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A Sociologia Contemporânea na República Tcheca: O Caso da Universidade de Hradec Králové*
Contemporary Sociology in the Czech Republic: The Case of the University of Hradec Králové
A Sociologia Contemporânea na República Tcheca: O Caso da Universidade de Hradec Králové*
Revista Brasileira de Sociologia, vol. 8, núm. 18, pp. 5-28, 2020
Sociedade Brasileira de Sociologia

Recepção: 12 Julho 2019
Aprovação: 10 Janeiro 2020
Resumo: O presente trabalho visa a analisar a formação de sociólogos no contexto do pós-socialismo na República Tcheca, considerando as configurações que a Sociologia passa a assumir neste contexto nacional. Partimos de um caso empírico a partir da formação de sociólogos oferecida na Universidade de Hradec Králové, no qual analisaremos o perfil curricular do curso de Sociologia, articulando esses dados a entrevistas realizadas com professores da referida universidade, que visa compreender os sentidos os quais a formação de sociólogos assume na sociedade tcheca em período recente, dentro do contexto do pós-socialismo da Europa Central.
Palavras-chave: Sociologia na Europa Central, Sociologia Tcheca, Formação de sociólogos.
Abstract: This paper aims to analyze the formation of sociologists in the post-socialism context in Czech Republic, considering that the configurations that sociology takes on in this national context. We start from an empirical case based on the formation of sociologists offered by the University of Hradec Králové, in which we will analyze the curricular profile of the sociology course, articulating these data with interviews made with professors of the aforementioned university that aimed to understand the meanings of the formation of sociologists in the Czech society in recent period, within the context of the post-socialism in Central Europe.
Keywords: Sociology in Central Europe, Czech Sociology, Formation of Sociologists..
Introdução
As Ciências Sociais têm passado por um movimento complexo de revisita intensa de seus projetos originários, problematizando-se cada vez mais como as hierarquias acadêmicas produzem determinadas visibilidades e invisibilidades dentro de uma geopolítica do conhecimento. Esse processo (de produção de hierarquias) tem como uma das consequências mais imediatas um profundo desconhecimento acerca de como se desenvolvem as diferentes tradições nacionais das Ciências Sociais, especialmente aquelas situadas fora das tradições hegemônicas.
Por outro lado, há certo movimento que tenta dar visibilidade a essa pluralidade de experiências de ensino e pesquisa no campo das Ciências Sociais, o que tem ocorrido de forma relativamente heterogênea dentro das distintas ciências. No caso da Antropologia, alguns acadêmicos têm chamado a atenção para o que tem sido denominado de “antropologias mundiais”. Ribeiro (2006, p. 148), ao realizar esse exercício, parte de uma concepção de antropologia como cosmopolítica, que tem como uma de suas implicações relevantes:
[...] ver a antropologia como uma cosmopolítica é a compreensão de que a história da antropologia acadêmica do Atlântico Norte não é suficiente para dar conta da história do conhecimento antropológico em escala global. Isso decorre não apenas das especificidades das histórias das antropologias em cenários nacionais diferentes, mas também do fato de que outras cosmopolíticas se desenvolveram em outras regiões do mundo e configuraram uma variedade de conhecimentos parecidos com o que depois seria conhecido como antropologia, a “disciplina acadêmica que teve seu primeiro aparecimento na região do Atlântico Norte” (DANDA, 1995, p. 23).
No campo da Sociologia, isso também tem sido visibilizado a partir do que tem sido denominado de “sociologias emergentes”. Ambos os movimentos, na Antropologia e na Sociologia, dialogam e, com um amplo leque de abordagens, confluem dentro de um movimento crítico nas Ciências Sociais, tais como os estudos subalternos, feministas, queer, teorias do sul, crítica pós-colonial, teorias decoloniais, entre outros.
Essas questões têm sido relevantes também no debate contemporâneo da formação de sociólogos, uma vez que é axial considerar a pluralidade de modelos formativos que existem e como esses modelos estão conectados com as diferentes tradições nacionais e os debates emergentes no campo das Ciências Sociais. Isso significa reconhecer que algumas linhas globais existem na formação de sociólogos, mas, por outro lado, os contextos locais ainda são relevantes para compreender esses modelos e suas consequências.
No presente artigo, reconhecemos que, no Sul Global, a Sociologia tem produzido diferentes diálogos, se articulando de forma idiossincrática com as Ciências Sociais, nas quais as tradições nacionais produzem diferentes backgrounds para os sociólogos. Ademais, pode-se reconhecer que a Sociologia no Sul Global tem uma temporalidade diferente. O desenvolvimento dela aconteceu em um tempo diferente em comparação ao Norte Global, e graças a isso, a Sociologia no Sul Global lidou com outros debates em sua formação.
Realizaremos, portanto, um exercício de aproximação com uma Sociologia não hegemônica europeia, situada na Europa central, ou de forma ainda mais precisa, na República Tcheca. Interessa-nos, por meio do debate sobre a formação de sociólogos na Universidade de Hradec Králové (UHK), realizar um diálogo ao Sul, visando compreender como a Sociologia vai se configurando dentro de diferentes contextos acadêmicos e sociopolíticos.
Interessante situar desde já que a UHK, longe de ser uma universidade central na República Tcheca, é uma instituição periférica, por isso, estamos nos referindo a um contexto que também desvela as hierarquias internas existentes no Sul Global. Como bem nos aponta Scott (2014), há um duplo movimento na constituição das periferias, uma vez que há também a elaboração de periferias internas, dentro de um movimento de supressão da própria pluralidade interna existente nas Ciências Sociais nacionais.
