Book Review
Como a moeda e a inflação moldam os rumos de nosso desenvolvimento econômico
Como a moeda e a inflação moldam os rumos de nosso desenvolvimento econômico
MISES: Interdisciplinary Journal of Philosophy Law and Economics, vol. 6, núm. 2, 15, 2018
Instituto Ludwig von Mises - Brasil
| MISES Ludwig von. Sobre a Moeda e Inflação. 2017. São Paulo. LVM. 272pp. |
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Contrariando a visão elitista de que muitos possam ter sobre o liberalismo e suas vertentes, o livro publicado pela Editora LVM chamado Sobre a Moeda e a Inflação, do grande expoente da Escola austríaca, Ludwig Von Mises, utiliza-se de uma estratégia acurada logo de início com sua capa deslumbrante e moderna, que chama a atenção de leitores até mesmo não habituados com o tema e tira a impressão academicista que geralmente se tem sobre obras do tipo, tornando-a mais atrativa ao público em geral.
Outra característica visual do livro são suas páginas, que foram elaboradas não em um tom de branco comum, mas sim em um tom pastel um pouco mais amarelado, que traz maior conforto à leitura, assim como a escolha das páginas negras na qual inicia-se cada capítulo. Os capítulos são curtos e diretos, o que faz com que se consiga ler o livro todo rapidamente sem se cansar.
O conteúdo do livro organizado por Evandro Ferreira E Silva, e como é explicado no próprio livro, foi traduzido originalmente da versão americana, que por sua vez foi traduzido da versão alemã, e trata-se de um compilado de palestras dadas por Mises ao longo do período em que lecionava na New York University. Por terem sido proferidas de forma aberta ao público, culminaram nesse esplêndido material que é estruturado de forma incomum aos seus habituais escritos formais, mostrando até mesmo um lado mais despojado (e as vezes até mesmo cômico) que Mises tinha para passar conhecimentos complexos.
A edição desse livro se torna especial por conter não tão somente material de autoria de Mises, mas também capítulos prólogos e de posfácio que complementam o seu pensamento de forma cirúrgica, principalmente ao explicar alguns conceitos básicos que vivenciamos no nosso cotidiano mas não que refletimos de forma mais profunda, e preparam o leitor ao conteúdo principal, como por exemplo o questionamento inicial que é feito no livro sobre os conceitos do que é dinheiro e moeda.
Assim como Friedrich Hayek, outro grande renome austríaco, seguidor de Mises e vencedor do Prêmio Nobel de Economia, Ludwig von Mises não defendia a abolição do Estado por completo, mas sim um Estado mínimo, que usasse de sua coerção e jus puniendi por fim de garantir que as pessoas cumprissem seus acordos aceitos por livre e espontânea vontade, pois acreditava que se não fosse assim, as pessoas recorreriam para o uso de coerção privada, que prejudicaria não só as partes envolvidas, mas a incolumidade pública como um todo.
Mises pensava assim com otimismo e porções de utopia, mas ao mesmo tempo admitia que a realidade acaba sempre por ser diferente. Mesmo delegando pouco poder ao Estado, este tende a se perpetuar de forma crescente, se tornando cada vez mais coercitivo de modo totalmente contrário aos princípios designados inicialmente.
Apenas a fim de comparação, Murray Rothbard (1974) difere de seu predecessor então ao pensar a questão de resolução de conflitos de uma forma totalmente privada, através de tribunais que na busca de obter êxito em seus negócios, buscariam ao máximo fazer justiça, para manter seus negócios em pé.
Trazendo então para miúdos, Mises tem uma boa leitura sobre como deve funcionar todo o sistema econômico, - principalmente ao explicar a importância de sistemas não manipuláveis como o padrão-ouro - e como problemas podem surgir, mas ele peca na forma como vê ser uma saída viável ao escolher uma menos danosa, ao invés de uma nada danosa.
Digo isso analisando no sentido de que Mises não defendia a total abolição do Estado, mas sim a ideia de um Estado eficiente, pouco intervencionista socialmente e nada intervencionista econômico-monetariamente falando, já que para ele, a mínima intervenção estatal na economia manipula a informação que o mercado tem, criando-se em maior ou menor proporção o caos, já que o mercado baseia-se quase que absolutamente em informações, o que contraria então o resultado inicialmente esperado pelos governos, que implementam políticas desastrosas e não sabem os motivos que as levam a dar errado, como o congelamento de preços por exemplo, método que é bem abordado na obra.
