Dossiê

Quem narra um conto, aumenta um ponto: responsabilidade social e escrita colaborativa a partir dos desenhos infanto-juvenis da Guerra do Contestado

A tale never loses in the telling: social responsibility and collaborative writing based on children’s drawings from the Contestado War

Quien cuenta un cuento, aumenta un punto: responsabilidad social y escritura colaborativa a partir de dibujos infantiles de la Guerra del Contestado

Rogério Rosa Rodrigues
Universidade do Estado de Santa Catarina, Brasil

Quem narra um conto, aumenta um ponto: responsabilidade social e escrita colaborativa a partir dos desenhos infanto-juvenis da Guerra do Contestado

Revista NUPEM (Online), vol. 14, núm. 33, pp. 64-82, 2022

Universidade Estadual do Paraná

Recepción: 02 Mayo 2022

Aprobación: 03 Julio 2022

Resumo: O que as crianças têm a dizer sobre experiências de violência e morte em tempos de guerra e de acirramento de repressão política? Tendo como ponto de partida oito desenhos produzidos por crianças que vivem em um dos municípios que serviu de palco para a Guerra do Contestado, convido a uma reflexão sobre a escrita colaborativa entre escola e universidade. A descrição interpretativa foi usada como método e como estratégia narrativa do texto. Por meio dela, mantém-se o compromisso de levar adiante o que foi contado ao autor, ao mesmo tempo que buscou cruzar esse relato com informações complementares dispo-níveis na historiografia e na documentação sobre o Contestado. O resultado proposto é uma escrita colaborativa que articula relato de experiência com análise de imagens, responsabilidade ética com compromisso social com a memória e a história dos mortos e dos remanes-centes vivos do Contestado.

Palavras-chave: Guerra do Contes-tado, Desenhos infantis, História pública, História do tempo presente.

Abstract: What do children have to say about experiences of violence and death in times of war and heightened political repression? Taking as a starting point the eight drawings produced by children who live in one of the cities used on the battlefield during the Contestado War, I invite you to reflect on collaborative writing between school and university. The interpretive description was used as a method and a narrative strategy for the text. Through it, the commitment is maintained to carry forward what was said to the author, at the same time that it aims at comparing this report with complementary information available in the historiography and in the documen-tation about the Contestado. The proposed result is a collaborative writing that articulates an experience report with image analysis, ethical responsibility, and social commitment with the memory and history of the dead and the living remnants of the Contestado.

Keywords: Contestado War, Children’s drawings, Public history, History of the present time.

Resumen: ¿Qué tienen que decir los niños sobre las experiencias de violencia y muerte en tiempos de guerra y represión política intensificada? Tomando como punto de partida ocho dibujos realizados por niños que viven en uno de los municipios que sirvieron de escenario a la Guerra del Contestado, los invito a reflexionar sobre la escritura colaborativa entre escuela y universidad. Se utilizó la descripción interpretativa como método y como estrategia narrativa del texto. A través de ella se mantiene el compromiso de dar continuidad a lo contado al autor, al mismo tiempo que se busca cruzar este informe con información complementaria disponible en la historiografía y en la documentación sobre el Contestado. El resultado propuesto es una escritura colaborativa que articula un relato de experiencia con análisis de imagen, responsabilidad ética con compromiso social con la memoria e historia de los muertos y remanecientes vivos del Contestado.

Palabras clave: Guerra del Contestado, Dibujos infantiles, Historia pública, Historia de la actualidad.

Introdução

Tudo começou com as indicações de algoritmos após uma noite exaustiva de trabalho. Era outubro de 2020. O Brasil sofria com a triste somatória de 150 mil mortes por Covid-19. Em 30 de setembro do mesmo ano os dados oficiais indicavam mais de mil mortes por dia. Assombro. Sem saber que a tragédia estava apenas começando. Esse também foi um ano de desastre ambiental. O pantanal ardeu em chamas. Em cenas que pareciam remeter aos filmes de catástrofe presenciamos, como expectadores assombrados, 1.356,935 hectares de extensão transformados em brasa. O ritmo do trabalho remoto, em especial no campo educacional, acirrou problemas de saúde física e mental.

Foi nessa moldura pandêmica que tomei conhecimento, pela rede social Facebook, de um concurso de desenhos infanto-juvenis promovido nas escolas de Lebon Régis (SC) e que tinha como tema a Guerra do Contestado (1912-1916). No passado, o município foi ocupado por homens e mulheres do conflito rebelde. As imagens feitas pelos candidatos infanto-juvenis foram divulgadas na página da Associação Cultural Coração do Contestado. A proposta foi promovida em parceria com a secretaria de educação de Lebon Régis. Eram aproximadamente trezentos desenhos. O que se apresentou a mim, nas imagens que acessei, foi fundamental para revisar a perspectiva de tempo histórico que eu tinha, repensar a potência da escola e ressaltar a importância dos desenhos como vestígios da história do Contestado. Nada disso ocorreu de imediato, mas no processo de análise e narrativa das imagens fui compreendendo o significado que aquele material tinha como testemunho de uma história traumática. O fato de atuar na fronteira da história do tempo presente com a história pública ajudou a refletir sobre a importância daqueles testemunhos em forma de imagens.

O que as crianças têm a dizer sobre experiências de repressão, violência e morte em tempos de guerra e de acirramento de repressão política? Como podemos aprender com o testemunho de remanescentes do Contestado, em especial a partir da imaginação materializada em imagens sobre determinado episódio histórico? A partir da seleção de oito desenhos, proponho destacar a importância da narrativa infanto-juvenil como memória do passado que irrompe no presente. No processo de apresentação e análise das fontes, convido a uma reflexão sobre a escrita colaborativa entre escola e universidade.