Os dados preliminares aqui apresentados originam-se de entrevistas realizadas junto a docentes de Sociologia da instituição, nas quais se buscou compreender os sentidos que a formação de sociólogos assume naquela instituição no contexto do pós-socialismo, um dos temas recorrentes entre os cursos ofertados pela instituição. É de extrema importância ressaltar que não é o objetivo ou a intenção do presente trabalho realizar generalizações a partir do estudo de caso. Ainda assim, está no escopo do artigo propor algumas reflexões acerca da miríade de caminhos e formas que a Sociologia assume de acordo com o contexto apresentado, mesmo se comparado com a trajetória da disciplina em países que pertencem à mesma categoria de Sul Global, como será discutido adiante. Também foge ao objetivo deste artigo realizar comparações com o caso brasileiro, embora possamos realizar alguns breves apontamentos que possibilitem ao leitor brasileiro compreender de forma relacional a realidade empiricamente analisada aqui.
Os debates ao Sul: sociologias mundiais em movimento
Como já indicamos, há todo um movimento de repensar as Ciências Sociais. Isso inclui um crescente questionamento acerca do lugar das teorias hegemônicas neste campo. Tais questões implicam no próprio reconhecimento de que teoria passa a ser sintetizada como o que se produz no Norte Global, secundarizando-se a produção do conhecimento em outras latitudes (CONNELL, 2012).
Esse movimento ganhou força na América Latina, Ásia, África e também em muitos países da Europa que não são hegemônicos na produção de conhecimento. Nesse sentido, reconhecemos uma ampla fronteira em termos do que o Sul Global representa. É possível afirmar que até acadêmicos os quais são de e estão localizados em países como Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha, e outros, podem ser parte do Sul Global, como intelectuais negros e negras, indígenas, trans, por exemplo.
Nesta direção, é interessante destacar as questões propostas por Chakrabarty (2000) sobre sua concepção de provincializar a Europa. Todavia, devemos ressaltar o que se compreende por provincializar neste projeto intelectual:
Como já deveria estar esclarecido, provincializar a Europa não é um projeto de rejeitar ou descartar o pensamento europeu. Relacionar-se a um corpo de pensamento no qual um detém em grande parte a existência intelectual do outro não pode ser exatamente aquilo que Leela Gandhi apropriadamente chamou de “vingança pós-colonial”. O pensamento europeu é, ao mesmo tempo, indispensável e inadequado a nos ajudar a pensar por experiências da modernidade política em nações não ocidentais, e provincializar a Europa se torna uma tarefa de explorar como esse pensamento – que agora é herança de e afeta a todos – pode ser renovado e para as margens.
Mas, é claro, as margens são tão plurais e diversas como os centros. A Europa aparece diferente quando vista de dentro das experiências de colonização ou inferiorização em partes específicas do mundo. Acadêmicos pós-coloniais, a partir de suas diferentes geografias do colonialismo, falaram de diferentes europas. Os recentes estudos críticos dos latino-americanos ou afro-caribenhos e outros apontam para o imperialismo da Espanha e de Portugal - triunfante na época do Renascimento e em declínio como poderes políticos no final do Iluminismo. A questão do pós-colonialismo em si é dada em locais múltiplos e contestados nas obras daqueles que estudam o Sudeste Asiático, o Leste da Ásia, a África e o Pacífico. No entanto, por mais múltiplos que sejam os loci da Europa e por mais variados que sejam os colonialismos, o problema de ir além das histórias eurocêntricas continua sendo um problema comum entre fronteiras geográficas (CHAKRABARTY, 2000, p. 16-17, tradução nossa)[1].
Notadamente, pode-se estranhar a utilização recursiva desses autores para analisarmos o caso da Sociologia na República Tcheca, porém, deve-se ter em mente que a ideia de Norte e Sul Global nos possibilita complexificar a Europa, ponderando que nem todos os países situados neste continente integram o Norte Global, ou mesmo se pensarmos de forma ainda mais profunda, nem mesmo todos os intelectuais de países como França, Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, entre outros, integram o Norte Global, uma vez que devemos considerar ainda que majoritariamente o que compreendemos por Sociologia fora constituída a partir de um conjunto de homens (brancos) de certa burguesia metropolitana liberal (CONNELL, 2007).
Incluímos assim a Sociologia produzida na República Tcheca no chamado Sul Global, assim como poderia ser considerada parte significativa daquela produzida no contexto dos países comunistas e no pós-comunismo.
Os autores do presente artigo são da América Latina, mais especificamente do Brasil. Nesse sentido, estamos tentando produzir um diálogo entre diferentes sociologias situadas no Sul Global. Nossa ideia, neste momento, não é produzir uma comparação entre a Sociologia na América Latina e a Sociologia na Europa Central, pois elas constituem diferentes realidades e, para esse exercício, seria necessário mais tempo e espaço para o desenvolvimento de nossos argumentos. Ainda assim, o objetivo é refletir sobre e a partir do Sul Global.
Como nos indica Bourdieu (2004), o maior grau de autonomia de uma ciência pode ser mensurado pela sua capacidade de refratar a influência de outros campos, de tal modo que Sociologia possuiria um baixo grau de autonomia, tendo em vista as implicações de outros campos no funcionamento no campo sociológico. Tanto no contexto brasileiro quanto no tcheco, observou-se – ainda que a partir de regimes políticos distintos – impactos diretos sobre a produção do conhecimento sociológico em ambos os países, com perseguição política e ideológica. Todavia, chama a atenção o fato de que, no caso brasileiro, houve também um crescimento significativo no número de cursos de graduação de Ciências Sociais durante o regime militar, além do desenvolvimento e da consolidação do sistema de pós-graduação (LIEDKE FILHO, 2005), o que aponta para uma singularidade nos processos contraditórios de desenvolvimento da Sociologia no Brasil.
