Book Review

Russell Kirk: O Peregrino na Terra Desolada

Vinicius Diniz Rosa *
Instituto Mises Brasil, Brasil

Russell Kirk: O Peregrino na Terra Desolada

MISES: Interdisciplinary Journal of Philosophy Law and Economics, vol. 4, núm. 1, pp. 309-311, 2016

Instituto Ludwig von Mises - Brasil

O pequenino grande livro de Alex Catharino, Russell Kirk - O Peregrino na Terra Desolada, faz parte da coleção “Biblioteca Crítica Social” da editora É Realizações, coordenada pelo filosofo Luiz Felipe Pondé, que oferece introdução a autores importantes do século XX. A proposta dessa coleção é apresentar esses pensadores para um público mais jovem de uma forma simples, porém rica.

O livro nos questiona se não estamos sendo muito simplistas ao deixarmos de pensar também na cultura. Afinal, Friedrich A. Hayek (1899-1992) costumava ensinar que o bom economista é aquele que estuda tudo, não apenas economia.

É claro que podemos justificar que há gráficos que mostram (há até mesmo uma pesquisa feita pela Fundação Perseu Abramo)1 que a periferia aceita mais o pensamento liberal do que o pensamento esquerdista. Sendo assim, por que razão nossos estudantes, quando veem que atingiram a média para passar, pensam: “Está tudo bem, está tudo certo, pois passei” - enquanto os estudantes estrangeiros agem de forma diferente, querendo sempre alcançar o melhor? Por que razão ficamos sempre nos piores índices? Por que será que somos o país que menos gera atividade empreendedora? Será que todas as pesquisas estatísticas são boas, ao ponto de nem sequer podermos colocá-las à prova e verificar mais a fundo a própria pesquisa? Por que razão o liberal parece ter aversão ao debate moral e sente medo de se tornar dogmático? Seria o liberal, então, um acovardado que tem medo de tomar alguns posicionamentos que podiam fazer com que fosse taxado com rótulos vazios? O que é ainda pior: para onde vão os diversos fatores que interferem também na economia (sendo essa uma crítica pertinente da Escola Austríaca em relação às outras escolas) quando se negam ao debate moral e cultural? O livro de Alex Catharino é um livro corajoso, pois valoriza o elemento cultural quando coloca as questões da imaginação moral e da defesa das coisas permanentes, algo muito caro ao próprio pensamento de Russell Kirk (1818-1994).

Sabemos que uma boa economia precisa também de valores que a sustentem. Vejamos o homem como um animal político, tal como Aristóteles (384 a.C. 322 a.C.). Quando Aristóteles diz que o homem é um animal político, isso significa um homem que se relaciona com sua espécie, dentro da sociedade, em busca da felicidade. Assim, o homem como animal político também é um animal social. Partindo dessa concepção, vamos explicar a cultura.

Quando um conservador fala de cultura, não deseja um órgão estatal que a regule. O que deseja é buscar algo que seja belo, que engrandeça a “alma” do homem e lhe dê sentido. Essa busca se dá de acordo com os ditames da lei natural e da própria natureza humana, que procura formalizar o que há de natural no homem. Nas palavras de Alex Catharino (p. 19):

A mazela que afeta os adolescentes perpétuos de nossa “Civilização do espetáculo” criou gerações de criaturas que temem encontrar a verdade e não a reconhecem, deliberadamente ou por ignorância, a existência do Bem e do Belo, preferindo a ilusão confortante oferecida tanto pelas falsas promessas de ideólogos ou demagogos quanto pelos ilusórios confortos medíocres. Entorpecidos pelo ópio da ideologia ou embriagados pelo absinto do hedonismo relativista, os homens ocos de nossa época são netos da “Idade da Razão” e filhos da “Era da Informação”. Fundados na Ilusão reducionista da ideologia do cientificismo [..].

