E., 2015). Além do mais, o Paraquaria [...] tem sido acionado para coadjuvar a leitura de outras fontes históricas do mesmo período, ou apenas para agregar valor estético a publicações e produções visuais que não necessariamente propõem uma problemática geo/histórica, mas que simplesmente intentam oferecer à contemplação um artefato de notável valor histórico, geográfico e artístico.
Todavia, embora seja “conhecido” pelos especialistas em Paraguai colonial, e por grande parcela do público acadêmico não especializado, o que efetivamente se sabe sobre a autoria, as circunstâncias da elaboração e a circulação do Paraquaria [...] é pouco; e esse pouco é sempre creditado à obra de Furlong. Além da “epígrafe” acima o autor observou que esse mapa só poderia ser resultado do trabalho cartográfico de várias pessoas, pois seria impossível que “[...] un solo hombre pudiera componerlo sin tener múltiplos antecedentes” (FURLONG, 1936, Tomo I, p. 26). Considerando a vasta abrangência geográfica, as notícias de outros mapas que o teriam precedido, elaborados pelos jesuítas Luiz Ernot, Antonio Ruiz de Montoya e Antonio Ripari, essa consideração parece pertinente.
Quanto às edições do mapa, Furlong diz conhecer quatro, mas apenas referencia três: 1) Blaeu (1667) 2) Arnoldus Montanus (1671) e 3) John Ogilby (1671). Na sequência, Furlong analisa e cruza um conjunto de fatos históricos inscritos no Paraquaria [...] para propor uma estimativa cronológica do seu aparecimento. O primeiro elemento analisado é o cartucho em que figura uma dedicatória ao Padre Geral da Companhia de Jesus, Vincentio Carrafa, que exerceu esse cargo entre os anos 1646-49. Como assinalamos, a edição mais antiga que encontramos do Paraquaria [...] é de 1658. É evidente que os delineamentos cartográficos praticados pelos jesuítas antecedem entre 10 ou 20 anos essa data. O fato de ter sido dedicado ao Pe. Vincentio Carrafa, que assumiu o generalato da Companhia de Jesus em 1646 e faleceu em 1649, não indica que o mapa tenha vindo à luz nesse lapso de tempo (1646-49), mas que nesse intervalo foram encaminhados os materiais manuscritos jesuíticos à editora Blaeu.
Ainda assim, a possibilidade de que o Paraquaria [...] tenha sido editado e impresso de forma avulsa, antes do atlas de 1658, deve ser considerada, mas será de difícil comprovação pelo fato de não haver nenhum registro cronológico nele impresso. Nesse sentido, o tempo transcorrido entre as ações cartográficas jesuíticas, no Paraguai, e a luxuosa edição blaviana não pode ser estabelecido com precisão, com as fontes que ora dispomos. Outros autores citados por Furlong partem de registros de fundação, translado e destruição de povoados coloniais e missioneiros para sugerir que o mapa tenha sido composto por volta de 1640.
Por fim, sobre a autoria do Paraquaria [...] Furlong apenas reúne citações de eminentes autoridades científicas para confirmar que, inequivocamente, trata-se de um mapa composto por jesuítas. Alexander von Humbolt, Barão do Rio Branco e dois historiadores jesuítas – P. João Batista Hafkemeyer e o P. Carlos Leonhard – são arrolados entre os que corroboram essa premissa. Destes, apenas um conjectura sobre um possível autor:
El P. Carlos Leonhard S.J., que reprodujó este mapa al frente del volume de Cartas Anuas de la Provincia del Paraguay, etc., opina que su autor es el ‘P. Nicolás Henard, flamenco, cuyo apellido latinizado se escribia Ernatius [...] (FURLONG, 1936, p. 28)
Em suma, basicamente são esses os conhecimentos que circulam toda vez que o Paraquaria [...] é inserido nalgum texto. Consideramos que há uma série de elementos e questionamentos de valor histórico, que transcendem tais questões autorais e cronológicas, que merecem ser analisadas. No âmbito do presente ensaio, interessa focar alguns aspectos concernentes àquilo que Chartier chama de “materialidade do texto”. Tal como os textos verbais, os mapas (textos não verbais) não existem:
[...] independentemente das materialidades (sejam quais forem) que são seus suportes e veículos. Contra essa “abstração” dos textos, deve-se lembrar que as formas que as dão a ler, a ouvir, ou a ver participam, elas também, na construção de sua significação. O “mesmo” texto, fixo em sua letra, não é o “mesmo” se mudam os dispositivos de sua inscrição ou comunicação (Chartier, 2002: p. 256).