Coloco em foco aqui a escrita colaborativa em que os desenhos infanto-juvenis não se reduzem a citações estéreis, tampouco em ilustrações para uma abordagem historiográfica sobre a Guerra do Contestado. Eles são o ponto de partida, o meio e o fim dessa análise. Por isso, o uso sistemático dos desenhos para iniciar cada aspecto da guerra. Por meio deles convido o leitor e a leitora a ingressar no universo do conflito social do Contestado (1912-1916), mas também nas suas reminiscências atuais. Ao colocar os desenhos em primeiro plano quero registrar que a narrativa primeira foi feita pelas crianças e adolescentes.

O recurso que achei mais adequado para seguir o fio condutor da narrativa iniciada pelas crianças de Lebon Régis, foi repetir, por meio da descrição interpretativa, o que nos foi confiado em desenho para, em seguida, acrescentar novos detalhes ao relato. Podemos nomear essa estratégia metodológica, que também é estética, como aquela do dito popular de quem conta um conto, aumenta um ponto. Nesse caso, os acréscimos feitos por mim, não buscam se sobrepor ao que me foi sensivelmente confiado1, mas levar adiante a narrativa, sendo fiel ao relato corporificado em desenhos efetuados em folha A4.

É preciso registrar ainda que essa história é tecida em várias vozes. Se o desenho foi feito pelas crianças e adolescentes, ele foi proposto por uma associação composta por moradores locais que se identificam como descendentes dos homens e mulheres do Contestado - a Associação Cultural Coração do Contestado -, e sua concretização foi possível porque professoras e professores, que também são intelectuais mediadoras/es, aceitaram o desafio proposto, incentivaram e orientaram seus discentes a narrar aspectos da tragédia da guerra. Além dos profissionais da educação, é também preciso ressaltar os usos e apropriações que movimentos de lutas pela terra, situados no planalto catarinense, têm feito da história da rebeldia sertaneja. Soma-se a isso, a circulação da historiografia da Guerra do Contestado, que tem chegado na região por meio de atividades como formação de professores/as, eventos culturais e científicos, caminhadas em sítios histórico-naturais e documentários sobre o conflito. Trata-se de uma polifonia de vozes, testemunhos e sobrevivências.

Além dos desenhos serem o início e o meio para a construção desse texto, são também a finalidade para a qual, sem eles, essa proposta não faria sentido. Isso porque, ressaltar a importância dessas imagens é também afirmar a potência da escola, da educação e da imaginação histórica. Por isso, iniciarei com o desenho de Mateus Nogueira Siabeni (Imagem 1), e finalizarei apresentando como o contato que tive com ele afetou minha vida profissional, assim como a do próprio estudante.

No conjunto de mais de trezentos desenhos, selecionei apenas oito para apresentar ao leitor e à leitora. Os critérios utilizados foram os aspectos da guerra colocados em primeiro plano, tais como violência, exploração sócio-política e desastre ambiental, mas também a linguagem narrativa (incluindo formas, cores e personagens) escolhida para representar um assunto tão complexo, quanto vivo, na memória local.

Trata-se, na concepção e na expectativa deste autor, de uma escrita colaborativa que tem reverberado, e muito, sobre a minha forma de pensar a história do Contestado, mas também a própria narrativa e teoria da história contemporânea, em especial, a múltiplas conexões que venho propondo entre história do tempo presente e história pública (Borges; Rodrigues, 2021). Isso porque o exercício de produzir conhecimento para, e com a escola, envolve responsabilidade social, temporalidades múltiplas, mediação intelectual, compromisso político com os mortos do Contestado, assim como ficar atento às expectativas que a comunidade deposita em professor universitário que chega na região para conhecer aspectos da vida e da memória de quem tem que lidar diariamente com as reminiscências e consequências dessa guerra.

Envolve também repensar o estatuto e a autoridade dos arquivos. O que podem as crianças dizer sobre a história de uma guerra ocorrida há mais de cem anos? A imaginação infanto-juvenil, materializada em desenhos, permite acessar experiências do passado? É possível dar crédito a relatos infantis e fazer deles testemunhos históricos? Espero que o exercício de escrita colaborativa efetuado abaixo convença leitoras e leitores, como estou convencido, de que tudo isso é não somente possível, como urgentemente necessário. Vamos afinar nossos sentidos para ouvir o que as crianças e adolescentes de Lebon Régis têm a dizer sobre o passado histórico e suas assombrações no presente.

Ontem, hoje e amanhã: a Guerra do Contestado na imaginação infanto-juvenil

O trilho da morte
Imagem 1:
O trilho da morte
Fonte: Siabeni (2020).

O Contestado foi dividido em dois tempos: à esquerda a cidade santa e a vida desejada: fartura, trabalho, equilíbrio. O verde predomina e a natureza está em harmonia com o jovem trabalhador e seu animal doméstico. A vegetação típica foi ressaltada, com predomínio da araucária, onipresente no planalto catarinense e fonte de alimento do povo local.

À direita, a devastação ambiental e a tragédia social. Isso está marcando tanto nas árvores cortadas e nas pessoas assassinadas, quanto pelo predomínio do marrom, onde outrora fora verde. O trilho da estrada de ferro é o marco divisório entre o mundo ideal e o que foi devastado com a promessa de progresso. O desenho resolve problemas complexos da narrativa histórica colocando em mesmo plano temporalidades distintas: o futuro almejado pelos homens e mulheres do Contestado e o passado presente instaurado com a chegada da estrada de ferro Brazil Railway Company. Os impactos que a construção dessa ferrovia causou na economia, na política e na cultura local é um dos aspectos mais analisados na historiografia sobre o Contestado, com destaque para os trabalhos de Monteiro (1974), Diacon (1991), Valentini (2009) e Espig (2011). O título do desenho é bastante emblemático da crítica social que historiadores e historiadoras têm feito ao abordar o tema: o trilho da morte.