Breve contextualização da Sociologia na República Tcheca
Segundo Keen e Mucha (1994), alguns elementos são relevantes para compreendermos o desenvolvimento da Sociologia na região. O primeiro deles é que esta é uma região formada por diferentes grupos étnicos, religiosos e marcada por uma história intensa de conflitos entre eles, de tal modo que o desenvolvimento das Ciências Sociais, já na passagem do século XIX para o XX, assume como grande tema as questões ligadas à identidade nacional, à tradição, à língua, à religião, ao folclore, e outros. Nesse sentido, o autor pondera que a Sociologia da Cultura foi ao mesmo tempo uma Sociologia Política.
Ainda é interessante perceber que, diferentemente do que ocorreu em outros contextos, como o latino-americano, as universidades não foram o principal espaço de rotinização do conhecimento sociológico inicialmente.
As ciências sociais na Europa oriental não se desenvolveram em universidades. Ao final do século XIX, muitas universidades já existiam, mas, por uma variedade de razões, não estavam interessadas neste tipo de estudos. Intelectuais social e cientificamente inclinados não possuíam recurso, senão organizarem-se em outras instituições privadas. Em muitos países eslavos, surgiram as “Maticas”, instituições que consistem em uma combinação de museus de cultura popular, bibliotecas, centros de pesquisa, centros educacionais e editoras. Seu papel como veículos de pesquisa, registro e disseminação da cultura nacional e no incentivo aos processos de construção nacional não pode ser superestimado (KEEN E MUCHA, 1994, p. 5, tradução nossa)[2].
Esse desenvolvimento das Ciências Sociais possui implicações específicas sobre esta realidade, ao qual se somam à própria predominância do marxismo-leninismo no contexto pós-Segunda Guerra nesses países. Nessa direção, são válidas as questões postas por Voříšek (2008, p. 86, grifos do autor, tradução nossa):
A literatura sobre Sociologia do pós-guerra na Europa Soviética não é exatamente volumosa, e muitas vezes sofre, até onde sei, incerteza sobre como avaliar seu assunto. Com algum esforço, pode-se extrair duas narrativas emergentes dos comentários dispersos. A primeira narrativa percebe a Sociologia na Europa soviética como um antagonista da Sociologia burguesa ocidental - uma alternativa política, ideológica e, opcionalmente, também científica ao oeste. Existem bons argumentos a favor dessa visão. O marxismo, que dominava o cenário intelectual da Europa soviética, baseava-se em diferentes pressupostos ontológicos e epistemológicos que as principais ciências sociais ocidentais. Além disso, a Sociologia estava fadada a descrever um sistema social diferente - o do socialismo de estado. Por último, mas não menos importante, uma variedade de sociólogos locais, de stalinistas rígidos a revisionistas no limite da perseguição, criticou a Sociologia burguesa e enfatizou que seus trabalhos representavam uma alternativa.
O outro tipo de narrativa entende o período soviético não como uma alternativa significativa, mas como um desvio da maneira desejável de se fazer Sociologia. Costuma-se invocar que os regimes do tipo soviético não puderam suportar o verdadeiro conhecimento do social e, portanto, perseguiam a Sociologia. Grande parte da produção oficial supostamente sociológica foi apenas um blefe ideológico. Somente os eventos de 1989-1990 cancelariam esse estado não natural, permitindo que a Sociologia florescesse novamente. Mais uma vez, existem boas razões para não descartar essa interpretação. O marxismo havia sido imposto por meio de força na Europa Soviética, seus possíveis concorrentes - incluindo a Sociologia pré-guerra - sendo eliminados. Até alguns sociólogos marxistas foram perseguidos pelos regimes comunistas. Depois que o comunismo desmoronou em 1989-1990, os sociólogos locais adotaram ansiosamente a bolsa de estudos ocidental; o paradigma marxista quase nunca mais foi referido. Muitos dos escritos anteriores a 1989 podem ser interpretados como uma distanciação do regime: por exemplo, o interesse crítico na Sociologia ocidental pode ser interpretado como uma declaração de proximidade e não de estranhamento[3].
Deve-se ainda atentar para as singularidades existentes no contexto da República Tcheca, uma vez que houve um percurso bastante idiossincrático em sua institucionalização. Tomáš Garrigue Masaryk (1850-1937), o primeiro presidente da República da Tchecoslováquia, foi o responsável pelo primeiro movimento de institucionalização da Sociologia em 1918, com a criação de cursos universitários, periódicos e da Associação Nacional de Sociologia. Masaryk chega a completar um estudo sobre o suicídio ainda em 1878, bem antes de Durkheim (URBÁNEK, 1994). A disciplina tinha como missão guiar a construção da nova nação, recém-liberta da Áustria-Hungria pós-Primeira Guerra Mundial, seguindo a perspectiva de Masaryk, que percebia a Sociologia como uma “filosofia prática”.
A concepção da Sociologia como a práxis filosófica está intimamente ligada ao que Burawoy (2005) explica sobre a chamada Sociologia Pública, ou seja, aquela que atua promovendo uma aproximação entre a Sociologia e o público, extrapolando os limites da academia. A Sociologia Pública tradicional concede visibilidade ao público antes invisível, mas não os inclui necessariamente como uma voz ativa. Um exemplo do uso da Sociologia Pública tradicional é quando pesquisas sociológicas são publicadas em jornais com uma linguagem acessível. Existe também a Sociologia Pública Orgânica que, complementarmente, se concretiza no trabalho integrado com os movimentos e as organizações sociais, no trabalho prático que promove mudanças sociais. Destarte, Skovajsa e Balon (2017) explicam que, antes de o político Masaryk existir, ele era um sociólogo público tradicional e orgânico, o que definitivamente influenciou a forma como a Sociologia e o ensino superior se desenvolveram no país.
