Artigo

Tirano, louco e incendiário: BolsoNero. Análise da constituição da assimilação entre o Presidente da República do Brasil e o Imperador Romano como allelopoiesis

Tyrant, madman and arsonist: BolsoNero. Analysis of the constitution of assimilation between the President of the Republic of Brazil and the Roman Emperor as allelopoiesis

Fabio Faversani
Universidade Federal de Ouro Preto, Brasil

Tirano, louco e incendiário: BolsoNero. Análise da constituição da assimilação entre o Presidente da República do Brasil e o Imperador Romano como allelopoiesis

História da Historiografia, vol. 13, núm. 33, pp. 375-395, 2021

Brazilian Society for History and Theory of Historiography (SBTHH)

Recepção: 23 Dezembro 2019

Aprovação: 01 Março 2020

RESUMO: O imperador Nero foi se constituindo, ao longo de séculos e com o uso de múltiplas linguagens produzidas por diversas culturas, num símbolo bastante universalizado de tirania. Associado, sobretudo, com a loucura e a destruição, serviu para a crítica dos mais diversos governantes que o seguiram e cometeram crimes que pudessem, de algum modo, ser ligados àqueles que foram atribuídos a Nero. Tais aproximações, muito variadas ao longo do tempo e espaço, permitiram a constituição de um amplo e multifacetado repertório de Neros produzidos na política, na literatura, no cinema, na música etc. Esse repertório gerou uma tradição composta da associação do Nero “original” com os diversos personagens e contextos dos “novos” Neros. Essa tradição permitiu ao mesmo tempo uma nova interpretação do passado e uma leitura original do presente. Nesse sentido, há uma construção recíproca e simultânea do(s) passado(s) e do presente, gerando o processo de allelopoiesis, produzindo Neros que não pertencem exclusivamente ao(s) passados ou ao presente, mas mesclam e confundem inextricavelmente essas temporalidades em diferentes sínteses que se comunicam através de uma tradição com a forma de repertório a ser reapropriado e modificado. Esse artigo tem por foco o caso do Presidente da República do Brasil, Jair Bolsonaro, apelidado de BolsoNero.

PALAVRAS-CHAVE: Nero, Bolsonaro, usos da história.

ABSTRACT: Over the centuries and with the use of multiple languages produced by various cultures, Emperor Nero became quite the universal symbol of tyranny. Mainly associated with madness and destruction, remembering Nero has served to criticize various rulers who lived after him and committed crimes that could somehow be linked to those attributed to Nero. Such approaches varied a lot over time and space and allowed the constitution of a broad and multifaceted repertoire of Neros produced in politics, literature, cinema, music, etc. This repertoire fostered a tradition composed of the association of the “original” Nero with the various characters and contexts of the “new” Neros. This tradition allowed both a new interpretation of the past and an original reading of the present. Thus, there is a reciprocal and simultaneous construction of the past(s) and the present, generating an allelopoiesis process, producing Neros that do not belong exclusively to the past or the present, but inextricably merge and confuse these temporalities. This process originated different syntheses that communicate ideas through a tradition in the form of repertoire to be appropriated and modified multiple times. This article focuses on the case of the President of the Republic of Brazil, Jair Bolsonaro, nicknamed BolsoNero.

KEYWORDS: Nero, Bolsonaro, uses of history.

Introdução

A ligação entre Nero e Bolsonaro que analisaremos nesse artigo não se fez de forma direta e pressupõe a vinculação entre esse Imperador Romano e uma tradição multissecular e transcultural que começa a se constituir após sua morte, especialmente com os imperadores Flávios. Um bom marco inicial é a tragédia togata Octavia, muito provavelmente escrita já no início do governo de Vespasiano (69-79). 1 Um momento importante na construção da imagem de Nero como tirano exemplar se estabelece com a biografia escrita por Suetônio no início do século II d. C., assim como os livros neronianos (XIII a XVI) nos Anais, de Tácito, escritos mais ou menos pela mesma época, que será complementada pela contribuição de Dião Cássio, cerca de um século depois, mas transmitida por epitomadores dos livros neronianos (XLI-LXIII) dos séculos XI e XII. 2 Desde a morte de Nero e ao longo de gerações, foi se reforçando uma imagem desse imperador como tirano, que exerceu o poder de forma desmedida, a ponto de matar sua própria mãe ou colocar fogo em Roma. As tradições judaicas e cristãs também tiveram um peso fundamental na construção de uma tradição negativa para a imagem de Nero. Foi sob Nero que teve início a guerra que levaria à destruição do Templo e à diáspora. Já no século I, os Oráculos Sibilinos retratam Nero como o imperador que deixou Roma e se uniu aos Partos, prevendo que ele voltaria dali à frente de dezenas de milhares de homens para destruir Roma e o mundo (4, 119-124; 4, 138-139; 5, 137-152; 5, 362-385). Na tradição judaica, logo após a destruição do Templo e o saque de Jerusalém por Tito, Nero é associado com um apocalipse militar, mesmo que ele nunca tenha se ligado em vida às atividades militares. Ele era, inclusive, criticado por não se importar com o comando dos exércitos. Isso não importa muito para as tradições que foram sendo criadas na composição de diferentes contextos com referência a Nero. Ele não era um comandante militar, mas fazia monstruosidades. Monstruosidades são cometidas frequentemente com força militar. Então, ele se torna um comandante militar sem nunca ter sido. Nero, assim, não é um legado que nos é dado pelo passado nem é um personagem construído livremente pelas demandas do presente. Ele mescla e recompõe passado e presente através de uma tradição que estabelece limites para o uso do passado e, por várias reinterpretações, constrói um repertório. A tradição cristã também lhe foi manifestamente desfavorável por Nero ter incriminado os seguidores de Cristo como os culpados pelo incêndio de Roma. Nero é acusado de ser o primeiro grande perseguidor de cristãos e um antiCristo. 3