Quando fez esse desenho Mateus Nogueira Siabeni tinha 10 anos de idade. Estudante da escola rural Trinta de Outubro, provém de uma família de pequenos produtores rurais que planta para subsistência e vende o excedente para complementar o sustento da aposentadoria da avó e do avô, com quem vive.

No desenho, a bandeira branca com cruz verde ao centro, situada ao lado do homem morto na paisagem devastada, é a marca distintiva de que se trata de representação da história da Guerra do Contestado. Sem ela, ou junto a ela, esse cenário poderia remeter ao Brasil contemporâneo, com o recorrente assassinato de lideranças políticas que lutam pela terra, com a expulsão de trabalhadores e trabalhadoras efetuada por grandes companhias, com a devastação ambiental sem peias, acelerada, ano a ano e, em alguns casos, beneficiada com a conivência de autoridades políticas e policiais. A bandeira, embora fora da zona de foco, é o item que remete à devoção e fé do povo do Contestado nos monges João e José Maria (Silva, 2022), nos santos e anjos que fizeram, e fazem, parte da legião de protetores e inspiradores da luta rebelde. Entre eles, São Jorge, Nossa Senhora, São Miguel e São Sebastião.

Todas as guerras, uma guerra

Capítulos da Guerra do Contestado
Imagem 2:
Capítulos da Guerra do Contestado
Fonte: Santos (2020).

A opção dessa criança foi pela apresentação dos tópicos considerados centrais para a eclosão do conflito social, oficialmente delimitado entre os anos de 1912 e 1916 (Imagem 2). A Guerra do Contestado é tradicionalmente associada: a) à disputa de fronteiras entre Paraná e Santa Catarina (por isso o nome Contestado); b) à chegada da estrada de ferro dirigida pelo mesmo empreendedor que construiu a Madeira/Mamoré: Percival Farqu’ar; c) à expulsão de pequenos posseiros de suas terras em consequência da concessão feita pelo governo federal à Brazil Railway Company, cedendo 15 km de cada margem da estrada de ferro construída para explorar a madeira, lotear as terras e vendê-las a imigrantes europeus; d) à fome e à miséria instaurada na região com a política de repressão e de violência de estado instaurada no território; e) à religiosidade do povo local, identificada como messiânica em função da crença na ressurreição dos monges populares conhecidos como João e como José Maria (Queiroz, 1981; Machado, 2004).

Mais que os tópicos oficiais listados nesse desenho, convém observar os elementos escolhidos para representar cada aspecto do conflito. O tanque foi usado como metonímia da guerra, ou seja, ele representa todas as guerras, do passado e do presente. Talvez por isso o recurso do anacronismo de um instrumento bélico contemporâneo transportado para o sertão do Contestado nos idos de 1914 seja tão potente. A querela jurídico-política entre Paraná e Santa Catarina foi sintetizada nas duas bandeiras estaduais dispostas em oposição. A ferrovia, em registro mais literal, ganhou tons escuros com um trem de ferro marrom. A expulsão dos posseiros foi destacada com uma mão segurando cartão roxo como a indicar que a partir daquele momento os posseiros estavam impedidos de seguir trabalhando em suas terras. Mão que não tem corpo, mas que aparece em primeiro plano ocupando toda a margem esquerda do retângulo. O prato vazio é a síntese da fome que acomete a população, tanto ontem, como hoje, em especial crianças em situação de vulnerabilidade social. O messianismo tem como figura um homem olhando para o futuro e tendo a mão direita um cajado.

A última imagem tem como título “movimento popular”, e está representado por pessoas unidas, como um só corpo multiplicado em quatro. Nas margens encontramos duas bandeiras e, no centro, acima da cabeça do povo unido, um porrete com sinais indicando ação. Parece ter uma construção sequencial nesse desenho: começa com a força militar, passa pelos problemas políticos e sociais, mas termina com destaque para a fé messiânica e o movimento popular. O desenho foi feito por Iandra Luana Goetten dos Santos, estudante do 5º ano e aluna da escola Santa Terezinha.

A paisagem como testemunho histórico

Paisagem em verde e azul
Imagem 3:
Paisagem em verde e azul
Fonte: Paolazzi (2020).

A paisagem natural foi o tema central da imagem 3. Além das araucárias, aparece o território montanhoso do planalto catarinense. Soma-se a ele um sol vermelho outonal e um animal diante de uma semente que lhe servirá de alimento. Como não destacar a capacidade de registrar esse cenário trabalhando com sobreposições de verde? O habilidoso uso do lápis de cor chega a colocar em dúvida se não se tratou de uso de tinta guache. Mérito da artista. A terra, as montanhas, as árvores, o céu e os animais são os primeiros elementos do cenário do Contestado. Cenário que é vida e que nos é apresentado em sua grandiosidade. Passados mais de cem anos do conflito, a floresta de imbuias e araucárias foi tomada por pinus plantado em grande escala para satisfazer o mercado, mas o relevo, assim como algumas árvores centenárias, resistiu ao tempo e aparecem no cenário local como testemunhas diretas do crime social e ambiental ocorrido durante a Guerra do Contestado.

