Book Review
Palavras que venceram a Guerra
Palavras que venceram a Guerra
MISES: Interdisciplinary Journal of Philosophy Law and Economics, vol. 6, núm. 1, 11, 2018
Instituto Ludwig von Mises - Brasil
Em setembro de 1939 a escuridão se alastrou pela Europa. A junção da mais nefasta ideologia mentalizada pelo ser humano com uma competente e disciplinada força militar - o nazismo e o exército alemão - levava o mundo para mais uma guerra que se alastraria pelo globo.
Fato é que a guerra que viria a deflagrar-se em 1939 começou pelo menos vinte anos antes, com fim da Primeira Guerra Mundial, e o fatídico armistício representado pelo Tratado de Versalhes, que esmagaria as nações derrotadas criando o ambiente perfeito para o surgimento da ideologia do mal direcionada por seu filho bestial, Adolf Hitler.
Nesse ambiente, um polêmico personagem antecipou-se e tentou alertar ao mundo da ameaça que Adolf Hitler e o nazismo representavam à civilização ocidental, à liberdade e à democracia, sendo, muitas vezes, alcunhado por seus pares de inescrupuloso, irresponsável, ambicioso e desprovido de discernimentos políticos. Tratava-se de Sir Winston Spencer Churchill.
Nos tempos atuais Churchill poderia até ser unanimemente considerado um exemplo de liderança nas horas mais severas. Em votação promovida pela BBC, foi eleito o maior britânico de todos os tempos em razão de seus feitos e de sua força de caráter, não é incomum vermos Churchill sendo retratado por diversos meios de mídia como uma das mais importantes personalidades da história.
Na obra Churchill e a ciência por trás dos discursos: como palavras se transformam em armas, Ricardo Sondermann presenteia o leitor com a narrativa da Segunda Guerra Mundial através de 12 discursos de Winston Churchill, e, cirurgicamente vai desmembrando cada discurso, em cada trecho, desnudando a técnica utilizada pelo britânico e contextualizando com os eventos que ocorreram desde o dia de sua posse como Primeiro Lorde do Almirantado, em 3 de setembro de 1939, até a renúncia, como Primeiro Ministro do Reino Unido, em 26 de julho de 1945. Conforme o leitor vai avançando em cada discurso, torna-se impossível não reconhecer as razões de admiração por essa importante figura.
No livro, a reflexão acerca dos discursos de Winston Churchill proposta pelo autor pode ser resumida em duas perguntas:
Podem palavras e ideias, agrupadas em um texto, serem mais eficiente e mortais que a mais temível das armas? O discurso político permite reunir pessoas, grupos e países inteiros, produzir uma união capaz de ser tão coesa e forte, capaz de resistir tenazmente a derrotas, na esperança da vitória final? (p. 61/62)
Nesse sentido, o leitor é convocado a entender a importância do discurso como elemento motivacional, que pode ser usado para construir ou destruir, unir ou desunir, e até resgatar a sociedade da desesperança, consequência de uma guerra aparentemente perdida, para a esperança da vitória do mundo livre contra a tirania.
Dos capítulos I ao IV, Sondermann tem o cuidado de explicar ao leitor toda a construção de um discurso, a importância da retórica, da persuasão, do estilo e da imagem, e como o poder político é exercido por essas formas de comunicação. Conforme enfatiza o autor, para entender Churchill e como ele se tornou um exímio comunicador, mestre na arte da retórica, é preciso entender a força das palavras como instrumento de mobilização social.
Sondermann com a clareza e objetividade reproduzida em toda a obra explica:
O discurso, porém, só contém esta força se for gerido por um grupo detentor e legitimado de poder. Na verdade, é possível resumir esta força numa pessoa só. Um único homem, solitário e humano como qualquer um, portador de virtudes e defeitos, dotado de visão e preparo únicos, pode gerar essa energia positiva. (p. 62).
Especificamente no Capítulo III, o autor faz uma breve exposição sobre vida e a formação de Churchill, sobre quando estudou na Harrow School e, posteriormente, na Real Academia Militar, até chegar ao posto de maior poder no governo de Sua Majestade, o cargo de Primeiro-Ministro.
Importante frisar o curioso fato de que Churchill era um péssimo aluno de outras línguas, sendo como parte da punição escolar ter de aprender inglês com plena dedicação, e isso garantiu a Churchill a perícia necessária para manusear o idioma tão habilmente. Como jornalista encontrou na literatura o meio de sustentar a família, mesmo como parlamentar, uma vez que até então a atividade não era remunerada. Churchill em razão do talento como escritor viria a ser laureado com o Prêmio Nobel da Literatura em 1953.