Assim, a imagem do Nero histriônico, incendiário e louco, capaz de atos abomináveis como o matricídio ou o incêndio de Roma, começou a ser criada na Antiguidade, mas foi sendo retomada por gerações, quer através de representações artísticas (que foram passando pela literatura e artes plásticas, música e ópera e chegando ao cinema e os quadrinhos, mais modernamente 9), quer através do debate político e da produção de materiais tão diversos como panfletos ou cartazes e textos da imprensa em suas diferentes modalidades. Essas reaproximações com Nero geração após geração fazem dele íntimo de um público amplo que pode reconhecê-lo facilmente quando exposto em sua individualidade ou quando associado a outros personagens. 10 Nas imagens, basta colocar alguém em vestimentas que lembrem vagamente a toga romana com uma lira em suas mãos e fogo a sua volta que imediatamente o público reconhecerá o Nero original ou, mudadas as feições ou feita menção também a algum fato recente ligado aos muitos governantes que foram acusados de tiranos, ególatras ou destruidores, e se reconhecerá prontamente mais um desses muitos novos Neros. Nesse artigo, analisamos apenas mais uma dessas associações que não deve ser entendida isoladamente, mas como parte de uma longa tradição.

Nero no Brasil: dois exemplos

Essas aproximações entre Nero e a nossa realidade cotidiana podem ser feitas através de personagens com poder, ou simplesmente como retomadas do Nero da Antiguidade. Darei dois exemplos dentro do ambiente brasileiro como mostra dessa amplitude. O primeiro deles vem de um dos maiores clássicos de nossa literatura, o brilhante Dom Casmurro, de Machado de Assis. A casa de Bento Santiago, protagonista e narrador do romance, tinha a figura de Nero decorando sua sala, que replicava o que se tinha na casa anterior, em MataCavalos. Ele nos diz no capítulo 2:

Na principal destas [salas], a pintura do tecto e das paredes é mais ou menos igual, umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos bicos, de espaço a espaço. Nos quatro cantos do tecto as figuras das estações, e ao centro das paredes os medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo... Não alcanço a razão de tais personagens. ( ASSIS 2004, p. 810).

Os nomes por baixo asseguram que sejam identificadas as personagens, sem que seja necessária outra ajuda, uma vez que a qualidade técnica da execução e a distância do observador para a pintura (quer física, quer intelectual) poderiam dar lugar a alguma confusão. 11 Ainda que indique não atinar para a razão, no mesmo capítulo 2 o Casmurro faz nova menção a essas figuras, esclarecendo uma das razões pelas quais elas estavam ali. O personagem decidiu que escreveria um livro. Cogita várias matérias e gêneros, mas se afasta deles porque lhe parece que todos dariam muito trabalho. Então, chega a uma resolução:

Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus comentários, agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. ( ASSIS 2004, p. 811).

César ali está, a par dos demais, como modelo de conduta a ser imitada (ou evitada), como exemplum. E como é próprio dos exempla desde a Antiguidade, eles não são modelos prescritivos, mas estão abertos à interpretação e são repensados a partir daquele que os toma e do contexto em que os toma. 12 Assim, César, que escreveu os Comentarii sobre as Guerras Civis e sobre as Guerras Gálicas, é tomado pelo nosso Bento Santiago como autor a ser emulado. Os antigos foram transmitidos para diferentes sociedades ao longo dos séculos como modelos a serem imitados (ou evitados) e, desde a Antiguidade, isso foi gerando um repertório e tradições interpretativas associados a eles. 13 No caso da imitação de César pretendida por Bento, o autor antigo, um grande gênio literário, transforma-se em modelo acabado de autor que pouco se esforça para compor sua obra, um autor modelo para os preguiçosos. Nero não lhe servia, pois se tornou conhecido pelo seu grande esforço e dedicação à arte, indecoroso para um governante. Nero era um mau modelo, mas Bento Santiago necessitava de outro do repertório clássico. Há limites para o uso do passado. O uso do passado transforma o passado, gerando um novo César que se liga com a tradição já construída e a modifica a cada nova apropriação que se faça. Mas, ao mesmo tempo, delimita e qualifica as interpretações que se possa ter do tempo presente, que não se faz senão a partir desse mesmo passado retomado, que dá elementos para compreender e comunicar essa compreensão do presente para os seus contemporâneos. 14