Até 1948, a Tchecoslováquia presenciou uma expansão e fortificação da Sociologia, progredindo e conquistando espaços e liberdade em sua institucionalização, tendo sido criados os primeiros departamentos em Praga, na Universidade de Charles, em Brno e em Bratislava (atual Eslováquia). Porém, após a Segunda Guerra Mundial, sob o período comunista, a recente tradição da Sociologia passou a responder à agenda governamental, limitando-se aos interesses do regime, como descrevem Skovajsa e Balon (2017, p.41-42, tradução nossa):
[…] Enquanto os currículos foram, em certa medida, inspirados nos programas americanos de ciências sociais, a nomeação de professores seguiu uma fórmula estritamente política que dava o maior peso ao Partido Comunista, o qual promovia candidatos comunistas que ensinavam marxismo-leninismo. Além disso, o corpo discente era predominantemente comunista. […] Os estudantes comunistas, radicalizados por seus professores marxista-leninistas, bem como pelo poderoso aparato do Partido Comunista, expulsaram dezenas de acadêmicos e milhares de estudantes por não estarem em conformidade com a nova ideologia oficial[4].
Os autores ainda explicam que, após o golpe comunista, a Sociologia se tornou um alvo de repressão política, pois o estudo das estruturas e dinâmicas sociais era visto como um perigo para a manutenção ideológica do governo. Em 1950, a Sociologia deixa de ser uma disciplina acadêmica, com o preceito de que é uma ciência burguesa que atendia aos interesses capitalistas, e os sociólogos de maior destaque da época se exilaram em outros países. Em 1956, em um processo de maior flexibilização e moderação do governo comunista, a Sociologia foi aos poucos reaparecendo e se reestruturando. Essa abertura não foi dada de forma natural, mas, sim, fruto de um esforço coletivo dos acadêmicos de convencimento do valor e da importância da Sociologia. Em 1964-1965, foram criados os institutos de Sociologia em Praga, Brno e Bratislava, além da criação do Jornal Nacional de Sociologia – grandes conquistas para a área.
Um passo importante nesse processo foi a criação do Instituto Sociológico na Academia de Ciências da Tchecoslováquia. No mesmo ano, são criados os primeiros cursos nas universidades de Charles e de Masaryk, ainda que o número de sociólogos no país fosse bastante restrito (URBÁNEK, 1994). Esse processo também foi narrado por um dos professores entrevistados ao tratar de sua própria trajetória como estudante de Sociologia nas décadas de 1960 e 1970:
Havia uma seleção muito severa de estudantes para Sociologia, éramos realmente muito poucos. Na Tchecoslováquia, na década de 1960, quando eu comecei a estudar Sociologia, o estudo da Sociologia só era possível em três universidades, em Praga, Brno e Bratislava, nada mais, e em cada universidade não havia mais de 20 estudantes por ano. E, francamente falando, também [havia] uma comparação muito profunda entre alunos e professores, porque, na história da Sociologia da Tchecoslováquia, há um período em que a Sociologia era proibida por razões ideológicas, como entre o final da década de 1940 e a metade da década de 1960, cerca de 20 anos. Então, depois desses vinte anos, até mesmo os professores começaram seus trabalhos com a Sociologia. Eles não eram muito educados no campo e eram como os colegas mais velhos. Então, nós estudamos Sociologia junto aos nossos professores, era uma situação realmente muito interessante naqueles tempos (ENTREVISTADO A, tradução nossa)[5].
Reconhece-se aqui que o contexto político da chamada “cortina de ferro” teve implicações diretas sobre o desenvolvimento da Sociologia nesse país, filtrando as diversas influências no desenvolvimento teórico das Ciências Sociais como um todo. Mlynář (2015, p. 451, tradução nossa) indica que:
Na antiga Tchecoslováquia, a tradição interacionista foi retida pelas circunstâncias políticas do período de 1948 a 1989. Além de um curto período de liberalização em meados da década de 1960 (até o outono de 1968), as ciências sociais sofreram limitações causadas pelo regime não-democrático. De fato, todas as interpretações públicas da sociologia ocidental deveriam ser enquadradas de maneira ideologicamente aceitável: como os escritos de Eduard Urbánek (1979, 1989), que estava entre os primeiros estudiosos tchecos(eslovacos) que refletiam sistematicamente as tendências e os desenvolvimentos qualitativos anglo-saxões, particularmente a sociologia fenomenológica desta época. Embora ele tivesse que adotar o discurso politicamente aceitável das décadas de 1970 e 1980, Urbánek conseguiu apresentar os pensamentos de Mead, Schutz, Strauss, Garkelkel, Goffman, Berger, Luckmann, Blumer e outros que estavam mudando a face da Sociologia anglo-saxã na época. Não é de surpreender que a literatura acadêmica russa tenha sido traduzida e distribuída mais amplamente[6].
Contudo, em 1968, um movimento neostalinista, que deu origem à Era da Normalização, se instaurou na Tchecoslováquia, controlando ideologicamente as Ciências Sociais novamente, exilando sociólogos e subordinando a disciplina à teoria marxista-leninista. Paradoxalmente, apesar da coerção sofrida, a disciplina conseguiu se reproduzir, mantendo a produção do período anterior a partir do treinamento de novas gerações.