Durante a resistência ao poderio bélico e político do Estado contra a população local, o conhecimento desse território foi de fundamental importância. Embrenhados na mata, cavando túneis, escondidos atrás de gigantescas imbuias, os rebeldes miravam os homens das forças de repressão sem serem notados e, com essa estratégia de guerrilha, ganhavam vantagens sobre o poderoso armamento bélico do exército nacional. Além disso, as cidades santas foram construídas estrategicamente em vales de difícil acesso, próximo a montanhas que permitiam indicar guardas para avistar a chegada dos inimigos, mas ao mesmo tempo estar mais próximo do sagrado.

Ressaltar a paisagem natural como símbolo do Contestado, especialmente com tons verdejantes, também pode ser pensado como uma defesa do meio ambiente. Um louvor que se faz necessário em cenário que, no passado, foi destruído em nome do progresso, enquanto na atualidade se vê ameaçado por ações criminosas de queimadas e de exploração madeireira e de garimpo ilegal. O desenho foi feito por Letícia Paolazzi, estudante do 4º ano, da escola Nucleada Municipal Santa Catarina.

Das águas santas ao monge descoberto

As águas santas do monge
Imagem 4:
As águas santas do monge
Fonte: Henrique (2020).

A figura dos monges João e José Maria é uma das mais importantes na história do Contestado. No passado, foram as prédicas, o conhecimento das ervas medicinais, os batismos, casamentos e benzimentos efetuados na população local que conferiu santidade popular a esses homens. As pesquisas historiográficas demonstram que foram muitos os andarilhos que ganharam o título de monge João Maria, mas quem primeiro inaugurou essa legenda sacra foi o italiano Giovanni Maria de Agostini (Karsburg, 2014). Ele passou pelo planalto catarinense em meados do século XIX, percorrendo o caminho dos tropeiros que ligava o Rio Grande do Sul a Sorocaba.

Depois de Agostini, outros homens atravessaram o território catarinense repetindo prédicas bíblicas, curando as pessoas e batizando as crianças. Durante a Revolução Federalista novo João Maria foi registrado nos documentos de época. Ele cuidava dos atingidos pela guerra passando a bandeira do divino nas feridas e atribuindo os males da época à recém implantada política republicana (Fachel, 1995). José Maria foi o terceiro monge documentado, em especial nos registros da imprensa local (Kunrath, 2020). Profundo conhecedor de ervas medicinais, curou a esposa de importante coronel da região. Foi perseguido pela oposição política desse mesmo coronel e acabou morrendo em confronto policial em episódio que serviu de estopim para a emergência da santa religião do Contestado: a Batalha do Irani, ocorrida em outubro de 1912.

Atribui-se aos monges a defesa da natureza, pregando contra a devastação ambiental e defendendo as nascentes de água (Welter, 2018). Foi a crença nos monges que permitiu a organização da santa irmandade do Contestado, assim como a constituição das cidades santas. Também é graças a essa figura santificada popularmente que hoje a Guerra do Contestado é revivida socialmente, por meio de romarias, benzimentos e batismos familiares. Na imagem 4 encontramos o santo popular do Contestado encoberto na paisagem natural.

O monge está diante de um rio que corta toda a superfície do desenho e, por conseguinte, da paisagem. Perto dele uma cruz sinalizando o túmulo de alguém (talvez do próprio monge ressuscitado), uma ave e as árvores monumentais. Seu traje é modesto: calça, um casaco simples, sandálias de tiras aos pés. Um balão com os dizeres: “que seja abençoada essa água” foi cuidadosamente destacado. Com ele refaz-se a defesa da paisagem natural como elemento incorporado nas estratégias de luta dos homens e mulheres do Contestado. Luta que se fez no passado, mas renovada diariamente. As fontes de água santa do monge, ou o olho d’água do monge, aparecem em diversas regiões do Rio Grande do Sul a São Paulo (Espig; Kunrath, 2018). Em Santa Catarina elas também são espaços sagrados e de memória do Contestado. São usadas para batizar as crianças, para lembrar que a água é fonte de vida e que as nascentes são dádivas sagradas. Desenho feito por José Henrique, proveniente do assentamento Rio dos Patos.

A perversidade da política: os retirantes

Os retirantes do Contestado
Imagem 5:
Os retirantes do Contestado
Fonte: Ferreira (2020).

Um casal de retirantes sem rostos. As crianças, o instrumento de trabalho na roça e o embornal com pertences pessoais compõem a paisagem humana que registra a tragédia social. A mulher parece estar grávida, o que faz ressaltar a crueldade da cena. Em destaque aparecem a linha férrea e a locomotiva. O céu colorido é invadido pela fumaça marrom que chega tão alto no céu que ultrapassa a araucária. A madeira disposta em lâminas é a matéria transportada nos trilhos do progresso. Enquanto a riqueza natural é explorada e retirada da região, a condição social dos/as trabalhadores/as é precarizada.

A conexão dessa imagem com a historiografia do Contestado é tão relevante quanto as demais. A Southern Brazil Lumber and Colonization Company foi instalada sob o subsídio da construtora da estrada de ferro. Essa madeireira internacional instaurou uma tecnologia de ponta na região e devastou as árvores centenárias, explorou a mão de obra local e depois loteou as terras e vendeu para imigrantes estrangeiros (Valentini, 2009; Tomporoski, 2013). A consciência dessa exploração chegou a ser registrada por um dos homens do Contestado morto pelos soldados do exército. No bolso de seu casaco foi encontrado um bilhete, reproduzido nas fontes militares, que dizia: “nós não temos direito a terras, foi tudo pras gente das Oropa” (Assumpção, 1917, p. 245).