O outro exemplo, mais breve para a felicidade do(a) leitor(a), retiro de uma música que fez grande sucesso em todo Brasil: a Dança da Manivela. Esse hit da banda Ásia de Águia continuou sendo cantado em muitos carnavais e bailes, além de ser executada extensamente em rádios depois de seu lançamento em 1997, recebendo versões diferentes em regravações. A música original trazia uma introdução com a sonoridade que remetia a temas militares romanos do cinema e o intérprete Durval Lelys declamava um texto inicial que dizia: “Deus criou Roma, Roma criou Nero e Nero criou a Dança da Manivela.” A canção começa, portanto, colocando em linha de continuidade o início dos tempos, a Criação, e o tempo presente, através de Nero. O Imperador Romano é usado aqui como símbolo de um tempo passado elevado e festivo, que liga a Criação, Roma e o Carnaval da Bahia. Nero, por tantas e tortuosas vias, vai sendo retomado e sendo feito presente geração após geração nos mais diferentes registros e modalidades. Nero não é associado apenas àquilo que ele fez, mas a muitas e infinitas coisas que “alguém como Nero” seria capaz de fazer. Nesse sentido, parece verossímil que o louco e festeiro Nero poderia ter criado a “Dança da manivela”. Isso faz com que Nero seja um personagem da Antiguidade e um tipo “multitemporal”.

Qualquer um que faça algo que, aos olhos de um grande público, seja próprio de Nero se torna um. Não é preciso repetir algo que Nero tenha feito efetivamente. Basta fazer algo que Nero poderia ter feito. Assim, cada novo Nero vai realizando novas ações que se acrescentam ao repertório ligado a esse Nero, mescla de todos os tempos. Por esse modo, o grande público reconhece e reinterpreta esse novo Nero, que se faz presente e múltiplo a cada nova apropriação que amplia e fortalece o repertório ao qual ele está associado. Estudar Nero é, assim, poder compreender em mais profundidade não apenas o passado romano, mas também as várias sociedades que se apropriaram, reinterpretaram e transformaram a tradição e o repertório associado a Nero. Nesse sentido, Nero faz parte do que alguns chamam de “nossa História” tanto quanto algum Presidente da República Velha, ou até mais, por mais retomado e mais presente na vida das pessoas. A “nossa história”, assim, pode ser entendida de uma forma estanque e paroquial, afastada do cotidiano real das pessoas, como o conjunto de eventos ocorridos em território nacional (arbitrariamente imaginado) que precisam ser lembrados de forma desencarnada, ou, como os historiadores da antiguidade têm defendido em debates recentes, como uma história viva e conectada com as múltiplas e amplas relações que as pessoas hoje constroem entre passado(s) e presente, e que permitem às pessoas pensar a “nossa história” como parte de uma história global, que nos permita refletir sobre a nossa inserção no mundo e nas diferentes temporalidades envolvidas nos processos de integração que compomos e dos quais somos compostos. 15

A (lenta e multilinear) criação do BolsoNero

A presença de Nero passou a ser evocada mais uma vez no cenário brasileiro recente, após a posse de Jair Bolsonaro como Presidente da República no Brasil. Uma das chaves para essa aproximação é a associação entre os nomes dos personagens, que produziu uma mescla de Bolsonaro com Nero: o BolsoNero. A primeira menção pública a essa associação entre Nero e Bolsonaro com grande repercussão que pudemos localizar foi feita pelo ex-Presidente Luis Inácio Lula da Silva em entrevista dada para a revista alemã Der Spiegel e publicada em 24 de maio de 2019. A associação Bolsonaro-Nero deu título à matéria que trazia a entrevista: “Bolsonaro gleicht Nero: Er setzt das ganze Land in Brand”. 16 A entrevista foi repercutida por vários veículos no Brasil, traduzida para o português e publicada no site lula.com.br. 17 O título das matérias aqui no Brasil seguiram repetindo a publicação original: “Bolsonaro é como Nero: ele incendeia o país inteiro”. Nos vários veículos que publicaram ou repercutiram a entrevista, foram numerosos os comentários do público, mostrando afinidade com a comparação ou opinando que ela seria mais adequada para os governos do PT. De todo modo, a tecla era sempre a mesma: seja com Bolsonaro, seja com o PT, temos uma tirania que destruiu o Brasil, temos Nero entre nós, inclusive incendiando-o com greves e distúrbios, no caso dos que acusavam o PT. Cada leitor se apegava a uma forma de redesenhar Nero que melhor se ajustasse a suas convicções políticas para atacar seu adversário. Nero se fazia instrumento para compreender o presente e o presente se fazia um mecanismo para compreender quem foi esse Nero do passado. O Nero do passado é monstruoso sempre (como os seus espelhos no presente), mas são ambos diversos, conforme as leituras do presente e do passado esgrimidas pelos intérpretes. O aspecto da adulação, que faria o governante crer que é aquilo que manifestamente não é, gerando o ridículo dos egos inflados, por exemplo, foi decalcado no Bolsonaro que é sempre recebido com o grito de “mito, mito, mito”, mas não no PT. O PT colocou fogo no país, é desonesto e queria se perpetuar no poder, nessa aproximação com Nero. Nesse sentido, a relação entre passado e presente não se dá pelo mero uso deste pelos contemporâneos para desenhar livremente o passado e tanto menos como legado que nos chega e determina o que somos pelo que fomos. Há uma relação de mútua construção entre passado e presente nessas construções dos Neros, com ênfases diversas, lembranças, esquecimentos e acréscimos, através de um processo que cremos ser melhor compreendido como sendo uma construção mútua desses Neros que pertencem ao(s) passado(s) e ao presente como allelopoiesis. 18