Mises também é prudente quando especula sobre futuros improváveis, e cita os críticos do sistema padrão-ouro que contestam o sistema estável que o é, mas aceitam o atual sistema inflacionário, que delega poder discricionário ao Estado, e que tributa o povo de forma difusa na intenção de que essa tributação fique camuflada. Entretanto ao longo do livro é explicado com maestria o motivo dessa camuflagem não ser efetiva.
De forma coesa e de certa maneira até mesmo simples, a linguagem dos textos funciona quase que como uma introdução à Economia, os conhecimentos são passados de forma leve e fácil de se entender, tendo alto grau de convencimento até mesmo para pessoas contrárias aos ideais liberais. Mises consegue explicar como a inflação é um dos grandes problemas mundiais, e como ela consegue atingir horizontalmente as massas dos países de forma atemporal.
No livro ele também explica todo o processo de como se dá a inflação, seja ela ocorrida de forma não pretendida ou de maneira puramente planejada para atender interesses específicos de certas classes governamentais.
Além de explicar o seu funcionamento e causa, é citado também a dificuldade que há em se estabelecer uma solução definitiva à inflação, já que os governos modernos não possuem incentivo algum para combatê-la de forma sistêmica senão para fins de popularidade eleitoral, isso aliado também ao fato de que as pessoas no geral não entendem e nem buscam entender mais profundamente como esse fenômeno ocorre, e por já estarem com uma mentalidade dogmaticamente “viciada” em uma cultura estatista, acabam esquecendo sua história passada e delegando toda sua confiabilidade sobre o tema para seus respectivos governantes. O desfecho, é claro, e não poderia ser outro, quase sempre resulta em políticas desastrosas. É como se pastores estivessem confiando a guarda de suas ovelhas à lobos famintos.
Mises viveu de 1881 à 1973, portanto vivenciou períodos de famosas guerras, tema este que era bastante abordado por ele. Sobre essa pauta ele explica sucintamente sobre as motivações dessas guerras e quais foram as políticas monetárias adotadas na época, nas quais são sempre inflacionárias, pelos mais diversos motivos. Alguns governos sabiam das consequências que ocorreriam caso praticassem tais medidas, mas mesmo assim o fizeram. Agravando ainda mais a situação, além disso, insatisfeitos com os resultados nos quais já haviam previsto, ainda decretaram soluções que apenas pioraram as situações com as quais lidavam.
Essa parte do texto lembra muito o filme Die Fälscher de 2007, (Os Falsários no Brasil) no qual conta a história real da tática alemã durante a Segunda Guerra para financiar a guerra através da impressão de cédulas de dólares e libras esterlinas, demonstrando na prática então o que dizia Mises sobre a fragilidade da moeda fiduciária estatal e as consequências de políticas inflacionárias.
O livro também traz explicações sobre como as noções populares sobre o capitalismo estão equivocadas, e como o capitalismo evolui conforme as mudanças do sistema monetário mundial, ao mesmo tempo em que é deturpada pelo Estado.
É notável toda a facilidade e qualidade didática que Mises possui, ao utilizar de exemplos históricos concretos e outros exemplos análogos inventados que ao se juntarem se complementam em uma mistura que consegue fazer com que qualquer um compreenda com pouco raciocínio o motivo de não se poder simplesmente imprimir mais dinheiro, quais as consequências dessas ações e também o porquê destas ideias ainda não terem sido erradicadas, mas muito pelo contrário, ainda serem fortemente praticadas. É também nos evidenciado um pouco da mentalidade dos governantes que independente da ideologia ou dogmas tendem a ser similares quanto à política e obtenção de resultados, o que responde também um pouco das questões anteriores.
Analisando também a mentalidade das massas, nos é evidenciado que em quase todo o globo o populismo é a grande tendência pois é o que inconscientemente o povo almeja. Mesmo que não se possa manipular artificialmente as taxas de juros, a população sempre demandará menores taxas de juros e maior número de circulação de cédulas no mercado mesmo que não haja a criação de novos bens de capital, o que permite (leia-se aqui, obriga) que o governo atenda aos anseios da população por uma segurança aparentemente imanente e atual através de inflação, mas segurança essa que é destruída em pouco tempo justamente pelas ações inflacionárias.
Algo que pode ser facilmente detectado pelo leitor mais ávido, em qualquer época em que venha a ler o livro, são as predições de Mises no que tange às consequências absolutas que advém de interferências estatais na economia, que acabam quase sempre se identificando ao cenário econômico atual, seja no país em que se resida ou em qualquer outra grande nação.
Situações que inicialmente parecem ser imprevisíveis, são facilmente explicadas e posteriormente comprovadas pelos escritos de Mises, como por exemplo o protecionismo econômico, muito defendido por alguns líderes atualmente e que já comprovou ser uma política totalmente prejudicial a qualquer povo.