Escolher essa cena para representar o Contestado não é algo de somenos importância. O conflito é reivindicado pelos movimentos de luta pela terra que atuam na região onde esses desenhos foram produzidos. Já destaquei, em outro contexto, a importância do trabalho efetuado nas escolas de Lebon Régis, bem como o papel da Associação Cultural Coração do Contestado na atualização da memória e da história desse conflito rebelde (Rodrigues, 2021a). Filhos e netos de pequenos agricultores que vivem em assentamentos oficializados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) convivem com os usos políticos do passado do movimento do Contestado. Esse contexto nos ajuda a compreender as escolhas efetuadas pela criança que fez a imagem 5. Também não se pode deixar de ressaltar o papel das/os professoras/as nesse processo. Sem a mediação dessas profissionais, esse exercício seria difícil de se concretizar ou, quem sabe, ganharia contornos menos políticos. O autor do desenho é Vitor Ferreira, 5º ano, estudante do núcleo Rio Doce.

Vestígios materiais de uma guerra prolongada

As armas da guerra
Imagem 6:
As armas da guerra
Fonte: Goes (2020).

A forma como a imaginação infantil resolve problemas complexos de representação histórica é algo que merece mais atenção. Na imagem 6 a linha férrea novamente serve como marco cronológico para o mundo da utopia e o mundo da violência. O trem de ferro irrompe sombrio da direita para a esquerda, anunciando a morte e a devastação. Destaquei acima (Imagem 1) como o espaço das cidades santas, ou do mundo sem males, é rodeado de florestas verdejantes e de rios caudalosos. A ênfase nesse cenário, em contexto atual de desmatamento, de queimadas criminosas e de aquecimento global, é algo sintomático nos desenhos infantis.

Vale observar como a morte aparece representada na imagem 6. Dois corpos dispostos, com olhos esbugalhados, jazem no chão. Pistolas, facões e revólveres aparecem em tamanho desproporcional espalhados no mesmo solo em que os corpos se encontram. A violência escancarada sem meias verdades. O que resta de uma guerra senão corpos e armas abandonadas? Os corpos são infantis, assim como os traços dos objetos. Outra imagem sintomática, pois a violência da guerra não faz distinção entre adultos e crianças, homens e mulheres.

Convém registrar que até hoje, nos campos do planalto catarinense, projéteis da época da guerra são encontrados por agricultores ao revolver a terra na intenção de preparar o solo para o cultivo. O museu do Jagunço, em Fraiburgo (SC), foi construído tendo como acervo básico esses objetos da cultura material de origem bélica encontrados na região (Silva, 2017). Desenho de Paulo Ricardo Goes, escola Princesa Isabel.

Barbárie e assombros de uma guerra sem fim

A batalha final
Imagem 7:
A batalha final
Fonte: Barbosa (2020).

Embora a morte natural seja um assunto delicado para tratar com as crianças, a imaginação infanto-juvenil não tem limites para representar a violência da guerra. Diferentemente dos registros fotográficos do Contestado, que raramente exibiram morte e destruição (Rodrigues, 2008), os desenhos produzidos em Lebon Régis não poupam detalhes. Na cena acima as mulheres têm suas mãos amarradas, enquanto os homens são assassinados. Elas assistem, sem defesa, a um homem já ferido caído ao chão tentando se defender do facão inimigo. A posição com que o homem ergue sua mão para tentar atacar indica que está prestes a deferir o golpe fatal em alguém já ferido e incapaz de lutar. À direita, um homem ajoelhado é degolado, abaixo dele, outro homem tem a cabeça sangrando, enquanto o algoz prepara novo golpe. Na parte superior, uma mulher de cabelos longos eleva os braços para o céu enquanto alguém, que tem em uma das mãos um facão ensanguentado, aponta, com a outra mão, o revólver que deferirá o último tiro. Ao que parece, se compraz em aguardar o fim da oração que a mulher entoa ao olhar para o céu.

A diferenciação entre os rebeldes do Contestado e seus algozes, aparentemente jagunços a serviço dos coronéis locais, é feita pela cor da indumentária. Os que vestem amarelo fazem parte das forças de repressão. Um homem segura a mão de uma criança, como se fosse uma tentativa de protegê-la da barbárie. Mas como isolar a percepção de uma criança em campo de guerra com os choros, tiros, golpes de facão e gritos de batalha, como aquele que aparentemente é bradado pelo homem que ergue sua arma atrás do pai que tem o chapéu na mão? Como imaginar a ferida que se abre na mente dos/as sobreviventes de uma tragédia como essa? Como, e por que, uma criança reconstitui/imagina, uma cena com tantos detalhes, para representar a repressão político-militar de trabalhadores do campo que reivindicavam uma vida mais justa?

Se voltamos à narrativa encontramos, em primeiro plano, na parte inferior, o monge José Maria com a bandeira do Contestado, e Maria Rosa, a jovem liderança rebelde, portando uma espada. Os dois estão montados em cavalos, indicando o papel de destaque que possuíram dentro do conflito. Trata-se de uma licença poética, ou, se preferirmos, uma referência externa a esses personagens. Isso porque Maria e Rosa e José Maria não foram contemporâneos. O último monge morreu em outubro de 1912, antes mesmo da criação das cidades santas (a partir de dezembro de 1913). Maria Rosa, a jovem de 15 anos, por sua vez, se destacou como liderança em Caraguatá, mais precisamente a partir de abril de 1915.

Ao que parece o jovem artista reservou as margens inferiores da obra para fazer referências gerais ao conflito: as lideranças citadas, a madeireira internacional representada pelas árvores cortadas, a estrada de ferro, a bandeira do município de Lebon Régis e o coração com a cruz verde ao centro, referência a Associação Cultural Coração do Contestado, que promoveu o concurso de desenhos. As araucárias, representadas nas bordas superiores da imagem, registram o cenário local. Luiz Alberto de Souza Barbosa, do 7º ano, estudante da escola Santa Terezinha, intitulou seu desenho de “A batalha final”.