Vangloriamo-nos de ser um país no qual a periferia apresenta um pensamento liberal. Entretanto, será que a população realmente apresenta um pensamento liberal ou se trata apenas de um rótulo pomposo? Ora, Antonio Gramsci (1891-1937) venceu, então, a batalha cultural, pois pelo medo de se pensar também a cultura, terminamos por abandoná-la. Alex Catharino coloca ênfase nesse aspecto ao apresentar Russell Kirk em diálogo com Thomas Stearns Eliot (1888-1965). Trata-se de uma perspectiva até então inédita sobre a obra de Russell Kirk, como disse a própria esposa de Russell Kirk, Annette Kirk, na orelha do livro: “Nesse novo estudo, o autor aprofunda a análise do pensamento kirkiano de uma perspectiva filosófica única ao explicar Kirk pelos olhos de T. S. Eliot”.

Para não transformarmos o mundo em um terreno baldio, para não cairmos em relativismos morais, para não termos, no ambiente acadêmico, professores que defendem que “o funk carioca é uma genuína obra de arte da periferia”, precisamos de critérios e da percepção de que temos que valorizar o melhor. O questionamento, portanto, é onde está o critério, onde reside o valor.

A proposta que temos diante de nós é um resgate da tradição, das coisas permanentes, da “democracia dos mortos” - conforme Gilbert K. Chesterton (1874-1936) cunhou em Ortodoxia. Mas por que a Tradição? Isso não seria parar o tempo? Não seria parar o tempo, mas sim mostrar um ter respeito maior pelo que já foi testado pelo tempo. Ao contrário de matar o tempo, isso corresponderia a dar vida aos mortos e a reconhecer a existência de um arcabouço, uma bagagem que pode nos proporcionar embasamento a partir do qual inovar.

É por isso, por exemplo, que os Estados Unidos são uma grande nação - foram capazes de encontrar o ponto de equilíbrio entre a liberdade e a cultura, ou melhor, entre a liberdade e a moral. Alex Catharino nos apresenta como esse equilíbrio se tornou possível, ponto que também é ilustrado pelo filósofo Luiz Felipe Pondé no prefácio da obra:

Ao pôr em diálogo poesia, literatura, história das ideias e filosofia, Kirk constrói uma obra que é um encontro entre moral, política e estética. Não uma política como engenharia de dogmas, mas uma política como o olhar atento aos detalhes da misteriosa heterogeneidade da humanidade em sua luta consigo mesma. Não uma moral da inovação constante, como se o comportamento humano fosse palco de uma vida corporativa pressionada pelo “mercado de moda de comportamento”, mas sim uma moral que vive, constantemente, num diálogo com os mortos. Não uma estética da afetação modernista, mas sim uma estética dos afetos morais e políticos. Por isso Kirk traz para o centro da reflexão a ideia de imaginação moral como forma de resistência e construção de uma vida calcada no cuidado com os vivos, mortos e os que ainda não nasceram.

O que vem a ser, então, essa imaginação moral? Esse conceito denota que a imaginação moral é aquela que não destrói, que não descola o homem de seu passado - o que o transformaria em um verdadeiro proletário, aquele que não possuí família, descendência, origem; que simplesmente nasceu no mundo. Tal como frisado tanto por Alex Catharino quanto por Luiz Felipe Pondé, a resposta kirkiana de um antídoto para a ideologia é não se esquecer da estética e da moral como fatores também fundamentais à vida humana. O que não significa enaltecimento do nacionalismo ou de regionalismos - que nos levaria a um fechamento em nossa própria cultura. Significa, mais propriamente, uma busca pela verdade, pelo que é natural e universal.

O livro de Alex Catharino é uma introdução inspiradora ao pensamento de Russell Kirk que abre o caminho para que o leitor possa empreender essa busca pela verdade e reconhecer a importância de resgatar a cultura.

Notas

1 Disponível em: <http://novo.fpabramo.org.br/sites/ default/files/Pesquisa-Periferia-FPA-04042017.pdf>.

Autor notes

Sobre o autor: licenciado em Filosofia pelo Centro Universitário Ítalo Brasileiro (Uniítalo). Pós-graduando em Escola Austríaca pelo Instituto Mises Brasil/UniÍtalo.

*Vinicius Diniz. Email: vinicius-Jack13@live.com

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