Urbánek (1970) aponta para as perdas expressivas que ocorrem com as descontinuidades da Sociologia no contexto da então Tchecoslováquia, indicando que, ainda na década de 1970, parte expressiva daqueles que atuavam com sociólogos não possuía formação específica na área, indicando ainda a importância que a Sociologia polaca teve nesse contexto, tanto em termos de formação de quadros quanto de disseminação de autores e obras.
Em 1989, com a mudança de regime, a Sociologia tcheca passou por uma reformulação identitária e pela construção de uma nova agenda, tornando-se relevante para além de suas fronteiras geográficas. Ainda que possamos indicar que a Sociologia tcheca está situada dentro do “Sul Global”, uma vez que não é hegemônica em termos de composição do pensamento ou de uma agenda internacional, é interessante destacar essa ruptura que passa a ocorrer no contexto de saída do comunista, algo semelhante com o que ocorreu nos países latino-americanos no contexto da redemocratização ao longo dos anos de 1980.
A Universidade de Hradec Králové e o curso de Sociologia
A UHK é considerada uma jovem universidade, cujas primeiras faculdades surgem apenas em 1959, mas que somente assume o presente nome em 2001. Trata-se, por outro lado, de uma instituição profundamente internacionalizada, parceira de mais de 200 universidades[7] ao redor do mundo, com inúmeros cursos lecionados apenas em língua inglesa, o que aponta para seu dinamismo acadêmico, além de afinidade com um conjunto de transformações ocorridas no contexto do ensino superior europeu pós Tratado de Bolonha. Tratando-se especificamente do campo da Sociologia, é interessante ressaltar que a parte mais substancial da cooperação internacional da universidade é com países da Europa central, tais como Polônia, Áustria e Eslováquia. Não obstante, o Departamento de Sociologia da UHK firmou parcerias com instituições francesas e italianas, para estudos acerca da América Latina e África (UNIVERSIDADE DE HRADEC KRÁLOVÉ, 2014).
Os cursos regulares, oferecidos em tcheco, são gratuitos e o acesso se dá a partir de um exame de acesso ao ensino superior. A universidade atualmente se divide em quatro faculdades e um instituto, a saber: Faculdade de Filosofia, Faculdade de Educação, Faculdade de Informática e Administração, Faculdade de Ciência e Instituto de Serviço Social (que se vincula à Faculdade de Filosofia). Somados os números de todas as faculdades, a universidade recebe por volta de 9.000 alunos por ano. Estão na Faculdade de Filosofia os cursos de Sociologia, Arqueologia, Arquivologia, História, Filosofia e Ciência Política (com especialização em estudos latino-americanos, africanos e da Europa Central nos níveis de Mestrado e Doutorado).
O Departamento de Sociologia foi criado somente em 2008, pelo professor doutor Brokl Lubomír. Apesar de ser considerado um departamento novo, ele tem aumentado cada vez mais seu status diante da Sociologia do país. O departamento é parceiro de muitos institutos tchecos relevantes, tais como a Academia de Ciências da República Tcheca (Academy of Sciences of Czech Republic) e a Agência de Estatística Tcheca (Czech Statistical Office). É também pertinente destacar que um dos professores do departamento foi parte do Conselho da Associação Sociológica Tcheca (Czech Sociological Association – CSA) no período de 2015-2018, e que o Departamento de Sociologia da UHK realizou um dos mais importantes eventos da Sociologia do país, em 2018, a Conferência da CSA, o que reforça a relevância da instituição dentro do contexto do país.
Atualmente, há apenas a opção de bacharelado, que possui duração de três anos. No fluxo, o(a) aluno(a) deverá cursar disciplinas de quatro cadeias, totalizando 180 créditos (ECTS)[8]. A primeira cadeia é composta por 23 disciplinas obrigatórias, que vagam pelos estudos teóricos e metodológicos do campo. Na parte teórica, os alunos devem cursar disciplinas como Introdução à Sociologia; Sociologia Geral 1 e 2; Teoria e História da Sociologia 1, 2 e 3; Antropologia Social e Cultural, entre outras. Há, ainda, nesta cadeia, as disciplinas: Métodos de Pesquisa Sociológica 1, 2 e 3; Análise de Dados do Auxiliar SPSS e suas Interpretações; Atividades de Pesquisa; Estatística para Sociologia; Pesquisa da Sociologia Tcheca e Mundial; Prática de Pesquisa Quantitativa 1 e 2; e Prática de Pesquisa Qualitativa 1 e 2. Observa-se, portanto, um caráter instrumental desse grupo de disciplinas que, com maior destaque para os estudos metodológicos, tem ênfase na pesquisa.
A segunda cadeia de disciplinas corresponde às ramificações da Sociologia Geral, como, por exemplo, Sociologia Familiar, Sociologia Visual, Sociologia Urbana, Sociologia Política, Sociologia do Pós-Socialismo, Sociologia da Religião e outras. O aluno deverá completar, no mínimo, 34 créditos (em torno de seis disciplinas). A terceira cadeia é mais diversa e o aluno deverá fazer 20 créditos (mais ou menos quatro matérias). Entre as disciplinas, estão: Lógica, Ética Profissional, Serviço Social para Sociólogos, e outras mais. Por fim, na quarta e última cadeia, o(a) estudante deverá escolher um ou mais idiomas a cursar. As opções são inglês, francês e alemão.
Para concluir o curso, o(a) aluno(a) deverá entregar um Trabalho de Conclusão de Curso, correspondente ao TCC das universidades brasileiras, que deverá ser defendido em banca. Ademais, deverá realizar um exame final com os conteúdos a) Sociologia Geral, b) Teoria e História da Sociologia e c) Sociologia Empírica, Métodos e Técnicas de Pesquisa Sociológica.