A gralha azul e a força ancestral das araucárias

A gralha azul
Imagem 8:
A gralha azul
Fonte: Silva (2020).

O último desenho em destaque volta ao primeiro trabalho aqui apresentado. Trata-se de um pássaro azul solitário diante do trilho da estrada de ferro. Ele olha para o expectador/a do desenho. Nas duas margens foram incluídas araucárias imponentes, tendo à esquerda uma bandeira com a cruz verde ao centro. É a gralha azul. Essa mesma ave aparece no desenho do Mateus (Imagem 1). Se voltarmos a ele e afinarmos nosso olhar para a araucária que aparece na margem superior direita do desenho, veremos o pássaro repousando no galho da árvore.

A gralha azul é um pássaro familiar para quem vive na região, e sua função como reflorestadora da mata nativa é conhecida e exaltada por crianças, jovens e idosos. Representá-la de forma imponente e proporcionalmente maior que a estrada de ferro, é digno de nota, pois remete à sua importância no contexto de quem vive na região. Desenho de Paulo Cesar da Silva, da APAE de Lebon Régis.

De volta ao começo: o trilho da morte

O desenho do Mateus foi a porta de entrada que escolhi para acessarmos o universo da imaginação infanto-juvenil do Contestado. No início desse texto comentei que cheguei a essas pequenas pérolas por meio dos algoritmos. Eram mais de trezentos desenhos. Havia um concurso. Vagueando pelo feed da rede social os desenhos chegaram até a tela do meu computador. Ao observá-los, deixei de lado a seleção oficial efetuada pela Associação e passei a me concentrar nos traços, nas cores e na narrativa. Naquele momento “o trilho da morte” de Mateus me escolheu. Fiquei impressionado com as minúcias e com as cores, mas principalmente com o fato dele ter colocado duas temporalidades em uma superfície plana. Além disso, enxerguei no desenho de Mateus uma narrativa que muito se assemelhava às melhores abordagens historiográficas do Contestado: denúncia política, indicadores dos elementos causais que contribuíram para a emergência do conflito, a crítica aos ideais de progresso, a violência desmedida das forças de repressão.

Junto ao desenho reproduzido no Facebook tinha uma legenda com a autoria, idade e nome da escola do autor/a. Por sorte tinha entrevistado uma professora da escola do Mateus semanas antes2. Foi assim que outra história, também imprevista, se desvelou. A professora não só conhecia Mateus, como me passou o histórico de sua família. Ele é neto de pequenos agricultores e estuda na escola Trinta de Outubro, uma escola rural que fica a poucos quilômetros do município.

Sem saber, a história de Mateus cruzava com a minha infância: nascido em zona rural, apaixonado por animais e plantas, auxiliando os avós na agricultura de subsistência. Passei dois dias passeando pelo desenho que Mateus fez sobre a história do Contestado. Quanto mais olhava, mais rico e engenhoso ele me parecia. Percebi que o melhor método de o apresentar ao público seria pela descrição interpretativa. Almejava conduzir as pessoas a ver o desenho do Mateus guiado pelos meus sentidos e pelas pesquisas que tinha desenvolvido sobre a rebeldia sertaneja do Contestado. Mas também queria que a estrutura narrativa não ficasse restrita ao texto escrito, pois tinha a esperança de que a família e os/as professores/as do Mateus pudessem acompanhar minha interpretação.

A ideia inicial era fazer um vídeo narrando as cenas materializadas na imagem, mas esbarrei no pouco domínio da tecnologia de edição. Além da qualidade do desenho baixado na internet não permitir zoom dos detalhes da obra, havia minha limitação em softwares de edição. Como meio termo, acabei construindo um slide com áudio que foi disponibilizado no Youtube (Rodrigues, 2020). Por meio dele registrei minha intepretação e acrescentei outras imagens que, imaginei, compunham bem o contexto de emergência da representação do passado, situando o presente em que Mateus concebeu o seu desenho.

Os descaminhos da pesquisa: relato de uma experiência

Ao disponibilizar o material gravado para o público, depositado no canal do Youtube, encaminhei de pronto para a professora do Mateus, que por sua vez o indicou à diretora e demais colegas da escola que, ato contínuo, chegou aos organizadores do concurso de desenho e à missa de domingo da igreja católica de Lebon Régis. Em função disso, recebi chamada de vídeo no telefone da avó do Mateus, Vera Schregele, e, por meio dessa chamada, tive a oportunidade de conhecer o próprio autor do desenho. O nascimento de amizade se firmou ali. Isso porque ele já tinha iniciado quando Mateus fez o desenho e permitiu que ele fosse visto por quem fosse capaz de reconhecê-lo naqueles traços. Mateus me ligava semanalmente para apresentar seu cotidiano. Escolhia falar comigo de seu abrigo preferido: os galhos da árvore que tem próximo à sua casa. Em outros momentos me apresentava a pata com os filhotes, as hortaliças plantadas e colhidas por suas mãos infantis, as araucárias que rodeiam a terra da família.

Também não perdi a oportunidade de consultá-lo sobre o desenho. Foi ele o primeiro a me ensinar que as gralhas azuis são personagens importantes no processo de reflorestamento da araucária, elas carregam e enterram as sementes do pinhão para se alimentarem depois, e essas sementes perdidas acabam brotando. Mateus se mostrou muito empolgado com a forma como olhei para seu desenho. Semanas depois, sua avó me enviou um vídeo em que ele declama um poema que fez sobre o Contestado. A composição aumentava minha admiração diante da maturidade e sensibilidade que uma criança de 10 anos nutria, e nutre, sobre o passado e o presente da luta pela terra3.