Em uma das representações do BolsoNero, publicada para ilustrar a matéria do blog “Conversa afiada”, há uma releitura do cartaz do filme Quo Vadis (1951), com a substituição das feições de Nero pelas de Bolsonaro e com a inserção de uma colunada nas laterais. Infelizmente, não é dado crédito para a autoria da ilustração. A matéria dá destaque à destruição da empreiteira Odebrecht e repercute a entrevista de Lula. Na entrevista, contudo, Lula não faz esse elo entre a destruição da Odebrecht e Bolsonaro - Nero. O destaque em subtítulo é dado pelo autor da matéria, Paulo Henrique Amorim. Mesmo que por vias tortas, em uma nova recomposição, a noção de destruição da Odebrecht é colada à imagem de Nero. A destruição, independente do agente moderno, remete a Nero. 19 No mecanismo já apresentado para a “Dança da manivela”, temos que Nero é quem é capaz de destruir a grande empreiteira Odebrecht para satisfação de sua loucura. Quem destruiu a Odebrecht nessa leitura proposta pelo jornalista foi a força-tarefa da operação Lava-Jato e o juiz Sérgio Moro. Mas o monstro que surge dessa ruína é Bolsonaro, que se torna o destruidor por sua associação a ela.


Contudo, antes dessa entrevista de Lula, já no início do governo de Bolsonaro, Nani publicou uma charge associando o Presidente da República, que tinha assumido o mandato há cerca de um mês e meio, ao Imperador Romano. A caracterização é mínima, com símbolos usuais: a toga romana, a coroa de louros que remete ao poder dos Césares, a lira que o vincula à música e à loucura que o levou a destruir Roma, representada por sua vez pelo fogo que domina toda a cena. No alto, a mescla de nomes do Presidente e do Imperador faz indicar que Bolsonero é um louco que tudo destruirá. Como em

Machado, a legenda garante a identificação. Nesse momento inicial, a associação se dá sobretudo por duas razões. Uma delas é a crítica ao governo de uma pessoa manifestamente despreparada para o governo da República, bem representada pela sua assumida ignorância completa dos temas econômicos, que gerou o apelido de “Posto Ipiranga” para o futuro Ministro da Fazenda, Paulo Guedes, ainda na campanha. 20 Outra razão para a aproximação entre Bolsonaro e Nero já nesse início é a remissão à tirania e à violência, uma vez que o Presidente da República sempre adotou uma postura negacionista dos crimes da Ditadura Militar 21 e afirmava total desprezo pela democracia, afirmando, inclusive, que não era possível governar nesse regime. 22


Um semestre depois, a charge é publicada no blog de Reinaldo Azevedo que designa que o Presidente e “Sergius Morus” teriam, como lenha do incêndio, os órgãos de Estado. 23 Com o avanço do governo, os críticos de Bolsonaro vão ter cada vez mais elementos para associar o Presidente à destruição. A destruição da estrutura e da organização do Estado, de investigações contra pessoas próximas a ele, de direitos, de seu próprio Partido - o PSL - da liberdade de ensinar e aprender - e mais particularmente das Ciências Humanas, as destruições se sucedem em ritmo acelerado, como em um grande incêndio.