Em um ponto um pouco mais técnico da obra é discutido também um pouco de toda a história e desenvolvimento do sistema monetário mundial e a política de juros na relação com a privatização/nacionalização de segmentos, novamente mostrando o Estado como força motriz de todos os encalços econômicos que ocorrem, e como ele age para esquivar de todas as responsabilidades, culpando sempre indivíduos alheios à situação.
Mostrando um pouco da comicidade que já havíamos anteriormente citado, ao longo de toda a obra Mises não poupa críticas à John Maynard Keynes, talvez o mais notável teórico inflacionista de todos os tempos. Novamente se utilizando de algumas possibilidades e alguns casos concretos, Mises critica toda “ignorância” de Keynes e como seu legado depois de tanto tempo continua a prejudicar a economia do mundo moderno.
Logo sem perceber então terminamos o livro com o sentimento de querer ainda mais. Essa nova edição é então um grande privilégio ao nos dar um grandiosos posfácio que ao mesmo tempo que é bem técnico ainda assim consegue explicar de forma minuciosa todos os conceitos deixados por Mises sobre o que é moeda, qual sua função e como ela age em nosso cotidiano, refutando totalmente qualquer teoria que defenda o não cálculo econômico, como as teorias marxistas por exemplo.
Complementando um pouco do conteúdo do livro, o posfácio faz um destaque especial à questão da equivalência e paridade de câmbio de moedas distintas ou idênticas mas em condições diversas, ajudando-nos a entender a forma como se dão os preços e qual a lógica se usa quando são convertidos para outras moedas.
Se pensarmos mais profundamente, poderemos nos imaginar qual a origem da moeda e qual o motivo de utilizarmos esse sistema, já que as moedas, seja ela o ouro, prata ou qualquer outro tipo de moeda-papel só tem valor porque as pessoas em sua unidade creem que ela tenha valor, seguindo primariamente o princípio da oferta e demanda. Através da junção de pensamentos de alguns importantes teóricos além de Mises, o livro nos faz raciocinar sobre quais teóricos possuem melhor entendimento sobre essas questões, e nos elucida esses pontos controversos, principalmente ao responder por exemplo que a moeda surgiu não de forma forçada ou fiduciária como é atualmente, mas sim de uma necessidade teórica generalizada que existia nos tempos mais antigos.
Ao explicar a impossibilidade se manter um sistema econômico baseado na fixidez e no congelamento de preços, creio ser o argumento mor para comprovar que é impossível se manter um sistema econômico onde a interferência é suficiente para modificar qualquer ação naturalmente humana que seja, pois o que vem a seguir acaba sendo em todas as vezes algo inevitavelmente falho e que posteriormente se desmorona. Dentro do mesmo pensamento também é possível desmistificar a ideia de que o livre mercado é baseado no consumismo, quando na verdade o livre mercado é baseado na acumulação de capital e em posteriores investimentos, ou seja, o oposto, que se dá justamente por essa incerteza do mercado, ao contrário de sistemas planificados de economia, onde o que se ganha se gasta, inexistindo essa escalada de investimentos.
Por fim é discutido qual seria o melhor processo para regressarmos a um sistema monetário verdadeiramente estável e incontrolável por meios estatais assim como era o padrão- ouro puro. Se ao longo da História este tivesse se mantido, teria se adequado perfeitamente à modernidade, mas na situação atual onde todo um sistema prejudicial, inflacionário e baseado em reservas bancárias fracionárias já está instituído, esse é um caminho estreito a ser passado.
No livro não se cita, mas uma das formas que vem ganhando força nos últimos tempos e tem condições de se tornar esse sistema, são as criptomoedas, que funcionam no mesmo sentido do padrão-ouro, podem possuir limitação de emissão, e não são controladas de forma centralizada por ninguém além de ser imaterial, uma vantagem inestimável quando comparada ao ouro.
Destarte tudo isso pode-se notar com total convicção todo o esplendor que é esta obra, que recebe ainda mais prestígio nessa edição brasileira remasterizada e que conta com comentários complementares de especialistas no assunto. Tudo isso contribui para que a obra tenha todos os requisitos para se tornar popular e suas ideias possam ser massivamente disseminadas para todos os indivíduos dos mais diferentes intelectos e classes, o que auxilia a dar maior liberdade às nações e construir a um futuro próspero.
Autor notes
* Estudante de direito pela PUC-Goiás e coordenador do Students for Liberty Brasil. mayconkevinn@hotmail.com