Prometi à Vera que quando eu estivesse devidamente vacinado iria conhecê-los pessoalmente. A oportunidade ocorreu 12 meses depois. Em outubro de 2021 estive em Lebon Régis a convite da diretora da escola de Mateus, Michele Silveira. Graças à repercussão do vídeo com análise do desenho do Mateus, fiquei incumbido de preparar uma pequena oficina de análise de desenhos infantis para ministrar para as crianças. Na escola conheci Mateus e Vera, assim como Michele Silveira, diretora, e Hellen Heine, professora que entrevistei de forma remota. Eles me apresentaram as dependências físicas da escola agrícola, os projetos em desenvolvimento, entre eles, uma horta.

No dia seguinte fui até à casa de Mateus. Ele vive no assentamento Lagoa dos Patos, a poucos quilômetros de Lebon Régis. Vera me contou que na década de 1980 ela e o marido ficaram meses acampados na região, enfrentando chuva e frio para, ao fim, conquistarem o direito de uso da terra. Mateus estava ansioso para me mostrar as dependências, incluindo seus animais de estimação, sua árvore preferida e os espaços onde brincava com os amigos. Percorrendo o local, fiquei surpreso e feliz ao avistar um pequeno rio que faz fronteira à terra da família. Ao vê-lo reconheci, de imediato, o pequeno rio que cobre a margem esquerda do desenho do Mateus (Imagem 1).

Antes de partir, fui presenteado com arroz plantado e colhido por Vera e Mateus, um macramê tecido por ele, sob a coordenação da avó, e uma blusa branca com o desenho “O trilho da morte” gravado em serigrafia. Sempre que tenho oportunidade apresento o desenho de Mateus em eventos acadêmicos e percebo, contente, que o encantamento diante da imaginação histórica de Mateus não é uma percepção individual.

Mas como pode ser observado na seleção que apresentei acima, o trilho da morte é uma, das muitas pérolas, que a imaginação infanto-juvenil de Lebon Régis produziu sobre o conflito agrário dos homens e mulheres do Contestado. São representações potentes, produzidas sob a mediação de professoras e professores, incentivadas por uma associação sem fins lucrativos (Associação Cultural Coração do Contestado) e que nos coloca diante da potência da escola e da educação no presente. Como defendi em outra ocasião (Rodrigues, 2021a), o Contestado que aparece nesses desenhos são como imagens dialéticas, pois embora atualizem os sonhos e projetos interrompidos dos homens e mulheres do Contestado, não diluem essas mesmas demandas, fazendo delas apenas referências ao presente. Elas recriam e reativam os sonhos do mundo igualitário dos/as rebeldes do Contestado.

Algumas considerações

Do contato com Mateus, com os desenhos produzidos pelas crianças de Lebon Régis, da troca com o presidente da Associação Cultural Coração do Contestado, da confiança e mútua admiração dos professores e professoras do município, nasceu uma amizade, mas também uma colaboração valorosa para minha vida profissional e pessoal. Aprendi que escrever a história em parceria com a comunidade escolar confere outro sabor ao exercício profissional de historiador e de historiadora. Entre os ganhos, está a necessidade de não impor um olhar maniqueísta, tampouco idealizado da escola, especialmente quando se trata de escola rural, situada bem longe dos centros urbanos do país.

O projeto educacional desenvolvido na escola Trinta de Outubro, por exemplo, é ímpar. Não cabe nos limites desse texto abordar tudo que está em desenvolvimento, mas quero registrar apenas duas ações: a primeira é a montagem, anual, de peças teatrais sobre a Guerra do Contestado. Uma delas acabou de ganhar uma versão filmada pela cineasta Márcia Paraíso4, autora de dois dos mais importantes documentários sobre o Contestado: “Terra cabocla” (2015) e “A maravilha do século” (2019). A segunda ação é um projeto de construir, em parceria com professores e professoras do planalto catarinense, uma proposta de currículo básico comum sobre a história do Contestado e o ensino local. Documento que servirá de base para ordenar o ensino de história regional no município.

Outro aprendizado foi repensar a força que o passado possui na memória e na história de determinados grupos sociais. A história do Contestado é mais que inspiradora de narrativas românticas e/ou épicas. Ela é fonte viva de luta e resistência. Tampouco ela vigora em solo sem contradições. Se em alguns casos ela é exaltada, em outros é combatida, ou apropriada de forma bastante conservadora. A pecha de ingênuos, ignorantes, vagabundos e bandidos segue mobilizada por grupos da região para se referir a lideranças do Contestado, assim como em relação a lideranças políticas agrárias contemporâneas (Rodrigues, 2021b). O fato de o Contestado não fazer coro ao discurso heroico do imigrante europeu, predominante na memória histórica do planalto catarinense, é fator de conflito e de resistência em algumas regiões5.

Na lista de aprendizagens consta também a necessidade em produzir novas narrativas não somente para, mas sobretudo com as escolas. Desde 2021 tenho buscado divulgar alguns aspectos da história do Contestado em redes sociais. A páginas do Instagram, Facebook e Youtube chamada “Estação Contestado”, têm como objetivo produzir narrativas voltadas para o público escolar da rede básica de ensino. Em breve lançaremos também o site “Estação Contestado” e o Museu Virtual do Contestado. O objetivo é não somente produzir essas narrativas, mas também divulgar as ações que professores e professoras têm desenvolvido nas escolas. Para isso, tenho entrevistado esses profissionais e aprendido quão rica e potente são as atividades que regularmente experimentam no ambiente escolar: peças de teatro, concursos literários, hortas com ervas medicinais do monge, musicais, passeios a sítios históricos, trabalho com objetos da cultura material, análise de fotografias, minidocumentários, podcast. Mais que ações, são vozes que se erguem para fabricar as narrativas sobre seus antepassados, suas lutas e seus projetos para o futuro.