Nessa linha de associação, podemos citar como bom exemplo a entrevista dada pelo jurista Miguel Reale Júnior para a Rádio Guaíba. O entrevistado foi Ministro da Justiça no governo Fernando Henrique Cardoso e também um dos autores do pedido de impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff. Após afirmar que o caso de Bolsonaro seria de interdição, e não de impeachment, aludindo à loucura do Presidente, ele avança mais na sua avaliação ligando-o ao Fascismo e à queima. O argumento está pronto para unir Bolsonaro a Nero. É esse passo que ele dá ao dizer que: “Isso é fascismo cultural. O que não estiver de acordo, com sua rasa compreensão, tem que ser queimado por isso que eu digo, ele é um ‘Bolsonero’.” 24 Louco, “fascista” e “incendiário”, ainda que seja uma queima abstrata, é Nero. O anacronismo de ligar Nero ao Fascismo não é um problema. Pelo contrário, pelo processo de alellopoiesis, essas temporalidades se mesclam e uma é explicada e construída pela outra. Torná-las indistintas as torna mais fortes, pois já conhecidas e familiares com as diferentes formas de Nero, que deve ser, portanto, fortemente rejeitado em sua expressão particular por via do silogismo: Nero é ruim, o que é ruim deve ser rejeitado, logo quem atua como Nero deve ser rejeitado.

BolsoNero Amazônico

Contudo, a destruição mais marcante - e que gerou uma forte associação entre Nero e Bolsonaro - foram os incêndios na Amazônia. Incapacidade para governar, perseguição (bem representada pelos ataques ao INPE - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, especialmente ao seu presidente) 25, postura fortemente autoritária frente à imprensa (acusada de criar o problema) 26, portando-se como um louco ao fazer declarações desconexas com a realidade e com sua posição de Presidente da República 27 e enlouquecido pelos aduladores gritando “mito, mito, mito” e, acima de tudo, associado às imagens de fogo, muito fogo dos enormes incêndios da floresta, impulsionaram fortemente os ataques a Bolsonaro em associação com Nero. Até mesmo a tentativa de Bolsonaro de culpar as ONGs ou o ator Leonardo de Caprio pelos incêndios gerou uma aproximação fácil com Nero, acusando falsamente os cristãos pelo incêndio de Roma e os perseguindo injustamente. 28 Todos esses fatores somados colocaram “BolsoNero” de vez na pauta.

Um bom exemplo dessa associação que foi feita massivamente é a matéria de capa da revista Isto É, em sua edição 2592 de 30 de agosto de 2019. A preocupação era não só com o incêndio da Amazônia, mas também com a reputação nacional que teria sido totalmente “queimada” pelo Presidente da República com suas declarações desastrosas, bem exemplificadas na grosseria cometida contra a Primeira-Dama da França naquela mesma semana. 29 A matéria de capa tinha como manchete “Bolsonaro queima o Brasil para o mundo”, associando os incêndios na Amazônia e a perda de reputação internacional como elementos para a piora da economia. Essa edição traz um editorial intitulado “O abominável Bolsonaro das queimadas”, em alusão à monstruosidade, e, nas entrevistas dessa edição, temos o ator Pedro Cardoso, que trata do “fascismo brasileiro”, e Fernando Henrique Cardoso, que ressalta a incompetência de Bolsonaro para tratar com a crise ambiental, além de dizer que o regime adotado se aproxima de uma “monarquia”, por conta de ser o governo de uma família (em alusão ao poder de mando dos filhos do Presidente), e, por fim, acusa o mandatário de se afastar totalmente do decoro exigido para sua posição. Bolsonaro e Nero se unem em um mosaico de loucura, monstruosidade, “fascismo”, “monarquia”, incêndios (aquele concreto da Amazônia e tantos outros metafóricos, como o de nossa reputação internacional) e problemas econômicos derivados destes: vemos BolsoNero de imediato e ele ilustra a capa da revista. A qualidade das aproximações, no sentido de sua precisão frente ao que se tem na documentação antiga ou no uso dos conceitos não é, como usual, uma fragilidade desse processo de construção que, por ter pouco rigor, permite ao público ver vários elementos que compõem um quadro que “vem de longe” e, por isso, se torna mais verossímil. A mistura de temporalidades atua como uma forma de lançar luz a esses passados, relidos pelo presente, e, ao mesmo tempo, gerar uma nova compreensão do presente. Os diversos tempos envolvidos na revista geram um processo de alellopoiesis. No caso da revista Isto É, como usualmente ocorre na imprensa brasileira, a falta de um mínimo de erudição produz confusões interessantes. O instrumento que normalmente é associado com Nero, a lira, é trocada no texto e legenda da matéria de capa pela harpa. Aparentemente, a harpa pareceu mais familiar, ainda que tenha diferenças nada desprezíveis com a lira. O jornalista preferiu retirar a lira e temos um novo Nero, tocador de harpa para acompanhar poesia épica. Inédito, sem muito sentido, mas acaba ampliando e fortalecendo o repertório, gerando uma nova forma de aproximar Nero do público. A ilustração da capa traz, contudo, uma lira. Não importa. Algumas associações poderão ser incorporadas à tradição e outras, por esdrúxula como Nero tocando harpa, serão esquecidas. Talvez o jornalista não saiba diferenciar os dois instrumentos. Possivelmente, uma parte dos leitores da revista também não. Multiplicam-se os Neros com base no que as pessoas sabem e também no que elas ignoram. Alguns vão se manter; outros desaparecerão. A tradição os liga, mas o repertório não é fixo.