No website da instituição (UHK, 2020), é possível acessar os autores e as questões que são cobrados no teste. Todos os autores da lista são europeus ou estadunidenses, sendo a maioria de nacionalidade tcheca. Pode-se considerar relevante que ainda que a teoria sociológica clássica esteja nos conteúdos cobrados - com efeito, é demandado que o(a) estudante saiba as teorias de Karl Marx, Max Weber e Émile Durkheim –, esses autores não estão presentes na bibliografia recomendada. Os clássicos, portanto, são estudados por meio de seus intérpretes, como Anthony Giddens, Heine Andersen, Lars Bo Kaspersen e outros acadêmicos que realizaram o esforço de sintetizar o pensamento sociológico clássico e moderno.
A partir do que foi revisado, é possível concluir que embora a parte teórica não seja de forma alguma negligenciada, a estrutura do curso se inclina de forma mais proeminente para a formação de pesquisadores, o que parece estar respondendo a uma demanda do mercado de trabalho. O currículo da formação de sociólogos da UHK revela sua disposição a servir a tendência global do mercado de usar pessoas com formação em cursos da humanidade, como sociólogos, como pesquisadores de big data, que são frequentemente contratados por grandes corporações em uma miríade de áreas do conhecimento, conforme o artigo irá discutir mais a diante.
O ofício do sociólogo no pós-socialismo: entrevistas com os professores da UHK
Com o objetivo de compreender o sentido que a formação de sociólogos assume na sociedade tcheca em período recente, foram realizadas entrevistas semiabertas com professores do Departamento de Sociologia da UHK. A pesquisa ainda se encontra em andamento, e dos seis professores do departamento, somente três foram entrevistados. A primeira dificuldade que se impôs foi a barreira linguística. Apenas dois dos entrevistados sentiram-se confortáveis para realizar a entrevista oralmente em inglês. Outros três solicitaram que a entrevista fosse respondida por escrito, em inglês. E um dos professores solicitou a tradução do roteiro para tcheco.
Ainda que a pesquisa esteja em processo, pode-se, desde já, analisar e refletir a partir das falas dos entrevistados. Para que fosse capturada mais do que uma resposta direta das percepções dos docentes, e com a intenção de formar um arcabouço de todas as experiências e trajetórias que os levaram a um representação coletiva dos sentidos da Sociologia e da formação de sociólogos da República Tcheca, o roteiro foi dividido em três partes. A primeira parte é dedicada à trajetória educacional do entrevistado, e o propósito dela é compreender as condições, decisões e interesses que o levaram a se tornar sociólogo. A segunda parte é relacionada à trajetória profissional, uma vez que é relevante compreender se e como as suas experiências profissionais transformaram suas percepções acerca do mercado de trabalho dos sociólogos, além de fornecer dados a respeito das mudanças no campo da Sociologia tcheca das últimas décadas. A terceira e última parte é dedicada às percepções e aos sentidos atribuídos à formação de sociólogos no contexto da República Tcheca.
Quanto ao background acadêmico – as razões e interesses que os motivaram a escolher a Sociologia – os três professores entrevistados narraram trajetórias bem distintas. O entrevistado A expressou que seu interesse pela Sociologia iniciou após sua Graduação em um curso técnico e, mais especificamente, após ler um livro sobre cibernética e sociedade. Ele disse que estava dividido entre Psicologia e Sociologia, mas, em suas palavras, “Sociologia parecia ser algo muito mais desconhecido, sabe, algo que você poderia usar mais a sua imaginação do que na Psicologia”[9]. Assim, ele cursou o bacharelado e Mestrado em Sociologia durante as décadas de 1960 e 1970, na atual Polônia. Ao terminar o Mestrado, decidiu sair da academia e mudar de área por causa do contexto político, como explica (tradução nossa):
Na década de 1970, na Tchecoslováquia, havia um problema muito forte criado pela ocupação da Tchecoslováquia pelo exército da União Soviética e uma pressão política muito séria, e a Sociologia era tomada como um campo ideológico de pensamento. Como não pude ficar sob essa pressão ideológica, mudei de local de trabalho e fui para o Instituto de Economia e Organização da Construção, em Bratislava, onde trabalhava na pesquisa de recursos humanos para a indústria da construção e assim por diante[10].
Somente na década de 1990, após a decadência e o fim do regime comunista, o entrevistado A retornou à Sociologia para fazer o Doutorado na cidade de Bratislava (atual Eslováquia).
A entrevistada B, em uma resposta muito mais breve e evasiva, disse que sua maior motivação para escolher a Sociologia foi seu interesse pelo funcionamento da sociedade. Ela concluiu sua Graduação em Demografia e Sociologia no ano 2001, seus Mestrados em Demografia e Sociologia nos anos 2003 e 2005, respectivamente, e Doutorado em Demografia, em 2011. Percebe-se a diferença do contexto pós-socialista na formação desses dois professores ao analisarmos a ausência da narrativa da entrevistada B acerca do contexto político que circunscrevia seus estudos. Não foi declarada nenhuma dificuldade ou nem ao mesmo foi feita menção à situação política da época, diferentemente do relato do entrevistado A, que tem como base de sua narrativa o contexto da ocupação comunista em toda a Europa Central e as consequências que esse regime político trouxe para a sua formação acadêmica.