A par dessa colocação, tomando o mapa como uma narrativa visual, a materialidade diz respeito ao formato, ao tratamento técnico, artístico, tipográfico, editorial; ou seja, à parte física da obra cartográfica. Esses pontos não concernem à atuação jesuítica, e sim aos ofícios da casa editorial Blaeu. Isso significa que os croquis, ou mapa(s) manuscrito(s), elaborado(s) por jesuítas, para ser inseridos no Atlas Blaeu, passaram por processos de redimensionamento gráfico, de ornamentação, de gravação da chapa de metal, de distintas técnicas de impressão (água-forte, tipos móveis), de colorização manual[21], de encadernação etc. Com dimensões de 45,2 x 55,2 cm e amplas margens, o mapa exibe três cartelas (título, dedicatória e legenda) adornadas de volutas, aletas e curvas barrocas e, curiosamente, é o único mapa do atlas que não apresenta uma escala cartográfica. Representando a antiga província jesuítica do Paraguay, que no século XVII abrangia quase todo o centro-sul da América do Sul, com um repertório icônico que assinala cidades, vilas, fortes, pueblos missionados (doctrinas), grupos indígenas “infiéis”, bosques e cordilheiras o Paraquaria [...] é, certamente, um texto visual sofisticado, imponente e denso em informações.
Os elementos que constituem a base cartográfica, decorrente da observação direta dos missionários e a simbologia[22] – que traduz a trama da fundação, transladação e destruição de reduções jesuítico-guaranis e de povoados hispânicos – definem o Paraquaria [...] como um artefato nitidamente jesuítico.
Todavia, os materiais e o rol de procedimentos técnico-gráficos e estéticos aplicados a esses elementos são tipicamente neerlandeses. Nesse sentido, o material (mapas, esboços, croquis) de origem jesuítica foi “enquadrado” para figurar no atlas Blaeu; logo, o Paraquaria [...] é um mapa jesuítico-neerlandês ou jesuítico-blaviano. Até o presente momento, essa noção passou despercebida – ou foi menosprezada – pelos pesquisadores, visto que o mapa não é analisado como parte do atlas Blaeu. Essa perspectiva implica em compartilhar a paternidade do Paraquaria [...] com personagens não jesuíticos, de terras protestantes.
Qualquer questão sobre como, por intermédio de quem, e por que o material cartográfico jesuítico foi encaminhado à firma Blaeu, carece de documentação e só pode ser abordada com base em suposições. Conjecturar acerca dos intrincados intercâmbios entre, de um lado, jesuítas (católicos a serviço da Espanha) atuantes no Paraguai e, de outro, um rico editor da República dos Sete Países Baixos Unidos, a serviço da WIC e da VOC, protestante de origem menonita (Brotton, 2012, 303), logo potencialmente inimigo político e religioso da Espanha e da Companhia de Jesus, pode ser um exercício elucidativo de temas para os quais não dispomos de fontes inequívocas.
Primeiramente, por parte de ambos os lados devia haver interesses recíprocos. Aos jesuítas certamente convinha exibir, sempre que ensejasse, um refinado artefato cartográfico da “Messis paraquariensis”[23]. Para demandar recursos humanos e materiais, para obter reconhecimento e prestígio das autoridades monárquicas e eclesiásticas, para denunciar os ataques dos bandeirantes paulistas às missões jesuítico-guarani e às vilas espanholas e para os mais diversos temas relativos à vasta região, um mapa publicado por Blaeu representaria uma ferramenta de formidável impacto visual, simbólico, cognitivo e persuasivo. Em todos os sentidos, seria um artefato capaz de promover um imaginário propício à ação evangelizadora da Companhia de Jesus no Paraguai.
Artur Barcelos, ao analisar um vasto corpus de registros geo-cartográficos da Companhia de Jesus, sugere que, em relação a outras ordens: “Talvez o elemento diferencial esteja na própria forma de atuação dos jesuítas, onde os registros sobre o espaço americano constituíram-se como parte fundamental da ação evangelizadora” (Barcelos, 2013, p.376). Ao mesmo tempo em que concordamos com essa colocação, indagamos: por quais motivos os próprios escritores jesuítas do século XVII não inseriram seus mapas em suas obras? Sabemos que Montoya, em seu memorial ao rei da Espanha, sobre a destruição causada pelos paulistas e sobre o perigo de estes alcançarem o Peru, fazia uso de um mapa[24]. Ou seja, mesmo tendo produzido e se servido de recursos cartográficos, em sua crônica Conquista Espiritual [...] (1639) Montoya não apresenta qualquer mapa. Da mesma forma, a Historia Provinciae Paraquariae Societatis Iesu, de Nicolás del Techo (1673), tampouco exibe qualquer carta geográfica. Para ambas, o Paraquaria [...], ou pelo menos algum fragmento dele, teria sido extremamente oportuno.