Após o ápice do uso do termo BolsoNero com os incêndios da Amazônia, temos um retorno ao uso esporádico. O termo passa a ser mais usado com a entrevista de Lula a Der Spiegel, como se pode notar nesse gráfico do Google Trends 30. O pico de interesse, contudo, vem na época em que fica claro pelos dados do INPE que os incêndios na Amazônia atingem patamares muito elevados com várias retomadas menores a seguir:


Um desses retornos ao uso de BolsoNero apareceu quando finalizamos a última revisão do artigo para publicação. Com a eclosão da pandemia de coronavírus, Bolsonaro adota uma postura negacionista e manifesta sua pouca preocupação com a possibilidade de haver a perda de vidas no Brasil. O seu descolamento com a realidade que se apresentava com grande gravidade em diferentes partes do mundo e o desprezo pelas vidas, especialmente dos mais velhos, fez as menções a BolsoNero serem retomadas com mais força. Um exemplo importante desse momento é representado pela matéria da tradicional revista The economist, de 26 de março de 2020. O título da reportagem era “BolsoNero - Brazil’s president fiddles as a pandemic looms.” 31

Conclusões

A construção das diferentes noções de um BolsoNero tem servido às disputas políticas do presente com base na releitura que se faz do presente e do passado, articulando reflexões que têm por base a conjuntura com aquelas mais estruturais, dadas por uma pretensa visão de longa duração que permite a retomada da imagem de Nero. Nero serve para iluminar o debate particular com uma reflexão universal sobre o que é capaz de fazer um governante louco, ignorante e arrogante, com o ego inflado pela adulação de apoiadores inconsequentes. Nesse contexto brasileiro do governo Bolsonaro, o Nero original fica associado, sobretudo, à ideia de um governo autoritário e que se sustenta pela perseguição de seus opositores e aos incêndios, quer seja ele muito concreto na Amazônia quer seja metafórico, referindo-se a tudo que se alegue estar sendo destruído por esse governo. BolsoNero, como tentamos demonstrar, representa sínteses que reúnem diversas temporalidades em um processo de allelopoiesis. Há uma construção recíproca e simultânea do(s) passado(s) e do presente, gerando o processo que chamamos de allelopoiesis, produzindo Neros que não pertencem exclusivamente ao(s) passados ou ao presente, mas mesclam e confundem inextricavelmente essas temporalidades em diferentes sínteses que se comunicam através de uma tradição com a forma de repertório a ser reapropriado e modificado.

Não se trata, portanto, apenas de um uso do passado. BolsoNero é claramente relido e recriado de forma a se separar do passado. Fica claro que traços constituintes fundamentais do personagem são novos e originais. Mesmo assim, sua compreensão só pode se dar em uma perspectiva de duração mais longa, em que Nero cumpre um papel não como legado que recebemos, mas como elemento que ocupa as diversas temporalidades da história humana. Nero representa um tipo de governante que as reinterpretações ao longo do tempo fazem ser novo e antigo, ao se basear em uma tradição que vem desde a Antiguidade, mas sem se limitar a ela, e ganha força entre um público amplo por se construir com base em um repertório de muitos Neros criados pela história. Isso faz com que ele seja um velho conhecido de todos, mesmo que tenha menos relação com o Nero que viveu no século I d.C. do que com aqueles que o sucederam como novos Neros com crimes sempre novos, cometidos não por Nero, mas por alguém que é como Nero 32. Neros são muitos, são pouco ou nada ajustáveis ao que a documentação nos traz e prometem ainda serem muitos... Enquanto houver tiranos, incendiários, ególatras, assassinos no poder, Nero estará entre nós. Seja lá quem ele for, será lembrado por lutadores e lutadoras contra as tiranias e destruição dos patrimônios que pertencem à humanidade em seus mais diferentes formatos. O uso de Nero permite colocar as lutas locais em uma esfera universal e transgeracional contra a tirania e a opressão. Estudar e compreender essa luta será sempre superficial, se não impossível, em uma perspectiva paroquial e de curta duração. É o que devemos evitar, caso queiramos que a História tenha valor para a sociedade.

REFERÊNCIAS

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WINTERLING, Aloys. “Loucura imperial na Roma Antiga”. História. Franca: Unesp, v. 31. n. 1, jan. jun. 2012.

Notas

1 Miriam Griffin afirma que a peça estabelece Nero como “the proverbial tyrant, robbed of any personal characteristics, a mere incarnation of the will to evil, unaffected by advice or influence.” ( GRIFFIN 1984, p. 100). Para uma apresentação da obra e texto com comentários e notas, cf. FERRI 2003.
2 Champlin afirma, com razão, que “Cerca de vinte e cinco autores antigos, não cristãos, tem algo de valor a dizer sobre Nero, mas o grosso da imagem que temos vem de apenas três deles: os historiadores Tácito e Dião Cássio e o biógrafo Suetônio”. ( CHAMPLIN 2003, p. 37).