O entrevistado C terminou o bacharelado no início da década de 1990 e o Mestrado em teoria cultural no início dos anos 2000. Seus estudos, à vista disso, foram balizados em uma época de profundas transformações da Europa Central, perpassando, inclusive, pela separação e independência da República Tcheca e da Eslováquia. O entrevistado C relata que sua formação foi guiada por estudos que buscavam compreender a modernidade em um sentido global, focando a análise no funcionamento da sociedade no início do pós-socialismo, mas não se limitando a esse contexto, o que revela um valor cosmopolita. Por outro lado, e como ele criticou de maneira eufêmica, a Sociologia tcheca de sua época respondia a uma agenda do Norte Global e não estava necessariamente preocupada com sua própria realidade. Como ele explica enquanto descrevia seu curso de Graduação:
[Era] algo como “sociedade dos últimos tempos”; tempos atrasados ... não sei como traduzi-lo... foi como período tardio ou algo assim. [...] Que foi articulado com o pós-socialismo, mas era global... principalmente sobre democracias liberais ocidentais. Foi muito etnocêntrico [risos] (ENTREVISTADO C)[11].
Assim, os entrevistados, principalmente por terem estudado em diferentes épocas e contextos, tiveram experiências singulares em suas graduações. Por outro lado, ao serem questionados sobre o curso de Sociologia oferecido pela UHK e sobre a inserção do sociólogo na sociedade tcheca, as respostas foram semelhantes, o que pode significar que, ao compartilharem de uma posição profissional, dividem também perspectivas coletivas acerca de realidades próximas (DURKHEIM, 2007). Os três professores avaliaram o curso da UHK como um curso com grande envolvimento dos alunos nas atividades de pesquisa. Além disso, destacaram que é um curso o qual, apesar de os alunos não trabalharem diretamente com a Sociologia, oferece uma capacidade analítica e uma leitura de mundo ímpar, que são valorizados no mercado de trabalho tcheco e global. Essas afirmativas vão ao encontro do que foi apresentado e concluído por meio da análise do escopo do currículo do curso.
Os três professores parecem concordar que o mercado de trabalho tcheco está absorvendo seus estudantes[12], relatando que isso está ocorrendo principalmente na área de análise de mercado e comércio, conforme as falas:
Eu tive uma ótima experiência com o trabalho de estudantes em agências de mercado. Pesquisa de mercado, graças a sua capacidade de conhecimento analítico (ENTREVISTADO A, tradução nossa)[13].
Nossos graduados se candidatam ao governo autônomo do município, agências de pesquisa comercial, mídia, etc. Eles usam principalmente habilidades de processamento de dados. Eles são especialmente valorizados por serem capazes de combinar uma visão qualitativa dos problemas sociais com o uso de dados quantitativos e sua análise. [...] É relativamente fácil encontrar empregos, por exemplo, em agências de pesquisa comercial (ENTREVISTADO B, tradução nossa)[14].
[Ao ser perguntado sobre as mudanças no mercado de trabalho] Isso muda, alguns estudantes que estavam envolvidos na etnografia de bancos agora estão trabalhando em agências de marketing, [fazendo] etnografia de produtos (ENTREVISTADO C, tradução nossa)[15].
Observa-se ainda que, apesar de terem vivenciado processos formativos distintos, os respectivos professores confluem na avaliação que realizam acerca da atual inserção dos egressos do curso de Sociologia da UHK no mercado de trabalho. Notadamente, essa avaliação reflete, por um lado, a situação específica em termos de mercado de trabalho da República Tcheca nesse momento, marcado por baixas taxas de desemprego. Por outro, revela o tipo de formação específica que é oferecida nesse curso e que está em alta consonância com o que o mercado de trabalho está demandando dos sociólogos atualmente.
A respeito disso, é pertinente destacar uma frase da entrevista C. Ao falar sobre seus interesses e o tema de seu Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação, o entrevistado disse a seguinte sentença: “Eu estava mais atraído em etnografia, então eu não sou um desses “sociólogos qualitativos padrões” [risos]” (tradução nossa)[16]. Ao colocar os “sociólogos quantitativos” como o normativo, uma hierarquia é formada, o que revela como, ao menos atualmente, sociólogos que trabalham com dados quantitativos e pesquisa com big data são mais valorizados em seu ponto de vista. Cabe também afirmar que, ainda que o método etnográfico esteja mais comumente ligado ao campo da antropologia, é possível inferir que há sempre certo diálogo entre as Ciências Sociais.
Logo, o currículo analisado na seção anterior, juntamente à representação coletiva dos professores de Sociologia da UHK acerca do mercado de trabalho da área, converge para um laudo dos sentidos que os sociólogos assumem na atual sociedade tcheca, assim como seu status. Com um curso caracterizado por sua função instrumentalista e técnica, os egressos de Sociologia da UHK, e de maneira mais geral no contexto tcheco, atuam principalmente em corporações e empresas privadas. Nesse sentido, são pertinentes as colocações de Pinto (2013, p. 31) acerca da aplicação da Sociologia, e das Ciências Sociais em geral, nesses âmbitos:
A Ciência Social é vista, nestes espaços, enquanto uma tecnologia, que ora avalia os impactos que irão causar os grandes projetos e ora é chamada a gerenciar os conflitos resultantes desses impactos. Configura-se um processo pelo qual a ciência social é compreendida como elemento integrante da cadeia produtiva de valor nessas empresas ao ser chamada a promover a estabilização política do território em que a empresa está situada.