A partir do Capítulo V até o XVI, o autor passa efetivamente, em cada capítulo, a estudar detidamente os discursos de Winston Churchill. Iniciando sempre com a contextualização histórica, narrando os eventos que antecedem o discurso, passando ao discurso na íntegra, para em seguida desmembrá-lo tecnicamente, explicitando a quem se direcionava (políticos, aliados, inimigos, povo ou todos), os objetivos e como as palavras do Primeiro-Ministro foram capazes de inspirar a mobilização e resistência inglesa.
Os discursos escolhidos por Ricardo Sondermann para análise no livro aparecem em ordem cronológica, sendo estes:
Capítulo V: Discurso de 3 de setembro de 1939, quando Churchill toma posse de Primeiro Lorde do Almirantado, tão logo a Alemanha invade a Polônia, a guerra efetivamente eclode;
Capítulo VI: Sangue, trabalho, lágrimas e suor. Discurso proferido em 13 de maio de 1940, quando Churchill é convidado, pelo Rei George VI, a tornar-se Primeiro Ministro, onde fez um marcante discurso de posse, sempre objetivo e honesto com o povo, inclusive, informando que diante dos acontecimentos não tinha nada a oferecer exceto sangue, trabalho, lágrimas e suor, conclamando o povo e o governo para uma grande coalisão contra o terror nazista.
Capítulo VII: O Melhor momento. Discurso de 18 de junho de 1940. Churchill expõe, perante uma Câmara lotada, que a derrota do Império Britânico seria a derrota da civilização, concluindo enfaticamente que “se o Império Britânico e sua Commonwealth durarem mil anos, os homens ainda dirão: “Este foi o seu melhor momento”.
Capítulo VIII: A guerra dos soldados desconhecidos. Discurso de 14 de julho de 1940. Naquele momento a França havia sido derrotada, e Hitler planejava invadir a Grã-Bretanha, sendo um período de grande tensão em razão dos pesados bombardeios aéreos contra o país. Nesse discurso, Churchill não esconde que a Inglaterra está sozinha, mas aponta o verdadeiro sentido da luta pelo qual os ingleses devem se engajar, a luta pela liberdade. Neste capítulo, Sondermann registra que dois famosos economistas tinham de se revezar no teto do King´s College para avisar da chegada de aviões alemães, Friederich August von Hayek e John Maynard Keynes.
Capítulo IX: Os poucos. Discurso de 20 de agosto de 1940. Famoso discurso em que Churchill exalta a vitória da Real Força Aérea ao reduzir drasticamente o número de aviões da força aérea alemã. Cravando na história a frase: “Nunca, no campo de conflito humano, tanto foi devido por tantos a tão poucos”.
Capítulo X: Jamais ceder! Discurso de 29 de setembro de 1940. Segundo Ricardo Sondermann este discurso tornou-se um dos mais importantes discursos de Churchill. Trata-se de um discurso em que Churchill resume taxativamente o sentimento da nação. Churchill repete jamais inúmeras vezes para destacar que “a vitória, a vitória a todo custo e que sem vitória não há sobrevivência”.
Capítulo XI: Sessão Conjunta do Congresso. Discurso de 26 de dezembro de 1941. Em 7 de dezembro de 1941 os americanos foram atacados pelos japoneses, em Pearl Harbor. A América entrava definitivamente no conflito. Sem perder tempo, Churchill parte imediatamente para os Estados Unidos a fim de trabalhar com os americanos numa estratégia conjunta da guerra, discursando perante o Congresso Americano.
Capítulo XII: O dia D. Discurso de 6 de julho de 1944. Churchill faz um breve relato na Câmara dos Comuns sobre a conquista de Roma e sobre o desembarque na Normandia. A brevidade no discurso é proposital diante do sigilo da operação, liderada pelos americanos, que resultara na vitória dos aliados.
Capítulo XIII: Palavras não podem expressar o horror. Discurso de 19 de abril de 1945. A vitória já era uma realidade e a medida que as forças aliadas avançavam rumo a Berlin, os crimes contra a humanidade praticados pelos nazistas eram revelados. Os aliados foram descobrindo a dramática extensão da barbárie do Holocausto. Churchill, perplexo, revela essa realidade ao Parlamento e ao povo.
Capítulo XIV: Vitória na Europa. Primeiro discurso de 8 de maio de 1945. Perante o Parlamento e com transmissão pela rádio, Churchill anuncia o fim da guerra na Europa. Era um momento alegria, apesar de contida pois a guerra ainda perduraria no front oriental contra os japoneses. A credibilidade do Primeiro Ministro está no auge. Os nazistas foram derrotados.