Nero foi transmitido para a posteridade como um dos imperadores loucos (a par de Calígula, Domiciano, Cômodo e Heliogabalo, entre outros), mas com características específicas. 4 Além de incendiário e matricida, também era um artista sem talento, que era reconhecido apenas em função da adulação daqueles que queriam se beneficiar dos favores do poder. 5 A representação imagética de Nero se dará repetidamente com o Imperador empunhando a lira e tendo fogo ao fundo. 6 Diversos governantes ou, de forma mais geral, pessoas que detenham muito poder que se sucederam no tempo foram sendo associados com os defeitos de Nero e, assim, sendo criticados como novos Neros. Sempre que, por alguma razão, opositores puderam associar governantes a Nero, fizeram isso como uma maneira de desqualificá-los de forma irremediável. Os motivos para gerar essa associação foram muito variados. Um bastante geral e que pode ser empregado a muitos governantes é a acusação de serem vaidosos em demasia e, para piorar, sem muita percepção de que lhe faltam talentos que os aduladores lhe atribuem, produzindo, assim, um governante com o ego demasiadamente inflado. 7 Outra acusação comum que leva a uma associação a Nero é o ataque ao governante por ser responsável pela destruição material ou abstrata de patrimônios ou valores (cabendo a ideia de que esse governante queimou algo literal ou metaforicamente). Por fim, em alguns casos, a lembrança de Nero se dá simplesmente pela associação com a tirania, ou pela combinação desta com algum dos “crimes” de Nero. 8