Aqui, podemos, também, recuperar o que já foi escrito sobre o desenvolvimento do ensino superior e da Sociologia no contexto da República Tcheca, pensando que o cenário atual é um inevitável reflexo de sua história. Masaryk iniciou o processo de institucionalização da Sociologia, pensando nela como uma filosofia prática, ou seja, uma ciência que servisse ao público. Em termos de Burawoy (2005), a Sociologia tcheca emerge e se desenvolve como uma Sociologia Pública. Além disso, a história da constituição do ensino superior e da Sociologia acadêmica nacional é marcada por rupturas, controle e heteronomia, o que, consequentemente, determinou como as carreiras acadêmicas não possuem o mesmo prestígio que outras profissões.
Ainda que não tenha sido nosso objetivo aprofundar essa questão, deve-se considerar uma questão bastante objetiva com relação à estruturação do campo acadêmico tcheco: as universidades são formadas por pequenos departamentos, com poucos professores contratados em regime de dedicação integral. Aparentemente, a inserção profissional por meio de um perfil mais “técnico”, atuando como sociólogo profissional, e não como acadêmico, parece ser uma opção de inserção profissional objetivamente mais evidente para os egressos do curso de Sociologia da UHK, o que também reflete uma tendência mais global de diversificação da inserção profissional de sociólogos (BLOIS, OLIVEIRA, 2019).
Pode-se inferir que esse é um fenômeno global no campo da Sociologia, mas o que é relevante neste artigo é como esse fenômeno global assume certas características de acordo com o contexto local. Ainda que haja certa perda de prestígio acadêmico, a inserção de sociólogos em outros campos pode ser vista como uma legitimação dessa ciência por um público mais vasto. Nesse sentido, pode-se afirmar que, no contexto da UHK, essa inserção é um tipo de Sociologia Pública que torna possível o diálogo entre a disciplina e a sociedade tcheca.
Considerações finais
Ainda que não seja a intenção deste trabalho, pois fugiria de seu foco e escopo, é inevitável trazermos elementos comparativos com a realidade latino-americana e, mais especificamente, com a realidade brasileira. Ainda que possamos perceber que, em alguns casos, como na Argentina, encontramos um relativo sucesso de inserção profissional de sociólogos no mercado de trabalho, observa-se que as hierarquias acadêmicas persistem (BLOIS, 2018), de modo que continua-se a valorizar de forma mais efetiva a trajetória via pós-graduação e reprodução do corpus universitário.
No caso brasileiro, a regulamentação da profissão de sociólogo data dos anos de 1980, porém, a carreira acadêmica persiste mais prestigiosa, o que também se relaciona ao robusto sistema de Pós-graduação no país, que se consolidou com a Reforma Universitária de 1968. Atualmente, há, no Brasil, mais de 50 programas de Pós-graduação em sociologia/Ciências Sociais, que são distribuídos por todas as regiões do país. Também é relevante destacar que, no Brasil, os(as) estudantes podem escolher entre dois tipos diferentes de grau, o bacharelado ou a licenciatura em Ciências Sociais, e somente aqueles que possuem o grau de bacharelado são legalmente considerados sociólogos.
A formação acadêmica em Sociologia na República Tcheca, apesar das descontinuidades vivenciadas, parece ter encontrado um caminho por meio da sólida formação metodológica, distanciando-se de uma tradição mais teórica, como encontramos de forma recorrente no caso dos países latino-americanos. Isso se conectaria com o tipo de legitimação que a Sociologia tem em cada país, entrando na esfera pública, por meio do mercado de trabalho, como um campo relevante para os sociólogos tchecos. Esse conceito, como se pode perceber pelas entrevistas, tem sido desenvolvido nos últimos anos e está mais presente nas gerações mais novas.
Podemos inferir que talvez haja diferenças entre a Sociologia produzida na periferia da República Tcheca daquela produzida em regiões mais centrais, como na Universidade de Charles, em Praga, nas quais há possibilidade mais efetivas de continuação das formação acadêmica e sua posterior inserção profissional por meio do ensino superior (Mestrado e Doutorado). No contexto contemporâneo, não se pode ignorar a inserção do alunato tcheco em um sistema educacional mais amplo formado pela União Europeia, o que significa que a UHK é uma periferia dentro de outra periferia. Com isso, queremos reconhecer que a Sociologia produzida no Sul Global, e em suas periferias internas, encontra um caminho próprio de desenvolvimento que, por vezes, dista daquele existente em países e em regiões centrais, tradicionalmente atrelados à formação estritamente acadêmica.
À guisa de conclusão, ainda que sejam apresentados aqui apenas dados iniciais de uma pesquisa ainda não finalizada, acreditamos que esses dados nos ajudam a visibilizar a pluralidade de histórias, formação e atuação profissional da Sociologia no contexto do Sul Global, compreendendo a miríade de opções abertas àqueles que desejarem seguir uma carreira na Sociologia no século XXI.
Referências
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Notas
“The other kind of narrative understands the Soviet period not as a meaningful alternative, but as a deviation from the desirable way of doing sociology. It is often invoked that the Soviet-type regimes could not stand true knowledge of the social, and therefore persecuted sociology. Much of the allegedly sociological official production was just an ideological bluff. Only the events of 1989-1990 would cancel this unnatural state, allowing sociology to flourish again. Again, there are good reasons not to discard such an account. Marxism had been imposed by force in Soviet Europe, its possible competitors – including the prewar sociology – being eliminated. Even some Marxist sociologists were prosecuted by the communist regimes. Once communism had crumbled in 1989-1990, the local sociologists eagerly adopted western scholarship; the Marxist paradigm has hardly ever been referred to any more. Many of the pre-1989 writings can be interpreted as a distanciation from the regime: e.g., the «critical» interest in western sociology might be interpreted as a declaration of proximity and not of estrangement” (VOŘÍŠŠEK, 2008, p. 86, grifos do autor).