Capítulo XV: Esta vitória é de vocês. Segundo discurso de 8 de maio de 1945. Proferido da sacada do ministério da Saúde, diante de uma multidão, Churchill discursa em agradecimento, com palavras carregadas de emoção pelo tamanho do sacrifício suportado pelos ingleses.
Capítulo XVI: Discurso da renúncia. Discurso de 26 de julho de 1945. Surpreendentemente Churchill perde as eleições, o líder que tomou a frente e motivou o ocidente a lutar contra as trevas nazistas foi superado pela democracia. Os britânicos estão cansados da guerra, e Churchill na campanha ainda falava em seguir lutando contra outro mal, o comunismo e a URSS.
Diferente do que nós brasileiros estamos acostumados a ouvir dos políticos locais, Churchill não apresentava discursos com retóricas vazias, não era um sofista, suas falas tinham conteúdo, nos quais perdia horas escrevendo, sempre relatando os fatos de forma honesta ao povo sobre a guerra, sobre qual o andamento e sobre quais eram os próximos objetivos.
Os longos discursos proferidos por Churchill eram justificados pelo britânico com seu habitual e sarcástico bom humor que dizia: “Vou fazer um discurso longo porque não tenho tempo para preparar um curto”.
A retórica de Churchill também se ancorava na credibilidade que o britânico transmitia, como homem experiente, conhecedor não somente da língua, mas também do ofício e da guerra.
Para Sondermann, parte da persuasão dos discursos de Churchill reside na repetição de palavras ou frases enfáticas, como por exemplo, no famoso discurso Sangue, trabalho, lágrimas e suor em que ele repete a palavra vitória seguidas vezes, a fim de reforçar na mente do ouvinte o objetivo final.
Nos 12 discursos esmiuçados na obra, é possível afirmar, sem medo de errar, que Churchill era honesto e transparente para retratar a realidade, sem esconder do povo, mesmo nas horas mais severas, a gravidade da guerra, porém, estava sempre incitando esse mesmo povo a resistir, continuar lutando contra a maior ameaça aos valores da civilização ocidental que jamais fora enfrentada.
Cito, por exemplo, o discurso Melhor momento no qual Churchill não esconde a decepção com os lideres franceses pela forma com que conduziram a guerra, ao fim, rendendo- se aos nazistas, abandonando o Reino Unido sozinho para lutar pela liberdade e pela democracia, porém, sem perder o otimismo na vitória e na resiliência do povo britânico. Churchill convoca o povo a resistir contra Hitler afirmando ser “melhor morrer do que se submeter à tirania” e declara, desafiando, “Hitler sabe que terá de nos fazer sucumbir nesta ilha ou perder a guerra”.
Os discursos também eram voltados às nações da Commonwealth e aos americanos, convocando-os a lutar pela sobrevivência da civilização ocidental. Churchill sabia que os ingleses podiam resistir às investidas de Hitler, mas também sabia que vencer a guerra somente seria possível quando a força militar do filho independente, os Estados Unidos, se engajasse na guerra para resgatar o Velho Mundo.
No capítulo XVIII Sondermann responde os dois questionamentos transcritos no inicio desse texto. Não tenho dúvidas, porém, que o leitor, ao fim dos 12 discursos, chega a mesma conclusão. Ideias, agrupadas em um texto, podem ser mais eficientes e mortais que armas, e ideias são capazes de unir nações inteiras por um propósito. Churchill e seus discursos são evidências dessa verdade.
Nas palavras de Ludwig von Mises: "O primeiro passo de cada tentativa de investigar as mudanças sociais, políticas e econômicas deve ser o estudo das mudanças das ideias que orientaram os homens a produzirem tais mudanças" (MISES, 2017, p. 132).
O objetivo da obra é, essencialmente, demonstrar a relevância do discurso político e a sua força para motivar indivíduos.
Por fim, Ricardo Sondermann escreve um divertido capítulo, após toda a carga e intensidade de conteúdo do livro, e é possível dar boas gargalhadas com o que poderia ser o Twitter de Churchill, uma selecionada sequência de frases curtas e moráveis do britânico que revela seu ácido e sarcástico senso de humor, além de seu raciocínio rápido para elaborar respostas espirituosas para amigos e adversários.
Das frases espirituosas, encerro com a minha predileta: “Não se esqueça, Clementine, que já tirei mais do álcool do que o álcool tirou de mim”.
REFERÊNCIAS
MISES, Ludwig von. LIBERDADE E PROPRIEDADE. LVM, São Paulo, 2017.
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