Pensamos que qualquer busca por uma explicação deve considerar que, caso outra editora tivesse editado o Paraquaria [...], o resultado visual teria sido de tal maneira distinto que já não seria o “mesmo” mapa. Para respaldar essas conjecturas, vale destacar que, em meados do século XVII, nenhuma editora na Espanha ou no mundo era capaz de competir em qualidade técnica com as gravuras e a arte tipográfica da firma Blaeu. Segundo Brotton, o Atlas maior sive cosmographia Blaviana (Grande Atlas ou cosmografia de Blaeu), onde o Paraquaria [...] foi inserido, foi considerado o maior e melhor atlas até então publicado:
Em tamanho e escala ele superava todos os outros atlas então em circulação, inclusive os esforços dos grandes predecessores Ortelius e Mercator. Era uma verdadeira criação barroca. Somente a primeira edição tinha onze volumes, com 3.368 páginas escritas em latim, 21 frontispícios e a quantidade espantosa de 594 mapas, num total de 4.608 páginas. Durante a década de 1660, foram publicadas edições em francês, holandês, espanhol e alemão com ainda mais mapas e textos. (Brotton, p. 293)
Com sua bela tipografia, decoração esmerada, coloração requintada e encadernação suntuosa, o Atlas maior de Blaeu não teve paralelo na impressão do século XVII (Brotton, 2014, p. 324).
Evidentemente, nos meios intelectuais europeus e jesuíticos a vigorosa atividade editorial/cartográfica da firma Blaeu era bem conhecida e, com certeza, admirada. Para os jesuítas, terceirizar a edição para a firma Blaeu seria garantia de que o material cartográfico, por eles produzido, receberia um tratamento gráfico singular.
Por outro lado, Blaeu devia ter interesse em demonstrar que continuamente “atualizava” seu atlas. A constante “atualização” e ampliação dos atlas era anunciada nos próprios títulos e propalada como sinônimo de excelência. Talvez, motivado por essa lógica, a partir 1658, no capítulo sobre o Rio da Prata, onde antes figurava o Paraguay, Ó Prov. [...], passou a figurar o Paraquaria [...]. Ou seja, Blaeu substituiu o mapa elaborado por De Laet e Hessel Gerritsz, (baseado em fontes quinhentistas), por outro elaborado, in loco, por missionários da Companhia de Jesus. Porém, ao longo de 34 anos (1631-1665), em quatro distintas edições, os atlas da firma Blaeu mantiveram o mesmo texto (duas páginas copiadas de De Laet).
Disso resulta que o Paraquaria [...] foi inserido em meio a um capítulo que disserta sobre a conquista militar (Pedro de Mendoza, Cabeça de Vaca e Nuflo de Chaves), discorre sobre as riquezas naturais de cada região (Paraguai, Tucuman e Santa Cruz de la Sierra) e se refere a topônimos e etnônimos recorrentes nas crônicas quinhentistas, tais como Calchinos, Mepenes, Chiloacas e do lago de Xaraies. É claro que nenhuma dessas informações pode ser lida/visualizada no Paraquaria [...]. Da mesma forma, no texto que seguiu inalterado, nunca consta uma vírgula sobre a ação missionária jesuítica no Paraguai.
Em outras palavras, a total falta de nexo entre texto corográfico e imagem cartográfica está no fato de que cada qual desses componentes aborda enredos produzidos por paradigmas de conquista radicalmente distintos. Grosso modo, o texto aborda a conquista militar do espaço platino no século XVI. enquanto que o mapa destaca a conquista espiritual, sobretudo, a modalidade reducional jesuítica, no século XVII. Talvez por esse anacronismo e pela incongruência temática o Paraquaria [...] seja mais conhecido como artefato dissociado do editor que o trouxe à luz; pelo mesmo motivo o texto do atlas Blaeu, que com ele deveria dialogar, segue totalmente desconhecido e é indiferente aos pesquisadores ocupados com temáticas jesuíticas concernentes ao Paraguai.