Seria possível listar muitas outras lições da experiência de produzir história junto com as comunidades, mas concluo com a necessidade de repensar os conceitos históricos, bem como suas temporalidades. Aqui vale retomar o conceito de tempo kairós, tal como aparece em Walter Benjamin (2005). A presença do Contestado na memória histórica presentificada nos desenhos infanto-juvenis nos mostra que a história está longe de ser um território infértil, sem potência nas lutas sociais e representações imaginárias contemporânea. Para o caso do Contestado, o que pode ser verificado é abertura para estruturas complexas de perspectivas sobre passado e sobre presente.

No que tange a temporalidades, recorro a argumento recentemente defendido em texto sobre o Contestado e o tempo-do-agora (Jetztzeit) inspirado nas teses sobre a história de Walter Benjamin (Rodrigues, 2021a). Os desenhos são imagens dialéticas que não apenas atualizam o passado, mas recuperam elementos dos sonhos e projetos dos homens e mulheres que viveram nas cidades santas do Contestado no início do século XX. E o fazem de forma muito perspicaz, visto que rechaçam o elogio do progresso homogêneo e vazio representado pelas narrativas que destacam a estrada de ferro e o capital estrangeiro como elementos propulsores do desenvolvimento político e econômico da região. Esses desenhos dão vazão a uma crítica ambiental que fala do presente, mas não deixa de fundamentá-la nos ensinamentos atribuídos aos monges.

O arquivo do historiador e da historiadora pode começar nas bibliotecas, no material escrito, nas fontes oficiais, mas sempre que for possível cruzá-lo com memórias, imagens e sons do presente, maior a possibilidade de conferir densidade temporal à história. Maior também a responsabilidade social com a memória dos mortos e relação que os vivos mantêm com o passado. Pensar que a autoridade desses testemunhos tem sido transmitida por crianças e adolescentes que vivem na região onde ocorreu o conflito, nos ajuda a reelaborar o estatuto das testemunhas na história, como também a repensar as infâncias que brotam e germinam em contexto de conflito social do campo. São experiências, referências e projeções que deslocam nossa visão de história, de temporalidades e de autoridade testemunhal.

Fontes

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FERREIRA, Vitor. [Sem título]. Lebon Régis: Associação Cultural Coração do Contestado, 2020.

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HENRIQUE, José. Que seja abençoada essa água. Lebon Régis: Associação Cultural Coração do Contestado, 2020.

PAOLAZZI, Letícia. [Sem título]. Lebon Régis: Associação Cultural Coração do Contestado, 2020.

RODRIGUES, Rogério Rosa. Quando o corpo fala: ensino de história e produção de presença sobre a Guerra do Contestado. VI Simpósio Nacional - Contestado. 20 out. 2020. Disponível em: https://bit.ly/3Q18yEP. Acesso: 05 ago. 2022.

SANTOS, Iandra Luana Goetten dos. Guerra do Contestado. Lebon Régis: Associação Cultural Coração do Contestado, 2020.

SIABENI, Mateus Nogueira. O trilho da morte. Lebon Régis: Associação Cultural Coração do Contestado, 2020.

SILVA, Paulo Cesar da. [Sem título]. Lebon Régis: Associação Cultural Coração do Contestado, 2020.

Referências

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Notas

1 Essa confiança merece ser destacadas em pelo menos dois aspectos: o primeiro deles se dá de forma mais geral ao assumir que os desenhos infantis têm algo a nos dizer sobre o passado e o presente do Contestado. O segundo aspecto, pelo fato de ter tido o privilégio de receber, em mãos, os trezentos originais materializados em folha A4. Em outubro de 2021, após ter tomado as duas doses da vacina contra a Covid-19, visitei o município de Lebon Régis para ministrar oficina de análise de desenhos infantis na Escola Trinta de Outubro. Nessa ocasião, o presidente da Associação Cultural Coração do Contestado confiou a mim os originais dos desenhos infantis que foram produzidos no contexto do concurso divulgado no Facebook. Estou organizando uma exposição virtual com os desenhos que deve ser tornada pública até o final do ano de 2022, junto a ela será lançado o catálogo artístico dos desenhos.
2 Entrevista realizada com a professora Helen Heine. A entrevista ocorreu porque estava desenvolvendo projeto sobre o Contestado e o ensino de história, focado na análise de materiais didáticos e na busca de conhecer atividades desenvolvidas por professores e professoras da região que incluísse o Contestado como tema. O relato dessa, e de outros docentes que atuam no planalto catarinense, foi publicado no livro “O lugar do Contestado na história do Brasil”, organizado por Márcia Espig e outros (2022).
3 O áudio com declamação do próprio Mateus foi incorporado, com a autorização da família, no material disponibilizado no Youtube (Rodrigues, 2020).
4 A filmagem da peça acabou de ser lançada em filme na mesma cidade em que foi gravado. O título é: “Para não esquecer a guerra”. Material de divulgação do filme disponível nas redes sociais da Plural Filmes (2022).
5 Sobre o assunto, vale conhecer o depoimento do professor Mateus Henrique Torcato incluído no livro organizado por Espig et al. (2022).
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