3 Cf. MAIER 2013, p. 385-404.
5 Muitos dos trabalhos mais recentes têm promovido uma revisão dessa visão do artista-louco e procurado dar um sentido à atividade do imperador nesse campo como sendo de grande importância e alcance. Um exemplo dessa reavaliação pode ser encontrado em Leigh (2017, p. 21-33). Essa perspectiva de reavaliação de Nero é mais geral e bem contextualizada por Miriam Griffin em sua contribuição ( GRIFFIN 2013).
6 Pode se encontrar uma boa coletânea de representações de Nero ao longo do tempo no catálogo da exposição dedicada a esse imperador em Roma em 2011 ( TOMEI; REA 2011).
7 Nos tempos mais recentes, um bom exemplo dessa representação de Nero é o desempenho de Peter Ustinov no clássico filme Quo vadis (1951), que foi a forma de contato com o imperador Nero para um público muito vasto que assistiu ao filme, mas jamais leu Tácito ou Suetônio.
8 Para uma breve apresentação geral do Principado de Nero, cf. JOLY; FAVERSANI 2019, p. 79-95.
9 Para o caso do cinema, no catálogo da exposição “Nerone” citada anteriormente, temos um estudo bastante interessante, inclusive com a listagem da extensa filmografia que tem Nero como protagonista, cf. PUCCI 2011, p. 62-75.
10 Champlin sintetiza bem esse elemento, ao afirmar que: “ele [Nero] foi o único romano que (...) foi uma presença viva por séculos após sua morte, alguém cujo retorno foi aguardado com esperança e com medo.” ( CHAMPLIN 2003. p. 235).
11 Tal representação com os recursos sublinhados por Machado de Assis está em linha com muitas das figurações que nos foram legadas pela Antiguidade, quer no suporte cerâmico quer como elemento de composição arquitetônica doméstica. Para um exemplo particular, serão úteis os diversos estudos realizados por Regina Maria Bustamante sobre os mosaicos norte-africanos, e.g.: http://www.angelfire.com/planet/anpuhes/ regina4.htm.
13 Uma excelente abordagem desse tema para o caso de Machado de Assis pode ser encontrada no filme Um canibal nos trópicos (2019), dirigido por Edson Martins. Cf. https://www.youtube.com/watch?v=xAfdP8_2lOU Acesso em: 22 dez. 2019.
14 Mamede Queiroz Dias analisa esse problema com foco no processo de comunicação, que opera em diversos meios e se reproduz na diacronia e na sincronia, partindo das reflexões teóricas de Niklas Luhmann para o entendimento das sociedades estratificadas. ( DIAS 2019, p. 60-91).
15 Esse debate se tornou particularmente vivo no Brasil por ocasião da exclusão da História Antiga do componente curricular História na primeira proposta da Base Nacional Comum Curricular. Uma vasta e interessante produção surgiu desse debate com não especialistas, defendendo a inclusão da História Antiga por ser “nossa origem” e sua exclusão por não ser “nossa história”. Ambas abordagens, absurdamente superficiais e sem nenhum contato com os rumos da produção concreta e efetiva da área, foram contrapostas por uma produção de especialistas debatendo o lugar da História Antiga no campo do ensino e na nossa cultura histórica de forma mais geral. Um bom exemplo dessa produção pode ser encontrado no dossiê publicado na revista Mare nostrum, v. 8, n. 8, de 2017: http://www.revistas.usp.br/marenostrum/issue/ view/10208 Uma contribuição importante sobre a formação do campo História Antiga na longa duração e as implicações das novas perspectivas ligadas à globalização para a nossa concepção da disciplina pode ser encontrada em Guarinello (2014).
16 https://www.spiegel.de/plus/ lula-da-silva-bolsonaro-gleicht-nero-er-setzt-das-ganze-land-in-brand-a-00000000-0002-0001-0000000164076199. Acesso em: 22 dez. 2019.
18 Allelopoiesis deriva do grego allelon (recíproco) e poiesis (fazer/criar) e foi proposto como uma possibilidade de análise para a compreensão das concepções imperiais produzidas modernamente a partir da leitura das experiências antigas. Cf. HAUSTEINER; HUHNHOLZ; WALTER 2010, p. 15.
20 Cf. https://www1.folha.uol.com.br/ poder/2018/09/ criadores-da-campanha-do-posto-ipiranga-comemoram-apelido-de-guru-de-bolsonaro.shtml. Acesso em: 22 dez. 2019.
21 Para o tema do negacionismo no período anterior à eleição com o foco no combate em torno da Comissão da Verdade, cf. PEREIRA 2015.
22 Cf. https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,familia-bolsonaro-critica-a-democracia-do-brasil-desde-1990-relembre,70003004404. Acesso em: 22 dez. 2019.
23 https://reinaldoazevedo.blogosfera.uol.com.br/2019/08/17/bolsonero-e-sao-sergius-morus-unidos-na-destruicao-de-orgaos-de-estado/. Acesso em: 22 dez. 2019.
27 https://opiniao.estadao.com.br/noticias/notas-e-informacoes,quebrando-loucas,70002747286. Acesso em: 22 dez. 2019.
28 https://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/ geral,bolsonaro-acusa-leonardo-dicaprio-de-pagar-para-tacar-fogo-na-amazonia,70003107321. Acesso em: 22 dez. 2019.
29 https://istoe.com.br/edicao/2592/ Acesso em: 22 dez. 2019.
30 https://trends.google.com/trends/ explore?geo=BR&q=bolsonero. Acesso em: 22 dez. 2019.
31 “BolsoNero - Brazil’s president fiddles as a pandemic looms”. The economist. London. 26th March 2020. https://www.economist.com/the-americas/2020/03/26/ brazils-president-fiddles-as-a-pandemic-looms. Acesso em: 28 mar. 2020. Esse pico não aparece no gráfico acima, gerado na versão inicial do artigo, em dezembro de 2019.
32 Para outra associação que está sendo construída no nosso tempo entre um governante e Nero, contudo com elementos muito diversos, gerando outro Nero bem distinto, podem ser lembradas as alusões a Trump-Nero. Uma rápida busca na internet trará inúmeros exemplos tanto imagéticos quanto textuais desse par. Mas, como toda retomada de Nero, há uma mescla original entre passado (representado pelas muitas imagens de Nero construídas ao longo do tempo e não aquele “original” apenas) e a interpretação, negativa, destaque-se, do contexto presente. Para um exemplo de boa análise dessas associações produzidas já na época da posse, Cf. FREUDENBURG, Kirk. “Donald Trump and Rome’s Mad Emperors” .Common dreams, 29 de abril (2018). Mencionamos aqui, para efeito de exemplificação dessa associação ainda existindo em tempos atuais, o livro que será lançado no ano que vem, mas já em pré-venda, cujo título é American Nero: The History of the Destruction of the Rule of Law, and Why Trump Is the Worst Offender. Cf.: https://www.amazon.com/ American-Nero-Matters-Donald-Trump/ dp/1948836017, acesso em 19 dez. 2020. Os exemplos não se limitam a ambientes políticos conectados de forma reiterada com o “legado” do Império Romano. Esse ó caso, até certo ponto surpreendente, da associação que foi feita por um desertor do regime Norte-Coreano entre Kim Jong Un e... Nero! O fato desse “Nero” ter matado seu meio-irmão, entre outros familiares, e ter destruído obras de outros por ciúmes de seu sucesso ou desconfiar da fidelidade de todos que o cercam e até mesmo se sentir culturalmente deslocado são lembrados para dizer que Kim Jong Un seria um Nero do século XXI. Cf. SHIM 2017.
FINANCIAMENTO

Esse artigo foi escrito como parte do desenvolvimento do projeto “Rome our Home: (Auto)biographical Tradition and the Shaping of Identity(ies) (PTDC/LLT-OUT/28431/2017)”.

Autor notes

NOTA SOBRE O AUTOR

Fabio Faversani

faversani@ufop.edu.br

Universidade Federal de Ouro Preto

Mariana

Minas Gerais

Brasil

ENDEREÇO DE CORRESPONDÊNCIA, Fábio Faversani, Universidade Federal de Ouro Preto, Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Departamento de História, Rua do Seminário, s/n, 35420-000, Mariana - MG - Brasil

Declaração de interesses

CONFLITO DE INTERESSE

Nenhum conflito de interesse declarado.

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