Finalmente, convém assinalar que existe outra versão do Paraquaria [...] publicada no ano 1671 pelo autor?/editor neerlandês Arnoldus Montanus[25] e, no mesmo ano, por John Ogilby. Esse artefato constitui uma cópia malfeita, uma versão defeituosa do Paraquaria [...] publicado por Blaeu. Não se trata de um “outro” mapa como entendia Furlong[26], e sim de uma cópia mal executada do anterior. Nessa “nova” versão, os componentes internos (título, topônimos, etnônimos, simbologia iconográfica) são exatamente os mesmos, exceto nos casos em que o copista/gravurista, por engano omitiu determinado elemento.
Todavia, a notável diferença desta versão está na supressão do cartucho que fazia a dedicatória ao Padre Geral da Companhia de Jesus. A supressão desse componente simbólico garante que quem fez essa “nova versão” não foi um jesuíta, e sim, um editor qualquer que se apropriou desse mapa e apagou o símbolo que explicitamente ligava o mapa à Companhia de Jesus. Se tivesse havido qualquer participação jesuítica, nessa segunda versão, a dedicatória, cronologicamente ultrapassada, certamente teria sido substituída por outros símbolos da Companhia, ou por mensagens edificantes. Sem esses elementos, o leitor comum não consegue identificar o “novo” Paraquaria [...] como sendo de origem jesuítica.
Outra alteração diz respeito ao cartucho do título que, em sua “nova versão”, ostenta uma cena composta por sete indígenas, uma arara, uma cabra e um animal incógnito. O título, como tal, foi mantido intacto (Paraquaria vulgo Paraguay. Cum adjacentibus.). Porém, é a Notularum Explicatio (legenda explicativa) que evidencia que se trata de uma cópia deficitária. Isso porque, a legenda, que faz uma descrição dos ícones, não os apresenta. Nenhum cartógrafo experiente teria incorrido no lapso de descrever símbolos necessários para a interpretação do mapa, sem evidenciá-los.

Por essa falha e por outras pequenas omissões, que só são perceptíveis mediante uma comparação minuciosa das duas versões, é que consideramos essa segunda versão uma cópia mal executada do Paraquaria [...] publicado por Blaeu.
Considerações Finais
A crítica às fontes é um dos pré-requisitos elementares do ofício do historiador. A análise que propusemos acerca do Paraguay ó Prov. [...] e do Paraquaria […] cumpre, fundamentalmente, a esse requisito, qual seja, uma abordagem crítica desses artefatos cartográficos largamente conhecidos e citados e, no entanto, mal compreendidos pela historiografia rio-platense. Nesse sentido buscamos desconstruir discursos prontos que tem sua origem em historiadores jesuítas que, na primeira metade do século XX, se apropriaram, simbolicamente, desses mapas. Para contra-argumentar e ponderar as premissas dessa perspectiva historiográfica, buscamos informações nos livros e atlas geográficos em que os mapas foram editados, comparamos os textos verbais (corográficos) com os mapas (textos não verbais), analisamos as sucessivas edições e diversos aspectos relativos à materialidade das referidas cartas geográficas.
No caso do Paraguay ó Prov [...], foi possível perceber a intrínseca relação dessa peça cartográfica com a descrição de De Laet, da mesma maneira como o texto do autor permite cotejar as fontes com as quais compôs sua descrição corográfica. Observamos como, na sequência, tanto o mapa quanto o texto corográfico foram apropriados, por duas firmas editoriais/cartográficas num contexto de acirrada concorrência, eminentemente, comercial.
Por fim, analisamos alguns aspectos referentes ao Paraquaria [...] cotejando informações de historiadores jesuítas (autoria e cronologia), sobretudo Guillermo Furlong, com questões relativas ao atlas Blaeu, no interior do qual o mapa foi publicado. Pelo papel crucial da forma e da materialidade, isto é, da manipulação da arte da gravura, da impressão, da coloração e de outros aspectos relacionados ao projeto gráfico, sustentamos que o Paraquaria [...] merece ser tratado como um artefato jesuítico-blaviano.
No diálogo com a História da Cartografia e com o amparo das reflexões de Chartier sobre os significados e apropriações dos textos/mapas em relação às formas e à materialidade que lhes dão suporte, foi possível avançar na compreensão desses dois mapas, tão distintos cronológica e tematicamente e, todavia, publicados e comercializados como se um fosse uma atualização do outro. A inconsistência que observamos entre texto e imagem cartográfica, revela muito sobre o caráter industrial/comercial da cartografia neerlandesa no século XVII.
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Notas